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Serões da Província

Júlio Dinis

III

A nossa chegada desanuviaram-se as feições contraídas da senhora de Entre Arroios; desceu uma oitava ao tom da voz, e, adiando para mais tarde a explosão de suas justas iras, justas deviam de ser, saudou o médico com o epíteto mais amável que lhe ocorreu, passando a informar-se, como alma caritativa que era afinal de contas, dos clientes mais pobres do Hipócrates campesino, os quais ela tantas vezes com cuidados, mais poderosos do que as drogas medicinais, lhe auxiliava a curar.

Eu no entretanto dirigira-me com Tomás para a janela, onde, para dizer alguma coisa, me pus a exaltar a paisagem, realmente bela, que se goz.-.va dali.

Tomás parecia escutar-me com prazer; fez coro comigo, e com is ardor do que eu, exprimia o seu entusiasmo por as belezas do campo — Pode acreditar — disse-lhe no decurso da conversa — que ontem, ainda que extenuado pela fadiga da jornada, passei algumas horas absorvido na contemplação de toda esta cena, fantasticamente alumiada pela claridade de um magnífico luar de Julho? Estas palavras, pronunciadas sem intenção, produziram em Tomás um efeito, que, antes de as concluir, eu já notava e que me não foi difícil explicar.

Vi-o estremecer, e olhando-me de um modo especial: — Ontem ? a que horas ? — perguntou-me, com mal difarçada curiosidade.

Mentir não me era fácil.

— Depois da ceia,.. Das onze horas para a meia-noite.

— E de onde ? de que janela ? — Dacolá! — e apontei para o pavilhão.

Os olhos de Tomás seguiram essa direcção, daí voltaram-se na do seu quarto, e, depois de curta reflexão mental, fitou-me um olhar tão fixo, que, sem saber bem porquê, desviei o meu. Traí-me.

Ele também me havia sondado.

Corou um pouco, e depois, como se abraçasse uma súbita resolução, perguntou-me com vivacidade notável: — E que viu ? Adivinhei logo o sentido da pergunta, mas fingi ignorá-lo, respondendo: — Todos estes mil efeitos, que nos surpreendem e que não sei descrever; contrastes admiráveis de sombra e luz...

— Pois que mais ? Eu achava-me em uma posição falsa, e que não poderia sustentar por muito tempo, pois confesso não serem grandes os meus talentos para dissimular.

— Então, além disso, não viu mais nada? — insistia Tomás — nem acolá? — e apontava para a janela do quarto.

A interpelação era muito directa desta vez, para lhe resistir; desde que o vi lançar assim as cartas na mesa, julguei melhor imitá-lo.

— Alguma coisa, é verdade, mas... também viu? — acrescentei meia voz.

— Se era eu mesmo.

Soube então quanto nos vale esta interjeição em casos apertados.

Ganha-se tempo com ela, sem arriscar um passo que possa comprometer- nos.

— É verdade; que quer ? — continuou Tomás como se tivesse pressa de me explicar o seu procedimento. Eu também amo a natureza.

Extasio-me ao respirar de noite o ar embalsamado dos bosques, sob um tecto de verdura, através do qual se descobrem, cintilam e resplandecem as estrelas, parecendo reflectir-se na terra nesses milhares de insectos que das asas luminosas despedem fogos, tão fugitivos como os pensamentos que a essa hora nos atravessam o espírito. Às vezes, acredite, chego a imaginar que de todos os lados me surgem as formas vagas e vaporosas que idealiza a poética imaginação do nosso povo e que imprimem nas singelas narrações dos campos, nas canções entoadas à hora das ceifas, ou junto do lar, um encanto indefinível.

Talvez me julgue criança se lhe disser que um dos meus maiores prazeres nesta vida é, em uma noite como a de ontem, na espessura das devesas, de onde escute o murmurar de um ribeiro vizinho e veja desenhar- se no chão, em formas fantásticas e movediças, a folhagem que os raios da Lua a custo podem atravessar, em uma noite assim, ouvir contar uma dessas histórias de fadas, que em pequeno tanto me entretinham e ainda hoje me deleitam, e mais já tenho perto de dezasseis anos ! Mas contadas por quem, essas histórias ? — perguntei, talvez impertinentemente.

Tomás hesitou em responder, e murmurou não sei que palavras ininteligíveis, terminando por estas: — Pouco importa. É uma questão secundária essa.

— Perdão; mas não penso eu assim — acrescentei, decidido a não me contentar com uma resposta tão evasiva. — Compreendo que possa encontrar nisso grande prazer, e até, para lhe falar verdade, era esse um passatempo que me não desagradaria de todo, concordo; mas exigiria que os narradores fossem de duas classes apenas: ou uma destas velhas, que parece terem sido criadas só para narrarem contos e que o tempo respeita já com o fim de transmitir suas memórias ãs gerações que surgem; ou então, e melhor ainda, uns lábios femininos, uma voz com o timbre dos quinze ou vinte anos, que muita vez chegue a fazer-nos esquecer do conto para só nos lembrarmos da contadora.

Os mesmos sinais de impaciência, que por mais de uma vez havia oferecido a fisionomia de Tomás, de novo se lhe manifestaram, mais profundamente que nunca e, como se me não tivesse compreendido, continuou, dizendo: — Eu não tenho contudo a liberdade de satisfazer estes desejos, a não ser da maneira que viu ontem.

— Um tanto arriscada.

— Pode ser. Mas o receio exagerado que minha mãe tem ao ar da noite — e acentuou estas palavras, sorrindo — fez-me perder a esperança de obter a sua permissão para satisfazer em mim este capricho, se não é uma verdadeira necessidade; mas capricho ou necessidade em todo o caso incompreensível para ela. Eis o motivo por que me sirvo de um estrataqema, um tanto singular e talvez ridículo.

— Diga antes perigoso.

— Ora! parece-lhe ? Se o que me dizia Tomás era verdade, não era contudo ainda a verdade inteira; — pressentia-o. Dei, apesar disso, à minha fisionomia um ar de convencimento, que me pareceu tranquilizá-lo.

Apressou-se em tomar a questão em tom jovial, rindo-se das suas próprias façanhas acrobáticas e esforçando-se por se mostrar mais criança do que era efectivamente, para tirar toda a importância à cena da véspera.

Houve enfim uma pausa na nossa conversação, que permitiu nos chegasse aos ouvidos o fim do diálogo travado entre D. Margarida e o doutor, o qual até ali nos passara desapercebido.

— Pobre homem! — dizia a senhora de Entre Arroios, profundamente compungida — e deu-lhe assim de repente ? — De um momento para o outro. Ainda esta manhã, quando a filha partiu para a vila, estava ele de perfeita saúde.

— E não dá esperanças ? — Hum! aquele... Receio que em poucas horas entroixe e parta.

— Pobre Paulina! Estas palavras exerceram em Tomás, distraído até então, um efeito mágico.

Ainda bem não haviam saído dos lábios de D. Margarida, já ele, abandonando subitamente o lugar onde nos achávamos ambos, estava no meio dos dois, sobremaneira inquieto, e podendo a custo perguntar à mãe: — Que é? que aconteceu? Se ainda fosse mistério para mim o segredo de Tomás, ser-me-ia neste momento revelado, tal era a expressão da sua fisionomia. A minha atenção achava-se naturalmente atraída para a cena.

— Olha, não sabes, Tomás? — respondeu D. Margarida, suspirando — o pai da Paulina, a leiteirita dos Casais, conheces ? Tomás não pôde reprimir um movimento de impaciência, que o denunciava.

— Sim, sim, e depois ? — Diz agora o doutor que, quando vinha, o encontrou expirando, com um mal que lhe deu de repente.

— É possível ?! — Infelizmente.

— E... a filha? — Julgo que ainda o ignora, pois tinha já partido para a vila, como costuma todas as manhãs.

Tomás olhou para, o doutor, que, lendo uma folha do Porto, abanou silenciosamente a cabeça, em sinal de confirmação.

— É preciso lá ir — foram as primeiras palavras de Tomás, depois de um instante de reflexão.

Por única resposta a Sr.* D. Margarida dirigiu-se para o gabinete.

Tomás deteve-a.

— A mãe não espera hoje ninguém para jantar ? — Sim, mas...

— Irá logo então ; agora deixe-me ir só. E, sem esperar outra resposta, encaminhou-se rapidamente para a porta e saiu da sala.

Ao passar por baixo da janela, onde eu ainda me conservava presenciando toda esta cena, o nome de Paulina, saindo-lhe dos lábios, chegou- me distintamente aos ouvidos.

IV

Asenhora de Entre Arroios viu-o sair sem tentar impedi-lo, e, abanando lentamente a cabeça, murmurou comovida: — Pobre filho! Tem o coração de um anjo! O médico, sem despregar os olhos da folha, fez ouvir um ininteligível monossílabo com pretensões a partícula afirmativa.

D. Margarida conhecia o doutor, e por via de regra não o procurava em momentos de expansão e de sentimentalismo; por isso preferiu dirigir-se a mim, e recostando-se ao parapeito da janela, de onde eu observava ainda Tomás, que já se perdia por entre os desvios das avenidas, continuou: — Não faz ideia, Sr. D... como aquela alma sensível se aflige, quando algum infortúnio sucede que ele não possa remediar.

— Seu filho tem nobres sentimentos, minha senhora; pude-o avaliar agora e suspeitava-o, desde que trocámos as primeiras palavras esta manhã.

— Meu pobre Tomás! e lembrar-me que, talvez bem cedo, tenha de me separar dele! — Uma ausência momentânea é compensada de sobra pela alegria da volta.

— Da volta! mas quando entre nós e essa volta estão ainda anos, e quando se tem uma saúde tão delicada como a de Tomás! — Oh! minha senhora, isso são temores de mãe. A constituição do Tomazinho é até vigorosa, e senão o doutor que o diga.

— Pois sim! e aquela melancolia ? — Eu achei-o jovial.

— Ai, enganou-se. Está assim um momento e ele aí principia a entristecer, a entristecer, a entristecer, que me corta o coração só em olhar para ele.

— Que quer, minha senhora? São coisas dos quinze anos. As recordações de V. Ex." não lhe dizem nada a este respeito?

— Sei ao que se quer referir; mas não vejo fundamentos... Vivemos aqui isolados...

— Por isso mesmo, minha senhora. Há coisas que o coração nos ensina, ainda quando longe dos objectos que lhas possam fazer lembrar.

Quanto mais...

— E quer saber ? — acrescentou em tom de mistério a senhora de Entre Arroios, inclinando-se ao meu ouvido — vou confiar-lhe um segredo, que a ninguém ainda disse e que espero a ninguém há-de dizer também.

— Pode crê-lo, minha senhora.

— Tomás é poeta! — continuou ela, baixando ainda mais a voz e quase com uma expressão de terror.

— Ah! não vejo nisso grande mal; e até, para lhe falar verdade, minha senhora, eu já o suspeitava.

— Sim? e pensa...

— Penso, minha senhora, que os poetas são almas privilegiadas, que Deus criou para entoar seus louvores, quer os cantos se lhe elevem nos templos como o incenso dos turíbulos, quer se derramem, como o perfume das flores, por toda a natureza.

— Mas aqui todos me dizem que os poetas são uns loucos, extravagantes, e que o seu fim nunca é bom! — Vossa excelência gosta de flores ? — Muito! — E que lhe dizem delas essas pessoas ? — Nem sequer falam em semelhante coisa, que eu saiba.

— Pois os poetas, minha senhora, são as flores da humanidade.

A senhora de Entre Arroios pareceu reflectir nestas palavras, e respirou enfim como se se visse livre de um pesadelo.

— O senhor também é poeta ? Foi a pergunta que em seguida me fez.

— Não tenho essa fortuna, minha senhora.

— Mas entende de versos ? — Leio-os com prazer.

— Ora então espere.

E saiu da sala.

A Sr.ª D. Margarida apresentara-se-me agora sob um aspecto novo, em que não pude deixar de admirá-la.

Até ali vira nela encarnado o tipo, não direi ridículo, mas vulgar e prosaico da dona da casa, que eleva à altura de questões diplomáticas as pequeninas misérias de uma vida doméstica, deslizada das sete horas da manhã às dez da noite, sem nenhum acidente sério, que viesse alterar-lhe a monótona serenidade. Agora, porém, via-a transformada, purificada pelo amor de mãe, que lhe fazia vibrar o coração em harmonia com os mais delicados sentimentos, e dotava-lhe a inteligência de uma penetração superior à esfera acanhada de suas habituais ocupações.

Como o sopro ae vida que no seio da crisálida, a faz, em um momento dado, voar borboleta, o amor materno operava nesta criatura, que me parecera vulgar, uma metamorfose que às vezes a tornava em um ser verdadeiramente superior.

A senhora de Entre Arroios voltou à sala, trazendo na mão um pequeno papel dobrado, que ao passar pelo doutor, o qual naquele momento principiava a leitura de um segundo periódico, teve o cuidado de ocultar com uma espécie de temor quase infantil.

Chegando junto de mim passou-mo para as mãos, dizendo: — Tomás esqueceu isso um dia de manhã sobre a mesa do quarto.

Encontrei-o, quando o arrumava, li-o e não entendi bem. Como ele depois nunca pareceu dar pela falta, resolvi guardá-lo. Isto foi há perto de três meses, justamente pelo tempo, e é isto que me dá canseira, em que ele principiou a ter aquelas dores de cabeça, que o perseguem tanto. Pois pode acreditar que de então para cá não passa uma noite sem que eu me ponha a ler este papel, e o caso é que em alguns pontos já pude entendê-lo melhor.

Eu desdobrei o papel e li as seguintes estâncias, escritas com uma letra rápida e como por uma mão convulsa, mas sem uma única emenda: adivinhava-se, ao vê-la, que fora escrita com rapidez em um instante de inspiração:

Flor dos campos, flor singela,
Pra quem guardas tuas cores ?
Deus criou-te entre verdores
Só pra os campos enfeitar?
Desconhecem-te a beleza
Outras flores que ta invejam,
E as brisas, se te balejam,
Não o sabem revelar.

— Ora repare — disse, interrompendo-me, a senhora de Entre Arroios — porque me parece que esta flor, de que aqui se fala, não é bem uma flor.

— Sorri-me à observação, e continuei:

Ha tanto que corro os prados
Por sobre viçosas relvas !
Tantas flores pelas selvas,
Tantas no monte encontrei!
, Há tanto ! e porque só hoje
Alva cecém da campina,
Quis a minha ingrata sina
Que te encontrasse? Não sei.

- Vê, não lhe parece estranho? - ponderou de novo a senhora de Entre Arroios - mas leia, leia.

Não sei. O peito agitado,
Seus segredos não revela,
Se o ver-te foi minha estrela,
Se é sorte pensar em ti...
Pensarei, sim; tua imagem
Há-de seguir-me incessante,
Em ti só, flor vicejante,
Pensarei, já que te vi.

Novo gesto de D. Margarida; eu continuei:

À noite nos arvoredos,
Onde formas vaporosas
Vagueiam misteriosas,
Irei procurar-te, a sós,
De manhã quando no outeiro
Surja a chama matutina
Já o teu nome...

Havia aqui um espaço deixado em branco e completava a estância:

Repetirá minha voz.

— Tenho-me matado para ver se adivinho o nome da flor que aí falta, mas não vejo.

Eu, que como o leitor deve supor, não encontrei grande dificuldade em completar o verso, disse sorrindo-me para a senhora de Entre Arroios: — Preciso seria que primeiro assentássemos se, como vossa excelência disse há pouco, esta flor é bem uma flor — e preparava-me para continuar a leitura, quando se abriu a porta de par em par, e deu passagem à figura rubicunda e esférica do abade, que saudou a assembleia com o seu habitual: — Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

— Ámen — respondeu a Sr.a D. Margarida, enquanto que, apertando- me o braço com vivacidade, tacitamente me instava a esconder o fatal papel, revelador do delito poético de Tomás.

Este sentimento de delicado pudor, que inspirava àquela mãe o ocultar dos olhos de seus prosaicos convivas os devaneios literários de uma imaginação de quinze anos, devaneios, cujo sentido, quase enigmático, ela própria mais adivinhara do que compreendera, tinha o que quer que era de tocante, que me comoveu.

Apressei-me pois a esconder o papel, como se partilhasse também dos mesmos terrores, e respondi ao abade que me havia dirigido não sei que pergunta, que por insignificante me esqueceu já.

O médico havia neste momento acabado de se pôr em dia com os acontecimentos europeus.

Depois de esvoaçar por todas as nações do mundo civilizado, aquele pensamento repousava agora, talvez, a ponderar nos destinos do Grão-Sultão e da Porta.

O abade odiava os jornais políticos, como odiava todas as coisas cujo uso não se remontasse ao antigo sistema governamental, de que era, e se confessava, aferrado partidário.

Entre ele e o médico, que militara no cerco do Porto, e fora ferido em um ataque às linhas, ao saltar um muro para observar o espectáculo mais de longe, ferida que provavelmente hoje lhe valerá uma pensão vitalícia, havia constantemente hostilidade súpita, que se traía nas mais pequenas coisas e que a menor faísca fazia rebentar em terríveis explosões, as quais só o ânimo pacificador de D. Margarida, conseguia apaziguar.

— Quid curas, doctor? — disse o abade, aproximando-se do antagonista com afabilidade felina.

O doutor com os olhos no chão, as pernas cruzadas e os beiços fazendo tromba, parecia calcular mentalmente a área do pavimento da sala; às palavras do abade levantou a cabeça.

— Oh! reverendíssimo! pensava agora em uma importante medida, que actualmente se discute nas câmaras: é relativa aos morgados.

Uma tosse seca e significativa foi a resposta do reverendo egresso.

— As câmaras! — continuou, acentuando a palavra com ênfase — era de uma vez um dragão de cem cabeças... Não sabe o que diz a fábula? — Sei só o que diz a história — respondeu o doutor, já um tanto desabrido.

— Que muitas vezes é fabulosa — redarguiu o abade, saboreando com delícia uma pitada.

D. Margarida, pressentindo a tempestade iminente, acudiu a interrompê-los.

— Sabe, sr. frei Domingos, que temos hoje uns ovos de recheio, que espero há-de apreciar? — Ovos de recheio! Deveras ? Oh! minha rica senhora D. Margarida; semper hortos, nomenque tuum, laudes que manebunt, com mais razão do que a honra, o nome e os louvores de Dido, que afinal de contas... não se lembrou de apresentar a Eneias ovos de recheio.

Ah! ah! ah! — acrescentou, rindo-se ainda mais pela promessa dos ovos, do que pela graça que dissera.

— E hoje, meus senhores — continuou D. Margarida — havemos de acabar de decidir a respeito do Tomazinho. Aqui está o Sr. D..., que nos ajudará com o seu conselho.

O médico, que naquele momento limpava os óculos, colocou-os de novo sobre o nariz, e olhando para mim directamente, como ainda até ali o não havia feito, perguntou-me: — O senhor é formado ? Tem algum curso ? — Não, senhor — respondi imediatamente.

Pareceu-me que no seu conceito desci cinquenta por cento, depois da resposta... Voltou-me as costas sem cerimónia, e, com a familiaridade que lhe dava uma convivência de longos anos, tirou do bufete um par de ameixas secas e foi saboreá-las para a janela.

0 abade encarregou-se de continuar a inquirição principiada.

— Mas vossa senhoria — disse-me ele com voz melífica — tem seguido alguns estudos? — Possuo leves rudimentos de alguns.

— Cultiva a literatura ? — Aprecio-a imperfeitamente.

— Quem são os seus autores favoritos ? — Encontro sempre grande dificuldade em responder a uma interpelação desse género. Não sei. Admiro tanto Balzac, como Walter Scott, como Alfredo de Vigny; extasio-me com uma das mais arrojadas estrofes de Byron, de Vítor Hugo ou Musset, tanto como me extasio com um dos sentimentais poemas de Lamartine.

Respondi com a maior ingenuidade e vi a estupefacção desenhar- se no rosto do abade a cada um dos nomes que ia pronunciando, para ele mais indecifráveis que os do festim de Baltasar. Quando cheguei ao último carregou o sobrolho e preparou-se para falar.

Escutei.

— Que disse? Lamartine? Não é um jacobino? Parece-me que tenho ideia de...

Não pude responder com receio de perder a gravidade.

Vendo o meu silêncio, continuou: — Sim, não tem que ver, é o próprio; um dos vermelhos, um pedreiro-livre, dos tais senhores da égalité! — e acentuou sarcàsticamente a sílaba final. — Com que então... admira isso? Aqui abriu a caixa de rapé, fungou uma abundante pitada, assoou-se, e, depois de soltar um suspiro ab imo pectore, voltou-me as costas, murmurando não sei que verso de Virgílio ou de Horácio, que provavelmente não me lisonjearia muito se fosse ouvido.

Neste momento a Sr.ª D. Margarida anunciou a chegada do terceiro conviva. Era o Dr. Teófilo, personagem exótica, cujos olhos pardacentos, como que envergonhados de se verem tão feios, fugiam um 'do outro, confinando-se no ângulo mais extremo de umas escalavradas órbitas.

O Dr. Teófilo, acalentando de há muito as mais fagueiras esperanças, na mão em segunda mão da senhora de Entre Arroios — trocadilho de sua lavra, muito festejado pelo autor — cada dia intentava novas finezas, sem nunca atinar com aquela que esperava lhe havia de valer a entrega da praça e da guarnição.

Desta vez trazia pendente da mão esquerda uma trouxa, que prometia grande surpresa para o dessert, ocasião escolhida sempre por ele para as suas ofertas amorosamente ambiciosas.

— Já era retardatário ao que vejo — exclamou o doutor, ao encarar com os outros dois frequentadores dos jantares de Entre Arroios. — A justiça é sempre a última a chegar — resmungou o médico, explorando de novo, e com igual sucesso, o bufete, que exercia sobre ele uma manifesta atracção.

O Dr. Teófilo, imperturbável por índole e por cálculo profissional, respondeu amavelmente: — Onde a ciência e a religião existem, não se faz esperar a justiça.

O doutor era uma espécie de mediador plástico, perdoem-me os filósofos se rebaixo o termo, entre os dois elementos heterogéneos do abade e do médico.

A Sr." D. Margarida, à imitação dos fabricantes de instrumentos de física, que entremeiam o ouro entre a prata e a platina, na constru ção de certas lâminas, para podê-las sujeitar à acção do calor, servia- se do doutor para que a soldadura do abade e do médico não rompessem também no calor da discussão.

Era a vez do advogado se dirigir a mim.

— E como vai o hóspede ? — Encantado com a hospedagem.

— Belíssimo! — disse o doutor, pronunciando esta palavra portuguesa, como se tivesse necessidade de ser italiana.

D. Margarida, no ânimo de quem eu havia conquistado terreno, depois da nossa rápida conversação, encetou a meu respeito uma apologia, que a modéstia me obriga a calar, e que teve um efeito exactamente contrário ao que talvez a boa senhora esperava. De facto o doutor, ao notar o fogo com que D. Margarida fazia o meu panegírico, mostrou-se inquieto: olhou para mim de um modo particular, depois para ela, depois de novo para mim, e, como sem consciência do que fazia, aproximou-se da mesa e bebeu até à última gota um copo de água que encontrou à mão. Caso realmente extraordinário na sua vida, porquanto o doutor nunca pudera concordar com Píndaro, a respeito das excelências da água.

Percebi que o ciúme aguilhoava o coração do erudito intérprete do Digesto.

Que popularidade! Em poucos minutos conseguira tornar-me antipático aos três comensais de D. Margarida! Mas o meio-dia chegara enfim, hora consagrada desde tempos imemoriais em Entre Arroios à solenidade gastronómica, a que se dá o nome de jantar.

No campo o meio-dia adivinha-se independente de relógios. Um silêncio mais profundo, um não sei que particular na luz do Sol, uma cor uniforme que parece tingir a paisagem, no-lo anunciam. Depois temos a voz do estômago, esta poderosa voz mais real que a do sangue, a qual os romancistas contudo admitem como facto incontroverso.

O estômago quer aos seus hábitos, como víscera burguesa que é; uma vez afeito a comer ao meio-dia, exaspera-se quando lhe tardam, e agitando-se no abdómen dá a conhecer à economia as suas necessidades imperiosas. Foi a razão pela qual o abade, escutando o apetite, este irmão mais novo da fome, jovial como criança, mas cujo humor se azeda com a idade, se aproximou da janela, contemplou os ares e voltando-se, soltou estas palavras, que vieram dar a razão dos bocejos continuados do médico, de suas frequentes visitas ao bufete, e dos suspiros melodiosamente melancólicos do doutor: — Isto deve ser meio-dia.

— Há-de ser — disse D. Margarida — vou mandar tirar o jantar; Tomás provavelmente janta mais tarde.

Estas palavras foram acolhidas com geral satisfação.

E o jantar veio para a mesa; rompeu a agradável orquestra de garfos e facas, para muito boa gente mais harmoniosa que as melhores partituras de Bellini ou Donizetti; e todos empreendemos, como aliados, uma batalha, cujos destinos não podiam ser duvidosos.

O médico e o abade esqueceram por um pouco a recíproca antipatia; contudo esta afabilidade diminuía na razão directa do apetite.

A sopa, eram quase amigos, ao cozido, tolerantes apenas; mas quando chegou o prato de meio, já os primeiros assomos de hostilidade começavam a transparecer. Um frango guisado foi o pomo da discórdia.

Eis o caso: A entrada triunfal da ave de Marte fora saudada com verdadeiro entusiasmo, e, depois de a admirar em globo, cada um em detalhe a admirava no prato.

— Excelente molho! — disse o abade, embebendo nele enormes fatias de pão trigo, galicismo gastronómico que, seja dito de passagem, causa delícias a muitos severos puritanos.

— Eu sou partidário dos molhos — exclamou o doutor, seguindo o exemplo dado pelo vizinho.

O médico para contradizer, disse-os anti-higiénicos; mas não ficava atrás dos antagonistas na gloriosa cruzada contra este inimigo dos estômagos humanos.

— A história dos molhos — acrescentou o abade, limpando ao guardanapo os beiços besuntados — anda a par da civilização. Os heróis de Homero desconheciam o verdadeiro molho; Virgílio fala-nos de carne assada no espeto, veribusque trementia figunt; scilicet víscera, mas nunca em molhos; Anacreonte...

— O abade podia muito bem empreender uma obra em que provasse...

— Os molhos ? É a obra que estou empreendendo. Eh! eh! eh! — Não; porém que a florescência dos estados prendia nos aperfeiçoamentos dos molhos — terminou o médico, sorrindo.

O doutor, que previu tempestade, tomou a palavra: — Mas de facto, há aqui uma fusão de substâncias, que formam um todo delicioso.

— É o gosto do cravo, da pimenta, do açafrão, da salsa, do alho; é tudo isto e não ó nada disto — parafraseou o abade. — É um verdadeiro sistema constitucional — disse o médico, que tomava posse do seu temperamento ; e acrescentou : — O absolutismo, a predominância de um elemento único é sempre mau em molhos, como em política.

O abade tremeu.

O doutor concedeu uma risada de aprovação à burlesca comparação do médico.

Isto acabou de transtornar o egresso: — Bem me parecia, doutor, que vós outros avaliais as coisas em política pelas leis de gastronomia! Bom é tudo aquilo que satisfaz o estômago.

— Sem causar indigestão — respondeu o médico, com imperturbável sangue-frio.

A cólera do abade subia ao seu auge. Estava fulo.

— O vosso sistema de molhos em política, doutor, tem só o inconveniente de encher o Governo de nódoas.

O abade, superior à sua época, manejava já então o calembur, em que muito pouco se falava ainda por cá.

Como ninguém se rira do gracejo, acompanhou-o ele de uma gargalhada fradesca, de grau superior à homérica.

D. Margarida, inquieta pela ausência prolongada de Tomás, não dava fé da tempestade, que se aglomerava sombria, nem pensava em intervenção.

Ensaiou-a o doutor, e enchendo os copos: — Vá — exclamou — à saúde da fusão dos partidos e dos...

O abade não o deixou concluir.

— Também o doutor! Isto fez-me lembrar o tu quoque de César.

O doutor sentou-se desanimado.

Frei Domingos perdera de todo a cabeça; os olhos injectados caíram sobre mim; não lhe escapei, inocente vítima que era! — Falta o senhor lá, o que me disse que preferia aos poetas antigos as poesias de... Robespierre ou não sei que outro herói.

D. Margarida compreendeu enfim a necessidade de intervir e não lhe foi difícil.

— Abade, eis os ovos de recheio.

Foi água que caiu na fervura.

Tudo serenou, e cedo os ovos foram, no rigor da palavra, absorvidos.

O resto do jantar correu sem outra novidade, a não ser a saudação geral, que vitoriou a surpresa do doutor, a qual, desta vez, consistiu em uma dúzia das decantadas frigideiras de Braga, a mais apetitosa concepção dos pasteleiros da augusta cidade Cesária.

V

ACABADO o jantar e dita a oração de graças, a senhora de Entre Arroios, depois de nos dar as boas tardes do estilo, chamou a atenção dos circunstantes, pedindo que se passasse a discutir o futuro de Tomazinho.

O médico, depois de fazer uma última provisão de ameixas secas, que ele sustentava serem estomacais, deu o assentimento; imitou-o, em ambas as coisas, o abade, apesar da mútua animadversão, e contentando- se o doutor de se prover de palitos, passámos todos para o salão contíguo, que era o lugar de honra da casa e escolhido pela Sr.' D. Margarida de propósito para aumentar a solenidade do acto.

A senhora de Entre Arroios tomou a cadeira da presidência; todos se sentaram, só eu que, preocupado pela súbita doença do pai de Paulina, tinha pouca vontade de entrar na discussão, me conservei um pouco de lado, sem que ninguém se lembrasse de me chamar, nem a senhora de Entre Arroios, a qual provavelmente me quis facilitar o ensejo de terminar a leitura da poesia de Tomás.

O aposento em que nos achávamos era uma vasta sala rectangular, forrada por um papel de cor escura que, absorvendo os raios luminosos, lhe dava um aspecto sombrio e triste, apesar das duas amplas janelas de peitoril, que abriam sobre o pomar; por cima do fogão de lousa, artisticamente cinzelado, pendia um espelho de moldura dourada, mas já em parte enegrecida pelo tempo; toda a mobília era pesada e antiga; o tapete, que forrava o pavimento, revelava longos anos de serviço nas cores meio desbotadas, e no fio da urdidura já em algumas partes descoberto. Em uma das paredes laterais, fronteira à porta por onde entráramos, notava-se, em caixilho cuidadosamente conservado, um retrato a óleo de grandeza natural e de correcto desenho.

Representava um velho de nobre fisionomia, vestido com a farda da marinha portuguesa, e em cujo peito se divisava, distintivo de lealdade e valor, uma pequena fita azul em fivela de prata.

Era o retrato do pai de Tomás, velho militar, que havia combatido sob o comando de Napier, e voltara à terra, onde nascera, coberto de anos e de cicatrizes honrosas, para procurar no seio da família uma morte sossegada.

A pintura era de um discípulo de Vieira Portuense, amigo íntimo do velho marinheiro e seu hóspede durante uma viagem que fizera pelo Minho. Não quisera o artista perder a ocasião de reproduzir com o pincel um desses tipos de soldado do mar, que de dia para dia mais se vao perdendo na nossa terra, outrora berço e escola de navegadores.

D. Margarida tinha para com este retrato uma veneração quase supersticiosa. Amara extremosamente o marido; porém, como de ordinário acontece entre caracteres de força desigual, este amor fora nela misturado com um sentimento de respeito, que ainda conservava pela memória dele.

Aquele olhar grave e severo, tão perfeitamente reproduzido na tela, parecia ainda exercer sobre a senhora de Entre Arroios a mesma influência, que exercera em vida.

Se por acaso e involuntariamente fazia chorar o pequeno Tomás, já não ousava erguer os olhos na presença deste retrato, como se temesse encontrar-lhe mais severidade na expressão; mas se, pelo contrário, alguma coisa acontecia, que fizesse sorrir o filho — se as carícias lhe estancavam as lágrimas, olhava-o, esperando quase vê-lo sorrir também. De pequeno costumara Tomás a vir todas as manhãs saudar a imagem do pai; e dir-se-ia estranhar que este lhe não retribuísse a saudação em bênçãos.

Neste momento a mãe carinhosa parecia invocar a memória daquele, que lhe fora tão caro, para que velasse pelo interesse do filho; na presença deste retrato, sob os olhares melancólicos daquela nobre figura, que se dissera contemplá-la ainda com amor, a pobre senhora achava-se mais forte; era este o templo onde a sacerdotisa recebia a inspiração que lhe iluminava o espírito; fora deste recinto a senhora de Entre Arroios sentia-se apeada do pedestal, e despojada de não sei que auréola que a circundava ali.

Desde que nos viu todos dispostos a escutá-la, disse-nos que enfim se achava decidida, ainda que com o coração despedaçado, a cumprir a vontade do marido, o qual sempre revelara desejos de que Tomás seguisse os estudos; que julgava ser a idade, a que chegara o filho, aquela em que convinha pensar na realização deste projecto, e que por isso pedia aos seus amigos, os quais folgava ver ali reunidos, que assentassem por uma vez qual das carreiras conviria a Tomazinho e quando se deveria marcar o dia da partida. E, ao dizer isto, a voz trémula e lacrimosa da pobre mãe revelava uma profunda comoção.

Houve silêncio na sala.

— Então ? — continuou ela, conseguindo dominar o sentimento — que decidem ? O que deve estudar o Tomazinho ? — A medicina.

— A jurisprudência.

— A teologia.

Bradaram a um tempo o médico, o advogado e o abade.

— Jesus, Maria! mas concordem em uma coisa. Ele não há-de estudar tudo isso. A sua opinião, dada por essa forma, de nada me vale.

Decidam-se por uma.

— Pela jurisprudência.

— Pela medicina.

— Pela teologia.

Repetia o coro.

— Valha-me Deus ! — dizia a senhora de Entre Arroios, toda aflita, O advogado continuou: — A jurisprudência. Sr.ª D. Margarida, é o sustentáculo da sociedade! — A medicina, minha senhora — replicou o médico — é a âncora da humanidade! — A teologia é o esteio da religião ! — disse por sua vez o abade, em tom de oráculo.

— E disso tudo que é que se tira ? — exclamou a mãe desesperada.

— O que se tira? — balbuciou o abade.

— Pois que se há-de tirar? — redarguiu o médico.

E ambos pareciam repetir silenciosamente a si mesmos a pergunta, sem atinarem com a resposta desejada.

— Tira-se, minha senhora — respondeu enfim o advogado, que era homem para estes apertos — que a jurisprudência é a mais nobre das profissões, a ciência mais útil, o mais valioso conhecimento. O jurisconsulto é um benemérito da Pátria e da humanidade, cuja o devera glorificar e render-lhe preito; — quem mais útil do que ele, já, quando instituindo leis que devam regular os povos, já, quando...

Eu estava resolvido a conservar-me mudo espectador deste conciliábulo, que tinha muito de soberanamente ridículo; porém, a perspectiva das legiões de já quandos, que antevira no discurso do orador, e um olhar expressivo da senhora de Entre Arroios, fez-me mudar de resolução, e decidi-me a intervir.

— Dá-me licença? O doutor parou, visivelmente contrariado.

O humor dos outros membros do conselho não me foi, ao que pude julgar, mais favorável; para eles era um intruso e atrevido.

— Não sabemos se... — foram as palavras que acolheram a minha intervenção, ao passo que, olhando para D. Margarida, os três pareciam emprazá-la tacitamente a conter a minha ousadia. A senhora de Entre Arroios mostrou, porém, desta vez uma firmeza, nela pouco vulgar, e que espantou os eloquentes oradores além de toda a medida.

— O Sr. D... — disse ela — é um homem de bem e digno de toda a minha confiança. Julgo que a opinião dele merece ser escutada, visto que há tanto tempo os senhores discutem esta matéria sem que ainda fosse possível aproximá-los de um acordo, que desejo, e a que, de qualquer maneira que seja, hoje é preciso chegar. Fale, Sr. D..., a qual das opiniões se inclina? — A nenhuma, minha senhora.

Sensação na assembleia; eu não cedi a palavra.

— E peço a V. Ex.ª — continuei — que de maneira nenhuma suponha que intervenho com o intuito de me pronunciar a respeito de uma carreira que possa convir a Tomazinho. Conhecendo-lhe as inclinações, pela natural penetração de mãe, melhor do que nós o poderá V. Ex.* decidir. Mas nem eu penso que se trate aqui de uma criança incapaz de julgar por si das próprias conveniências e aptidões. O filho de V. Ex.* tem quase dezasseis anos, e é demais uma inteligência adulta; parece-me por isso extravagante que se esteja agora aqui talhando um futuro, talvez já concebido bem diferente pela principal pessoa interessada. Eu voto que, em vez de nos consultar, consulte V. Ex.» directamente Tomazinho.

Estas palavras levantaram uma celeuma tal na assembleia, que me não foi possível ouvir a resposta de D. Margarida.

— Que extravagância! — Que singular opinião! — Pois um menor...

.— O senhor é tão criança como ele.

— Onde se ouviu semelhante coisa? — Quae te dementia cepit! Esta era do abade.

— São doutrinas perigosas.

— Subversivas.

— Anti-sociais.

— Republicanas.

Outra do reverendo.

— Mostra ignorância do código.

— Uma criança senhora sua! E a vozearia era já tal, que fazia estremecer a sala.

Em vão tentava defender-me, em vão D, Margarida se esforçada a pedir-me silêncio; a irritação fazia bramir os três argumentadores, ligados excepcionalmente contra o inimigo comum, que, por graça especial, haviam encarnado na minha pessoa.

Durava e prometia perpetuar-se esta algazarra infernal, quando a porta do salão se abriu violentamente, e Tomás apareceu no limiar.

fazendo de súbito, e como por encanto, cessar todo o ruído.

A cena era de um efeito teatral.

Tomás, mais que nunca excessivamente pálido, com os lábios trémulos, e os olhos como pisados de chorar, parou por algum tempo à entrada da sala e correu com a vista os circunstantes, que todos permaneceram mudos debaixo do olhar daquele que, momentos antes, tratavam de criança. Naquela fisionomia enérgica haviam pela primeira vez reconhecido o homem.

A expressão do pai acentuava-se profundamente nas feições do filho. A senhora de Entre Arroios, vendo-o, juntou as mãos e elevou os olhos para o retrato do marido. Dir-se-ia que acreditava em uma aparição.

Tomás entrou para a sala.

— Sei do que se trata — disse com voz alterada — agradeço o incómodo que têm tomado por minha causa, meus senhores; porém, dispenso tal intervenção.

E voltando-se para a mãe: — Minha mãe, o meu destino está nas suas mãos. A mãe sabe que tudo quanto de si me vier eu o receberei, como costumo receber as suas bênçãos, de joelhos e com gratidão. — E ajoelhando diante dela beijou-lhe afectuosamente a mão.

As lágrimas saltavam pelas faces da pobre senhora.

Tomás ergueu-se e, enxugando os olhos também, continuou: — Mas não falemos por ora nisto. De uma coisa mais grave lhe vinha falar, mãe.

Eu quis deixar o quarto e consegui que os outros fingissem imitar- me.

— Não, não, fiquem — exclamou Tomás, detendo-nos com um gesto — o que eu tenho a dizer a minha mãe não me envergonha; antes estimo tê-los por testemunhas.

— Jesus, meu filho! que tens tu, que me assustas? — Não é nada — disse Tomás cada vez mais dominado por uma comoção desconhecida; e depois continuou: — É que o seu doente, doutor, acaba de me expirar nos braços. Paulina está órfã.

Passado um momento de silenciosa hesitação, acrescentou com voz lenta e firme: — E Paulina é desde hoje minha desposada.

NÃO sei de coisa alguma que pudesse determinar nesta ocasião um espanto igual ao que produziram as palavras de Tomás.

A mais viva surpresa se desenhava no rosto dos circunstantes.

Eu mesmo, que tinha motivos para menos do que os outros me maravilhar, não pude reprimir um gesto de admiração, ao ouvir aquelas poucas palavras pronunciadas com voz tão segura, que bem denunciava a resolução inabalável que as ditara.

A senhora de Entre Arroios olhava para o filho, como se ainda lhe parecesse um sonho o que tinha ouvido, e desejasse assegurar-se da realidade.

— É uma dívida sagrada, minha mãe — continuou Tomás — contrai- a junto do leito de um moribundo e sobre a cabeça de uma órfã; contraí-a, invocando o nome daquele, que parece dacolá olhar-me e compreender-me.—E apontava para o retrato do pai; depois continuou mais baixo: — Contraí-a inspirado pelo amor.

Estas últimas palavras explicaram melhor a D. Margarida o acontecido ; mas a revelação assustava-a, sem talvez bem saber porquê.

A pobre senhora escondeu a cabeça entre as mãos, murmurando com voz sumida: — Jesus, meu Deus! — E assim se conservou alguns minutos.

Tomás não despregava os olhos da mãe, como se das primeiras palavras, que ela pronunciasse, lhe dependesse a vida.

O resto das personagens desta cena, entre as quais me incluo também, não se sentia à vontade.

Tudo se devia decidir entre a mãe e o filho. Há nas famílias acontecimentos, em que toda a intervenção de um estranho é inconveniente.

Nenhum de nós ousava falar, e conservávamos a imobilidade de um quadro vivo.

No fim de alguns minutos, D. Margarida ergueu a cabeça. Impressionou- me o ar de nobreza e de resolução que se lhe lia no rosto. Era uma nova metamorfose desta mulher singular.

— É promessa sagrada, meu filho — disse ela — há-de cumprir-se.

E fitou os olhos no retrato do marido, como se daí lhe viera a inspiração.

— Ó minha mãe! — exclamou Tomás, ajoelhando diante dela.

D. Margarida susteve-o com a mão.

, — Não sejamos todos crianças, Tomás. Escuta, que não consinto sem condições.

— Não preciso sabê-las para me sujeitar a elas.

— O Sr. D...—continuou D. Margarida, olhando para mim — disse-me ter de partir amanhã já para o Porto; hás-de acompanhá-lo; e daí tu próprio escolherás a carreira que mais te agradar seguir.

— Amanhã? já! — É preciso. A vontade de teu pai é tão sagrada como a tua promessa, filho. É tempo de a cumprir; e há mais que o deveria ter feito.

— Seja... mas...

Tomás hesitou ao continuar; a mãe, porém, adivinhou o resto; atraiu-o a si, estreitou-o nos braços, e, beijando-lhe a fronte com o maior carinho, disse-lhe a meia voz: — Descansa; ela será minha filha.

Estas palavras fizeram rebentar as lágrimas a Tomás.

— Oh! obrigado; o coração dizia-me que a mãe me não havia de querer mal por isso.

— Querer-te mal, filho! — E, depois, afastando-o: — Não é verdade, Sr. D..., que nos fará o obséquio de acompanhar Tomás? — Tudo em que a puder servir, minha senhora.

E de novo recaímos em silêncio.

Os convidados apressaram-se em abandonar esta casa, onde respiravam uma atmosfera de constrangimento.

À noite todos na aldeia sabiam do ocorrido, e cada qual comentava a seu modo a criancice de Tomás, como eles diziam, e a leviandade da mãe. Outros viam na resolução de D. Margarida, em mandar viajar o filho, um meio de desfazer as dificuldades; porque era impossível que essa paixão despropositada, pensavam eles, resistisse a uma ausência de anos.

De mim não sei que disseram; mas é de crer, atendendo a que os propaladores dos boatos eram os três meus afeiçoados, que não fosse muito cristãmente tratado.

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