...quelle singuliére et triste impression
Produit un manuscritl Tout á l'heure, á ma table
Tout ce que j'écrivais me semblait admirable.
Maintenant, je ne sais — je n'ose y regarder .
Au moment du travail chaque nerf, chaque fibre
Tressaille comme un luth que Ton vient d'accorder
On n'écrit pas un mot qu e tout T'étre ne vibre.
(Soit dit sans vanité, c'est ce que Ton ressent) On ne travaille pas — on ecoute — on attend.
C'est comme un inconnu qui vous parle á voix basse. On rest quelque fois une nuit sur la place.
Sans faire un mouvement et sans se retourner.
On est comme un enfant dans sea habits de féte,
Qui criant de se salir et de se profanar.
Et puis et puis — enfin! — On a mal á la tete,
Quel étrange réveil ! Comme on se sent boiteux!
Comme on voit que Vulcain vient de tomber des éteux.
(Alfred de Musset — Premieres poésies)
Rien, à mon avis, de si insupportable que la lecture suivie d'un recueil de vers ; ils ne peuvent se lire que fort à batons rompus; cepen- dant en les reprenant et les quittant souvent, on les lit tout entiers et quelque foi on y trouve de très jolies choses.
Essais dans le goüt de ceux de Montagne, on les loisirs d'un ministre d'État (pág. 388).
Nota do Autor. — Havia muito tempo que eu pensava isto mesmo em relação aos volumes de poesías.
A MEU IRMÃO
(JOSÉ JOAQUIM GOMES COELHO)
Também tu, meu irmão, inda aos vinte anos, Dizes ao mundo teu extremo adeus!
Deixas-me só e partes! os arcanos
Vais da vida sondar aos pés de Deus?
Inda há bem pouco aspirações ridentes, Despertadas ao sol da juventude,
Te apontavam futuros resplendentes
De mil glórias, de amor e de virtude.
Há pouco em devaneios tão risonhos, Cantavas em sentida poesia
As meigas ilusões, dourados sonhos
Que te adejavam sempre à fantasia.
Há pouco tu julgavas do horizonte
Ver dum belo porvir sorrir-te a aurora,
Bem como a áurea luz c'roando o monte,
Do Sol preced e a chama animadora.
Tudo isso era ilusão, simples quimera, Que aos vinte anos sonhamos acordados; Curta página a sorte te escrevera
No grande livro incógnito dos fados
E enquanto descuidado te entregavas
Aos sonhos da exaltada fantasia,
Sob a florea vereda que trilhavas
A morte, a fria morte, se escondia!
Tu viste uma por uma emurchecerem
As mais viçosas flores da tua vida;
E as esperanças seu verdor perderem
Com a aridez da existência desflorida.
E a vida te pareceu áspero deserto, Assim desguarnecida de ilusões,
De laços materiais cedo liberto
Remontaste às celestes regiões.
Não te lamento, irmão; a tua sorte, Ao que padece, inveja só produz;
Porque às trevas finais da hora da morte
Seguem-se anos sem fim de imensa luz.
Eras justo, no Céu gozas a palma,
Que ao mundo, aqui debalde pedirias,
E os anjos acolheram a tua alma
Num coro de suaves harmonias.
Mas eu, que te amei, pra quem tu eras
Mais que irmão, mais que pai, mais que amigo,
Eu, a quem desde infante ofereceras,
Pra suprir o de mãe fraterno abrigo.
Mais infeliz fui eu ; junto a meu lado Vago está o lugar que abandonaste. Vivo só, com as saudades do passado, Do tempo que de encantos povoaste.
Nesta acerba aridez do meu presente
Recordo-me da vida que passou,
E bem vejo que a sorte fatalmente
Na vida do infortúnio me lançou.
Como a do nauta desditosa sorte,
Que o mar arrosta em tormentosa viagem,
E viu nas ondas que enfurece a morte
Sucumbir todo o resto da equipagem;
Tal o destino meu; entrei no mundo
E saudei-o com hinos de alegria;
Nos êxtases dum júbilo profundo,
O dom da vida a Deus agradecia.
Em ambiente de amor desabrocharam
Na infância as flores da existência minha.
Amor de pai, de mãe, de irmãos, douraram
A amena senda, que ante mim eu tinha.
E depois... ai, irmão! que acerbas dores Juntos sofremos! Murchas, ressequidas, Desfolharam-se as mais viçosas flores, Ceifou a dura morte aquelas vidas.
O belo céu, que nos sorriu na infância, Em brev e se mostrou turbado e triste; A terna mãe pedira a outra estância
A paz, que neste mundo não existe.
E ai daquele, que no alvor da vida Perdeu pra sempre maternais afagos, Ai, que bem cedo a vê ser consumida Por mil anelos, mil desejos vagos.
Ai, bem cedo o sentimos! Separados
Do sol que a infância em luz nos envolvia,
Quais estioladas plantas, assombrados,
A fronte inda infantil, já nos pendia.
E assim viveste! e quando a idade ardente
De mil aspirações te enchia o peito,
Olhaste, e vendo a isolação somente,
Cansado, te deitaste em frio leito.
E eu, em vão no ataúde me curvava, Em vão hei procurado a tua campa;
A morte de mistérios te falava,
Mas nos lábios do morto o dedo estampa.
Em vão te perguntei: Nessa morada
Outros fúlgidos sonhos imaginas?
Ao sair da vida deparaste o nada?
Ou acordaste em regiões divinas?
Mudo ficaste. Os ventos perpassaram, Soltando queixas no volver das folhas, E teus lábios imóveis não falaram,
Nem sequer o irmão saudoso olhas.
Meu Deus! permite que através da lousa
Possa ele ouvir a minha voz ainda,
E desse leito, onde afinal repousa,
Me diga: A vida neste pó não finda;
Me diga: A crença que na leda infância
Aprendemos da mãe é verdadeira;
Há outra vida, há uma outra estância,
Tão feliz, quanto esta é passageira;
Que se encontram os entes mais queridos,
E em eterno amplexo a Deus se humilham;
Oue os prazeres em sonhos concebidos
Só há no espaço onde as estrelas brilham.
E então, ó Senhor, com a fé mais pura
Eu ansiarei pelo supremo instante
Em que, livre da humana desventura,
Demandar tua estância radiante.
Deixa que o amigo ao amigo só revele Os segredos que a morte lhe confia, Esta incerteza... em vão a fé repele,
A dúvida cruel continuo a cria.
Porque negas, Senhor, ao peregrino
Que vai cumprindo só esta romagem ,
Um raio ao menos do saber divino,
Que lhe brade na dúvida: Coragem !?
Porque não ha-de a lousa funerária Erguer-se à voz saudosa da amizade, Para falar à alma solitária
Que anela por saber toda a verdade ?
Porquê?... Mas, Deus, perdoa! eu creio! eu creio! No seu leito de morte o conheci:
Sim, nesse instante de tormentos cheio, No peito a voz da crença bem ouvi!
E por isso prostrei-me de joelhos, E os lábios murmuravam a oração,
E cri então no Deus dos Evangelhos, E a dúvida deixou-me o coração.
Repousa, irmão, à sombra do cipreste; Não repousar na terra é desventura. Dorme no mundo e acorda à luz celeste, Cruzando o limiar da sepultura.
Dezembro de 1859.
Nota do Autor. - Duvidar da verdade desta poesia, era duvidar dos meus senti. mentos mais puros, dos meus mais queridos afectos e nesse caso, não sei de palavras que me pudessem justificar.
Calou-se a lira! E a criação nos coros
De menos uma voz aos céus revoa!
Na imensa harpa, em que o universo entoa
Seus cânticos, de menos uma corda!
Que foi? que nota falta às harmonias?
Que foi? que mão deixou quebrar a lira?
O poeta morreu, o canto expira,
Cessam seus hinos do sepulcro à borda !
Morreu o teu cantor, ó Armamento! Teu sacerdote ardente, ó poesia!
Ó Deus, ó Pátria, a última agonia
Gelou a voz que hosanas vos sagrara!
Crente inspirado, os brados do entusiasmo
Não lhe esfriou dos homens a indiferença,
E a venenosa taça da descrença
Dos generosos lábios arrojara!
O poeta morreu! E o Sol e os astros Que ele cantou, e a abóbada celeste De lutuosas trevas se não veste;
E tu, ó Pátria, que ele amava tanto, Tu dormes inda esse gelado sono ?! Não te acorda o seu último gemido? Sente-lhe a morte, se não hás sentido De animação e glória o eterno canto
Mas não; os homens vêem pasmar o féretro, Vêem do sepulcro alevantar-se a lousa,
E, olhando a nobre fronte que repousa,
— Quem é ? perguntam com cruel frieza.
— É um poeta, lhes respondem poucos. Um poeta! palavra incompreensível!
Por ele a multidão passa insensível,
E a campa desampara com presteza.
E um poeta morreu! listas palavras
Nada vos dizem, povos, que as ouvistes?
Não as há mais solenes nem mais tristes.
Oh! nelas reflecti um só momento!
Não sabeis o que diz a morte do homem
Que se encaminha à campa que lhe ergueram
Seguido apenas dos que ainda veneram
O culto da poesia e pensamento?
Não ouvis esse dobre, que o lamenta? É como a voz do século, que brada :
— «Chorai, ó multidões, que na cruzada
Da civilização vos alistastes,
Chorai, um dos soldados que hà caído,
Deus lhe dera a bandeira que vos guia,
O estandarte da idéia, a poesia;
Mas vós na heróica empresa o abandonastes !
«Lamenta, ó liberdade, o teu apóstolo! Amor, o coração que te entendia!
Tu, Pátria, o filho que melhor podia
Entre as nações da terra engrandecer-te!
Religião, ai! chora o sacerdote,
Que, entoando no templo os sacros hinos,
Chamara os povos aos altares divinos
E cultos sem iguais pudera erguer-te!»
E tu, 0 mundo, o vês quase indiferente! Curva a cabeça ante essa campa aberta, Ajoelha-te, e a fronte descoberta,
Venera as cinzas que deixou na Terra; Os restos são da mais violenta chama, Que o fogo do Céu no mundo ateia;
A chama ardente de inspirada idéia, Fogo que a mente do poeta encerra I
Verte, oh! verte uma lágrima na tumba; Uma lágrima só. Outros desejam
Soberbos mausoléus onde se vejam Fulgir os nomes seus em letras d'ouro; Ele não. Flores e lágrimas, eis tudo!
Eis o diadema a que o poeta aspira; Porque lho negas? Que paixão te inspirar Delas fizeste, ó mundo, o teu tesouro?
Ai, não ; umas e outras as desprezas: As flores procuram as campinas,
Porque a turba, ao passar, calca as boninas, E o sopro das cidades as murchava.
As lágrimas, as flores do sentimento, Não as diviso já nos olhos do homem, Ou das paixões as lavas as consomem,
Ou morto é o sentimento que as gerava.
Fazes bem em passar, mundo, se ignoras
Desta cena a solene majestade,
Impassível ficar era impiedade.
Parte, vai; a indiferença era um insulto.
Oh! mil vezes mais grato o isolamento...
Mas não, o isolamento não existe:
Junto da campa se reúne triste
Longo cortejo de lutuoso vulto.
Ei-los; do vasto templo se avizinham, Trazem no rosto a dor, que os consome. Esses veneram do poeta o nome,
Do féretro ao passar, curvam a fronte, Respeitai esse pranto, que é sentido; Longe, indiferentes, que o lugar é santo! Os que entenderam seu sublime canto, Saúdam-no ao sumir-se no horizonte I
Silêncio! A Pátria do seu sono acorda! Sono talvez, que precursor da morte, Do filho só lamenta a triste sorte,
3eme saudosa com magoado acento! Ai, nos seus dias de passada glória,
De mãe o desespero a voz lhe erguera, E, em seu clamor, às praias estendera
Das nações mais longínquas o alto alento.
Mas hoje, já de forças exaurida,
É fraca a sua voz ante essa tumba;
Do peito vem, porém já não retumba
Nos ecos das nações mais poderosas.
Apenas sua irmã, a mais vizinha,
Que quase a mesma linguagem fala,
Compassiva parece lamentá-la,
Ouvindo suas queixas dolorosas.
Poeta, dorme pois: a tua campa
Não ficará sem lágrimas nem flores,
As liras soltam fúnebres clamores
E os ventos reproduzem suas queixas.
Dorme, dorme, poeta, que teu sono
A turba inquietaria com seus passos;
Mas qual o infante nos maternos braços,
Dorme ao som dessas lânguidas endeixas.
Dorme, dorme em sossego... mas, silêncio! Para que solto a voz? Cala-te ó lira!
Se o gênio da poesia não te inspira, Para que o seu cultor lamentas triste? Diante da mudez deste sepulcro
Teus ais de dor, ó coração, suspende;
Vê em silêncio o Sol, que ao ocaso pende
Como em silêncio no zénite o viste.
Março de 1860.
Nota do Autor. - Obedeci a um impulso irresistível escrevendo esta poesia. Admirei Soares de Passos durante a vida, como poeta, no seu livro; como homem, nas sempre lembradas noites em que, entre poucos mas escolhidos amigos, víamos em sua casa correrem as horas como instantes e passarem as longas noites de Inverno como um sonho delicioso e aprazível. Foi então que pudemos apreciar a pureza daquele caracter, aquela rigidez de princípios, que nesta época de indiferentismo e egoísta especulação, causava assombro a quantos o ouviam. Por isso, quando morreu, senti-o. como todos que prezavam as letras pátrias e como todos que respeitam os caracteres elevados; mas senti-o também, como ninguém, pela dor que a sua morte deixava no coração de seu irmão, o mais sincero, desinteressado e generoso amigo que nunca hei encontrado. Tudo isto me levou a lamentar a sua morte, temerária empresa de onde me não podia sair bem.
Lembra-me ver-te inda infante, Quando nos campos corrias
Em folguedos palpitantes; Eras bela! e então sorrias.
Depois, na infância, eras inda, Junto ao cadáver rezavas
De tua mãe, com dor infinda; Eras bela! e então choravas.
Num baile vi-te valsando
Da juventude nos dias,
Todos de amor fascinando;
Eras bela! e então sorrias.
Dias depois encontrei-te; Nos céus os olhos fitavas;
Sem me veres contemplei-te; Eras bela! e então choravas.
Quando ao templo caminhando
Entre flores e alegrias,
De esposa a vida encetando,
Eras bela! e então sorrias.
Quando na campa do esposo
Com teu filho ajoelhavas,
Grupo inocente e saudoso!
Eras bela! e então choravas.
Num ataúde deitada
Eu te vi em breves dias,
Mimosa flor desfolhada!
Eras bela! e então sorrias.
Sorrindo, na vida entraste, Sorrindo deixaste a vida; Alguma flor que encontraste A espinhos a viste unida.
Sim, às vezes tu sorrias, E os sorrisos o que são?
Quase sempre profecias
Das penas do coração.
1857.
Nota do Autor. - Sorrisos e lágrimas andam muitas vezes acompanhados, uns por os outros, na vida. Olhada por este lado. esta poesia é verdadeira. Alguma coisa me podiam dizer as minhas recordações, para o provar, mas não seria absolutamente o que escrevi. Neste ponto é ela mentirosa. É pecado de que me confesso arrependido.
Es bela, sim, quando, corando, foges
Dum beijo perseguida;
Ou quando cedes com mais pejo ainda,
Mas na luta vencida.
És bela, sim, quando, banhada em lágrimas, Soltas mimosas queixas;
Ou quando, comovida por maus prantos, Já ameigar-te deixas.
És bela, sim, à luz do Sol nascente
Regando tuas flores,
Ou com os olhos no ocaso e o pensamento
No país dos amores.
És bela sempre, e o mesmo fogo acendes
No coração do poeta;
És bela sempre, ó linda flor do prado,
Ó mimosa violeta,
Março de 1882.
Quem te disse o segred o destas lágrimas,
Pra assim me consolares?
Quem te disse que a dor que me angustiava
Cedia aos teus olhares?
Criança, onde aprendeste essa ciência, Ignorada de tantos?
Algum anjo do Céu é quem te inspira
Do conforto os encantos?
Oh! vem, vem junto a mim com teus sorrisos
Livrar-me destas trevas,
Rir-te do meu ar lúgubre, falar-me,
Vem, que só tu me enlevas.
Protegido por ti em círculo mágico, Desafio a tristeza,
Que onde a infância se mostra tudo folga,
Homens e natureza;
Pra ti, pra tua idade descuidosa
Semeou Deus as flores,
Deu-te o cantar das aves por cortejo, Deu-te o Céu por amores.
Vem, pois, os teus cabelos d'ouro puro
A pousar-me na fronte,
Como os raios do Sol cingindo as serras
Ao surgir no horizonte.
Vem, que junto de ti nem compreendo
Estes falsos tormentos;
Mensageira celeste, sê bem-vinda,
Longe meus pensamentos!
Quando, baixando a fronte, os olhos pousam
Em sorrisos de infantes,
Esquece-se o infortúnio, os risos voltam
E erguemo-nos radiantes.
Assim como nos rimos de teus ogos, Tu ris das nossas penas ;
Ambos somos crianças, variando
Nosso brinquedo apenas.
Tu criaste uma vida imaginária
Que cede à fantasia.
Nós co'a vida real também brincamos,
Porém sem alegria.
3 de Junho de 1862.
Ai não foi sonho, não. Era na infância, Duas visões queridas
Ao lado do meu berço me sorriam
De uma amorosa auréola cingidas;
Eu sorria também. Vendo-as tão belas, Por anjos as tomava,
E acordando dum sonho de inocência, Inda a mais gratos sonhos me entregava.
E repetindo as orações ferventes, Que à voz da mãe ouvia,
Olhava-as, e julgava que era a elas
Que tão sentidas preces dirigia.
Quando as via, tão jovens e já tristes, Olhar a mãe chorando,
Eu cismava, e o infortúnio pressentia, Vago ainda, os meus dias ameaçando.
E o infortúnio chegou. Era uma noite, E eu ainda infante
Despertei aos gemidos dolorosos
Das órfãs junto à mãe agonizante!
Transportaram-me ao leito aonde a triste
Lutara na .agonia,
Era tarde! A primeira vez na vida,
Ao beijá-la, suas bênçãos não colhia I
E as lágrimas, tao fluentes na infância
Meus olhos não banhavam!
Então senti que os dias de ventura
Com ela para sempre me deixavam.
Depois os mesmos anjos, que na infância
No berço me sorriam,
Em vez das vestes cândidas d'outrora,
Agora negras túnicas cingiam.
Nunca mais como a flor na Primavera
Eu as vi radiantes;
Mas sim como no Outono ela se ostenta,
Pendendo as alvas pétalas fragrantes.
Pobres flores! tão cedo sem abrigo, Dia a dia enlanguescem
Como as que adornam virginais capelas, E ao fim dum baile pelo chão fenecem.
Como cândidas pombas surpreendidas
Por furiosa tormenta,
Voam amedrontadas a acolher-se
Junto à mãe que no seio as acalenta,
Assim elas também amedrontadas
Das tormentas da vida
Voam pro Céu, e no materno seio
Procuram contra elas fiel guarida.
Um dia eu vi-me só! junto ao meu berço
Os anjos não sorriam,
Nem sequer suas lágrimas saudosas
Uma a uma nas faces me caíam.
Passaram tempos, e da infância aos dias
Seguiu-se uma outra idade ;
Mas nem o tempo, nem paixões mais vivas
Me extinguiram a imagem da saudade.
Ainda as vejo a ambas, quando às vezes
Em sonhadas delicias,
Recordo o tempo da passada infância,
Recordo seu amor, suas carícias.
Outras vezes, mais vago o pensamento, Num só anjo as confunde;
E então adoro essa visão querida,
Que n'aima ignotas sensações me infunde.
Se a imagem delas é como o crepúsculo
Dum dia já passado,
A nova imagem será ainda aurora
Dum dia ardentemente desejado?
Meu Deus! a flor dos campos também murcha
Vive um momento apenas;
Mas depois nova quadra veste os prados
De outro manto de rosas e açucenas.
Também as flores de infantil idade
Eu vi cair sem vida:
Deixa que a nova quadra dos vinte anos
Se adorne de uma túnica florida.
Não és real. Para o seres Não foras, ó flor, tão bela; Se à mente Deus te revela, Não te cria o mundo, não.
Vegetas no peito do homem, Mas não há viçoso prado
Onde te beije embriagado
O sopro da viração.
Morena, morena
Dos olhos castanhos,
Quem te deu morena,
Encantos tamanhos?
Encantos tamanhos Não vi nunca assim. Morena, morena
Tem pena de mim.
Morena, morena
Dos olhos rasgados,
Teus olhos, morena,
São os meus pecados.
São os meus pecados Uns olhos assim. Morena, morena
Tem pena de mim.
Morena, morena Dos olhos galantes, Teus olhos morena
São dois diamantes.
São dois diamantes Olhando-me assim. Morena, morena Tem pena de mim.
Morena, morena
Dos olhos morenos,
O olhar desses olhos
Concede-me ao menos.
Concede-me ao menos Não sejas assim. Morena, morena
Tem pena de mim.
De As Pupilas do Sr. Reitor.
O Sol descia ao poente,
E florente estava o prado ;
Ouviam-se auras suaves
E das aves o trinado.
Tu sentada ao pé da fonte O horizonte contemplavas Vias o Sol declinando
E, corando, suspiravas.
E depois... seria acaso?
Do ocaso a vista ergueste,
E, ao olhar-me, mais coraste,
Suspiraste e emudeceste.
Foi bem rápido o momento Dum alento repentino; Porém nesse olhar de fogo Eu li logo o meu destino.
Nesse olhar, no rubor vivo, No furtivo respirar...
Diz, tu mesma nessas letras
Não soletras já: amar?
1860.
Nota do Autor. - Não é muito fácil esta espécie de leitura, o sentido das letras é diferente, conforme os desejos do que as pretende decifrar e daí mil decepções e amar gos desenganos. Eu não sei se li bem ou mal; mas é certo que depois disso, o livro parece fechado... nao descubro caracteres novos.
Ouve, lânguida virgem das cidades, A paixão que me inspiraste.
Curvada, como a flor em vaso d'ouro, Tu, bela, me encantaste.
Eu vi-te assim pendida; a estrela d'alva
Ao surgir do oriente
Não nos envia mais saudosos raios
Do seu leito fulgente.
A viração da tarde, mais amena
No bosque, não murmura;
A alva açucena, que o vergel enfeita,
Não tem a cor mais pura.
Eu vi-te, e desde então sempre em meus sonhos
Surges, e magoada
Pareces ver as vagas desta vida
Na margem debruçada
Vejo-te então ainda, e pensativa, Os lábios entreabertos,
Murmurando em sentida linguagem
Pensamentos incertos.
Vejo-te ainda, as lágrimas ferventes
Dos olhos rebentando,
E, ao correrem nas faces, indiscretas,
Segredos revelando.
Que segredo é o teu, lãnguida virgem, Ideal dos meus amores?
Que imaginas nos sonhos dessas noites
Tão cheias de fulgores?
Que mistério procuras no ocidente
Ao desmaiar do dia?
Ou que visão esperas, quando a aurora
Com rosas se anuncia?
Que oculto sentimento reprimido
Te faz ansiar o seio?
Que íntima dor, que pensamento acerbo?
Que indefinido enleio?
Olha, se o coração te ped e amores, Virgem, não chores, canta,
Para ti é que são as flores da vida
E a luz que nos encanta.
Tu, sim, podes amar; nas sacras aras
Dessa chama inquieta,
Ateia o sacro fogo com que inflamas
O coração do poeta.
Tu sim, podes amar; mas eu... se ao ver-te
Interrogo o futuro,
Uma voz me murmura: «Adora, mártir,
Adora, e morre obscuro».
Enfim! enfim! encontrei-te. Luz há tanto suspirada! Raiaste, aurora fadada
Dum longo dia de amor! Resplandece, Sol brilhante Da primavera da vida!
Surge, surge, estrela querida, Que tão grato é teu fulgorl
Se soubesses como ansioso Aguardava este momento, Que há tanto no pensamento Me aprazia em conceber!
Se soubesses, minha esp'rança, Que anelar ardente e incerto Na aridez deste deserto
Me fazia esperar e crer !
Ai, bem-vinda, mensageira
Duma indizível ventura!
A uma vida de amargura,
Ridente imagem, põe fim!
Para longe esta tristeza,
Vejo enfim formosos dias!
Oh! dá-me, dá-me alegrias,
Oue me cansa a vida assim!
Qual a terra desflorida
Pelas mãos do Inverno agreste,
Que de gelos a reveste,
E lhe afrouxa a luz do Sol;
Cinge as vestes de verdura,
Toda de amor palpitante,
Qual virgem junto do amante
Da Primavera ao arrebol;
Tal minh'alma envolta em trevas
Dum passado de incerteza,
Rasga o seu véu de tristeza,
Ao ver-te surgir, amor !
E num hino de alegria
Saúda a risonha aurora,
Que deslumbrante a namora
Com fatídico fulgor,
Bela flor, fragrante rosa
Nos agros campos da vida,
Entre as outras escondida,
Como pudeste florir!
Como os vendavais furiosos
Das tempestades humanas,
Em suas fúrias insanas
Te não puderam ferir?
Foi condão do Céu por certo, Foi talvez aura celeste
Que, ao nasceres, recebeste
E em ti se difundiu;
E, forte, desceste ao mundo,
Brilhando de luz divina;
Essa luz que me fascina,
Que nas trevas me sorriu I
Também, tu, bela, aspiravas A um futuro vago ainda? Também uma dita infinda
Te pedia o coração?
Ai, conta-me os teus segredos,
Os teus sonhos, teus anelos,
Conta-me, quero sabê-los:
Teus sentimentos meus são.
Em que te vi meiga e bela, Quando tu, formosa estrela, Te elevaste no meu céu, Uma voz misteriosa,
Prendendo-te em doce enleio, Segredar-te ao ouvido veio:
«Ama! teu dia nasceu!»
Diz-me, se ao viver inquieto Por não sei que oculta chama Não sucede, quando se ama, Uma existência de paz?
Se no horizonte sombrio, Novo astro fulgurando,
Longínquas praias mostrando, Venturas ver-te não faz?
Conta-me a vida passada Antes do mágico instante Em que te vi radiante Meiga visão a sorrir.
Diz-me os teus jogos da infância
As lágrimas que verteste,
As penas que padeceste,
Sem eu as poder sentir.
Tu choravas! quando longe
Eu de ti, talvez sorria!
Tu choravas! e eu podia
Tão indiferente viver!
Oh! não! mística influência,
Que dois entes num só liga,
Embora longe, os obriga
Um com outro a padecer.
E é esse, esse o segredo
Da tristeza indefinida,
Que em certas horas da vida
Nos oprime o coração;
Esse o segredo das lágrimas, Que de olhos virgíneos correm,
E dos suspiros que morrem
Nas asas da viração
Mas deixemos o passado, Suas penas, suas dores, Deixemos auras melhores
Nos manda o porvir de além, Qual no meio do oceano,
Após longínqua viagem,
Ao nauta fragrante aragem
Da Pátria falar-lhe vem.
Em que mago encantamento Esta dita a alma me embebe ! Só quem o sente o concebe; Não se exprime este prazer! Bem hajas, cândida virgem! Bem hajas tu, que no seio
De aspirações todo cheio,
O amor fizeste nascer!
*
Adeus pois, passado triste, Longas horas de amargura; Adeus, paz da sepultura, Sem encantos para mim; Adeus sofrimentos vagos, Adeus, febris pensamentos;
Esperam-me outros momentos, Que o amor surgiu enfim.
Acorda pois, ó minh'alma, Chegou enfim tua festa;
E qual se adorna a floresta Da manhã ao grato alvor, Veste também tuas galas,
O teu mais florido manto E leva um sentido canto Ao sol da vida, ao amor
Julho de 1859.
Nota do Autor. —Em vez de —enfim — antes lhe devera chamar — rebate falso. A ser mais de que um sonho, não passou de um desejo. Não se deve portanto tirar ilações arrojadas porque seriam falsas.
Repara: — a imóvel crisálida
Já se agitou inquieta,
Cedo, rasgando a mortalha,
Ressurgirá borboleta.
Que misteriosa influência
A metamorfose opera!
Um raio de Sol, um sopro
Ao passar, a vida gera.
Assim minh'alma, inda ontem
Crisálida entorpecida,
Já hoje treme, e amanhã
Voará cheia de vida.
Tu olhaste — e do letargo Mago influxo me desperta; Surjo ao amor, surjo à vida,
À luz de uma aurora incerta.
1 de Maio de 1860.
Onde vai teu pensamento
Quando, os olhos elevando,
Segues das aves ligeiras
Esse harmonioso bando?
Que te dizem os gorjeios Dessas pobres foragidas, Que vão procurar ao longe
Outras selvas mais floridas?
Acaso temes, como elas,
As nuvens negras, pesadas,
E os ventos que descem rápidos
Das altas serras nevadas?
Acaso invejas as asas
Desses plumosos viajantes?
Acaso aspiras à vida
Noutros climas mais distantes?
Não, querida, não receies
Do Inverno os duros rigores;
Quando do Sol falta a chama
Brilha a chama dos amores
Não são para nós mais lúcidas
As noites que o próprio dia?
Que onde a luz do céu falece,
A paixão é que alumia.
E o gelo, que as pobres aves Na relva prostra sem vida, Fundir-se-á ao fogo ardente
Da nossa paixão, querida.
18 de Outubro de 1862.
Andava a pobre cabreira O seu rebanho a guardar Desde que rompia o dia Até a noite fechar.
De pequenina nos montes Não tivera outro brincar. Nas canseiras do trabalho Seus dias vira passar.
Sentada no alto da serra
Pôs-se a cabreira a chorar.
Porque chorava a cabreira
Ides agora escutar:
«Ai! que triste a sina minha, Ai! que triste o meu penar, Que não sei d e pai nem mãe Nem de irmãos a quem amar,
«De pequenina nos montes Nunca tive outro brincar. Nas canseiras do trabalho Meus dias vejo passar.»
Mas, ao desviar seus olhos Viu coisa que a fez pasmar: Uma cabra toda branca
Se lhe fora aos pés deitar I
Branca toda, como a neve, Que nem se deixa fitar, Coberta de finas sedas
Que era coisa singular!
Nunca a tinha visto ante3
No seu rebanho a pastar,
E foi a fazer-lhe festa...
E foi para a afagar...
Eis vai a cabra fugindo Pelos vales sem parar ; Ia a cabreira atrás dela
Mas não a pôde alcançar.
E andaram assim três dias
E três noites, sempre a andar!
Até que às portas de uns paços
Afinal foram parar.
Chorava o' rei e a rainha Há dez anos, sem cessar, Que lhe roubaram a filha Numa noite de luar.
E dez anos são passados
Sem mais dela ouvir falar;
Eis chega a cabreira à porta
A porta se foi sentar.
«Ai que bonita cabreira
Que lá em baixo vejo estar!
E uma cabra toda branca
Que nem se deixa fitar.
«Meus criados e escudeiros, Ide a cabreira buscar.»
Isto dizia a rainha,
Este foi o seu mandar.
Foram buscar a cabreira
E a cabra de a acompanhar
Até às salas do paço
Onde o rei a viu chegar.
«Pela minha c'roa de ouro Eu quero agora apostar, Que é esta a filha roubada Numa noite de luar.»
Milagre! quem tal diria! Quem tal pudera contar! A cabrinha toda branca Ali se pôs a falar:
«Esta é a filha roubada
Numa noite de luar,
Andou dez anos no monte
Quem nasceu para reinar!»
Que alegrias vão nos paços! E que festas sem cessar!
A filha há tanto perdida
No trono os pais vão sentar.
E vêm damas pra vesti-la
E vêm damas pra calçar;
E as mais prendadas de todas
Para as trancas lhe enfeitar.
Vão procurar a cabrinha... Ninguém a pôde encontrar; Mas um anjo de asas brancas Viram aos Céus a voar.
De As Pupilas do Sr Reitor.