Jorge percebeu o sentido das palavras do pai. Em extremo surpreendido pela inesperada condescendência do homem que ele julgava incapaz de transigir com tais idéias, em vez de deixar-se penetrar da alegria que este sucesso parecia dever inspirar-lhe, disse com mal sustentada serenidade: — Por muito doloroso que seja para mim o sacrifício de que fala, meu pai, talvez seja mais ainda para si o que empreende, querendo dispensar-me dele. Creia, senhor, que eu não discuto a legitimidade das suas opiniões, respeito-as; e a satisfação íntima que me virá da consciência de as ter respeitado, será também para mim uma poderosa compensação.
— E a ela? Quem a compensará? — perguntou D. Luis, com inflexão de dor.
— A ela? É de Berta que fala? se eu não soubesse que aquela alma nobre e forte está à altura do sacrifício, talvez me falecesse a coragem para tentá-lo.
— É uma nobre alma deveras — tornou D. Luis, como falando para si. — E quem a apreciará? A que destino a condenaremos se a expulsarmos das regiões para onde os seus nobres instintos a chamam ? Pobre dela! E tu, tu que a amas, tens a certeza de poderes levar ao fim o sacrifício? Não é certo que a tua saúde já se tem ressentido do esforço que fazes ? Vê bem, Jorge ! Na tua idade os afectos são mais violentos do que na minha. E contudo eu próprio quero já tanto a essa rapariga, que sinto que estes restos de vida que ainda possuo devo-os à sua presença. O que não será contigo? Jorge nunca previra a situação em que se achava. Havia imaginado a possibilidade de ser levado pela força da sua paixão a uma luta aberta com os preconceitos paternos, e esforçara-se por evitar essa temerosa crise.
Esta era a menos provável hipótese que antevira. Mas que fosse o pai quem advogasse a causa do seu coração de rapaz contra as inflexíveis exigências da orgulhosa classe a que pertencia, nunca o pudera supor, pois que não tinha seguido passo a passo as transformações que havia operado no carácter varonil daquele velho a acção combinada da doença e dos carinhos de Berta.
Por isso sentia-se agora irresoluto, sem saber se devia ceder ao coração e às insinuações do pai, se resistir em nome do dever, que ele chegara a convencer-se opor-se à satisfação dos seus ardentes votos.
Na hesitação do filho, D. Luis julgou perceber que o orgulho aristocrático penetrara já naquele coração de vinte anos, e ele, que sabia por si as resistências que esse orgulho gerava, assustou-se com a apreensão de near vencido pela obstinação do filho.
Assustou-se, dizemos, porque o espírito do fidalgo estava completamente subjugado. O egoísmo da sua idade não podia já passar sem os carinhos de filha. Não queria revelar-se inteiro e desejava que fosse a paixão do filho que aparentemente explicasse a transigência.
Era ainda custoso ao seu orgulho ceder, mas já não tinha fortaleza para resistir. Ansiava por isso que Jorge lhe fornecesse o pretexto.
Vendo-o vacilar, tremeu já de encontrar um obstáculo insuperável.
Jorge pela sua parte era vítima de um quase estonteamento, que não lhe deixava ainda ver claro. Tão costumado estava a acreditar que invencíveis resistências se erguiam contra a mais ardente aspiração da sua alma, que ao vê-las removidas de súbito, olhava em volta de si como aguardando que surgissem outras em seu lugar, e sem poder crer que a felicidade viesse colocar-se-lhe ao alcance da mão.
D. Luis insistiu : — Não, Jorge, não aceito o teu sacrifício. Estou para despir as vaidades do mundo. Na outra vida, onde os primeiros são os últimos, não me perseguirão estas paixões mundanas.
— A ter um de nós de lutar com uma paixão, para condescender com a do outro, compete-me fazê-lo. Na minha idade é mais fácil tentar essas lutas com êxito.
D. Luis a custo reprimiu a sua impaciência.
— E ela? Jorge, lembra-te de que essa menina ama-te, e talvez não tenha a força de alma que tu tens.
— Seria para Berta pior tormento magoá-lo, meu pai. Sei-o da boca dela. Nunca aceitaria o seu sacrifício.
D. Luis fechou por momentos os olhos, como para concentrar o espírito ; depois disse quase a medo : — Sacrifício ! Maior sacrifício seria o meu se renunciasse a tê-la junto de mim e a chamar-lhe filha. Não sei mesmo se para tanto me restam ainda forças. Eu já não sou o homem forte que fui, Jorge. Quase mereço compaixão.
Jorge estremeceu ao ouvir estas palavras. Como que raiou uma súbita claridade no seu espírito.
— Que quer dizer, meu pai ? Pois não é por meu respeito que insiste...
— Queres obrigar-me a confessar toda a minha fraqueza, Jorge? Pois bem, confessarei. Fazendo a tua felicidade, farás também a minha.
O lugar de tua irmã só pode ser ocupado por Berta. Outra qualquer profaná-lo-ia.
Jorge desta vez não o deixou concluir. Cedendo à paixão que enfim se expandia, pegou nas mãos descarnadas do pai e levando-as calorosamente aos lábios, exclamou : — Oh! obrigado, meu pai. É Deus que o inspira; é o espírito de minha irmã que o aconselha. Obrigado. Agora sim, desanuvia-se-me o horizonte, e creio, creio deveras na felicidade. Triunfo ! Obrigado, obrigado.
E, beijando-lhe mais uma vez a mão, correu para a porta chamando Berta.
Tôda a família e os amigos que tinham vindo para os Bacelos, ao saberem do estado do velho fidalgo, achavam-se na sala imediata, aguardando ansiosos o termo da conferência entre o pai e o filho e porventura o triste desenlace que havia muito se esperava.
Quando se ouviu a voz de Jorge, todos julgaram que se havia realizado enfim o acontecimento que se receava, e correram para a porta.
Jorge, quase desorientado, foi ao encontro de Berta, e conduzindo- a à cabeceira do leito do doente, disse, sufocado de contentamento : — Berta, o nosso sacrifício é inútil. Meu pai não o aceita, e prefere ver-nos felizes. Ajoelha ao lado dele e beija a mão de teu pai.
Berta obedeceu, banhada em lágrimas de comoção.
A baronesa não reprimiu uma exclamação de alegria e de triunfo.
Maurício correu a abraçar Jorge.
A Ana do Vedor quase levantou ao ar a boa Luisa, que temia acreditar no que julgara entender nas palavras de Jorge.
Somente Tomé da Póvoa ficou imóvel e calado. Ao ouvir Jorge, ao ver a filha ajoelhada junto do fidalgo e acariciada por ele, um clarão de alegria passou no rosto do honrado lavrador e brilharam-lhe nos olhos as lágrimas. Mas este relâmpago dissipou-se cedo e carregou- -se-lhe o semblante de tristeza.
Assim que Jorge, procurando-o com os olhos, se dirigiu para ele, estendendo-lhe os braços, Tomé afastou-o brandamente de si, dizendo-lhe : — Custa-me desfazer essa alegria, senhor, essa alegria que me faz quase chorar, que é sincera da sua parte. Mas quanto mais cedo, melhor será. Isto não pode ser.
Todos fitaram estupefactos o fazendeiro. Ninguém esperara que a resistência se levantasse dali. Ana do Vedor resmungou : — Temo-la travada ! — Valha-nos Deus ! — gemeu Luisa.
Berta fitou no pai os olhos ainda lacrimosos.
A fronte de D. Luis contraiu-se de novo.
— Que quer dizer com essas palavras, Tomé ? — perguntou Jorge, enquanto que Maurício e a baronesa secundaram a pergunta com um olhar interrogador.
— Há brios a que se não pode faltar — insistiu Tomé — ainda quando se nos despedace o coração e o dos filhos. Que se diria de mim? Como explicariam por aí o meu proceder nesta casa? Que pensaria ali o Sr. D. Luis, que já uma vez me suspeitou de forjar intrigas infames e de ter ambições indignas de um homem de bem? Creia no que lhe digo, Sr. Jorge, mais vale que sacrifiquemos todos um pouco das nossas afeições, para não termos desgostos maiores.
— Que desgostos pode recear, Tomé, quando eu lhe peço que me conceda a mão de Berta? — O Sr. Jorge fala cego pela afeição que sente, e é ela que não o deixa ver o que eu vejo.
— Não seja obstinado, Tomé — disse a baronesa.—Bem vê que de onde era mais de esperar a resistência, já ela caiu.
— V. Ex." não falaria assim se soubesse tudo. Há dias, sr.' baronesa, nesta mesma sala, vendo-me ofendido no meu carácter, suspeitado de tenções que nunca tive, e desesperado por não poder justificar- me, porque de facto tudo se levantava contra mim, fiz um protesto que não posso deixar de cumprir. Se lhe faltasse, eu próprio daria razão a quem me chamasse, frente a frente, intriguista, falso, miserável... D. Luis atalhou, dizendo: — Protestou o Tomé da Póvoa que se o casamento de sua filha com Jorge dependesse do seu consentimento, ele o recusaria, ainda mesmo quando da recusa se seguisse a morte para ambos ; e que para o não recusar seria necessário que eu, o pai de Jorge, o senhor da Casa Mourisca, o único, segundo o pensar do mundo, de quem deveria partir a oposição a essa aliança, pedisse a ele, Tomé da Póvoa, como favor, esse consentimento.
Tomé fez um sinal afirmativo, olhando para a baronesa, para Maurício e para Jorge, como perguntando-lhes se a tão solene protesto era possível faltar.
— Pois bem — continuou o fidalgo, depois de uma curta pausa, e fechando os olhos à imitação de quem se prepara a vencer um precipício, cuja vista o faz recuar. — Pois bem, sou eu quem peço a Tomé da Póvoa... como favor... que permita que Berta seja a esposa de meu filho.
E, ao acabar de dizer estas palavras, tingiram-se-lhe as faces de uma vermelhidão intensa.
Tomé fixou os olhos no rosto do fidalgo e leu naqueles sinais a revelação do esforço gigante que ele fizera para conseguir pronunciar tão nobres e generosas palavras.
Não estava no ânimo de Tomé resistir mais tempo.
Correu para o leito, ajoelhou ao lado do doente, e pegando-lhe na mão, exclamou, cortada a voz pelos soluços : — Sr. D. Luis, V. Ex.' venceu. Digam o que quiserem. O meu orgulho não dá para mais. Berta, sé feliz...
O pranto não o deixou concluir, a frase perdeu-a soluçando sobre as mãos do fidalgo.
Não faltaram lágrimas e sorrisos aos que presenciavam a cena.
Passada esta explosão de sentimento, Jorge, tomando a mão de Berta, disse para Tomé : — Aceito a felicidade que me oferece, Tomé, e prometo ser digno da esposa que me confia. Mas à minha própria felicidade sou obrigado a impor condições, para que no futuro nenhuma nuvem a perturbe.
A nossa casa não está ainda, como sabe, livre dos encargos que por tanto tempo pesaram sobre ela. As dificuldades principiam a aplanar- se e a administração entrou no verdadeiro caminho. E ao seu auxílio e conselho devo principalmente este resultado. O meu orgulho, porém, visto que todos aqui atendem a orgulhos, o meu orgulho exige que eu só por mim realize esta obra que empreendi, que à força do meu trabalho satisfaça os compromissos contraídos. Quando receber Berta, quero recebê-la em minha casa, e que se não diga que foi ela quem me abriu as portas fechadas pela miséria. Por isso esperarei até então para realizar a minha felicidade.
— Muito bem, Jorge ! — exclamou o fidalgo, fulgurando-lhe o olhar de alegria. — É justo — concordou Tomé. — Compreendo esse desejo da sua parte, e nada tenho a dizer contra.
— Mais ainda — prosseguiu Jorge — posso aceitar a esposa que me oferece, e orgulhar-me dela e da aliança com a sua família, que é honrada e generosa, mas uma coisa há que não posso aceitar sem humilhação. É a parte que pertencer a Berta da herança paterna. Não quero que se diga que eu restaurei a minha casa à custa da sua. Até aqui ainda chegam os meus preconceitos aristocráticos, devo confessá-lo.
— Bem, Jorge, muito bem! — bradou o fidalgo — quem pensa dessa maneira e assim procede, pode transmitir a sua nobreza, mas não a perde.
— Eu, porém, é que não posso deserdar minha filha. Essa condição é impossível — disse Tomé friamente.
— A parte a que tiver direito cedo-a em favor de meus irmãos — disse tìmidamente Berta.
— Teus irmãos não precisam da tua desistência, Berta.
— Tomé — insistiu Jorge — sabe que o meu constante pensamento é manter ao nome de minha família o prestígio e o respeito que sempre teve na província ; não queira anular os esforços que emprego para o conseguir.
— E quer que eu lhe sacrifique a minha reputação? Que se dirá de mim? A baronesa, prevendo que as dificuldades cresciam, que esta luta de sentimentos generosos poderia fazer surgir novos obstáculos, interveio dizendo: — As cláusulas do contrato são uma circunstância secundária e que só na presença de um tabelião se regulam. Eu por mim não posso aturar tais discussões, sobretudo se o noivo toma parte nelas. Olhem que frieza de namorado ! Deixemos isso tudo para depois.
— Diz bem V. Ex.ª — apoiou Ana do Vedor — o tudo ó que eles casem, e depois os homens que deslindem lá esse negócio do dinheiro como quiserem. Mas sempre lhes digo que oiçam um advogado, para não fazerem tolices. Mas o fidalgo ! O fidalgo é que sempre a deu em cheio ! Sim, senhor ! Nunca o esperei ! Quem dantes lhe fosse dizer...
Mas bom foi e verá como até Nosso Senhor lhe há-de dar saúde. E vossemecè, Luisa, que diz a isto? Ande lá, que teve um santo a pedir por si.
Eu bem lhe disse, mulher: cara alegre e confiança naquele que está lá em cima. E aqui para nós, talvez que a mim deva alguma coisa. E tu, rapariga? Apesar de me enjeitares o Clemente, olha que não te quero mal. Não quero, porque eu, se estivesse no teu lugar, faria o mesmo.
E o Tomé ainda com o nariz torcido ! Ó homem de Deus, você que mais quer? Sempre a gente! louvado seja Deus! Maurício aproximou-se de Ana, sorrindo: — Já que vai correndo a roda, venha lá a minha ração.
•—Que queres que eu te diga? Cuidas que por estares casado me mereces mais aquela? Olha agora! O que me admira é que hou vesse quern te quisesse. Perdoe-me a senhora, mas não lhe gabo o gosto. A seu tempo conhecerá a jóia. Lá aquilo é outro barro.
E apontava para Jorge.
' Todos riram das francas observações di matrona.
E enquanto D. Luis conversava com Berta, Jorge com Tomé, e Maurício e a baronesa com Luisa e Ana do Vedor, assomou à porta a cabeça de frei Januário, que ficou espantado de achar tanta gente reunida no quarto do fidalgo.
— Há alguma novidade? — perguntou ele, inquieto.
Foi a Ana do Vedor que lhe respondeu: — Há, sim, senhor. E pode já preparar-se, porque não lhe faltará que fazer qualquer dia. Case-me bem estes noivos, ouviu? O padre olhou espantado para os circunstantes.
— Quê? Pois então...
— Estão vencidos os obstáculos — respondeu a baronesa à incompleta pergunta.
— Ah! — observou apenas o padre.
E pensava consigo: — Digam lá que não anda nisto a maçonaria ! O resto do dia passou-se pacificamente. D. Luis dormiu çom sossego e deu mais algumas esperanças aos que o rodeavam.
Não havia ali coração que não encerrasse um fermento de felicidade.
NÃO se fez esperar muito o casamento ajustado à cabeceira do leito do fidalgo da Casa Mourisca.
Depois de vencida a importante demanda, que havia tanto tempo pesava sobre a sua propriedade, Jorge achou-se mais desembaraçado na empresa a que dedicara a sua juventude.
Alienando algumas fazendas distantes, que serviam apenas de estorvo à administração das outras, sem compensarem os sacrifícios que exigiam, acabando de desonerar de opressivas hipotecas as que ainda definhavam sob elas, e entrando em uma via metódica e segura de melhoramentos, habilitou-se em breve tempo a contrair um empréstimo valioso no Crédito Predial, amortizável em poucos anos ; e, com o capital obtido em tão favoráveis condições e prudentemente administrado, tinha quase certa para não longínquo futuro a completa realização do seu constante e generoso pensamento.
O enegrecido e triste solar da Casa Mourisca remoçou no dia em que o moço proprietário dele pôde remir a sua última dívida a particulares. Esta foi a de Tomé da Póvoa.
O povo da aldeia viu de novo abrirem-se de par em par as janelas da velha Casa Mourisca, limparem-se das ervas parasitas as longas avenidas da quinta, erguerem-se do chão as estátuas derrubadas, jorrarem como em outros tempos as águas dos encanamentos desobstruídos, coroarem-se de ameias as torres mutiladas, dourarem-se as colunas de talha da capela do palácio, e, ao ver isto, o povo acreditou que iam voltar dias felizes para aquela família, sobre a qual pesara o jugo do infortúnio.
Espalhou-se voz e fama do muito que fizera Jorge para conseguir esta restauração.
Admirava-se e aplaudia-se a energia e a sensatez do moço, que emendara o desvario dos seus antecessores, comentavam-se os actos da sua vida de rapaz, exaltavam-se as virtudes do seu carácter varonil, e, a pouco e pouco, o espírito da lenda tomou posse desta individualidade e deu-lhe o prestígio colorido que assegura a imortalidade na tradição popular.
Restaurada a Casa Mourisca e satisfeita a dívida de Tomé, D. Luis, a quem os assíduos cuidados de Berta tinham feito vencer a moléstia que o prostrara, voltou ao seu solar com solenidade correspondente àquela com que o deixara. Os instintos dramáticos do seu carácter de fidalgo assim o exigiam.
Ao regressar à casa, que outra vez podia chamar sua, e encontrando- a sob o aspecto de vida e festa havia tanto tempo perdido, D. Luis comoveu-se profundamente.
A numerosa coorte de criados e jornaleiros, que vieram recebê- lo à porta e saudá-lo com entusiasmo, fez-lhe recordar tempos passados e as tradições feudais de épocas volvidas, saudosas sempre para o seu coração.
Dias depois celebrava-se na capela da casa o casamento de Jorge e de Berta, com mais alegria do que pompa, com mais galas de sentimento do que de festa.
A baronesa e Maurício vieram à aldeia para assistirem à solenidade, e demoraram-se ainda algumas semanas nela.
A boa Luisa desfazia-se em lágrimas de júbilo. Tomé da Póvoa a custo podia reprimir o contentamento que lhe trasbordava do coração.
Os esforços de Gabriela haviam conseguido que o contrato do casamento se redigisse de modo que o pai e o noivo, fazendo cada um de seu lado meias concessões, não ficassem humilhados por ele.
A fidalguia da província torceu o nariz à aliança, e absteve-se de tomar conhecimento do facto, que também lhe não foi participado.
com a tácita censura desta parentela aumentou a irritação e despeito de D. Luis, e impelido a reagir, deu mais um passo no terreno dos princípios democráticos.
Os proprietários, colegas de Tomé, fizeram entre si algumas reflexões a respeito da finura deste, convencidos de que ele desde muito visara a este resultado, e profetizando-lhe um baronato futuro.
Mas nem o retraimento da nobreza, nem as murmurações dos lavradores perturbaram a alegria das nupcias.
D. Luis recebia ainda uma impressão desagradarei ao ver tão perto de si Tomé e a boa Luisa; procurava, porém, minorar este desgosto contemplando Berta, que exercia sobre ele uma completa fascinação.
Insistia sobretudo o fidalgo em que Berta era uma rapariga de excepção, e que se davam nela as qualidades que valeram em outros tempos a tantos plebeus a honra de serem agremiados no seio da nobreza.
Frei Januário, vendo bem provida a despensa e a cozinha da Casa Mourisca, julgou dever transigir com a nova ordem de coisas e instalou-se de novo no seu quarto, decidido a respeitar, conforme com os modernos principios de diplomacia, os factos consumados.
E anos de paz preparavam-se para aquela casa.
Maurício seguiu diferente destino, em harmonia com as suas aspirações e instintos.
Não se sentindo com tendências para agricultor, vendeu a Jorge a parte dos bens rurais que lhe pertencia e voltou para Lisboa com a mulher.
Decorrido pouco tempo encetava a sua carreira diplomática, como adido à embaixada de Viena, e sob os melhores auspícios de futuro progresso.
Gabriela não teve de arrepender-se do seu casamento. Se Maurício não era um modelo de maridos fiéis, ela tinha a precisa filosofia para desculpar-lhe as leviandades, e Maurício inteligência para apreciar a generosidade e delicadeza da sua mulher, e adorá-la por isso, apesar de tudo.
A vida agitada e as sucessivas comoções das capitais a ambos agradavam; por isso ambos eram felizes.
O contraste entre este viver e o de Jorge era completo.
Jorge era o verdadeiro proprietário rural, repartindo os seus cuidados entre a cultura e a administração dos seus bens, e os afectos e direcção de sua família. Abandonara a pouco e pouco os hábitos de fidalguia, em que fora educado, e contraiu outros puramente burgueses.
A sua iniciativa, esclarecida pela inteligência e mantida por uma forte energia de carácter, apontava um exemplo salutar aos proprietários vizinhos, que já se animavam a segui-lo. Graças a este exemplo, terminavam muitos prejuízos, esqueciam práticas rotineiras, que ainda hoje tolhem o progresso à nossa agricultura, aventuravam-se inovações já abonadas pela experiência de países mais cultos, e a que se opõem entre nós a ignorância e a timidez que nasce dela.
A vida inteira de Jorge era uma eloquente e severa lição para os proprietários rurais, que vivendo longe dos seus bens, consomem nos desperdícios da corte as magras rendas que eles, longe da solicitude do dono, lhes concedem ; deixam assim a pouco e pouco extenuar a terra e definhar-se a propriedade nas mãos de caseiros ávidos, que, que é o único com que podem contar.
Assim aprendessem nessa lição tantos que deveriam segui-la, e talvez que a riqueza do País se desentranhasse do solo, onde ainda está enclausurada, surgindo à luz para nos apresentar aos olhos de outras nações dignos da nossa época e do trato de terra que ocupamos na Europa.
Pela sua parte, Jorge realizando na propriedade a incorporação do capital, do trabalho e da inteligência, e mostrando até que ponto essa aliança é fecunda, podia bem dizer que havia cumprido a lenda da Casa Mourisca. Fora ele quem desenterrara do solo o tesouro escondido.
Tomé era o primeiro a seguir Jorge nos seus melhoramentos e reformas.
Nada mais temos a dizer.
Fechamos aqui o quadro, acrescentando apenas que a energia da Ana do Vedor ainda não vergou ao peso dos anos ; que o filho desta mulher, o bondoso Clemente, casou com uma válida e laboriosa rapariga do campo, que promete continuar o exemplo da sogra. Enquanto aos senhores do Cruzeiro, continuam a ser cada vez mais viciosos e a acharem-se mais embaraçados em dívidas e mais desprezados do povo.
Os fidalgos da Casa Mourisca são, pelo contrário, hoje respeitados, graças à energia e à honestidade do caracter de Jorge.
O nome desta família e dos que ficam honrados na tradição popular.
Fonte: www.dominiopublico.gov.br