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Serões da Província

Júlio Dinis

«É verdade; não o conheço, não suspeito sequer quem seja; mas «Deve ser belo; porque a alma pura tem reflexos de que depende o que há na beleza de mais ideal.

«Triste de quem os não percebe, fere-os uma cegueira que os pode encaminhar ao precipício; deve ser belo, assegura-mo a candura aqueles sentimentos, o ideal daquele amor.

«Sei que o amo, adivinho que o hei-de amar. Por isso estou salva; por isso te disse que vivia como nunca, como nem sabia que se vivesse.

«Estava cansada de galanteios, precisava de amor.

«As flores artificiais das salas de baile iludem-nos por momentos, mas a ausência de perfume atraiçoa-as e logo se patenteia a arte que as teceu; mas as flores, como a violeta, em vão se ocultam na relva das campinas, denuncia-as o aroma que exalam, e são essas as que nos seduzem.

«Sabe-lo tão bem como eu, tu a quem não iludem as adulações «Estes elegantes de casaca, de cabelos frisados, de luva branca, que se meneiam, que se torcem, que vergam e adejam, como importunos mosquitos, em volta das nossas cadeiras, sibilando-nos insulsas galantarias; que nos falam no tempo ao ouvido, para se darem aparências de intimidade, que nos fazem o favor de uma risada da moda a cada sensaboria que pronunciamos; esses leões terríveis que, carregando o sobrolho, imaginam ter fascinado uma mulher...; ninguém lhes pode querer mal, coitados, mas também quem os poderá tomar a sério ? «Aí está explicada a minha isenção até ao dia em que recebi esta prova de um misterioso amor.

«Compreendes como se pode amar por inspiração, não é verdade ? Não te rirás desse sentimento que a leitura daquelas linhas me inspirou, pois não? «Então digo-te mais, digo-te que o animei. Ontem mesmo, em seguida às suas palavras escrevi estas, que formulam um convite, o qual espero me não será rejeitado. Submeto-as à tua censura.

«— Quem possui sentimentos que em sua consciência o nobilitam, não pode envergonhar-se deles. Se eu fiz nascer o mal, tenho direito a conhecê-lo. E não possui a liberdade de recusar-se à confissão inteira, quem não hesitou ao exprimir as primeiras queixas. Preciso um nome. Não sei de distâncias que prevaleçam quando a correspondência de afectos trabalha por anulá-la; rio-me dos preconceitos que o mundo respeita; e quando um sentimento é verdadeiramente nobre, tenho faculdades para lhe apreciar a nobreza e sensibilidade bastante para lhe não poder ser indiferente.» «Fiz mal escrevendo isto? Pode ser, mas não me arrependo. Quero alentar essa alma tímida que me votou um culto desinteressado, mostrar- me a seus olhos tal qual sou e... —porque te não direi tudo, a ti, que és a minha melhor confidente? — quero amá-lo. Se o meu amor lhe pode dar ventura, hei-de torná-lo venturoso.

«Espero que em breve te comunicarei o resultado da minha entrevista.

Julgo-a inevitável.

«Diz-me se tens os mesmos pressentimentos da tua

«Valentim.»

VI

Anoite estava tépida e tranquila, como se fora uma noite de Estio, Os raios de luar esplêndido, internando-se pela espessura das árvores, desenhavam no chão das alamedas ornatos irregulares, que apenas um ligeiro tremor agitava.

Os últimos clarões do crepúsculo apavonavam ainda o ocidente, onde acabara de esconder-se a estrela da tarde.

Muitos dos doentes do doutor Jacob, aproveitando-se da excepcional temperatura daquela noite de Outono, passeavam a conversar por entre as árvores, ou contemplavam silenciosos os variados efeitos da luz nos acidentes do terreno.

Valentina, afastando-se de toda a companhia, fora sentar-se nos degraus da capela, junto da qual a vimos pela primeira vez. Na fisionomia, na atitude, na distracção com que parecia fitar o disco luminoso da Lua, por entre as folhas dos álamos, denunciava-se-lhe uma profunda inquietação. A mesma influência, sob cujo domínio escrevera a carta que no capítulo antecedente reproduzimos, ainda se não tinha desvanecido.

A mão oculta que lhe havia dirigido aquela veemente confissão de um amor sem esperança era-lhe desconhecida.

Ao primeiro convite não respondera o misterioso escritor.

O carácter de Valentina não lhe permitia, porém, desistir facilmente de uma resolução formada. Recuar depois dos primeiros passos era um sacrifício, para que se não sentia de ânimo.

Depois, a fantasia criara-lhe um romance, um desses devaneios de vinte anos, em que todo o nosso imaginar se concentra; paraíso de luz e de flores, fora do qual tudo se nos mostra árido e obscuro. Já não podia aceitar a realidade, depois de alguns momentos passados em livre devanear.

Insistiu e a novo emprazamento obteve uma resposta formulada apenas por estas palavras: «Veja que me pede um sacrifício imenso. Não sabe o que promete.

Assim, ainda posso iludir-me; depois... a confirmação das minhas suspeitas ser-me-ia fatal.» Esta resposta não era de natureza a modificar a tenção da caprichosa convalescente, antes lhe exacerbou a impaciência natural, sobcuja inspiração escreveu as seguintes palavras no mesmo lugar onde toda esta singular correspondência havia sido arquivada: «Um culto sem fé! Como posso acreditá-lo ? Duvidar dos meus sentimentos e querer que não duvide da sinceridade dos seus! Hoje saberei o que devo julgar. Aqui hei-de estar uma vez mais ainda — a ultima, se esperar em vão. Procurarei esquecer-me depois.» Quando de tarde Valentina voltou a este lugar, uma só palavra resumia a resposta que esperava: «Virei.» E era por isso que, à medida que iam correndo os momentos e aproximando-se a entrevista que ela havia exigido, uma vaga preocupação se lhe apoderava do espírito, como se só agora ponderasse na importância do passo, que com tanta leviandade havia dado.

Encontrar-se a sós com um homem desconhecido, que procurava ocultar-se e temia o mundo, como se estigma indelével estivesse chamando sobre ele o desprezo ou quem sabe se o castigo, fora uma grande imprudência! E tal vulto tomavam às vezes estas apreensões no ânimo de Valentina, que, ferida de terror, erguia-se como para fugir destes lugares, de onde julgava ver já levantarem-se espectros assustadores. Em breve, porém, lhe sorriam de novo as impressões que afagara. Nada devia recear.

Acaso a tinha perseguido esse homem, quem quer que ele fosse? Não a havia antes evitado? Não fora ela que o constrangera a vir? Que podia suspeitar daquela timidez de criança ? daquele pobre coração que esmorecia à lembrança de que podiam escarnecer-lhe o culto de que se ufanava? Esta ideia tranquilizava-a, e então voltava a fantasia a pintar-lhe com as mais risonhas cores o futuro da sua paixão nascente.

Já a faziam sorrir os primeiros terrores, já se lhe despojava de sombras pavorosas a alameda, e de novo esperava com ansiedade o momento da entrevista.

Nestas continuadas alternativas que gera a incerteza, entre a confiança e o susto, entre sorrisos e terrores, correram para Valentina alguns minutos mais, até soarem nove horas na torre da capela.

Aproximava-se o momento. Mais uma vez o coração lhe bateu em sobressalto, reproduziram-se-lhe os receios e as apreensões; mas pouco tempo durou esta íntima impressão. Era a última incerteza.

O estalar das folhas secas sob os pés de alguém que caminhava, fê-la voltar a cabeça.

Uma figura elevada, que se destacava em escuro sobre o fundo iluminado pelo luar, estava diante dela e como que hesitando em aproximar- se mais.

Valentina guardou algum tempo silêncio. A face do recém-chegado, oposta como ficava aos raios da luz, não pôde ser por ela reconhecida.

Aquela aparição repentina e silenciosa, como a de um espectro sinistro, suscitou em Valentina uma espécie de pavor supersticioso, que lhe não permitiu interrogá-la.

— Eis-me aqui — disse por fim aquele vulto, com uma voz que, apesar de sumida, Valentina julgou conhecer. E, sem lhe dar tempo de recorrer à memória, voltou, por um momento súbito, o rosto aos raios da Lua, que iluminaram as feições bem características de Jacob Granada.

Valentina levantou-se surpreendida sem saber ainda o que pensasse do que estava vendo.

— O doutor Jacob aqui! O recém-chegado guardou silêncio.

— Ah! já sei — disse Valentina, como se lhe ocorrera afinal um pensamento que a satisfazia.—Já sei. Vem lembrar-me que os nevoeiros da noite me podem ser prejudiciais. Ora, doutor, esses cuidados são-lhe mais necessários a si, do que a nós outras, organizações jovens, onde, se o mal não nasceu cá dentro, há vida de sobra para neutralizar todos os elementos conjurados. Repare, não me tem sentido renascer as forças ? iluminar-se-me o olhar ? renovar-se-me o sangue ? Não vê que estou curada? De hoje em diante declaro-me livre da sua tutela. Entrego- lhe as suas credenciais. Deixe-me em paz gozar das belezas de uma noite assim. Isto é também uma necessidade. O doutor não compreende como isto pode ser uma necessidade? Nem eu lho sei explicar. Creia ou recorde-se, se teve um passado que lhe dê dessas recordações.

Vá, vá, deixe-me só, doutor. Tome para si os conselhos higiénicos que dá aos outros. Então ? E fica! e não responde!... Que veio fazer aqui ? — Pois não exigiu que viesse ? — redarguiu ele com uma voz, cujo ligeiro tremor revelava a imensa ansiedade que lhe angustiava o coração.

Valentina fitou-o por algum tempo com um olhar de estupefacção.

— Deus meu! Pois era...—E uma gargalhada estridente, nervosa, prolongada, terminou a frase que principiara a formular.

A palidez de que naquele instante se cobriram as faces do velho médico, foi tão intensa, ao ouvi-la rir assim, que nem a meia obscuridade do lugar a pôde encobrir. Era a palidez de um cadáver.

Com uma voz sufocada, dilacerante, como só a têm os desesperados, apenas soluçou, deixando pender os braços com desalento: — Estou condenado! — Mas enfim que significa esta cena ? — perguntou Valentina com certo desabrimento, porque, ela também, sentia desvanecer-se- -lhe uma ilusão.

Jacob Granada ergueu a cabeça com um gesto impetuoso e fitando Valentina com o olhar chamejante e desvairado, disse-lhe com uma vivacidade que semelhava ao delírio: — Significa que a amo! Estremece ? surpreende-a esta palavra na minha boca? Bem conheço o sentido desse olhar que levantou para meus cabelos brancos, não sei como não se riu outra vez! Embora.

Há-de ouvir-me, já que exigiu que viesse. Ah! compreende enfim porque eu devia sufocar este amor, compreende porque devia ocultar este segredo, até de si? Era para que uma gargalhada não me viesse despedaçar o coração, como essa acaba de o fazer. Está tudo terminando para mim! Um pressentimento me dizia que isto havia de acontecer.

Iludi-me; vim. Oh meu Deus, como me pude eu iludir! Saberá tudo agora, Valentina; ria-se depois, mas conheça inteiro o infortúnio de que se ri. Sim, é verdade, sou velho; há muitos anos, há muitos, que me alvejam as cãs na cabeça e a fronte se me inclma desfalecida; mas se me sinto jovem na alma! se neste corpo cansado e gasto, há um espírito de maior alento do que o dessa mocidade que a seduz! A descrença, o egoísmo, o interesse, a ausência de nobres aspirações, de sentimentos generosos, de concepções elevadas, eis o viver das almas decrépitas, e eu, Valentina, desde que a vi, perdi o sentido dessas paixões mesquinhas, ídolos a que sacrificam os homens de sua época, cujo amor aceitaria sem uma gargalhada. Responda, diga se pelos instintos não sou mais jovem do que eles. Nenhum a poderia amar como eu a amo, saiba; nenhum faria desse amor uma religião como eu; nenhum se perderia por ele, como eu decerto me perco. Bem vê que me não é possível a salvação! E os soluços interromperam-lhe a voz ao dizer isto.

Por alguns momentos conservou a cabeça escondida nas mãos; ao levantá-la, corriam-lhe as lágrimas pelas faces descoradas.

Valentina não rompeu este silêncio de movimentos.

Jacob Granada continuou em tom mais abatido: — Perseguiu-me a fatalidade toda a minha vida! Não conheci carinhos de mãe na infância; não conheci extremos de amantes na juventude. Na idade das aspirações, não as tive; quando devia viver para o sentimento, era a razão que dominava em mim; os anos do amor consagrei-os sem uma saudade ao estudo; enquanto os meus companheiros corriam com alegre irreflexão para os prazeres, eu procurava trabalho com corajosa tenacidade. Veja, conceba os risos desta juventude.

Acabaram por me abandonar todas as afeições, essas poucas afeições superficiais que me restavam. Respeitaram-me, não me estimaram.

Como era um homem útil, tinha quem me lisonjeasse, quem me obedecesse, mas ninguém, repare, Valentina, para o desconforto desta existência, ninguém que me desse afectos! A solidão que sé fez em volta de mim exacerbou o que havia no meu carácter de sombrio; estava quase a odiar os homens... Um dia, porém, senti que acordava no meu coração um sentimento adormecido, e acordava com toda a exaltação, com todas as tendências da mocidade. Conheci o amor com a pureza, com o ideal que pode verter na concepção um coração ainda virgem; recebi-o como um culto, como o augusto mistério de uma religião que pela primeira vez se me revelava. A minha alma passou por uma completa transformação; novos instintos, novas faculdades parecia nascerem para ela. Mas... as rugas que me sulcavam a fronte impunham-me a obrigação de sufocar a explosão iminente das paixões que se insurgiam tumultuosas. Que importava a pureza delas? — apontar-me-iam para os meus cabelos brancos e mandar-me-iarti que os respeitasse. Calei-me; foi então que verti em silêncio as mais amargas lágrimas da minha vida.

Pela segunda vez a comoção dominava Jacob Granada a ponto de lhe interromper a corrente de palavras que uma veemente paixão lhe estava ditando; depois continuoui — A velhice descrente, invejosa, avara, egoísta, cínica, pode ainda encontrar indulgência; desculpam-na e respeitam-na muitas vezes; mas a velhice amorosa, fascinada por uma dessas visões encantadoras, votada a um desses cultos ferventes que nobilitam as almas, essa não tem misericórdia a esperar; condenam-na ao escárnio, à irrisão, e tanto mais puras e elevadas são as aspirações desse amor, tanto mais amarga, desapiedada é a perseguição que lhe declaram; é então que a assalteiam de chascos e de apupos. Sabia-o! e por isso me ocultava, por isso lutei para que ninguém descobrisse em mim o que me ia no coração. Porque eu amava-a loucamente, Valentina, e amo-a!.., Oh! deixe-me ainda dizer-lho. Nada mais lhe peço. É já agora a única consolação a que aspiro. Oiça-me e ria depois, se a comiseração lhe não gelar nos lábios o sorriso. É a última vez que lhe fa'o. Amo-a perdidamente.

Os afectos que os outros repartem com a mãe, com os irmãos, com os filhos, entesourei-os eu, anos e anos, para lhos tributar agora! Despreze-os, mas conheça primeiro de que grandeza são. Este amor tem o respeito do amor filial, a dedicação do amor fraterno; havia de rodeá-la das carícias que os filhos recebem da mãe que os estremece, e, ao mesmo tempo, ele adivinharia os extremos, a exaltação de uma paixão de amante. Sacrificar-lhe-ia tudo, a minha vida, a minha vontade, os respeitos do mundo, Porque me despreza? Oh! não repare nestes cabelos brancos; far-lhos-ei esquecer à força de dedicação e de afectos.

Não me disse que viesse? pois não me assegurou que possuía faculdades superiores ãs do vulgo ? Que direito tinha para fazer nascer ilusões, como as que eu, louco, cheguei a alimentar, se não confiava que podia corresponder a esse amor verdadeiro, que animou assim? Se havia de acolher-me com a gargalhada motejadora e cruel, para que me arrastou aqui? Diga, fale. Não vê que enlouqueço? uma palavra ao menos que me tire dos ouvidos o som daquela gargalhada.

Valentina! comove-a a partida das andorinhas, o definhamento da flor, e não tem coração para sentir este tormento? Vê? choro, choro, e parece que se me exaure a vida nestas lágrimas. Não aliviam, abrasam- me! Ó Valentina! Valentina! tenha piedade desta razão que se perde! E, pronunciando entre soluços estas palavras, que lhe saíam dos lábios como uma impetuosa torrente, caiu de joelhos aos pés de Valentina, que o olhava com gesto de comiseração.

— Creia que aprecio a nobreza dos seus sentimentos — disse-lhe ela em tom grave e triste. — Tenho orgulho em os haver inspirado, mas penaliza-me ao mesmo tempo. Que quer? É uma fatalidade, disse-o ainda há pouco. A alma, que eu ambicionaria encontrar, era decerto uma alma assim, mas... — acrescentou com uma expressão de semblante, onde não pôde totalmente dissimular um reflexo de sorriso — cheguei... tarde, bem vê. — E fitou os olhos na cabeça encanecida do apaixonado velho.

O sentido destas palavras não podia ficar um enigma para Jacob Granada.

— Tarde! repetiu ele, levantando-se e com uma entonação de amargura que contristava ao ouvir. — Tarde ! — E mal soube disfarçar um sorriso ao pronunciar essa palavra cruel! — Se não sente compaixão, para que a simula? Acabe de consumar a obra. Não basta repudiar este amor; tenha coragem, é preciso escarnecê-lo. Vá, aí anda essa turba de ociosos, procure-a. Conte-lhe a minha loucura, fale-lhe na minha ridícula credulidade, diga-lhe que um velho ousou falar-lhe de amor, que não hesitou em rojar-lhe aos pés a dignidade da sua velhice.

pois vacila ? O velho que ama! o velho que ama! É a eterna fábula da juventude, que nem coração tem para amar. Patenteei-lhe a minha alma; agora que a conhece, ria-se dela. Não será a única a rir; mas é a única a martirizá-la, creia, Que me importa a mim que os outros a acompanhem? Os outros! a multidão! o mundo! Nem já entendo estas palavras. O mundo para mim está aqui dentro; e atormenta-me, rala-me, mata-me. Já vê que se enganou, mentiu-me. Os meus sentimentos são nobres, disse-o ainda agora, não é verdade? mas recorda-se do que escreveu? Se tem faculdades para lhe apreciar a nobreza, falta-lhe o que é mais, a sensibilidade para lhe não ser indiferente. Adeus! e repare que não é um simples adeus o que lhe digo assim. Adeus!...

E já não choro! Pior! Tinha precisão de chorar. Sinto em mim um fogo que me abrasa. Adeus! procure um coração para o qual não chegasse...

tarde; mas juro-lhe, Valentina, que outro como este que despreza.

.. Adeus ! adeus ! E apoderando-se subitamente das mãos de Valentina, beijou-as com um tal ardor que a fez estremer, e fugiu desorientado do lugar onde esta cena se passara.

Aquela noite foi para Valentina uma noite de agitação e insónia; parecia-lhe a cada momento escutar as palavras apaixonadas desse desgraçado que vira a seus pés e cuja figura, pálida e abatida, se lhe representava na imaginação e quase lhe fazia sentir remorsos.

CONCLUSÃO

NO dia seguinte havia grande alvoroço em todas as habitações da colina. Um facto extraordinário, misterioso, comentado mais ou menos extravagantemente, reunia os grupos, animava as conversas, e quebrava a costumada monotonia daquele plácido viver.

O sucedido não era para menores efeitos, o doutor Jacob Granada havia desaparecido.

Formavam-se conjecturas, procuravam-se vestígios, recordavam-se circunstâncias insignificantes, aventavam-se explicações, mas a obscuridade do facto era completa.

Só Valentina, ainda que não pudesse julgar do destino do doutor Jacob, imaginava a causa provável do sucesso, e pela exaltação de espírito que ultimamente conhecera no velho médico, sentia a esse respeito não infundadas apreensões.

Alguns dias reinou a incerteza. A confusão era completa. Alteraram- se os hábitos mais regulares. Não se falava, não se pensava em outra coisa. Os próprios doentes esqueciam os seus padecimentos, o que a muitos bastou para os curar.

Era uma anarquia inocente. Finalmente, uma manhã, o correio de Lisboa pôs fim a todas as conjecturas. Os periódicos e as cartas particulares anunciavam que o doutor Jacob havia sido encontrado nas ruas da capital, mas em tal estado de espírito, que fora recolhido ao hospício de alienados.

Foi geral a consternação ao receber-se a notícia. Muitas lágrimas sinceras se verteram naquele momento, porque o doutor Jacob era verdadeiramente estimado.

Nesse mesmo dia Valentina abandonou a aldeia que, depois do sucedido, se lhe tornara insuportável pelas amargas recordações que lhe trazia.

Aos leitores que desejarem saber particularidades sobre a loucura do doutor Jacob ofereço o seguinte extracto de uma carta do facultativo que o observou: «A mania predominante do enfermo é a descoberta da pedra filosofal. A elaboração de um elixir de longa vida preocupa-lhe o espírito e conserva-o em um contínuo e fatigador trabalho mental.

«Ouvimo-lo falar em Paracelso, em Cagliostro, em Basílio Valentin e Arnaud de Villeneuve e não sei quantos mais nomes de ilustres alquimistas.

«Com a primeira pessoa que se lhe aproxime, pratica sobre os arcanos daquela seita afamada, exaltando-lhe a ideia, e expondo-lhe as teorias com um fogo e uma vivacidade, que no meio das aberrações de um espírito perturbado, revelam ainda verdadeiros clarões de uma grande inteligência.

«Há dias encontrei-o repetindo estas palavras, que depois me disse serem da Tábua Smaragdina de Hermes: «—Apartarás com cuidado e engenho a terra do fogo, o subtil do denso; o fogo sobe da Terra aos céus, desce outra vez sobre a Terra e tira a sua força tanto do superior como do inferior. Assim possuirás a glória do mundo inteiro, fugirão de ti as trevas. É a virtude fonte de toda a virtude...

«Interrompe a cada passo estes solilóquios para exclamar que fará ele enfim o grande achado, a grande obra, que há-de ser jovem então, que remoçará. E esta ideia lança-o em um acesso de hilaridade característica. Exaspera-se quando lhe negam o que exige para as suas fantásticas elaborações.

«É aos velhos que com especialidade se dirige.

«Promete-lhes juventude, alegria, consideração e amores.

«A extravagância dessas promessas e o ardor das suas palavras então, moveriam o riso se a alma não se sentisse comovida perante as desordens daquela inteligência, onde parece descobrirem-se os vestígios de uma poderosa e malograda paixão.

« — O absoluto — exclama ele nesses momentos — vos restituirá as seduções da juventude, desgraçados velhos! Nunca mais, nunca mais vos repetirão, como a mim, aquelas palavras: Vim tarde ! « Estas duas palavras são as que efectivamente mais vezes o ouvem pronunciar, acrescentando: « — Não haverá mais tarde nem cedo, perante o eterno, o absoluto.

«Então animam-se-lhe as feições de um sorriso singular.

«Esta exaltação incomoda a quem a vê. Eu, habituado como estou a estes espectáculos, confesso que o não posso olhar sem estremecer, e conservo disso por muito tempo uma impressão penosa. As vezes encontram-no com o rosto oculto entre as mãos e chorando como uma criança; sai desses acessos para perguntar se as andorinhas já voltaram.

É singular a comoção que experimenta à vista destas pequenas aves.

« Deste estado recai no de um desespero tão violento, que é necessário vigiá-lo muito de perto para que se não cause mal. Em tudo isto reconheço os efeitos de alguma paixão íntima, de que este desgraçado foi vítima. A sorte dele parece-me desesperada, e, no definhamento em que vai, é de presumir que, a recuperar a razão, seja só Dará reconhecer o instante final.» E Valentina? Conservou per algum tempo a memória do doutor Jacob; mas enfim tinha vinte anos, imaginação e futuro.

Em tais circunstâncias as impressões são tão efémeras! Na última carta em que falava dele à sua amiga, terminava assim o período respectivo:

«Finalmente, era uma bela alma. Não há dúvida.

«Para o ter amado, bastar-me-ia... ter sido contemporânea de minha avó.» A observação parece um tanto cruel; mas qual das leitoras jovens seria mais benigna? Depois que soube os incidentes desta pequena história, cada vez mais se confirmou a minha convicção de que é antes para comover do que para rir o espectáculo de um velho apaixonado. E o que eu julgo que nós todos devemos pedir a Deus é que nos não dê longa vida ao coração, se isto de paixões tem alguma coisa com ele, para que não seja o último a morrer.

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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