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Poesias

Júlio Dinis

NUVENS

Vês as nuvens no azul do firmamento
De brancuras ofuscantes,
Como impelidas por tufão violento
Se formam em legiões extravagantes?

Olha; acolá, reunidas uma a uma, Um trono simbolizam;
Ali, rasgam-se em flocos, como a espuma
Das vagas crespas que em areais deslizam.

Mais longe, vês? as massas vaporosas
Informe monstro imitam,
E além, tingidas pela cor das rosas,
Paços que ocultas mágicas habitam.

Agora, vastos pórticos, ogivas, E um longo peristilo,
Colunas, capiteis, arcadas vivas,
Arquitecturas de ignorado estilo.

Logo por esses plainos dispersadas
Pelo sopro do vento,
Como níveos cordeiros às manadas
Sucedem-se velozes cento a cento:

Ora parecem gigantescas serras
Com seus eternos gelos;
Ora planícies de nevadas terras,
E das águas boreais os caramelos:

Ali nos representam funda gruta
E rochas diamantinas;
Acolá, mil exércitos em luta;
Mais além, mil cidades em ruinas.

E sabes tu no que essas formas vagas
Perto de nós se tornam!
Dize, quando no prado a sós divagas,
Tens visto as gotas que o vergel adornam?

Pois são esses os tronos deslumbrantes, A ogiva preciosa,
Os fustes das colunas de diamantes, E encantados palácios cor-de-rosa.

Esse vasto espectáculo dos ares, Essas mágicas cenas,
A que presos estão nossos olhares,
Vê-los ao perto? são orvalho apenas.

Bem assim os projectos, áureos sonhos
Que na vida sonhamos;
Belos fantasmas, fúlgidos, risonhos,
Que nos céus do futuro divisamos.

Pois que junto de nós, essas imagens, Essa visão querida,
Desvanecem-se, pérfidas miragens, Fundem-se como a neve derretida;

Esp'rança no porvir, nuvens formosas, Em que assim te deleitas,
Com esse orvalho que humedece as rosas
Hás-de vê-las em lágrimas desfeitas.

4 de Setembro de 1862

LAVA OCULTA

Não me entendes? não suspeitas
Que esta frieza é fingida?
Não vês, .cega, que envolvida Está nela ardente paixão? Quando teus olhares evito, Quando julgas que medito,
Não compreendes que me agito
Em profunda inquietação?

E julgas isto frieza?
Julgas que o meu peito é gelo? Se o que sinto não revelo,
Julgas que isso é não sentir? Ai, louca, que assim te iludes; Um momento que me estudes, Verás que tortnentas rudes
Me estão no peito a brarnir.

Se a mão te cinjo à partida, Não a sentes vacilante?
Diz, não vês como inconstante Busco e evito o teu olhar? Chamas a isto indiferença? Não é, não, repara, pensa;
E o amor que se condensa
Para mais me devorar.

E tu não sentes... nem podes ; Pra que os olhos vejam tanto, E, sob indiferente manto, Descubram violento amor,
Não, não basta olhar somente; O que o peito não pressente, Só quando fora rebente
Pode aos olhos ter valor...

E o teu coração... outrora Esperei que me entendesse; Julguei que nunca esquecesse O que na infância nasceu,
E com os olhos no futuro Caminhei firme e seguro, E nunca este culto puro No peito me adormeceu-

Mas tu... Essa flor singela
Da afeição que nos unia
Se definhava e morria
Desde que outra flor surgiu; Cenas da infância, folguedos, Seus sorrisos, seus segredos, Passam, como nos olmedos,
A folha que ao chão caiu.

E por isso as esqueceste;
Eu não; que então já no seio
Ocultava com receio
Mais do que infantil amor. Quando, só, em ti pensava, E só contigo me achava, Não te lembras? já corava, Nem pra mais tinha valor.

Cresci, e esta idéia sempre
Afagava na lembrança;
Sempre, sempre esta esperança, Sempre, sempre esta ilusão!
Ilusão, sim, era apenas; Todas as passadas cenas E recordações amenas Riscou-tas nova paixão.

Foi uma noite. Esta idéia Inda a conservo bem viva, Cada dia mais se aviva
Pra mais me fazer sentir; Desde então já não me iludo, Foi uma noite; vi tudo,
E fiquei gelado, mudo,
Sem esperanças, sem porvir I

Um outro estranho, que importa? Te falava com meiguice
E às palavras que te disse
Tu sorriste e ele sorriu, E, desumana, não vias
Que o amigo de outros dias, De cada vez que sorrias, Cruéis angústias sentiu!

Ai, noite de insónia aquela! Tu caiçaras o passado,
Nem talvez nunca pensado
Havias nele como eu ;
Quis esquecer-te, vingar-me, A outro amor entregar-me, Mas só consegui cansar-me; Este amor permaneceu.

Até quando? Só Deus sabe. Comprimido ele floresce, Mas vive, mas não fenece,
Que já da infância ele vem;
Tu não vês, que uma outra chama
Há muito teu seio inflama, E quando deveras se ama,
Vê-se o amante e mais ninguém?

Bom é pois que não suspeites
Que esta frieza é mentida, Que não vejas que envolvida Oculta ardente paixão.
Quando teus olhares evito, Quando julgas que medito, Nunca saibas que me agito Em profunda inquietação.

Abril de 1860.

Nota do Autor. - Esta poesia é um enigma, que eu não decifrarei. Isto quase eqüi. vale a dizei que ficará sendo um enigma para todos e para sempre talvez. Foi escrita o ano passado e esquecida. Encontrei-a, fiz-lhe algumas modificações . inclui-a nesta colecção. É em grande parte imaginária.

PRESSÁGIO

Era em florente Junho; A Lua se ostentava Serena em seu brilhar; A brisa na alameda Saudosa suspirava
Nas folhas ao passar.

Contigo, eu só no bosque
Ouvia-te, tao triste,
Soltar, mais triste, a voz;
Falavas magoada
Da paz que só existe
Da fria morte após.

E os olhos lacrimosos
Fitavas nos espaços
Da mais amena cor,
Como se desejasses
Romper terrenos laços
E o azul do céu transpor.

Calado eu te fitava,
Porém ao ver-te o pranto
Banhar-te a face assim,
Não sei que dor pungente,
Não sei que mago encanto,
Me fez falar-te enfim.

E disse-te: «Não chores, Na Terra é tudo flores, No Céu é tudo luz.
Escuta os sons do bosque, Respira os seus odores,
O aroma que seduz.»

Olhaste-me e sorriste; E quanto não diziam Então os olhos teus! Quão íntima tristeza,
Que dor não reflectiam
Quando os erguestes aos céus!

E eu ficava mudo, Olhando-te inquieto,
Sem bem te compreender; E um ramo de cipreste,
O arbusto teu dilecto, Vieste-me oferecer.

«Bem vês, da campa à beira Também a flor rebenta», Disseste-me a sorrir,
«Também no chão da morte De seiva se alimenta, Também a vês florir.

«Quem vir esta campina
Virente e matizada
Viçar à luz do Sol,
Dirá, que neste manto
Se envolve a fria ossada
Do morto em seu lençol!»

De novo emudeceste,
E eu, triste, contemplei-te:
Mas não, não te entendi,
Parecia que na mágoa
Achavas um deleite,
Qual nunca igual senti!

Mas cedo teus perfumes
Da Terra aos Céus subiram,
E soube tudo então!
Era uma voz profética
Das que o poeta inspiram,
Falando ao coração.

No meio dos festejos Da estiva natureza, Sentias só a dor,
Vias a campa aberta
E em sua profundeza
Sumir-se a esp'rança em flor.

E hoje, sim, compreendo Tua conversa triste, Quando comigo a sós...
E porque a entende agora? Não sei. Talvez existe
Em mim a mesma voz.

Oh! sim, ele me mostre
No meio destas galas,
Que vejo em torno de mim,
A terra húmida e fria,
Do cemitério as valas
E o esquecimento enfim.

Abril de 1860

Nota do Autor. - Esta é filha de um momento de spleen. Pareceu-me verdadeira então, hoje não. Estes pensamentos lúgubres acometem-me de quando em quando, mas passam. Estando dominado por eles, acho nesta produção um valor que. depois, debalde lhe procuro. Não é decerto no primeiro caso que melhor a avalio no que ela vale. Não há ninguém que não tenha os seus momentos de hipocondria, muitos com menos razões do que eu. Desculpem-me portanto os efeitos de um desses momentos.

JUNT O A UMA CAMPA

Que seria de ti, se desfolhada
Não fosses, linda flor, no chão da morte?
Quem pode ler na página cerrada
Do livro do futuro a ignota sorte?

Ninguém; e quantas vezes iludidos
Choramos o que é núncio de ventura?
Quantas, na esperança de prazeres mentidos,
Vemos luz onde tudo é noite escura?

Que seria de ti? Não sei. Se escuto
A voz do coração, fala de amores.
Mas quem me diz que a dor com que hoje luto
Não findará com o aroma doutras flores?

Que me diz que minh'alma, que palpita
Ao recordar-te, ó virgem desditosa,
Não viria inda um dia a ser precita
Ao fogo da paixão mais poderosa?

Quem sane ? Tudo muda: o peito do homem
Como a ondulante face do oceano;
A um volvem as paixões que nos consomem,
A outro as fúrias do vento vário e insano

Tudo muda! E meu seio não se exime Da eterna lei que reg e este universo: Bênção ou maldição. Ela se exprime
Sem cessar na existência desde o berço.

E então se no porvir o ardente culto Que eu te votava, ó sombra idolatrada, Tivesse de findar, antes sepulto
Seja todo este amor na urna gelada.

Foste feliz talvez, talvez na vida
Tivesses de provar amarga taça,
E hoje à sombra da campa, adormecida
Colhes a prec e e o pranto de quem passa.

Vivias para amar, morreste amando, Morreste rodeada do perfume
Da divindade, e virgem, não ansiando
No pungir aflitivo do ciúme.

Morreste amando e amada. Sobre o leito
Onde tombaste inânime, sentiste
A sacra chama que me enchia o peito
E na extrema agonia inda sorriste.

Não devo lamentar-te, não. Podias
Sentir na vida dores que ignoraste;
E eu mesmo, a quem do túmulo sorrias,
Talvez te desse a coroa, que enjeitaste;

A coroa do martírio, que a não colhe Quem verga, como tu, tão cedo à terra; Mas sim quem vive e ao túmulo se colhe Depois de transes de porfiada guerra.

Eu li na descrição de antigas viagens
O destino de um náufrago, que os ventos
Sobre parcéis e incógnitas voragens
De longe arremessaram violentos.

Ia a desfalecer, no húmido abismo Buscando o último leito e o eterno olvido, Mas no esforço do extremo paroxismo
Firmou-se às rochas de um penhasco erguido.

E salvou-se! prostrado sobre as
Ao Eterno com júbilo agradece ;
E, olhando ao longe as furiosas vagas,
Do destino dos mais se compadece.

Mas bem cedo na estéril penedia Colheu o triste amargo desengano, Vendo seguir-se um dia após um dia, E tudo só na vastidão do oceano.

Era a mudez da campa! Em passos lentos
Se aproximava a descarnada fome;
Longos dias de horríficos tormentos
A preceder-lhe um túmulo sem nome!

Até que enfim o pobre, quase louco, Pra fugir à tortura que o devora,
Nas próprias ondas, que evitara há pouco, Busca o refúgio, o passamento, agora!

Nos naufrágios da vida, quantas vezes Nós, pobres nautas, o furor das vagas Vencemos, pra mais ríspidos reveses Irmos sofrer em solitárias plagas!

Feliz o que sucumbe na tormenta;
Um instante de angústia... e o eterno sono
O livra do martírio que experimenta
O que sofre na Terra o abandono.

Feliz pois tu, que cedo desfolhada Caíste, ó bela flor, no chão da morte; Quem sabe o que na página cerrada Do livro seu te reservava a sorte?

20 de Dezembro de 1861

A ESPERANÇA

No passado, uma saudade, No presente, uma amargura, E no futuro, uma esp'rança De imaginária ventura;

Eis no que consiste a vida Imposta por Deus ao homem. Nisto se consomem dias!
Nisto anos se consomem!

Saudade é flor sem perfumes
Quando ainda verdejante,
Mas à medida que murcha,
Ai, que aroma inebriante!

A amargura é duro espinho Que nas carnes penetrando, Faz desesperar da vida,
Suas flores definhando.

A esperança é frouxa luz
Que nas trevas nos fulgura;
Vendo-a, ousados caminhamos:
Mas, ai, que bem pouco dura;

Quantos mais passos andados Na agra senda desta vida, Mais amargo é o presente,
E a saudade mais sentida.

Mas a esperança não; os anos Fazem-lhe perde r o brilho; Caem-lhe uma a uma as folhas Da existência pelo trilho.

A velhice nada espera,
Nada da esperança lhe dura...
Mas não, cansada da vida,
Tem a paz da sepultura.

Tem a morada fulgente
Da inteligência divina;
Tem as regiões sagradas,
Que eterno sol ilumina.

Bendito sejas, meu Deus! Que nos dás na vida inteira
A filha dos céus, a esperança, Por suave companheira.

Ela nos enxuga o pranto
O pranto alegre e amargoso;
Não a acusemos de pérfida,
Esperar já é um gozo.

A mente, esperando, concebe, Concepção sempre iludida, Prazeres talvez entrevistos
Nas cenas duma outra vida.

Esperemos, pois, companheiros
Desta fadigosa viagem!
Se a esp'rança é a imagem do gozo,
Adoremos essa imagem.

E cruzando este oceano Com os olhos no porvir. Esqueçamos no presente Seu horroroso bramir.

E quando enfim, já cansados, Reclinarmos nossa fronte.
Que a esperança nos revele
Mais dilatado horizonte.


Agosto de 1859.

ILUDAMO-NOS

Desenganos do passado, Não servireis ao porvir? Sempre a perde r ilusões Sempre ilusões a sentir!

Não mais, não mais; nesta vida
Ainda esperar é loucura.
Sofrer: eis nosso destino!
Sonhar: eis toda a ventura!

Soframos pois... Não, sonhemos, Criando mundos ideais,
E com mentidos prazeres
Curemos penas reais.

Ilusões, sede bem-vindas, Povoai-me o pensamento: Convosco, sim, a ventura Se goza per um momento.

O ANJO DA GUARDA DA INFÂNCIA

Desci dor celestes coros, Por Deus mandada escutar
Da infância as queixas e os choros, Para lhos ir confiar.

Desci. Na terra, nos mares
Tanta miséria encontrei,
Que os meus magoados olhares
De terra e mar desviei.

Desci. E tantos gemidos, Tão dolorosos ouvil
Que, turbados os sentidos, Quis recuar... mas desci.

Nesta colheita de dores Pelo mundo todo andei, No pranto dos pecadores As minhas vestes molhei.

Vagueando dias e dias
Chegara à Judeia enfim,
Quando um clamor de agonias
Veio de longe até mim.

O Sol, o Sol inflamado Destas terras orientais Tinha no disco afogueado
Não sei que estranhos sinais.

Soavam menos distantes
Sinistros brados de dor
Choros de mães e de infantes
Cantos de morte e terror.

Vi anjos de asas nevadas
Em bandos subir ao Céu,
Quais pombas amedrontadas
Fugindo à voz de escarcéu.

«Onde ides? Quem vos persegue ? A que tormentos fugis?»
Um que triste o bando segue, Estas palavras me diz:

Somos as almas de infantes Mortos em guerra feroz; Inda das mães delirantes Nos chama a sentida voz.

« Só a materna saudade
Nossa carreira detém,
Embora no Céu, quem há-de
Esquecer o amor de mãe?»

Disse e o semblante formoso
Com as asas encobriu,
E ao bando silencioso
Silencioso se uniu.

Eu segui. Na ampla cidade
Aterrada penetrei...
Ai, da fera humanidade
Os meus olhos desviei!

Que cena! Corre nas praças
Sanguinária multidão
Como nuvem de desgraças
Semeando a desolação.

Caem por terra, sem vida, Tenras crianças às mil,
E uma turba enfurecida
Corre à matança, febril.

As mães pálidas, chorosas, Suplicam, pedem em vão! Nessas feras sanguinosas Não palpita um coração.

Outros tentam, em delírio, Os seus filhos disputar
E com eles no martírio
Gostosas se vão juntar.

Sobre a terra ensangüentada
Eu soluçando, ajoelhei,
E de intensa dor magoada,
A Deus piedade implorei.

Findava a prece, e uma estrela
No horizonte despontou,
Pura, cintilante, ela
O caminho me traçou.

À humilde e escondida estância
Da venturosa Belém
Cheguei; vi um Deus na infância
Nos ternos braços da mãe.

Minha colheita de dores
Naquele berço depus,
Da humanidade aos rigores
Pedi remédio a Jesus.

No olhar do divino infante
Raiou luz e fulgor,
Foi a aurora radiante
Que anuncia um redentor

Publicados no romance A Morgadinha dos Canaviais,

HINO DA AMIZADE
     (A meu primo e amigo José Joaquim Pinto Coelho)

Amigo, concede que as notas da lira
Te sagre num dia a que tantos sorri;
Se a triste, saudosa, de mágoas suspira,
Soará d'esperanças agora por ti.

Escuta-a; se as vozes são fracas, afeita
Que ela é desde muito com os cantos da dor,
Seu débil tributo, seus hinos aceita
Qual tênue perfume de lânguida flor.

Os anos são marcos na senda da vida, Nos quais o viajante costuma parar,
E os olhos volvendo na estrada corrida, As cenas passadas lhe apraz recordar.

Suspende um momento teus passos, suspende, Na santa romagem que cumpres al,
E além, ao passado teus olhos estende, Além, ao passado, contempla-o daqui.

Oh! pára, paremos, que as cenas doutrora, Tão ricas de encantos, são minhas também; Pois juntos nos vimos da vida na aurora,
E juntos passamos os anos além.

Além,- ao mais longe que avistam teus olhos, Estende-os amigo; repara, que vês?
Formosa campina de flores, sem abrolhos, Mais bela a distância, que ao perto talvez.

Ai — não te lembras ? — correu-nos a vida, Qual linfa tranqüila no prado em Abril,
De dia em folguedos a mente esquecida, De noite enlevada por sonhos aos mil.

Ai tempos de encantos, ai fúlgidas cenas
Volvidas com os anos chorados em vão;
Ai, quanto mais gratas não são tuas penas,
Que a própria ventura que as outras nos dão!

Paremos, amigo, paremos ainda
A olhar esta quadra tão longe de nós;
Que a luz que a ilumina bem cedo se finda,
Que os entes que a adornam deixaram-nos sós.

Tão "gratos nos eram da aurora os fulgores, Como o último raio do dia a findar,
Que se uns ainda ao peito nos falam d'amores, Os outros saudades nos vem despertar.

Após esta parte da nossa jornada,
Tão bela e tão curta, lá se ergue uma cruz,
E eu, órfão mesquinho, na campa ignorada
Não pude ajoelhar-me, nem flores depus.

E as cinzas queridas... mas não, adiante, Perdoa, perdoa, se esqueço o meu fim;
Ó lira, teus crepes arroja distante; Ó alma, tuas dores divulgas assim?

Mas nesses instantes em que eu na orfandade
Aos ecos tão tristes falava da mãe,
Os laços ligando da nossa amizade,
As vestes de luto cingias também.

Porém nova quadra se segue. A corrente Da vida mais turva pra nós se mostrou; Pequenos martírios que sofre o inocente De que hoje nos rimos, o peito provou.

No meio de estranhos eu vi-me sozinho, E assim na carreira das letras entrei.
A mão que meus passos guiou com carinho
A morte roubou-ma, eu só caminhei.

Mas ainda então mesmo na vida de criança
A nossa amizade não pôde esfriar;
Nas horas votadas à grata folgança
De júbilo cheio te vinha encontrar.

Mais tarde a nós ambos na senda da vida Guiou-nos os passos benévola mão. Recordas-te dele ? Da imagem querida,
Da imagem saudosa do amigo, do irmão?

Que tempo, que cenas passámos unidos! " Prazeres, trabalhos, leituras comuns!
Ai, quantas saudades dos tempos volvidos
Me restam no peito, remorsos nenhuns!

Aquela nobre alma, já perto da morte, Que negra adejava de si ao redor,
Mais nobre por isso, mais bela, mais forte, Pra as lutas da vida nos dava calor.

O Sol à florinha que adorna a colina, Já perto do ocaso não nega o luzir; Sem ele os rigores da brisa ferina Faziam-lhe o sopro da vida exaurir.

A estrada apontou-nos que afouto seguira, E onde tão firme marchar sempre o vi,
Em nós verte o alento que a ele o inspira, E pára ao dizer-nos: «Eu fico — parti!»

E a sombra seguindo do irmão, que lhe aponta, Fugenta de esperanças a estrada do Céu,
A terra abandona, no empíreo desponta, E cedo para sempre de nós se perdeu.

Ao ver-me sem ele sozinho na vida, Faltaram-me as forças, tentei recuar,
Que a luz que me guiava, na campa sumida, Em trevas profundas deixou-me ficar.

Mas ainda de novo pra mim sua imagem, Surgindo da campa, me veio sorrir,
Alento infundir-me, bradar-me: «Coragem !» E eu, forte, sua obra não quis destruir.

Por outro caminho seguiste, contudo
De espaços a espaços cingimos as mãos:
Nas lides da vida, nas lides do estudo,
Jamais esquecemos o nome de irmãos.

Mil vezes à sombra do denso arvoredo
Falávamos ambos do nosso porvir,
Dos tempos passados, do ignoto segredo
Que dentro do peito tentava florir.

Ao fim da carreira, que ansiado trilhava, Após mil fadigas enfim te encontrei;
Mas antes, de novo a dor nos magoava: De um túmulo à beira contigo chorei.

Aos mares da vida teu barco lançaste: Na margem parado, meu barco sustei. É tempo! Partamos. Tu, forte, cruzaste
As ondas, e «Ao largo!» bradar escutei.

Mas lá que me espera ? nas vagas furiosas Veria afundar-se meu pobre baixei; Vogando tão longe de praias formosas
Irá destruir-se num outro parcel?

Calai-vos, inquietos anelos dum peito, Que muito receia, por muito querer ;
Calai-vos, esp'ranças com que eu me deleito
Nas horas mais gratas dum triste viver.

Oh! deixa, deixemos tão longo horizonte, Que vago e obscuro para todos ele é: Deixemo-lo, amigo, 'té quando desponte, Esperemo-lo fortes de esperança e de fé.

E a vista lancemos mais perto: no espaço
Bem curto em distância, de afectos maior,
Que vemos? Os entes, que um cândido laço
Reúne em família com santo fervor.

Nos rostos que anima fulgente alegria, Amor e ventura bem fácil se lê;
E a idéia que é hoje de encantos um dia, O seio lhes enche de júbilo. Vê.

Louvemos o Eterno, que assim te permite Provar duma taça tao pura e sem fel; Saudemos o dia que aos rostos transmite Os gozos, que verte no peito fiel.

Desviemos o rosto das nuvens passadas, Fechemos os olhos às trevas por vir,
E as horas presentes, à paz consagradas, Gozemos; gozemos tão belo existir.

E agora perdoa se as notas da lira
Num dia como este, que a tantos sorri,
As vezes, saudosa de mágoas, suspira,
Em vez de esperanças soar só por ti.

20 de Outubro de 1861.

 

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