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Serões da Província

Júlio Dinis

«Tive que sofrer e muito. Estive no Brasil por ocasião da guerra da independência. Basta que diga isto. Mas a minha perseverança valeu-me e não me deixou soçobrar. No fim de seis anos, aumentava consideravelmente a mesada a minha irmã. No fim de oito, podia-me dizer rico. Mais um ano no Brasil, e voltarei para Portugal, disse eu comigo.

«Não havia dia em que não pensasse nisto com entusiasmo.

«Por meados de 1833, andava eu tratando da liquidação, quando, ainda me lembro bem, recebi de Portugal uma carta tarjada de preto.

Abri-a a tremer. Era do negociante meu amigo, participando-me que minha irmã que havia tempos se achava incomodada, morrera no dia 23 de Julho de 1833, apesar de todos os socorros da medicina.

«Não posso dizer como fiquei quando li esta carta. Caí em tal abatimento, que os médicos agouraram mal da minha vida. Aconselharam- me ares pátrios. Mas eu já não tinha coração para voltar aqui; ao mesmo tempo, a minha vida no Rio de Janeiro era-me insuportável.

Terminei a liquidação do meu negócio, e fui viajar.

«Percorri a Europa; durante quatro anos, vivi vida errante e aventureira. No fim deste tempo, conheci que estava cicatrizada a chaga do meu coração, e principiaram a crescer em mim uns veementes desejos de voltar à minha terra. A mesma saudade me chamava.

Não pude resistir-lhe. Entrei em Portugal em 1837. Quando avistei a casa onde eu nascera e onde vivi com minha irmã, senti uma profunda comoção interior. Vir encontrá-la vazia, sem aquela linda menina, que eu deixara de dez anos a brincar, que viera à janela ver-m-e dobrar a esquina quando eu parti, para a não tornar a ver! E, pensando isto, eu parei defronte da casa a olhá-la e sem forças que me levassem mais adiante. Quando de repente — que ilusão aquela, meu Deus ! — a mesma janela se abriu, e ela... a minha irmã, tão pequena como eu a deixara, se encostou ao peitoril, olhando-me exactamente como me olhava dantes.

«Eu não pensei no impossível da visão. Acreditei nela. Corri, corri como um louco, e bati à porta, gritando; Eu logo vi que não podia ser.

«—Abre, Roberta, abre... minha irmã ainda está viva!...

«Roberta veio-me abrir a porta a tremer. Não sei como ela me reconheceu nem o que me disse. Eu estava alucinado.

«—Deixa-ma ver, deixa-ma ver. Para que me tinham dito que ela morrera? «Não posso dizer como corri e o que se passou; lembra-me que dentro de pouco tempo eu abraçava e beijava uma bonita criança de dez anos, julgando beijar minha irmã. E ela também me abraçava, sorrindo e a chorar... a pobre pequena. Porém, a ilusão passou; a razão voltou-me, e reconheci que havia nisto tudo um engano. Mas a semelhança era tanta! Um ar de tristeza se apoderou de mim; e voltando- me para Roberta, que chorava a um canto, perguntei-lhe: «—Quem é esta menina, Roberta?

«—É sua sobrinha, filha de sua irmã.

«Dei um salto, como se aquelas palavras me atravessassem o coração. Um relâmpago terrível me iluminou o espírito; ia a passar das carícias talvez a alguma crueldade, quando aquele anjo, ouvindo as palavras de Roberta, exclamou: «Ai, pois é este o meu tio! — e saltou-me ao pescoço, beijando- me com meiguice. Desarmou-me; desatei a chorar, e não pude deixar de a apertar ao coração.

«Passados poucos instantes, Maria retirou-se para ir buscar flores, disse ela, e eu fiquei só com Roberta. Voltou-me o ar sinistro que aquela criança me havia conjurado, e disse a Roberta que me contasse a história de minha irmã. A história era curta.

«—A infeliz foi enganada por um infame, que, abusando da sua inocência, fora a causa do seu infortúnio e da sua morte.

«— E era assim que vigiavas pela irmã que eu te confiei, Roberta? «A pobre mulher respondia-me chorando.

«Mas a voz da minha consciência acusava-me mais do que a ela.

Eu é que não devia ter abandonado a irmã, para satisfazer ambições desmedidas. Agora, cumpre-me chorá-la e proteger a filha melhor do que a protegera a ela. Pobre criança! Quem podia deixar de querer- lhe ? Ela reproduziu-me as venturas que eu julgava perdidas para sempre. Nela cri renascer minha irmã. E por isso a amei. Amei-a logo e cada vez mais! E veja como parece a sorte perseguir-me; durante meses que tive de passar no Porto, por pouco a não ia sacrificando, e lhe causei, sem querer, um mal irremediável! Está terminada a história de Maria Clementina.

«A sorte infeliz da minha irmã era muito notória, para que eu pudesse viver feliz na minha terra. Vim por isso para Braga, deixando Barcelos, onde nascera, com vivas saudades.» — Barcelos! — exclamou o major, que havia momentos não podia dissimular a sua agitação.

— Sim — respondeu José Urbano — julgava ter já dito que tinha sido em Barcelos que eu nasci. Agora, já vê V. Ex.* a razão por que eu há pouco lhe dizia que a proposta que se dignou fazer era impossível.

Maria Clementina é filha ilegítima e eu não conheço seu pai.

— Não conhece? — perguntou D. Joana com interesse.

— Nunca me puderam dar sinais dele. Em Roberta encontrei sempre uma reserva, nesse ponto, que me fez julgar ser recomendação de minha irmã. Sei apenas que era um militar, um dos muitos que por aqueles tempos (foi em 1832) cobriam o reino. Era vida de guerra a de então... algum aventureiro, que nunca mais se lembrou da vileza que cometera, nem talvez mesmo ao cair no campo atravessado por uma bala inimiga.

— Sua irmã chamava-se... ? — perguntou o major com voz alterada.

— Maria Luísa — respondeu josé Urbano.

O major não se pôde vencer. Olhando para Maria Clementina, que passeava então no terraço adjacente, exclamou, juntando as mãos: — Justo Deus ! pois eu tinha uma filha ? Esta exclamação do major fez estremecer José Urbano, que empalideceu.

D. Joana ergueu-se também sobressaltada.

— Sr. José Urbano — disse o major, comovido — o militar, o aventureiro, o miserável que acusou, sou eu; não ficou atravessado por uma bala no campo de batalha, mas por muito tempo se conservou em um leito de doença, e quando se ergueu foi seu primeiro pensamento a mulher que verdadeiramente amara; disseram-lhe que tinha morrido, mas nunca ele soube que lhe ficara uma filha. Ai, se o soubesse ! Eu, que tantas vezes me atormentava na minha solidão vazia de afecto... Se eu suspeitasse que existia na terra aquele anjo!—E o major juntava as mãos, olhando para Clementina.

José Urbano conservava-se mudo e taciturno.

— Quando mesmo Maria Clementina não tivesse achado um pai — disse D. Joana — não julgue que eu desistiria do meu pedido, Sr. José Urbano. Mas agora parece-me que cessam da sua parte todos os escrúpulos.

José Urbano ergueu a cabeça e, fitando o major, disse: — Ainda bem, major Samora, que só nos reconhecemos na idade em que se apagaram os fogos da juventude; ainda bem.

— Então, é a ambos que peço a mão de Maria Clementina para meu filho... —disse D. Joana; seja esta união a que faça desvanecer a nuvem que parece meter-se entre os senhores. Dêem as mãos como amigos. Vamos.

O major ficou quieto, e José Urbano caminhou para ele com as mãos estendidas.

— Acredito, major, que foi leviano, mas não foi vil. Minha irmã mandar-me-ia perdoar.

Os dois apertaram as mãos.

Dentro em pouco tempo, eram tudo abraços na sala de José Urbano.

A um sinal de Joana, Maria Clementina entrara em casa, com o coração alvoroçado e as faces tingidas de rubor.

Filipe, que entendeu também o sinal de sua mãe, seguiu a pequena distância. Quando Maria Clementina entrou, D. Joana foi-lhe ao encontro e, tomando-a pela mão, levou-a junto do major.

— É de justiça que seja para o major o primeiro abraço — disse D. Joana.

O major tremia ao abrir os braços a Maria Clementina, e a custo exclamou: — Minha filha! Maria Clementina olhava com estranheza.

José Urbano disse-lhe, comovido, apontando para o major; — Podes abraçá-lo, Micas, é teu pai...

Filipe entrou neste momento.

Maria Clementina achava-se nos braços do major, desfeita em lagrimas, mal compreendendo ainda o que se passava.

Samora, que não se fartava de a abraçar, disse, meio a rir meio a chorar, para Filipe, que o olhava estupefacto: — É o complemento daquela minha história; eu tinha uma filha..

Era esta... este anjo.

— Como vamos ser felizes todos! José Urbano aproximou-se de Filipe, e disse-lhe: — E tem fé que a tornará feliz ?' — Quanto a puder fazer um amor verdadeiro.

— Ora não desanimem então.

Imaginem as efusões mútuas que se seguiram.

Ao entrar Roberta na sala, o major foi-lhe ao encontro, exclamando: — Roberta! Lembra-se ainda do alferes Clemente Samora? — Santo nome de Deus! Que nome foi dizer! — exclamou a velha, olhando para seu amo com ar de mistério e susto.

— Saiba que ele vive ainda, e que encontrou sua filha, a qual abraço agora...

— Quê?... pois então... É verdade que tem avultações. Mas...

santo nome!... Santo... então? — Então, este dia é um dia de ventura. Achei minha filha, e exactamente na ocasião de encontrar também um filho no melhor rapaz do exército.

— Oh! major! Os dois militares apertaram as mãos afectuosamente.

— Ah! pois já está tudo arranjado? — exclamou Roberta, exultando de contente.

— Tudo, graças ao seu expediente, Roberta. Pode ufanar-se de ter feito a felicidade de seus amos.

— Como ? — perguntou José Urbano.

— Ora como? — disse Roberta — indo a fonte limpa. Quem pode...

— Psiu!... — disse D. Joana, olhando-a com mistério.

— Ah! pois ele não sabe ainda? — murmurou Roberta, olhando para seu amo com ar de mistério.— Não importa; eu não posso deixar de bradar: Viva sua majestade a rainha! A saudação foi jovialmente acolhida.

Do mais que se seguiu, deixo-o a imaginação do leitor concebê- lo.

D. Joana partiu no dia seguinte para Lisboa.

O major Samora, Filipe, José Urbano e Maria Clementina seguiram- na passados oito dias.

O casamento fez-se na capital, onde os noivos ficaram residindo na companhia do major, que remoçava com o inesperado sucesso, e recebendo visitas amiudadas de José Urbano, que reside ainda em Braga.

Roberta vive na firme persuasão que foi a rainha D. Maria II" quem interveio no casamento dessa menina, e toda ufana repete muitas vezes, com grande prazer de José Urbano: — Aqui está quem deslindou este negócio todo. Não fora eu, que ainda hoje estaríamos como dantes; eu nem sei o que seria, Não há justiça como a justiça de sua majestade.

AS APREENSÕES DE UMA MÃE

NÃO me consta que tenha existido mãe tão extremosa, e talvez tão excessivamente indulgente, como o era a Sr." D. Margarida, de Entre Arroios, na época em que, voltando eu de uma pequena digressão pela província do Minho, tive a fortuna de ser recebido como hóspede em casa desta senhora, a meio caminho do Porto a Braga, um quarto de légua afastada da estrada principal.

Era uma época de crise para a fidalga, como por lá lhe chamavam todos os vizinhos, esta a que me refiro. Dias antes haviam as cortes decidido — e qual é a casa rica de província que não tem o seu pequeno parlamento ? — que o menino Tomás, o qual então contava já quinze anos feitos, seguisse estudos em Coimbra.

Discutia-se, porém, ainda acaloradamente a escolha da faculdade.

O abade, egresso do convento de Santo Tirso, jovial como uma anacreôntica, gordo como o primeiro prémio de uma exposição agrícola na secção — gado suíno — votava pela de teologia; o doutor, homem de emaranhados discursos, recheados de cujos e supraditos e rábula por amor da arte, insistia na de jurisprudência; — e o médico, original de curtas falas, mas, em compensação, de bem compridas pernas, que dizia parada a ciência desde os seus bons tempos de Universidade, e parecia querer-nos dar a entender que escutara então dela a última palavra, antevia um futuro brilhante para o jovem morgado na carreira clinica; mais generoso do que nenhum, apoiava este projecto de lei com a promessa da sua livraria, curioso museu de antiquário, coberto de uma camada de pó semi-secular, e na qual a traça imperturbável prosseguia lentamente todos os dias uma obra de destruição.

A faculdade de Matemática era a única não representada; e os s membros deste erudito congresso, em tudo tão divergentes, viam-se só unânimes ao reconhecer que ela não merecia, de facto, entrar em linha de conta.

— No nosso país, um matemático — dizia o doutor, concordavam o médico e o abade, e eu quase estive tentado a concordar também — não tem uma posição segura e definida. Os nossos governos encomendam as estradas aos enxurros, e as pontes fazem-se quando os ventos derrubam os troncos das árvores através das correntes dos ribeiros.

E o coro entoava um anátema às estradas, às pontes e ao Governo.

Isto era em 185...

A Sr.» D. Margarida, essa fazia dos matemáticos uma ideia horrorosa, pouco superior à que formava dos lobisomens, para que tomasse a peito defender a ciência de Newton e de Laplace da excomunhão lançada contra ela por este sapientíssimo triunvirato.

E todos os dias se reproduziam de parte a parte os mesmos argumentos ; — todos os dias, como nos tribunais, a discussão percorria sucessivamente seus diferentes graus: principiando pela argumentação pausada e razoável, passando à réplica tumultosa, em seguida, confundindo-se em acaloradas vozearias, e terminando, enfim, pelas mais aguçadas alusões e as mais descompostas diatribes. Os contendores todos os dias se retiravam vermelhos, suando, resfolegando como touros no circo; a Sr.ª D. Margarida adiava a sessão para a noite imediata; e o menino Tomás, causa inocente de tantas iras, continuava dormindo sossegadamente sob os tectos paternais, apesar dos quinze anos feitos.

Recomendado à dona da casa por um seu amigo íntimo de Braga, mereci a honra de ser imediatamente posto ao corrente da questão, e, o que mais é, convidado para intervir nela. Quis recusar-me a esta lisonjeira prova de consideração, mas debalde o tentei; e afinal reconheci que bem necessária seria a minha intervenção, pois via os litigantes cada vez mais longe de se encaminharem a um acordo.

Convocou-se, portanto, nova reunião para o dia seguinte ao da minha chegada, que se efectuara no fim da tarde de um magnífico dia de Julho, e depois de aturada conversa com a minha atenciosa hospedeira, na qual ela me pôs ao alcance de todas as suas tribulações domésticas, tais como: — a impertinência das criadas, o arejo das batatas, o vinho que se lhe azedara, um muro que tinha desabado — consegui, após várias tentativas infrutuosas, dar-lhe as boas noites. Retirei- me para o quarto que me fora indicado, pensando comigo mesmo como tão depressa me achava envolvido em um negócio de família, de não pequena gravidade, e árbitro dos destinos de uma criança, que nem sequer tinha ainda visto.

A janela do aposento, onde pernoitei, dava para um bem provido pomar, glória da Sr.* D. Margarida, que se ufanava de possuir as mais deliciosas laranjas e os mais saborosos pêssegos de toda a província; e destes últimos bem gratas recordações efectivamente me ficaram!

A noite estava belíssima. Era uma destas abafadas noites de Estio, em que somos, quase irresistivelmente, levados para a contemplação do espectáculo do céu, sem nuvens nem estrelas, e da terra inundada por um luar magnífico de reflexos surpreendentes.

Apaguei a luz, e, encostado ao peitoril, esqueci-me durante horas a olhar para o que via diante de mim, e a pensar não sei em que , se é que pensar se chama àquilo.

Desta contemplação fui afinal despertado por o ruído de uma janela, que se abria cautelosamente. Movida assim a minha curiosidade, pus-me a observar o que se passava.

A posição era favorável a esta inocente espionagem. Uma rápida descrição topográfica do lugar o mostrará claramente.

A casa de Entre Arroios, edificada nos princípios do século passado, conservava ainda, apesar das sucessivas mudanças que o espírito de reforma de D. Margarida lhe havia introduzido, o aspecto pesado e quase lúgubre das construções daquela época no nosso país.

A fachada principal ostentava, heràldicamente combinadas, as armas da família, tidas pela gente do lugar como uma das principais glórias da sua terra. Duas largas pilastras de granito corriam, livres de oca e de argamassa, ao longo desta fachada, desde a sólida cornija que sustentavam em floridos capitéis, até aos alicerces sobre que se apoiavam os pedestais enegrecidos. Para a parte posterior prolongavam- se os corpos laterais do edifício em alas paralelas, abrangendo por esta forma um espaço quadrangular, onde um dos ascendentes de D. Margarida plantara o pomar a que já me referi e que com tanta dignidade sustentava nos mercados a boa fama da horticultura minhota.

Subindo três degraus de pedra, já meio gastos pelo uso, e transpondo uma porta envidraçada, entrava-se do pomar, por o corpo central da casa, para a sala de jantar; no mesmo correr eram a cozinha e despensas, e para outro lado o salão das recepções solenes, ordinariamente fechado.

No andar superior eram os quartos de D. Margarida, os quais abriam para uma ampla varanda de bem torneados balaústres, onde vegetavam em vasos de louça as flores predilectas da senhora; era também aí a sala dos serões familiares, e finalmente o quarto de Tomás.

Este ficava situado em um dos ângulos do quadrilátero e imediato ao corpo lateral do edifício que fora destinado para capela.

Durante as devastações que o País sofrera nas sucessivas guerras civis dos últimos períodos da nossa história, a casa de Entre Arroios não fora mais do que as outras respeitada, e os estragos que, no resto da habitação, tinham já sido cuidadosamente reparados, conservavam- se ainda visíveis no pequeno templo, onde havia muito se não exercia por isso o ofício divino.

As janelas que deste templo deitavam para o pomar, uma das ais ficava muito próxima e subjacente à do quarto de Tomás, mostravam ainda os grossos caixilhos de ferro despovoados de vidros, e já em parte atacados pela acção corrosiva do tempo.

Finalmente, do lado esquerdo, em simetria com a capela, pro.

longava-se um pequeno pavilhão, originariamente destinado para alojar os hóspedes, que, recebidos e gasalhados na casa de Entre Arroios com proverbial cordialidade, ficavam, contudo, como urn natural e delicado pudor de ménage, um tanto afastados do seio íntimo da família, não a constrangendo assim a alterar os hábitos domésticos, que, e na vida de província principalmente, nunca se sacrificam sem dolorosa violência.

Foi neste pavilhão que me prepararam aposento, e de lá, oculto pelas folhas de uma laranjeira ao alcance do meu braço e através dela, podia eu pois descobrir toda aquela parte da casa que, por mais vezes habitada, não era, como esta, tão oprimida pela exuberância da vegetação.

Foi, pois, desta situação vantajosa que me dispus a averiguar a causa do ruído, proveniente, ao que parecia, do lado exactamente oposto àquele que eu ocupava.

Não havia dúvida. Uma das vidraças do andar superior abria-se vagarosamente. Era a do quarto de Tomás.

Ora, segundo o que me tinham dito dele naquela noite, desculpando- lhe a ausência, Tomás achava-se algum tanto incomodado e deitara-se mais cedo do que o costume. Seria pois aquele movimento filho do delírio da febre? Foi o meu primeiro pensamento, e tive tentações de excitar o alarme; mas, ponderando melhor, resolvi-me a expectar.

Já então estava convencido, e depois tenho mil vezes confirmado a observação, que não há, de ordinário, gente mais importuna do que as pessoas chamadas serviçais.

Passado assim algum tempo, vi uma forma escura desenhar-se no vão da janela, crescer, crescer e, com grande terror meu, erguer-se sobre o parapeito, como tentando precipitar-se.

Não sei como pude reprimir um grito de susto: a ideia de suicídio fez-me arrepiar os cabelos.

Cedo, porém, e com uma presteza que deixava suspeitar não ser a primeira vez que executava a manobra, o vulto, firmando-se nos lavores salientes da ombreira e daí num cano de ferro que descia do telhado ao pátio, junto ao ângulo da parede, transportou-se para o jazente da janela do templo, que lhe ficava próxima, mas em plano inferior ao do quarto.

Depois, segurando-se aos varões de ferro dos caixilhos vazios, deixou-se resvalar até encontrar com os pés uma fenda ou desigualdade, não sei se natural, se artificialmente praticada na parede, e, enfim, por uma evolução, que a sombra projectada pelas árvores me não deixou perceber, cedo tocava a relva, com tanta felicidade e prontidão, que, sem hesitar, abandonei a ideia primeiro sugerida, por febricitante.

Aquela sombra, ou antes aquele corpo, desde que se viu em terra, parou como escutando se tivera sido pressentido; afastou-se alguns passos e voltou de novo, passando em revista todas as janelas com escrupulosa atenção; porém, esquecendo-se neste exame exactamente da única, que o havia traído, a do meu quarto, o qual talvez julgava desabitado. Satisfeito, ao que parecia, com estas observações, estranhou- se no pomar e cedo se perdeu por entre as árvores.

A surtida nocturna deu-me que pensar. Sem dúvida, era este o herói de quem todos se ocupavam em Entre Arroios, e talvez mais herói do que me parecera, quando a senhora D. Margarida me desenhou o seu retrato, com o defeito comum aos retratos feitos por todas as mães, que, desconhecendo geralmente as vantagens do claro-escuro, nos pintam seus filhos sem uma única sombra que lhes dê relevo Aos quinze anos, uma excursão tão extravagante da casa materna tem já de ordinário uma causa, que não exige grande penetração, nem •andes esforços de inteligência para ser reconhecida.

Não me demorei por tanto tempo a desenvolver este problema, que resolvi pela fórmula geral. Mas o que me fez maior sensação foi que, por esta façanha, Tomás mostrava-se menos criança do que o queriam fazer aqueles que, sem o consultar, lhe andavam a discutir o futuro, destinando-lhe, um a cadeira abacial, outro a banca de advogado, outro a clássica mula de médico; e eu pensava comigo mesmo que muito bem poderia acontecer, chegada a ocasião de levar a efeito qualquer das resoluções em que assentavam, se tal hipótese era admissível, que todos fossem embaraçados por um obstáculo muito natural e não previsto, o de vontade de Tomás, a qual, a julgar pelo que vira, não me parecia dever ser demasiado maleável.

Jurei não deixar escapar esta observação e aproveitá-la para me conduzir no dia seguinte, visto a minha assistência ser reclamada pela assembleia, e conservei-me de atalaia, aguardando o regresso do filho pródigo, o qua! se efectuou pelas duas horas da noite, e com a mesma agilidade e destreza que eu já admirara.

Contente com a minha involuntária descoberta, e mais adiantado talvez do que ninguém na vida intima do protagonista desta história, abandonei o meu posto e deitei-me a dormir um sono agradável.

Pela manhã, acordei em sobressalto, sonhando que era obrigado a executar a manobra de ginástica que presenciara na véspera.

QUANDO abri a janela, ainda o Sol não havia despontado no horizonte.

A manhã estava tão amena e tão belo panorama se ofereceu aos meus olhos, assim que os estendi ao longe pelos campos, que não pude vencer os desejos de explorar aqueles pitorescos lugares, apesar de ver ainda hermeticamente fechadas as janelas do quarto da senhora de Entre Arroios.

Servindo-me, pois, de uma saída particular, que havia no pavilhão, independente do resto da casa, desci ao pomar, e aproveitando-me do momento em que o dragão deste novo jardim das Hespérides, um respeitável indivíduo da espécie Lineana: canis familiaris, saboreava as delícias do sono matutino, abri a porta da comprida gradaria, que formava o quarto lado da área consagrada a Pomona, e achei-me na quinta.

Os bens pertencentes à casa de Entre Arroios são extensíssimos, e naquela época uma exuberante vegetação dava aos campos tão agradável aspecto, tanta vida e frescura, que havia realmente prazer entranhar- se a gente por aquelas extensas avenidas, e perder-se no meio das copadas devesas, ainda quando se corresse o risco de faltar a um almoço como costumava sair das cozinhas de Entre Arroios.

Depois de muito caminhar, pude atingir enfim os limites da quinta, e, verdadeiramente fatigado, sentei-me em um pequeno muro tosco e coberto de hera, que ficava sobranceiro a uma destas tortuosas e estreitas ruas, que em mil direcções atravessam as nossas aldeias e a cujo aspecto, monotonamente uniforme em todas elas, anda de ordinário mais ou menos ligada alguma recordação de nossa vida passada.

Aí jogos, alegrias, perfumadas memórias de uma esquecida infância, nos reverdecem na imaginação, volteiam em torno de nós, como um enxame de borboletas brancas ao agitarmos a balseira, onde pousavam embriagadas nos nectários das flores.

O nosso pensamento, à semelhança de um vaso metálico, ressoa por muito tempo, quando, embora de leve, percutido; como ondas sonoras, as nossas recordações, movidas por uma palavra, por um som, por uma flor, por um perfume, sucedem-se, dilatam-se cada vez mais vastas, cada vez mais suaves, até se desvanecerem em uma confusa imagem do passado, de formas indefinidas e vagas, mas por isso mesmo mais bela, mais inebriante ainda, em um quase sonho, delicioso e grato como o murmúrio que termina o som, como o crepúsculo em que desmaia o dia, como o Outono que sucede à estação dos florescentes verdores.

E assim eu me deixava então enlevar pela reminiscência das passadas cenas, que tão profundamente me fazia esquecer tristezas e alegrias presentes.

Nós caminhamos sempre na vida entre duas visões: uma precede- nos esplêndida e brilhante, como a luminosa aparição que dirigia no deserto a marcha do povo hebreu; outra segue-nos, formosa e pálida, como as virgens ideais dos cantos escoceses. São a esperança e a saudade. Com os olhos naquela, quase chegamos a olvidar inteiramente a existência da última; mas que uma sombra extinga, obscureça, sequer, a auréola que na primeira nos atrai e seduz, e a segunda surgirá, como surgem as estrelas, quando a chama do Sol desmaia no extremo ocidente.

Destas ideias, destes sonhos, por onde me arrebatava a fantasia, evocou-me o ruído de uns passos ligeiros e leves, que de momento a momento se fazia mais distinto.

Nada de estranho poderia ter o facto, visto serem estas as horas em que de todos os lados da aldeia partiam os operários para o trabalho ; contudo um inexplicável movimento de curiosidade me fez debruçar sobre o muro em que estivera sentado, aguardando a chegada da pessoa que parecia avizinhar-se.

Não esperei muito tempo para conhecer a causa do ruído que me preocupava; cedo vi no princípio da estreita rua, que as árvores dos campos fronteiros guarneciam de um toldo de verdura, assomar uma gentil forma feminina com os trajes elegantes das lavradoras do Minho, e sustentando na cabeça, no mais perfeito equilíbrio, uma vasilha a trasbordar de leite mungido de pouco.

Era uma rapariga que parecia contar de treze para catorze anos.

Os cabelos desatados saiam-lhe em madeixas abundantes por debaixo de um lenço escarlate, disposto em volta da cabeça com artístico e indescritível desleixo; outro da mesma cor se lhe cruzava no seio, cujas formas principiavam a desenhar-se em curvas graciosas; a cintura tão delicada e flexível, que, ao vê-la, involuntariamente se imaginava a requebrar-se nas ondulações de uma valsa — era sem constrangimento apertada em um estreito colete de fustão azul-escuro; a saia, de pano preto, descia-lhe até ao meio da perna; as mangas amplas e compridas da camisa de linho, alvo como a neve, vinham apertar-se- -lhe nos punhos, ocultando aos olhos o puro contorno dos braços, que, não obstante, uma pequena e bem modelada mão deixava adivinhar.

0 fogo nos olhos, rosas nas faces, a alvura do leite no colo descoberto, onde realçava um fio de formosas coralinas, assim se adiantava esta risonha visão, que me vi tentado a tomar pela deusa da madrugada.

Com grande espanto meu, ela olhava-me de longe sorrindo e na aparência decidida a dirigir-me a palavra. Não tendo, como é de crer, motivos para me recear da aparição, conservei-me imóvel, absorvido agradavelmente a contemplá-la. Mas afirmando-se melhor em mim, quando a distância de me poder falar, a gentil rapariga fitou-me uns olhos espantados, baixou-os imediatamente, corou a ponto de rivalizar com a pequena rosa que trazia ao peito, e apressando o passo, o ansiosa para fugir às minhas vistas, apenas murmurou ao passar e sem erguer os olhos, a singela saudação, usada pela gente dos campos: — muito bons dias. Apesar da voz quase sumida, com que estas três palavras foram pronunciadas, afigurou-se-me de uma melo.

dia encantadora.

Respondi-lhe simplesmente ao cumprimento, abstendo-me, como de um sacrilégio, de acrescentar uma única frase, que se semelhasse a galanteio. Tal era a atmosfera de virginal castidade, que me parecia envolver esta poética criatura.

Segui-a com a vista enquanto pude, até que a vi desaparecer em uma das voltas do caminho, no mesmo momento em que aparecia o sol, por detrás da colina fronteira, dando-me a entender que era tempo de voltar a casa, para não ser logo no primeiro dia inexacto à hora do almoço, que tão cuidadosamente me comunicara na véspera a senhora de Entre Arroios.

Abandonei, pois, este lugar, onde experimentara tão vivas impressões morais, para procurar aquela outra espécie de impressões, cuja fisiologia melhor que ninguém estudou, porque melhor que ninguém as experimentava, Brillat-Savarin, o médico-gastrónomo.

Na sala do almoço encontrei já a senhora de Entre Arroios, ocupando o trono, que, como chefe de família, de direito lhe pertencia.

Era uma destas antigas cadeiras de couro lavrado, guarnecida de reluzentes tachas amarelas, a qual atento o seu peso, só quase por antífrase se poderia chamar um dos móveis da casa; nossos avós as inventaram para se sentarem, assim como nós inventamos as modernas para fingir que nos sentamos.

Numerosas gerações da nobre família de Entre Arroios haviam conhecido e acatado esta cadeira histórica, que tivera já a honra, disse-me a Sr.' D. Margarida com um movimento de justa vaidade, de ser ocupada um dia inteiro por um arcebispo de Braga, durante uma excursão pela diocese.

D. Margarida saudou-me com o mais amável dos seus sorrisos, dirigiu-me duas graças benevolamente maliciosas sobre o meu passeio em jejum, terminando por me colocar à sua direita, defronte de um magnífico chocolate, que deveras me deleitou.

Com a curiosidade, que é de prever, pedi novas do bijou da família. O Tomazinho, disse-me a Sr." D. Margarida, passara mal a noite e exigira que ninguém lhe entrasse no quarto, por causa de uma intensa dor de cabeça, que lhe costumava dar muitas vezes.

— Ah! muitas vezes ? — A cada passo.

— E há muito que sofre dessas... dores de cabeça? — Há coisa de alguns meses a esta parte é que ele se principiou a queixar. Isto há-de ser do sol...

— Também creio, minha senhora. O sol faz muito mal e em certas idades sobretudo. E que diz a isso o doutor? Eu sempre gostei de ver os médicos explicarem certas coisas.

— O médico — respondeu-me D. Margarida — diz que aquilo é força de sangue, e até propôs uma sangria.

— Ah! e seu filho, minha senhora? — Não quis ouvir falar em semelhante coisa, — É que talvez então se achasse melhor.

— Efectivamente passou algum tempo mais aliviado, mas depois soltou-lhe.

— E hoje? — Levantou-se pela manhã muito cedo e saiu. Diz que lhe fazem muito bem estes passeios.

— As dores de cabeça? — Sim; pois é toda a sua doença.

— Decerto que devem fazer.

Quando acabava de receber estas informações, para mim bastante significativas, a porta da sala abriu-se e o menino Tomás entrou em cena.

— «Falai no ruim, olhai para a porta» — foram as palavras com que a senhora de Entre Arroios saudou o recém-chegado, para quem lançava uns olhos a trasbordarem de amor maternal.

Tomás beijou com afecto a mão da mãe, e inclinou-se cortesmente diante de mim, depois que a Sr.a D. Margarida me apresentou com todas as formalidades.

Um primeiro olhar lançado sobre Tomás, me fez desde logo simpatizar com ele.

Era ainda imberbe, algum tanto pálido, com uns lânguidos olhos castanhos, que se pressentiam talhados para contemplações poéticas; os cabelos negros naturalmente anelados e compridos; a fronte espaçosa, a boca de uma expressão melancólica; tudo naquela fisionomia revelava sentimentos nobres e generosos, elevados brios, talvez uma excessiva sensibilidade, e um espírito fácil em impressionar-se; graves defeitos para quem desejar viver em paz neste mundo.

O vestuário singelo, mas elegante, fazia sobressair-lhe a estatura airosa e bastante desenvolvida para a idade que ele tinha. Conhecia- se haver crescido e vigorado ao ar livre dos campos.

Enquanto eu prosseguia neste meu rápido exame, reparei por acaso em uma rosa vermelha, que Tomás trazia descuidadamente na mão.

Era em tudo semelhante à que vira ao peito da pequena leiteira.

Seria mera coincidência? Que admirava? Em uma terra e em uma estação, em que as rosas surgem espontâneas debaixo dos pés, que significação podia ter o facto ? Contudo, o que eu já sabia de Tomás levava-me a conceder mais algum peso à pequena circunstância que observara.

Travei com ele uma conversa banal, sobre mil coisas em que se costuma falar, quando se não quer dizer nada.

No fim do almoço a senhora de Entre Arroios improvisou entre nós um passeio, ao qual lamentava não poder acompanhar-nos, porque lho não permitia o governo da casa, de uma exigência mais que des.

pótica — frase dela.

— Vão, vão passear. Mas olha lá, Tomás, cautela com o sol, e não vás para o lado dos lameiros: a humidade pode fazer-te mal. Olha sabes ? não seria mau ires mais enroupado; a manhã está fresca, e o que livra do frio, livra do calor.

E com estas e idênticas recomendações, das quais a muito custo Tomás conseguiu livrar-se, sujeitando-se a umas, iludindo outras conforme pôde, saímos ambos para observar o plano de divertimento que nos traçara a Sr.* D. Margarida.

Durante o passeio, Tomás mostrou-se agradável, e às vezes jovial.

Falámos em vários assuntos, e em todos pude reconhecer nele bastante cultura intelectual, contra o que era de esperar, atendendo à vida isolada que passava ali.

Quanto porém aos seus sentimentos, Tomás mostrava-se pouco comunicativo, e se às vezes eu tentava mais a fundo sondar aquele carácter, que me parecia, a muitos respeitos, digno de estudo, tornava- se subitamente mais reservado ainda, como se pressentisse as minhas atenções.

Afinal decidi-me a atacá-lo mais de perto.

— Sabe, Sr. Tomás — disse-lhe depois de uma hora de passeio — que admiro as suas compatrícias ? — Sim?!—foi a única resposta monossilábica que pude obter.

Não desanimei contudo e prossegui: — Esta manhã, pelo menos, vi uma que me pareceu um verdadeiro modelo de artista.

— Deveras ? — respondeu-me no tom de voz mais indiferente que se pode conceber.

— Deveras — continuei eu — e foi justamente daqui mesmo.

Havíamos de facto chegado ao sítio, de onde eu, como cortesão em antecâmara de monarca, aguardara o despertar do Sol.

— Ah! daqui ? Pareceu-me descobrir mais algum interesse nesta interrogação de Tomás.

— Ao que pude julgar, era uma leiteira das imediações. Bonita rapariga, palavra de honra!—dizendo isto, fitava os olhos nos dele, que momentaneamente se abaixaram.

— Havia de ser a Paulina — disse com um ar de indiferença mal representada; e mudando de conversa: — O senhor é do Porto ? Fiz-me desentendido.

— Paulina? é um nome poético. É da terra essa rapariga? — Julgo que sim... É, mas...

Eu não o deixei continuar.

— Não a acha galante? Esta pergunta visivelmente o contrariou. Um movimento quase imperceptível dos lábios, uma ruga que mal se lhe desenhou na fronte, e o rubor demasiado que por momentos lhe invadiu as faces, mo denunciaram.

— Assim — respondeu-me de um modo seco; e afastou-se alguns passos, ostensivamente para cortar uma vara de um castanheiro vizinho, mas na realidade com o fim de interromper a conversa, que lhe desagradava.

Pela minha parte, já sabia o que desejava; e como demais ia perdendo terreno nas boas graças de Tomás, do que não tinha desejos, aceitei a diversão, fui ajudá-lo no ingénuo passatempo, em que ele fingia entreter-se, e assim nos divertimos durante alguns minutos.

Passado tempo, e a uma proposta sua, seguimos caminho para casa. Tive ocasião de lhe dirigir de novo a palavra.

— Que projectos forma relativos ao seu futuro? — Projectos? — Sim; a que carreira se destina? — Ah! não sei bem. Dantes falavam em me mandarem para Coimbra. Talvez que essa ideia esquecesse.

— O que talvez estimaria.

Fitou-me com desconfiança, respondendo: — Pode ser — e depois continuou: — Contudo era a vontade de meu pai, e se minha mãe o exigir... Sabe que nunca lhe pude desobedecer em coisa nenhuma? Tinha na voz uma sensível comoção ao dizer isto; se o sentimento filial, se outro, o dominava então, não o pude saber.

— Pelo que ontem ouvi dizer a sua mãe e a alguém mais da companhia — continuei — julgo que esses projectos se discutem de novo actualmente.

— Deveras ? Porque não mo terão dito ? — e calou-se preocupado por um sentimento que parecia mortificá-lo.

— Não há no Porto uma escola onde se estude também? — perquntou- me em seguida.

— Conforme. Para que estudos se inclina mais? Encolheu os ombros em sinal de completa indiferença, e prossemos no nosso caminho silenciosamente.

Chegámos enfim à porta da gradaria que fechava o pomar, onde encontrámos com o médico, personagem esguia e descarnada, que poderia servir de exemplar para estudos de osteologia seca. Uma mumificação progressiva quase lhe permitia já livre passagem através dos varões de ferro e inutilizava o uso da porta, que, apesar disso, Tomás se apressou em abrir-lhe, mais por delicadeza que por necessidade.

— Bons dias, meu pequeno cliente — disse ele, dirigindo-se a Tomás e enviando-me ao mesmo tempo uma cerimoniática reverência.

Um sorriso de inofensiva zombaria se deslizou nos lábios de Tomás, ao contemplar o doutor, — Então já de volta da sua excursão clínica, doutor Madrugada ? bem esforços faz por desmentir o vita brevis, que sempre traz na boca.

— É preceito higiénico, que observo religiosamente; deito-me às oito horas, para às quatro me levantar. Isto auxilia a boa distribuição dos humores e a cocção das matérias pecantes.

O aspecto do doutor não era muito lisonjeiro à teoria, ou tudo naquele corpo era matéria pecante; pois de facto dir-se-ia ter passado todo ele por uma cocção verdadeira.

— E as suas dores de cabeça? — acrescentou, voltando-se para Tomás.

— Vão-me sendo infiéis e ameaçam deixar-me, as ingratas.

— Ruinzinho ! Isso já podia estar fora.—E voltando-se para mim: — Ora diga, uma cefaleia com um fundo pletórico, devida evidentemente à confluência dos humores para a cabeça, coisa própria da idade, qual o tratamento racional que exige? Salta aos olhos dos leigos.

Apesar disso não saltou aos meus, o que me granjeou uma reputação duvidosa na mente do ilustre adversário das matérias pecantes, de cuja algaravia eu não pudera perceber palavra.

— Não há que ver — respondeu ele por mim, e com certo azedume — a sangria, a sangria e só a sangria.

Depois, dirigindo-se a Tomás: — E como está a mamã ? — Vai ver — disse este, abrindo a porta da sala do jantar, onde havíamos já chegado.

Depois de uma luta de delicadezas e recíproca troca de zumbaias entre mim e o médico, consegui fazê-lo entrar adiante e penetrámos na sala.

Justamente naquele momento acabava a senhora de Entre Arroios de pregar aos criados o seu duodécimo recado, tarefa que sob o nome de canseiras de casa, encetava pela manhã para terminar à noite.

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