Algumas famílias, que cedendo um pouco às exigências da época, não tinham trancado de todo os portões dos seus solares a certas inovações, eram por esse facto olhadas com desconfiança por os puros, que as acusavam de eivadas pela lepra do século.
Enquanto se esperava pelo jantar, formavam os convidados na sala nobre da Casa Mourisca grupos variados e característicos. As senhoras de idade madura, tias e mães, sentadas em semicírculo em um dos ângulos da sala, narravam pausadamente umas às outras as ocorrências domésticas relativas ao intervalo de tempo em que se não tinham visto, exaltavam os dotes pessoais do filho primogénito e as prendas da menina da casa.
Finalmente combinavam enlaces matrimoniais entre os seus filhos e sobrinhos, de maneira que o sangue dos descendentes saísse ainda mais rico em essência aristocrática, se é que era susceptível de maior apuro.
Os chefes de família, passeando na sala ou formando grupos nos vãos das janelas, lidavam na sua tarefa de vinte anos: a de demonstrar que o que perdera a causa realista fora a traição e o suborno ; e, arvorados em profetas, entoavam trenos sobre a iminente dissolução social, parafraseando os artigos de fundo da Nação e do Direito.
A abolição dos morgados e vínculos, definitivamente decretada poucos anos antes, fornecia farto alimento para aquelas jeremiadas ; os dissipadores fidalgos, que tinham arriscado o futuro e bem-estar dos filhos, desbaratando-lhes a legítima com a sua imprevidência e prodigalidade, lançavam agora à conta da lei o que era a conseqüência lógica da sua má administração.
As raparigas falavam umas com as outras, de vestidos e de enfeites, e dispunham de quando em quando de algum olhar mais terno para qualquer dos primos presentes, em cujo número se continham os namorados de cada uma ou de mais do que uma. Estas representantes das poéticas e vaporosas castelãs, que na Meia-idade premiavam os campeadores na liça, os guerreiros na volta dos combates, e os menestréis e pajens que lhes endereçavam conceituosos galanteios nos estrados das salas, tinham perdido muito da poesia do tipo primitivo.
Vivendo em uma época em que não havia campeões, guerreiros, nem trovadores para premiar, limitavam-se as meninas a aceitar a corte dos primos, também muito pouco parecidos com os seus cavaleirosos avós, e com a maior candura, que pode medrar na província, roubavam umas às outras os noivos e os namorados.
Algumas havia ali mais revolucionárias, que tinham conseguido introduzir o piano em casa e com ele as músicas da moda, obtendo uma ou outra vez dos pais a concessão de dar uma partida, onde a nata da nobreza provinciana dançava os Lanceiros como qualquer sociedade de artistas.
Os rapazes, reunidos no terraço, fumavam e atiravam a revólver aos troncos das árvores ou às avezitas que pousavam nos ramos.
A maioria, ou morgados ou filhos segundos, era de ignorantes e vadios ; se alguns haviam descido até ao ponto de irem a Coimbra fazer à ciência a honra de a estudar, poucos desses mostravam as habilitações adquiridas, exercendo qualquer mister social. Seria dobrar o desdouro. Cometida a fraqueza de sentar-se nos bancos das aulas ao lado dos filhos dos comerciantes e lavradores, devia-se ao menos seguir o exemplo do mano bacharel do Cruzeiro, o qual evitara a circunstância agravante de servir depois para alguma coisa.
Formava grupo à parte frei Januário em animado coloquio com outros dois padres, também apensos a casas fidalgas, e igualmente fervorosos na defesa dos legítimos direitos da nobreza e abominadores dos pedreiros-livres.
Mauricio, na companhia dos rapazes no terraço, entre os quais se achavam os dois primos do Cruzeiro, tomava parte nas suas diversões, mas sem perder certo ar de melancolia, que lhe ficara das cenas da véspera.
Jorge atendia a todos, mas nele era ainda mais evidente do que em Maurício a preocupação de espírito.
Desde a véspera os dois irmãos não haviam trocado uma palavra.
Gabriela notara-o, e desconfiava de que alguma coisa se tivesse passado entre eles.
Não deixava, porém, a baronesa de desempenhar pela sua parte, com superior ciência, o papel que lhe cumpria, como a pessoa em honra de quem tinha lugar a festa de família. Ia de grupo a grupo, tendo uma amabilidade certeira para cada indivíduo, e conseguindo desvanecer com as inebriantes inalações de lisonja a superciliosa desconfiança que os seus ares de corte da actualidade despertavam naqueles espíritos, escrupulosos e respeitadores da corte velha.
Houve uma circunstância que excitou a curiosidade da baronesa.
Notara ela que a maior parte dos rapazes, com quem os manos do Cruzeiro haviam conversado e rido, seguiam Jorge com olhares maliciosos, e que sempre que este lhes voltava costas, trocavam uns com os outros risos mal sufocados. Da roda dos rapazes comunicara-se o mesmo efeito à das raparigas, por intermédio dos coloquios de alguns namorados, e, dentro em pouco, viu-as olharem também para Jorge com certa estranheza, e cochicharem e rirem umas com as outras, quando livres da observação dele.
A misteriosa confidencia passava de lábios para ouvidos com rapidez tal, que momentos depois estava nas vizinhanças de Gabriela.
Não pôde a curiosidade desta tardar mais tempo em informar-se do que assim agitava a sociedade moça e que até já havia deixado estupefacta mais de uma respeitável matrona, que por acaso fora partícipe do segredo.
— O que é que se diz por aí, priminha ? — perguntou a baronesa à rapariga mais próxima — corre decerto alguma notícia estranha, porque as vejo todas em alvoroço.
— E com razão. Então não sabe ? O primo Jorge tem um namoro ! — E o caso é para tais espantos ?
— Pudera não ! Então não conhece o primo Jorge, já vejo. Ainda não houve quem lhe merecesse um cumprimento, que não fosse de simples cerimônia. Todos iriam jurar que era impossível que ele gostasse de alguém. E vejam lá! — É porque pertence à espécie rara dos que amam só uma vez e dos que amam de maneira tal que não podem sem remorsos amar por passatempo.
— Pois será. Mas vejam aonde ele foi cair I — Então quem é ela? — A Berta. A filha do Tomé ! — Fico na mesma, priminha.
— Não conhece o Tomé? O Tomé da Herdade. um lavrador que foi criado do tio Luis e que está hoje rico.
— Ah ! bem sei ; então é uma rapariga do campo.
— Envernizada na cidade, onde o pateta do pai a mandou educar.
Chegou há dias a casa.
— E Jorge conhecia-a? — Em criança, sim. Depois julgo que se não viram senão agora.
— E quem descobriu essa paixão? — Viram-no sair umas poucas de noites de casa dela.
— Jorge ? ! — É verdade. O3 primos do Cruzeiro viram-no, e parece até que o primo Maurício.
— Ah! Maurício?! — Sim, e o mais bonito é que esse também pelos modos tinha as suas pretensões, por passatempo, já se sabe, olha o outro ! a esse então tudo lhe serve. De maneira que hoje estão que nem palavra dizem um ao outro.
— Isso já eu notei; mas custa-me a crer que Jorge...
— E a todos. Pois aquele sonsinho...
— Não é isso o que eu dizia. O que eu acredito é que, sendo verdade o que me diz, Jorge ama deveras essa rapariga, e ele não tem carácter para abusar de alguém. Deus sabe o que de tudo isso pode resultar.
— Quer dizer a prima que é capaz de casar com ela? — Sim, estou convencida de que se ele a ama, formou já essa tenção e há-de cumpri-la.
— Tinha que ver a prima Berta da Póvoa ! — Eu lhe digo, para a menina talvez tivesse que ver, para mim, que já estou costumada a esses espectáculos, seria a coisa mais natural do mundo.
Assim informada do que se passava na sala, Gabriela observou com mais atenção Maurício e Jorge, e estudou nas fisionomias de ambos os vestígios daquele mistério.
Era manifesta a frieza que os separava naquela manhã. Evitavam-se tanto quanto podiam. As frontes de um e de outro estavam contraídas, e os sorrisos gelavam-se-lhes nos lábios, sempre que queriam forçá-los a aparecerem.
— Será verdade que Jorge ame essa rapariga ? Nesse caso deve ser uma paixão bem séria a dele — pensava Gabriela.
Nesse tempo a porta da sala abriu-se e D. Luis apareceu aos seus hóspedes vestido com aquele esmero e gravidade, que sabia guardar em todos os actos da sua vida.
O fidalgo não tivera pressa em apresentar-se na sala.
Fizera-se substituir por Jorge na solenidade da recepção e na apresentação de Gabriela a todos os primos, que ainda a não conhecessem.
Frei Januário explicara a ausência do fidalgo, atribuindo-a a incómodos habituais, que somente mais tarde lhe permitiam sair dos aposentos.
A verdade, porém, era que D. Luis desejava encurtar, quanto lhe fosse possível, o tempo em que tinha de conviver com os seus parentes naquele dia dedicado aos deveres de hospitalidade.
Produziu alvoroço na sala a entrada de D. Luis.
Todos correram a cumprimentá-lo com aquela deferência, que a índole séria e melancólica do fidalgo e a evidente superioridade da sua inteligência e educação a todos impunha.
— Como vais tu, D. Luis? — disse, apertando-lhe a mão, um ex-coronel de milícias, que havia acabado, pouco tempo antes, de ameaçar com a espada, que tinha em casa na gaveta, todas as constituições do mundo. — Graças a Deus, que deste sinal de vida, homem ! — G primo D. Luis devia procurar mais distracções — acudiu a vigésima descendente de um dos guerreiros de Ourique.
— Ainda bem que a priminha Gabriela o veio tirar do seu letargo — acrescentou outra, ramo infrutífero de árvore igualmente ilustre.
O título de baronesa raros o concediam a Gabriela, porque era de origem suspeita para aqueles pechosos aristocratas.
D. Luis respondeu com um forçado sorriso aos cumprimentos, dizendo : — Devem procurar-se as distracções, quando o espírito se não dá bem com as idéias tristes. Mas isso não sucede comigo. Já não posso viver sem esta escura companhia dos meus pensamentos. O esforço para fugir-lhe mais me aflige.
— Ora essa ! Sentir-se um homem bem com a tristeza I Ora essa ! — estranhou o ex-miliciano.
— São contradições aparentes — disse Gabriela para o tio. — As saudades têm disso. Por isso lhes chamaram «gosto amargo e pungir delicioso».
— Quem é que lhes chama isso ? — perguntou uma fidalga de óculos, um pouco sentimental e literata, que estava ao pé de Gabriela.
— Foi Almeida Garrett — respondeu esta, sorrindo, como quem suspeitava que não ficaria satisfeita a curiosidade da interrogante, Efectivamente a historia literária de Portugal parara para ela em José Agostinho de Macedo.
— Almeida Garrett ! — repetiu um dos mais intratáveis realistas presentes que ouvira a resposta — eu conheci um desse nome, que era secretário ou coisa assim do duque de Pálmela naqueles bons governos do Porto em 1834; isso era um liberalengo dos quatro costados! Na linguagem pitoresca deste sujeito, a palavra liberalengo era a mais eloquente expressão com que S. Ex.ª conseguia traduzir todo o desprezo que lhe mereciam as idéias e os homens de 1820 e 1832.
•— E perdeu-o de vista depois ? — inquiriu Gabriela com leve ironia.
— Sim, perdi. Eu conheci-o por acaso.
— Então não o conheceu orador no parlamento, ministro, poeta, prosador e chefe de uma revolução literária? O fidalgo abriu os olhos, prolongou os lábios e sacudiu a cabeça dizendo : — Olhe, prima; eu, a respeito de parlamento... Temos conversado ; não sei se me entende. De ministros também não quero sabei, porque tenho receio de que me digam que nos governa o filho do meu sapateiro. Agora a respeito de poetas... se quer também que lhe diga, eu nunca tive queda para sonetos. Lá chefe de revolução estou convencido de que ele seria, porque para guerrilheiro estava talhado.
A baronesa deu muita razão a este seu primo e foi para um grupo de raparigas, que passaram a interrogá-la sobre a última moda do talhe dos vestidos.
Anunciou-se, enfim, o jantar. Houve geral reboliço na sala, e a companhia seguiu mais ou menos anárquicamente para o banquete.
Frei Januário tinha meditado maduramente a ordem de colocação dos diversos convivas, segundo as regras da etiqueta, em que ele era mestre. E como neste ponto ninguém lhe contrariasse os planos, havia-se saído muito à sua vontade da tarefa.
Assumindo, pois, as funções de mestre de cerimônias, começou a designar a cada convidado o lugar que lhe competia.
Infelizmente, porém, nem iodos foram dóceis às indicações do padre, e sobretudo os rapazes, que, sem lhe darem atenção, iam sentar- se onde muito bem queriam, e ao pé quase sempre de alguma prima, que não desgostava da vizinhança.
Isto transtornou completamente os estudos do padre, que tivera mais que tudo em vista a separação dos sexos e das idades ; mas debalde protestou contra a anarquia que invadira a mesa.
Quem, porém, acabou por o perturbar foi D. Luis, quando do alto da mesa e com a hospitaleira cordialidade, que conseguiu afectar, exclamou : — Queiram sentar-se à vontade. É bom que os velhos se misturem com os moços para temperar os ardores da juventude com a prudência dos anos. Outras desigualdades não há aqui a atender.
Esta ùltima parte fez torcer o nariz a um ou outro fidalgo que tinha motivos para se supor mais preclaro do que os primos, mas não houve protesto formulado e todos obedeceram ao convite do dono da casa.
O padre esteve em risco de perder o apetite.
Valeu-lhe, porém, a judiciosa reflexão que lhe fez ao ouvido o colega, dizendo: — Sentemo-nos, que bom lugar é todo aquele onde se come bem.
Jorge ficou aos pés da mesa e portanto fronteiro ao pai.
Os primos do Cruzeiro, um de cada lado da mesa e perto da cabeceira, continuavam a sorrir provocadoramente e a fazer rir os outros.
A passar perto de Jorge, para tomar lugar, a baronesa murmurou- lhe : — Fala-se de ti, Jorge.
Jorge fez um sinal de quem estava informado do facto, e respondeu sorrindo de uma maneira especial: — Talvez se fale mais, e mais alto, daqui a pouco.
O jantar não desdizia do puritanismo daquela sociedade.
Era um jantar à portuguesa e digno de portugueses, que não querem: nostrum regnum ire fore de Portucalensibus.
A Casa Mourisca, bem explorada, ainda deu para ostentar um esplendor, que se nada era em comparação com o dos magníficos festins, que em tempos passados a animaram, não envergonhava o seu brasão perante os fidalgos presentes, que, pela maior parte, o tinham tanto ou mais deteriorado.
Os criados supriram com diligência o número, de modo que o serviço correu regular.
Enquanto se servia a sopa e não se havia encetado as libações, reinou na sala aquele silêncio momentâneo, próprio da ocasião.
Só se ouve o tocar das colheres nos pratos e o sorvo mais ruidoso de alguns convivas, que se não constrangem. O apetite satisfaz-se, dão-se tréguas às conversas. Depois retiram-se os primeiros pratos, enchem-se os copos, repousam os comensais, e de vizinho para vizinho trava-se a meia voz um diálogo cortado, sobre assuntos insignificantes.
Depois o tinir das louças e dos cristais, o vapor oloroso das iguarias, os efeitos excitantes dos vinhos animam o espirito ; o tom das conversas eleva-se, o vizinho fronteiro intervém, cresce a confusão, os risos misturam-se com as palavras, a timidez dissipa-se, cada qual sente-se com um arrojo que desconhece, vencem-se reservas e resistências que pareciam insuperáveis, reina a vida na sala do banquete.
Por estas diversas e sucessivas fases passou o jantar em casa de D. Luis. No meio dele, berrava-se política ali, jogavam-se epigramas acolá, segredavam-se requebros em outro ponto, e dava-se largas à maledicencia em quase todos.
Jorge conservara-se sério e reservado como estiverà toda a manhã.
Mauricio fazia esforços para mostrar-se despreocupado, porém mal o conseguia.
Para o fim do jantar percebia-se pelo tom de algumas risadas e pelo teor de algumas conversas, que os restos da garrafeira da Casa Mourisca não tinham desmentido os seus antigos créditos, firmados em tantas façanhas.
Os primos do Cruzeiro sobre todos falavam em um tom de voz, que mais do que uma vez atraíra as gerais atenções e fizera contrair o sobrolho a D. Luis.
A cada momento as alusões a Jorge, que eles entremeavam nos seus informes discursos, tinham obrigado a maioria dos olhares a convergirem para o filho mais velho de D. Luis, que os arrostava com uma serenidade desprezadora, Encetaram-se os brindes. Brindou-se a baronesa, brindaram-se na pessoa dos seus chefes as famílias ilustres ali presentes, brindaram-se os caudilhos do partido realista, brindou-se em honra da santa causa, em honra da imprensa fiel, em honra das velhas instituições, em honra do trono e do altar e de muitas outras coisas.
Frei Januário para mostrar o seu fervor, esgotava o cálice a cada brinde, e aproveitava os intervalos para fazer com os colegas, a meia voz, os seus brindes particulares.
Já quando os ânimos estavam um pouco excitados por estas sucessivas libações, o primo padre levantou-se, e com os olhos injertados e o gesto um tanto transtornado, disse: — Meus senhores, tenho notado que o primo Jorge está com um ataque de melancolia, de que não pode livrar-se. Os brindes que aqui se têm feito ainda o não desanuviaram. É verdade que se brindaram famílias antigas e coisas velhas, e o passado não é lá das idéias mais alegres. Eu por isso vou propor um brinde menos soturno, a ver se o distraio. Bebo à saúde do Tome da Herdade e da sua família, com particular menção da menina Berta, a quem Deus faça muito feliz, assim como a todos quantos lhe querem bem.
Este inesperado brinde produziu grande sensação. A parte moça da companhia, prevenida como estava, principiou a sufocar os risos e a falar ao ouvido dos vizinhos ; os velhos abriram os olhos espantados ou indignavam-se com o desconchavo de brindar uma família plebéia depois de outras de tão apurada raça. A conseqüência foi que ninguém correspondeu ao brinde, e os cálices ficaram intactos na mesa. Seguiu-se um silêncio profundo na sala.
O primo do Cruzeiro, sem se intimidar, perguntou: — Então que é isto? Ninguém me secunda? E corria a vista em redor da mesa com expressão irônica, que, a seu pesar, se desvaneceu ao encontrar a vista de Jorge, que, pálido de intima comoção, também se erguera e levantara o cálice para responder : — Secundo eu, primo — disse ele, com um leve tremor na voz — e creia que da melhor vontade o faço. Brinda-se uma família honrada, laboriosa e justa. A ninguém deve repugnar o brinde, e muito menos a mim, a quem motivos particulares obrigam a venerá-la.
— Ah ! — murmurou provocadoramente o padre, sentando-se com ares de vitória.
um meio sorriso passou por os lábios de alguns dos espectadores desta cena.
— Levante-se ! — ordenou Jorge ao padre com intimativa — oiça- -me de pé, que eu também estou de pé para secundar o seu brinde.
Ê singular ! O padre ergueu-se, como se não pudesse resistir ao olhar indignado e imperioso de Jorge.
— Repito — continuou este — brindo aquela família honrada, porque é honrada e porque motivos particulares me levam a venerá-la.
E para lhes não dar ocasião de sorrirem outra vez, ou de afagarem a víbora venenosa, que aí soltaram, eu lhes explico as minhas palavras.
Se ouvirem verdades que lhes firam o orgulho de fidalgos, lancem a culpa da vexação a quem mas provocou. Meus senhores, eu acordei um dia com a firme resolução de lutar contra esta torrente que nos arrasta e afoga a todos, apesar dos nossos brasões, dos nossos solares, dos nossos pergaminhos e das nossas galerias de retratos. Todos quantos aqui estão podem contar das glórias passadas e da decadência e das humilhações presentes. E nós como todos. Eu era novo, tinha diante de mim a perspectiva de uma longa vida, pensava no futuro e não podia resignar-me à idéia de morrer assim cobarde e ingloriamente. Reagi, encontrei felizmente em meu pai o auxílio preciso, e, autorizado por ele, tomei sobre meus ombros a tarefa de sustentar as ruínas vacilantes desta casa. A empresa, porém, era mais difícil do que a supusera. Tolhia- me os movimentos a rede complicada, em que a errada gerência de muitos anos embaraçara a administração. Cada passo dado para salvar-nos era mais um para a total ruína. Devem compreender bem isto os que me escutam, porque a sorte das nossas casas é quase a mesma. De todos os lados para onde nos viramos, surge-nos a usura, o dolo e a má fé. Nestas circunstâncias só me podia valer a experiência dos negócios, e essa faltava-me, o crédito, e quem mo reconheceria e aceitaria? o capital, e porque preço poderia obtê-lo? Perguntem ao nosso antigo administrador, aqui presente, o preço por que ele o encontrava. Pois bem, senhores, um homem chegou-se a mim nestas condições e pôs à minha disposição, leal e desinteressadamente, a sua experiência, o seu crédito e o seu capital. Graças a este homem, era-me possível libertar-me, sem baixeza, da usura que havia tantos anos nos devorava, aplicar vantajosamente os capitais obtidos e encetar um sistema, lento mas seguro, de administração que preparasse o caminho para um futuro resgate desta casa. Graças a este homem, sorriam-me as esperanças de poder dizer um dia às cinzas dos nossos antepassados, que eu também respeito, que repousassem em paz na sepultura, pois não viriam estranhos disseminá-las ; e à memória querida de minha mãe e de minha irmã que os que elas amaram não desertariam cobardemente dos lugares que lhes eram caros e que as viram morrer. Mas contra o generoso auxilio deste homem havia velhos preconceitos de família, mais apaixonados do que justos ; era-me pois impossível recorrer a ele abertamente. Entre as prevenções e a glória de minha casa não hesitei porém. A consciência dizia-me que não devia hesitar. Resolvi acolher o oferecimento leal, mas tive de ocultar na sombra da noite, actos que não se envergonhariam da mais clara luz do dia. Quando precisava do conselho experiente desse homem, procurava- o de noite e clandestinamente. Os difamadores, que correm nas trevas à procura do alimento para a calúnia, surpreenderam-me.
Medindo as acções dos outros pela sua capacidade moral, supõem-lhes sempre um motivo infame. O homem de quem lhes falei tem uma filha.
No que há de mais puro e mais sensível nas famílias, é ai que a calúnia gosta de ferir. Essa pobre menina foi pois a vítima escolhida. Agora se querem saber o nome do homem honrado, a quem devo experiência, crédito e capital, dir-lhes-ei que se chama Tomé da Póvoa, a filha é Berta, a afilhada de meu pai; os caluniadores são esses que propõem o brinde, lançando no cálice a peçonha de sua natureza de víbora; mas brinde que eu de novo secundo sem receio nem hesitação.
— E eu — exclamou a baronesa, imitando-o ; mas por ninguém mais foi seguida, porque uma nova ocorrência veio absorver as atenções.
D. Luis que revelara a mais profunda estranheza desde o princípio da cena, provocada pelo fidalgo do Cruzeiro, crescera em agitação à medida que as palavras de Jorge iam tendo para ele um sentido mais claro.
As últimas fizeram-lhe passar o rosto por uma série de mudanças, cada uma delas denunciadora de uma paixão violenta.
Ao nome de Tomé da Póvoa, a ingènua e leal declaração de Jorge, os olhos do irritado fidalgo faiscaram e um rubor fugaz e intenso correu- -lhe nas faces, sucedendo-Ihe uma palidez profunda.
Quando o filho terminou de falar, foi ele quem, por sua vez, se ergueu na cabeceira da mesa.
A comoção que o dominava não lhe permitiu desde logo o uso da palavra.
Todos os olhares se desviaram para aquele velho, pálido, vestido de preto, severo e mudo, que, com as mãos apoiadas sobre a mesa e o olhar fulgurante, seguia com a vista por todos os espectadores desta cena.
Afinal com a voz trémula e meia abafada, mas que a pouco e pouco se foi animando, o velho fidalgo começou, dizendo: — Meus senhores, quando há dias os convidei para virem a esta casa solenizar a honra que eu recebia da hospedagem da minha sobrinha, estava persuadido de que esta casa ainda era minha. Não sabia que, abusando da confiança que eu depositara nele, um filho meu, o mais velho, o primeiro representante, no futuro, do nome e das glórias de sua família, havia empenhado a um dos criados dela o solar em que nascera. Soube-o agora. Peço-lhes humildemente perdão de os haver, pela minha ignorância, sujeitado a esta baixeza. Desde este momento estamos todos aqui em situações iguais, todos somos hóspedes do Tomé da Herdade. Em outros tempos, nos festins e saraus das nossas casas, os criados subiam disfarçadamente as escadas, para virem das antecámaras e corredores espreitar para as salas, fascinados pelo esplendor que nelas viam; permitia-se-lhesisso. Hoje, porém, senhores, se aqui nos demorássemos, vê-los-íamos subir com outro intento, para vigiar que nas expansões do nosso júbilo não deteriorássemos as alfaias, a mobília, a baixela e a casa, que já lhes pertencem. A esta espionagem não me sujeito eu. Meus senhores, as minhas obrigações de dono de casa terminaram. Hóspede como os outros, tomo a liberdade de seguir o caminho que a dignidade me impõe. Cada um consulte o mesmo conselheiro.
E D. Luis, curvando-se diante de todos que o escutaram espantados, saiu da sala sem dar tempo a que o interrogassem ou detivessem.
Frei Januário foi o primeiro que pressurosamente o seguiu.
O resto da companhia parecia imobilizada nos seus lugares.
Jorge, com os cotovelos apoiados na borda da mesa, conservava 0 rosto escondido entre as mãos.
Gabriela foi quem se subtraiu primeiro àquela influência paralisadora.
— Parece-me que, depois do que se passou, dá-se a triste necessidade de nos separarmos. O tio Luis está muito agitado, é preciso dar- -lhe tempo para serenar e ver as coisas sob um aspecto mais racional do que aquele em que a paixão lhas apresenta agora. Por isso...
A reticência foi seguida de um arrastar de cadeiras, prova de todos haverem compreendido a conveniência da retirada.
Formaram-se ainda na sala alguns grupos conversando sobre o facto.
Os primos do Cruzeiro foram os primeiros a retirar-se. O padre ainda manifestou desejos de pedir a Jorge uma satisfação pelos insultos que ele lhe dirigira, mas intervieram terceiros que o dissuadiram.
Os fidalgos velhos tentaram procurar D. Luis para o acalmarem ; mas foi-lhes dito por frei Januário que o fidalgo não podia recebê-los.
Pouco e pouco foram os convidados abandonando a Casa Mourisca, e os caminhos que dela partiam eram momentos depois cobertos de cavalgadas, liteiras e carroções, em que aquelas nobres famílias regressavam aos seus solares.
As ocorrências singulares do jantar foram entre elas assunto de conversa em tôda a jornada. Todos, conquanto criticassem a esquisitice do velho D. Luis, que tão pouco urbano se mostrou com os seus hóspedes, eram acordes em atribuir a principal culpa a Jorge.
FICARAM apenas na sala Jorge, Maurício e a baronesa.
A indignação de D. Luis parecia haver desvanecido a energia de Jorge ; a consciência do pobre rapaz, como que vacilando ao embate das violentas paixões paternas, quase lhe censurara a precipitação do passo que dera.
Igualmente abatido, Maurício sentia remorsos ainda mais vivos.
não podendo já duvidar da inocência do irmão, como perdoaria a si próprio as suspeitas e insulto com que o ferira? Do vão da janela a baronesa observava-os imóvel e silenciosa.
Maurício ergueu enfim a cabeça, e tendo nos olhos ainda vestígios de lágrimas, hesitou alguns instantes ; depois, por um desses movimentos prontos e irresistíveis, a que a violência dos afectos o provocava, caminhou agitado para Jorge.
— Jorge — disse ele, íntima e sinceramente comovido — se ainda se não esgotou a generosidade da tua nobre alma, não me retires a afeição, que por tanto tempo te mereci.
Jorge apertou-lhe a mão com afecto.
— Nunca ta retirei, Maurício. Podes crê-lo. Afligem-me alguns dos teus desvarios, principalmente porque sei que eles estão em contradição com os nobres sentimentos da tua alma. Mas para te perder a afeição não é isso motivo. Para mim és, nesses momentos, como uma criança que se vê a dormir à beira de um precipicio. Inspiras-me, como ela, apenas sustos, e não cólera nem aversão.
E os dois rapazes abraçaram-se com efusão.
— Vamos — disse a baronesa, intervindo — a situação precisa de que se pense nela sèriamente. As pazes estão feitas, em boa hora ; pensemos agora como gente de juizo. Antes de mais nada, Jorge, o que há de verdade em tudo isto? — O que eu disse.
— Vê bem ; fala-me com franqueza. Eu não acreditei no que de ti se espalhou. Concederia que Jorge pudesse praticar uma loucura, mas uma acção indigna, um abuso de confiança, sabia que não. Porém não há em tôda esta história alguma coisa que não disseste ainda? Berta é para ti completamente indiferente? Esta e que é a questão.
Só a muito custo Jorge pôde disfarçar a turbação em que a pergunta de Gabriela o lançou ; mas respondeu com aparente serenidade : — Berta é uma rapariga que por todos os motivos respeito.
E com mais custo ainda acrescentou: — E nada mais.
— E para Maurício o que é Berta ? — continuou a baronesa, sorrindo ao voltar-se para o primo mais novo.
Não obteve logo resposta.
— Bem vêem — insistiu ela — que há uma coisa que eu não posso ainda explicar. Assisti à vossa reconciliação, sinal de que tinha havido uma desinteligência. Qual foi pois o motivo dela? — uma das minhas loucuras — respondeu Maurício afinal — cedi a um movimento de paixão, encontrando-me com Jorge ontem, quando ele saía da casa de Tomé da Póvoa, e soltei expressões, que parece que ainda me estão queimando os lábios.
— Então, visto isso, achavas-te com direito de sentir ciúmes.
Segue-se que amas Berta. E é deveras esse amor? A fronte de Jorge contraiu-se levemente ao ouvir a pergunta, enquanto aguardava a resposta do irmão.
— Se responder pelo que penso dele — disse Maurício — juro que é.
Desta vez um ligeiro sorriso deslizou nos lábios de Jorge.
— Isso quer dizer — tornou a baronesa—que respondendo pelo que pensas de ti, receias muito que não. Pois, meu caro priminho, a ocasião exige que se ponham de lado caprichos e brinquedos de criança, e que se siga com sisudeza e tenacidade de homem um caminho qualquer. Não estamos em tempo de brincar. Dá-se uma grave crise, em que todos os bons planos de Jorge podem ser destruídos de encontro à resistência do tio Luis. Eu nem posso calcular o que resultará de tudo isto. E portanto...
Interrompeu-a neste ponto a entrada de um criado, pedindo-lhe para chegar ao quarto de D. Luis, que desejava falar-lhe.
—Neste caso esperemos o resultado desta entrevista, para adoptar um partido — dizia ela apressando-se em satisfazer os desejos do tio.
Em caminho para o quarto de D. Luis, a baronesa notou nos corredores e nas salas intermédias um movimento extraordinário, que não sabia a que atribuir.
Os criados iam e vinham apressurados, comunicavam as ordens uns aos outros, abriam e fechavam portas, desciam a duas e duas as escadas e transportavam diferentes objectos, como se se tratasse dos preparativos de uma jornada.
Nos aposentos de D. Luis achou Gabriela o fidalgo em pé no meio da sala, enquanto frei Januário, de joelhos junto de uma arca, introduzia nela algumas peças de roupa, que aquele lhe ia indicando.
— Eu não sei o que V. Ex." vai fazer, Sr. D. Luis — murmurava no entretanto o egresso, que parecia cumprir a tarefa de má vontade, suando em bagas — isto não tem pés nem cabeça. Olhem agora sem cómodos nenhuns... assim de um momento para outro...
D. Luis, sem responder às reflexões do procurador, continuava a indicar-lhe os objectos que devia arrecadar.
Gabriela dirigiu-se a ele: — Mandou chamar-me, meu tio?
— Ah! mandei, sim, Gabriela. Desculpe importuná-la. Mas tenho que lhe pedir um favor — respondeu D. Luis com forçada placidez.
— Mil que sejam.
— Depois do que se passou, não quero demorar-me nesta casa uma só noite. Peço-lhe por isso hospitalidade na sua. Se me não engano, tencionava partir amanhã para lá. não é verdade? Pois bem, faça o sacrifício de partir hoje e permita-me que a acompanhe. um quarto e uma enxerga bastam-me. Preciso de me ir acostumando a tudo.
A baronesa ficou por alguns momentos muda de surpresa.
— Mas... por quem é, meu tio... Grande prazer me dará a sua visita... porém em outras circunstâncias e por outros motivos. Não tome resolução alguma enquanto assim está dominado pela paixão.
Veja o que vai fazer! O que se dirá? O que se falará por toda a parte ? — Já de sobra têm em que falar. A vergonha não é maior — tornou o velho mais agitado.
— Pois sim, acudiu o padre — mas reunir a vergonha ao incómodo...
a falar a verdade... é... é...
— A vergonha... a vergonha... Mas tem a certeza, tio, de que julga bem e despreocupado de paixões os actos de seu filho? Quem lhe diz que outros não chamarão virtude àquilo a que chama baixeza? A cólera relampagueou de novo nos olhos do velho.
— Gabriela, por quem é, desista de contrariar-me. Asseguro-lhe que me não demove da resolução em que estou e que somente me aflige. Se não quer conceder-me o abrigo dos seus tectos, irei bater a outra porta.
Gabriela não insistiu.
— A minha casa é sua sempre, meu querido tio. Vou dar as ordens para partirmos.
— Não esperem por mim — recomendou ainda o fidalgo — eu irei com frei Januário, mais tarde, porque tenho que fazer antes. Sinto o incómodo que isto lhe vai causar, Gabriela. Mas os criados ficarão na estalagem da Encruzilhada.
— Todos cabem ; visto que também os quer levar, escusam de ficar a meio caminho. Então fecha-se a Casa Mourisca, ao que estou vendo ! Muito bem. A casa de meu pai é bastante espaçosa, e com os arranjos que eu mandei fazer-lhe ultimamente, deve bem servir para nós todos, Agora um pedido.
— Qual è? — Jorge está consternado pelas suas ásperas palavras ao jantar.
Não há-de reconciliar-se com ele? — Gabriela, se é amiga de Jorge, não procure trazê-lo à minha presença, e se quer que isto que sinto cá dentro contra meu filho não cresça ou degenere em pior, não pronuncie diante de mim por ora o nome dele.
Gabriela tinha certo dom para conhecer quando Convinha lutar e quando era preferível ceder. Desta vez percebeu que o ânimo de D. Luis não estava para acalmar de pronto.
Saiu sem aventurar mais uma palavra a tal respeito e foi ordenar os preparativos da partida.
Ao passar na sala, onde ainda estavam Jorge e Maurício, apenas lhes disse : — Trata-se de partir já.
— Para onde ? — Para minha casa, nos Bacelos.
— E meu pai? — Tudo parte. É uma emigração completa.
— E a Casa Mourisca? — Fechada, ao que parece, até... acabar o interdito.
- Mas isso não pode ser ! — Mas é, e eu vou já dar ordens precisas para a mudança, — E eu vou falar com meu pai — exclamou Jorge, erguendo-se.
A baronesa reteve-o.
— Não vás. É inútil e perigoso. Deixa que os factos sucedam naturalmente. Eu já estou convencida de que esse é o melhor expediente.
É preciso que teu pai desafogue a paixão que lá tem dentro. Entende que deve sair daqui, deixemo-lo sair. Estas exterioridades acalmam-no.
Depois lhe aparecerás.
— Então agora recusa ver-me ? — Recusa. O que não tira que não possas estar muito à tua vontade na minha casa dos Bacelos. Há lá um pavilhão na quinta, para um refugiado como tu.
Passados poucos minutos os moradores da Casa Mourisca punham-se em movimento para a quinta dos Bacelos.
Os preparativos não ocuparam muito tempo, porque o fidalgo mandara apenas levar o que fosse estritamente necessário.
A baronesa veio despedir-se do tio, que insistiu em querer ser o último a sair de casa.
Jorge e Maurício partiram em companhia de Gabriela.
C fidalgo ficou só com frei Januário, que continuava a protestar por todas as formas contra a resolução da mudança de quartel a horas impróprias.
D. Luis nem lhe respondia.
Quando o procurador, a fim de suavizar as agruras do desterro, pretendia fazer transportar algum objecto que podia ser de utilidade para melhor acomodação da família, o fidalgo ordenava-lhe secamente que o deixasse ficar, o que cada vez mais exasperava o padre.
Vendo que tudo estava pronto, D. Luis deixou por alguns instantes o procurador na sala e subiu vagarosamente as escadas que conduziam aos antigos aposentos da filha que perdera.
Ao penetrar ali, que doloroso estremecer o do coração do velho ! Ia desamparar também aquele quarto ! Esta idéia só poderia vacilar-lhe a inabalável coragem ! Era um lugar de recolhimento aquele para o desconfortado ancião. Tudo ali dentro se conservava como no fatal dia em que ela morrera. Todos os objectos que haviam pertencido à infeliz criança ali se guardavam religiosamente. E ia deixá-los ! O leito, o genuflexório, o toucador, a harpa, parecia possuírem uma voz para falar-lhe dela. E havia de fugir-lhes! A coragem, porém, não soçobrou na luta. D. Luis fechou discretamente a porta para si ; depois com fervorosa comoção beijou quase um por um esses diferentes objectos, e, ao chegar junto ao leito, o mesmo em que a vira adormecer do último sono, ajoelhou soluçando, e cobriu de beijos e de lágrimas as almofadas, onde tantas vezes se encostara a pálida cabeça da sua Beatriz.
Mais tranquilo depois desta efusão de dor, ergueu-se, enxugou os olhos e desceu com a mesma lentidão as escadas até ao portal, onde o padre esperava já com impaciência e inquieto pelo adiantado da hora.
um criado segurava pela rédea os cavalos, que deviam transportá- los.
— Vamos, vamos, Sr. D. Luis, olhe que nos apanha a noite na estrada e os caminhos não são lá essas coisas — exclamou o padre aflito.
D. Luis, em vez de responder-lhe, disse para o criado que segurava os cavalos : — Vai esperar-nos na baixa do Paul. Nós já lá vamos ter.
— Então V. Ex.ª quer ir a pé até à baixa do Paul?! — perguntou o padre assustado.
— Vou.
— Mas... é um estirão e...
— Então que fazes ? — Parte — disse D. Luis com impaciência para o criado ; e este obedeceu-lhe prontamente.
O padre ficou a resmonear: — Eu cada vez ando mais às aranhas com a gente desta casa.
Sempre tenho visto e ouvido coisas há tempos a esta parte ! Olhem que preparos estes ! Havemos de cear a boas horas, não tem dúvida nenhuma ! — Agora feche a porta, frei Januário — ordenou D. Luis.
O padre tomou com ambas as mãos a enorme chave do portão, e fê-la girar na fechadura.
Este movimento produziu um som agudo, semelhante ao gemido de uma ave, o qual ressoou tristemente pelo interior daquela casa deserta.
O padre tirou a chave, que juntou ao molho que trazia, deu um encontrão à porta, para verificar se ela estaria bem fechada, e depois olhou para D. Luis.
— Vamos — disse este, O padre ia pôr-se a caminho, mas parou vendo o fidalgo seguir a direcção oposta à da quinta dos Eacelos.
— V. Ex.' para onde vai ? — Por aqui—respondeu secamente o fidalgo, continuando a andar.
— Mas... v. Ex.ª está enganado. Esse não é o caminho.
— Bem sei.
O padre seguiu-o, murmurando contra as vénetas do fidalgo: — Esta cabeça já não regula direita. Onde diabo quer ir este homem ? O caminho que D. Luis continuava a seguir era tão divergente do que o padre esperava, que outra vez o interpelou : — Mas V. Ex.ª onde quer ir? — A casa do Tomé da Póvoa — respondeu D. Luis, e acrescentou : — E advirto-lhe, frei Januário, que não me sinto com disposições para conversar.
O padre sabia que sempre que D. Luis fazia certas observações em certo tom e com certa inflexão de voz, era inútii e imprudente contrariá- lo. Por isso calou-se, o que aumentou o mau humor que já trazia acumulado.
— A casa do Tomé da Póvoa ! — resmungava ele. — O homem está doido ! Ora isto ! E eu a aturá-lo ! O que me estava reservado ! A intenção com que o fidalgo demandava a casa do fazendeiro era um mistério indecifrável para o espírito do procurador.
Tinham descido a encosta, a meio da qual se erguia a Casa Mourisca.
Aproximavam-se da ponte que atravessava o vale. A tarde ia no fim. Era já a claridade do crepúsculo que iluminava a paisagem.
A azáfama do trabalho acalmara. Nos marcos dos campos, à soleira das portas e nos parapeitos da ponte repousavam finalmente os lavradores das fadigas do dia. O gado caminhava para as presas, conduzido por crianças de seis a sete anos. Nos arvoredos ouvia-se um cantar de aves, tímido como ele é ao aproximar do Outono e ao aproximar da noite. Era tal a serenidade da tarde, que se percebia o sino de uma freguesia distante, dobrando a finados.
A suave melancolia daquela hora influiu no ânimo de D. Luis.
Que densidade de tristeza a que pousou naquele coração ! Saudades, mas saudades escuras de velhice, saudades de quem não tem futuro, era o que havia naquela alma. com o passado lhe tinham ido todos os objectos das suas crenças, do seu amor, das suas afeições. Já não era capaz de entusiasmo, e os olhos em que o entusiasmo não influi, vêem tristemente coloridas todas as cenas da vida. Ao desencantamento do presente juntavam-se as apreensões pelo futuro a entenebrecer-lhe o espírito. Era deveras infeliz aquele velho ! Depois da ponte seguia-se a colina, onde prosperava a Herdade de Tomé.
D. Luis reuniu alento para subi-la.
O padre aventurou outra observação: — Sr. D. Luis, eu não atino com as razões que trazem V. Ex.ª aqui, mas não vejo que possa resultar bem algum de semelhante visita. Veja o que faz! A prudência...
— Sossegue, frei Januário — atalhou D. Luis com um sorriso vai o tempo em que nós resolvíamos à força de braço os nossos pleitos.
A nossa vez passou, bem vê.
O padre conheceu pelo tom da resposta que o fidalgo estava já mais quebrado, mas ainda pouco disposto para explicar-se.
Para se chegar à casa de Tomé da Póvoa por o lado por onde D. Luis seguia, tinha-se de tomar por uma avenida de olmeiros, orlada por sebes naturais formadas de madressilvas e de roseiras. No fim desta avenida ficava uma das entradas da quinta do fazendeiro, que era a parte que ele cedera às predilecções da filha e da mulher, e onde as balsaminas, os limonetes e hortensias cresciam vigorosas, e a relva rescendia com as violetas e malvas que a entremeavam.
D. Luis desceu lentamente a avenida, com os olhos fitos no portão da quinta.
— É aquela uma das entradas da propriedade, não é? — perguntou ele ao padre.
— É, sim, senhor. Repare V. Ex.ª que é um portão de quinta nobre.
Falta-lhe o brasão.
O fidalgo calou-se e não tirou os olhos do portão da quinta, da qual se ia avizinhando. Passados alguns instantes respondeu à observação do procurador, dizendo : — Dentro de alguns anos mais pode comprar barato o da Casa Mourisca. Os meus filhos não serão exigentes no preço.
O padre não soube bem o que devia dizer neste caso. Limitou-se por isso a expelir um simples «Oh!» sem entonação que o definisse.
Chegaram enfim ao portão. D. Luis ordenou ao padre que tocasse a sineta.
Este ia a fazê-lo, quando se voltou, dizendo: — Anda gente cá dentro.
D. Luis não foi superior a certo sobressalto ao ouvir a notícia ; vencendo-se, porém, caminhou resoluto e com a fronte contraída, para diante. De repente estremeceu, parou, e comprimindo o peito como se fora ferido ali, murmurou: — Oh Santo Deus ! — Que tem V. Ex.ª? — interrogou inquieto o padre, que reparara no gesto de D. Luis. — Foi pontada?! Estes passeios violentos e fora de horas...
O fidalgo não respondeu, e continuou com os olhos fitos em não sei que ponto da quinta.
Frei Januário desviou para ali a vista, a fim de elucidar-se na explicação do mistério.
Chegava neste momento ao portão uma rapariga, singelamente vestida de branco, que correu ao encontro deles.
Era Berta.
— O meu padrinho ! — exclamava ela dirigindo-se ao fidalgo.
— O Sr. D. Luis ! Até que enfim o vejo ! Julguei que não chegava este dia!