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Serões da Província

Júlio Dinis

V

A HEROÍNA DESTE ROMANCE NA CASA DE CAMPO DE JOSÉ URBANO

Ameia légua de Braga, Filipe de Rialva, o major Samora e seus jovens companheiros tiveram a surpresa de um feliz encontro.

Ao dobrarem um ângulo de estrada, que em uns sítios aqui e ali era povoada de pequenas casas e vendas, como denunciando a vizinhança de uma grande povoação, acharam-se frente a frente com uma personagem muito nossa conhecida, José Urbano.

À ruidosa exclamação com que José Urbano saudou a cavalgada, rompeu desta um coro unânime de brados, que em uns desafiava o conhecimento que tinham do jovial negociante, e em outros o estranho costume de jornada de que ele vinha revestido.

José Urbano montava uma égua corpulenta, mas não de raça apurada. Um chapéu de palha de amplíssimas abas, preso por uma fita por baixo da barba, um barrete preto subjacente que lhe defendia as orelhas de um leste em perspectiva, que a sua ciência meteorológica prognosticava iminente; óculos verdes, baluarte contra a invasão da poeira; guarda-sol minhoto, com honras de barraca, mas o único que tem razão de ser; um capote de camelão, verdadeiro epigrama ao sol da Primavera; galochas capazes de arrostar com o dilúvio ao lado da arca; alforges repletos, uma cabaça a tiracolo, diante de si uma trouxa e na garupa uma pequena mala; tal o conjunto de acessórios que concorriam para o efeito prodigiosamente cómico do recém- -chegado.

— Aleluia! — exclamou José Urbano, elevando para a testa os enormes óculos verdes, que o incomodavam quase tanto como a poeira.

— Aleluia! Encontro enfim Aníbal. Juraria que me andavam a fugir, meus companheiros de Vila Nova. Receiam-se da desforra que me devem ao voltarete. Inútil trabalho. Ela é inevitável como os fados. Persegui- los-ei até aos confins do mundo. Mas de facto! Apresso os meus negócios em Barcelos para os encontrar em Braga. Chego. Qual! Haviam-se evaporado. Acordaram uma manhã com a febre de passear, e partiram para Barcelos! que eu acabava de deixar justamente em companhia do correio que trouxe a Braga a notícia da terminação do incêndio. Com os diabos! disse eu comigo. Os meus amigos teriam praça assente em alguma companhia de bombeiros? Voltam agora a Braga, quando eu estava em caminho da minha casa de campo.

— Eu iria jurar, meu caro José Urbano — disse o major Samora — que partia para a Sibéria. — O aspecto respeitável do seu equipamento...

— Permita-me que lhe diga, major, que essa observação desacredita um pouco a reputação de homem experiente e cauteloso que merecia. Fie-se em calores de Maio! Bom, bom. Olhe-me para aqueles riscos brancos do céu, aquilo é leste, o impertinente, o endemoninhado leste. Eu nunca ouvi o sibilar dos pelouros, meu caro Cipião, mas afianço-lhe que me não pode ser mais desagradável que o do vento leste. Não o há assim.

— Nem o dos mosquitos? — perguntou um estudante.

— Nem esse. Os mosquitos matam-se, o leste... mata-nos. Bem vejo que o capote lhes está causando sensação. O capote, meus amigos, é o mais útil artigo de vestuário que desde a folha de figueira tem inventado o engenho do homem. Conserva-me o calor no Inverno e a frescura no Verão. Os óculos livram-me os olhos da poeira e conservam- me a vista. O guarda-sol, que os espanta pela enormidade, abriga a minha pessoa e a bagagem dos ardores do sol e das torrentes da chuva. A cabaça, meus amigos, contém o líquido que me sacia a sede, ou me dá o calor para arrostar com o frio...

— Basta, basta, amigo José Urbano — interrompeu Samora.— Vejo agora que sou imprevidente. Desse modo tanto pode viajar pela Cítia fria como pela Líbia ardente.

Esta observação do major foi festejada com uma estrondosa gargalhada, na qual tomou parte José Urbano.

— Seja — disse este, quando serenou a hilaridade — mas o facto é que os meus amigos vão para Braga e eu para a minha casa de campo.

Não importa. Amanhã cedo cá estou de volta, e fiquem certos que me não tornam a fugir. Cobardes! São militares, e fogem de um paisano desarmado! E José Urbano, despedindo-se de Rialva e Samora, saudou a cavalgada, que lhe correspondeu com estrepitosos hurras.

Daí a pouco entrava a cavalgada em Braga, e aquele grupo alegre e ruidoso dispersava-se, levando todos gratas recordações da viagem de Barcelos à capital do Minho.

Na manhã seguinte, véspera da entrada da rainha em Braga, passeava o major Samora com alguns oficiais militares no campo de Santana, quando um indivíduo bem trajado, de idade avançada, mas de aspecto vigoroso, lhe foi ao encontro com os braços estendidos, dizendo-lhe com o sorriso nos lábios: — O sr. major Samora já tão cedo por aqui?! — Tão cedo ? — disse Samora — pois o amigo José Urbano não sabe que os militares se levantam ao toque de alvorada?

— É verdade, é verdade; mas quando se não está em serviço activo... Naturalmente não quis que o inimigo o surpreendesse na cama! Muito bem; como o prometido é devido, aqui estou em cumprimento da minha palavra. Mas diga-me, major, onde está hospedado? — No quartel.

— Tem necessidade de estar hoje em Braga? — Nenhuma. Os meus deveres estão cumpridos e só amanhã...

— Nesse caso quer-me fazer um obséquio ? — Quantos quiser, meu caro senhor.

— Há-de vir jantar comigo.

— O pior é que o meu antigo camarada, o capitão Melo, já me havia obrigado a prometer-lhe jantar com ele.

— O capitão pode esperar, não é verdade ? — disse José Urbano, voltando-se para o capitão, entre quem e ele existia a maior familiaridade.

— Pode até vir connosco também.

— Isso é que não — disse o capitão interpelado — mas não quero também privar o Samora do agradável passeio que lhe proporciona o amigo Urbano. Aconselho-te que vás, e amanhã será o meu dia.

— E não levas a mal ? — Essa é boa! — Às suas ordens, Sr. José Urbano. É longe? — Um quarto de légua afastado de Braga. É um caminho excelente.

— Conta meia légua, Samora; o nosso amigo tomou os costumes da aldeia; para ele não há longes.

— Isso também é com o meu cavalo.

— Então vamos! — continuou José Urbano — mas, major, não julgue que pretendo com isto pagar-lhe os obséquios que me fez em Famalicão. Não, senhor.

— Basta de agradecimentos por tão pouco; não falemos mais nisso.

E os dois dirigiram-se para o quartel, onde o major Samora residia; este montou a cavalo; José Urbano tomou na alquilaria próxima uma possante égua que ali dera a guardar, e partiram em direcção à morada do negociante bracarense, vivenda retirada da cidade na proximidade da estrada do Porto, mas afastada dela mais de um quarto de légua.

— Então reside na quinta permanentemente? — Não, senhor. Eu vivo em Braga, porque a isso me obriga o meu negócio. Mas tenho há tempos a minha família fora da cidade, longe da qual, por gosto, eu viveria também.

— É numerosa a sua família? — Uma sobrinha apenas. Pobre rapariga. Eu sei que não é esta a vida a que naquela idade se dirigem seus suspiros,..

E os dois prosseguiram no seu caminho conversando acerca da agricultura, do comércio, da indústria, de política, até avistarem a casa onde José Urbano vinha descansar a miúdo das suas lidas comerciais.

Era uma agradável vivenda, circundada por um viçoso quintal todo orlado de limoeiros, e onde florejavam as mais formosas japoneiras e magnólias de algumas léguas em redor. Penduravam-se pelos muros festões virentes de jasmins e balsaminas, em volta dos quais zumbia incessante um buliçoso enxame de abelhas, atraídas pelos aromas suaves que se exalavam em torno. Na extensão destes muros abriam-se sobre o caminho duas janelas de grades, através das quais se descobria a abundante verdura daquele perfumado recinto, e de fora se escutava já o murmúrio contínuo e monótono de uma cascata, que derramava a frescura e a vida por toda aquela vegetação interior.

Respirava-se ali uma tranquilidade que deliciava o coração. O horizonte, que rodeava esta pitoresca residência, era extremamente aprazível.

Para qualquer lado que as vistas se dirigissem repousavam sempre agradavelmente sobre um ameno fundo de folhagem e verdores, onde se demoravam irresistivelmente, seduzidas pela alegria e festa que se reflectia por toda a parte. No meio do repouso e silêncio que reinava em torno dessa habitação campestre, como que se adivinhava a vida latente da natureza que desperta no raiar da Primavera, e o azulado e tenuíssimo véu de nuvens da manhã, que o sol não dissipara ainda de todo, era como a garça transparente que longe de disfarçar, realça a formosura de certos rostos e o fulgor de certos olhos. Através daquele sendal vaporoso pressentia-se sorrir a natureza, mais fascinadora ainda nos seus trajos simples da manhã, que nas ostentosas galas do meio-dia. As ervas dos silvados, ainda húmidas do orvalho, dispersavam em cambiante íris os raios de luz, fulgindo como brilhantes nas suas mudanças contínuas, ou imitando o fulgor do rubi, a amenidade da safira, a limpidez da esmeralda e do topázio; só a Primavera tem destes encantos.

Digam o que quiserem das outras estações, nenhuma é tão agradável como esta. A natureza é sempre admirável, é sempre artística, é sempre poética, mas o carácter da sua poesia é variado. No Inverno é sublime e lúgubre como o Manfredo, o Corsário, o Giaour e muitos outros poemas; Byron admira-se, surpreende-nos, aterra-nos, faz-nos estremecer e mistura certo terror secreto ao seu entusiasmo; e entre o ritmo das rajadas, as estrofes do mar agitado o que caracteriza os seus hinos. No Estio é imaginosa, apaixonada, esplêndida, lasciva, como um frémito de Musset, como uma oriental, como um episódio de D. João.

No Outono transparece nos seus cânticos o que quer que seja de utilitário, são os frutos sazonados pendentes das árvores, e das searas maduras, que chamam o pensamento para os sérios problemas da vida, como este género de poesia filosófica que entre as galas do estilo desenvolve um pensamento moral e humanitário. Mas na Primavera a poesia da natureza é destas composições fugitivas, em que tudo é harmonia e lirismo; abundam as flores, multiplicam-se as imagens, nos lagos e ribeiros onde se reflecte o céu, nos ares onde os vapores se condensam fantasmagòricamente em pequenas nuvens de formas tão variadas como as concepções de fantasia de poeta, combinam-se surpreendentemente a luz e o orvalho como as lágrimas e os sorrisos em uma balada germânica.

O concerto das selvas compõe-se de gemidos e cantos, harmonizados em misteriosa consonância. A natureza é então como a donzela que só cura de atavios e enfeites, e se entrega descuidada à alegria do viver; reflectem-se-lhe desanuviados os sorrisos nos lábios inquietos, exalam-se-lhe do seio irreprimíveis os suspiros de envolta com os cânticos, pulsa-lhe o coração ansioso como se fosse excesso de vida. Mais tarde a maternidade tem também sua beleza, mas há alguma coisa de melancólico nas alegrias de então; o futuro, que à donzela fulgurava de esperanças, à mãe anuvia-se-lhe de cuidados; o coração sobressalta-se-lhe de contínuo repartido por tantos afectos. A natureza no Outono tem também o carácter grave da maternidade, mas na Primavera só há a despreocupação da virgem.

Não sei se estes mesmos, se análogos pensamentos, suscitava ao major Samora o belo espectáculo campestre que se gozava dali; é certo que parecia não se saciar de correr com os olhos por aquele horizonte vasto e pitoresco, e não participar da impaciência que manifestava José Urbano pela demora que havia em lhe abrirem o portão, ao qual estava batendo havia cinco minutos.

Respondiam-lhe do interior os latidos formidáveis de dois cães, mas não se observava o menor vestígio de uma existência.

— Onde estará metida esta gente ? — exclamou José Urbano com azedume notável.

O major nem deu fé da demora que assim exasperava o seu anfitrião.

Finalmente ouviu-se o estalar da areia do jardim: o ruído de uns passos ligeiros e uma voz feminina, cujo timbre agradável e sonoro veio despertar o major da sua contemplação extática, fez-se ouvir de uma das janelas do muro.

— Ah! é o padrinho! estava bem longe de o esperar aqui a esta hora — disse aquela voz ao reconhecer José Urbano; e o major elevando a cabeça na direcção de onde lhe tinham vindo aquelas palavras, pôde perceber, ainda que de passagem, a forma elegante de uma rapariga que se retirava com agilidade.

— Abre, Micas, abre — disse José Urbano, cujo mau humor se desvaneceu ao ouvir aquela voz. — Ainda não sei o que fez a Roberta a esta gente toda! — E, voltando-se para o major, acrescentou: — É minha sobrinha. Uma boa rapariguinha; coitada. — E suspirou.

Ouviu-se o correr de um ferrolho no portão do quintal, que girou sobre os gonzos e se abriu aos recém-chegados, que se apearam rapidamente, e recolheram os cavalos.

O major, com a amabilidade de um militar sensível aos encantos da beleza, cumprimentou a gentil porteira, que meio enleada pelo inesperado da visita, se ia sorrindo ao corresponder ao cumprimento.

— Meu padrinho é só o responsável da má recepção que o senhor tem. Se me tivesse prevenido quando partiu de madrugada....

— Minha senhora — disse o major em tom jovial — V. Ex. há-de permitir que, fazendo eu próprio a minha apresentação, lhe diga que tem na sua presença um velho soldado, que dormiu muita vez no terreno e no agradável leito das tarimas, comeu o caldo pouco apetitoso do rancho, e saciou muita vez a sede na água dos rios. Quando bato a uma porta a demandar quartel, só peço o pão, sal e água, de que costumam rezar os boletos.

— Nesse caso ganho ânimo, porque espero satisfarei a tão pouco exigente peregrino; mas está-me parecendo que o padrinho não se satisfaz com tão pouco.

— Não, Micas, pelo menos não te perdoo aquele pudim de batatas que sabes cozinhar tão bem; o mais fica por conta de Roberta.

— De Roberta, sim! Quando a teremos nós cá! — Como ? — Disse-me, depois do padrinho ter partido, que tinha que fazer na cidade. Uma compra de linho ou estopa, ao que julgo. Ou é natural que aproveite a ocasião para ver a rainha...

— A rainha? hoje! — Pois não entra hoje em Braga? — Amanhã.

— Disse-nos aqui a leiteira que entrou já ontem, e à Roberta afirmaram-lhe que era hoje de tarde...

— Deixa afirmar. Mas então quem ficou em casa? — Eu. Os criados foram para a lavoura.

— Só! — exclamou José Urbano com certo ar de censura e desagrado.

— Com estes — respondeu, voltando-se para ele sorrindo, a gentil rapariga, ao passo que afagava a cabeça de dois enormes cães acorrentados que, como se desejassem justificar a confiança que depositava neles, a afagavam com humildade.

O major não disse palavra. Não se cansava de admirar a singeleza e graça da interlocutora.

Para justificar esta contemplação admirativa do major, precisamos nós também de esboçarmos aqui o perfil desta nova personagem da nossa história, minudência cuja falta nenhuma leitora me perdoaria por certo.

E contudo a tarefa é de desanimar.

VI

A HEROÍNA DO ROMANCE — A AÇORDA DO MAJOR

NAO sei de maior dificuldade que a de descrever a heroina de um romance. Tão pouca coisa basta para a desconceituarmos aos olhos da leitora!... Eu, porém, sacrificarei à verdade algumas simpatias que poderia angariar a maior, se a menosprezasse.

Descrevo-a tal qual ela era. Em primeiro lugar começarei por dizer que o modo por que ela trajava, realçava-lhe tudo que eram dotes naturais.

Maria Clementina, sobrinha de José Urbano, era de uma configuração elegante, na qual se observavam as regulares proporções que a arte não teria decerto a corrigir. De um porte desafectadamente majestoso, inexplicavelmente combinado a uma expressão de bondade insinuante e atractiva, havia no andar, nas feições, na maneira de olhar, um ar de dignidade e de nobreza, que intimidava os mais ousados.

Um singelo vestido de riscado escocês, adornado apenas por um colarinho liso, e por uns punhos apertados por duas coralinas, deixava- -lhe sobressair todo o correcto contorno daquelas gentis formas femininas, de uma flexibilidade admirável. No rosto não havia aquela combinação de rosas e neve, que para muita gente constitui o supremo grau de beleza, e contudo não era trigueira, nem de uma alvura desmaiada dos tipos alemães, que tão frequentemente se combinam com cabelos ruivos, antipática combinação; mas para lhes dar uma ideia daquele colorido encontro-me gravemente embaraçado; a natureza concedeu àquelas tintas uma singular influência sobre a fantasia do coração, empregou-as apenas em alguns rostos de mulher, que exercem então um poder verdadeiramente magnetizador. Um romancista português, e outros franceses, comparou uma dessas cores à da pérola; e tem um pouco disto efectivamente, mas excede-a em beleza. Quanto a mim considero-as as mais perigosas. Imaginem um rosto assim, animado pelo cintilar de uns olhos negros, orlado por uma moldura de cabelos também pretos, cujas ondulações naturais semelhavam elegantes ornatos; concebam a mais bem modelada boca, cujos lábios, convenientemente grossos, agitava incessante um mal perceptível tremor, sinal evidente de uma exaltada sensibilidade; suponham agora toda esta simpática cabeça, graciosamente coberta por um largo chapéu de palha, que a assombrava de uma penumbra de efeitos ópticos e fascinadores, e terão explicada a razão pela qual o major não se fartava de fixar esta rapariga com os mais inequívocos sinais de uma sincera admiração e decidida simpatia.

Caminharam todos os três por entre ruas orladas de arbustos que se entrelaçavam, formando um toldo de folhagem, e cobertas de areia que fazia sobressair a verdura matizada dos tabuleiros em que estava repartido o jardim.

José Urbano fazia notar ao major o desenvolvimento de algumas árvores fruteiras, à afilhada a raridade de certas flores. E assim chegaram à entrada de casa, que não desdizia do aspecto festival de toda a vivenda. José Urbano subiu mais apressado os quatro degraus de pedra que davam entrada por a porta envidraçada, e abrindo-a de par em par, disse, voltando-se para o major: — Tenho a honra de o receber em minha casa, senhor major.

— E agora hão-de me dar licença, o senhor major e o padrinho — disse a elegante sobrinha do proprietário — que me retire para tratar do seu jantar.

— A falar verdade, minha senhora, eu preferia o pão do boleto, a privar-me do prazer da sua companhia.

— Mas o padrinho é mais exigente. Não tem esses hábitos militares.

— Mas se nós esperássemos por a Roberta...? — Não pode ser.

— Porém, Micas, a falar verdade, tu só...

— Meu caro Sr. José Urbano — disse o major em tom meio jovial — estou tentado a fazer-lhe uma proposta...

— Qual é, major? — Receio que ma não admitam; mas desde já lhes declaro que mau é que a chegue a formular, porque sou teimoso.

— Vamos, major, diga. — A Micas já está cheia de curiosidade.

Repare...

— A falar verdade... Ainda quando não seja senão para ver como o sr. major é teimoso — observou esta, sorrindo.

— Proponho que nós todos colaboremos no jantar.

— Essa agora! — disse José Urbano admirado.

— Pois o sr. major também cozinha? — Oh! minha senhora. Um militar precisa de saber de tudo um socado; pois deve afazer-se a contar consigo apenas. Tenho tido ocasião de cozinhar para mim mesmo, de compor a minha própria roupa, e até de me medicamentar.

— Confesso-lhe, sr. major, que estava com minha vontade de experimentar o seu talento culinário.

— Pois com permissão aqui do seu padrinho, minha senhora, >parece-me que chegou a ocasião.

— Não, senhor, a minha permissão não pode...

— Meu caro José Urbano, você, que viajou também, deve saber alguma coisa de cozinha. Eu pela minha parte prometo uma saborosa açorda, na confecção da qual granjeei certa fama entre os meus antigos camaradas, que também me diziam inimitável em manejar o espeto; e, se houver ocasião, folgarei de lhes demonstrar que não sou indigno de crédito. E você que sabe fazer, ó José Urbano? diga lá, ande, e vamos a isto.

— Confesso que nunca tive disposição para a cozinha.

— Nem se atreverá a fritar uns ovos com umas rodelas de salpicão ? pois eu creio que o fumeiro deve estar bem provido, hem? — Não é por falta de materiais...

— É verdade que isto de fritar uns ovos ainda requer seu engenho e tacto culinário; no grau devido é um prato delicioso, um pouco acima é detestável. Mas eu vigiarei, vamos.

— Ora, o sr. major está a gracejar.

— Basta-me saber — disse a sobrinha de José Urbano — que posso contar com o seu auxílio em caso de maior urgência.

— Minha senhora, eu não lhe disse que era teimoso? É fama que tenho no exército, e já agora não a hei-de desmentir, — Mas...

— Para outra vez...

— Não recuo, faço disto questão ministerial... O meu amor-próprio exige que eu lhes faça apreciar as qualidades da minha açorda.

E o major, gracejando e rindo, de tal maneira insistiu, que os três acabaram por passar todos para a cozinha às risadas e já sem o menor constrangimento.

O major era destas pessoas, cujo bom humor se comunica, e que põe à vontade e nas mais joviais disposições as pessoas com quem se acha. Logo às primeiras palavras que se tivesse com ele cessava todo o constrangimento, e estabelecia-se uma familiaridade e sem-cerimónia, como um amigo de longos anos.

O próprio José Urbano participava daquela alegria e arregaçava as mangas do casaco, preparando-se para a tarefa culinária às ordens do seu comensal.

Maria Clementina assistia rindo com vontade a toda aquela azáfama dos dois.

O major era admirável de actividade. Tomara posse do terreno, e não se mostrava constrangido.

— Minha senhora — dizia ele, voltando-se para a afilhada de José Urbano — porá V. Ex.' à minha disposição um fornecimento de água, pão, sal, azeite, vinagre, pimenta, alho, cravo, cebola, salsa, salpicão e toucinho.

— Misericórdia, major... Tenha misericórdia dos nossos estômagos...

Os desgraçados não resistem a essa metralha.

— José Urbano, você não sabe o que diz. Não há tónico mais eficaz do que a açorda preparada assim! Verá, verá.

— Pode satisfazer a minha requisição, minha senhora? — Prontamente.

— Bem; agora, José Urbano, vá você empunhando essa sertã para logo, e partindo os ovos já...

— Confesso-lhe que é uma tarefa melindrosa. Partir ovos! — Que pusilânime ! Homem, é assim! — E, com a maior presteza, o major preleccionava praticamente o seu hospedeiro, que ria a bandeiras despregadas.

— AV. Ex.a declaro-a emancipada da minha tutela e livre em todos os seus movimentos.

— Ainda bem — disse José Urbano — quando não, recearia pelo destino do nosso jantar.

— Homem, não faça injustiça à experiência da vida de campanha.

Prometo-lhe que se há-de lembrar com saudade da minha açorda.

Na cozinha ia uma desusada animação, Parecia que se preparava um banquete esplêndido. O major, de per si só, fazia mais ruído que meia dúzia de cozinheiros. E com uma gravidade, que Maria Clementina não podia ver sem se perder de riso, mexia e remexia a açorda, que exalava um cheiro apetitoso, e de quando em quando ia vigiar o trabalho de José Urbano, que ele empregara a bater uns ovos, aos quais associara uma quantidade de ingredientes. José Urbano executava fielmente as ordens do major, e havia um quarto de hora que estava batendo os ovos com um escrúpulo e regularidade admiráveis.

Ao meio-dia, graças aos esforços combinados dos três, o jantar foi declarado completo, e José Urbano, que observava os costumes patriarcais, folgou ao antever que não seria alterada a sua hora do costume.

Enquanto o major dava a última demão à sua decantada açorda, Maria Clementina pôs a mesa, a qual deu um ar festivo, graças as flores com que a adornou; e José Urbano, descendo à garrafeira, foi procurar o mais precioso vinho de que ela constava. No entretanto o major apareceu na sala de jantar, junto de Maria Clementina.

— Pois já está posta a mesa! — exclamou ele ao entrar na sala.

— E eu que vinha para a ajudar! — Mil vezes agradecida; mas o coronel...

— Assim me despacha já, se os ministros lhe quiserem honrar a palavra.

— O sr. major, queria dizer, foi apenas justo para o serviço da cozinha.

— Há-de fazer-me a honra de provar a minha açorda, não é verdade ? — Decerto. E parece-me poder já assegurar que há-de estar deliciosa.

— Não me queira mal pela minha impertinência; mas é génio meu...

— Querer-lhe mal! Se eu lhe assegurar que há muito tempo que me não rio como hoje!... O sr. major conseguiu fazer-me esquecer por algumas horas as mortificações da minha vida.

— Pois também tem mortificações ? — perguntou-lhe o major com um carinho que a maior parte das pessoas que o conhecessem lhe estranhariam, ouvindo-o.

— E pergunta-mo ? — E duvido-o. Chama mortificações a quê ? Desgostos por o padrinho não viver aqui, saudades de alguma amiga mais íntima, zangas pela rabugice da sua criada, a doença de algumas das suas pombas mais bonitas... pretextos para mostrar mais uma maneira de serem belos esses bonitos olhos que tem.

Maria Clementina sorriu a este galanteio do velho militar; mas através deste sorriso descobriam-se uns longes de tristeza.

— Se o major soubesse o motivo por que eu vivo triste, talvez, longe de me estranhar a tristeza, se admiraria ainda de me ver sorrir...

às vezes.

— Ora adeus. Não é difícil penetrar no seu segredo. Perdoe dizer-lho. Afinal é o segredo dos... vinte anos... não é a sua idade ? — É — disse Maria Clementina, corando e desviando os olhos dos do major. — Mas ainda não adivinhou tudo.

Nisto ouviram-se passos no corredor, e a conversa, com aprazimento de Maria Clementina, foi interrompida por José Urbano, que voltava da sua excursão à garrafeira, exclamando ao entrar na sala: — Major! Eu cá sou nacional. Porto e Madeira.

— Apoiado, sr. Urbano. Eu secundo o seu patriotismo.

E sentaram-se todos três à mesa. José Urbano, contente e jovial; o major fazendo as despesas de conversação com anedotas que faziam rir até às lágrimas o negociante, e assomar um sorriso aos lábios de Maria Clementina, que, da curta conversa que tivera com o major, conservava uns vislumbres de melancolia.

A açorda preparada pelo major teve um efeito monumental. José Urbano declarou-a a mais deliciosa comida que em sua vida tinha provado. E não obstante ao princípio não poder eximir-se em fazer uma careta, abrindo a boca para minorar o excesso dos condimentos, depois de costumar o paladar, reclamava repetições com uma insistência, que lisonjeava um pouco o orgulho do major.

— Bravo, major! Já vejo que o cheiro da pólvora apura e aperfeiçoa o paladar. É deliciosa! — Mais outra vez, Sr. José Urbano.

— Vá, mais outra.

— Tenha cautela, meu padrinho, que lhe não vá fazer mal. É tão forte ! — Deixe, minha senhora, isto dá tom ao estômago. E com um cálice de Madeira por cima... V. Ex.' é que não lhe é afeiçoada.

— Estava excelente, sr. major. Bem viu que comi.

Aqui para nós, a sensação que a açorda deixara em Maria Clementina não era das mais favoráveis ao talento culinário do major.

Reinou em todo o resto do jantar a mesma jovial animação com que principiara a manhã. O major fez um brinde a Maria Clementina, José Urbano outro ao major; este outro a José Urbano, ambos uma a sua majestade; o comerciante outro ao exército, o militar outro ao comércio; e estavam no seu undécimo brinde, quando se ouviu bater à portaria duas grandes argoladas.

VII

A VISITA INESPERADA

O som estridente das argoladas no portão da casa determinou, por alguns momentos, completo silêncio na sala, e os três convivas, olhando-se interrogativamente, como que se perlavam — quem será ? — Já sei. É a Roberta — disse Maria Clementina, respondendo à interrogação tácita dos dois. — Ninguém senão ela podia entrar no quintal.

E levantando-se chegou â janela, cuja vidraça correu para ver quem batia.

— É você, Roberta ? — Sou eu, menina, sou eu — respondeu uma voz de mulher, na qual se notava um evidente cansaço. — Ai que venho mais morta que viva! Depressa, faz favor de atirar cá abaixo a chave da portaria, e abrir a sala das visitas...

— Pois quem vem lá? — Uma senhora de carroça, para visitar a menina, José Urbano levantou-se sobressaltado.

— Uma senhora! — Mas quem é? — perguntou Maria Clementina, igualmente admirada.

— Depressa, menina, depressa, que está à espera.

— Mas que senhora é ? — insistiu Clementina.

— Eu não conheço — respondeu Roberta, já impaciente — mas ande depressa, pelo amor de Deus.

Clementina voltou para dentro a procurar a chave da portaria.

— Diz que é uma senhora que me procura.

— Mas quem pode ser ? — perguntou José Urbano, admirado.

— Ignoro-o.

E deitando a correr com uma graciosa agilidade, foi buscar a chave que Roberta lhe pedia.

José Urbano chegou à janela, e dirigindo-se a Roberta: — Ó Roberta, quem é que vem lá? A criada, ouvindo a voz de seu amo, estremeceu e mostrou-se profundamente embaraçada.

— Pois o Sr. José Urbano... Boa te vai! Então o senhor... olhem os meus pecados!... Pois na verdade... Em nome do Padre... Então que quer isto dizer!... Temo-la travada! E continuava resmungando como se a presença do amo a contrariasse.

— Responde: quem é que vem lá ? — Aí tem a chave — disse Maria Clementina, atirando-lha pela janela e voltando para ordenar a sala das visitas.

A velha não esperara por mais nada; sem atender a seu amo, fugiu com uma ligeireza de que ninguém julgaria capazes as suas pernas estropeadas.

— Roberta, ó Roberta! demónio de mulher.

O major, que neste tempo se aproximara da janela, fez um movimento de surpresa ao observar a mulher que corria em direcção ao portão.

— Ah! é aquela a sua criada ? — É; uma velha já meia tonta e teimosa, mas, coitada, conheceu- me pequeno. Veja, major, a idade que ela terá.

O major calou-se. O motivo da sua surpresa fora o ter reconhecido na criada de José Urbano a velha que ele e seu jovem companheiro Rialva haviam encontrado no dia antecedente na estrada, e que lhes perguntou pela chegada da rainha.

— Mas quem poderá ser? — perguntava a si próprio José Urbano.

— Uma senhora que procura minha sobrinha! Durante este tempo passeava Maria Clementina na sala de recepção, igualmente preocupada em saber quem seria a pessoa que a procurava.

Desde que Maria Clementina vivia no campo, raras tinham sido as visitas que recebera; por isso a surpreenderam as palavras de Roberta, e mais ainda a expressão da sua fisionomia, na qual se lia um certo espanto inexplicável. Absorvida por estes pensamentos, a sobrinha de José Urbano desceu ao jardim a receber a sua desconhecida visita.

Não esperou muito tempo. Roberta assomou pouco depois à entrada de uma das ruas que conduziam ali, e após ela uma senhora de meia-idade magnificamente vestida e com certo ar de nobreza e dignidade, que revelavam distinção.

Maria Clementina foi ao seu encontro.

Roberta, colocando-se por detrás da recém-chegada, a quem tributava extremas atenções, fazia sinais telegráficos a Maria Clementina, que esta não podia entender, o que cada vez mais a embaraçava, pois nada lhe recordava as feições da senhora que pretendia visitá-la.

— Não sei a quem nem ao que devo a honra desta inesperada visita, mas em todo o caso é-me sumamente agradável receber uma tão lisonjeira distinção — disse Clementina, aproximando-se da senhora, cuja fisionomia denotava um ar de bondade simpática e atraente, que dispôs o ânimo de Maria Clementina em seu favor.

— Minha senhora — disse a recém-chegada, fixando em Maria Clementina um olhar penetrante — ainda que lhe parece estranha a linha visita, peço-lhe que me dispense de a explicar enquanto não estivermos mais à vontade.

— Essa é boa — disse Clementina, sorrindo. — Se V. Ex.* até não quiser dar-me explicações algumas, não serei eu por certo que me atreva a pedir-lhas. Quer ter a bondade de entrar? — Se o ordena? Mas para lhe falar verdade, se lhe não fosse incómodo, aquela rua de romãzeiras tem uma sombra tão convidativa...

— Como V. Ex.* quiser.

E as duas desviaram-se na direcção da rua de romãzeiras.

Maria Clementina, cada vez mais admirada da estranheza da visita; a senhora idosa envolvendo-a nos seus olhares vivos e penetrantes.

Roberta, ao afastar-se delas, pôde obter ensejo de dizer a sua ama em tom enigmático: — Cautela! trate-a com muito respeito! Eu depois lhe direi...

Maria Clementina estava vendida, como vulgarmente se diz, Estranhava os modos da criada pelo menos tanto quanto o inesperado da visita.

— Quer-me dar o seu braço ? — disse a Clementina a senhora, cuja visita tanto a preocupava.

— Com todo o gosto.

E as duas mulheres penetraram, assim juntas e silenciosas, durante algum tempo, pela copada rua do jardim. Chegaram à extremidade oposta à rua, onde, junto de uma pequena fonte, havia um convidativo banco de cortiça assombrado por um toldo de trepadeiras.

— Quer-me fazer o favor de se sentar aqui comigo ? — Com o maior prazer.

A desconhecida, tomando então as mãos ds Maria Clementina, disse-lhe com um tom meigo e afectuoso: — Sabe que me está inspirando muita simpatia ? — Oh! minha senhora...

— Quero enfim dizer-lhe o que me trouxe aqui. Eu sou de Lisboa.

— Ah! de tão longe! ? — exclamou Maria Clementina, para dizer alguma coisa.

— É verdade. E havia muito que desejava conhecê-la.

— A mim! ? em Lisboa...

— Admira-se ? — Não sei como V. Ex.a me pudesse conhecer em uma terra, onde ninguém me conhece.

— Ninguém? — Decerto. A minha única família resume-se em meu tio, que vive comigo.

— Mas algumas amigas...

— Amigas ! Engana-se V. Ex.*; eu não tenho amigas.

— Diz-me isso com um ar de descrença, que é de estranhar em uma menina tão nova.

— Há pessoas para quem a experiência é prematura.

— Santo Deus! que desconsoladora dúvida! Ora vamos, quer-me parecer que é menos justa nesse seu cepticismo.

— Não chame a isto cepticismo, minha senhora, graças a Deus, eu tenho a amizade de meu padrinho.

— Só?! — Tem razão; era injusta. E a de minha criada Roberta.

— E a de mais ninguém ? Parece-me que ainda mais uma vez terá de reconhecer a sua injustiça. Em Lisboa alguém existe que a estima.

— A mim ? — perguntou Maria Clementina, corando enleada sob os olhares da sua interlocutora.

— E é dessa pessoa que eu lhe queria falar.

— V. Ex.*? — Eu, sim. Quer ser franca comigo ? — Eu? Mas...

— Oiça-me. Uma das minhas amigas tem um filho oficial no exército.

Maria Clementina sobressaltou-se a estas palavras.

— No ano passado — continuou a senhora — este rapaz, que é meu afilhado, e por quem eu me interesso muito, passou algum tempo em Braga em serviço. Quando voltou a Lisboa, por diligências da mãe, ia preocupado e triste. Estranhavam-no todos que o tinham conhecido o mais alegre, e direi mesmo, estouvado rapaz da capital. A mãe dele, sobressaltada no seu coração materno, escreveu para alguém do seu conhecimento, residente aqui próximo, e a carta que obteve... Quer-me fazer o favor de a ler ? — continuou a senhora ídosa, oferecendo uma carta a Maria Clementina. — É neste ponto...

— Mas para que hei-de eu...—dizia Clementina, tremendo e estendendo quase involuntariamente as mãos para aquela carta; apesar da sua turbação lançou-lhe os olhos, e pôde ler as seguintes linhas: «Quanto ao que me perguntas a respeito de teu filho, colocas-me em sérios embaraços; pois não sei se o meu pensamento lisonjeará demasiado a tua vaidade maternal. Em todo o caso, eu com a franqueza que sempre me conheceste, dir-te-ei que, a meu ver, o teu filho Filipe é digno de censura...» As mãos de Maria Clementina tremiam cada vez mais ao ler estas palavras; vencendo a sua comoção prosseguiu: «Há tempos que a sua assiduidade junto de uma menina destes lugares havia sido notada; no dia da sua partida uma imprudência dele sacrificou a reputação daquela que inocentemente confiara nele e ...»

Maria Clementina devolveu a carta que estava lendo.

— Entendo, minha senhora — exclamou ela com a voz alterada com as faces tingidas de um vivo rubor. — V. Ex.* sabe que sou eu a pessoa assim caluniada, não é verdade? — E então com que fim me procurou? — prosseguiu Maria Clementina com certo tom de amargura.

— Para lhe assegurar que a mãe de Filipe de Rialva, ao receber esta carta, comoveu-se, e que, por um secreto pressentimento, acreditou na pureza da mulher que uma imprudência de seu filho assim sacrificara; que ela me pediu que se pudesse encontrá-la, lhe assegurasse isto mesmo, e que lhe transmitisse um beijo, que eu espero me não recusará.

— Oh! minha senhora! — exclamou Clementina, verdadeiramente comovida.

E as duas mulheres por muito tempo confundiram seus beijos e suas lágrimas.

— Ora agora — continuou afinal a senhora de Lisboa — faça-se justiça a todos. Filipe ainda não é tão culpado, como nesta carta se diz.

Ele, quer-me parecer, ainda se não esqueceu da menina.

Maria Clementina abanou a cabeça em ar de dúvida.

— Oh! não faça esse movimento que se não quadra com esses olhares tão cheios de confiança, com uma expressão de lábios, que, mesmo contra sua vontade, se conformam em um sorriso. Não seja desconfiada. Sobretudo não me fique odiando Filipe... não? Desta vez o sorriso de Maria Clementina tinha outra significação.

— Odiá-lo! — dizia-lhe, baixinho, o coração. — E julgam necessário recomendar-me que o não odeie! Ora, apesar do coração falar tão baixo, não sei que admirável acústica era a senhora lisbonense que o percebeu, e aproximando-se de Maria Clementina disse-lhe com voz afectuosa: — Ainda o ama, não é verdade ? Diga-me que sim.

Maria Clementina corou e calou-se.

— Bem, bem, este rubor é também uma resposta. Adeus. Permite- me que volte a visitá-la?...

— Quando V. Ex.* quiser.

— Agora retiro-me.

— E nem ao menos há-de descansar em nossa casa ? — Se me dispensa...

— Meu padrinho há-de sentir.

—Quê! pois não está só? Tinham-me dito.,.

— Meu padrinho chegou, sem ser esperado, com um amigo que jantou connosco. Eles lá vêm ao nosso encontro.

A senhora de Lisboa seguiu com os olhos a direcção em que lhe apontou Maria Clementina, e não pôde disfarçar um movimento de espanto ao reconhecer o major.

— O Sr. Clemente Samora aqui ? O major pela sua parte parecia tê-la também reconhecido, e não mostrava menor estupefacção.

— Longe estava eu de esperar encontrar V. Ex.' neste lugar, Sr.' D. Joana.

— Não menos alheia estava eu ao prazer do seu encontro, major.

José Urbano, depois de cumprimentar, segundo a etiqueta, a dama desconhecida, voltou para sua afilhada e para o major olhares interrogadores.

— Para evitar-lhes o incómodo de uma apresentação, eu própria me apresento — disse ela, olhando para o major de uma maneira particular, como se lhe quisesse recomendar o silêncio.

— V. S." é, segundo julgo, o tio desta menina, não é verdade? — disse D. Joana, sorrindo-se amavelmente para José Urbano.

— Às ordens de V. Ex.* aqui e em toda a parte. José Urbano, negociante em Braga.

— Muito bem, Sr. José Urbano. Pois eu sou de Lisboa, e aproveitei a vinda da rainha para visitar o Minho, que há muito tinha desejos de ver. Ao despedir-me de algumas minhas amigas em Lisboa recebi de uma a incumbência agradável de procurar esta menina para lhe assegurar da parte dela que, apesar da ausência, sempre a teve presente no coração. O acaso fez com que eu na estrada encontrasse a sua criada, de cuja conversa vim a saber ser aqui a morada de quem eu procurava, e resolvi por isso cumprir imediatamente a minha comissão.

Agora retiro-me, mas já autorizada para voltar a visitá-la por minha própria conta, se o Sr. José Urbano se não opõe...

— Oh minha senhora! V. Ex.* honra-nos muito com a sua visita.

— O major fica? — Vinha também despedir-me desta menina, e se V. Ex." quiser aceitar a minha companhia...

— Porém o major vai para Braga, e eu fico em casa do visconde de P...

— Pessoa de bem — disse José Urbano ao ouvir este nome. — Mas o major pode acompanhar V. Ex.* até perto da quinta do visconde, sem torcer muito caminho.

E José Urbano, profundamente conhecedor da topografia do lugar, indicou ao major Samora o itinerário que devia seguir.

— Então até breve... É verdade; quer-me fazer o obséquio de aceitar um lugar na minha carruagem para vermos amanhã a entrada da rainha? — perguntou D. Joana, voltando-se para Maria Clementina.

— Peço a V. Ex.* que me dispense de aceitar tão lisonjeiro favor; mas não me agrada o tumulto.

— Basta; eu também prefiro falar-lhe mais com sossego, Adeus.

E, aproximando-se de Maria Clementina, beijou-a afectuosamente, dizendo-lhe ao mesmo tempo:

— É verdade, peço-lhe que não dissuada a sua criada das ideias que formar a meu respeito.

O major Samora ao ajudar D. Joana a subir para a carruagem, estava pensativo, e olhava para Maria Clementina de um modo particular.

— Entre, major. O André que lhe conduza o cavalo até ao sitio onde teremos de nos separar.

E depois de fazer um último sinal de afectuosa despedida a Maria Clementina, cortejar José Urbano, e ter enviado a Roberta, que se desfazia em mesuras, um gesto particular, deu ordem de partir, e em pouco tempo a carruagem se afastava do lugar.

— Parece uma excelente senhora — disse José Urbano, fechando a porta. — Mas de quem te trouxe ela visitas, Micas? — Ah!... — respondeu Maria Clementina, turbada — da filha do juiz de direito, que se retirou o ano passado.

Em todo o resto da tarde Maria Clementina mostrou-se preocupada.

José Urbano passeava no quintal, examinando minuciosamente o estado dos enxertos, o adiantamento dos renovos, e limpando os alegretes com a solicitude de um horticultor de vocação.

Maria Clementina permaneceu imóvel encostada à varanda, seguindo com os olhos o volutear das andorinhas no espaço, nessa posição cheia de languidez e poesia de mulher de vinte anos que cisma. O cismar nesta idade é uma das variadas manifestações do amor, e a mais ideal, a mais pura, e mais sublime. Cisma-se antes que o coração tenha decifrado o enigma proposto, antes que o amor tenha recebido uma solução real. É o estremecimento da alma, precursor de uma vida nova. Após uma longa viagem, e depois de flutuar suspenso entre o céu e o abismo do mar, o nauta, encostado um dia à amurada do navio, estendendo os olhos pela amplidão das águas, sublimes de mais para lhe bastarem por muito tempo ao coração, e procurando ao menos nas nuvens um simulacro de montanhas, lagos fantásticos, campinas e florestas, sente que o vento, que lhe agita os cabelos e que sibila pelas enxárcias, o perfuma de fragrâncias suaves; que lhe recorda a terra por que suspira, e que lhe anuncia prazeres que ainda não vê. Então aspira com sofreguidão estas brisas, que roubaram ãs flores os seus perfumes, e deixa-se cair em uma contemplação extática, maginando os bosques e os vergéis da terra de que se sente próximo.

Na vida há uma situação idêntica, em que também a atmosfera nos vem perfumar de misteriosa fragrância, e em que ao aspirá-la sonhamos venturas e esquecemos os dissabores de viagens empreendidas.

É a aurora do amor; quadra de devaneios e fantasias, em que a vida do coração principia e exerce sobre nós o seu mágico influxo.

Maria Clementina estava naquele momento em uma dessas situações.

O que lhe estaria a fantasiar a imaginação? Imaginem-no as leitoras.

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