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Poesias

Júlio Dinis

DESESPERO

O dia fenece. Co'a luz purpurina
Que tinge o ocidente, que aromas não vem!
O Sol vacilante no oceano declina,
Eleva-se a Lua nos montes d'além.

Por entre a ramagem de densa espessura
Semeada de aljôfar's por lânguida luz
Mil aves modulam com meiga ternura
Seus hinos que a aragem aos montes conduz.

Que mágicas cenas! que aromas na brisa! Que sons! que harmonias se elevam daqui ! Ditosa a existência que mansa desliza
E a quem esta cena de graças sorri.

Mas; ai, de que valem belezas de selva, Das aves os hinos, perfumes de flor?
Que importa o arroio gemendo na relva
E a Lua surgindo com grato palor?

Que importa o silêncio que vai na campina A quem dentro d'alma rebrame a paixão? Que importa a folhagem que adorna a colina
Se dentro palpita medonho vulcão?

Oh! antes mil vezes ouvir agitadas
As vagas lutando com as nuvens do céu.
Olhar as florestas brilhando incendiadas
E o raio rasgando das noites o véu.

Em vez do murmúrio das brisas suaves, O vento com raiva no bosque a bramir Em vez do mavioso descante das aves, Das feras o torvo, medonho rugir!

Então, nos horrores de tanta tormenta Talvez meus martírios eu visse extinguir, Então, como o infante que a mãe acalenta, Ao som das rajadas pudera dormir.

Mas não; ainda mesmo que todo o universo
Desabe em ruínas em torno de mim
No caos informe, que fora seu berço,
Achando o seu leito de morte por fim.

A rude tormenta que o seio me agita Inda há-de mais alto suas fúrias erguer, Que vagas ardentes de lava maldita
Eu sinto violentas no peito ferver.

E os risos do campo, de escárnio parecem, Os sons das florestas, insultos à dor.
Mal hajam as galas que o prado guarnecem, Mal haja esta noite de paz e de amor!

Que importa o silêncio que vai na campina A quem dentro d'alma rebrame a paixão? Que importa a folhagem que adorna a colina
Se dentro palpita medonho vulcão?

Oh! antes mil vezes ouvir agitadas
As vagas lutando com as nuvens do céu.
Olhar as florestas brilhando incendiadas
E o raio rasgando das noites o véu.

Em vez do murmúrio das brisas suaves, O vento com raiva no bosque a bramir Em vez do mavioso descante das aves, Das feras o torvo, medonho rugir!

Então, nos horrores de tanta tormenta Talvez meus martírios eu visse extinguir, Então, como o infante que a mãe acalenta, Ao som das rajadas pudera dormir.

Mas não; ainda mesmo que todo o universo
Desabe em ruínas em torno de mim
No caos informe, que fora seu berço,
Achando o seu leito de morte por fim.

A rude tormenta que o seio me agita Inda há-de mais alto suas fúrias erguer, Que vagas ardentes de lava maldita
Eu sinto violentas no peito ferver.

E os risos do campo, de escárnio parecem, Os sons das florestas, insultos à dor.
Mal hajam as galas que o prado guarnecem, Mal haja esta noite de paz e de amor!

13 de Agosto de 1860.

O DESTINO DAS FLORES

Um dia em que ambos nós, sobre a mesa do estudo
Numa noite hibernai, da lâmpada ao clarão,
Ele curvado a ler, eu a escutá-lo mudo,
Seguíamos com pausa, atentos, a lição.

Inda me lembro bem ! Falávamos das plantas, De sua curta vida e sua amena cor,
Tantas pelos vergéis e pelos montes tantas, Que vivem, fenecendo após aberta a flor!

— «Triste destino o seu», disse ele com voz lenta, Pousando com tristeza a fronte sobre a mão,
— «Deus as manda florir, de seiva as alimenta, Mas cedo com as flor's caem murchas no chão.»

Triste destino o teu, ao delas semelhante, Pobre alma de poeta! On! que destino o teul Deus te mandou cantar e o canto vacilante
Na Terra principiado acabaste-o no Céu.

28 da junho de 1882.

FALSOS AMIGOS

Como a sombra, amigos temos, Que nos segue em claro dia; Mas que da vista perdemos Assim que o Sol se anuvia.

Outra versão:

Vós sois a minha sombra
Se o Sol me luz brilhante..
Atrás, ao lado, adiante,
Encontro-a junto a mim !
Porém se nuvem negra
A luz do Sol me tira,
A sombra se retira...
Vós sois também assim

ORAÇÃO DO REITOR

A noite era de Inverno, húmida, escura e fria. Soprava nos pinhais furiosa a ventania,
Imitando o bramir dum tormentoso mar. Os sinos do mosteiro ouviam-se vibrar.
E, contudo, ninguém subira ao campanário.
A alameda do adro e o morro do Calvário,
Onde se ergue imponente o sacro emblema — a Cruz —
Rasgando o negro véu, enchiam-se de luz
Quando do céu pesado o raio fuzilava:
Luz sinistra, fatal, como de ardente lava. A aldeia repousava em plácido dormir;
Sono que não perturba esta ânsia do porvir
Que à vida nos consome, aos filhos das cidades;
Este sonhar sem fim, estas vagas saudades
Sempre, sempre a fugir dum fantasiado bem
Que à nossa cabeceira acalentar-nos vem.
A aldeia repousava. As cinzas da lareira
Onde há pouco inda ardia a paternal fogueira
Cujo grato calor as horas do serão
Ajudara a passar, frias, extintas são.
Porém na residência um homem inda vela,
Pois que uma frouxa luz, através da janela, Parece estar dizendo ao povo que adormece :
— «Dorme, que o teu pastor de velar não se esquece !»

O pároco velava. As venerandas cãs Pendentes sobre um livro. Em orações cristãs Iam-se, muita vez, assim, noites inteiras...
As contas do rosário eram-lhe companheiras.

Julgava-se ele então, o bondoso reitor,
Mais próximo do Céu, mais junto do Senhor !
E, Moisés do seu povo, ouvindo mais de perto
A palavra da lei que, no árido deserto,
O devia guiar por grandes provações,
Sentia então mais fé nas suas orações !
A estância humilde e nua do velho cenobita
Parece recebe r misteriosa visita
Sempre que, como agora, embevecido e só, Lê, de David, um salmo, um lamento de Job. Páginas imortais dos Santos Evangelhos !
Pois houve quem o viu, caindo de joelhos, Erguer, cheio de ardor, os olhos para o Céu, Como se, descerrando o impenetrável véu,
Que, aos olhos dos mortais, cobre o mistério augusto,
Lho deixasse encarar sem turbação nem custo. Vivera a fazer bem. Envelhecera assim.
Eram-lhe distracções as flores do jardim,
O ensino da infância, a esmola aos indigentes
E o salutar conselho aos jovens e imprudentes.
Logo pela manhã, mal sentia o arrebol,
Ia-se para o monte, a ver nascer o Sol,
E voltava a almoçar mais leve do que fora,
Que a esmola o acompanhava e é grande gastadora.
Não sabia, o bom velho, há muito resistir... Cedia-lhe sorrindo... Abençoado sorrir !
Sempre sóbrio e frugal. o santo sacerdote, Quisera, muita vez, entesourar um dote
Para as filhas de Deus, órfãs de pai e mãe ! Socorria a chorar! Pois chorava também,
Sempre que chorar via, ou de prazer ou pena. Em tudo reflectia aquela alma serena,
Como lago tranqüilo, ao tombar do escarcéu,
As nuvens reproduz que perpassam no céu...
Com que amor acolhia alguma alma perdida
Que o vinha procurar, um dia, arrependida I
Com que sentida fé lhe falava da Cruz,
Prometendo o perdão em nome de Jesus !

Quando à missa do dia, ao povo que o escutava, Com voz trêmula já, da religião falava,
Na prática singela havia tal unção
Que vinham gravar-se fundas, no coração,
As palavras de amor, de paz, de tolerância.
E o povo procurava ouvi-lo com instância.

ORAÇÃO DO REITOR

A noite era de Inverno, húmida, escura e fria. Soprava nos pinhais furiosa a ventania,
Imitando o bramir dum tormentoso mar. Os sinos do mosteiro ouviam-se vibrar.
E, contudo, ninguém subira ao campanário.
A alameda do adro e o morro do Calvário,
Onde se ergue imponente o sacro emblema — a Cruz —
Rasgando o negro véu, enchiam-se de luz
Quando do céu pesado o raio fuzilava:
Luz sinistra, fatal, como de ardente lava. A aldeia repousava em plácido dormir;
Sono que não perturba esta ânsia do porvir
Que à vida nos consome, aos filhos das cidades;
Este sonhar sem fim, estas vagas saudades
Sempre, sempre a fugir dum fantasiado bem
Que à nossa cabeceira acalentar-nos vem.
A aldeia repousava. As cinzas da lareira
Onde há pouco inda ardia a paternal fogueira
Cujo grato calor as horas do serão
Ajudara a passar, frias, extintas são.
Porém na residência um homem inda vela,
Pois que uma frouxa luz, através da janela, Parece estar dizendo ao povo que adormece :
— «Dorme, que o teu pastor de velar não se esquece !»

O pároco velava. As venerandas cãs Pendentes sobre um livro. Em orações cristãs Iam-se, muita vez, assim, noites inteiras...
As contas do rosário eram-lhe companheiras.

Julgava-se ele então, o bondoso reitor,
Mais próximo do Céu, mais junto do Senhor !
E, Moisés do seu povo, ouvindo mais de perto
A palavra da lei que, no árido deserto,
O devia guiar por grandes provações,
Sentia então mais fé nas suas orações !
A estância humilde e nua do velho cenobita
Parece recebe r misteriosa visita
Sempre que, como agora, embevecido e só, Lê, de David, um salmo, um lamento de Job. Páginas imortais dos Santos Evangelhos !
Pois houve quem o viu, caindo de joelhos, Erguer, cheio de ardor, os olhos para o Céu, Como se, descerrando o impenetrável véu,
Que, aos olhos dos mortais, cobre o mistério augusto,
Lho deixasse encarar sem turbação nem custo. Vivera a fazer bem. Envelhecera assim.
Eram-lhe distracções as flores do jardim,
O ensino da infância, a esmola aos indigentes
E o salutar conselho aos jovens e imprudentes.
Logo pela manhã, mal sentia o arrebol,
Ia-se para o monte, a ver nascer o Sol,
E voltava a almoçar mais leve do que fora,
Que a esmola o acompanhava e é grande gastadora.
Não sabia, o bom velho, há muito resistir... Cedia-lhe sorrindo... Abençoado sorrir !
Sempre sóbrio e frugal. o santo sacerdote, Quisera, muita vez, entesourar um dote
Para as filhas de Deus, órfãs de pai e mãe ! Socorria a chorar! Pois chorava também,
Sempre que chorar via, ou de prazer ou pena. Em tudo reflectia aquela alma serena,
Como lago tranqüilo, ao tombar do escarcéu,
As nuvens reproduz que perpassam no céu...
Com que amor acolhia alguma alma perdida
Que o vinha procurar, um dia, arrependida I
Com que sentida fé lhe falava da Cruz,
Prometendo o perdão em nome de Jesus !

Quando à missa do dia, ao povo que o escutava, Com voz trêmula já, da religião falava,
Na prática singela havia tal unção
Que vinham gravar-se fundas, no coração,
As palavras de amor, de paz, de tolerância.
E o povo procurava ouvi-lo com instância.

Ora naquela noite, que parecia sem fim,
Com fé ardente e pura, o velho orava assim:

«Senhor! Que, generoso, Todas as aves nutres,
Os pérfidos abutres
E os brandos rouxinóis ! Que juntas nos espaços, Às nuvens das procelas, Os raios das estrelas,
A luz de imensos sóis I

«Que à borda dos abismos
Fazes brotar a planta;
Da flor que nos encanta
A áspide fatal;
E a plácida corrente
Tornas, num simples gesto, Em vórtice fremente,
E a brisa em vendaval!

«Senhor! quem pode, ousado, Sondar os teus mistérios? Sombras dos cemitérios,
Acaso o podereis ?
Mas nós, cegos ainda,
Na sombra intensa, espessa, Curvemos a cabeça
A tuas santas leis !

«Por isso, se no mundo, Olharmos, surpreendidos, Os bons aos maus unidos, Unido o mal ao bem...
Que os lábios se não manchem
Na imprecação maldita ! É lei que está escrita
Em letras de ouro, além...

«Além, por essa abóbada, Alta, sublime, imensa,
Onde a alma do que pensa Se perde a meditar... Abramos, pois, os braços
A todos igualmente.
A Deus, a Deus somente, Compete esse extremar.»

uma canção que o interrompe:

«Pobre flor que, nos campos nascida, Entre moitas de humildes violetas,
Tão saudosa no campo vegetas, Sem um raio de fúlgido sol! Pobre flor, solitária, ignorada,
Só a estrela do céu te namora, Só te beija o rocio da aurora
E te fala o subtil rouxinol !

«Ai, se um dia escutares, atenta, Essa voz, ó violeta da aldeia,
Essa voz que embriaga, que enleia, Qual suave harmonia do Céu,
Nova luz se fará na tua alma"...
E, chamando-te à vida os sentidos
Te abrirá os países floridos
Que inda envolve um tenuíssimo véu.»

A canção cessou e o velho reitor segue com a prece

«Senhor ! Bendito sejas
Na tua majestade !
Por toda a imensidade Teu nome escrito jaz !... E tu, soberba humana,
Lembra-te que és poeira... E, na hora derradeira,
A sê-lo voltarás...»

EXCERTOS

Epístola a meu primo José Joaquim
Pinto Júnior no dia dos seus anos,
20 de Outubro de 1859.

Dos orientais jardins da bela aurora Foge, a lançar-se no cerúleo espaço, Um grato sol d'Outono. Poucas flores
Lhe oferece a terra já, mas pendem frutos
Das árvores, vergadas sob o peso
Tão grato ao lavrador, que mil riquezas
Ufano estende nas patentes eiras,
Ou em fartos celeiros acumula
Para as guardar do Inverno. Os atavios,
Com que se adorna a quadra, mais semelhain
Modestas galas de gentil esposa,
Que, junto ao berço de seus ternos filhos,
Despiu as louçainhas de solteira,
Os seus trajes garridos de donzela, Pra quem a vida é só jardim florido,
Belo e viçoso, mas sem frutos inda. Outono! Fértil quadra — tão querida Do povo agricultor! se eu possuísse...

Onde iria Mendigar expressões pr a celebrar-vos, Loiras searas, agradáveis ceifas,
Serões risonhos a que amor preside, Onde se trocam abraços mil, mil beijos, A cada milho-rei? Não sei cantar-vos, Verdes relvas, de orvalho rociadas, Sussurrantes arroios das campinas, Copados, odoríferos pomares...

Tudo isto eu escrevia há pouco tempo, Após ter aspirado os mil perfumes
Do ar do campo, às horas matutinas. Que alegria na aldeia !... Que fervores Nos trabalhos agrícolas!... Mas hoje...

Que importa à mole que o vapor impele, O fim pra que trabalha? Reconhece
Uma força maior, e indiferente
Segue o impulso. Sejamos como...

O nosso pátrio Douro que sombrio, Em torturado leito se revolve,
Nem sempre ao levantar a húmida fronte, Depara montes íngremes e aspérrimos Que o fazem suspirar, de angustiado.
Aqui e ali, a natureza amena
Com ele se mostrou. Risonhos vales, Gratas colinas, sinceirais formosos,
Verdes campinas que interceptam veias
De límpido cristal, lhe ornam as margens...
Aí, um brando enleio voluptuoso
Vence o soberbo rio, namorado
Dos verdores que o circundam. Brandamente
Se deixa adormecer, acalentado
Pelas canções que entoa a leve brisa, Ao som das folhas dos virentes olmos,
Então, ferventes beijos deposita
Nas enfloradas margens, que perfumes
Lhe dão em troca. A fronte majestosa
Desenruga, olvidando seus pesares, Lascivo, espraia as suas frescas ondas
Em mais ameno leito. Já não geme, Não brame enfurecido, maldizendo
As enormes montanhas que o oprimem
Em apertado espaço. Canções ternas,
Canções de amor, que só quem ama entende, Enlevado murmura em brandas notas.

Amo-te sempre, ó Douro, quer em fúrias Invistas contra as rochas, quer sereno Deslizes, retratando em tuas ondas
Os alamos das margens. Ou turvado
Te rojes em lodoso, áspero leito,
Ou em praias extensas desenroles

Tuas ondas mais límpidas, és sempre
O Douro, cuja voz me acalentava
Nos áureos sonos da passada infância.

Mas de novo me acorre o pensamento Atrás de idéias tristes. E a tal ponto Que me custa trazê-lo a bom caminho.
Ante o Sol se interpôs uma outra nuvem E desta vez bem negra. Mas desculpa Se, quase a meu pesar, eu fui levado
Na torrente de idéias tão sombrias...
Deixa o país fantástico que habitas
Pra fazer excursões impetuosas
Armado de palavras. Tão difícil
É repressar-lhe as fúrias, como peias
Tentar opor às convulsões tremendas
De furioso vulcão. A minha idéia,
A predilecta, a que na mente afago,
Que, quando só, vem povoar de imagens
A minha solidão, é a da família.
Prefiro-a à glória, a prazer's, a honras !
Peço a Deus, com fervor, nas minhas preces,
Mil vezes, no seu templo, ajoelhado:
— «Senhor, lhe digo, por piedade, ouvi-me !
Povoai-me esta aridez da minha vida,
Como na infância a vi; pelo passado
Conformai meu futuro; já que o homem
Retrogradar não pode em seu caminho.»
A súplica é sincera e Deus piedoso.
Escutada será ? Não sei que esp'rança,
Não sei que frouxa luz, bem frouxa ainda,
Parece divisar no horizonte...
Talvez não creias que, sincero falo
Nestas aspirações do meu futuro?
Ah ! Sinceras são elas, podes crer-me.
Assim reais as vira ! Os mil prazer's
Que a juventude sequiosa anseia,
De boamente, em holocausto, os dera
A santa paz da vida de família.
Talvez; mas seja embora um sonho apenas, O sonhar e um bem, se o sonho é grato.
É milagroso bálsamo que sara
As feridas mais cruéis da realidade.

Os frades já lá vão. Esses ao menos
Souberam amenizar a agreste vida,

Estéril de afeições, do homem solteiro, Desfrutando as delícias da preguiça, Nas confortáveis celas dos conventos, Templos só consagrados à mandriice. Onde nada teria que notasse
O mais importante dos vassalos
Da rainha Vitória. E mais é gente
Que, no que diz respeito à boa vida
E em muita coisa mais, a custo cedem
A qualquer outra, o grau de preferência.

Se entre os teus me não vires, acredita Que por lá me esvoaça o pensamento Assistindo ao 'spectáculo bendito
Dos prazer's de família. E, quando os, brindes
Se elevarem em glória deste dia,
Se nao com os do corpo, com os da alma,
Misteriosos sentidos, ouvir podes, Associar-se ao coro das mais vozes,
Uma voz a saudar-te; é essa a minha ! E disse. Cai o pano. E finda a epístola.

Da segunda carta de Júlio Dinis a seu
primo José Joaquim Pinto Coelho

Eis a idade dos vinte anos, Tão celebrada em poesia, Em que a ardente fantasia, Cria mil visões de amor !
Voa a alma atrás dos sonhos, No seu seio se embriaga, Como a abelha que divaga Poisando de flor em flor.

Saudemos pois esta hora
Se ela é hora de esperança !
O isolamento cansa,
Não amar, é não viver !
Na floresta as aves cantam,
Quando alveja a madrugada,
Se a aurora d'alma é chegada,
Cantemos-lhe o amanhecer

Mas a própria natureza Quis saudar-te neste dia, E num sorriso te envia Sua grata saudação.
Ela fenece, declina,
Já se despe de verdores ;
Tu na quadra dos amores
Colhe as flores da estação.

«Colhe-as, viçosas se mostram No teu extenso horizonte. Exulta pois, ergue a fronte,
Que a tua hora enfim chegou i»

1860

Cartas a meu primo José Joaquim
Pinto Coelho.

«Venho uma vez ainda, movido de ansiedade
Dos teus, às alegrias, meus júbilos unir;
Queimar débil incenso nas aras da amizade,
Lembrar-me do passado, falar-te do porvir.

«Lembrar-me do passado, desviando a escura tela Que as cenas dessas eras aos olhos nos cerrou... Falar-te do futuro, mostrando-te essa estrela
Que para a juventude sempre nos céus radiou...

«Parar, onde a planície se espraia, vasta, imensa? E a perspectiva se orna de flores e de luz?
Parar, pendida a fronte, sem ânimo, sem crença, Vergado sob o peso de imaginária cruz?

«Isto nos nossos anos, isto na nossa idade, Tão cheia de futuro, de alento e de fé !
Oh, não ! Pra nós a esp'rança; deixemos a saudade !
Deixemos a flor murcha que outra em botão já ó «Saudemos o futuro, como a risonha aurora
Que tinge o alto dos montes de purpurina cor !
Saudemos o futuro à voz consoladora,
Que nos fale, em segredo, duma época melhor !

«Da lira pelas cordas correndo as mãos nevadas
Tira sentidas notas duma imortal canção...
Nem das harpas eólias, nos olmos pendurados,
As extrai tão sonoras, da noite, a viração...

«Não são da Terra as notas da música maviosa Que escuto, não; são ecos de música no Céu... Co'a citara dos anjos, em nuvens cor-de rosa, Esta visão celeste junto de nós desceu.

«Cantando, pouco a pouco, seu rosto se ilumina... Nos lábios tudo é risos; é tudo vida o olhar... Como, na madrugada, se despe de nebrina
A risonha paisagem que o sol vem animar.

«Falou na paz dos justos, falou na recompensa
Que espera os virtuosos na celestial mansão...
Para os Céus apontando, disse inspirada:—Crença ! —
Abandonando a Terra, disse saudosa: — Irmão ! —

1862

«Sim, às vezes, não sei fugir ao desalento
Que baixa sobre mim, qual nuvem tempestuosa;
Nem posso desviar o curso ao pensamento,
Que desce sem parar, em senda tenebrosa.

«Então, se olho o porvir, vejo-o sombrio e escuro, Como quando no céu se forma a tempestade,
E em torno do baixei, que voga mal seguro, Uma neblina densa o espaço todo invade.

«Ontem inda sentia esta tristeza vaga
Que pesa sobre nós, mais cio que um férreo jugo;
Sinistra cerração que nos sufoca e esmaga
Como o laço fatal de invisível verdugo !

«Vem, surge, ó Sol luminoso, Doura os cumes da alta serra, Inunda de luz a Terra,
Vem reflectir-te no mar.., Acorda as aves no bosque, Chama os insectos às balsas, Onde em doudejantes valsas Vão as flores namorar...

1863

«Penetra nas espessuras,
Nesses retiros aonde
A flor silvestre se esconde
Para sozinha florir.
Dá-lhe o calor dos teus raios,
Desperta-a do fatal sono
Em que as nebrinas do Outono
Já a faziam dormir...»

«Dai-me do campo as mais festivas flores,
Não as quero saudosas;
Quero-as alegres, de risonhas cores,
Como os cravos e as rosas.

«Deixemos a violeta, essa morena
Habitante das relvas.
A delicada, a pálida açucena,
Deixemo-la nas selvas.

«Uma é negra, traz vestes de tristeza, Vem de luto trajada;
Outra, lembra nas cores da pureza, Virgem inanimada.

«Não as quero, que podem essas flores
Renovar na memória,
As mal curadas, as pungentes dores,
Duma recente história.

«O caminho da existência
É então grato e florido.
Ai ! Bem fácil é o olvido
De tudo o que a alma sofreu !
Como à roseira da várzea
Que todo o ano floresce,
A cada flor que fenece
Uma outra flor sucedeu.

«Uma outra flor, e mais bela
E cada vez mais viçosa.
Uma outra flor, outra rosa,
Ou antes, outra ilusão.
Nunca, nunca o desalento
Extingue o fogo sagrado
Que arde no altar consagrado
Que se chama o coração.»

«A saudade, a irmã bem-vinda, À noite, às horas quietas,
Em que amantes e poetas Livre curso à mente dão ; A virgem pálida e triste, De branda melancolia,
Que as penas nos alivia, Que nos mitiga a paixão!

«Tens ao teu lado a saudade Falando-te em voz dolente. Duma memória recente,
Duma luz que se apagou... Luz que tomaste por guia Para termo da viagem;
Mas que o sopro duma aragem, Brandas, apenas, apagou.»

«Veste-se a planta de flores Quando a Primavera assoma; E a espessura de verdores
• Perfuma com seu aroma.

«Mas nem sempre a mesma vida
Transluz nas flores abertas;
Uma seiva empobrecida
Só lhes dá cores incertas.

«Todos os anos floresce, Ao despertar este dia,
A planta que, ignota, cresce, Da minha pobre poesia.

«Porém, desta vez, roçada Do mal, pela mão funesta, Uma flor só, desmaiada, Abriu para a tua festa.

«Mas seja o tributo pago, Embora com pobre oferta; Essa mesma aí a trago, Desbotada e mal aberta.» 1

1866.

1 Última carta em verso que Júlio Dinis dirigiu a José Joaquim Pinto Coelho. Era desta maneira que festejava os aniversários de seu primo,

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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