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Serões da Província

Júlio Dinis

IX

UMA tarde, em que o aspecto do céu se mostrava já mais favorá vel, e uma extensa zona de púrpura, prenúncio certo de favo.

ráveis reformas meteorológicas, tingia todo o ocidente, onde o sol acabava de mergulhar-se, dei maior latitude ao meu passeio, estendendo- o até ao ponto principal da reunião das raparigas. Fui-as encontrar juntas em grupo, voltadas para o lado do monte e aparentemente empenhadas em uma discussão, que prometia ser interressante.

Aproximei-me.

— Nada, nada — dizia uma, como em conclusão dos argumentos que extensamente acabara de expender — aquilo foi decerto coisa que lhe sucedeu.

— Esperem, esperem — exclamava outra, fazendo o gesto de quem procura alguma coisa na reminiscência — a última vez que eu a vi foi... foi... ora deixem ver... foi ha seis dias, lá em baixo nas azenhas.

Bem me lembra. Ia muito amarela e mal se podia arrastar. Pareceu- me até que gemia.

— E que lhe disseste? — perguntou Luisita, interessada com as palavras da companheira.

— Eu?! Se mais pudesse, mais corria. Arrenego tais encontros! Olhem os meus pecados.

— E há muito que eu não vejo a luzinha pelo monte.

— Nem eu.

— Nem eu.

Disseram umas após outras, várias vozes.

— Há-de haver oito dias que a mim me disse a ti'Rosa do Aidro que a mulher tinha decerto a espinhela caída — acrescentou, com ar de quem comunica uma importante novidade, a mais trigueira das preopinantes.

— Al temos outra! Bem sabe a ti'Rosa também o que são espinhelas caídas! — disse com mau humor a primeira que falara.

— Não, não sabe; que ela não tem o primo endireita em Fiães, sim, — E anda a outra sempre a encher os ouvidos à gente com o seu primo en-di-reita. Nem que nunca se visse um endireita senão aquele! — Olhem! olhem! Põe-te agora a dizer mal dele também! — Grande endireita, que deixou ficar mouco o nosso António, depois de ganhar com ele um par de moedas.

— Sim? pois olha que nem os médicos da cidade têm que lhe dizer.

— Credo! credo! Santo nome de Jesus! Nem que fosse algum doutor de capelo!

Enquanto as duas continuavam discutindo a ciência ortopédica do primo da ti'Rosa do Aidro, prosseguia o resto das circunstantes no assunto primitivo.

— O que eu posso dizer é que há muito não vejo sair fumo da casa dela.

— A mulher morreu decerto ou está para isso.

— E se se fosse ver? Também para a deixar assim... — disse Luisita, como a aventurar uma opinião, que não tinha firmes tenções de sustentar.

— Vá lá quem quiser, nanja eu — respondeu imediatamente uma mocetona de constituição atlética.

— Ir lá?! Fazer o quê? Então vocês julgam que se vai assim sem mais nem menos a uma casa daquelas? — Perguntem ali ao senhor — dizia outra, designando-me com esto.

Estas palavras fizeram-me dar mais atenção à conversa.

— Quem lá entrasse, tinha logo o gato preto a saltar-lhe ao pescoço.

A referência a esta evolução ginástica do gato preto acabou de me demonstrar que se tratava da tia Filomela.

— Então que há de novo?— perguntei, aproximando-rne.—De quem falavam? — É que pelos modos — respondeu-me uma das do grupo — andam agora os demónios no pinhal.

— Fazendo o quê ? — Para levarem a alma da bruxa.

— De qual bruxa? — Da tia Filomela.

— Aí voltam as cismas! Mas que sucedeu à tia Filomela ? — Há muito que não sai de casa e que se lhe não vê fumegar o telhado. Aquilo ou está morta ou para breve.

— E então ninguém tem ido ou mandado ver ? — Quem ? — Não que o que lá for não volta.

— Ora, sempre é levar muito longe a superstição! Visto isso, há-de deixar-se morrer assim uma pobre velha ao desamparo? — Deixe lá; aquelas têm por si outros poderes. Não precisam de socorro da gente.

— Pelo que vejo, não há aqui ninguém que queira ir ao pinhal saber da tia Filomela? Ninguém respondeu.

-—Pois bem, nesse caso vou eu.

— Olhe o que faz! — disseram algumas vozes, em tom de advertência.

— Ainda não escarmentou ? — murmuravam outras.

Luisita chegou-se a mim, e apertando-me o braço: — É de mais! Isso é desafiar o Senhor.

— Ora adeus, Luisita.

— Não vê...

— Vamos, quando for velha há-de gostar que lhe chamem bruxa e que a deixem morrer de fome e ao desamparo ? — Mas...

— Pois olhe, Luisita, se tem muito receio, reze por mim. Eu gosto de ser recomendado aos santos por uma boca tão bonita.

Luisita não deu palavra, mas conheci-lhe no gesto que ficava agourando grandes desgraças da minha excursão ao pinhal.

ACOMPANHADO dos responsos e comentários das circunstantes, | pus-me pois a caminho da casa da tia Filomela, cuja sorte me estava profundamente inquietando.

A noite aproximava-se, e uma neblina densa, levantando-se dos ' vales, ia a pouco e pouco circunscrevendo em volta de mim o horizonte e estreitando-me em um círculo cada vez mais cerrado de espessos nevoeiros.

O grupo das raparigas, que me seguiam com a vista, quando eu principiava a subir a colina, cedo se me encobriu debaixo deste véu de vapores impenetrável; circunstância que devia modificar profundamente todas aquelas curiosidades femininas, ansiosas por gozar de longe do espectáculo, que com grande risco do corpo e da alma eu lhes proporcionara.

Depois de ter andado alguns minutos, e quando subia já por um pedregoso e alcantilado caminho de cabras, desenvolvendo todos os meus recursos ginásticos para não rolar como uma avalancha até ao fundo da ribanceira vizinha, pareceu-me perceber o ruído dos passos de alguém que, a pequena distância, me precedia.

Apressei-me para poder alcançar quem quer que fosse e concluir em companhia o resto da minha excursão. Em breve me foi dado consegui-lo.

A pessoa que assim caminhava adiante de mim, era o pároco da freguesia, jovem sacerdote que eu mal conhecia ainda, mas cujas maneiras afáveis e delicadas, e seriedade superior aos seus anos, me haviam feito já simpatizar com ele. Vendo-me, parou a esperar-me.

— Por estes sítios! Agradam-lhe também os passeios dos montes! — Não foi para passear que vim até aqui, mas para socorrer uma pobre mulher, que a cega superstição desta gente ia talvez deixar morrer ao desamparo. E quem sabe se ainda chegarei a tempo ? O reitor olhou para mim, perguntando-me: — Refere-se a tia Filomela ?

— Exactamente, a ela mesma.

— Então ofereço-lhe companhia, eu também me dirijo para lá.

— Também ?! — É verdade, todas as sextas-feiras essa pobre mulher me procurava.

Faltou-me esta semana, esperei-a ontem debalde e por isso nus-me a caminho hoje, por igualmente recear alguma desgraça.

— Mas não é uma bárbara crença a deste povo ? — Então que quer ? A ignorância é sempre supersticiosa.

— Mas... e perdoe-me dizer-lhe isto, senhor reitor: não poderiam algumas palavras da sua parte desvanecer essas abusões? O reitor sorriu melancolicamente.

— E cuida que as não tenho dito ? Há apenas dois anos que vim para esta abadia. O meu predecessor era, pelo que pude saber dele, um santo homem, esmoler e honrado, mas de uma superstição grosseira, eivado de erros e de preconceitos que a falta de instrução e nenhuma cultura de espírito haviam feito pulular. Era ele o primeiro a acreditar em todas as tradições de duendes e de almas penadas e a usar de esconjuros, amuletos e ervas contra feitiços. Na residência deparou-se-me uma abundante colecção desses objectos, com que o bom do homem julgava prudente munir-se contra os ataques dos maus espíritos e das feiticeiras. Faça ideia de como devia andar a imaginação desta gente, quando um pároco, que residia aqui havia perto de dezoito anos, lhe dava tais exemplos. Nos primeiros dias em que assumi as funções paroquiais, percorrendo os papéis do meu antecessor, encontrei entre outros documentos não pouco curiosos, nos quais ele registava várias observações críticas a respeito dos seus paroquianos, um que mais que todos me interessou. O conteúdo era, pondo agora de parte a ortografia muito sua, pouco mais ou menos o seguinte: « Em Agosto de 50 veio residir para esta minha paróquia, escrevera ele, uma velha mulher que diz chamar-se Filomela — nome pouco de gente cristã e baptizada. Vinha miseravelmente vestida e foi viver para uma pequena casa do Pinhal. Ainda não procurou sacramentos e é de poucas falas. Logo que ela aqui chegou principiaram a morrer crianças de um modo nunca visto. Ficavam roxas e chupadinhas, que fazia dó. Depois deu a mortandade nos carneiros, que calam nos campos como tordos. Bem se vê que a mulher é suspeita. Pelos modos, ouve-se por altas horas em casa dela gritos agudos, e de noite corre fadário nos montes feita em uma luzinha. De quando em quando, vem visitá-la um homem de má catadura. Tudo faz crer ser ela bruxa refinada.

Há tempo, falando-lhe, ouvi-lhe palavras sacrílegas. É ovelha que já não espero salvar.» Assim terminava o original apontamento do pobre cura, o qual, como é de crer, me excitou mais interesse ainda, do que simples curiosidade. Indaguei de várias pessoas relativamente a Filomela, e pude então reconhecer como se haviam já arreigado nestas imaginações incultas as ideias supersticiosas do pároco. As informações, que me foi possível colher, representavam-me de facto Filomela como um ente sobrenatural em relação íntima com os espíritos maléficos e dotada de poderes extraordinários para evocar as almas dos mortos em pecado e outros absurdos semelhantes.

Quis desvanecer esses preconceitos, combati-os como pude; consegui apenas ser daí por diante olhado com suspeita pelo povo, que via na minha incredulidade uma espécie de heresia. Decidi-me a procurar a tão falada tia Filomela. O que fui encontrar, procurando-a, deve supô-lo o senhor, que, pelo que vejo, mostra conhecê-la também.

Uma desgraçada e nada mais. — Filomela veio de longe para aqui, O motivo desta emigração foi uma desgraça de família, que ela me revelou sob o sigilo da confissão. Quando chegou a esta terra, trazia a pobre mulher no coração o desespero, e nos lábios a blasfémia que o delírio lhe arrancava.

Se não tivesse encontrado um pároco sem preconceitos, que compreendesse as causas daquele estado doloroso, que tentasse sanar as feridas, ainda gotejantes de sangue, daquele coração aflito, a cura seria fácil. Mas o desprezo de que se viu rodeada exacerbou-lhe os padecimentos e, cada vez mais entregue ao infortúnio, ia perdendo até os sentimentos religiosos, que por tanto tempo haviam sido seu único e eficaz auxílio. Uma epidemia de garrotilho, que fez mil vítimas nas crianças, e não sei que moléstia que por aqueles tempos grassou no gado, chegando a sacrificar rebanhos inteiros, vieram concorrer para arreigar estas superstições, que tão amarga tornaram a sorte, já mal-aventurada, da pobre Filomela. Quando pela primeira vez lhe falei, senti-me desanimar; confesso a verdade, tão desesperada a vi, que julguei ter chegado tarde: pareceu-me que seriam baldados todos os esforços para chamar de novo à comunhão das ideias cristãs aquela pobre alma abatida pelo infortúnio. Enganei-me todavia; consegui- o em pouco tempo, e hoje é uma das mais religiosas criaturas da minha freguesia.

— O que não evita continuar a ser olhada como bruxa e cruelmente odiada.

O reitor notou, sorrindo.: — E o melhor da história é que nem todos me poupam também; aqui onde me vê, tenho adquirido a minha reputaçãozinha de feiticeiro ou coisa parecida.

À verdade desta observação servia de testemunho a conversa que eu ouvira dias antes ãs raparigas do lugar a respeito do reitor.

Tínhamos enfim chegado à porta da humilde habitação da imaginária bruxa, quando perguntei ao meu companheiro o que ele conjecturava dos pequenos embrulhos de papel, a que Luisita chamara os novelos da tia Filomela.

Ouvindo esta pergunta, o jovem reitor olhou para mim tristemente, e com uma voz reveladora da verdadeira comoção, respondeu- me:

— Isso resume quase toda a história desta mulher. É um ente sin- [ar e tão digno de respeito e estima, como de compaixão.

Foi o único esclarecimento que obtive.

Entrámos enfim no quarto da tia Filomela.

XI

ERA já noite fechada; a última claridade do dia desmaiara a pouco e pouco no ocidente, apenas agora tingido de uma uniforme cor de violeta. Do lado oriental principiava a surgir a Lua por detrás dos pinheiros, que se desenhavam em negro sobre o fundo de nuvens em que o astro difundira um colorido inimitável. A única porta da habitação da tia Filomela ficava voltada para este lado, e os raios do luar, penetrando por ela, davam a todo o recinto um aspecto indefinível de tristeza e de pavor.

Parámos no limiar, escutando se algum ruído nos advertia da presença da solitária velha, cuja vida tão desfavoravelmente comentada estava sendo em toda a aldeia e seus arredores.

Reinava o mais completo silêncio.

— Saiu talvez — disse eu, enquanto que outra coisa bem diversa e pressagiava o coração.

— Saiu ou... quem sabe? — respondeu-me o reitor, expressando esta hesitação o mesmo triste pressentimento que eu tivera.

Demos alguns passos dentro da sala. — O mesmo silêncio.

— Tia Filomela! — exclamei então, erguendo a voz.

Ninguém me respondeu.

Guiados pelo luar, chegámos ao fundo do quarto, onde sabíamos estar situado o leito da pobre mulher.

Então pudemos distinguir uma forma alvacenta, como de corpo animado, que involuntariamente nos fez recuar de terror.

Vencemos, porém, este primeiro movimento de repulsão e apromámo- nos.

Era ela! a tia Filomela, regelada, hirta, com os braços pendidos ora do leito, os olhos abertos, a vista fixa, imóveis e contraídos os lábios e as faces mais emaciadas e pálidas que nunca! — Que desgraça! — exclamou o moço reitor, juntando as mãos.

— Pobre mulher, morta, morta assim I Palpando-lhe o peito, julguei sentir ainda bater-lhe frouxo e compassado o coração.

— Morta, ainda não — disse ao reitor, comunicando-lhe a minha descoberta — parece-me perceberem-se-lhe ainda uns restos de vida prestes talvez a abandoná-la de todo.

Como para confirmar a verdade das minhas palavras, a mísera fez um movimento, e com uma voz sumida perguntou: — Quem é que está aqui ? — É o senhor reitor — respondi-lhe, curvando-me sobre o leito — Ah! pois veio ?! — disse a pobre mulher, em cujo rosto per.

cebi desenhar-se uma expressão de suprema felicidade. — Ainda bem, ainda bem! Onde está ele? . — Estou aqui — disse o reitor com a voz presa pela comoção que experimentava.

Filomela 'agarrou-se-lhe à mão.

— Como foi bom em vir! Não me deixe, enquanto não estiver morta, não? Tenho tido medo de me ver só. Como é triste ver-se a gente morrer só, só... sem amigos, sem ninguém que chore, sem ninguém que console! Nunca pensei que chegaria a isto, meu Deus! — Sossegue. Aqui nos tem. Mas não há-de morrer ainda.

— Morro, morro, eu sinto que morro, e ainda bem que assim é, Viver como tenho vivido há anos é pior, muito pior. Eles cuidavam que a feiticeira... como sempre me chamavam, coitados! não sofria por se ver assim aborrecida e desprezada; ai, se sofria! se soubessem a minha vida toda!...—E depois, interrompendo-se, apertou com violência a mão do reitor, bradando como sufocada: — Senhor reitor, ai, senhor reitor, a sua bênção depressa, eu sinto que vou morrer. Sinto, sinto! E erguia-se com a contracção enérgica da última agonia.

O reitor, após uma fervorosa oração, elevou os olhos ao Céu e abençoou a moribunda, que na aparência se diria já cadáver.

De repente, ainda meia erguida e sustentada por nós ambos, e com o olhar vago, as mãos juntas e os lábios desmaiados e trémulos, ela principiou murmurando uma prece, cujas palavras não pude perceber.

O reitor observava-lhe os movimentos com um gesto de compaixão e em voz baixa rezava também as orações da agonia.

A meia claridade que reinava no aposento, reflectindo-se naquele triste grupo, aumentava-lhe o aspecto lúgubre e melancólico, e infundia no ânimo não sei que íntimo e religioso pavor.

Passados alguns instantes, em que eu só podia ouvir o respirar ansiado da agonizante e o murmurar das orações do reitor, aquela elevou a voz e interrompendo-se a cada passo, extenuada pelo esforço, principiou dizendo como em delírio: — Era o meu dever; não era, senhor reitor? Olhe, ele aí está todo. — E apontava para os objectos do prateleiro. —Não lhes toquei...

Se vier... diga-lhe... que eu cumpri o meu juramento... mas que lhe perdoei... Já agora...

Calou-se por algum tempo; depois, com a voz cada vez mais sumida, acrescentou com aquela carinhosa meiguice, só das crianças e dos doentes conhecida: — Deitam-me para baixo ? deitam ?

Ajudámo-la a deitar.

— Assim — continuou eia — obrigada. Ai, sinto-me tão fraca...

parece-me que vou dormir. Se me apagassem aquela tocha? Não sei para que a acenderam.

Coloquei-me diante da porta, para encobrir aos seus olhos a claridade da Lua, que parecia incomodá-la.

— Ora agora, não façam ruído, porque tenho sono e bem conheço que vou dormir... bem conheço...

Fechou os olhos por algum tempo, abrindo-os logo depois angustiada.

— Ai, não estou bem! Por quem são, virem-me, virem-me para o outro lado.

Voltámo-la como ela desejava.

— Ah!—disse depois, suspirando profundamente.—Agora sim...

estou bem! Estava morta.

O reitor caiu de joelhos junto daquele pobre leito, abandonado de todos.

Deste recinto, que os boatos da aldeia faziam habitado por espíritos malignos, acabava de subir ao Céu a alma de uma santa criatura.

A impressão que me causou toda esta cena, manteve-me imóvel e silencioso, fitos os olhos naquela mulher que se finara, e no sacerdote que murmurava ao lado dela, e quase soluçando, as orações mortuárias.

Pouco a pouco um tumulto de vozes e passos apressados, que havia já alguns instantes me chegava confusamente aos ouvidos, veio distrair-me a atenção. Por as frestas da porta, que o vento tinha cerrado, percebia-se um clarão avermelhado, que, projectando-se na parede fronteira e no leito onde jazia o cadáver, dava ainda, se era possível, à cena mais sinistra aparência.

O sussurro ia-se de momento para momento fazendo mais distinto.

Era evidente que procuravam a casa da tia Filomela.

Receoso de que as ideias supersticiosas do povo e a aversão que lhe inspirava a suposta bruxa o conduzissem a algum acto de violência, ao qual a minha demora, decerto interpretada para mal, servisse de pretexto, corri para a porta com o fim de evitar, se fosse possível ainda, a profanação de um cadáver.

Nesse mesmo instante, porém, reconheci a voz de Luisita, exclamando : — É aí.

E imediatamente a porta abriu-se com violência, penetrando logo no interior o clarão de muitos archotes acesos, sustentados por criados de libré, cuja figura e trajo não eram conhecidos na aldeia.

Ainda eu não voltara a mim da surpresa que o inesperado da cena me produzira, quando vi sair de entre a multidão, que parecia afastar-se com respeito para lhe dar passagem, uma mulher elegante, distintamente vestida e que pelas formas e vivacidade de movimentos supus ser ainda jovem. Encobria-lhe as feições um comprido véu de cor escura, mas não tão discretamente, que lhe não denunciasse a beleza, ainda que deixando muito a adivinhar.

Entrou na sala com passos rápidos e agitada; e, encontrando-se de frente comigo, disse-me, juntando as mãos e com um gesto em que se reconhecia uma não simulada ansiedade: — Ainda vive ? — Está morta — respondeu o reitor, em pé junto à cabeceira do leito; e, na inflexão de voz, com que pronunciou estas palavras, julguei reconhecer não sei que tom de severidade, que me impressionou.

Esta notícia pareceu fulminar a desconhecida.

Levou as mãos ao seio e soltou um gemido, tão profundamente expressivo de dolorosa angústia, que me fez subir as lágrimas aos olhos.

Depois, como cedendo a atracção irresistível, correu ao leito, apoderou-se de uma das mãos regeladas da morta, e pousando-lhe os lábios, caiu de joelhos, bradando entre soluços que lhe sufocavam a voz: — Minha mãe! oh! minha pobre mãe! O meu espanto era completo. Olhei para o reitor. Vi-o imóvel e mudo, presenciando com gesto austero e impassível esta cena comovente.

Quem era pois esta mulher, a chorar assim junto do cadáver da infeliz que tão esquecida vivera, mais aborrecida do que estimada, e tanto ao desamparo vira aproximar-se-lhe a hora da agonia final ? — Minha mãe — continuava a pobre senhora ainda de joelhos — agora que eu vinha receber as suas bênçãos, agora que eu me julgava feliz, que esperava enxugar-lhe as lágrimas e obter o seu perdão...

para que me castiga assim, morrendo sem me perdoar? — Perdoou-lhe ! — disse o reitor com voz firme e austera.

A recém-chegada ergueu os olhos para ele, mas como se compreendesse a severidade daquele olhar, que parecia desafiar o seu, baixou-os imediatamente, perguntando lacrimosa e trémula: — Viu-a morrer ? — Assisti-lhe até ao último suspiro.

— E ela falou-lhe de mim ? — Havia-me contado a sua história.

— Disse-lhe...

— Tudo.

— E perdoou-me ? — De todo o coração.

— Mas ignorava que eu havia enfim conseguido merecer-lho, esse perdão que tantas vezes lhe implorei.

— Mais grato será a Deus. — Ô minha mãe! pobre mãe! Se eu te escutasse ao menos as últimas palavras. Quero vê-la. Como aqui está escuro! Uma luz, uma luz.

Um dos criados aproximou-se com o archote. A jovem senhora desviou então o véu que a encobria até ali, patenteando o rosto, verdadeiramente deslumbrante de beleza, e que naquele momento as lágrimas mais faziam realçar.

Fitando os olhos no aspecto macilento e decomposto da mãe, soltou um grito dilacerante, e cobrindo o rosto com as mãos, desatou em soluços, que comoviam o coração de quantos os escutavam.

— Jesus, meu Deus! O que fizeram seis anos de infortúnio! Oh desgraçada de mim! Pobre mãe! — continuou ela, cobrindo de beijos aquelas faces já frias. — Como não sofreste, para assim envelhecer em seis anos! Seis anos? Aqui, só, neste monte, nesta casa, tão mal abrigada, tão mal vestida! Mas... Jesus, meu Deus... acaso...— e pôs-se a olhar em volta de si com a vista perturbada.

O reitor, que pareceu compreender aquela interrogação muda, segurou-lhe no braço, e encaminhando-a para junto do prateleiro, onde se divisavam os misteriosos volumes de que tenho falado, disse- -lhe, apontando para eles: — Olhe. Sua infeliz mãe morreu pobre e desamparada.

A aflita senhora, olhando para os objectos que lhe designava o reitor, fez-se pálida e pareceu prestes a desfalecer.

— Meu Deus! ai, meu Deus!—bradou, torcendo as mãos — a minha culpa foi pois tamanha que merecesse este castigo? O reitor mostrou-se comovido, ouvindo este grito de não fingido desespero, e pela primeira vez se desarmou da fria insensibilidade, que eu até então estranhara nele.

— Perdoou-lhe, senhora. Sossegue. E se o que ela havia tanto desejava, para lhe estender os braços de mãe, se realizou enfim, confie que do Céu, onde está, o saberá, como o poderia saber na Terra, que para sempre deixou.

A filha da tia Filomela, depois de mais uma vez abraçar o cadáver da mãe, chamou os criados, que entraram no aposento. Junto com eles vinha Luisita, cuja curiosidade pudera enfim abafar os supersticiosos terrores.

— Procurem pousada na aldeia — disse-lhes a senhora, dominando ainda a custo a comoção — e mandem-me alguma mulher que queira ficar hoje comigo aqui.

Espanto entre a criadagem.

A senhora continuou: — Aqui, junto do corpo de minha querida mãe.

E, dizendo isto, corriam-lhe as lágrimas pelo rosto abaixo.

— Fico eu, senhora — disse Luisita, adiantando-se e chorando também.

D. Margarida—que tal era, como depois soube, o nome da senhora — viu estas lágrimas, e recompensou-lhas com um beijo afectuoso!

O bom coração de Luisita ganhara neste momento uma grands vitória sobre a sua má cabeça.

Os criados voltaram à aldeia, comentando cada qual a seu modo o sucedido.

Eu vim para casa só. O reitor ia retirar-se comigo, quando D, Margarida lhe disse com voz triste: — Quer ouvir o resto da minha história, senhor reitor? Preciso da sua absolvição e dos seus conselhos.

O reitor anuiu Eram seis horas da manhã do dia seguinte, quando me vieram acordar, dizendo-me que era procurado.

— Por quem ? — Por o senhor reitor.

Apressei-me a descer à sala, onde efectivamente o reitor me estava esperando.

— A que devo a felicidade desta visita? — Reclamo os seus serviços.

— Estou a sua disposição.

— Trata-se de umas exéquias solenes à tia Filomela; coisa, a falar a verdade, tão rara na aldeia, que me vejo embaraçado para lhe dar expediente. Não tenho conhecimentos na cidade e portanto...

— Deixe isso a meu cuidado. Escrevo a um amigo meu, muito visto nestas coisas, e que espero se sairá bem do negócio.

— Então acompanha-me à residência para alguns esclarecimentos e mais almoçará comigo? — As ordens.

Vesti-me e segui o reitor.

A residência não ficava distante; demos aviamento ao necessário.

De lá mesmo escrevi uma carta a um amigo do Porto, encomendando- -lhe os aprestos para as exéquias, e após subi para o quarto do reitor, quarto modestamente mobilado, sem trastes de luxo, mas com uma simplicidade que revelava bom gosto.

Em uma só coisa desdizia este quarto dos hábitos singelos de vida do jovem sacerdote: era na livraria, bastante fornecida e selecta, e que, pela desordem em que a vi, conjecturei não gozar de prolongados remansos.

Junto à cabeceira do leito e ao lado do velador encontrei, ainda aberto, o Génio do Cristianismo, outros livros, porém, menos ortodoxos, cobriam a mesa, as cadeiras e até o pavimento. Fácil me foi descobrir a um lado o Jocelyn, mencionado pela cúria no Index librorum prohibitorum; junto dele, o Eurico, de igual imoralidade; mais além, os Lusíadas — não obstante a sua escandalosa amálgama de religiões; sobre o Paradise lost, o pagão do Homero; ao lado dos Mártires, a Eneida; de envolta com a Crónica de S. Domingos e a Vida do Arcebispo, a História dos Girondinos; a Guerra dos trinta anos, em contacto íntimo com os Anais da propagação da fé; o Memorial de Santa Helena, ao pé da Imitação de Jesus Cristo; e o Teatro de Vítor Hugo, de Schiller e de Garrett, não muito longe dos Sermões de Vieira, das obras de Fénelon e Nova Floresta de Bernardes.

O reitor vendo-me a examinar a biblioteca corou e disse-me com certo enleio: — Ainda me não pude desfazer dos antigos hábitos. Leituras dos meus primeiros anos e dos tempos de rapaz, pouco próprias talvez hoje . À batina só fica bem o Breviário.

— Não se justifique para comigo, porque não lhe admito a culpa.

O Breviário de per si nem sempre é bom conselheiro, Haja a vista ao seu predecessor, que pelos modos não tinha cometido esse pecado, que parece estar a pesar-lhe na consciência.

O reitor sorriu.

Sentámo-nos à mesa para almoçar, e no entretanto disse-me o reitor com expressão de sentida melancolia: — Vai saber a história da Filomela. Quer ouvi-la? Fiz-lhe sinal de que o desejava.

!— É muito curta. Esta desgraçada mulher vivia a oito léguas daqui com uma filha única, que lhe ficara da idade de seis anos, quando o marido, morto em uma dessas lutas civis que assolaram o reino, a deixou na mais triste e indefesa viuvez. Os sacrifícios que fez a pobre mãe para evitar a miséria, que temia menos por si do que por a tenra criança de quem era o único amparo, foram imensos e só talvez bem compreendidos por quem, como nós outros párocos, vive em contacto com esta infortunada gente, para a qual cada dia, cada instante de vida é uma vitória ganha sobre a adversidade. Trabalhava de noite e de dia; à luz do Sol, como à luz da lâmpada; nas longas e frias noites de Inverno, como nas formosas noites de Estio; sempre curvada à mesa do trabalho, sempre vergada sob o peso de tão dolorosa cruz! Assim passaram muitos anos daquela existência de amor e de abnegação, assim se exauriram as forças e o vigor daquela mãe extremosa; e o resto de vida que lhe não absorvia o trabalho, consumia-lho a maternidade, difundia-se nos mil desvelos e carícias, com que rodeava o berço da inocente; — com os adornos de afectos, já que lhe escasseavam os da riqueza que para ela só invejara. A filha crescia, sorrindo no meio da miséria e desconhecendo-a; ignorância feliz dos primeiros anos, comparável à da flor, que desabrocha à borda do abismo. Vivia dos sacrifícios e abnegação da mãe, e de tão pequena vivera deles, que desaprendera a apreciá-los por essa involuntária ingratidão dos filhos, que mais parece uma lei a que obedecem os afectos humanos. Crescia em idade e em formosura a ponto de ser o enlevo dos habitantes do lugar. Aos dezoito anos, fascinava; falava-se dela léguas ao redor. Foi a desgraça da mãe, que então se revia ainda em tanta beleza, à semelhança dessas crianças imprudentes que se debruçam na corrente fascinadas pela limpidez que lhes reflecte o céu.

«O filho de uma rica família das proximidades viu a inexperiente rapariga, apaixonou-se por ela, confessou-lhe o seu amor, soube fazer-se correspondido, e um dia... Margarida desaparecia de casa. Espalhou-se a nova na aldeia; a mãe esteve quase louca, muito tempo correu corno perdida por todos os lugares, encontravam-na de noite e de dia; às vezes adormecida de cansaço nos marcos das estradas; até que depois a perderam de vista na aldeia e disseram-na morta.

« Foi então que veio para aqui com o desespero no coração, alueinada a ponto de blasfemar; por isso o velho reitor, como já lhe disse, a julgou possessa. A crença espalhou-se, a coincidência de certos sucessos parecia justificá-la; e esta desgraçada mãe, só digna de compaixão, viu-se repelida, odiada e desprezada de todos! «No entretanto a filha, que cedera à sedução, inquieta pela sorte da mãe, procurava-a. Soube do seu desaparecimento da aldeia, enviou emissários para averiguarem o lugar da sua nova residência, se é que ela ainda existia. Foi feliz em tais pesquisas. Vieram da parte da filha procurar Filomela, trazendo-lhe cartas dela; a pobre mãe, cujo coração todo se alvoroçava só de vê-las, rejeitou-as sem sequer as ler, dizendo: — que nunca essa malfadada voltasse para junto de si enquanto não tivesse purificado pelas bênçãos da Igreja o erro da sua juventude, — Esta obstinada recusa, fundada em um arreigado sentimento de honra e decoro, dilacerava o coração das duas! «O amante de Margarida era de nobres e generosos sentimentos; mas, sujeito à vontade de uma família cheia dos preconceitos de nobreza e das distinções jerárquicas, nem ao menos ousava falar-lhe em uma união, que ele também cordialmente desejava.

«Margarida quis acudir à miséria da mãe, enviando-lhe algumas somas de dinheiro. Filomela rejeitou-lhas, dizendo que antes quereria morrer de fome, do que viver de vergonha. A filha propôs-lhe abandonar o amante, voltar para junto dela e trabalhar para lhe sustentar a velhice; repeliu igualmente a oferta, com a mesma pertinaz firmeza com que tinha rejeitado as outras.

«Isto há-de parecer-lhe talvez um mal-entendido rigor, mas verá que se baseava no afecto profundo que alimentava no coração.

«Margarida recorreu então a um piedoso expediente. Sabendo que Filomela saía a miúdo e que nunca se dava ao trabalho de fechar a porta da pobre casa, mandava todos os meses um criado de confiança a espiar o momento em que ela estivesse fora, para lhe remeter os socorros pecuniários. Era quase sempre de noite que isto se efectuava, pois Filomela para evitar os insultos com que a perseguiam, raras vezes saía de dia. Este homem entrava-lhe então em casa, pousava o dinheiro de Margarida sobre um prateleiro que havia na sala; eram os embrulhos, de que me falava ontem.

— Os novelos da tia Filomela, como me dizia Luisita. Adiante, — Filomela suspeitava a procedência da remessa e por isso nem lhe tocou. Quatro anos sucessivos, mês por mês, se renovou a oferta; enfileiravam-se os pequenos rolos de dinheiro, que o mensageiro religiosamente depunha no lugar costumado, e Filomela nem ao menos sabia a quanto montava já a soma assim acumulada. O criado, que estraara esta abstenção da velha, comunicou tudo ao amo. Este, porém, para não afligir Margarida, recomendou-lhe segredo e ordenou-lhe que continuasse de igual forma a cumprir a sua missão. As somas sucediam- se e Filomela, que tantas vezes lutava com a necessidade, deixars no mesmo sítio em que as encontrara.

«Quando a conheci, contou-me tudo. Os instintos religiosos, renascendo nela, aumentavam-lhe mais ainda os escrúpulos e firmavam-na em suas resoluções. Se alguma vez eu lhe falava em perdoar à filha, a nobre mulher respondia-me, soluçando: «—Isso me diz há muito o coração, senhor reitor, mas se eu o fizesse, a infeliz vinha-se-me lançar nos braços, e esse homem, que a ama ainda, esquecê-la-ia em breve e com ela as promessas que lhe jurou. Ele não é mau. E se para que eu perdoe, souber necessária a reparação, tarde ou cedo lha dará.

«Eu não confiava muito nisso, mas como teria alma de tirá-la desta crença? «Os socorros que recusara à filha recebia-os com humildade das minhas mãos. Sabia da repugnância que lhe tinham na aldeia, e nunca por isso de dia ali desceu mais. Quis obrigá-la a ir à missa, não o pude conseguir. Havia no carácter desta mulher um misto de firmeza e timidez notável! — Essa gente, coitadinha — dizia ela muitas vezes — não assistiria com fervor à missa se me vissem a seu lado. — E contudo afligia-se por ser privada de assistir ao santo sacrifício.

«Lancei mão de um expediente. Há aí por detrás do monte uma pequena capela abandonada há muito. Um dia na semana lá ia eu celebrar missa só para a pobre mulher. O meu ajudante, que era o sacristão, é talvez o único homem na aldeia que não participa já da opinião do público a respeito da tia Filomela. Coitada! não pôde ver na Terra realizado o seu mais ardente desejo! Quando expirava, corria a filha a seus braços a dar-lhe alvoroçada a notícia de que as orações de tantos anos haviam sido ouvidas. Fora enfim recebida como esposa pelo homem que motivara estas desgraças. Por morte do pai e atingindo a maioridade, ele não quis retardar muito tempo a realização do desejo de ambos.

«O fim já o não ignora. A filha inconsolável quer satisfazer para com a mãe a dívida contraída, por meio de umas exéquias solenes na igreja paroquial. O dinheiro acumulado e intacto das sucessivas mesadas que enviou a Filomela e que monta à quantia de novecentos mil- -réis vai ser distribuído pelos pobres da freguesia, sendo eu o encarregado da distribuição.

«Aí tem a história da tia Filomela, de cujo sigilo fui remido por a filha, que divulgando-a pretende justificar a memória da mãe, tão caluniada em vida.—E, erguendo-se da mesa do almoço, o reitor acrescentou: — Era uma santa!

XII

ESTA história divulgou-se: mas não fui eu que a contei a Luisita cuja crença nos feitiços da tia Filomela ficara muito abalada depois da triste cena a que assistira, foi, como já disse, a unica que ousou passar a noite com a filha da defunta. Como é de crer, não era para dormir que aí se achavam as duas. Conversaram, e D. Marga.

rida, simpatizando com a sua jovem companheira, contou-lhe toda a história.

No dia seguinte, Luisita, um pouco com o desejo de desvanecer as más opiniões da aldeia a respeito da tia Filomela, pôs-se à obra, e dentro em pouco era o facto de todos sabido.

Fez-se justiça, ainda que tardia, a Filomela, e já corriam todos para a casinha do pinhal, como para uma ermida de Senhora aparecida Duas velhas beatas disputaram, quase a murro, a posse do gato, que no resto da vida se tornou o mais benquisto da aldeia. A fantasia popular, tão fecunda em inventar lendas milagrosas, como traças de Satanás e de seus adeptos, refere agora virtudes da tia Filomela, que deixavam a perder de vista as antigas façanhas de feiticeira que lhe atribuíam.

Também me ri muito com o meu amigo da sua espantosa ciência do coração humano.

Aquela monumental dissertação era de uma solidez de alicerces formidável, só tinha o pequeno defeito de ser completamente inexacta.

Oito dias depois faziam-se esplêndidas exéquias à tia Filomela; assistiu toda a gente do lugar. Foi coisa ali nunca vista.

Após fez o reitor a distribuição das esmolas, colhendo as bênçãos dos pobres, que choravam de alegria.

À porta da igreja encontrei Luisita a limpar os olhos comovida pelo acto edificante que presenciara.

— Então, Luisita — disse-lhe eu aproximando-me — e os novelos da tia Filomela? A engraçada rapariga levantou para mim os olhos mal enxutos, sorriu melancolicamente e não deu resposta.

— Abençoados novelos — acrescentei eu — que deram para tecer tantas camisas aos pobres

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