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Serões da Província

Júlio Dinis

Efectivamente ninguém lhe tinha ainda mostrado uma tal insubordinação, mas também ninguém encontrara ainda da parte do médico israelita tão absoluta tolerância.

Só Valentina se atrevia a discutir com ele o valor de algumas prescrições, só ela abusava dos epigramas sobre médicos e medicina, que Jacob Granada de ninguém escutava impassível, como fervoroso crente que era na realidade da sua ciência.

O fanatismo médico que anatematizava Rabelais, Molière, Bocage e a turba menos famosa dos que todos os dias insulsamente lhes parodiam e parafraseiam os epigramas, despojava-se da sua severidade para acolher com um sorriso as alusões satíricas de Valentina, que fazia do seu cepticismo gala.

Esta condescendência excepcional no doutor fora já detidamente comentada nos círculos onde se discutiam os sucessos mais notáveis daquele monótono mas salutífero viver da aldeia.

Os espíritos mais malignos aventuravam insinuações, tanto mais jovialmente recebidas, quanto menor era a plausibilidade delas.

Riam-se do engraçado da suposição, como de um disparate irrealizável ; mas a fama de inflexibilidade e dureza de Jacob Granada nem de leve se sentia abalada pelo roçar destes gracejos que lhe voejavam em torno.

Abriu-se uma excepção a respeito de Valentina. A natureza humana havia de revelar a sua fraqueza originária alguma vez.

Todas as invulnerabilidades são como as de Aquiles; há sempre um calcanhar que as atraiçoa.

Mas uma simples condescendência, um assomo de delicadeza para com uma mulher jovem e elegante, não contradiz uma reputação que mil provas solidamente firmaram.

As imunidades, de que Valentina gozava, acabaram por ser olhadas com o indiferentismo com que recebemos todos os factos consumados. Ninguém contudo se sentia com forças para repetir a experiência.

Um dos motivos da revolta mais frequentes em Valentina eram as ideias um pouco materialistas do seu facultativo.

Com grande espanto e quase terror dos que a escutavam, a cada passo se arvorava em defesa dos padecimentos morais, em cuja existência Jacob Granada parecia não acreditar.

. — Desafio-o, meu caro doutor — disse-lhe ela uma vez, armando- se de um dos seus sorrisos mais provocadores — desafio-o a que me aponte com o dedo a lesão física que me trouxe aqui ou me diga ao ouvido a droga medicinal que me deve curar. Rio-me interiormente sempre que o vejo tomar-me o pulso, inspeccionar-me a língua, auscultar-me o palpitar do coração e sentar-se para formular. Eu sei mais da minha doença do que lhe podem ensinar todos esses livros de grande formato, que folheia até altas horas.

Creia-me, doutor, se quiser ser médico eminente, estude menos a anatomia do coração ou espirifualize-a. Olhe que nem todos os padecimentos dele são aneurismas ou lesões semelhantes.

Estas palavras, que em outra boca teriam provocado uma explosão no génio irascível e intolerante do clínico, foram desta vez acolhidas com um sorriso singular, como até ali ninguém tinha ainda observado nos lábios do doutor, e seguido de um silêncio reflexivo muito parecido a completa abstracção.

Desde o momento em que pela primeira vez colheu este animador resultado, Valentina declarou-se emancipada da salutar mas pesada tutela do velho médico.

É assim que a vimos infringindo com todo o sangue-frio uma das prescrições do doutor, e ainda desta vez a tolerância excepcional do ríspido facultativo para com ela não fora desmentida.

Não era com mudas estupefacções e arroubamentos quase extáticos que Jacob Granada costumava receber os delitos desta natureza.

O facto, com outro qualquer, obrigá-lo-ia a romper em um acesso de indignação, que mais se lhe coadunava com a índole do que aquele transportado enlevo em que ficara absorvido.

Um movimento inesperado de Valentina fê-lo enfim instintivamente recuar; a não ser isso, alheio a tudo o mais que o rodeava, o que o poderia chamar a si?

IV

PROCUROU então o abrigo das árvores, para dali, sem ser reconhecido, poder continuar a observá-la.

Valentina, ignorando-se espionada, entregava-se em plena liberdade ao trabalho de composição literária, no qual parecia empenhar todas as suas faculdades.

Ora escrevia com velocidade, como se a ideia, logo ao despontar, se modelasse imediatamente na forma desejada; outras vezes interrompia- se e inclinava a cabeça, como se lutando interiormente com uma dificuldade imprevista; mas a impaciência natural daquele espírito não lhe permitia longa hesitação; afastava-se então da capela com gesto de enfado, para voltar de novo, forçando a vontade, que por instinto se revoltava contra toda a espécie de sujeição.

Jacob Granada não perdia um só desses movimentos: seguia-os com avidez.

Uma poderosa fascinação parecia ter-se apoderado dele.

Dir-se-ia arrebatado em êxtase de fervoroso culto.

Não seriam, pois, infundadas as inocentes alusões, que a tolerância sem exemplo do velho doutor para com Valentina havia suscitado ?

Rebentariam enfim os afectos daquele terreno árido ? Agora que as neves da velhice lhe branquejavam na fronte, é que se derreteria o gelo que tanto tempo lhe pesara no coração? Talvez ele próprio se interrogasse sobre a estranha comoção que o dominava, nova para os seus sessenta anos de vida isolada, e hesitasse em determinar-lhe a causa.

Recuava talvez naquele momento diante da explicação que a consciência lhe murmurava, e queria iludir-se sobre a fatal influência a que cedia.

Grandes deviam ser os combates interiores que se travavam naquela alma forte de toda a vida acumulada durante uma juventude vazia de afectos.

O rosto recebia o reflexo dessa luta, assumindo alternadamente as mais diversas expressões; ora iluminavam-no os raios da esperança, outras vezes assombrava-o uma nuvem de desalento.

Preparava-se talvez mais uma vítima para o longo martirológio moral, menos que o outro celebrado em panegíricos, menos recompensado pela compaixão mundana; porque quando a vista do sangue, o flagelar das carnes e o estalar dos ossos não fala aos sentidos da multidão, não há sentimentos para compreender provações, lágrimas para chorar infortúnios, ãs vezes não menos dolorosos.

Os mártires obscuros das paixões morrem contendo em si mesmo os instrumentos da sua tortura. É o próprio coração que cingem do cilício angustiante, é interior a lavareda que os consome; lá dentro se lhes prepara a cicuta que os há-de abrasar. Por isso só almas delicadamente perspicazes lhes assistem ao suplício, só delas, e bem poucas são, podem esperar os lamentos e as simpatias; das outras, em vez de lágrimas, recebem muitas vezes os risos; em vez de alentos, motejos.

A multidão piedosa chora à vista das chagas sangrentas do Cristo; mas não compreende as intensas amarguras morais daquele espírito divino, que via a negação das suas sublimes ideias de paz e de amor no suplício a que sucumbia; aflige-a a coroa da irrisão pelo pungir dos espinhos que a formavam; mas não suspeita que outra angústia, mais acerba ainda, despertava no Mártir em quem a cingiram.

Almas martirizadas, padecei sofrendo, sucumbi sem um queixume; rir-se-iam de vós se vos lamentásseis.

Vossos infortúnios não são compreendidos; mais vale ocultá-los, como se tivésseis de envergonhar-vos deles.

Jacob Granada devia saber que tal seria o futuro daquela paixão — e era paixão o que sentia em si? — se um dia aquelas revelações, tímidas ainda, do coração comovido chegassem a pronunciar o segredo que ele mesmo tremia de suspeitar.

O amor valer-lhe-ia uma condenação.

Ceder-lhe — era perder-se; resistir — seria possível?

Jacob Granada lutava, lutava como um desesperado, porque tinha consciência do perigo. Mas a atracção era poderosa, a fascinação enleava-o, arrebatava-o.

A força, com que resistia, devia tornar mais impetuosa a queda, se afinal chegasse a fraquear.

Absorvido por estes pensamentos, agitando no espírito a tremenda questão que o preocupava, permaneceu imóvel a contemplar Valentina, até que a viu caminhar, afastar-se, sumir-se por entre as árvores da alameda. Então, como se acordando sobressaltado de um profundo letargo, olhou em roda de si e correu, com uma ansiedade de alucinado, para o lugar onde observara essa encantadora visão.

Foi sob o domínio de um estranho desassossego que pôde ler as seguintes quadras que aí encontrou escritas:

Fugi, andorinhas; em mais longes plagas
Buscai outras praias, florestas e o céu,
Que é triste o bramido que soltam as vagas
E um vento pressago nos bosques gemeu.

Fugi, namoradas das flores e estrelas,
Olhai: estes campos sem flores estão,
E cedo os espaços, à voz das procelas,
Sinistros, cerrados, sem luz ficarão.

Fugi, apresaai-vos, alados viajantes,
Em bandos ligeiros os mares cruzai.
Por outros países, por selvas distantes,
Mais flores e aromas, mais luz procurai.

Deixai estes montes, de neve c'roados,
As selvas despidas, e as folhas sem cor,
As grossas torrentes e os troncos quebrados
E os vales cobertos de denso vapor.

E quando, mais tarde, na verde campina,
As rosas voltarem com viço a florir,
E as serras, despidas da intensa neblina,
Virentes, formosas, se virem surgir;

E quando deslizem na praia arenosa
Mais lentas, mais brandas, as vagas do mar
E das laranjeiras de copa frondosa
Caírem as flores do chão do pomar;

E quando fugirem, informes, pesadas,
As nuvens sombrias que se erguem do sul.
Correndo dispersas e em flocos rasgadas
Nos plainos imensos de um límpido azul:

Voltai; nova quadra de amores vos chama;
Dos climas distantes pra estes parti;
Então tudo é vida, já tudo se inflama,
Há luz, há perfumes, faltais vós aqui!

Voltai, >que de novo serão florescentes
As selvas, os prados, o monte, os vergéis;
Quietas as brisas, as águas dormentes
Nos lagos tranquilos de novo vereis.

Só eu, que vos sigo com vistas saudosa
Ao vosso desterro, dos mares além.
Já quando no prado brotarem as rosas,
Talvez não reviva co'as rosas também,

Ai, não, não revivo, que o vento do Outono
Gemendo angustiado nas brenhas do vai,
Convida-me ao leito do plácido sono,
E as nénias entoa do meu funeral.

Eu morro ! Na chama do Sol que declina,
Bem sinto o presságio dum próximo fim.
Se um dia voltardes à voasa colina,
ó doces amigas! lembrai-vos de mim;

Daquela que, triste, vagando no olmedo,
O adeus da partida vos veio dizer.
Quem sabe das campas o oculto segredo?
Talvez vossos cantos eu possa entender.

Talvez que, ao ouvir-vos a queixa sentida
Quebrando das noites a triste mudez,
À sombra dos cedros da escura avenida
Acorde, a escutar-vos ainda uma vez.

O doutor Jacob acabou de ler estas quadras, aparentemente ditadas por uma intensa melancolia e por o desalento quebrantador daquele espírito juvenil, e como se quisesse obedecer a um pensamento fugitivo antes que a reflexão lho fizesse abandonar, escreveu imediatamente por baixo do último verso desta poesia, que não pudera ler com indiferença, as seguintes linhas: «Voltarão as andorinhas e as flores, e os sorrisos e as esperanças voltarão com elas. O desalento aos vinte anos! o desalento quando se é jovem e bela! Efémera ficção.

«Enquanto se pode alimentar uma esperança, enquanto não é irrisório todo o fantasiar futuros, a desventura é uma nuvem passageira, e através dela radia sempre a aurora de uma existência melhor.

Lamentar infortúnios imaginários e ter os olhos fechados para os infortúnios irremediáveis que com uma palavra se fez nascer! Não. É preciso ao menos que o saiba. Mitigue-lhe o mal que a ilude o saber que há males maiores. Escute. Há um homem que a ama, que lhe votou o mais verdadeiro culto que ainda sentiu no coração. E este sentimento, de que se ufana por ser o mais puro, o mais sagrado de quantos tem alimentado; esta paixão, que devia ser a sua glória, causa o seu maior tormento. Desde que a confessasse, em vez de o respeitarem por a ter concebido tão elevada, tão nobre, tão ideal, condena-lo-iam ao desprezo e ao escárnio. Gloriando-se interiormente dela, o desgraçado não ousaria proclamá-la. A fatalidade persegue-o. Sufocar essa paixão que o devora e sucumbir sem a esperança de que um dia o poderão lamentar! «A morrer por ela e o mundo a rir-lhe na sepultura, se suspeitasse a causa que o arrastou ali! « Ele não olha com saudade para as andorinhas que partem, para as flores que murcham, para o Sol que declina; não as desejara tornar a ver nem que o viessem evocar da campa, quando gozasse já do único sono tranquilo que lhe restava agora dormir.

«Este sim que é o verdadeiro infortúnio! Peça à imaginação que lhe faça conceber essa tortura e, se tem um coração generoso, chore por ela; mas não procure conhecê-la, seria obrigada a rir e, rindo, a cometer uma impiedade.» Acabando de escrever estas palavras, Jacob Granada abandonou aqueles sítios com a precipitação de um criminoso que se afasta do lugar do delito.

DIAS depois escrevia Valentina a uma das suas amigas a seguinte carta: «Minha querida: Deves supor-me morta. Um silêncio de meses depois de partir ara a aldeia autoriza um necrológio. Pois enganas-te; vivo, vivo como nunca vivi, como nunca supus que se vivia no mundo. Eu bem suspeitava que havia de existir algures uma outra vida melhor para mim do que a que passávamos ai; o contrário disto era dotar o autor da criação e um poder imaginativo inferior ao dos nossos romancistas, cujos planos na vida me agradavam mais; confesso-o. De facto existia. Tive a felicidade de encontra-la. Estou salva! «Os ares livres, o cheiro balsâmico dos pinheiros, a pureza das águas, a sadia simplicidade da cozinha campestre, os hábitos regulares, vigílias moderadas, sonos convenientes, dirás tu, quase disposta a fazer as pazes com a higiene, essa impertinente que nos amargurava a existência, clamando contra os nossos mais queridos passatempos e formulando absurdas regras de bem viver.

«Não te iludas porém. Olha que nada disso me salvou.

«Sentia-tne definhar no meio dessa feliz combinação de circunstâncias salutiferas e não obstante o uso moderado que fazia das drogas medicinais.

«Se eu bem sabia que a minha doença não estava no pulmão, não estava nos nervos, não estava no sangue, como eles dizem I

«O doutor Jacob, esse talmude encarnado, que me fitou logo a primeira vez um olhar que parecia não dever encontrar obstáculo até ao mais íntimo da alma, como se enganava também! «Queria reconstituir-me o sangue, dizia ele; esta agitação febril que me atormentava acalmaria depois; mas dizia-me isto tão distraído que parecia não acreditar muito na opinião que formulava.

«Sabes que mais? A respeito dos médicos, como de outras muitas coisas, os romancistas e dramaturgos tornaram-me o gosto muito difícil de contentar.

«Onde está esse ideal do médico que sabe curar com uma palavra, com um gesto, sem ser por o intermédio de um récipe, de umas pílulas ou de um xarope ? o médico que aprendeu a calcular o valor de uma comoção de espírito, que faz uso conveniente das qualidades morais dos seus doentes ? Em parte nenhuma. E eu que tinha a simplicidade de acreditar na verosimilhança dos lances curativos, deixa-me assim chamar-lhes, que observava nos teatros! Foi uma outra ilusão que perdi. Paciência.

«Jacob Granada não forma excepção à regra.

«É um homem abominável no seu positivismo este doutor! Para ele tudo são congestões, hipertrofias, inflamações, que sei eu?...

«Seria capaz de sangrar um poeta no ardor de composição literária, a título de uma congestão cerebral.

«Ora eu é que não podia aceitar para mim semelhante ideia_de lesão. Repugnava-me.

«Porque me interroga só o pulso? dizia-lhe; porque me não interroga o pensamento, a imaginação? Não sabe que tenho vinte anos? não sabe que penso, que sonho, que concebo e que a diferença entre as minhas concepções e a realidade me pode fazer padecer? Não vê que é toda afectiva a minha doença? Quer curar-me com ópio, com ferro, com tónicos e calmantes? Olhe o que faz. Não se lhe importe com o meu sangue, importe-se com o meu espírito, com as minhas fantasias, com as minhas crenças. Complete a sua ciência. Os seus livros de medicina não lhe falam de uma doença que consiste apenas em anelos não realizados ? Dê a isso um nome grego e terá feito uma descoberta.

«O velho médico ouvia-me calado. Ou não me entendia, ou cismava ainda na lesão orgânica de que à força me queria fazer presente, e nem atenção me dera.

«Mas eu dizia-lhe a verdade; e a prova... Ouve: «Lembras-te daquelas heroinas dos contos de fadas, que tanto nos entretinham em crianças? Eram umas princesas muito bonitas, muito ricas, muito sábias, mas vítimas de uma doença desconhecida. Vinham os médicos de todas as partes do mundo, visitavam-nas os sábios mais afamados, os cofres de el-rei, seu pai, traziam dos mais longínquos países as drogas medicinais que a ciência aconselhara; e ninguém lhes atinava com a moléstia, e nada lhes realizava a cura. A menina definhava-se a olhos vistos, já nem sabia sorrir, era uma cerração de tristeza aquela, que nenhum raio de Sol atravessava.

«Um dia, porém... Recordas-te do que acontecia? Era o ponto culminante do interesse. Chegava um pastor, um Adónis em beleza, desculpa- me a referência mitológica, de rosto imberbe, de cabelos louros, de sorrir angélico, e com um pomo silvestre, um ramo de flores do campo ou com os sons rudes da sua frauta pastoril, fazia o milagre.

Trazia o sorriso aos lábios da menina, o colorido às faces desmaiadas, a vida ao coração desfalecido... ai, o coração sobretudo. Já ela erguia a cabeça, que até ali pendera em morbidez, já não procurava a solidão, já não aborrecia o mundo, os enfeites, as riquezas. Mas fora o pomo, o ramo de flores, os sons da frauta que produziram o fenómeno? Qual! Fora o mesmo portador, o pastor desconhecido que um oculto pressentimento trouxera ali. Amava, está explicada a cura. Restava inclinar-se do alto do seu trono para estender a mão agradecida ao simpático salvador, ajudá-lo a subir os degraus, e sentá-lo a seu lado, trémulo de sobressalto e de amor, e... era de uma vez um príncipe.

«Eis a minha história também, feitas as devidas alterações no que diz respeito à beleza, à sabedoria e jerarquia da heroína. Pelo menos, se não é ainda a minha história, parte dela se realizou já.

«Imagina que parti daí perdida. Parecia-me que tudo estava a findar para mim. Era um mal interior que me ralava, que me inquietava, que me impedia repousar. Impacientavam-me as distracções, sufocava-me a atmosfera das salas de baile e dos teatros, aborrecia-me a sociedade, sorria-me a ideia da solidão de um claustro. Tenho a alma morta, dizia eu comigo, como lhe há-de sobreviver o resto? Olha que acreditava sinceramente que me tinha morrido a alma.

«Suscitei apreensões nas minhas amigas. Lembra-me que me impuseste a medicina com desusada severidade. A medicina! Eu bem sabia o que ela viria fazer, mas obedeci. Ares! ares! — exclamou ela — julgo que para se ver livre de mim, como de quem suspeitava poucas probabilidades de vitória. Ares! ares! — repetiste tu e o coro das pessoas que se interessavam por mim. Foi-me forçoso condescender.

«Dias depois rendia preito e homenagem à pouco tratável ciência do doutor Jacob Granada, actual superintendente da minha saúde.

«Respirei a plenos pulmões o ar que me aconselhavam; rompi com os meus hábitos de indolência para saudar as madrugadas, realmente bonitas, que se gozam aqui; soltei os cabelos às brisas salutares, embalsamadas pelos aromas dos campos, mas a vida da natureza, cujo contágio procurava, não se me comunicou. Era o mesmo desfalecimento, a mesma impaciência, a mesma inexplicável mobilidade.

«Forçava-me a sorrir, a gracejar, divertia-me a educar convenientemente o carácter inflexível do meu facultativo; mas cá dentro tinha o mal que me pungia.

«Uma manhã... atende agora, que chegou o momento solene; uma manhã impressionaram-me tão dolorosamente os sinais de decadência, que, não obstante a amenidão do dia, eu por toda a parte reco, nhecia no campo que, precisando de dar expansão àquela melancolia para que me não matasse, fiz versos.

«Para outra vez tos enviarei; deixei-os escritos na parede de uma capela, único sistema de publicidade que está em voga por aqui Despedia-me das andorinhas que eu via partir, e despedia-me para sempre, porque um pressentimento me dizia que o Outono me seria fatal, «Quem me observava, quando eu escrevia? Não sei. Mas, dias depois, voltando ao sítio, onde me acometeu este acesso literário de desesperação, vi que alguém mo havia comentado. Li. Suspeitas o que era? «Uma declaração de amor. Sou amada, ouves? compreendes? Amada e por um homem que não conheço. Há na sua existência um mistério; seu amor, que ele diz nobre, puro, com o qual se engrandece, de que se orgulha, não o pode revelar, porque o mundo o condenaria à irrisão. Tanto maior é a pureza dele, tanto maior seria o escárnio que atrairia sobre si se o revelasse. Aí tens um enigma; sabes decifrá- lo? Tenho pensado muito nisto e, olha, julgo que adivinhei' «É a história da princesa.

«É algum pobre rapaz, entusiasta como um poeta, tímido como uma criança, mas de origem obscura e a quem aterra o meu apelido aristocrático.

«Julga-me tão alta, tão elevada em meus pergaminhos, que me riria do seu amor como de uma irreverência censurável.

«Concebes uma loucura assim? Os soberbos são eles que, nobilitados pela inteligência, nem por causa do amor a sujeitam ao que julgam uma humilhação! « O meu interessante incógnito! Se soubesse com que vontade eu rasparia os meus pergaminhos nobiliários para escrever neles aquela declaração de amor! «Alma de sensitiva, cujos delicados instintos têm vigorado na solidão destas devesas; imaginação exaltada pelo contemplar das estrelas, que parece cintilarem aqui mais animadas, dotadas de não sei que inteligência para nos compreender; ele, a ingénua criança, treme do mundo que não conhece, receia manchar a alvura das suas penas de cisne na lama em que patinham esses gansos que lha invejam! «Como se o amor não fosse a corrente límpida que lhe havia de restituir a nitidez! Incrédulo! Ama-me e desconfia de mim! Ele que me salva... porque estou salva, disse-to, e por ele, por ele só! — ele, que me salva, julga que me envergonharia do seu amor! Oferece-me um culto reverente, sincero, apaixonado, ideal, e teme que eu desvie a cabeça do incenso que me inebria! O mundo! o mundo! pois repara- se lá no mundo quando se ama? Se as harmonias do coração nos arrebatam, pode lá ouvir-se o sussurrar da multidão! «Vais julgar-me louca, se te disser que o amo.

Serões da Província
Uma mulher jovem... ocupada em acrescentar na parede da capela, mais uma inscrição...

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