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Serões da Província

Júlio Dinis

E tão absorvida estava naquele seu íntimo cismar que nem dava pela presença de sua criada Roberta, cujo entrar e sair, e ruído que de propósito fazia, tinha o que quer que fosse de suspeito, e noutra ocasião teria já evidentemente sido notado por ela.

Roberta acabou de se convencer que não conseguira tornar-se notada; por isso, aproximando-se de Maria Clementina, dirigiu-lhe a palavra.

— Então diga-me cá, menina, que lhe pareceu a visita daquela senhora? Maria Clementina olhou para a criada com certo sobressalto, como se aquelas palavras a desviassem, mau grado seu, de um agradável meditar.

— Que me havia de parecer, Roberta? Uma delicadeza daquela senhora, que assim quis ter um incómodo por minha causa.

— Sabe quem ela é ? — perguntou Roberta com certo ar de mistério.

— Uma senhora de Lisboa.

— Mas que senhora ? — Que senhora ? ! Não entendo a pergunta.

— Sim; pergunto eu se sabe quem é aquela senhora? — Eu, não.

Roberta tornou-se cada vez mais misteriosa; foi à porta observar se alguém a escutava; depois aproximou-se de Maria Clementina, e disse-lhe em voz baixa: — Quer que lhe diga quem ela é ? — Diga lá.

— E promete segredo ? — Prometo — respondeu Maria Clementina, sorrindo ao lembrar- se da recomendação de D. Joana.

— Pois olhe; mas não se assuste, nem diga nada ao padrinho.

— Mas então quem é ? — É a rainha! — A rainha ? Ah! ah! ah! — disse Maria Clementina não podendo reter uma gargalhada.

— Olhem! E a menina ri-se! É o que eu lhe digo.

— Então era a rainha ? — Era, sim, senhora, era. E sabe quem a trouxe aqui? — Eu não.

— Fui eu.

— Ah! então você tem esse poder sobre a rainha? — Ora escute.

E Roberta, com toda a familiaridade, puxou uma cadeira para junto de Maria Clementina e prosseguiu: — Aquela história do alferes...

— Roberta! já lhe disse que não queria que me falasse mais nisto.

— E não tenho falado. Agora, o que eu não podia era deixar de pensar também. Que quer a menina? Eu vi-a nascer, assim como vi nascer a mãezinha, e já que não pude dar àquela as venturas que lhe desejei sempre, disse cá de mim para mim: Esta não há-de ter uma sorte infeliz, ao poder que eu possa.

— Mas a que vem isso agora, Roberta ? — A que vem? Ora escute. Aquela doida da leiteira veio-nos aqui dizer que a rainha chegava ontem. Quando ela me disse aquilo, eu pus-me cá a malucar. A rainha é rainha. Ela é quem manda e governa, os outros têm de lhe obedecer. Se eu lhe contasse tudo...

— Se lhe contasse o quê, Roberta? — exclamou Maria Clementina com certa inquietação.

— Tudo. A história do tal alferes.

— Roberta! — Ora valha-me Deus, menina. Com esses escrúpulos não se faz nada de jeito. Se eu tivesse estado com a menina em Braga, eu me acautelaria; assim ao menos vamos a remediar o mal. A rainha dizem que é uma boa senhora. Se eu lhe fizer constar que, por causa de um alferes, as más-línguas se atreveram a murmurar da mais virtuosa menina que eu tenho conhecido, ela há-de tomar suas medidas e remediar tudo.

— Você tem coisas, Roberta! — Diga-lhe que sim. Eu o que não tenho são papas na língua.

Sabe a menina que para dizer a verdade, tanto a digo diante dos reis como dos da minha igualha. Já uma vez fui jurar como testemunha de dizer o que sabia, e até o juiz disse que eu era uma mulher desenganada.

Eu cá sou assim. Pedi-lhe ontem licença e fui-me pôr na estrada à espera da rainha. Bem podia esperar até pela manhã. Passou este senhor general, que cá jantou hoje; quando me lembro como a menina cá se arranjou sem mim, ainda me benzo; o que valeu é que ele é um homem como se quer, e o padrinho estava hoje de boa maré. Ainda assim! Mas não tem dúvida, ainda que tivesse de cair a sé, por bem empregado dava eu o meu tempo... Mas como ia dizendo, passou este senhor e um rapazote novo, e foram eles que me disseram que a rainha só chegaria daí a duas ou três horas, e até me deram os sinais certos para eu a conhecer. Esperei, esperei e por fim sempre apareceu: conheci-a logo.

— Ah! então conheceu-a ? — Conheci logo. Vi a carruagem e disse com os meus botões: É aquela. Vinham dois criados a cavalo atrás e outra carruagem com senhoras também. Não trazia estadão, porque, como me disse o tal rapaz, ela viaja... viaja... ora como disse ele?... Era assim uma coisa como em cólicas, mas que vinha a dizer que viajava sem estrondo.

Cheguei-me à carruagem, apesar do sinal do boleeiro, e ela ao ver-me fez logo sinal para parar. Atenciosa é ela com os pobres, Deus Nosso lho pague.

Maria Clementina ouvia com curiosidade a narração desta aventura da criada.

— Qual de V. Ex." é a rainha ? — disse eu para as três senhoras que iam dentro, apesar de logo ver que havia de ser a mais idosa. As mais novas desataram a rir... como a menina ri também... não sei porquê. Lembrou-me que seria por eu não dar o tratamento que devia e emendei a tempo: Qual de vossas majestades é a rainha? As outras riam ainda... Eram uns galos dourados, coitadinhas, nem por estarem diante de quem estavam!... Raparigas. Mas a senhora então, tocando- -lhes com o cotovelo, disse muito séria, voltando-se para mim: — Sou eu; porquê ? — Ah! eu logo vi, ora primeiro que tudo seja sua majestade muito bem-vinda a esta sua terra, onde tem muitos amigos. Meu amo fala muito no paizinho de vossa majestade. Ora muito bem. Vossa majestade há-de ter pressa; mas é que eu sempre lhe queria pedir...

A rainha julgou que era esmola, pois já ia a meter a mão ao bolso...

— Em cortesia — dissa eu, que a percebi — não é isso que eu peço, é justiça.

— Justiça! — disse a rainha, tornando-se logo séria. — Fale, fale... quem lhe fez mal? Eu lhe conto, não foi a mim verdadeiramente, mas... é o mesmo que se fosse, se fui eu que a trouxe ao colo...

— A quem ? — perguntou a rainha.

— A minha menina! — Roberta — disse Maria Clementina, interrompendo-a — você não tem juízo! Ir assim, diante dessa gente toda, falar em coisas das quais eu já lhe tinha proibido de dizer uma palavra mais! — Ora venha cá ensinar-me como as coisas se fazem! Cuida que me pus mesmo agora a tagarelar para quem me quisesse ouvir. Era o que faltava. Eu disse à... à rainha: Se vossa majestade quiser ter o incómodo de se chegar aqui, eu conto-lhe tudo. Ela chegou à porta da carruagem, e eu disse-lhe tudo ao ouvido.

— Tudo o quê ? — Contei-lhe que, estando eu na quinta e c padrinho no Porto, a menina fora para o convento. Que foi por ocasião do Saldanha andar por cá e que deixara ficar em Braga um tal alferes, que inquietou a menina; porquanto enfim, como eu disse à rainha, quando a gente é nova o coração é o coração, o sangue ferve,..

— Jesus, meu Deus! que mulher esta! — exclamou Maria Clementina, corando.

Roberta não atendeu à interrupção, e continuou: — Que depois a viu em casa do Sr. Domingos Pedral, e que na noite em que o tal alferes tinha de partir para Lisboa, foi falar com a menina ao jardim do Sr. Pedral, onde a menina estava. Asneira, como eu disse à rainha, em que se eu lá estivesse, a não deixaria cair. E logo então com tanta infelicidade, que ao saltar o muro foi visto por um grupo de estudantes que dobrava uma esquina, e o mesmo foi verem-no eles que vê-lo toda a cidade, a qual já falava nestes amores há muito.

No dia seguinte a reputação da menina andava já por essas bocas do mundo; as delambidas das freiras puseram-se a fazer biquinhos à volta da menina para o convento. E eu e a quem contaram isto fomos buscar a menina para a quinta, porque, graças a Deus, a sobrinha do Sr. José Urbano não precisa dos favores de ninguém. Disse-lhe que o Sr. José Urbano chegara aqui a Braga espavorido, mas que depois de falar com a menina ficara manso como um cordeiro, e nunca falara mais nisto.

— Sabe, Roberta, que se meu padrinho soubesse o que você fez havia de ficar muito satisfeito! Não viu como ele lhe ordenou que nunca mais falasse em tal ? — Pois sim; com esses escrúpulos ficávamos sempre nesta vida.

A menina sem voltar à cidade, sem visitar ninguém, aqui metida.

— Bem me importa a cidade. Que canseira lhe dá isso a você ? Eu já lhe disse que não me distraio aqui ? — Ora deixemo-nos disso. Os passarinhos cantam muito bem, as flores são muito bonitas; mas vindo o Inverno nem passarinhos nem flores. Depois sempre quero ver como a menina se diverte. É como o ano passado. Chorava, chorava...

— O ano passado estava doida. Já sabe que me curei daquela loucura.

— Diga-o a quem quiser, menos a mim. Olhem para onde ela vem com os seus esquecimentos! — Mas que lucrou você em contar a essa senhora a minha história? — À rainha...

— A rainha, seja lá rainha. Para quê? — Pois quem lhe pode dar remédio, senão ela? Eu lá lhe disse: Agora veja vossa majestade se isto deve ficar assim. Se os militares que vossa majestade para cá nos manda vêm para manter a paz, ou para meter a desordem nas famílias e fazer a infelicidade de meninas bem educadas...

— Como se chamava esse oficial ? — perguntou a rainha, e eu bem vi que ela já estava interessada por a história.

— Olhe, eu só sei que ele era Filipe.

— E disse-lho! valha-me Deus ! — Disse, disse... Era o que faltava se eu me punha com biocos.

— Filipe de Rialva?! — perguntou a rainha assim com mostras de o conhecer...

— Tanto não posso dizer a vossa majestade; eu só sei que ele é Filipe.

A rainha não perguntou mais nada dele.

— Mora daqui longe essa menina ? — É ali logo.

— Pode lá ir uma carruagem ? — Indo pela banda de cima, estou que pode.

— Ela estará amanhã só ? — De todo só. Porque não esperava que o padrinho viesse de Braga.

— Vou ficar hoje em casa do visconde de P., sabe onde é? — Perfeitamente, majestade, é logo ali — e apontei para o sítio.

— Amanhã, a esta mesma hora, esteja lá para me guiar no caminho.

Vá com Deus.

Eu desviei-me da carruagem, que desapareceu em um abrir e fechar de olhos.

Quando cheguei a casa e vi o Sr. José Urbano, fiquei atarantada de todo, porque me lembrei que já não podia ir buscar a rainha. Passei a noite muito triste, e nem dormi, mas rezei muito a Nossa Senhora.

Hoje de madrugada, vendo partir o padrinho para a cidade, fiquei tão contente, que por pouco não me deu o sono. Boa te vai. Olha agora se eu adormecia nesta ocasião, estava bem servida! E levantei- me logo, e quando foram horas pedi à menina que me deixasse ir a Braga comprar linho, mas fui ter com a rainha, que já estava à minha espera. Pelos modos parece que também madruga, porque ainda não era meio-dia! Depois ela... a rainha... fez-me entrar na carruagem.

Oh! Eu bem não queria, mas não houve de quê. Hem ? Que lhe parece ? desta poucas se gabarão! Não é assim? Ora aqui tem como a rainha aqui veio ter.

Mas julgue como eu ficaria quando vi o Sr. José Urbano à janela.

Credo ! Fiquei sem pinga de sangue, e por pouco não caí redondamente no chão. Decerto me valeu o meu padre Santo António. Também olhe que uma aquela assim como esta poucas vezes acontece à gente. O que me admirou foi o padrinho não a conhecer. Agora, quando a vir em Braga, é que há-de ser bonito. O major, esse logo vi que a conheceu; porém, ela fez-lhe sinal, que eu bem reparei. Mas como veio o major cá ter...? E como se arranjaram com o jantar? É verdade, ó menina, quem fez aquela sopa, que... santo nome de Deus! por pouco me não punha a boca em carne viva! Onde aprendeu a menina a cozinhar aquilo ? Maria Clementina sorriu-se a esta referência à açorda do major.

Mas naquele momento achava-se possuída de veemente desejo de estar só, e por isso voltando-se para Roberta, disse-lhe: — É necessário ir cuidar do chá do padrinho, que ele não tarda por aí. Vá; depois conversaremos.

Roberta retirou-se murmurando: — A rainha nesta casa e eu na carruagem da rainha! Quando me lembro! Maria Clementina ficou outra vez só. Outra vez se deixou arrebatar pelos devaneios da sua fantasia. Ficar só, é a suprema felicidade em situações como a sua. Escuta-se melhor o que murmura o coração agitado, percebem-se todas as íntimas vibrações dos misteriosos sentidos de onde procedem os afectos. Nas trevas, em que a imaginação de Maria Clementina se confundia, via raiar enfim um raio de luz. Não era pois ainda desesperada a sua situação. Seria possível desanuviar-se-lhe o céu, para o qual já não olhava com esperança? Não seria ainda a resignação a única arma que lhe podia dar a paz do coração que perdera? Tudo isto lhe propunha o pensamento, e entre estas questões vacilava aquele pobre coração, que julgava ter abafado todas as esperanças, e agora as via surgir de súbito umas após outras, a povoarem- lhe de novo a fantasia, mais inquieta que nunca, e a seduzirem-na com o esplendor do seu brilho, com o vivo de suas cores.

Como é ilusória a placidez dos vinte anos! O fogo latente alimenta uma iminente erupção. Ó transparente máscara de sisudez posta nestes lindos rostos de mulher, como ocultas mal os risos inquietos que se agitam por debaixo! pensai, cismai, sonhai, imaginações juvenis ; pulsai, amai, corações virginais; a vida na vossa quadra é isto.

Não há gelo que apague o fogo que vos escalda; e, se o sufocais com gelo, funde-se em lágrimas e a paixão rebenta mais forte.

Deixemos Maria Clementina entregue aos seus pensamentos de amor, acompanhem-na as imaginações dos leitores, mais capazes de as seguirem aí, e vamos nós a outro ponto, onde o desfiamento desta narração nos chama.

VIII

O ENCONTRO INESPERADO

Ao separar-se do major, perto da quinta onde devia pernoitar a senhora de Lisboa, a que este chamara D. Joana, disse-lhe ela, estendendo-lhe a mão: — Então ficamos nisto, major? — Pela minha parte prometo cumprir quanto V. Ex." me ordene.

— Não diga ordene, por quem é. Eu peço só...

— Não é o mesmo que ordenar ? — Bem, major, não insistamos em galanteios. Combinamos então o major em colher informações de família. Eu em sondar o coração de Filipe.

— Eu posso dar a V. Ex." informações neste ponto.

— Como?! — Filipe falou-me nesta inclinação, e confessou conservar da pequena uma ideia muito superior à de todos quantos amores tem experimentado. Mas V. Ex.' está resolvida...

— A evitar que Filipe cometa uma deslealdade. Que quer, major? meteu-se-me na cabeça fazer de meu filho um perfeito cavalheiro...

— E não lhe será muito difícil o empenho na execução, minha senhora. Mas adiante, V. Ex.* e Maria Clementina serão tudo, menos o fruto de alguma antiga árvore genealógica.

— Olhe, major, eu não tenho o defeito de me esquecer que meu pai era um negociante da capital; e se o pai de Filipe não julgou desonrar- se, aliando-se com a minha família, eu renegaria a minha procedência, se adoptasse esses preconceitos. Ora agora, para o mundo, que para desculpar uma acção boa precisa de a explicar por uma ideia interesseira, ficarei absolvida dizendo-se que os capitais de José Urbano sossegaram os escrúpulos aristocráticos, que, como sabe, eu nunca tive.

— Bem, minha senhora. Agora, que recebi as suas instruções, retiro-me e até à vista.

— Conto com a sua aliança ? — De vida e de morte.

E o major despediu-se de D. Joana Rialva com a galantaria de um perfeito militar; e montando a cavalo partiu em direcção a Braga.

Momentos depois estava D. Joana no salão do visconde de P..., onde a aventura da estrada ainda era comentada com alegria. D. Joana contou a seu modo o que lhe sucedera na visita que acabava de fazer, inventando uma história de uma família desgraçada, que a exoneração de um emprego público reduziu à miséria, e agradeceu a Filipe o haver-lhe fornecido a ocasião de reparar um mal.

— E . Ex.' visitou essa família?'—perguntou Filipe — se é que a mãe não exige que a trate por majestade também.

Nova hilaridade das senhoras do salão.

— Visitei, e voltarei a vê-la. Assim lho prometi. Já agora quero tomar a sério o papel de rainha. Imaginei que devia levar a felicidade àquela família que assim recorreu a mim. Parece que andou aqui a mão da Providência. E tu, Filipe, terás também o teu papel em tudo isto. Preciso da tua coadjuvação para secundar os meus projectos.

— De todo o coração, minha mãe, lha prometo.

— Reclamo já a tua companhia para a visita que tenciono fazer-lhe.

—Da melhor vontade... prometo.

— E nós todas vamos também — exclamaram algumas senhoras.

— Não vai nenhuma. Eu quero continuar a ser suposta rainha, e o riso das meninas não mo permitiria.

— Prometemos estar sérias.

— Não creio na promessa. Desta vez irei eu só com Filipe...

E, combinando nisto, passou-se a conversar noutros assuntos, a discutir toilettes, a planear projectos de passeios, voltando-se de quando em quando ao objecto que evidentemente mais preocupava D. Joana.

O dia seguinte foi de grande alvoroço para Braga. Todos os nossos conhecidos; à excepção de Maria Clementina e de Roberta, andavam envolvidos naquele mare magnum de povo, e tomando parte no tumulto e agitação, em que a chegada de sua majestade lançou a população de Braga.

Deixemos, porém, passar este dia, pois que não nos compete tomar parte naqueles regozijos, e juntemo-nos às personagens desta história no dia seguinte a esse para seguirmos a série de acontecimentos que formam o entrecho desta narração.

O carro, que já uma vez havia conduzido D. Joana à quinta de José Urbano, corria agora com ela e Filipe de Rialva pela estrada de Braga na mesma direcção. O major encarregou-se de conservar na cidade o proprietário da quinta, porque a visita evidentemente não se destinava a este.

Rialva fazia notar a sua mãe as belezas do caminho e exaltava os encantos da província do Minho com um entusiasmo de artista.

— Deve V. Ex." concordar que é uma aprazível província esta.

Os campos são jardins, os montes são cômoros de verdura, parece que se sente tudo cantar e sorrir.

— E efectivamente esta gente do campo é essencialmente amante da música. Ainda não cessamos de ouvir cantar.

Naquele mesmo momento uma fresca e suave voz de aldeã cantava em um campo:

Aquele que tanto amei
Esqueceu meu pensamento,
Como o rio esquece as rosas
Que retratou um momento.

— É uma acusação de infidelidade — disse D. Joana fitando em seu filho um olhar malicioso, que este não percebeu.

— Mas que bonita voz a da cantora! Parece-me que ainda em S. Carlos não se ouviu tão sonoro timbre.

Mais adiante uma lavadeira cantava em um ribeiro, vizinho à estrada:

O amor que me juraste
Bem cedo o vi acabar,
Foi fumo de labareda
Que já se desfez no ar.

— Outro queixume. Parece-me que a cada passo se ergue uma voz a acusar a inconstância do coração.

— É porque só os corações infelizes é que cantam; a alegria e a felicidade são mudas.

Ao voltar um ângulo do caminho era outra rapariga que fiava à Porta, cantando:

O teu amor era falso,
Teve pouca duração,
Mas deixou mágoas eternas
No meu pobre coração.

— É singular! — disse D. Joana com certa intenção. — Parece de propósito; sempre a mesma poesia. Nem que nos perseguisse uma voz como a da consciência a acusar-nos de alguma culpa de inconstância.

Ora dos dois, quem com mais alguma probabilidade poderá ser acusado disso, não serei eu decerto. Se fosses tu, Filipe?...

— Quem sabe, minha mãe? — respondeu Filipe com uma seriedade que não estava em harmonia com o tom jovial em que D. Joana lhe fizera a observação.

— Ah! quem sabe ? Ninguém senão tu e a Providência, que talvez esteja falando pela boca desta pobre gente. Só me admira que fale no Minho para emendar o mal feito em Lisboa.

— E se fosse o mal feito no Minho ? — No Minho? mas... ah? sim, tu estiveste alguns meses aqui.

Então, Filipe, por acaso inspirar-te-iam estas belas paisagens alguns capítulos de romance? Porque mo não contaste? Sabes que tudo quanto escreves e contas me excita sempre interesse; pois nem te lembras que até os teus trabalhos académicos eu gostava de ler? Nem aos de matemática perdoava; não os decifrava, mas entendia-os. Não sei se me admites este paradoxo.

— Eu sei, minha mãe, avaliar o seu muito afecto, mas que quer? O conceito elevado que V. Ex.' na sua indulgência materna faz de mim, lisonjeia-me tanto, causa-me tal orgulho, que recuo ante a ideia das confissões que lhe podem lançar a mais leve sombra na imagem que a sua muita bondade formou de mim.

— Deve ser bem grave a culpa cometida, que assim te está causando remorsos.

— Ainda não pude avaliar toda a extensão e gravidade dela.

— Porquê? — Porque não pude saber ainda as consequências que resultaram.

— E se eu exigir que ma confies ? — Basta que lhe diga, que essas cantigas populares que nos têm acompanhado, podem considerar-se como V. Ex.* disse há pouco, a voz da minha consciência ou dos meus remorsos.

— Remorsos! Repara que são a consequência de um crime. Por acaso...

— Pelas convenções sociais não me pode ninguém chamar criminoso ; mas por um outro código, pelo código da consciência, eu sou acusado.

— De que crime ? — De ter feito nascer uma paixão, prevendo quase que ela teria de morrer sufocada, prognosticando-lhe o seu nenhum futuro.

— E que motivos tens para julgar nela mais sincera essa paixão do que o era em ti ? Vaidoso! Imaginas que ninguém te poderia aceitar a corte sem morrer de amores por ti? — Por um lado tem razão no que diz; mas um pressentimento...

— Bem. A coisa não passa de um pressentimento? Pois nesse caso oponho-lhe um outro pressentimento meu. Já nem sequer pensa em ti essa em quem pensas ainda tanto. É o mais natural. Tranquiliza os teus escrúpulos; mas parece-me que não te seria demasiado lisonjeiro o convencimento desta verdade. Ora diz-me: tu ainda a amarás? — Julgo que não, minha mãe. Eu sinto-me tão volúvel! — Mas como tu dizes isso! que ar de remorso! Nunca te acusaste com tanta contrição do teu rompimento com a Alberta dos Prazeres, com quem estiveste quase esposado. Ó Filipe, dar-se-á que o teu coração entre deveras nisso? — Quero acreditar que não, minha mãe. Seria uma calamidade.

— Porquê ? — V. Ex.ª permite-me que fale francamente? — Ordeno-te.

— Pois bem. É porque se eu me sentisse deveras apaixonado, podia estabelecer-se entre mim e V. Ex." um conflito, do qual, fosse o resultado qual fosse, eu sairia sempre com feridas que não sarariam nunca, ou acabaria por lhe não obedecer; e se o amor fosse verdadeiro, sofrendo por ele, eu venceria a paixão, e nunca me perdoaria a desobediência.

— E qual a razão porque julgavas inevitável um conflito ? Essa mulher era indigna de ti ? — A sociedade em que V. Ex." vive é de umas exigências ridículas, mas a que se acostumam a obedecer os que a frequentam. Conveniências sociais. A mulher a quem me refiro era filha de um negociante de Braga.

— Não te sabia desses preconceitos heráldicos tão arreigados! — Em mim? Engana-se, minha mãe, se eu fosse só... Mas sabe que lhe não quero dar desgosto...

— Se me não engano, achamo-nos em frente da casa da família que vamos socorrer.

Efectivamente a carruagem parou diante do portão da quinta de José Urbano, e o boleeiro, apeando-se, puxou o cordão da sineta, cujo ruído se fez ouvir ao longe, despertando os latidos dos cães, fiéis guardadores daqueles jardins.

Passados tempos o portão abriu-se, e Roberta apareceu, depois de perguntar de dentro quem era, com voz um pouco resolvida; ao dar com os olhos na carruagem deu um salto, como se a picasse uma víbora.

— Vossa...—ia exclamar a pobre velha atónita.

— Psiu! — disse D. Joana, pondo o dedo na boca e com um sorriso benevolente.

Roberta calou-se, mas, ao ver saltar Rialva do carro, fez um novo movimento de surpresa.

— Agora é o outro. Pelo que vejo eram grandes fidalgos ambos.

Rialva, que conheceu logo em Roberta a velha da estrada, procurou tornar-se ouvido dela, dizendo à mãe, ao ajudá-la a descer:

— Se vossa majestade se quiser utilizar do meu braço...

D. Joana sorriu, e saltando junto de Roberta, perguntou-lhe em voz baixa: — Onde está a menina ? — Deve andar pela quinta. Eu vou chamá-la, — De modo nenhum. Iremos ter com ela.

— Como vossa majestade quiser; nesse caso eu vou adiante.

— Também não. Se me quiser antes fazer o favor de me preparar um copo de água chalada...

— Com todo o gosto. Mas se vossa majestade se engana no caminho?...

— Melhor, mais tempo gozaremos da quinta.

E tomando o braço de Filipe, D. Joana desceu as escadas que conduziam à quinta.

— Sabe, minha mãe, que para um empregado demitido é esta uma magnífica vivenda? — disse Rialva, admirando o bom aspecto de quanto o rodeava.

— Restos de um bem-estai passado — respondeu D. Joana, entranhando- se em uma rua orlada de roseiras todas enfloradas.

— Que deliciosa habitação! — exclamava Rialva a cada passo.

— Sigamos na direcção de onde nos chega o sussurro do cair da água.

Rialva atrasara-se de D. Joana alguns passos de distância, tendo-se demorado a colher um botão de rosa que se pendurava em uma das ruas...

Preparava-se a apressar o passo para alcançar sua mãe, quando viu esta voltar pé ante pé, e com a mão nos lábios como a recomendar- lhe silêncio.

Filipe parou.

D. Joana chegou-se a ele e disse-lhe baixinho: — Devagar, muito devagar. Dorme alguém ali adiante. Quero preparar-te um belo espectáculo. Devagar! E os dois caminharam tão de manso, que mal se escutava o estalar da areia da rua e de uma ou outra folha seca que o vento destacava das árvores.

— É agora — disse D. Joana, desviando-se para deixar patente a seu filho a vista do largo junto a uma pequena cascata, no qual penetraram.

Rialva olhou e estremeceu de surpresa.

Reconhecera Maria Clementina adormecida.

A mãe e o filho permaneceram silenciosos ante aquele espectáculo.

Quem o poderia conceber tão belo.

Languidamente recostada no banco rústico que existia ao lado da cascata, conservara Maria Clementina uma posição naturalmente artística, na qual lhe sobressaíam todas as formas elegantes e correctas daquele corpo flexível e delicado.

0 braço direito, dobrado sob a cabeça e um pouco descoberto, exagerava pela flexão as curvas graciosas e suaves do seu regular contorno; o esquerdo, pendente ao longo do corpo, permitia observar uma mão encantadora. Não era destas pequeninas mãos, galantes como as de uma criança, e que se abrangem em uma só das nossas; reconhecendo a graça desses modelos, confesso que me produzem mais sensação as mãos como as de Maria Clementina. Algum tanto compridas e estreitas, cobertas por uma pele alvíssima e transparente, sob a qual se desenhava uma complicada rede de veias azuladas, tinham estas mãos assim o que quer que seja de distinção e encanto, que atrai as vistas, que as fixa, que as fascina.

Eu, a respeito de belezas femininas, não sou partidário ardente do galante, do mignon, como os Franceses dizem; prefiro-lhe o ar de dignidade e grandeza que se lê em certos tipos, temperado pelo que possui de brandura todo o rosto de mulher verdadeiramente bela.

A cabeça de Maria Clementina, um pouco inclinada para trás, descobria em toda a sua vantajosa forma, o colo, cuja transição para a face e para os seios se fazia por curvas tão disfarçadas e brandas, que a vista insensivelmente deslizava por elas e perdia-se a divagar naqueles lábios, que a respiração entreabria, pousava amorosamente nas suas graciosas comissuras, que se elevavam em um quase imperceptível sorriso, nas pálpebras, que pareciam denunciar o fulgor dos olhos que mal encobriam; ou baixava ardente como insinuando-se por entre o corpilho do' vestido, que subia até ao pescoço, avaro das belezas que ocultava, e como fascinada por aquele movimento cadenciado de um respirar tranquilo.

Filipe de Rialva permaneceu por muito tempo nesta contemplação sob a influência de um fervoroso sentimento de quase veneração. Sua mãe olhava-o sorrindo.

— É ela — disse afinal Filipe, olhando para sua mãe e ainda comovido por sentimentos encontrados que o dominavam.

— Eu sei! — respondeu D. Joana, continuando a sorrir.

— Sabe?! — Bem vês que te trouxe aqui.

— Mas... como foi isto? — Pediam justiça, enviaste a queixosa para mim, Eu prometi fazê-la. A isso venho.

— A fazer justiça? — Sim.

— E o ofendido é...

— É ela e o culpado és tu. Não to diziam há pouco os teus remorsos, Filipe? Ao partires para Lisboa deixaste comprometida a reputação desta menina.

— Pois acaso...

— Viram-te descer o muro do jardim...

— Oh! meu Deus...

— Desde então a sociedade escrupulosa obrigou-a a procurar esta solidão. Deves supor se lhe terão sorrido os dias passados aqui.

E no entretanto tu esquecia-la na capital.

— Oh! minha mãe... juro-lhe...

— Não jures, Filipe; ora para que vais tu jurar? Confessa, é melhor; e arrepende-te, que é mais nobre.

— Eu sou um miserável, minha mãe.

— Que nome tão feio! Agora cais-me em um outro extremo.

É preciso emendar o mal feito.

— E como ? — De uma maneira possível.

— Pois quer...

— Então que é? Hesitas em fazer justiça, quando não hesitaste em cometer a culpa...

— E consente...

— Ordeno, se ainda podem ter para ti valor as minhas ordens.

— Mas essas são para mim uma bênção do Céu, creia-me! — exclamou Filipe, apoderando-se da mão de sua mãe e beijando-lha com efusão.

Um movimento de Maria Clementina deu a conhecer que ela despertava, enfim, de seu sono tranquilo ao rumor do diálogo, que se travara entre D. Joana e seu filho. Esta correu ao encontro de Maria Clementina, ocultando por este movimento a presença de Filipe.

— V. Ex." aqui! — disse Maria Clementina sobressaltada ao abraçar D. Joana.

— Estava a gostar de a ver dormir...

E depois de a beijar afectuosamente, D. Joana afastou-se, descobrindo assim a figura de Filipe, que se conservara imóvel a distância.

Maria Clementina, dando com os olhos nele, estremeceu, exclamando : — Oh! meu Deus.

— É meu filho — disse D. Joana, beijando-a na fronte com carinhosa solicitude.

Maria Clementina vacilou, deixou-se cair no banco em que estivera sentada, e pelas faces, que passavam de uma súbita palidez a um intenso rubor, deslizaram as lágrimas que lhe inundavam os olhos...

Nisto assomava na extremidade de uma das ruas a velha Roberta com o copo de água e chá, que D. Joana lhe pediu.

Esta correu a encontrá-la para lhe encobrir a turbação dos dois.

— Agradecida pelo incómodo que teve. Agora faz-me um favor? Ajuda-me a cortar um ramo de japoneiras ? — E aproximando-se de Roberta, acrescentou a meia voz: — Deixemos sós os dois; este é o tal alferes...

— É este! — disse Roberta, olhando para Filipe com olhos espantados e com certa indignação. — E logo foi a ele que eu...

— Está bom, deixemo-los, que tudo se há-de arranjar.

— Deveras ? — Comprometo a minha palavra.

— E a palavra real .. — disse Roberta.

— Tem razão... não volta atrás — terminou, sorrindo, D. Joana de Rialva.

E D. Joana, conduzida pela velha, foi efectivamente cortar um ramo de camélias, com grande orgulho de Roberta, que toda se desvanecia em estar colhendo flores para sua majestade.

Filipe e Maria Clementina, ficaram. Esta, vendo afastar-se D. Joana, levantou-se para segui-la; mas viu diante de si Filipe ainda imóvel e atencioso, e as forças faltaram-lhe, deixando-se cair de novo.

— Ainda poderei esperar de si a minha absolvição, Maria? — disse Filipe aproximando-se da donzela.

— Pois eu já o acusei ? — respondeu timidamente Maria Clementina.

— Acusa-me a consciência.

— De que o acusa então? de me ter mentido?...

— Não, que lhe não mentia, quando lhe disse que a amava...

— Então ? De me ter esquecido ? — Também não. Podia eu esquecê-la? — Não sei. Mas de que o acusa a consciência? diga.

— De não ter sido eu próprio que há mais tempo tivesse vindo oferecer-lhe a reparação do mal que lhe fiz.

— Do mal ? Pois sabe se me fez mal ? — Sei. Soube-o agora... de minha mãe.

— Entendo. E vem ofecerecer-me uma reparação? — Era o meu dever, mesmo quando...

— É uma generosidade. Mas oiça-me — disse Maria Clementina, levantando-se e caminhando para Filipe, com uma resolução que contrastava com a sua timidez de há pouco. — Eu não posso aceitar um sacrifício.

— Um sacrifício...

— Olhe, Filipe, um ano de solidão faz-nos pensar com madureza.

Há um ano receberia com alvoroços de alegria as palavras que me disse. Hoje não. Sou culpada para com o mundo. Que me importa! Sou inocente para com a minha consciência. Mas quando mesmo esta me acusasse, acredite que não me moveria a aceitar de si isso que chama o cumprimento de um dever. Deveres! Quem lhos impôs ? A sociedade? Eu não lhe pedi que advogasse a minha causa. Eu? bem vê que não. Tranquilize os escrúpulos da sua consciência; se é ela que o impele a esse passo, desista de obedecer-lhe; eu absolvo-o de toda a responsabilidade. Obrigada, Filipe, mas bem vê que não devo aceitar, — E se a voz da consciência se harmonizar neste caso com a do coração ? — E quem mo há-de assegurar? — disse Maria Clementina, voltando à sua anterior confusão.

— Incrédula? Exigir provas é renegar a persuasão do amor.

Sabe porque há um ano me acreditava e hoje duvida?

— Porque se passou um ano! E que ano, Filipe ! que experiência colhida nestes doze meses passados a sós com o meu pensamento e com o desprezo dos outros...

— Do desprezo, pois acaso...

— Oh! Não julgue que lhe falei nisto como uma arguição. Não era o que mais me fazia sofrer esse desprezo; esquecia-me dele. Outra causa movia as minhas lágrimas.

— E era? Maria Clementina calou-se embaraçada.

Filipe aproximou-se dela, e tomando-lhe a mão insistiu: — O que a fazia chorar então, Maria? Maria Clementina levantou os olhos húmidos de lágrimas e com um sorriso angélico respondeu suspirando: — E pergunta-mo ? Chorava, chorava de saudade.

— Pois lembrava-se de mim?...

— Duvida, e quer que acredite no seu amor! — Se eu era indigno de tanto! E agora...

— Agora ? — Porque mudou de pensar ? — Porque mudei ? Eu mudei 1 E julga que posso deixar de acreditar ; julga que me restam forças para resistir a uma tentação! Devia pedir-lhe misericórdia, mas... Nem sei... Olhe, que exige de mim? que diga que o amo?... Pois sim, amo-o, amo-o. Que mais quer? É a minha perdição talvez.

— É a sua salvação, minha filha — disse D. Joana, que se aproximou de Maria Clementina e a apertou nos braços.

Nisto ouviu-se tocar a sineta do portão.

IX

EXPLICAÇÕES - NÃO HÁ JUSTIÇA COMO A JUSTIÇA DE SUA MAJESTADE

OS sons vibrantes da sineta interromperam de chofre as carinhosas efusões de D. Joana e Maria Clementina, que se olharam como se perguntassem uma à outra — quem será? Em seguida novos e mais rápidos sons se fizeram ouvir, ecoando pelo jardim, indicando que quem tangia a sineta queria ser ouvido e tinha pressa de transpor o portão.

— Quem será — disse Maria Clementina — que tão apressado se mostra? — Deve ser — respondeu D. Joana — seu padrinho e o major, que ficou de estar aqui com ele por estas horas. Filipe conservar-se-á por enquanto aqui fora; a menina quer-me acompanhar ao encontro dos recém-chegados ? Maria Clementina cedeu o braço a D. Joana, que, apoiando-se nele, caminhou na direcção do portão.

— Vamos trabalhar no seu futuro; quero dispor tudo antes de partir.

— Pois quando parte ? — Depois de amanhã.

— Já? Tão cedo.

— Assim me é indispensável. Mas em breve a tornarei a ver em Lisboa. Não é verdade? — Em Lisboa?... —disse Maria Clementina, corando.

— Sim, e bem junto de nós. Sempre desejei ter uma filha. Dou graças por me deparar uma tão boa.

— Oh! minha senhora — exclamou Maria Clementina, não podendo conter o seu reconhecimento e apoderando-se-lhe da mão, que beijou comovida.

— Vejo que me aceita por mãe... Obrigada.

— E é a senhora que me diz obrigada? A mim, que pela primeira vez conheço a ventura que há em ser filha! — Pobre menina. Mas vamos, não nos sensibilizemos, que estamos próximos ao último ataque decisivo.

Esta observação foi sugerida a D. Joana pela vinda de José Urbano, que na companhia do major se aproximava delas.

— Que agradável surpresa! V. Ex." aqui ? — É verdade, Sr. José Urbano. Espero que me perdoará esta invasão da sua propriedade.

— Oxalá que ela se reproduzisse.

— Mas veja que não me retiro sem paga! — acrescentou, mostrando- lhe o ramo de camélias que colheu.

— É na verdade só agora que principio a conhecer o preço dessas flores...

— A benevolência do proprietário anima-me a confessar-lhe que as minhas intenções vão mais longe. Premedito um roubo de mais valor.

— V. Ex.'? — É verdade, e receio não lhe encontrar tão boas disposições de mo perdoar como agora.

— Deveras ! — respondeu José Urbano, sorrindo.

— Vou fazer-lhe a confissão dele, se me quiser ouvir.

— Com a melhor vontade. Quer V. Ex.* entrar? — Aceito. Venha, major.

— Pois também entro na confidência ? — Não o dispenso.

Maria Clementina deixou-se ficar um pouco atrás, enleada e confusa, porque previa do que se ia tratar.

D. Joana aproximou-se dela e disse-lhe a meia voz: — Poupo-lhe o dissabor de assistir ao processo; dentro em pouco lhe comunicarei a sentença.

Maria Clementina retirou-se.

José Urbano, D. Joana e o major entraram no salão.

José Urbano tinha um ar prazenteiro, o major puxava o bigode com certo embaraço, D. Joana meditava um plano de campanha.

Sentaram-se todos.

— Sr. José Urbano, eu não sou partidária dos rodeios. Costumo ir direita ao fim. O roubo que eu lhe premedito fazer é nada menos que o de sua sobrinha.

— De minha sobrinha! — repetiu José Urbano, entre sério e risonho, como se esperasse a explicação destas palavras.

— É verdade. Queria pedir-lha para filha.

— Como?!...

— Imagine, Sr. José Urbano, que eu tenho um filho por quem sou doida, perdidamente doida, e que concebi que era Maria Clementina a mulher que lhe podia dar a felicidade que eu ambiciono para ele.

José Urbano olhava estupefacto para D. Joana, como se não tivesse compreendido.

— Então diz V. Ex.* que...

— Que lhe peço a mão de sua afilhada para...

— Mas um projecto tão pouco meditado...

— Talvez menos do que julga.

— Menos do que julgo... — disse José Urbano com manifesta intenção. — Seja assim; mas o que V. Ex.* me pede não pode realizar-se.

— Que diz, Sr. José Urbano ?! Não posso acreditar que me negue a satisfação de obter o que lhe peço, porque já considero sua sobrinha como minha filha muito amada.

— Não duvido; mas Maria Clementina, que é um anjo, não pode casar com o filho de V. Ex.", porque se opõem a isso... circunstâncias e melindres que é necessário respeitar.

E José Urbano carregou de tal maneira o semblante, que parecia indicar à sua interlocutora que não continuasse a falar-lhe naquele assunto.

D. Joana, porém, pareceu não atentar nisso, e, mostrando-se risonha continuou, dizendo: — Parece-me compreender, Sr. José Urbano, que tem receio de meu filho não ser digno de sua sobrinha, nem capaz de a fazer feliz.

— Não é isso, minha senhora — interrompeu José Urbano, com vivacidade. — São motivos particulares, que dizem respeito a uma pessoa de minha família, que já não vive e a quem muito amei.

— Mas — disse D. Joana — se não há desonra para sua sobrinha no enlace dela com meu filho, porque me recusa a sua mão? Dar-se-á que a destine para outro mais digno que meu filho ?

— Não destino, não. Enfim — disse José Urbano, um pouco enfadado — acabemos com isto. Para V. Ex.* conhecer a razão da minha negativa, era necessário contar-lhe a minha e a história de minha irmã, que não vive há muito e a quem amei extremosamente. Essa história cansará a paciência de V. Ex." e do sr. major, que desejo poupar...

— Conte, conte — disse D. Joana — que nos dará com isso muito prazer. Não é assim, major? — Decerto — respondeu este — porque estou ansioso de a ouvir.

O rosto de José Urbano empalideceu e mostrou-se anuviado de tanta tristeza que causou profunda impressão em D. Joana e no major.

— Seja como querem — disse por fim José Urbano, depois de ter estado algum tempo silencioso, e como que invocando as recordações do passado. — É doloroso avivar feridas que desejo cicatrizadas, mas não tenho outro meio de acabar com isto. Oiçam: «Quando minha mãe morreu, tinha eu vinte anos. Foi em 1818.

Até aí, vivera eu como rapaz.

«De pequeno senhor de minha vontade, eu não sabia o que eram sujeições e constrangimentos. Minha mãe era uma santa mulher, que vivia absorvida entre as suas devoções e as suas economias. Os pequenos haveres em bens rurais, que meu pai deixara ao morrer, eram por ela tão bem administrados, que nunca a menor sombra de privações nos veio amargurar a vida.

«Quando morreu, achei-me eu à testa da família. Minha mãe tinha-me dito pouco antes: «Tenho-te deixado gozar da tua vida de rapaz, porque bem sabia que dentro em pouco terias de renunciar a ela. Vê se compreendes o teu dever. Deixo-te uma irmã de oito anos.» «Aterrou-me ao princípio esta responsabilidade, e o novo encargo fez-me pensar seriamente. Obedeci a minha mãe; desde o dia da sua morte, abandonei a companhia dos meus companheiros de prazer, e votei-me de coração ao trabalho. Sentia-me recompensado com a alegria que experimentava quando podia dar um vestido novo a minha irmãzita.

«Cedo as minhas ambições principiaram a crescer. É sempre a mesma história. Já me não contentava com os modestos mas continuados proventos que tirava do meu negócio de cereais. Queria lucros mais visíveis.

«O Brasil principiou-me então a sorrir com as suas promessas de riquezas, com que a tantos atrai. Não descansei mais enquanto não realizei o meu intento. Regulei com um negociante meu amigo uma mesada a minha irmã, e deixei-a em companhia de Roberta, que foi ama de nós ambos, e parti.

«Seria curiosa e rica de experiência a história da minha vida no Rio de Janeiro, se o contá-la me não afastasse do fim que tenho em vista. Basta que diga que trabalhei! Trabalhei deveras. Não me fazia hesitar qualquer trabalho, por penoso que fosse. Recusava apenas as empresas menos honestas.

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