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Serões da Província

Júlio Dinis

UMA FLOR DE ENTRE O GELO

I

NO tempo em que principiei a ir ao teatro, estavam muito em moda os dramas em cinco actos com o complemento de uma farsa.

As plateias, os camarotes, as galerias e até a fleumática orquestra, depois de carpirem, com sensibilidade, não fingida, as infaustas e tenebrosas aventuras do herói ou da heroína do primeiro dos espectáculos exibidos, acalmavam o sobressalto nervoso, que de tão continuados sustos lhes ficara, rindo a bandeiras despregadas, à custa do velho iludido, tipo predilecto da veia cómica de então.

O amor extemporâneo de um velho, os seus ciúmes insofridos, os seus acessos de cólera quase epilépticos e a intriga combinada contra ele entre a ingénua, vítima principal dessa paixão incómoda; o amante preferido e o criado astuto que dirigia o enredo, tentado pela bolsa recheada do galã e pela mão nívea da lacaia, propícia aos amores da ama: — tal era de facto o eterno e inesgotável tema glosado, com mais ou menos variantes, pelos Plautos e Terêncios da época.

A moda viera não sei se da Itália se da Espanha, mas generalizava- se rápida e extraordinariamente.

Beaumarchais foi um dos que a seguiram em França e com extrema felicidade; outros modelaram por os dele esses tipos genéricos, sem os quais quase se não concebia comédia, e por mais desgraciosos que lhes saíssem os arremedos, tinham a certeza de os verem bem acolhidos.

O nosso António Xavier não se pode dizer dos mais infelizes na tentativa; o seu Manuel Mendes, de popularíssima memória, bem mereceu os aplausos que o público tão generoso lhe prodigalizou.

Por muito tempo as plateias saboreavam estes acepipes teatrais, sem que da repetição se enfastiassem.

Eram já tão suas conhecidas as personagens, que custou deveras a desabituá-las delas; como que se não entendiam com outras.

Queriam-se com o seu Pantaleão ou Lançarote, tutor decrépito desastradamente apaixonado por uma pupila, que só tinha a malícia indispensável para o enganar a cada momento; reviam-se na figura elegante dos Leandros e Florindos, cujos conceituosos requebros pieguices amorosas escutavam com ouvidos complacentes; as jovia lidades e astúcias do criado, os seus diálogos equívocos com a lacaia as suas arlequinadas e tramóias a bem da causa comum, tudo saudavam com a mais decidida e clamorosa simpatia, A acção seguia entre aplausos contínuos o curso regular.

Cada esforço que o velho fazia para o bom êxito dos seus projectos amorosos, pervertia-lho a fatalidade em desserviço deles, e na cena final, quase sempre a das escrituras, quando se preparava para dar a batalha decisiva que devia coroar-lhe a constância, não desmen-.

tida entre desenganos e reveses, todos, até o próprio tabelião, se cons-.

piravam contra ele, e o malfadado via, no meio de risadas gerais passar a pupila para os braços do amante, que, nesse momento solene deixava cair o nariz de papelão, valioso auxiliar da última façanha Entrava-se em explicações, patenteava-se à vítima a trama minu.

ciosa da intriga, e ele acabava por perdoar e, o que mais é, tomava a sua conta o moralizar o facto.

Redobravam os aplausos; o casamento final justificava os meios, nem sempre demasiado lícitos, empregados para o fazer vingar; os espectadores retiravam-se satisfeitos, e tendo por essa forma afugen.

tado as disposições para pesadelos e sonhos angustiosos, que o drama lhes produzira, ceavam bem e dormiam melhor.

Ora sucedia já então um caso extraordinário comigo: era que, ao contrário da maioria, senão da unanimidade dos espectadores, não exceptuando até os incursos no mesmo ridículo que se pretendia corrigir assim, dava-me para ter pena do velho em vez de me rir das suas tribulações.

A plateia conseguia suavizar as impressões penosas do drama com as jocosas peripécias de uma paixão... macróbia; a mim ficava-me uma melancolia interior, mais duradoura e sentida, do que a proveniente da catástrofe do quinto acto.

Não obstante os acessórios caricatos, de que autores e actores sobrecarregavam esses tipos, para os quais de tão inexorável severidade era a Tália da época, eu achava-lhes não sei que de interessante e, direi até, poético, que ofuscava tudo o mais, e não me deixava rir, Rir, porquê? Não era antes para magoar e comover o drama psicológico que, através de episódios risíveis, se desenvolvia ali? A história de uma paixão sem futuro, funesta ao coração que a alimenta, não é mais digna de lágrimas que de escárnio? Debaixo das vestes de polichinelo, que o público iludido saudava de gargalhadas e apupos, eu não via mais do que um desgraçado, através da máscara truanesca do comediante parecia-me a cada passo divisar um olhar de tristeza que me vinha direito ao coração.

Que querem ? Mau é que se façam dessas abstracções; o efeito é depois inevitável.

Experimentai por vós; não vos lembreis da casaca esguia, do calção engelhado, do sapato de monstruosa fivela, do impertinente rabicho da cabeleira, da colossal caixa do tabaco, todas as noites tirados do guarda-roupa do teatro para adornarem esses tipos, e auxiliarem a efeito cómico da produção — muita vez mais devido a tais acessórios do que ao sal que a temperava — não atenteis nas rugas, profusa e burlescamente distribuídas pela mão exercitada do caracterizador; ou melhor ainda, concebei, se podeis, aquela alma independente de todos os desfavoráveis acidentes corpóreos, e ao vê-la lutando com uma dessas paixões violentas, devoradoras, que são a sua máxima manifestação de vigor e de vida; e humilhada, ridicularizada, escarnecida, porque o corpo que a subjuga, envelheceu primeiro do que ela; porque regelou o sangue enquanto o espírito se inflamava em impetuosas lavaredas; porque se enrugou a fronte, quando o coração se expandia com maior força de afectos; dizei depois, em consciência, se tendes ânimo para vos rirdes desse espectáculo! E a prova de que o ridículo está todo nos acessórios, de que é mais para comover e impressionar dolorosamente do que para alegrar o fenómeno moral que em tese absoluta condenavam às risadas da plateia, é que, pouco tempo depois, via-se no teatro um amor de velho, com todas as exaltações, com todas as esperanças, com todos os receios e desesperos de um amor de rapaz e, apesar das barbas brancas do amante ancião, ninguém se sentiu disposto a sorrir.

Para salvar do ridículo a Rui Gomes da Silva do drama de Vítor Hugo, bastaram as vestes negras e severas do fidalgo espanhol da corte de Carlos V, as armaduras de cavaleiro pendentes da sala de armas, a galeria de retratos de uma longa série de heróis seus antepassados ; o amor não conseguiu apequenar esse vulto, que a velhice, o orgulho e a firmeza de carácter faziam terrivelmente grande. E contudo não passava de um velho apaixonado o altivo rival de Hernâni.

Na sua presença, porém, os espectadores estremeciam em vez de sorrir; fácil lhes seria prever que essa mesma paixão, olhada ainda por outro aspecto, os poderia fazer chorar.

Porque não? Pois comove-nos o desespero impotente do cego, rodeado das magnificências da natureza, que pressente sem as poder gozar, e para compreender as quais tinha alma superiormente formada; a alucinação do veterano, à voz do clarim arrebatado em ardor marcial, e que se ergue impetuoso para correr ao chamamento da pátria, esquecendo por instantes que o braço mutilado já não pode suster a espada, que tantas vezes gloriosamente brandiu; o desalento do poeta, cujos sublimados anelos o alheiam da vida real, que em seu positivismo o sacrifica, que morre como Chatterton, consumido pelo fogo do próprio génio, impossível de existir em uma sociedade ainda não organizada para o conter em si; interessam-nos todas estas lutas, todos estes antagonismos, todos estes conflitos, em que se desvanecem ilusões; assistimos atentos a todo o embate solene de afectos encontrados, simpatiza mos com todas as aspirações reprimidas e instintos naturais subjugados por alheias resistências, e só havemos de ser inflexíveis e só havemos de rir ao vermos aquele outro triste e doloroso combater da alma com o corpo; só nos não há-de comover a mágoa, o desespero dessa jovem cativa, olhando através das grades de uma velha prisão o céu azul, os prados verdes e as flores perfumadas que a enamoram? Insul tá-la-emos quando, como o rouxinol aprisionado, se despedaçar em delírio de encontro aos ferros que a retêm? É uma grave injustiça. O espectáculo é mais dramático do que geralmente o têm querido fazer.

Há nos variados episódios da mitologia pagã situações comoventes, que estas me fazem recordar. A cada passo, ali, o amante, no auge de uma paixão violenta, perseguindo como louco pelos desvios e recessos das florestas, a ninfa fugitiva, no momento em que julga possuí- la, em que estende os braços para lhe enlaçar a cintura e aproxima os lábios ardentes para oscular-lhe as faces afogueadas de cansaço e de pejo, sente um estranho torpor adormentar-lhe os membros, um frio glacial circular-lhe nas veias, e, súbito o coração, ainda em alvoroços de amor, é comprimido pela rigidez do lenho que o invade; os braços, que agita aflito, alongam-se-lhe em ramos; os cabelos, que o terror levanta, transformam-se-lhe em folhagem e vigorosas raízes, prendendo- o ao solo, tornam permanente a imobilidade que o susto principiou.

Mas os instintos de amor que o perdem, não se apagam após a transformação; a nova árvore, conservando latente o fogo que lhe deu a origem, experimenta um doloroso estremecimento todas as vezes que a ninfa — outrora esquiva —vem agora recostar-se lânguida à sua sombra, e, cheia de uma confiança mais para desesperar do que todos os passados terrores e apreensões, se entrega aí descuidada a gratos sonhos de amor.

Pobre alma namorada! a forma que reveste, é agora a sua eterna condenação, nem de esperanças se pode nutrir, já, a triste ! escravizada pela matéria, concentra o seu padecer, pois nem manifestá-lo lhe é dado.

O que devem sentir esses malfadados heróis do variadíssimo poema mitológico, os mesmos desesperos, os mesmos desalentos, as mesmas angústias, sentem na realidade aqueles, em que a caducidade do corpo precedeu a do espírito, que, rico de aspirações juvenis, é vítima delas, porque até o revelá-las lhes é defeso.

E se o vaso já gasto estala então sob a pressão do forte impulso a que pretende resistir, nem ao menos comiseração há-de inspirar, o que sucumbe assim? Dolorosos infortúnios estes! As poucas cenas que se seguem, esboçam ligeiramente a história de um desses malfadados, de que o mundo se ri por hábito, como de outras tantas coisas sérias, que deviam merecer-lhe a compaixão e o respeito até.

Se a conseguir narrar, sem que um sorriso, obedecendo a esse habito apareça nos lábios do leitor, terei realizado o meu principal intento.

TÃO sei o nome da localidade onde o facto se passou.

Lembra-me só que era no Outono, nessa quadra de melancolia, em que desmaia o azul nos céus, em que o verde das selvas empalidece e os ventos arrebatam em turbilhões rápidos, ao longo das avenidas, onde já rareiam as sombras, a folhagem seca, que crepita sob os pés do caminhante.

Corriam impetuosas nas levadas as águas que fertilizam os vales, A hora do crepúsculo fazia mais que nunca cismar. Com as primeiras nuvens do sul, numerosos bandos de andorinhas intimidadas atravessavam os ares, procurando climas, onde lhes sorrisse ainda a Primavera.

O sítio era ameno, próprio para se gozar dali esse belo espectáculo da natureza. Uma colina elevando-se graciosa do meio de uma amplíssima e vicejante bacia. No vale, que a cerca, tudo em mosaicos de verdura; prados extensos, veigas, devesas, choupais a banharem-se na água, arroios serpeando por entre a relva, espraiando-se além em pequenos lagos, despenhando-se ruidosos dos açudes, ora a esconderem- se por detrás de umbrosos cômoros, ora patentes na planície, a retratarem as rosas, as últimas borboletas errantes, as nuvens e o rosto alegre das lavadeiras.

Pela encosta entrelaçavam os ramos vigorosos carvalhos seculares, cujo tronco rugoso e carcomido revestiam as heras e os musgos; de espaço a espaço, cortava o caminho um desses gigantes derrubados, nutrindo dos restos já sem vida a vegetação nascente que lhe rompia do seio; os algares da corrente, ocultos por um denso tecido de fetos, de giestas e de tojos, denunciavam-se apenas pelo ruído da água, descendo no leito pedregoso; ouvia-se o rastejar do réptil, fugindo ao rumor das passadas, mas difícil seria igualmente percebê-lo entre as folhas soltas e crestadas que alastravam o chão.

Em cima, na planura onde conduziam os tortuosos caminhos que ladeavam a colina, erguia-se de entre a espessura dos álamos sussurrantes, uma pequena capela, que sustentando a cruz sobranceira às franças das mais elevadas árvores, parecia estender a todas as várzeas e povoados que dominava dali, a influência salutar e benéfica desse símbolo da redenção.

Quando, ao declinar da tarde, soavam do alto da torre lateral os toques da ave-maria, em todas as aldeias abrigadas junto à base da colina, nas mais pobres choupanas como nas mais fartas herdades do vale, nenhuma cabeça ficava por descobrir, nenhuns lábios deixavam de murmurar reverentes a saudação angélica; e se os ventos levavam o som harmonioso e plangente do pequeno sino até às longínquas cordilheiras de serras que, como indistintas massas azuladas limitavam circularmente aquele horizonte vastíssimo, os serranos, dispersos com os rebanhos pelos pascigos, ou encerrados nas choças colmadas das montanhas, volviam saudosos as vistas para o ponto branco de onde lhes chegavam aos ouvidos aqueles sons quase a esvaecerem-se, e recordavam- se suspirando da devota romaria que todos os anos os levava ali, junto do altar da milagrosa Senhora da Saúde, sob cuja invocação fora levantada a capela.

As romarias! as romarias! gratas recordações, únicas talvez, daquela pobre gente da serra! As horas rápidas de gozo, que um só desses dias de festa lhe dá, compensam-lhe de sobra as continuadas fadigas da vida tão trabalhada e penosa. Em torno à pequena ermida, onde cada ano afluem de tão longe essas piedosas peregrinações de devotos, parece esvoaçar de contínuo uma turba de espíritos alados que nos segredam histórias de tantos amores, nascidos ali e ali santificados, junto ao altar onde as dádivas votivas dos menos esperançados se amontoam, a velar pelo seu destino e propiciar-lhes o Céu.

De quantas incertezas, de quantas esperanças, de quantas alegrias e apreensões não sois vós sabedoras, despidas paredes desses templos singelos, onde faltam os ornamentos da arte e as sumptuosidades do culto, mas que as crenças populares engrandecem e as lendas tradicionais, que de velhos a crianças se transmitem, perfumam de poesia! Que de orações fervorosas, rude mas eloquente linguagem daquelas almas de crenças robustas, têm sussurrado no estreito recinto desses muros! que olhares de místico enlevo erguidos até à imagem do altar, à qual o grosseiro da escultura parece aumentar ainda o prestígio! E não vos hão-de fitar saudosas as vistas dos romeiros, rústicas ermidas, depositárias dos mais ardentes votos da sua alma? Árvores, que as rodeais, poderiam desconhecer-vos no horizonte ou confundir- vos com outras os olhos do pastor errante ou do lavrador curvado, quando o coração lhes diz que sois vós, vós que de longe lhes acenais, com as ramas agitadas, como para os alentar no trabalho com a esperança de um outro dia de gozo? A fantasia voa-lhes como as aves a ocultar-se na espessura desses bosques, onde com elas volteia namorada pelas mais solitárias moutas e pelas arborizadas margens dos ribeiros.

Destes lugares celebrados assim pela devoção e simpatia popular, poucos tão ricos de tradições piedosas, como a colina, em cujo cimo estava, como dissemos, erigida a capela de Nossa Senhora da Saúde.

Cada família dos arredores tinha a sua lenda de milagres a referir- lhe. Uma romagem à Senhora no dia consagrado passava por a suprema medicina. Não havia mal que aquela intercessão não remediasse, ou fosse doença verdadeira ou, o que é pior, desses males de coração, que ainda são mais pertinazes, que ainda fazem mais padecer.

Diziam-no as inumeráveis histórias que aos serões as velhas contavam às crianças para lhes robustecer a fé, e algumas das quais tão singulares e miraculosas eram, que até do púlpito as repetiam os pregadores.

A fama estendera-se e tanto, que de ano para ano aumentava a afluência dos ansiosos de benefício; muitos dos quais, convencendo-se de que não menos capaz do milagre devia ser aquela atmosfera salutarmente vivificada por uma abundante vegetação, por ali se deixavam ficar, associando assim a higiene com as devoções.

Por isso, o viandante, que agora seguia as pitorescas veredas, pelas quais o monte era em diversos sentidos irregularmente cortado, via, em toda a entensão da encosta, a aparecerem-lhe e desaparecerem- lhe sucessivamente por entre a verdura, casas de risonha aparência, dispersas ou reunidas em graciosos grupos, com as paredes alvíssimas, as portas verdes e os telhados vermelhos e cercadas de bonitos jardins, tão recendentes de perfumes na Primavera, que aromatizavam em redor todos os caminhos.

A maior parte destas casas era habitada por uma população flutuante de valetudinários ou convalescentes, que procuravam vigorar forças, respirando a pleno seio o ar purificado e livre das montanhas e dos bosques.

Pela manhã, quando as névoas principiavam a dissipar-se e, por entre a folhagem das árvores, o sol penetrava mais fomentador de vida e ia evaporar o orvalho que ainda rociava as ervas dos caminhos, viam-se subir a colina, a passos vagarosos e com frequentes pausas, esses pálidos doentes, que pareciam renascer só ao receberem aquelas auras embalsamadas pelos perfumes das flores, e suavizadas pelos primeiros calores da manhã.

Era o velho quebrantado e trémulo, parando a meio caminho da ladeira que subia, a fitar o céu, como se de antemão procurasse decifrar o problema que em breve teria de resolver; o mancebo, inquieto e pensativo, de aspirações ardentes e subidas e em tão alto grau, que no empenho de as realizar lhe faleceram as forças e no forte da luta sentia-se sucumbir; a virgem, meiga e melancólica, como uma das mais ideais criações ossiânicas, errante por entre as árvores seculares ou pendida à borda das correntes, escondendo uma lágrima ou simulando um sorriso, manifestações diversas na aparência e ambas denunciadoras tantas vezes de uma grande tristeza interior; a mãe, jovem e doente, em torno à qual brincava um bando de crianças alegres e cheias de vida, ignorando, as inocentes, que todo o seu destino, que as suas alegrias ou as suas dores no futuro dependiam agora daquelas árvores, onde se balanceavam risonhas, daquelas virações, que lhes açoutavam os cabelos soltos e anelados.

Assim, pois, o lutar da vida e da morte era o que por toda a parte se via. Contrastes de esperança e de desalento, antíteses de sorrisos e de lágrimas.formavam a feição mais característica do quadro.

O cair das folhas, o desenflorar da relva, os gemidos das aves, e as sombras errantes que as nuvens projectavam pelos campos, tudo parecia harmonizar-se tristemente com o cismar interrogativo do velho, com o suspirar do mancebo, com as lágrimas da donzela e com o abraço convulso da mãe, cingindo ao seio, em um frenético movimento, as cabeças louras das crianças que lhe sorriam.

Era a vida a declinar: a consciência de um fim próximo a reprimir aspirações a um longo futuro de mais prazeres e gozos.

Vacilantes entre um passado risonho e um porvir tenebroso e incerto, entre a saudade do que foi e o medo do que há-de ser, esses pobres desconfortados sorriam ainda, animavam-se, davam uns aos outros esperanças que não sentiam em si.

Às vezes desaparecia de entre eles um rosto conhecido, e fechava- se uma casa.

Resolvera-se para esse o problema, terminava a incerteza. Ou o arrebatara a morte aos seus mistérios ou o restituirá a saúde às suas alegrias. E, conforme uma ou outra dessas soluções, assim o desalento ou a esperança se divisavam por dias no rosto dos companheiros que ficavam.

Letras gravadas nos troncos das árvores atestavam as recordações saudosas dos que tinham passado ali. Os sovereiros e as faias eram os confidentes silenciosos de muita paixão secreta, de muita ilusão desvanecida, de muito coração despedaçado. Quantas lágrimas eles teriam sentido correr, ao receberem aquelas enigmáticas memórias de um ser ausente que chorava também, ou, amarga ideia e quase sempre mais verdadeira, que se esquecia e por isso mesmo mais amado era ainda! Mistérios do coração ! Estas letras, destinadas a durar talvez mais do que a mão que as gravava, documentavam muita história triste, dramas ignorados, cujo último acto se representara nesses sítios, que assim conservavam dele os derradeiros vestígios.

Nas paredes caiadas da capela do monte o lápis reproduzira memórias iguais às que se viam gravadas nos troncos, e outras menos concisas, que mais facilmente traíam o pensamento que as ditara.

Inscrições inumeráveis, irregulares, amontoadas, por vezes ilegíveis, cobriam-nas até à altura a que podia atingir o braço.

Frases cortadas, exprimindo muito, mas deixando ainda mais a adivinhar; confrontações de nomes, que denunciavam uma história inteira; dúvidas formuladas, indício de violentos e terríveis estados da alma; apóstrofes ímpias, ditadas pelo desespero; cânticos reverentes, inspirados pela resignação e pela fé... — de tudo se via ali.

A elegia junto à ode; a saudade e logo após a esperança; o cepticismo que fazia estremecer a crença consoladora, expressos por todas as formas, concebidos dos modos mais variados, narravam eloquentemente a história do coração humano nos mais solenes momentos da sua vida tumultuosa e apaixonada.

Era mais do que curiosa a leitura daquele álbum singular; era instrutiva e altamente filosófica.

Se se pudessem reunir todos esses fragmentos dispersos, completar as frases interrompidas, preencher as lacunas, adivinhar o nexo misterioso de certas ideias, aparentemente sem relação lógica que as fizesse dependentes, ter-se-ia instituído um profundo estudo psicológico e a mais perfeita análise dos afectos que dominam a existência do homem.

Por mais de um motivo se tornava, pois, curioso o lugar, onde as exigências da narração me obrigaram a transportar imaginariamente o leitor.

III

ROMPERA alegre a madrugada de um dos mais belos dias do Outono.

O orvalho gotejava ainda das folhas das árvores sacudidas pela brisa matinal, e as gotas límpidas e oscilantes pareciam metamorfo- Bear-se em rubis, safiras e esmeraldas ao refractar os raios da luz solar.

Era encantador o aspecto da colina naquela manhã; semelhava a donzela que, brincando, desenfiou o seu colar de brilhantes e os soltou em desordem pelos cabelos, pelo seio e pelo regaço, de onde, ao menor movimento, lhe rolam até caírem no chão.

Os primeiros calores do dia erguiam já dos vales o sendal de névoas que os envolvera, e, dissipando-as na atmosfera, temperavam de tintas mais suaves o azul-escuro do céu.

Sobrepostas às serranias que limitavam o horizonte, divisavam-se grandes massas de nuvens, cujos reflexos à luz oriental lhes dava a aparência dos altos gelos que coroam as cristas das montanhas.

Iludidas por estes simulacros de Primavera, as próprias plantas pareciam renascer. A seiva afluía-lhes de novo aos ramos despidos, e desenvolvendo-lhes os gomos, revestia-as de folhas, desabrochando- -lhes os botões enfeitava-as de flores, e os insectos, surgindo uma vez ainda do letargo insipiente, adejavam em torno à corola humedecida que lhes patenteava os nectários.

Sorria a natureza ainda, mas havia o que quer que era meigo e melancólico naquele sorrir. Eram como as alegrias plácidas do enfermo, vítima de uma doença fatal, a quem a mais efémera remissão fez conceber os prazeres da convalescença, mas sem que o possa iludir.

Ameaças permanentes no meio desta tranquilidade geral, eram, no horizonte, as nuvens, como aguardando só por um sinal para invadirem o espaço, e um rumor longínquo e monótono que de quando em quando os ventos traziam aos ouvidos, como o grito de fera aprisionada — a voz profética do mar pregoando tormentas durante a bonança que momentaneamente reinava.

A vida do campo manifestava-se toda nas eiras e nos celeiros onde se entesouravam as riquezas do lavrador.

Risos, cantares, vozearias confusas, com que por toda a parte na planície se acompanhavam os diferentes trabalhos das colheitas, chegavam, como mal distinto burburinho, ao alto da colina, onde em compensação reinava o silêncio solene e imponente, silêncio não absoluto, porque falam os bosques e as torrentes, porque falam as aves e os insectos; mas em que se não ouve a voz humana — o silêncio da solidão.

De facto a colina podia dizer-se deserta.

Era cedo ainda para o passeio matinal da pequena colónia d enfermos que a habitava.

O doutor Jacob Granada recomendava-lhes que evitassem os nevoeiros da manhã, e poucos ousariam infringir as ordenações do velho médico, que no tocante à execução dos seus preceitos dava provas de uma intolerância despótica.

Jacob Granada era um destes homens singulares, que desde primeira entrevista nos deixam uma impressão profunda e indelével e cujo trato continuado, a não se lhe opor convenientemente uma von tade inflexível e uma grande força de carácter, tende a dar-lhes um predomínio tal sobre os ânimos, que difícil é mais tarde subtrair-se qual quer, que por algum tempo se lhe sujeitou a tão poderosa influência Se o poder magnético tal como o concebem os mais crédulos e ardentes apologistas da fantástica arte de Mesmer, fosse uma realidade e não uma simples criação de visionários, decerto possuiria Jacob Granada essa faculdade superior no grau mais elevado.

A inegável influência moral de caracteres como estes sobre os menos rijamente temperados explica, e até de alguma sorte justifica, a origem dessa singular doutrina, que a aura popular, favorável a todas as ideias novas e extravagantes, tão extraordinariamente propagou.

Em Jacob Granada auxiliava ainda a influência dessas qualidades morais, um conjunto de caracteres fisiognomónicos, que não podia deixar de ferir a imaginação menos sujeita a impressões desta ordem.

. . Os lineamentos predominantes da raça israelita, da qual a família dele originariamente procedia, desenhavam-se-lhe acentuados nas feições angulosas e expressivas, imprímindo-lhes um cunho de nacionalidade, cuja interpretação não podia enganar.

Sobre a fronte, estreita mas elevada, alvejavam-lhe em raras e desordenadas madeixas, as mais formosas cãs que ainda adornaram uma cabeça de ancião. Os lábios, delgados e deprimidos nos ângulos por contracção habitual, denunciavam longos hábitos de reflexão e de reserva, que efectivamente lhe estavam na índole. No nariz havia completa e absoluta conformidade com o do tipo judaico, e os olhos pequenos, mas de uma vivacidade de fogo, exprimiam a inteligência e subtileza de espírito, que um conhecimento ulterior não desmentia nele..

Era excessivamente magro e um tanto curvado pelas fadigas do estudo e pelo peso de sessenta anos de vida trabalhada por incessantes esforços físicos e intelectuais; não obstante, nunca deixara de observar os mesmos hábitos laboriosos, que eram já para ele imperiosa necessidade.

Ao romper do dia o jornaleiro encontrava-o nos caminhos com o vestido negro e singelo, no qual conseguia combinar certa severidade com um não estudado desalinho, e correspondendo sempre às saudações por uma frase invariável, ou um simples e distraído movimento de cabeça.

Os cuidados de que Jacob Granada rodeava os seus doentes, ainda que salutares, pesavam como um jugo, impertinente até para os de ânimo mais dócil e submisso. Quem se confiasse à ciência do velho facultativo tinha de depositar previamente nas mãos dele toda a liberdade de acção e de pensamento durante o tempo por que se prolongasse a moléstia.

Exigia que o doente pensasse pela cabeça do médico, que não formasse uma só resolução sem expressamente lhe ser autorizada pelas prescrições regulamentares que para cada qual instituía.

A completa resignação da vontade própria na sua, a inteira abstenção de tudo quanto fossem perguntas ou objecções sobre o tratamento seguido, a cega observância dos preceitos, aparentemente mais insignificantes, que tivessem sido aconselhados por ele, eram as condições fora das quais se não encarregava de tratamento algum; e à menor infracção, declinava de si a incumbência, para nunca mais a assumir.

Este despotismo médico valia ao doutor Jacob uma clientela numerosíssima e inspirava uma confiança ilimitada na sua medicina.

Escutavam-no e obedeciam-lhe como a um oráculo, e os mais ousados temiam de contrariá-lo ou de lhe fazer sequer uma dessas observações, ãs vezes tão absurdas, que todo o doente se julga autorizado a dirigir ao seu assistente.

As formas ásperas e sarcásticas com que Jacob Granada respondia às mais tímidas interpelações, nas quais via sempre uma tentativa de revolta, tiravam a vontade de as reproduzir.

Ora, para os homens que têm de viver com as multidões, este procedimento é sempre fecundo em resultados.

Apresentar-nos perante elas como dominadores, como espíritos fortes não dispostos à menor concessão, é de alguma sorte revelar-lhes a consciência da nossa superioridade e desarmá-las para a resistência; pelo contrário, encará-las tímidos, aceitar-lhes observações, respeitar- -Ihes repugnâncias, afagar-lhes tendências e simpatias, é fazer confissão de fraqueza, estender a cabeça ao jugo dos caprichos delas, o suficiente para nos desprestigiar e quebrar-nos as forças para o momento da acção.

Ou por índole ou por cálculo, havia Jacob Granada evitado o desprestígio e exercia sobre a sociedade, que o rodeava, um império absoluto.

Era por isso que os doentes daquela pequena colónia médica confiada à sua direcção, não tinham ainda ousado aventurar os primei ros passos sobre a relva húmida dos caminhos, não obstante o aspecto convidativo da manhã, e contentavam-se, limpando o vapor conden sado pelo frio nos vidros das janelas, em olhar através deles, com os rostos descorados, para aquelas árvores que de fora os seduziam Desta escrupulosa observância de um dos seus preceitos higié nicos se podia convencer por os próprios olhos o inflexível doutor que, ao contrário dos doentes e em oposição com as prescrições que instituía, havia muito passeava nas ruas irregulares e relvosas da ala meda que circundava a capela.

Não obstante a satisfação que desta fiel obediência parecia dever resultar-lhe, não eram desanuviadas naquele momento as feições do velho médico.

Uma profunda preocupação de espirito revelava-se-lhe nas rugas mais acentuadas que lhe sulcavam longitudinalmente a fronte, na maior contracção dos lábios e na rapidez e irregularidade do andar, interrompido por pausas súbitas e movimentos impacientes.

Às vezes soltavam-se-lhe do peito, que se elevava em agitação febril, suspiros mal reprimidos; e os punhos cerravam-se-lhe em contracções nervosas; outras, um profundo desalento abatia-lhe a fronte, e os braços descaíam-lhe como desfalecidos ao lado do tronco.

De quando em quando parava, parecendo absorvido na contemplação de um objecto qualquer, como se nele descobrisse alguma coisa de misterioso e estranho que o confundia; abaixava-se rapidamente para apanhar uma flor cortada e esquecida no chão, e logo depois arrojava-a de si com enfado visível; corria com ansiedade para a árvore, em cujo tronco divisava uma inicial aberta de véspera, e cedo afastava-se dela, como se a observação o contrariasse. Qualquer pequeno ruído o fazia voltar em sobressalto; parava perturbado, depois, sacudindo a cabeça por um movimento cheio de frenesi, recaía mais profundamente ainda na turbação anterior. Palavras sem nexo, imperceptíveis, incapazes de lhe trair o pensamento, saíam-lhe dos lábios e faziam-no estremecer, como se outro as pronunciasse.

Ora, para quem conhecesse ou julgasse conhecer o doutor Jacob, era muito para estranhar o seu estado extraordinariamente febril naquela manhã.

À impassibilidade profissional, que a opinião comum se apraz atribuir a todos os médicos, reunia de facto Jacob Granada um temperamento naturalmente apático, um sangue-frio nunca desmentido nos lances mais patéticos e comoventes.

Gozava até entre os colegas de uma reputação de alma empedernida, que ele se não dava ao trabalho de desvanecer.

Viam-no sorrir no momento em que, sob os golpes vagarosos e intrépidos do seu escalpelo, os operados se estorciam em convulsões desesperadas; observavam-lhe as feições inalteráveis quando, à cabeceira do amigo agonizante, percebia no sucessivo decair do pulso e na decomposição do rosto, o termo iminente de uma vida que se lhe supunha cara. Tinha sempre a mesma dureza de maneiras, a mesma franqueza, às vezes cruel, para com todos, qualquer que fosse a idade, o sexo e condição. Não sabia de carícias para as crianças, de delicadezas para as mulheres, de afabilidades para os pobres, de contemplações para com os tímidos, de respeitos para a velhice. Todos eram doentes para ele, e ele para todos médico e nada mais; mas o médico que diagnostica, que receita, que opera, e não afaga, não lisonjeia, não consola os doentes; que, sabendo-se necessário, não ambiciona tornar-se desejado; que não recua no emprego de um meio salutar pela lembrança do padecimento que suscita; que vela pela saúde dos seus enfermos, mas zomba da sensibilidade deles.

Costumara-se a fazer o bem, como o cumprimento de um dever de que a razão o convencera, mas supunham-no incapaz de experimentar aquela suave satisfação que de tal prática resulta às almas mais delicadas.

Vivia só, não conhecia um único parente, evitava relações íntimas, afugentava-as pela maneira glacial com que recebia as tentativas dos poucos que as procuravam.

Tinha sempre um sorriso de zombaria para os padecimentos morais, em cuja existência não acreditava.

Para ele tudo eram lesões, tudo órgãos alterados, tudo perturbações materiais. À medicina psicológica dos médicos espiritualistas devia os seus melhores epigramas. Não havia doença de poeta ou de amante platónico, para a qual não formulasse.

Era um desapiedado adversário desse vaporoso fantasma, que persegue actualmente as mais delicadas organizações femininas — o nervoso; ou o recebia com um sorriso de céptico, ou instituía contra ele uma ordem de meios curativos capaz de aterrar inimigos, muito mais reais e palpáveis.

Inteiramente indiferente ao conceito público, não observava as modas em coisa nenhuma, não se justificava de arguições, nem recebia conselhos.

Finalmente, tinha a reputação de grande médico, mas de homem insociável e de verdadeira alma de mármore.

Era pois excepcional aquela profunda inquietação.

Fundira-se o gelo daquele ânimo impassível? Houvera enfim um estímulo que despertara essa sensibilidade, entorpecida até então? Assim parecia.

Quem o visse agora pela primeira vez,hesitaria em receber como verdadeiro o conceito que geralmente se fazia do seu carácter e que acabamos de esboçar aqui.

Não é dos temperamentos frios e impassíveis essa excitação febril, esse movimento sem causa, sem norma, sem pensamento regulador que o agitava; antes se revelava em tudo isso uma poderosa sensibilidade, ou nova nele ou pelo menos ignorada.

Por muito tempo durou ainda o estado de inquietação e sobressalto, que tão excepcionalmente revelava naquela manhã o fleumático doutor Jacob.

Corriam os momentos consagrados por ele de ordinário às tarefas clínicas, e, como se uma força irresistível o retivesse ali, prosseguia naquela marcha rápida e desordenada, só interrompida de quando em quando por gestos e movimentos mais desordenados ainda.

Mudando, porém, quase sem consciência do que fazia, a direcção ao passeio, e encaminhando-se para um dos lados da capela que até então lhe ficara oculto, estremeceu e instintivamente recuou alguns passos, como se uma súbita e terrível aparição lhe surgira dali.

Depois, com os olhos fitos, os lábios entreabertos e o corpo inclinado, permaneceu em suspensão quase extática, e que formava notável contraste com a turbação anterior.

Quem assim lhe absorvera tão profundamente a atenção era uma mulher jovem, de estatura esbeltamente elevada e de formas airosas, realçada por as amplas dobras de um vestuário elegante, a qual naquele momento parecia atentamente ocupada em acrescentar na parede da capela, mais uma inscrição, às tantas que existiam já.

A descoberta impressionaria Jacob Granada por ver nela uma flagrante infracção de preceitos médicos, cometida por uma das mais rebeldes doentes da colónia? Com dificuldade se convenceria que fosse essa a causa de tão extraordinária surpresa quem nesse momento lhe estudasse a fisionomia com alguma atenção.

De facto era notável a mudança.

O ar de sombria severidade, que lhe era habitual, desvaneceu-se como por encanto, e um sorriso, fenómeno raro naquele semblante carregado, suavizando-lhe a dureza típica dos contornos, pela primeira vez o mostrou capaz de uma expressão de afabilidade e de brandura que ninguém conhecia nele.

No olhar havia chamas que contradiziam a frieza de que fazia ostentação, nos lábios uns visos de bondade a protestarem contra a velha reputação de rispidez que adquirira Era uma metamorfose completa, A mulher que, sem o saber, se tornara o objecto deste silencioso exame e a causa talvez de uma profunda revolução naquele espírito que se julgava morto para as impressões violentas, continuava, no entretanto, escrevendo com uma rapidez que parecia querer acompanhar a dos pensamentos que lhe acudiam.

Afirmar-lhe a beleza, mas desistir da tenção de a caracterizar, é o mais que pode fazer quem não possuir o segredo de certas fisionomias que nos impressionam, que nos entusiasmam, por não sei que fatal influxo que parece irradiar-se delas. Está o mistério na palidez diáfana do rosto? no quebrar voluptuoso de uma vista cheia de languidez? no ondeado elegante de tranças negras e macias? na inexprimível melodia de certas inflexões de voz? em um arfar de seio prometedor de delícias ? Quem o pode dizer ? A influência sente-se; não se explica.

O belo que a arte, em qualquer das suas manifestações, consegue realizar, ainda se estuda, ainda de alguma maneira responde ãs interrogações analíticas do artista filósofo.

O pintor consegue pelo estudo entrever o mistério que faz grandes as obras dos mestres; o musico, o segredo de harmonia das mais sublimes composições da sua arte.

Mas o belo na natureza é mais independente dessas leis que a meditação sobre os grandes modelos pode descobrir e que há muito a arte formulou. Vemos aí a cada passo dissonâncias que agradam e arrebatam; combinações de cores, em que a vista, mau grado as leis do colorido artístico, se repousa deliciada; fisionomias que seduzem, a despeito dos reverenciados moldes gregos, que a arte admira como a suprema manifestação da beleza humana e que a natureza infinitas vezes com felicidade despreza.

Descrever fielmente uma dessas belezas misteriosas, analisá-la feição por feição, é tentativa infrutífera.

Do todo é que procede o encanto, uma vista única o concebe, um estudo minucioso desconhece-o.

Pintam-se as flores, mas os perfumes subtraem-se ao pincel; ora a beleza feminina tem como as flores o aroma que inebria; a mais exacta descrição não o pode reproduzir.

E a beleza de Valentina mais que todas, tão dependente como era da vida que a animava, seria pàlidamente concebida pela cópia mais fiel.

O que nela mais fascinava era de facto a quase cintilação daquele olhar eloquente, as caprichosas contracções dos lábios, os movimentos graciosos da cabeça, que ora inclinava lânguida, ora erguia com vivacidade nervosa, o rubor intenso e a profunda palidez que alternadamente à menor causa lhe invadiam as faces, todos estes efeitos de um carácter por natureza móvel, de uma sensibilidade extrema, que a primeira observação revela, mas que páginas inteiras não bastariam para descrever.

Dir-se-ia a personificação de um capricho, mas de um desses caprichos que, se com exigências nos revoltam, com atractivos nos desarmam. Na volubilidade das feições, no arrojo do penteado, nas graças do vestir negligente, na leviandade com que tratava as coisas sérias e a sisudez que lhe mereciam outras insignificantes e pueris, denunciava-se a todo o momento aquela índole essencialmente feminina.

Confiando-se aos cuidados médicos do doutor Jacob, era pois de prever que, por impulsos desse génio indomável, se revoltasse contra a vontade despótica que ele pretendia exercer sobre todos os seus doentes.

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