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Poesias

Júlio Dinis

Já quarenta anos eu tinha Quando, por desgraça minha, Tornei no engodo a cair;
Foi uma rica matrona
Que me meteu nesta fona
Donde me custou a sair.

Viúva de três maridos, Tinha intentos decididos
De ainda mais outro matar.
Se a pensar nisto me ponho,
Um destino tão medonho
Me faz hoje arrepiar!

Mas enfim o amor é cego
E amava-a, não o nego,
A razão não a sei eu.
Por isso talvez influísse
Pra cair nesta doidice
O que ela tinha de seu.

Fiz-lhe um dia três sonetos, Falei-lhe nos meus afectos, Ela ao lê-los me sorriu.
E, respondendo-me em presa, Prometeu ser minha esposa
E um beijo me permitiu.

Com ela as tardes passava, Em sua casa merendava
Chá com leite e pão-de-ló. Jogava-se à noite o quino
E aturava-lhe o menino
Com paciência de Job.

Nada mais apetecendo, Assim íamos vivendo
Um com outro em santa paz; Já se marcava o momento Para o nosso casamento... Quando tudo se desfez.

Foi o caso que num dia
Chegou, vindo da Baía, E lhe lançou o anzol,
Um ricaço brasileiro,
Que cheirando-lhe a dinheiro,
Casou ele e pôs-me ao sol.

Causou-me um vivo desgosto
Ver-me assim, sem mais, deposto
Por este sensaborão...
Mas então? Tinha dinheiro,
Em brev e o vi Conselheiro
E pouco depois Barão.

Abandonar os amores
Que se pra os mais só tem flores
Eu por mim poucas lhe vi.
Jurei, mas quis meu fadário,
Que a cruz levasse ao Calvário,
Que remédio obedeci.

Já no inverno das idades Eu entrava, e as verdades, Que então a vida nos diz,
Pra mim não se revelavam, Os cabelos me nevavam Quando eu outra asneira fiz.

E desta vez o objecto Do meu sensível afecto E das minhas afeições Era uma velha provecta E que já inha uma neta
Capaz de inspirar paixões.

Chamei-lhe rola, gazela, Comparei os olhos dela Com as estrelas dos céus. Ela, como bem-criada,
Não só não ficou calada
Mas disse o mesmo dos meus

Uma noite, à luz da Lua Eu... beijei-lhe a face sua A sua enrugada tez.
E ela a modo que gostava, Mostrou que não estranhava, Pois nem corada se fez.

Tinha, sim, ela um defeito? Mas no mundo, amor perfeito Só em flor, é que se vê.
É que, por mais que eu teimava,
Nunca ela se deixava
De me tratar por você!

Era destas formosuras
Que é melhor ver às escuras
Que na presença de luz.
Quantas mais trevas a cobrem
Mais dotes se lhe descobrem
E mais amor nos seduz.

Já o Verão principiava
E com ele começava
O tempo dos arraiais;
Quis que a uma acompanhasse
E como tal recusasse
Deixou-me pra nunca mais.

Se há caprichos nesta idade, Como é que havê-los não há-de Na estação juvenil?
A mulher é caprichosa
Como é fragrante a rosa
E florido o mês de Abril.

Livre, fiquei com a rosa Livre, como a mariposa Como a rã pelos pauis; Fiquei livre como os ventos
Que espalham nuvens aos centos
Pelos espaços azuis.

Já do que tendes ouvido. Podeis ver como Cupido Se fez comigo taful.
E, com um gênio assim feito, Para viver tinha jeito
Num serralho de Istambul.

E pr a que tudo vos conte Dir-vos-ei que aqui defronte Descobri esta manhã
Uma velhinha sem dentes
Muito rica e sem parentes 1
Vou requestá-la amanhã.

Porém eu cá já estou certo
Que, apesar dos cem bem perto,
Caprichos ela há-de ter.
Mas, embora, paciência,
Da mulher é essa a essência...
O que se lhe há-de fazer?

E mal pr a eles iria
Se lhes desse na mama
Seus caprichos desterrar.
Crede, meus alvos cabelos
Um dos seus dotes mais belos
É mesmo esse caprichar.

Julho de 18S9

Desta poesia eu sou apenas uma espécie de editor, mas não responsável. £ um velho que fala, e eu não afirmo, pela minha parte, qu e penso exactamente como ele neste assunto. O sexo feminino me perdo e portanto estas sextilhas. Estou pronto a contradizer a ilação que delas se pretendeu tirar. Debaixo do ponto de vista em que o nosso octogenário encara as mulheres, eu devo confessar que não tenho motivos para lhes quere r mal nenhum. Ele julgou-as severa. mente, mas é certo qu e também não valia mais do que elas. As feridas do coração cicatri. zavam-lhe com uma rapidez espantosa e. em quanto a mim, estes corações são no amor uma calamidade e não merecem sorte melhor que a que ele teve. Já vêem qu e sou imparcial.

EXALTAÇÃO

Vida! quero viver! quero em prazeres
Sequioso saciar-me!
Deste frio letargo em que hei vivido,
Quero, enfim, libertar-me!
Pra longe o manto da indiferença! Aos gozos!
Eia! aos festins da vida!
Os mais convivas se sentaram há muito.
Dai-me a parte devida.
Pra longe pensamentos de tristeza,
Gelado desalento!
Vou embriagar-me nas ardentes taças
Beber nelas o alento.
Mundo, dá-me o prazer que aos mais concedes!
Da isolação estou farto. Adeus, ó solidão, adeus repouso.
Adeus... pra sempre eu partoI
Os rumores da turba escuto ao longe
No seio dos folgares;
E só eu, frio, cruzarei os braços,
Não buscarei seus lares?
Oh! não; é tempo, as alegrias chamam-me.
Antes de exausta a taça
Corramos a bebe r nela, que o gozo
Co'a juventude passa. Amigos, esperai, eu já vos sigo.
Louco do que se isola?
Nem se torna melhor, nem suas penas
Na solidão consola.
Vamos ao menos no rumor das festas
Sufocar este grito
Que nos brada : — Padece, que de lágrimas
Foi teu destino escrito.
Vamos... ao menos no fulgor dos bailes
Fascinemos a vista.
Talvez aí se encontre o esquecimento,
Talvez o gozo exista. Quebremos esta lápide marmórea
Que nos cingia em vida. Ressuscitemos! Eia, ó alma acorda
Desta feral jazida.
Vamos!... às festas, ao prazer, aos cantos,
Às flores e harmonias.
Taças a trasbordar, luzes fulgentes,
Delirantes orgias!
E, então, no meio do delírio férvido,
Perdido, embriagado,
Talvez encontre a paz que em balde tenho
Na solidão buscado,

Abril de 1860

Esta exaltação, como quase todas, terminou em nada. Não cheguei a incomodar os convivas dos festins da vida para me darem lugar, e espero que nunca os incomodarei. Meu caminho é outro. Divirtam-se em paz

UMA CONSULTA

— Dá licença? — Entre quem é.
— Muitos bons dias. — Olé,
Por aqui, minha senhora?
Desculpe vossa excelência
Se a não conhecia agora.
— Sem mais... À sua ciência
Recorrer venho.—Deveras ?
(Senhor me dê paciência!
Nunca tu cá me vieras).
Então que temos ? — Padeço.
— Sim? porém de que doença?
— Essa é boa! acaso pensa
Que eu porventura a conheço?
— Ah! não conhece ? — Quem dera ! Então não o consultava.
— (E eu que muito estimava).
Mas diga, então? — Eu lhe conto...
Oiça bem. Não perca um ponto.
— Nem um ponto hei-de perder.
— Ai, doutor, doutor, meu peito...
— É do peito que padece ? Quem havia de o dizer!
— E Jesus, doutor, parece Que me quer interromper?! Não era a isso sujeito.
— Nem o tornarei a ser... Vamos lá. —Or a eu começo... Atenção é o que lhe peço ;

Diga-me: que lhe pareço ? Não me acha muito abatida?
— Assim, assim; mas às vezes
A vista pode enganar.
— Não, não. Pode acreditar
Que há já um bom par de meses
É um tormento esta vida.
— Então que é o que sente ?
— O que sinto? Ora eu lhe digo :
O doutor é meu amigo?
— Oh ! senhora... — E é prudente ? Oiça, pois: Eu dantes era
Fera e rija, que era um gosto! Ou em Dezembro ou Agosto Correr o mundo pudera,
Sem no fim me achar cansada.
— E hoje? — Não lhe digo nada, Nem comigo posso já.
— Mau é! — Quer saber, doutor ? Só para vir até cá,
Que tormentos não passei!
— Diga-me, se faz favor.
Que idade tem? — Eu nem sei... Eu sou mais nova três anos
Que o reitor da freguesia.
— (É grande consolação!)
— Tenho ainda outros dois manos Que mais velhos do que eu são, Porém, como eu lhe dizia, Doutor...—Qu e mais sente então?
— A vista sinto estragada, Até já me custa a ler,
De mais a mais sou nervosa. Isso não lhe digo nada!
Olhe, estou sempre a tremer.
— Faço idéia. — Andava ansiosa
Por consultar o doutor;
Eu tenho em si muita fé.
— Lisonjeia-me. — Outra queixa... Que eu sofro também... Qual é?
— É dum forte mal de dentes. Todos me caem. — Bem, bem.
— E os que restam, mal assentes, Qualquer dia vão também.
— É provável. — Ai, doutor! Que cruel enfermidade!

Não acha? — Acho e o pior...
— Há-de curar-me, nao há-de?
— E então nao sente mais nada ?
— Nada... ai, sim, tem-me parecido, Porém, talvez me iludisse...
•— Diga. — A semana passada, Como ao espelho me visse... Pareceu-me ter percebido...
— O quê ? — Que a pele não era
Como dantes, tão macia.
—• E então ? — Quem visse dissera
Que eram rugas. — (Eu dizia)
E é isso o que padece ?
— Ainda pouco lhe parece, Doutor? — Por certo que não.
— Então que doença tenho '
— Em sabê-lo muito empenho Sempre tem ? — Eu ? Pois então ? Para isso o procurei.
— Bem, então sempre lho digo
Mas julgo não ficarei
Por isto, seu inimigo.
— O meu doutor! — O seu mal
É, senhora, de algum perigo.
— Ai Jesus! — E muita gente Dele morre. —Oh santo Deus! Por quem é não diga tal!
E... morre-se de repente?
— Conforme. — Pecados meus? E então é isso o que pensa! Porém ainda me não disse
O nome dessa doença
E eu sempre o quero saber...
— O nome?—Sim.—É . . velhice!

— E o remédio? — Morrer.

Janeiro de 1860

A lembrança não é minha absolutamente. Foi-me sugerida de um caso semelhante que me contaram

PROFISSÃO DE FÉ

Se vires a lira entoar alegrias, Prazeres e orgias, das festas à luz,
Não creias as vozes que solta; mentida
É toda essa vida, que nela transluz.

Se a vires cantando felizes amores, Perfumes de flores parecendo aspirar,
Não creias; minh'alma surgir não viu ainda
A aurora bem-vinda de grato raiar.

Se vendo no mundo somente ímpias cenas, Pérfidas apenas, funestas paixões,
De escárnio e desprezo soltar os seus cantos, São falsos; que em prantos lhe vão ilusões.

Porém, quando triste, falar da saudade, Em grata ansiedade fitar o porvir
Em sonhos de esperanças, talvez que mentidas,
Soltar seus gemidos, temor exprimir;

Se a ouvires falando de chamas ocultas Que n'alma sepultas encobrem seus véus, Quais fogos acesos ao ar elevados, Ardendo ateados, numa ara sem Deus

Se a vire s nos cantos falar magoada, Da lut a travada no meu coração,
Qu e muit o deseja, que tanto empreende
E em vã o se defende da ignota prisão.

Ouvindo- a em segredo, soltar suas queixas
E e m triste s endeixas sentida gemer,
Chora r o passado, odiar o presente
E a o long e somente fulgores entrever.

Entã o cr ê os hinos que ouvires à lira,
O peit o os inspira, do peito eles vem,
A m ã o indiferente suas cordas não pulsa
Febri l e convulsa se agita também.

22 de Abri l de 1860

UM PARECER

As minhas flores dilectas
Não se encontram nos jardins
Por entre estátuas erectas
De mármore e labirintos,
Das estufas nos recintos,
E avenidas de alecrins.

Não ornam os toucadores
De feminis gabinetes,
Não perdem as suas cores
Brilhando à noite entre sedas
De manhã às horas ledas
Desmaiando nos tapetes.

Nas jarras não se acumulam Dos vastos salões de festa; Em grinaldas não emulam
No fulgor a pedraria,
A luz que o baile alumia
Não é a luz que as cresta.

Não; as minhas, as que eu amo
Não as procurem por aí
Pois que eu prefiro ao ramo
Das flores mais presumidas
As singelas margaridas!
Que nas campinas colhi.

As camélia: peónias
Que o jardim ostenta ufano,
E outras destes hierarquias, Prefiro a rara violeta,
E a ros a que vegeta
Pelos campos todo o ano.

E, como as flores , as donzelas São iguais nos agostos meus, Pois par a mim as mai s belas
E aos olhos mais aceites,
Não sã o as p em mais enfeites
Encobrem os dotes seus .

Nao são . Eu quero a belez a
Sem tão presumida arte ;
O qu e vem da natureza
Tais atavios dispensa.
Mulher, atede-me e pens a
No conselho que vou dar-te :

Feia ou bela para long e Desterra tanto : aparato. Não faz o habito o mong e Sem el e a bela se enfeita E nada à feia aproveit a Esse tão caiado ornato.

Que pedra s mas preciosas , Que enfeites de mais valor E que flores mais mimosas Do qu e uns olhos radiante s Umas tranças abundadantes,
Uns lábios dizendo amor ?

E vós, feias se a belez a Vos nego u seu galardão, Não fujais da singeleza,
Não busques e extremo oposto. Deixai de adoçar o rosto ,
E adornai o coração

Maio de 1860

Vox clamantis in deserto.

APARÊNCIAS

Sempre o riso em teus lábios! Na alva fronte
Nem uma sombra apenas!
Nem uma nuvem só no horizonte
A ameaçar-te com futuras penas!

É possível haver inda no mundo
Quem viva e nao padeça ?!
Num vale de agonias tão profundo.
Quem haverá que em júbilos se esqueça!

Se hoje os dias teus correm amenos, Olha para o passado.
Ele saudades te dará ao menos
Dos que à beira do túmulo hás deixado.

E nem um só instante de tristeza
Te dão essas memórias?
Teu passado é estéril? Não te pesa
Uma só dessas cenas transitórias?

Pois bem; encara as trevas do futuro
E dize se as não receias?
Fitando esse horizonte ignoto e escuro
São ainda de prazer tuas idéias?

Dizem que a taça do praze.- na vida
Contém sempre o absinto,
Mas tu, só de alegrias envolvida
Não sabes o amargor... Que digo? Minto!

Tudo isso é aparência. Se eu puder
Ler-te no pensamento
Quem sabe se até mesmo estremecera
Ao deparar co'um íntimo tormento?!

Quem sabe quantas vezes é mentida
Dos lábios a alegria!
Quantas vezes no peito comprimida
Nos devora latente uma agonia!

E morto o coração inda persiste
Um sorriso aparente,
Simulando um prazer que não existe,
Fingindo uma ilusão que a alma não sente.

Este vislumbre de mentido gozo
Que nos lábios se estampa
É como as flores do vergel viçoso
Que nos encobrem a hediondez da campa.

8 de Julho de 1860.

DESALENTO

É força descrer. Na vida
Sucumbe toda a ilusão
Como a flor da haste pendida
Murcha ao sopro do tufão.

Fantasias vãs da infância Deixai-me; sois mentirosas. Pintáveis-me a vida estância Coberta de mirto e rosas.

E, ao perto, o mirto e as rosas
Em espinhos se tornaram.
Essas horas venturosas
Bem amargas se mostraram.

Descrer é fatal destino
Que espera o homem na vida.
E não há poder divino
Que lhes sirva de guarida.

Descrer ? descrer! muito custa Quando o peito é de vinte anos, Quando a alma inda se assusta
Ao clarão dos desenganos

Pobre alma! pobre seio! Ai que martírio sofreste.
Inda ontem de ilusões cheio
E hoje já quantas perdeste!

E agora que mais me resta? Qual, ó alma a tua sorte!
Já que a vida é tão funesta
Aspira somente à morte.

6 de Agosto de 1860

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