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Poesias

Júlio Dinis

NUM ÁLBUM

Se exigirem perfumes às flores
Pra tecerem com elas grinaldas,
Não procurem do monte nas fraldas
A modesta e inodora cecém.
Se igualmente desejas, amigo,
Para aqui mais que versos, poesia,
Antes deixes a folha vazia,
Pois meus versos poesia não têm

SONHO
(DE H. HEINE)

Sonhando, chorei. Sonhava Que morta te estava a ver. Acordei: ardentes lágrimas Senti nas faces correr.

Sonhando, chorei. Sonhada Que tu me querias deixar. Acordei: amargamente Fiquei depois a chorar.

Sonhando, chorei, Sonhava
Que esse amor ainda era meu.
Acordei: corre o meu pranto
Como ainda assim não correu,

Abril da 1864.

A NOVIÇA
(NO ÁLBUM DA EX.MA SR.ª D. JÚLIA ALVES PASSOS)

«Oh! vem, querida irmã, do santuário do templo, Já desce a receber-te o celestial Esposo.
Vem ser da nossa fé sublime o vivo exemplo; Vem, deixa sem pesar do mundo o falso gozo.

«Vem; dos círios à luz, ao som de alegres hinos, Cinge o hábito escuro, emblema da humildade,
E, abrasada no ardor dos teus estos divinos,
Despe, ao entrar no claustro, as galas da vaidade,

«Esposa do Senhor, virgem cândida e pura, Do teu noviciado expiram hoje os dias.
Não tremas ao fitar as portas da clausura; Também na estreita cela há brandas alegrias.»

Assim das monjas soa o religioso canto: Juntas, em procissão pelas extensas naves,
Espalham-se na igreja as vozes do hino santo, Melancólica voz de aprisionadas aves.

Caído o longo véu por sobre a fronte airosa
Caminha lentamente a pálida noviça;
Nos olhos lhe fulgura uma aura misteriosa,
Um como cintilar de lâmpada mortiça.

Sobre os degraus do altar humilde se ajoelha
E ao culto fervorosa as trancas sacrifica.
«Recolhe-te ao redil, imaculada ovelha,
Teus tesouros d'amor nas aras santifica.»

E o coro ergue outra vez o ritual hosana,
Entre nuvens de incenso, à voz do órgão sagrado; Responde-lhe o rezar da multidão profana,
Que transpôs curiosa o pórtico elevado.

A cerimônia é finda; a monja de joelhos
Permanece, inclinada a face sobre a terra;
Era no ocaso o Sol; e seus clarões vermelhos
Vinham tingir o altar, tingindo ao longe a serra.

Longo tempo ali esteve, as pálpebras descidas. Imóvel, silenciosa, em êxtase absorta.
Ergueram-na afinal as monjas comovidas: Doloroso mistério... a pobre estava morta!

Julho de 1865.

O CASTIGO DE DEUS

Terminara a peleja. Ensangüentado Jaz o campo da atroz carnificina: Um sinistro clarão avermelhado
Do exército ao longe a marcha ensina.

O incêndio, a ruina e a feroz matança
São as relíquias da já finda guerra.
Ai dos vencidos! Gritos de vingança,
Perseguem os fugidos pela serra.

Ai dos vencidos! A furiosa plebe
Erra nos campos com medonha grita;
Não dá quartel, piedade não concebe;
Um cruento furor a move e agita.

Corre em tropel, corre ébria de vitória, Arrastando os cadáveres despidos. Maculando os lauréis da sua glória
Na lama, envolta em sangue dos vencidos

Num vale retirado, umbroso, oculto, Estorcia-se um velho agonizante.
Ouve em delírio, um hórrido tumulto, Qual de demônios infernal descante.

Com o rosto alterado, o olhar extinto, Pálida a fronte, sem vigor, já fria.
«Ai, que sede cruel esta que sinto!
Água, dai-me água!» diz. Ninguém o ouvia.

«Água, dai-me água!» brada com voz rouca, Que se lhe prende na árida garganta.
Ao longe, a turba, numa orgia louca, Hinos blasfemos, implacável, canta.

No delírio violento, que alucina,
Julga-se às vezes de um regato à borda ;
Bem-diz, chorando, protecção divina,
Mas ai, que cedo deste sonho acorda.

Acorda, e vê-se à beira de um abismo; Queimam-lhe os lábios qual ardente frágua, E a custo, em terrível paroxismo,
Sufocado repete : «Água, dai-me água!»

Como se Deus escutasse
O grito do agonizante,
Surge do velho diante
Uma angélica visão;
Com as lágrimas em fio
Pelas faces cor de neve
Caminha com passo leve
Para o prostrado ancião.

Na brandura do semblante,
No olhar magoado e aflito
Lê-se um poema inteiro escrito
De caridade e de amor.
Corre ansiada e pressurosa
E toda cheia de graça
Em socorro da desgraça
Com piedoso fervor.

Junto do velho ajoelhada Ergue-o com meigo desvelo; E as trancas do seu cabelo
Às cãs se vão misturar. Aproxima-lhe dos lábios A água que ele pedia;
E ao vê-lo bebe r sorria... Sorria... mas a chorar.

E uma lágrima fervente, Gentil pérola preciosa, Caiu na fronte rugosa
Do velho, que estremeceu.
E só então, como em sonhos,
Foi que o triste moribundo
Fitou um olhar profundo
Neste enviado do Céu.

Ela sorrindo-lhe meiga, Ao vê-lo assim admirado
Lhe disse : «Velho soldado, Bebei, coitado, bebei.
Há dez anos, nestes sítios, Como vós, velho, ferido,
O meu pai estremecido, Após a guerra encontrei.

«Como o vi, meu Deus! Já frio, Já co'a vista embaciada,
A fronte roxa, gelada,
Os lábios em fogo, a arder.
«— Água! — bradava convulso;
— Água! — que de sede morro I »
A fonte vizinha corro...
Cheguei... para o ver morrer.

«Era então criança ainda; Mas esta cena de morte Impressionou-me de sorte Que nunca mais a esqueci.
Sempre, sempre aquela imagem
Muda, pálida, cruenta,
Nos meus sonhos se apresenta;
Vejo-a ainda como a vi.

«Curvei-me sobre o cadáver
A aquecê-lo com meus beijos;
Ai, baldados meus desejos!
Que esse frio era mortal.
Jurei então, pela Virgem,
No fervor da minha mágoa,
De correr sempre com água
Pelas tendas do arraial.

«Quantas vezes à blasfêmia,
Que o delírio ao peito arranca,
Esta água, que a sede estanca,
Bendita por Deus, pôs fim!...
Quantos nobres cavaleiros,
Quantos moços, quantos velhos,
Eu vi cair de joelhos,
Soluçando ao pé de mim!

«A cada sede que estanco, A cada dor que mitigo, Pareca-me que consigo Matar a sede a meu pai, Àquele velho soldado
Que há dez anos, nesta selva, Sobre uma cama de relva Exalou o extremo ai.»

O velho, ouvindo-a, estremece.
«Nestes sítios ! Há dez anos!
Impenetráveis arcanos!
Dedo invisível de Deus!
E és tu quem me socorres ?!
Luz fatal se me revela.
Vingaste teu pai, donzela,
Cumpriste as ordens do Céu!»

E a fronte lívida, exausta Por extremado cansaço, Deixou pender no regaço
Da pobre órfã que a sustem. Um supremo olhar de angústia Nela por momentos fita;
Nela, que o encara aflita
Como carinhosa mãe,

«Morre em paz, velho soldado, Por mim meu pai te perdoa,
Se a hora extrema já te soa, Podes alegre partir.
Que seja esta gota d'água
A que te lave do crime;
Possa esta dor, que te oprime
As tuas culpas remir I»

E ao longe a turba infrene tripudiava Sobre o cruento campo da matança; Dos homens a vingança ali reinava. Reinava aqui de Deus só a vingança.

NO BAILE

Ia o baile a findar. Nas vastas salas, Que o fulgor de mil cirios ilumina,
Soarn da orquestra as notas harmoniosas
A convidar a derradeira valsa.
O seio a arfar, as trancas em desordem,
Os ombros nus, o gesto requebrado. Como estrelas cadentes, as valsistas
Em veloz turbilhão girando, passam. Nos dourados espelhos se reflecte
Todo o encanto da cena. Novos mundos
Luminosos, ílorentes, dali surgem
Longe e ao longe se estendem sem que possa
Encontrar-lhes limite a vista errante.
Tudo se move e agita, aqui e em torno.
Confunde-se a ilusão com a realidade;
Cingem-se ao peito virgens palpitantes, E vêem-se fugir, fugir, sorrindo,
No fantástico mundo dos espelhos; Outras se lhe sucedem. Que segredos ! Que segredos d'amor nesses olhares Lânguidos, desvairados, expressivos! Que segredos traídos na imprudência
De um aperto de mão involuntário! Que mudas confidencias eloqüentes!
Que indiscretos suspiros! um momento
Traiu as longas, tímidas reservas
De castas namoradas. No delírio
Em que a valsa lasciva as arrebata,
Já nem sabem fingir, dissimulando, Em frias aparências, os ardentes
Estos do coração, rendidos a amores. Soltam-se-lhes as flores do cabelo.
E esfolhadas no pó, são esquecidas.
Ai, descuidosas virgens, que não vedes
No destino da flor vosso destino!
Esquecidas as tristes! Já sem viço,
Sem cs encantos já do aroma e cores,
Quem se lembrará delas? Quem, sensível, As erguerá do chão, murchas, calcadas,
Se vós as desprezais assim? Mas ide, Ide, voai, ligeiras borboletas!
Ide, voai nas asas da harmonia!
Embriagadas d'amor, correi... mais tarde, Como essas flores que por vós... Mas longe,
Longe uma idéia negra, no momento
Em que o prazer vos foge. À valsa! à valsa!
Mais rápida! mais rápida! Nas salas
Já desmerece o refulgir das luzes.
Mais rápida! Convulsos, enlevados
Giram os pares em redor. Que febre!
Que febre de volúpia os alucina! Mais rápida! A vertigem se apodera
Dos sentidos. Estreitam-se os braços, E os lábios inflamados, quase, quase Em êxtase d'amor se tocam. Vede-a! A alvoroçada turba de formosas, Louras, morenas, cândidas, lascivas, Quais rosas soltas de variadas cores.
Em vórtice fatal arrebatadas
De profunda voragem, assim passam!
Que mágico poder as enlouquece?
Em que órbita de luz volvem sem tino? Que vista as seguirá, que fascinada
Não vacile também? Inda mais rápida! Mais e mais 'té que exaustas de cansaço Caiam, talvez sem vida, as imprudentes

TERÇA-FEIRA

I

Rompera a manhã sombria,
Destas que fazem tristeza;
Em perfeita calmaria
Repousava a natureza.

Repousava. As ondas mansas Vinham quebrar-se na areia. Que mar tanto de esperanças! Que enganadora sereia!

O arrais, correndo os palheiros,
«Ao mar!» grita. «ao mar, aos remos !»
«Para as lanchas, companheiros;
Grande safra hoje teremos.»

E a pobre gente da costa, Essa raça destemida,
Que a morte sem medo arrosta, Num momento é toda erguida.

Ei-los na praia. Cantando
Se dão à tarefa santa,
Que nesse arrojado bando
Quem mais trabalha, mais canta.

Sao todos? Todos não. Falta Da companha o mais valente! Esta nova sobressalta
O peito daquela gente.

«Partir sem ele ! Por Cristo, Que a primeira vez seria.
Em qualquer lance imprevisto
Quem tanto nos valeria?»

Tudo pára, tudo hesita,
Mãos nos remos, mão no leme;
Que o seio a muitos palpita,
Que a muitos a mão já treme

II

Ora, no pobre palheiro
Do pescador que tardava,
Eis que ao alvor primeiro
Desta manhã se passava:

Ele acordara, e na esposa, Que ao lado dorme tranqüila, Repousa a vista amorosa,
E ao despertá-la, vacila.

Vacila — se é tão suave Aquele dormir ! tão brando! Mas não sei que idéia grave Lhe está na mente pesando.

Ternamente ao seio a aperta, E lhe diz com gesto ameno:
— «Mulher, teu filho desperta, Acorda-me esse pequeno.»

A jovem mãe estremece
— «Que acorde meu filho, dizes !
Deixa-o dormir. Deus lhe desse
Sempre assim sonos felizes.»

— «Acorda teu filho, acorda, Tal dormir não é para ele ;
Tempo é que da lancha à borda
Como os outros também vele.»

—«As lanchas! ao mar!... pois queres?... » E a mãe empalidecia.
— «Nesta vida de mulheres
Não é que um homem se cria.»

— «Mas tão novo!...» — «Inda mais novo
Meu pai me levou consigo.»
— «Mas... —já se fala entre o povo
«Do rapaz». — Mas ouve, amigo...»

E a voz trêmula e chorosa Quase em pranto se afogava. Curvara-se ao mar a esposa, Mas a mãe, essa, hesitava.

Hesitava, que se lhe ia
A alma toda, dando aos mares
O filho, a sua alegria,
O lume dos seus olhares.

— «Ouve», murmura, chorando
«Por Deus te vou pedir isto!»
E depois, em tom mais brando,
•<Em nome de Jesus Cristo!

«Deixa-mo ficar, marido,
Hoje só, ai! hoje ao menos!...
Fraco auxílio o recebido
Dos braços desses pequenos!

«Bem sabes que tudo os cansa... Sempre sois tão desumanos!
E depois... essa criança
Inda não fez os dez anos.»

— «Agoura-me bem o dia
Para lhe abrir a carreira.»
— «Porém, ó Virgem Maria,
E hoje então que é terça-feira!»

— «Mulher, deixa essas idéias, Iguais são todos os dias;
Em maus agouros não creias, Se é que no Senhor confias.

«Apronta teu filho, apronta,
Que hoje há-de entrar na partilha,
E olha que o Sol já desponta;
Anda, acorda-o, minha filha.»

III

— «Filho, filho, ergue-te, acorda... Para quê, só Deus o sabe...»
E em lágrimas lhe trasborda
A dor que n'alma nao cabe.

— «Sonhavas talvez brinquedos, Pois que sorrias dormindo; Verás brincar nos rochedos
Esse mar que está bramindo.

«Vai inda quente do berço, Inda quente dos meus beijos, Para um mundo bem diverso Do sonhado em meus desejos.

«Vai, tu que sempre dormiste Ao som de minhas cantigas, Dormitar à canção triste
Dessas ondas inimigas.

«E sorris, anjo querido,
Ao passo que eu choro tanto,
Pois não sabes o sentido
Deste doloroso pranto?

«Não sabes que se me parte
O meu coração no peito
Ao vir assim acordar-te
Do teu sossegado leito?

«Não sabes que minha vida, Pobre filho, vai contigo,
E que nesta despedida
Trocas pra sempre este abrigo.

«Este abrigo de meu seio, Por perigos e cansaços?! Não sei, não sei que receio Ao tirar-te de meus braços.

«Choras, filho? Ai, não, não chores, Que me tiras todo o alento;
Já me bastam minhas dores, Basta-me o meu pensamento.

«Deus é bom. Nem sempre os mares
Se alevantam com tormentas.
Não chores, que se chorares,
O meu pesar acrescentas.

«Sossega. Esta cruz benzida
Leva contigo, e descansa,
Pois quem é tão bom na vida,
Deve em Deus ter confiança.

«Vai, que eu à nossa Senhora, Àquela Virgem das Dores,
Que é a tua protectora, Rezarei logo que fores.

«Limpa essas lágrimas, vamos, Que teu pai tas não conheça. E a oração que te ensinamos, Ai, vê lá! nunca te esqueça.»

IV

E viu-os partir. E o pranto
Lhe inunda as faces. Desmaia.
Dos pescadores o canto
Se escuta ao longe na praia.

Oh! que tristeza tamanha! Que pressentimento amargo,
Quando as lanchas da companha
Se fazem, remando, ao largo!

Junto à imagem de Maria Esta outra mãe dolorosa De joelhos todo o dia
Lhe ergue preces, fervorosa.

«Ó Mãe de Deus, luz divina, Que alumias nossas almas!
Ó estrela matutina,
Que as tempestades acalmas!

«Baixa à Terra esses olhares, Nossa única esperança,
E, voltando-os sobre os mares, Protege aquela criança.

«Compadece-te, Senhora, Destas lágrimas sentidas; Estende a mão protectora Sobre aquelas pobres vidas.

«Vê que me andam sobre as águas
Todos quantos estremeço.
Mãe, que entendes minhas mágoas,
Diz se essas vidas têm preço !

«Pela angústia que sentiste
Junto da cruz, ó Maria,
Vale-me nesta hora triste,
Vale-me nesta agonia.»

No meio de ardente prec e Ergue-se inquieta, palpita, Fitando o céu, que escurece, Ouvindo o mar, que se agita.

V

Era ao tempo das Trindades: As aves, que pressagiam
O chegar das tempestades, Amedrontadas gemiam.

A mãe segue na carreira
Uma vaga e outra vaga.
« Terça-feira! terça-feira!»
Lhe diz uma voz pressaga.

Já treme. Os olhos velados, Onde a angústia se revela, Pelos mares agitados
Não descobrem uma vela.

E as nuvens correm velozes, E o vento revolve a areia.
Já se ouvem confusas vozes
Na praia de gente cheia.

Velhos, mães, tristes esposas, Crianças nuas, em choro,
Altas vozes, lastimosas, Erguem num sinistro coro.

Que cena! e redobra o vento, E condensa-se a neblina,
E o mar rebrame violento, E a noite a cena domina.

E à luz de algumas fogueiras
Escassa, tênue, funesta,
Movem-se sombras ligeiras
Como se em diabólica festa.

E ela, a mãe em desatino, Corre, pára, escuta, chora, Maldiz o poder divino... Depois seu perdão implora.

Os olhos na sombra fitos, Dessa noite escura, escura, Eleva-os ao Céu aflitos,
E em vão um astro procura.

E o raio, que as trevas densas
De quando em quando devassa,
Mostra-lhes vagas imensas,
Negros abismos, e passa

VI

Só à luz da madrugada
Se acalma a brava tormenta.
Que noite em ânsias passada,
Tão pavorosa! tão lenta!

O céu reflecte nas águas
A cor azul de bonança.
E vai sanando as mágoas
A branda luz da esperança,

— «Barcas ao longe! nao vedes ! Oh! que alegria tamanha!
Deus abençoou as redes,
São as lanchas da companha.»

Crianças, mulheres, velhos, Ao ouvirem este grito, Todos, todos de joelhos Cantam piedoso Bendito.

Ei-las vêm! Braços valentes Afeitos àquela guerra, Cortando os mares frementes As impelem para a terra.

Na turba dos pescadores
A mãe com turbado aspecto,
Inda escuro de terrores,
Procura o filho dilecto.

Tudo exulta de alegria;
Cada qual os seus conhece...
E ela só, muda, sombria,
Sobre a praia permanece.

Ei-los enfim! Que transportes, Que lágrimas os esperam! Vêem-se chorar os mais fortes
Dos que no mar não tremeram.

Por entre os grupos vagueia
A mãe, trêmula, calada,
De negros agouros cheia,
De vago pavor tomada.

Quase em delírio vê tudo, Como se através dum sonho; De repente um grito agudo Soa na praia medonho.

É que pálido, abatido,
Junto ao mar o esposo vira;
E que terrível sentido
Naquela dor descobrira.

— «Que negro presságio é este
Que leio nos teus olhares?
Do meu filho o que fizeste?»
— «Pergunta-o a esses mares.»

No grito que a triste solta
Vai-lhe a razão, mais que a vida!
Depois para o mar se volta,
Turba, pálida, perdida...

— «Não! não hás-de assim roubar-me
O filho destas entranhas,
Não podem intimidar-me
As tuas iras tamanhas.

«Não vês que tenho no seio Este amor? Espera, espera, Ruge ! não tenho receio; Ruge, amaldiçoada fera!

«Ruge!» e sem tino, movida Da alucinação que a agita, Rompendo em veloz corrida, Nas ondas se precipita.

Em vão lhe açodem, que forte
O filho às vagas disputa.
Era um combate de morte!
Era uma tremenda luta!

E na manhã do outro dia Viu-se na praia arrojada A mãe, que, morta, sorria
Do filho ao corpo abraçada.

1865

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