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Poesias

Júlio Dinis

MELANCOLIA

Em paz, deixai-me em paz, meus pensamentos, Não me faleis nos tempos que lá vão.
De que serve pensar nesses momentos? Volvidos para sempre eles não estão?

Oh! deixai-me esquecer o curto instante
Em que mãe e irmãos no mundo vi!
Não achais triste e amarga ainda bastante,
A amarga solidão que passo aqui?

Que pretendeis falando do passado?
Que quereis? que exigis ainda de mim?
Lágrimas? Não vos bastam as que hei chorado?
Pra que as saudades me avivais assim?

Eu vejo os outros anelar ansiosos
Prazer, orgias, festas sem cessar;
Eu não, que invejo mais suaves gozos,
Gozos que a morte me impediu de gozar

E assim me corre a vida! só comigo, E a memória do tempo que passou,
E sem um coração, um peito amigo
Que a sorte, a sofrer só, me condenou.

O homem primeiro, do Éden desterrado, Triste, rojava a fronte pelo pó ;
Mas ele tinha ao menos a seu lado
Um ente que o amava e eu... estou só !

Que a solidão não é erma de gente,
'Té no meio da turba a pode haver.
Pois que nos vale a turba, quando um ente
Não vemos, que nos saiba compreender ?

Quase tudo que amava, emurchecido
Pelo sopro da morte cair vi.
Como entre ruínas, mausoléu erguido,
À destruição dos meus sobrevivi.

E para quê, Senhor? Qual é meu norte? Que missão nesta vida hei-de cumprir? Oh! antes, antes me levara a morte,
Pois que assim, é tormento o existir.

Sombra da campa! que te tema aquele, A quem ventura, ou um amor sem fim Da vida ao seio e do amor impele.
Teu frio leito não me assusta a mim.

Foi-me o passado instante de ventura, É-me o presente um século de dor ;
E o porvir, envolvido em noite escura, Que me reservará? Morte ou amor?

Se o anjo que em meus sonhos imagino, Eu tenho de encontrar, quero viver.
Mas... se não... corre, apressa-te, destino! Abre-me a campa; tarda-me morrer.

Em paz, deixai-me em paz, meus pensamentos, Não me faleis nos tempos que lá vão.
On! deixai-me esquecer esses momentos, Já que volvidos para sempre estão.

1859

NAO POSSO

Pedes-me um canto, anjo? Ai não, não sei cantar-te, Hinos para elevar-te
Não sabe a minha voz. Os grandes sentimentos As majestosas cenas Sentimo-las apenas;
Que mais podemos nós?

Qual é a linguagem,
Que as sensações exprime
Dessa hora tão sublime
Das confissões de amor?
Se um ente amado expira...
Junto ao lutuoso leito,
Do que nos vai no peito
Quem pode ser cantor?

Nas praias do oceano
Ao som dos seus bramidos
Enlevam-se os sentidos,
Escuta o coração.
E as horas passam rápidas,
Delícias sonha a mente...
Mas, o que então se sente
Cantar se tenta em vão.

Sob as arcadas tristes De templo sacrossanto Sobe, com fervor santo, O pensamento a Deus. Da fé íntima e pura
A alma aí se inspira... Porém pode a lira Cantar nos hinos seus!

Ai não me peças cantos! O sentimento é mudo, Diga o silêncio tudo Quanto eu não sei cantar
Mas, se amas... se no peito
Íntima voz te fala,
Tudo o que a lira cala
Lerás num meu olhar

Novembro de 1859

Se esta poesia tem um leve fumo de verdade, ele é tão fraco e desvanecido, que não me atrevo a alistá-la entre as verdadeiras, em quanto ao facto; pois em quanto aos sentimentos, sustento qu e o é; e julgo não ser o único nesta crença. Estes versos talvez me justifiquem de arguições futuras. É uma poesia de preven. ção. Olhem-na como tal.

AURORA DE ARREPENDIMENTO

Fugi, fantasmas lividos! Fugi, lúgubres sonhos! Espectros tão medonhos Deixai-me em paz! parti! Não vedes como fúlgida
A Lua do Sol já surge? Deixai-me; o tempo urge, Nas trevas vos sumi!

Há muito que a ave lúgubre
Calou seus tristes hinos;
E, ao longe, a voz dos sinos
Vos diz — eis a manhã!
E vós, negros espíritos,
Travando estranha dança,
Me murmurais: Vingança!
Vingança?... Sombra vã!

Esperais que ao som horrífico De vossos mil clamores, Pungindo de terrores
Me roje pelo chão?
Que ao ver as minhas vítimas
Surgir da sepultura
Cedendo a atroz tortura
Eu clame por perdão?

Sob as arcadas tristes De templo sacrossanto Sobe, com fervor santo, O pensamento a Deus. Da fé íntima e pura
A alma aí se inspira... Porém pode a lira Cantar nos hinos seus!

Ai nao me peças cantos! O sentimento é mudo, Diga o silêncio tudo Quanto eu não sei cantar.
Mas, se amas... se no peito íntima voz te fala,
Tudo o que a lira cala
Lerás num meu olhar.

Novembro de 1889

AURORA DE ARREPENDIMENTO

Fugi, fantasmas lívidos! Fugi, lúgubres sonhos! Espectros tão medonhos Deixai-me em paz! parti! Não vedes como fúlgida
A Lua do Sol já surge ? Deixai-me; o tempo urge, Nas trevas vos sumi!

Há muito que a ave lúgubre
Calou seus tristes hinos;
E, ao longe, a voz dos sinos
Vos diz — eis a manhã!
E vós, negros espíritos,
Travando estranha dança,
Me murmurais: Vingança!
Vingança?... Sombra vã!

Esperais que ao som horrífico De vossos mil clamores, Pungindo de terrores
Me roje pelo chão?
Que ao ver as minhas vítimas
Surgir da sepultura
Cedendo a atroz tortura
Eu clame por perdão ?

Cingi o vosso sudário, Voltai ao frio leito,
Que dentro do meu peito Não despertais horror. Dormi o sono gélido
Que a morte vos prepara Deixai pr a turba ignara Imagens de terror!

Eis o sombrio préstito Das vítimas sangrentas! As faces macilentas, Tintas de sangue e pó ! Rojando as alvas túnicas No sepulcral lajedo
Caminham, como a medo... Infundem pasmo e dó.

Entoando um canto fúnebre, Qual último gemido,
Dos ossos ao ruído, Acercam-se de mim!
Formam-se em vasto círculo, E erguendo-se horrível grito,
Bradam-me: Sê maldito, Qual já o foi Caim!

E de medonha abóbada Os ecos despertando, Seu grito continuando, Repetem-me: Caim!
Oh! que mortal angústia
Este suplício eterno!
E nem no próprio Inferno
Se penará assim!

Mas não... não tremo .. rio-me
Dos vãos terrores da turba;
Só ela se perturba
Com tétricas visões.
Eu não, que desde a infância
Travei ardentes lutas,
E, qual as rochas brutas,
Sorri aos furacões.

E, se me vedes trêmulo, Perante vós curvar-me
E a fronte rociar-me
Um frígido suor...
Embora! a alma intrépida
E forte permanece,
O corpo é que parece
Ceder a um frio horror!

Sob o lençol funéreo
Que os membros vos recobre
O meu olhar descobre
Os traços de um punhal.
E o sentimento do ódio
Que o vosso aspecto exprime
Traz-me à memória um crime...
Um estertor mortal!

E eu vos fito impávido! A ti, ancião primeiro; No instante derradeiro Louvavas o teu Deus,
Tentaste opor-te às fúrias Da minha ardente coorte Foi negra a tua sorte! Caíste aos golpes meus!

Do templo no vestíbulo
Severo te elevavas
E anátemas lançavas
Tremendos contra nós ;
Ao grito de sacrílegos
O bando estremecera,
Sem mim talvez cedera
Em breve à tua voz.

E tu, mancebo? Adiantas-te
Com pálido semblante?
Pra libertar a amante
Voaste a combater;
Cego! que no teu ímpeto
Tolheste-me a carreira!
Exangue na poeira
Cedo te fiz volver.

Menos do que tu, misero, O incauto viandante
Se se encontrou diante Do carro que ágil vem; No seu giro mais rápido
Que o próprio pensamento
Esmaga-o num momento
E livre, passa além.

E tu que me olhas túrbida
Qual rábida leoa
Que o bosque que o ar atroa
Chamando os filhos seus;
Num maternal delírio
Ao veres-me, furiosa,
Ergueste-te raivosa
A defender os teus.

Mas qual a onda tümida De encontro à rija fraga, Mas qual a fina adaga
De encontro ao forte arnês, Dobrou teu corpo lânguido Ao encontrar meu peito, Caindo em pó desfeito... Nem vacilar me fez!

E tu que ergues, pálida, Coroada de alvas flores? Na quadra dos amores Pendeste, flor, pra o chão.
Crestou-te as lindas pétalas, De embriagador perfume.
O fogo do ciúme, A lava da paixão 1

Enquanto nos meus êxtases
Contigo eu só sonhava,
Teu seio se agitava
Pensando noutro amor;
Então... em minha cólera
Perdida toda a esperança.
Jurei cruel vingança;
Cumpri-a com rigor.

Volvei aos frios cárceres, Ao sepulcral jazigo,
Onde buscais abrigo Quando desponta o Sol. E os rostos cadavéricos Aos matutinos raios, Espectros, ocultai-os
No funeral lençol.

Mas outro se ergue súbito!... Que vago horror me infunde! Que estranha luz difunde
Se eleva o seu olhar! Descobre o rosto, fita-me... Que vejo! é ele, o infante Que num fatal instante
Na campa fiz rolar.

No teu suspiro último Que triste melodia ! Na hora da agonia Sorriste para mim!
Esta lembrança punge-me,
É dor que não se exprime.
Ai! nunca a voz do crime
Me fez sofrer assim.

Ai! foge, foge, poupa-me O horror da tua vista. Que força há resista
A um tormento igual?...
Oh! que vergonha! Lágrimas!
O lúgubre cortejo
Sorrir-se ufano vejo
Com júbilo infernal.

Embora! Espectros, ride-vos, Sou fraco, anseio tremo.
Nem no momento extremo
Se pode sofrer mais!
Fogem-me as forças, cansa-me
A luta, caio exausto;
Ó meu destino infausto
Que dores me guardais?!

De mim ei-los já próximos E os descarnados braços Agitam nos espaços Soltando imprecações,
E ao som dos seus anátemas
Mil sombras pavorosas
Me arrastam às tenebrosas
Sombrias regiões.

À chama dos relâmpagos Já treme a própria terra ; E qual enorme serra
O mar se eleva aos céus, Eis a mansão dos réprobos E os fogos infinitos
Onde ardem os proscritos
Da habitação de Deus.

Oh! longe este espectáculo! A morte, antes a morte! Talvez então a sorte
Conceda ao morto paz.
Talvez transportando os pórticos
Da sepulcral morada
Não reste do homem nada
Além do pó que jaz.

Então, qual som da Pátria Soa o proscrito ouvido, Meu último gemido
Me soará também;
Mas... quem me diz que as ânsias
Deste cruel tormento
Têm fim no pensamento
Não vão da campa além?

A vida é me um martírio; Minha alma outrora forte Ao sopro de agra sorte Vergou, pendeu pr ó chão;
Nem mesmo a paz do túmulo
Me resta! No seu seio
Penar inda receio
Pra sempre ! Deus perdão I

Mas... que suave bálsamo
O peito me serena?
Que luz tão grata e amena
Nas trevas me luziu?
Qual desesp'rado náufrago
Em tão negra procela
Nos céus um'alva estrela
Longínqua me sorriu!

Acaso é dado ao ímpio Erguer as mãos manchadas Ainda ensangüentadas
A celestial mansão ?!
Pode ainda a sua súplica
Chegar aos pé s do Eterno?!
Da beira já do Inferno
Clamar inda perdão ?!

Supremo Deus! atende-me I Na Terra o meu castigo! Porém, quando o jazigo
Se abrir ao pecador, Quando em gelado féretro A fronte já cansada,
Pousar extenuada, Perdoa-lhe, Senhor.

Novembro de 1859

Escusado é dizer que nao sou eu quem fala neste canto de remorsos. Conquanto pecador, como todos os filhos de Adão, ainda não está tão cheio o meu cabaz de culpas. Aqui usei da liberdade, que nos dá a lira, boa ou má, de exprimir, não só os nossos senti. mentos, mas também os dos outros. Se bem ou mal o fiz, desta vez, não o sei, e espero ter juizes que o possam saber melhor do que eu.

AS MULHERES
(RECORDAÇÕES DE UM VELHO)

Tenho oitenta anos contados Dos meus cabelos nevados Bem poucos me restam já;
Tem-me ido até agora a vida
D'amor pr'amor impelida,
Até quando... Deus dirá.

Tinha dez anos apenas, E já nas tardes serenas,
Ao declinar do calor,
Me agitava o pensamento
Como agita as flores o vento
Uma idéia só — amor.

Na aldeia em que eu residia
Defronte de mim vivia
Quem tal amor me inspirou.
Uma criança era ainda,
Porém nunca flor tão linda
Os olmedos enfeitou.

Uma manhã, como a visse
Junto de mim, eu lhe disse
Coisas que me lembram mal;
Ela, ao passo que me ouvia,
Baixava os olhos, sorria...
E deu-me um beijo, afinal

E desde então por diante
Fiquei sendo seu amante
E fui amado também.
À sombra dos arvoredos, Dizíamos mil segredos,
Que nunca entendemos bem.

Tempos assim decorreram, Felizes tempos que eram!
'Té que pra cidade eu vim. Chorámos na despedida
Mas supondo-se esquecida, Ela esqueceu-se de mim.

Outra vida, outros amores
Da cidade entre os fulgores,
Tinha quinze anos, amei.
Era uma virgem trigueira
Olhos negros, prazenteira,
Doido por ela fiquei.

Os livros abandonava, Horas e horas passava Com ela, sem o sentir; Meu tio franzia a testa, Porém, à hora da sesta, Costumava ele dormir.

Ia então pra junto dela, Chamava-lhe meiga, bela,
E o que é costume chamar. Ela ouvia-me, corava,
Na costura continuava
E deixava-me falar.

Duma vez, pedi-lhe um beijo, Ela mostrou algum pejo,
Mas enfim... sempre mo deu ; Atrás deste, outros vieram
E o bem que me eles souberam
Nunca depois me esqueceu.

Mas numa noite de festa, Para mim noite funesta,
Todo este amor se extinguiu; Toda esta nossa ternura,
Que eu julguei de tanta dura, A um capricho sucumbiu.

Todos no baile dançavam, E às valsas se entregavam Com furor; faltava eu só. Como dançar não sabia, Para um canto me metia, Triste que fazia dó ;

Ora, é coisa bem sabida, Que a dança cá nesta vida,
Não se dispensa a um rapaz; Adeus amores, se não dança... Neste mundo mais alcança Quem mais cabriolas faz.

Por não dançar, fui deposto E, como após um Sol-posto, Se levanta um novo Sol.
O que pr a par a tirara
Logo ali me arremessara
Dos esquecidos para o rol.

Fiquei livre; mas em brev e
A minha cabeça leve
Me envolveu noutra prisão.
Estava escrito em meu destino
Que havia de errar sem tino
De afeição em afeição.

Tinha vinte anos. Um dia Pra ver se me distraía Num teatro me meti;
Mal no palco os olhos prego Que perdi o meu sossego Desde logo conheci.

Estremeci de surpresa
Ao contemplar a beleza
Com que brilhava uma actriz!
Perdido fiquei a vê-la!
Nunca vi mulher tão bela!
Nem uns olhos tão gentis!

Cai o pano, as palmas soam
E por toda a parte ecoam
De poetas mil canções.
Tudo isso me revela
Que a muitos os olhos dela
Incendiaram os corações.

Abandono a sala, corro, Quero vê-la, senão morro, Quero ver os olhos seus, Quero dizer-lhe que a adoro
E que em chamas me devoro, Contar-lhe os tormentos meus.

Entro no palco, perdido, Doido de todo... varrido, Vejo-a, lanço-me a seus pés.
Disse amá-la como um louco, E, como achasse isto pouco, Repeti-lho muita vez.

Ela olhou-me com um sorriso, Como nem no paraíso
Um sorriso assim se vê ;
— «Se tem um amor como o pinta,
Que o futuro o não desminta.» Me disse ela. — E tenha fe.

Voltei para casa exaltado Quase meio embriagado, Coisas que o amor produz. Mas dormir debalde tento, Impede-me o pensamento, Toda a noite olho não pus.

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