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Serões da Província

Júlio Dinis

Ill CONFIDÊNCIAS RECÍPROCAS

NA tarde do dia seguinte, a laboriosa vila de Famalicão, tão alvoroçada e festeira na véspera, mostrava um ar, não dissimulado, de abatimento e de tristeza. Com as primeiras alvoradas desvanecera- se todo o fantástico efeito das iluminações da noite. O sonho terminara, durava o desgosto do acordar.

As colunas luminosas, os arcos cintilantes, os esplêndidos obeliscos apresentavam-se agora em toda a sua prosaica realidade de madeira pintada, lonas enodoadas, flores murchas, e verdura defumada e sem viço. Os copos e as laranjas de azeite, que, sob o prestigio da luz, horas antes atraíam com força irresistível as vistas da multidão, já não desafiavam senão o tédio.

Raiara a luz verdadeira, e os falsos astros, apagando-se, mostraram tudo o que eram. Quantas glórias, como eles, que no meio das trevas ofuscam, não resistem aos primeiros clarões de um real alvorecer! Os restos o destroços dessas máquinas de festa ali estavam expostos às fantasias, aos caprichos e espírito aniquilador dos gaiatos, que os apedrejavam agora; de todos os esplendores que desmaiam, de todas as reputações que periclitam, as turbas costumam tirar destas vinganças, pelo entusiasmo e delírio em que momentaneamente as arrebataram.

O desalento parecia nem dar ânimo para remover essas últimas, deterioradas e quase repelentes memórias dos regozijos findos. Compreendo aquele sentimento.

Eu não sei de nada mais triste do que o terminar de todas as festas.

Em criança arrasavam-se-me de água os olhos quando assistia ao desfazer do presépio que, em honra do Menino Deus, se armava em minha casa pelo Natal.

Cerrava-se-me o coração de melancolia, ao ver guardar outra vez na arca — e por um ano! — o Menino, Nossa Senhora, S. José, os grupos dos pastores, a vaca, o jumento, os três reis, os anjos e todos os mais acessórios do pitoresco santuário, diante do qual, nesses quinze dias, se rezava a coroa em família e se cantavam as loas da ocasião ! Amargo dia de Reis, último desta abençoada quinzena, já te não via assomar sem que se me enevoassem aquelas puras alegrias infantis.

Que não encontrásseis mais estorvos pelo caminho, venerandos Magos! Que aquela milagrosa estrela, que vos trouxe a Belém, vos não fizesse errar mais tempo antes de lá chegardes! Fatal 6 de Janeiro! com o teu anoitecer, anoitecia-me o coração. Voltava a vida normal, voltavam os bancos das aulas, a aritmética, a caligrafia, oh! a caligrafia sobretudo tão associada à férula do mestre-escola! e o que era pior que o mais — acabava aquela santa comunidade, em que durante quinze dias vira a família; o lar doméstico já não ofereceria o alegre tumulto e desordem, em que velhos e crianças tomavam parte, esse ruído e confusão que tão fundo calava no coração de todos. A solenidade que nos reunira sob o mesmo tecto, que nos fizera viver a mesma vida, ia acabar. Nós, as crianças, chorávamos ãs claras na despedida; mas suspeitávamos que as nossas lágrimas tinham companheiras envergonhadas.

Quantas vezes surpreendíamos segredos de comoção, que nos redobrava o choro! Suspeitava-o eu então, mas acredito-o agora que, apesar de na idade em que a lei me autoriza a não me considerar criança, ainda não sou superior a cenas daquelas.

Se ainda hoje experimento uma sensação desagradável ao entrar em um teatro vazio, assistindo ao findar de uma romaria, ouvindo as derradeiras notas de uma valsa na última noite do Carnaval! A transição do movimento para o repouso é como uma imagem do passamento! As vezes, nesses momentos solenes, há convulsões até como as da agonia. Nem outra coisa é a vertigem da última valsa.

E tanto isto se dá comigo, que só o considerar no estado de desanimação em que, depois da partida dos augustos viajantes, ficou a vila do Minho, onde se passaram as cenas do capítulo anterior, me arrastou por divagações pouco alegres, que talvez fossem avivar ao leitor memórias adormecidas, cujo delicioso pungir nem todos me perdoarão.

Mas o facto era que, ou por abatimento moral ou por cansaço físico, o povo de Famalicão não andava na rua aquela tarde.

A porta da hospedaria, onde contraímos conhecimentos, que teremos de cultivar, estacionavam apenas alguns raros ociosos que se entretinham a contemplar, com olhos de entendedores, dois soberbos cavalos da raça de Alter, que um soldado segurava pelas rédeas. Os nobres animais, ansiosos por partir, mordiam com impaciência os freios polidos, resfolgavam, sacudiam as clinas, escarvavam com as ferraduras as pedras da calçada, e expeliam dos beiços inquietos flocos de fumegante espuma.

Pelo selim e arreios que os ajaezavam conhecia-se pertencerem a militares, e igual corolário se tirava da aparência bélica do palafreneiro, contra cuja astuciosa impassibilidade, e calculado laconismo, se tinham vindo quebrar as mais inquisitoriais interrogações dos curiosos do grupo.

O manhoso soldado, depois de ter feito ampla provisão nos cigarros que, para o humanizar,um de mais expediente lhe oferecera, limitara- se a responder por monossílabos, pouco de satisfazer, aos quesitos sobre o preço, as manhas, a sustentação, o tratamento dos quadrúpedes, e em seguida sobre a jerárquica posição, merecimento e mais partes que concorriam na pessoa dos seus proprietários.

Com ciência superior foi sustentado este jogo até que o tinir das esporas de alguém que descia as escadas pôs fim às interlocuções.

Os grupos dispersaram para dar praça aos viajantes; o soldado preparou as rédeas e fez a continência que, na posição em que estava, lhe era possível fazer.

Seguidos pelo estalajadeiro, que se desfazia em barretadas, assomaram ao patamar os dois oficiais.

Não surpreenderei por certo o leitor, dizendo-lhe que eram os nossos conhecidos, o major Clemente Samora e o alferes Filipe de Rialva.

Depois de dirigirem ao estalajadeiro um gesto familiar e cortejarem os curiosos que se descobriam, os dois, tomando as rédeas da mão do soldado, montaram com agilidade e partiram a passo em direcção ao norte. Os espectadores seguiram-nos por longo tempo com a vista e ficaram fazendo comentários sobre o jogar das dianteiras dos cavalos, seus merecimentos absolutos e relativos, e sobre as qualidades, posição oficial e até a missão de que poderiam ir encarregados os cavaleiros.

Estes caminharam por muito tempo silenciosos.

O major, deixando correr a vista por todos os pontos da paisagem lateral à estrada, por as veigas, almargens, devesas, pinhais de um ameno e delicioso panorama do Minho, dir-se-ia ressentir uma violenta comoção interior, como se lhe fossem conhecidos aqueles sítios, e lhe estivessem evocando memórias de outros tempos com toda a inquieta turba de saudades, que, de ordinário, as acompanham.

Filipe de Rialva tomara também uma expressão de seriedade melancólica, que lhe não era habitual.

Só a preocupação própria é que podia fazer com que procurasse devassar-lhe a causa.

Houve uma ocasião em que Clemente Samora chegou a suspirar.

Era isto nele tão extraordinário, tão pouco dado a estas melancolias era o velho militar, que Filipe de Rialva saiu enfim da sua abstracção ao escutar este suspiro, e olhou admirado para o seu companheiro de jornada.

Foi só então que reparou no ar de tristeza que as feições acentuadas e expressivas lhe reflectiam naquele momento.

— Que é isso, major ? Se me não enganei, ouvi-o agora suspirar — disse o alferes, dando um certo entono jovial à interpelação.

O major conservou-se algum tempo calado, depois respondeu, afectando indiferença: — Que quer você, Rialva? O meu reumatismo não se esquece de me dar de quando em quando notícias suas.

— Ai, major! major! a não descrer muito da minha experiência na matéria, aquele suspiro não era desafiado por uma dor articular.

— E então que quer dizer com isso ? Vejo-o com ares de quem me supõe apaixonado. Olhe bem para mim, Rialva. Acha-me com cara de poeta erótico ou de galã de romance ? Na minha idade! — Um militar é sempre jovem, major. É aforismo de quartel.

O coração não teve tempo de envelhecer no campo da batalha.

— Mas contrai outros hábitos e afeições por lá, e perde essa extrema inflamabilidade, que ameaça a de pessoas, como você, de continuados incêndios. O meu não está sujeito àquelas enxaquecas de que ontem nos falava o nosso amigo José Urbano. Se se não curtiu, como o dele, nos calores dos sertões americanos, temperou-se no fogo da metralha.

— Mas aquele suspiro, major? — Que tem aquele suspiro ? Que significa isso ? Suspira-se sem motivo também e quantas vezes? — Oh! mas é um terrível sintoma. Deve confessá-lo.

— Olhe, Rialva — disse o major depois de alguns minutos de silêncio — vou falar-lhe com toda a franqueza. Não é com indiferença e de ânimo tranquilo que tenho feito esta viagem do Minho. Sabe que militei no Porto. Sabe que, sob o comando de D. Pedro, ganhei muitas das minhas patentes e quase todas as minhas condecorações. A história das minhas cicatrizes está escrita por estes sítios. Os episódios das campanhas gravam-se-nos na memória e deixam saudades sempre.

Sinto-as agora e vivas e profundas! Se as sinto! É verdade. Conheço ainda tudo isto! Acodem-me à imaginação coisas que julguei esquecidas para sempre. Lances arriscados, situações difíceis, entusiasmos de vitória, desesperos das derrotas, episódios cómicos no meio dos horrores da guerra, banquetes, onde folgavam e riam, ao nosso lado, muitos que momentos depois estavam inanimados na campa... mil aventuras enfim, pecados velhos, que agora vão recordando com certo travor.

— Pecados velhos também? — disse o alferes, sorrindo.

— Que duvida ? E oxalá que fossem todos leves! — E não serão ? — Nem todos, Rialva, nem todos. E se tiver de ser franco consigo, talvez que vá prender a um dos mais graves o suspiro de que há pouco você me pediu a explicação.

— Ah! Bem me parecia que vinha do coração.

— Mas não de um coração namorado e casquilho. Entendamo-nos.

Graças a Deus e à minha boa sorte, tenho sido preservado desse mau achaque de velhice. Mas de um coração arrependido... pode ser... é. São remorsos de um mal feito, desejos de o remediar, desejos irrealizáveis agora, e que por isso me serão perpétuos tormentos.

— Repare, major, que está dando ãs suas ideias uma direcção demasiado sinistra. Nunca assim o conheci apreensivo e lúgubre.

— Tenho por costume não manifestar os meus sentimentos.

É pudor de coração que se não quadra com a empáfia militar. Mas, à vista destes lugares, tão cheios de recordações para mim, a comoção foi mais forte do que eu, venceu-me, zombou da minha repressão, trasbordou.

Já agora deixá-la.

— Confie em mim, major; eu sei compreender esses sentimentos.

— Não sabe tal. Na sua idade não se pensa nisto. Somos imprudentes ; mais tarde, demasiadamente tarde, é que sentimos o mal.

O alferes, longe de protestar contra o conceito formulado pelo seu velho companheiro, calou-se e pareceu meditar.

— Desde 1843 que não voltei a estes sítios — continuou o major.

— Deveres em parte, e em parte o natural descuido de ânimo dos que vivem aquela vida de Lisboa, mo impediram. E, contudo, alguma coisa me devia ter trazido aqui há mais tempo.

— Vestígios de passadas afeições ? — Sim; mas vestígios tristes, vestígios de lágrimas talvez. Entre muitas aventuras da mocidade, eu tive também o meu romance, Rialva.

Sossegue, que não gastarei estilo em lho narrar. Eu não me entendo com a vossa literatura de agora. Bem sabe que sou contemporâneo dos sonetos, e por isso abstenho-me de fazer narrações a rapazes que se alimentam de romanticismo puro. Em vez de arroubamentos, e enleios que estão agora na moda, eu poderia falar-lhe nas clássicas setas de Cupido e nas pouco ideais seduções das três filhas de Vénus.

— Ora vamos, major. Quer-me parecer que, ainda que tarde, também se sujeitou àquela vacina, de que fala Garrett, para se preservar das bexigas, as quais na frase dele, matavam a fazer odes pindáricas e sonetos os rapazes da sua época. Conte-me o seu romance.

— É preciso que lho conte? Pois não o adivinhou já? Não o ia escrever capítulo por capítulo, prescindindo da minha narração? É o eterno romance de um rapaz estouvado que, no meio de suas afeições efémeras, costumado a acreditar na inconstância dos corações, não recua diante de nenhuma conquista; que se julga um profundo conhecedor da humanidade, só por que lhe ignora o seu lado melhor.

A quem seduz a fama de um D. João ou Lovelace, e, como esses belos modelos, que pretensiosamente procura imitar, fazendo de todas as mulheres um leviano juízo, joga com as afeições de todas, sem se lembrar que um só coração que sacrifique nesse jogo é pagar muito cara uma distracção de rapaz.

— Bravo, major! Nunca me lembra de o ter ouvido faiar assim! — Pois aproveite a ocasião, que talvez seja a última. Eu não gosto de andar a fazer pelo mundo estas profissões públicas de sentimenta dos movimentos militares que se seguiram à Regeneração, me demorei alguns meses naquela cidade.

— Alguma imprudência sua.

— Sossegue, major; eu não sinto grandes apreensões a respeito do caso, porque, como lhe disse, não creio que se morra de amores cá por este mundo, e muito menos que seja eu o destinado para inspirar uma dessas paixões excepcionais.

— Mas enfim? — Vi uma rapariga em um convento de Braga...

— E escalou-o, arrombou-o, incendiou-o? — Não, major. E verá, pela narração que lhe vou fazer, que nestas coisas ainda não deixei de ser noviço! — Oiçamos a narração.

— Que interessantes olhos, meu amigo! Uns olhos que valiam poemas; o rosto de uma cor de pérola fascinadora, e a voz com mistérios de melodia, que a arte ainda não decifrou. Não havia ser-lhe indiferente, major, acredite. O major que fosse...

— Bem, bem, adiante. Fale-me de si, Rialva, fale-me de si. De mim sei eu de sobra o que devo pensar. Conheço-me há muito.

— Perdi a cabeça por aquela mulher. Não havia dia em que eu não procurasse vê-la, e consegui fazer-me notado. Passando agora pelos pormenores desta inocente afeição, basta que lhe diga que ela me correspondia. Parece-me que o vi sorrir quando pronunciei a palavra inocente! Mas juro-lhe que é o epíteto apropriado.

— Longe de mim duvidá-lo. Continue.

— Sob o pretexto de visitar a escrivã do convento, que era das relações de minha família, fui admitido à grade, e ela, não sei sob que pretexto, lá estava sempre também. Cada vez a admirava mais, porém ardia de impaciência por lhe não poder falar de viva voz. O acaso...

— Mau — disse o major com um meio sorriso. — Agouro mal da intervenção do acaso no romance. É sempre perigosa e inconveniente.

— Oiça — continuou Rialva, sorrindo também como se não fora sem fundamento a observação do seu companheiro. — O acaso um pouco e muito a boa vontade dela, fez com que esta rapariga viesse passar alguns dias fora do convento e em casa de um comerciante de Braga, de cuja filha ela era íntima amiga. Eu tinha relações com este comerciante, e pude então, mais a vontade, conversar com ela.

— Ora prossiga, prossiga.

— Pouco mais tenho para lhe dizer. O meu amor foi tímido e respeitoso, como nem eu próprio suspeitava que fosse possível sê-lo.

Diante daquela mulher, diante daquela candura, desconhecia-me, achava-me acanhado como qualquer rapaz de dezasseis anos. Creia, major, que não sabia o que tinha feito da minha audácia habitual. Tinha de partir para Lisboa. Minha mãe havia-me alcançado do ministro uma transferência de corpo. Disse-o à pobre menina, que se banhou em lágrimas ao sabê-lo. O seu amor havia adquirido uma intensidade que o denunciara. Em Braga falava-se muito nisso. Na noite da minha partida consegui uma entrevista dentro do jardim da casa onde ela ainda então se achava.

— Aproxima-se a peripécia — disse o major.—Adeus timidez...

— Juro-lhe, major, que a respeitei, como se a protegesse um ambiente de pureza e castidade. Davam onze horas na igreja de S. Marcos, e pela primeira e única vez os nossos lábios se encontraram, e logo depois eu saltava o muro do jardim, montava o cavalo e seguia o caminho do Porto, de onde me transportei para Lisboa. E assim terminou este inocente episódio da minha vida, — E ela? — Que lhe posso eu dizer dela? A impossibilidade de nos correspondermos era manifesta. Dois dias depois devia ela voltar ao convento, onde não podia receber cartas minhas. Ainda lhe escrevi de Porto, esperando receber a resposta em Lisboa. Esperei debalde, e...

— E esqueceu-a, não é verdade? Nem mais pensou nessa rapariga, que talvez a estas horas esteja chorando por si, ou por sua causa.

— Acredita, major ? Não acha mais natural que esteja pensando em outro? — Pode ser. Em todo o caso, basta que por uma efémera distracção arriscasse dessa maneira o destino do coração, que é o destino inteiro de uma mulher, para que não possa ou não deva pelo menos, encarar levianamente o sucedido e deixar de sentir uns indícios de remorso.

— Acreditasse eu que produzira um padecimento real...

— Que faria ? — Nunca o perdoaria a mim próprio.

— Cingia os cilícios e disciplinava as carnes, não é assim ? — Condenar-me-ia a uma completa abstenção de galanteios, pelo menos.

— E dessa maneira secaria as lágrimas que fizera derramar! — Qual era então o meu dever, major ? diga.

— Quando estiver em Braga, se se demorar por lá, averigúe do sucedido e depois falaremos. Escusamos de estar agora a traçar planos de imaginárias campanhas.

A estas palavras do major seguiu-se um silêncio prolongado, durante o qual as ideias tomaram outra direcção a ponto de que ao restabelecer-se, o diálogo versou sobre assuntos indiferentes que não precisamos de referir, e assim se manteve até à chegada dos dois cavaleiros a Braga, ainda com algumas horas de dia.

Desempenhando nesta cidade a missão oficial de que viera encarregado, Filipe de Rialva propunha-se no dia seguinte principiar as averiguações a que o major e a sua própria curiosidade o convidavam, quando um acontecimento imprevisto o veio impedir de as realizar.

Pela madrugada do dia seguinte chegara a Braga uma notícia telegráfica, que lançara o espanto e consternação nos ânimos de todos os seus habitantes.

Constava que ãs onze horas da noite antecedente o palácio onde repousava em Barcelos a família real havia sido devorado por um incêndio.

Os noveleiros políticos, sempre prontos a darem aos mais insignificantes acontecimentos um colorido lúgubre, filiavam aquele facto casual em uma trama premeditada e misteriosa. As notícias que se davam em voz alta, comentavam-se depois ao ouvido. As insinuações transluziam das frases estudadamente formuladas. Os ociosos agrupavam- se defronte das repartições públicas e das casas das autoridades, como se, das fachadas desses edifícios, esperassem elucidações.

Exagerava-se o sucedido. Houve tal que condenou ãs chamas a vila de Barcelos inteira! Em outros grupos enumeravam-se as vítimas e especificavam-se com escrupulosa exactidão a natureza e carácter dos ferimentos! Uns revelavam a descoberta de uma máquina infernal ; outros noticiavam a prisão dos criminosos.

Os ódios partidários, então mais acesos que hoje, todos estes boatos acolhiam, e de boa ou má fé concorriam para os divulgar, ampliando-os.

A nova, ao chegar aos ouvidos dos nossos dois conhecidos, Clemente Samora e Filipe, havia adquirido já as mais formidáveis dimensões, e revestira-se das cores menos para tranquilizar.

Desesperando de saber a verdade no meio de tantas variantes, e até encontrando incertezas nas informações oficiais, os dois, que tinham em Barcelos por quem se inquietar e que nada os prendia actualmente a Braga, resolveram informar-se por seus próprios olhos, e com este intuito partiram essa mesma manhã em direcção à vila.

Algum tempo mais que se tivessem demorado, teriam serenado as suas inquietações.

O pânico desvanecera-se afinal. Sabia-se enfim que o incêndio não atingira nunca as proporções medonhas que se dissera. A inverosimilhança dos romances inventados, com grande desespero dos seus autores, ia já fazendo sorrir.

IV

FOGOS DE MOCIDADE

"QUATRO dias depois dos sucessos do capítulo anterior, percorria a estrada de Barcelos, em direcção a Braga, uma jovial cavalgada de oficiais do exército e de alguns estudantes do Porto, que a promessa de um segundo perdão de acto trazia naquele tempo muito jubilosos e como que em férias já.

Filipe de Rialva e o major Samora haviam-se-lhe incorporado.

Do rancho era talvez este último o único melancólico. A sua estada em Barcelos avivara-lhe as saudades que o perseguiam. Nenhumas informações pudera obter, nem sequer do lugar onde repousava a morta.

Nem um só vestígio dos seus passados amores tinha encontrado o pesaroso velho. Uma estrada em construção acabara de derrubar a pequena casa, que a imaginação lhe estava agora ainda reproduzindo, e com ela dir-se-ia haver destruído todas as memórias desse drama obscuro, que terminara em túmulo.

Rialva, ao inverso do seu companheiro, no descuido dos vinte e dois anos, entregara-se inteiro ao prazer da jornada.

Pouco avultavam já na memória do estouvado alferes as recordações da sua aventura de Braga. Tivera tempo e ocasião de se distrair.

De Barcelos seguira a corte a Viana, e nessa marítima cidade do Minho foram demasiados os prazeres em que tomara parte, para que lhes resistisse qualquer ideia melancólica. Vinha-lhe o coração desafogado ao voltar a Braga, onde se antecipava um dia à comitiva real, que só no dia 12 devia sair de Barcelos.

O génio expansivo e bom humor de Filipe valeram-lhe uma certa preponderância sobre o rancho, que parecia havê-lo tacitamente elegido para seu chefe. Isto lisonjeava-o e obrigava-o a fazer todos os esforços para justificar a escolha.

A cada passo, estridentes gargalhadas e hurras espantosos partiam em coro do bando turbulentoso. Por vezes a algazarra subiu a ponto que o major Samora, em poucas disposições para tomar parte nela, sopeou o passo ao seu cavalo para se distanciar do tropel.

— Meus senhores! — disse um dos estudantes, a que no ano anterior um perdão de acto, poderoso Deus ex-machina, arrebatara milagrosamente dos nevoeiros da matemática, onde se vira perdido, e que esperava que um outro o ajudasse a livrá-lo da botânica, mau grado do Sr. Costa Paiva que não conseguira ensinar-lhe a classificar nem a Digitalis purpúrea. — Meus senhores, nem todo o tempo gastemos a rir. A divina arte do canto está em decadência entre nós. De todas as nações do mundo a portuguesa é a que menos canta! Vergonha! Eu, digno e degenerado representante daquela antiga e característica classe de estudantes que corria as estradas e estacionava nas praças de capa traçada, espada ao lado e guitarra em punho, coro ao repeti-lo! O estudante de Salamanca, cantando seguidillas debaixo da ventana da senhorita de tez morena e olhos travessos, um pobre diabo sem dinheiro, mas cantando, cantando a escalar janelas, no meio das rixas, cantando na cara dos guardas civis e dançando, ao som da pandereta, o fandango e o bolero — eis o tipo ideal, que se perde, que degenera desde que a filosofia o estragou. O estudante hoje é folhetinista, é político, é erudito, é sisudo e, mais que tudo, é sensaborão! Dá-lhe mais canseira a salvação da república, do que o penteado da sua amante! Que tremenda responsabilidade nos cabe, meus amigos! Nós, indignos depositários de um grande legado, que deixamos esbanjar! Reajamos quanto nos seja possível, e reajamos cantando. A cantar se têm feito revoluções.

Dêem-me o poder das canções, e eu revolverei o mundo. Cantemos! — É justo que abras tu o exemplo — respondeu-lhe um dos companheiros.

O convite foi repetido por toda a companhia.

O orador não se fez muito rogado, e em uma toada popular, que então andava na boca de todos, cantou as seguintes coplas, que nos parece serem da sua lavra:

Ouvia gabar os beijos,
Dizer deles tanto bem,
Que me nasceram desejos
De provar alguns também.

Que esta fruta não é rara,
Mas nem toda tem valor:
A melhor é muito cara,
E a barata é sem-sabor.

Colhi-os dos mais mimosos;
Provei três, mas, por meu mal,
Ao princípio saborosos,
Amargaram-me afinal.

Um colhi eu de uma bela,
Que era Rosa, sem ser flor.
Se tinha espinhos como ela,
Dela também tinha a cor.

Vi-a a dormir, e furtei-lha
Um beijo que a acordou.
Eu gostei, porém causei-lhe
Tal susto, que desmaiou.

Logo que a vi sem sentidos,
Fugi, sem outro lhe dar;
Que beijos, sem ser pedidos,
Não são coisas pra brincar.

Outra vez, duma morena,
Olhos azuis, cor de céu,
Corpo esbelto, mão pequena.
Um beijo me apeteceu.

Pedi-lho — e então por bons modos,
Pedi-lho do coração.
Zombou dos meus rogos todos
E respondeu-me: que não,

Zombei como ela zombava,
E um beijo, à força, lhe dei;
Mas... bem dado ainda não 'stava
E c'um bofetão o paguei.

Custou-me caro o desejo,
Que mui caro ela o vendeu.
Pagar por tal preço um beijo !
Assim não os quero eu.

Este, mais do que o primeiro,
Me deixou traca impressão;
Quis provar inda um terceiro
Para não jurar em vão.

Mas não quis fruta roubada
Que mal com ela me dei.
Uma dama delicada
Ofereceu-ma... Eu aceitei.

Ai, que boa fruta que era
Estava mesmo a cobiçar.
Passar a vida quisera
Tal fruta a saborear.

Mas, no meio da colheita...
Da fruta, o dono apar'ceu.
Zelosos olhos me deita:
Se zelava o que era seu !

Vendo o caso mal seguro,
Eu logo ali lhe jurei
Restituir e até com juro
A fruta que lhe tirei,

E, caso não discordasse,
Não me parecia mal
Que a ele os juros pagasse
E à senhora... o capital.

Esta sensata proposta
Em fúrias o arrebatou,
E, por única resposta,
A lutar se preparou!

Oiço inda gabar os beijos,
Dizer deles muito bem:
Mas findaram-me os desejos,
Já sei o sabor que tem.

Uma estrepitosa algazarra rompeu do grupo, quando o académico terminou a sua cantiga.

— Visto isso — disse um dos cavaleiros — puseste-te em dieta dessa fruta ? Tenho piedade da tua higiene meticulosa! Possuis um estômago demasiado susceptível. Eu por mim, meus senhores, confesso-lhes que, verde ou madura, não sei de outra fruta que me agrade tanto.

— Alto lá! — respondeu o que cantara. — Nada de responsabilidades absurdas. Eu não subscrevo todas as legítimas consequências da canção. E se julgam necessário neutralizar o efeito, eu estou pronto a cantar-lhes uma outra. Possuo-as para todos os gostos.

— Por esta vez dispensamos-te da retractação. Acreditamos-te.

Nada de lógica em assuntos destes. Que os cépticos cantem de crentes e os crentes encham as estrofes do cepticismo. Ninguém lhes deve pedir contas. Outro cantor! — Eu por mim, estou pronto a cantar — disse um alferes de caçadores — mas não a mulher nem o amor; inspira-me mais um charuto, um cachimbo e até um cigarro, sendo o tabaco forte e a mortalha boa.

— Pois canta o cigarro. Admite-se o culto. Vai entoando a antífona, enquanto nós acendemos os fachos do rito sagrado — respondeu Filipe, distribuindo cigarros por todos os da cavalgada.

E dentro em pouco o bardo novamente indigitado, principiava cantando:

No centro de círculos
E nuvens de fumo,
Um deus me presumo.
Um deus sobre o altar!
Nem doutros turíbulos
Me apraz tanto o incenso,
Como o deste imenso
Cachimbo exemplar I

Em divãs magníficos
De seda e veludo
Repousa sisudo
O ardente sultão,
Fumando, inebria-se
E esquece odaliscas,
E os beijos, faíscas
De amor, e o Alcorão.

Longe, oh! longa o ópio,
Que os sonhos deleita
Da mísera seita
Dos Teriachis.
Horror ao narcótico,
Que vem das papoulas,
E ao que arde em caçoulas
No harém dos Alis I

Que a África tórrida
De areias candentes
Consuma as sementes
Do arábio café.
Bebido nas chávenas
De índia e porcelana
A negra tisana
Veneno me é,

E a folha asiática,
Delícias da China,
Por nossa má sina
Trazida pra cá?
Sorvida em família,
Em morno hidro-infuso !
Anátema ao uso
Das folhas de chá !

Nem tu, ó alcoólico
Licor dos lagares,
Terás meus cantares,
Meus hinos terás.
Embora das ânforas
Vazado nas taças,
Aos outros tu faças
A boca loquaz.

Meu canto, é da América,
País do tabaco,
Melhor do que Baco,
Que o ópio melhor.
Que a Europa, Ásia e Africa
E a Terra hoje toda
Já fuma por moda
O heróico vapor.

Até na Lapónia,
Da gente pequena,
Se fuma, e no Sena,
No Tibre e no Pó,
No Volga e Danúbio,
No Tejo e no Douro..
Que grande tesouro
Se deve a Nicot !

Nem venha da cantora
Contar maravilhas
O das cigarrilhas
Famoso inventor.
Raspail ó cismático,
E eu sou ortodoxo;
O seu paradoxo
Não me há-de ele impor.

E os áridos lábios
Mais fumo inda aspirem,
Que os néscios suspirem
Por beijos febris.
Não quero outros ósculos,
Não quero outra amante,
Qual mais doidejante
Que os fumos subtis ?

Tornadas Vesúvios,
As bocas fumegam,
De nuvens que cegam,
Vomitam legiões.
Fumar ! Oh, delícias I
Prazer de nababo!
E leve o Diabo
Do mundo as paixões!

É indescritível o entusiasmo que se manifestou em seguida às últimas palavras da canção ou hino do tabaco. Foi tal a gritaria que os ecos das montanhas vizinhas despertaram estremunhados, e, como dizia Fernão Mendes Pinto, as carnes tremiam de medo.

Todas as bocas pediram bis, e de novo se guardou um silêncio solene para escutar as estâncias de tão popular produção, algumas das quais muitos já repetiam em coro.

— E tu, Filipe ? — disse o cantor favorecido da aura de popularidade — não cantas também ? — Depois do teu triunfo, julgo prudente prescindir dos meus direitos. Desisto da palavra.

— Não admito. Não é facultativo, é obrigatório o cantar.

— Isso é crueldade. Queres imolar-me nas aras da tua musa rodeadas de fumo de tabaco? — Isso é modéstia mal cabida. Ou temes ferir a delicadeza da tua musa sentimental com as baforadas do meu cachimbo' — Apelo para a decisão do conclave — disse o estudante que cantara primeiro.

— A votos! A votos ! — bradaram algumas vozes.

No momento em que isto se passava havia a cavalgada chegado a um ponto da estrada erma de habitações e perfeitamente deserta de viajantes. Era um extenso lanço que seguia em linha recta por meio de lezírias sem cultura, e tapadas de tojo e pinheirais ainda novos.

A vista alcançava de extremo a extremo deste lanço tanto mais facilmente, porque a atmosfera densa de vapores apresentava, sob uma óptica favorável, os planos mais distantes.

Isto permitiu que os cavaleiros avistassem ao longe sentada, a fiar, sobre as pedras de um dos muros que flanqueavam a estrada, uma mulher, que na aparência mostrava já ser de avançada idade, a qual, ao ver aproximarem-se os viajantes, se levantou açodada e colocou-se no meio da estrada como se lhes desejara falar.

— Aí tens quem te vai inspirar, Filipe. Uma princesa desconhecida que desce a escutar as namoradas endeixas do trovador — exclamou um dos que primeiro a avistara.

— Vem à fala. Respeito, senhores; quem sabe se estaremos na presença da rainha das fadas? Esta nossa peregrinação, digna de um segundo Ariesto para a cantar, precisava de uns jardins de Armida, eis aqui quem no-los vai abrir.

— Restos do terremoto, eu vos saúdo — disse um outro, tirando o chapéu e vergando a cabeça.

— Coitada! Alguma pobre mendiga — disse Filipe, procurando já nas algibeiras com que satisfizesse a que ele julgava indigente pela atitude que a vira tomar aguardando-os...

— Em todo o caso, vejamos o que ela nos quer. Portemo-nos sérios para lhe inspirarmos confiança. Está-me a parecer que se pode tirar partido disto.

E, seguindo este parecer, todos guardaram silêncio e marcharam na maior compostura.

Estavam finalmente na presença da velha. Era de facto de aspecto centenar; engelhada, curvada e trémula, mas ainda assim com certo ar de resolução.

Logo que os viu chegar, dirigiu-lhes a palavra: — Ora, Nosso Senhor venha na sua companhia! — Amen! santinha, e que também esteja consigo.

— Ele está em toda a parte onde o procurem. Boa é a sua assistência, e a da Virgem Nossa Senhora, e a do milagroso Padre Santo António, que nos livre de perigos e de trabalhos, de testemunhos falsos e de ferros de el-rei e de maus vizinhos de ao pé da porta. Ora para bem os fade a sua sorte. Ámen.

— Então veio fiar para o descampado? É melhor, são os ares mais livres — disse Filipe, para desviar a atenção da velha do riso mal disfarçado dos seus companheiros.

— Nada, não senhor, eu lhe digo. O menino...

Desta vez os risos rebentaram.

.— Olhem! Estão-se a rir por eu lhe chamar menino. E eles que o são todos para mim, que para um cento só me faltam quatro anos! Vejam os grandes homens.

— Não faça caso, não faça caso. Deixe-os lá. Diga o que ia a dizer.

— Ah! perguntava eu se os... vá lá, senhores, se os senhores eram... criados de sua majestade? Sim, porque ser criados dos reis não é baixeza nenhuma. Um morgado da minha terra, fidalgo dos quatro costados e homem de teres e haveres, pois senhores, deu um bom par de centos de mil-réis para ser moço do paço, e pelos modos as suas obrigações são as mesmas da gente, mas aquele ainda assim q u e r que lhe paguem para as fazer, por isso é que eu pergunto.

— Não se enganou, minha tia — disse Rialva, fazendo um sinal aos companheiros — eu sou estribeiro-mor da casa real, aquele monteiro- mor, este copeiro-mor, camareiro-mor o outro, esmoler-mor...

— Vejam que graça! Pelo que estou ouvindo todos os empregos mores são para os fidalgos, menos o de tambor-mor, que nesse tenho eu um neto, que é um rapagão como uma casa.

De novo a seriedade dos ouvintes esteve para os abandonar.

— Visto que são o que eu suspeitava, sabem dizer-me se a rainha se demorará ainda muito? — Então queria vê-la ? — Vê-la? Não era só vê-la, é que lhe queria também falar.

— Falar-lhe?! Aqui? — Aqui mesmo, sim senhor, e porque não? — Então tem a pedir-lhe alguma coisa? — É verdade que tenho. Tenho a pedir-lhe justiça.

— Justiça! — disseram admiradas algumas vozes do grupo. — E contra quem? — Isso basta que ela o saiba.

— Mas na estrada, boa mulher, a falar verdade, não é das melhores ocasiões — disse o major Samora, que tendo-se agora reunido ao rancho, de que se separara, acabava de ouvir as últimas palavras do diálogo.

A velha voltou-lhe uns olhos desconfiados, e respondeu com certa aspereza: — Para fazer justiça é sempre ocasião.

— Bravo! — disse o estudante da canção.

A velha, estimulada pelo sinal de aprovação, prosseguiu: — Não é ocasião! tem graça. Nem que a gente não tenha mais que fazer do que largar barcos e redes para ir ao palácio procurar sua majestade. E então para quê? Para vir o senhor porteiro-mor, o senhor escudeiro-mor, o senhor lacaio-mor, e nos mandar pôr fora sem que a rainha o saiba. Temos outra como as justiças dos tribunais.

Andar uma criatura em uma barafunda de escrivães e procuradores e letrados e testemunhas e jurados, e a gastar dinheiro, e tanto mais ganha quem mais gaste, e tanto mais gasta quem mais tem.

Nada, não serve para mim. Aqui, no meio da estrada. Se me não deixarem chegar à carruagem, ponho-me a gritar: Aqui del-rei! aqui del-rei! e veremos então o que vai. Forte coisa! Olha agora a grande dúvida! — É assim, é assim, minha tia — diziam do lado alguns oficiais.

— Vamos cá a saber, tardará muito a rainha ? Rialva, trocando um olhar com os circunstantes, apressou-se a responder, fazendo por dissimular um certo ar de malícia, que olhos mais exercitados que os da velha poderiam reconhecer: — Duas horas o mais tardar. Conhece-a? — Nunca a vi, mas isso logo se tira, pouco mais ou menos. Sempre há-de vir vestida de modo que...

— Não, não — disse Rialva. — A rainha traja como qualquer outra senhora; de mais a mais como vem incógnita, nem acompanhamento traz. Não vê que nos mandou adiante? — Sim, sim. Mas então como há-de ser? — Olhe, daqui por duas ou três horas, pouco mais ou menos, vendo chegar duas carruagens com criados de casaco azul, botões de prata e colete vermelho, e dentro da primeira uma senhora de meia-idade vestida de verde com xale e um chapéu branco...

— É ela? — É ela. Acompanham-na talvez algumas mais novas, são damas do Paço. Na segunda carruagem vêm os criados.

— E o rei e os príncipes ? — Esses vêm mais tarde, a cavalo, e com os generais. Não lhe disse já que sua majestade quis vir incógnita? — Bem, bem.

— E olhe lá. É provável que por isso mesmo ela se ponha a rir se vossemecê lhe chamar rainha e o negue; mas teime e diga-lhe que vai pedir justiça, que ela há-de escutá-la.

— Isso fica ao meu cuidado. Então diz que daqui por duas horas? — Duas ou três.

— Isto vai nas nove — disse a velha, falando consigo e fitando as nuvens — com mais três, nove, dez, onze, doze. Meio-dia. Chega não chega: uma hora; janta não janta são duas, às seis é noite. Não tem dúvida; uma vez não são vezes. E isto como assim há-de fazer-se. Ora então, muito obrigada, e vão com Nossa Senhora.

— Adeus, minha tia — disseram todos com a possível gravidade.

— Deus permita que se saia bem da empresa.

— Amen! ámen! E o alegre bando, despedindo-se da velha, que voltou a tomar a sua primeira posição, partiu a galope em direcção a Braga.

Quando a considerável distância do sítio, onde esta cena se passara, afrouxaram o passo às cavalgaduras para pedirem a Filipe explicações sobre o que ultimamente dissera à velha.

— Pois não compreenderam ? É uma surpresa que preparei a minha mãe. Minha mãe devia partir de Barcelos duas ou três horas depois de mim com as meninas do Coural, minhas primas não sei em que grau, em casa de quem tenciona ficar esta noite para depois de amanhã assistir em Braga à entrada da rainha. Portanto, dentro de duas horas estará ela ouvindo uma reclamação em forma dirigida por esta pobre velha, o que não pouco a há-de divertir e às priminhas.

Mas que necessidade tinha você de enganar esta mulher ? — disse o major com um certo ar de amigável censura.

— Deixe lá, major — disse um dos oficiais — o episódio deve ser interessante, e aquelas senhoras devem agradecer-no-lo.

— Quem sabe o que esta pobre criatura teria a pedir à rainha ? — Se for esmola, não ficará sem ela, pedindo-a a minha mãe.

— Sim; mas se for justiça ? — E julga que irá mal encaminhada, se minha mãe a guiar para obtê-la? — Assim a julgue merecedora dela.

— Pois então, deixe correr, major. Pena tenho de não poder presenciar a cena,

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