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Serões da Província

Júlio Dinis

Ficando sós, a mãe, o filho e eu, não rompemos o silêncio, que se manteve durante horas; todos talvez pensando no ocorrido, e todos à porfia evitando a menor alusão que pudesse recordá-lo.

Tomás despediu-se ãs nove horas da mãe, que o beijou com o afecto costumado. Dispunha-me também a deixar a sala, quando um sinal da senhora de Entre Arroios me obrigou a ficar.

Tudo revelava nela uma serenidade de espírito que me fazia cismar. Depois de assegurar-se de que ninguém escutava, D. Margarida sentou-se junto de mim e perguntou-me: —'Então que lhe parece tudo isto? — Para lhe falar verdade, minha senhora, conquanto receie que este acontecimento seja talvez funesto ao futuro de seu filho, não posso deixar de admirar-lhe a nobreza de carácter.

— Está como eu. Pode crê-lo ? Isto que a outra mãe traria a desesperação talvez, quase que me dá júbilo. Contudo reconheço que é um passo grave, e preciso impedir que tenha graves consequências.

— Eu julgo ter compreendido os projectos de V. Ex.*.

— Talvez não — disse ela, quase sorrindo.

— Uma ausência demorada amortece certos sentimentos, e faz esquecer promessas que em um momento de exaltação...

— Não o espero, e se por acaso meu filho se esquecesse, cumpriria a mim lembrar-lho; e eu lho lembraria, acredite. Se foi loucura, tanto pior, que tem de ser escravo dela.

— Mas Paulina mesma, talvez...

— Esquecer Tomás! Havia tanta candura neste brado de vaidade maternal, que não tive coração para continuar a exprimir-lhe as minhas dúvidas.

— Não, não; o meu desígnio é outro—continuou ela—mas por enquanto é secreto. O que lhe peço é que use de toda a sua influência com Tomás para o decidir a partir para o estrangeiro. Que vá estudar à França, à Inglaterra, à Alemanha, onde quiser e o que quiser, mas que saia do reino e se demore por fora. Quatro, cinco a seis anos.

É essencial.

— Não posso compreender com que vistas...

— É o meu segredo — disse ela, sorrindo.—Promete? — Tudo quanto desejar, minha senhora. Reconheço em V. Ex.' uma superioridade...

— Nada de lisonjas, se não quer perder a minha confiança.

— V. Ex." deve ter notado que é a primeira vez que lhe falo assim; é porque há pouco ainda principiei a compreendê-la e a admirá-la.

— Bem; façamos aliança. Mas, antes, quero perguntar-lhe uma coisa: que me diga o que lhe parece mais para recear nesta resolução de Tomás? — Receio que aquela paixão seja nele uma das muitas ilusões de uma idade tão tenra como a sua; e que cedo...

A senhora de Entre Arroios interrompeu-me com um gesto de impaciência e negação.

— Cedo não; tarde, tarde, que é o pior! Olhe, ai vai o que eu penso: Tomás ama sinceramente Paulina, acredito-o. Esta paixão, longe dela, aumentará talvez. As cenas que a santificaram, em uma alma como a dele, deixam vestígios, que o tempo não desfaz. Meu filho, verá, há-de voltar-nos tanto ou mais amante do que partiu. Mas depois? Paulina pode satisfazer-lhe ao coração, e enquanto o coração reinar, Tomás será feliz. Porém, quando chegar a vez da inteligência? e olhe que há-de chegar também; como poderá a pobre rapariga bastar àquela cabeça que eu já suspeitava, e agora vejo claramente ser toda de fogo? Creia-me, Sr. D..., a infelicidade destas ligações desiguais está toda aqui.

— Estou inteiramente de acordo, minha senhora, e admiro tanta penetração.

E dizia a verdade. Esta mulher, como as aparições de certos contos de fadas, de momento para momento assumia a meus olhos maiores proporções. Ela que na véspera me parecera vulgar no meio de quase ridículas tribulações da vida doméstica, que já momentos antes admirara quando, incitada pelo amor maternal, se esforçava em penetrar o sentido das expressões vagas e figuradas de uma poesia amorosa; agora surpreendia-me pela profundeza de vistas, com que antevia no futuro os sentimentos do filho; a mãe, cujos dotes vinham todos do coração, previra que a inteligência não se satisfaz só com sentimentos, e, na desigualdade de educação de Tomás e Paulina, encontrava a causa da infelicidade de ambos.

E que tentava ela para evitar o mal? É o que não pude saber então, baldados os esforços que fiz para o adivinhar.

Depois de mais algumas palavras, trocadas entre ambos, a senhora de Entre Arroios levantou-se, e, estendendo-me a mão afectuosamente, disse com um sorriso: — Vá dormir, Sr. D..., que eu vou pensar no futuro de meu filho.

Não me foi muito fácil conciliar o sono. O ânimo, sobressaltado pelas cenas que tinha presenciado, mal me permitia o repouso.

No dia seguinte levantei-me cedo. Desci à sala, onde já encontrei D. Margarida fazendo preparativos para a partida de Tomás.

Exigências, a que não podia faltar, me obrigavam de facto a partir naquela manhã para o Porto, bem mais depressa do que contava e, direi, até, do que desejava.

A senhora de Entre Arroios mostrava-se preocupada, mas não aflita. A despeito das leves rugas, que lhe sulcavam a fronte, entrevia- se-lhe um fundo de serenidade na fisionomia, que me fez julgar que a noite fora fiel desta vez à sua fama de boa conselheira. Ao ver-me, D. Margarida exclamou; — Que pressa de nos deixar, Sr. D..., são seis horas e já erguido 1 — E porque não há-de antes dizer V. Ex." que foi para gozar por lis tempo da sua companhia que assim madruguei? — Porque é tão lisonjeiro que me custa a acreditar. Passou bem — Optimamente. V. Ex." é que, se me não engano, dormiu pouco.

— Não dormi nada.

— E aproveitou ao menos a vigília? — Espero que sim.

Tomás juntou-se connosco. As faces abatidas, os olhos vermelhos, as feições decompostas, denunciavam que ele também não havia dormido.

A vista dos preparativos da partida não pôde reprimir um suspiro.

Depois de cumprimentar a mãe, dirigiu-se à janela para ocultar as lágrimas, que lhe vieram aos olhos.

D. Margarida saiu igualmente comovida.

Eu reuni-me a ele.

— Deve-lhe ser custosa esta separação ? Abanou a cabeça afirmativamente. A comoção impedia-lhe o falar.

— São alguns anos de provação — continuei — para depois apreciar melhor a ventura.

— Alguns anos! Como diz isso! E que hei-de eu fazer durante esse tempo? — O estudo o distrairá.

— O estudo! Pois julga que assim como estou poderei entregar-me a algum estudo sério ? — E porque não ? — Se soubesse... Parto com o desespero no coração.

— Não diga desespero, pois não tem a esperança no futuro? A senhora D. Margarida terminara enfim os preparativos de jornada, sem que a menor omissão se pudesse notar à sua previdência maternal. E quanta resignação lhe não fora precisa! Passámos à sala do almoço, e cada vez a tristeza a tornar-se maior! Fazia lembrar um destes dias de Inverno, em que a escuridade cresce, cresce cada vez mais até rebentar a chuva.

A mãe e o filho surpreendiam-se por vezes, olhando um para o outro, com os olhos arrasados de lágrimas.

Enfim o momento chegou.

Tive eu de anunciá-lo; de outro modo quando chegaria ? — Vamos ? vi-me forçado a dizer.

Um olhar, dolorosamente expressivo, trocado entre os dois, seguiu-se a esta palavra.

— Adeus, meu filho! — disse a senhora de Entre Arroios, desfalecendo- lhe a voz.

O resto imaginai-o como a experiência vo-lo terá mostrado, se não sois privilegiados do destino.

Um abraço prolongado, em que mãe e filho se cobriram de lágrimas e beijos, anunciou aquela primeira separação.

— Então, então, Tomás, mostra-te homem — dizia a senhora de Entre Arroios, sufocada em pranto — isto é uma criancice. Dentro em poucos anos voltarás e... hás-de ser feliz, prometo-te.

— Adeus, mãe, adeus. Pense em mim e lembre-se de... de Paulina, — E qual é a mãe que se não lembra de seus filhos ? Tomás desprendeu-se-lhe afinal dos braços e dirigiu-se comigo, que não partia também sem saudades, para a próxima estação das diligências do Porto.

Da casa de Entre Arroios avistava-se, em uma grande extensão, o caminho que seguíamos ambos, e assim, a cada passo, parávamos na carreira, para que Tomás lançasse mais uma vez um olhar de despedida àquelas janelas, com as quais tantas recordações deixava, e de onde a mãe lhe enviava o último adeus.

Perdemo-las enfim de vista, e por largo tempo caminhámos silenciosamente ao lado um do outro.

O caminho que seguíamos, estreito e orlado de silvas, conduziu- nos a um pequeno largo, coberto de relva, no centro do qual se elevava um cruzeiro de pedra. Frondosos carvalhos assombravam este lugar solitário e imprimiam-lhe um aspecto verdadeiramente pitoresco.

Quando nos aproximávamos, pareceu-me divisar no pedestal da cruz um vulto, que a meia obscuridade, que se conservava ali, me não deixou reconhecer logo. Tomás, com os olhos abaixados, não atentara nele.

Mais perto percebi esta forma mover-se, atraída, ao que parecia, pelo ruído dos nossos passos; ao ver-nos, ergueu-se subitamente e reconheci- a.

Era Paulina.

Se na véspera já admirara a figura graciosa da pequena leiteira, tingida com o rubor da modéstia, mais me surpreendeu desta vez a sua fisionomia, verdadeiramente bela, desmaiada pela palidez do sofrimento. Os cabelos soltos, as mãos juntas, nas faces vestígios de lágrimas recentes, assim naquele lugar e aos pés da cruz, recordava uma dessas virgens, cuja fé e martírios valeram tantas páginas de verdadeira poesia aos anais da religião cristã.

Tomás, como se escutasse uma voz interior, elevou nesse momento a cabeça e contemplou com amor a aparição.

Paulina, rápida como o relâmpago, correu para ele e cingiu-o com os braços, cuja alvura, pouco vulgar no campo, mais realçava ainda sobre o escuro dos vestidos de luto.

A minha presença não reprimiu este acesso de violenta paixão.

— Sei tudo! — disse ela, sufocada pelo choro. — Sei tudo, Tomás! Olha, até aqui amei-te com um amor de criança, mas agora — acrescentou, desviando-lhe da fronte os cabelos com movimentos quase febris — agora, hei-de amar-te como uma mulher, adorar-te... como escrava.

E, unindo os seus lábios aos dele, confirmou esta singela confissão por um ardente beijo.

— Paulina! — disse Tomás quase em delírio.

— Mas para que partes ? — continuou Paulina em tom de voz sada de meiga exprobração.

— Era vontade de meu pai.

— E eu, Tomás, que farei eu só aqui? — disse a pobre rapariga, afastando brandamente de si a fronte do amante e olhando-o com ^pressão de saudade inquieta.

— Então, Paulina, queres tirar-me o ânimo de...

Estas palavras operaram súbita transformação em Paulina. Estremeceu como se acordasse de um sonho importuno, ergueu a cabeça, enxugou os olhos com as mãos, e afastando para trás as negras tranças, disse com um sorriso forçado e a voz abafada e trémula: — Não, parte, parte! — E, como receando comover-se de novo, desprendeu-se por gracioso movimento dos braços de Tomás, e desapareceu.

— Paulina! — exclamou Tomás, como tentando segui-la.

— Deixe-a partir! — disse-lhe eu — não tornará menos amarga a despedida, prolongando-a.

— Oh! meu amigo — murmurou Tomás, apertando-me a mão.

Era a primeira vez que me concedera este título, que nunca depois me negou.

Dentro de alguns minutos partíamos silenciosos para o Porto, sentados um ao lado do outro em um dos bancos da diligência da manhã.

VII

TOMÁS demorou-se pouco tempo no Porto. Indiferente a tudo, desde a sua partida de Entre Arroios, facilmente se resolveu a embarcar para Paris, quando, cumprindo a recomendação de D. Margarida, o animei a seguir ali um curso qualquer, demorando-se com esse fim os anos que lhe fossem necessários. Dentro de um mês, acompanhei-o a bordo de um navio que partia para o Havre de Grace.

Tomás parecia deixar em Portugal as esperanças de felicidade.

Ao despedir-se de mim, o seu desalento era completo.

Escrevi a senhora de Entre Arroios a dar-lhe parte do acontecido, e relatando-lhe até à menor particularidade a partida do filho.

Recebi em resposta uma carta, na qual ela, depois de me agradecer exageradamente este pouco que eu havia feito por Tomás, me dizia que, achando a casa de Entre Arroios insuportável, depois da partida do filho, resolvera fazer uma excursão durante a ausência dele, para iludir saudades. Não sabia ainda para onde iria, e que tempo se demoraria na viagem, e por isso me avisava que não lhe escrevesse, antes de primeiro receber carta sua.

voltar a Entre Arroios, e minhas próprias canseiras, reunidas j acção do tempo, foram combatendo em mim cada vez mais a memória das cenas, que, no curto espaço de três dias, eu presenciara, e que me haviam feito participar dos sentimentos de uma família, pouco antes para mim desconhecida.

De Tomás nada mais pude saber, do que de sua mãe.

Depois de uma carta, ainda repassada de saudades, em que me noticiava sua chegada a Paris e a resolução que tomara de seguir o curso na faculdade de medicina, enchendo o resto a falar-me de Paulina, não soube mais notícias dele.

Alguns portugueses chegados de Paris, a quem interroguei, não o tinham visto, ou davam-me a seu respeito informações inexactas.

Assim se passaram seis anos.

Um dia, chegando a casa, recebi uma carta que me viera pelo paquete; trazia o carimbo de Saint-Nazaire.

Abri-a, ignorando quem me escrevia, tão remota, confesso-o, me andava já a ideia do pequeno Tomás, em quem me habituara quase a não pensar.

Contudo, a carta era dele, e concebida assim: «Meu caro D...

«Com razão me deve supor uma criatura bem desagradecida.

«Nem eu sei como justificar-me do conceito. Contudo não me chame volúvel, não pense que os fulgores de Paris puderam ofuscar na minha memória as cenas da pátria, e principalmente as últimas, que em um momento decidiram do futuro da minha vida inteira. Não julgue, se não quer ser injusto também. Ainda a saudade me fala delas, e a esperança me faz palpitar o coração, mostrando-me próxima a época de ver realizados aqueles meus antigos sonhos — sonhos que nunca me abandonaram, felizmente. Não lhe tenho escrito, não me pergunte porquê, que mal lho poderei dizer. Não me absolverá sem penitência? A esperança faz parte da bagagem do pecador; eu não desanimo.

«Estou em Saint-Nazaire. Não me foi possível partir como desejava neste paquete, o que espero fazer para o seguinte.

«Conto, pois, abraçá-lo dentro em pouco, convidando-o desde já a acompanhar-me a Entre Arroios, para assistir à inauguração da minha felicidade.

«Paulina espera-me. Minha mãe tem-me escrito e informado, mês por mês, do viver de toda a minha gente em Entre Arroios. Os dias continuam a correr-lhe ali naquela santa placidez em que eu fui criado e onde só vejo a minha felicidade, se nisso não consiste a felicidade de todos, Adeus; breve conversaremos.

«P. S.— Que cabeça a minha! Ia-me esquecendo participar-lhe que me formei em Medicina. Satisfiz a vontade de meu pai. Pude relacionar- me com algumas das principais capacidades literárias e cientificas de Paris, e acho-me um pouco pior de uma impertinente doença que daí trouxe — a poesia. Adeus, adeus; hei-de falar-lhe com mais vagar de minhas viagens pela França, e de outras ainda mais do meu gosto, por um mundo menos real.

«Seu afeiçoado, Tomás de A velar.»

Esta carta trouxe-me novamente à recordação todas as cenas passadas em Entre Arroios.

Seis anos tinham decorrido, os seis anos que D. Margarida marcara à ausência de Tomás. O que se passara durante este tempo e o que se ia passar agora? Tomás via eu, com verdadeiro prazer, que se não esquecera em Paris da sua desposada de Entre Arroios.

Mas o que sobretudo me maravilhou foi o ter D. Margarida escrito ao filho por todos os paquetes, descrevendo-lhe a vida de Entre Arroios, a qual correra, segundo me dizia Tomás, com a placidez costumada.

Logo não havia ela, como me tinha dito, abandonado a aldeia.

Porque não me escreveria então? Por mais que cismasse, não me foi possível encontrar explicação satisfatória, e não pensei mais nisso.

Passado um mês, entrava Tomás no meu quarto e apertava-me nos braços com verdadeira alegria.

Algumas alterações sofrera nele a fisionomia durante os anos que vivêramos separados. O rosto perdera a expressão infantil que tinha ainda em Entre Arroios, quando pela primeira vez o conheci: era agora uma face mais varonil, mas tão nobre e inteligente como dantes.

— Então, mon cher docteur—disse-lhe eu — ei-lo de volta? e sem que toda a sua ciência, ao que parece, tenha conseguido curá-lo de uma doença de coração, com que partiu.

— Venho pior, muito pior — respondeu-me sorrindo.

— Deveras ? Pois confesso que receei nos aparecesse curado.

— Receio bem pouco lisonjeiro para o meu carácter.

— Isto não é questão de carácter. São mistérios do coração, que eu desculpo e respeito quase.

— Seja o que quiser. Agora vamos a saber: está disposto a acompanhar- me a Entre Arroios ? — Da melhor vontade, — Partimos amanhã ? — Hoje que queira.

— Seja hoje.

Passámos o dia juntos. Contou-me a sua vida em Paris, vida exemplar para um rapaz daquela idade; seus felizes sucessos na Escola de Medicina, onde fora reputado entre os melhores, e suas pequenas fortunas literárias, como afrancesadamente ele dizia.

Tomás voltava com uma instrução sólida, uma superioridade de vistas, um gosto apurado, que me fizeram lembrar dos receios da senhora de Entre Arroios.

Como poderia de facto esta inteligência satisfazer-se com o espirito inculto de uma rapariga aldeã, depois de saciados os primeiros ardores da paixão? O plano de D. Margarida piorara a situação, ao que me parecia, exagerando a desigualdade.

Dei a entender isto mesmo a Tomás, ele sorriu.

— Sossegue — respondeu-me — vi lá por fora muitas mulheres, a quem d espírito havia estragado, alienando-as aos gozos de família, para me inquietar por tão pouco.

Conquanto reconhecesse algum fundo de verdade nestas palavras, as minhas apreensões não se desvaneceram totalmente.

Estivemos à noite no teatro, onde pude admirar ainda melhor a extensão e variedade dos conhecimentos artísticos de Tomás.

Saindo do teatro, introduzimo-nos em um cupé, e por aquele mesmo caminho que, seis anos antes, seguíramos em direcção oposta e com bem diversos sentimentos, dirigimo-nos para Entre Arroios.

Ao romper da manhã avistávamos os telhados das primeiras casas da aldeia.

O tecto elevado de Entre Arroios, com a sua alta clarabóia, não tardou também a despontar no horizonte.

O olhar de Tomás brilhava neste momento, o sangue afluía-lhe ãs faces, palpitava-lhe o coração com violência.

— Conheço-vos ! conheço-vos ! — dizia ele — árvores da minha infância! Conheço-te, berço dos meus primeiros anos e que espero serás o descanso dos últimos. Nenhum monumento, nenhum espectáculo grandioso das capitais que percorri me fez esquecer de vós, testemunhas da minha ventura e dos meus primeiros sonhos de amor. Oh! meu amigo ! — continuou, • apertando-me a mão — sou verdadeiramente feliz. Parece-me que deixei aqui a minha vida, e que a adquiro de novo ao respirar estes ares conhecidos, estes perfumes férteis em memórias de outros tempos.

E emudeceu, caindo em lânguida contemplação.

Estas cenas também me recordavam o passado; e o passado mostra-se-nos sempre através de um véu de saudades.

A aldeia, como todas as aldeias, sofrera poucas mudanças no espaço de seis anos.

As mesmas árvores, as mesmas sebes, os mesmos ribeiros e pontes, tudo fazia reviver em Tomás a memória dos primeiros anos.

Apeámo-nos para melhor gozar destas cenas, que tanto nos impresonavam.

Ao chegarmos ao lugar, onde Paulina ultimamente nos aparecera, Tomás parou a contemplar o humilde cruzeiro com um fervor quase religioso.

— Lembra-se ? — disse-me, sorrindo.

— Como se fosse agora! — Tem razão. Ao chegar aqui parece-me impossível que tenham já passado seis anos da minha vida! É como se acordara de um sonho de momentos.

Continuámos no nosso caminho até ao portão da quinta de Entre Arroios; ao levantar o braço para tocar a sineta, as forças abandonaram-no e deixou-o pender, como exausto por esforço prolongado.

A comoção dominara-o completamente.

Toquei eu. Respondeu-nos a voz conhecida dos mesmos cães.

Seguiram-se-lhe os passos trôpegos de um velho criado, o mais antigo na casa de Tomás, e companheiro do pai nas tormentas do mar e na refrega dos combates. Hoje, imitando Cincinato, deixara a espada pela enxada, que o bom homem pensava, como o poeta, ser:

Morgado e não pena dos filhos de Adão.

Ao encarar-nos, o velho hortelão fez um gesto de surpresa e levou a mão ao chapéu para nos cumprimentar; mas, afirmando-se melhor em Tomás, reconheceu-o, e arrojando a incrível distância o chapéu que já empunhava, gritou abrindo os braços: — Ai o Sr. Tomazinho! E, esquecendo toda a etiqueta, levantou-o ao ar, como lhe fazia em criança. Tomás correspondeu com efusão ao cumprimento.

— Minha senhora! minha senhora! — bradou o velho — aqui está o senhor...

A mão de Tomás interrompeu-lhe as palavras. Ele meditara uma surpresa.

Mas que mais era preciso para avisar o coração de mãe? A porta da casa abriu-se, e, com uma agilidade superior à sua idade, D. Margarida percorria em um momento a avenida, que a separava de nós, e caía nos braços do filho.

Eu, que naturalmente nem fora ainda notado, vi então avançar não menos alvoroçada, porém mais tímida, a poética aparição do cruzeiro, Paulina. Vestida ainda à camponesa, porém com um gosto e elegância pouco vulgares, parecia-me uma dessas pastoras ideais que sonhava a poesia do século de Luís XIV, sonho tantas vezes contado em idílios, sonetos e madrigais.

Não direi que Paulina fosse mais bela do que quando a deixara mos, mas o que havia era um não sei que particular naquela fisionomia, que me impressionava, sem poder dar a razão disto.

O sangue dos vinte anos, que animava agora em mulher a criança de então, explicava muito, mas não me explicava tudo.

Em vez de saltar, como outrora, ao colo de Tomás com uma confiança toda infantil, parara interdita, trémula, contemplando-o com ar apaixonado, invejando talvez aqueles beijos que D. Margarida lhe roubava, mas não ousando disputar-lhos. Esta, porém, depois de dar expansão ao próprio júbilo, abriu o coração a sentimentos menos egoístas e pôs em prática o que eu considero como a décima quinta obra de misericórdia: reunir os que se amam. Assim, depois de um último beijo, a boa mãe tomou pela mão Paulina e impeliu-a para os braços de Tomás, dizendo simplesmente: — Ei-la.

Tomás pareceu fascinado pela beleza da sua desposada. Talvez que experimentasse ao vê-la a mesma impressão que eu já sentira.

Não foi com a antiga confiança, antes com um sentimento de respeito que a cingiu ao seio e a beijou na fronte, beijo, que apesar de tudo, não deixou de a fazer corar excessivamente.

O resto desta cena adivinha-se, que eu sou tão incapaz de descrever as alegrias da volta, como as tristezas da partida.

VIII

SATISFEITOS os primeiros transportes do amor materno, D. Margarida concedeu-me atenção, e mostrou-se para comigo tão afectuosa como dantes.

Desculpou-se como pôde, de me não haver escrito, e não tocou em os seus projectos de viagens, evitando habilmente falar-me nisso, quando eu para aí tentava dirigir as minhas investigações.

Tomás veio encontrar algumas mudanças nos hábitos da casa.

Faltava ali o abade, que havia um ano tinha morrido de ataque apopléctico, consecutivo a uma indigestão de lagosta. Pobre homem! vivera para o estômago e o ingrato sacrificou-o! Era destino! Ele pertencera a um mosteiro de beneditinos, célebres por um invento gastronómico.

Melhor que ninguém aprendera ali a preparar a decantada farinha de S. Bento, substancial gulodice, com que os bons monges de Santo Tirso aplacavam, segundo diz a lenda, as iras estomacais de um monarca português, e segundo o bom senso afirma, as iras, não menos temerosas, das suas próprias vísceras monásticas.

Seja-lhe mais leve a terra, do que lhe foi o último banquete.

Notava-se também a falta do doutor Teófilo, que, desesperando de levar a efeito o consórcio com D. Margarida, dirigia actualmente as suas amáveis atenções a uma rica brasileira das proximidades, nutrindo o amor com mandioca e banana.

O médico era dos três o único presente, e se não receasse abusar da força da concepção do leitor, pedir-lhe-ia que o imaginasse mais magro ainda, do que quando pela primeira vez lho apresentei. Empregava ele os maiores esforços para não falar diante de Tomás em assuntos de medicina. Renovava de algum modo a fábula do estatuário e

... on le vit fremir le premier Et redouter son propre ouvrage

que obra sua dizia ele ser a formatura de Tomás.

A aldeia não ficou pouco surpreendida, quando, passados dias, se anunciou o próximo casamento de Tomás com Paulina...

Julgava-se já isso coisa esquecida. A nova estalou pois no meio do círculo como uma bomba, e conjuntamente em frase vulgar, estalou uma castanha na boca a muitos pais e mães de família, produtores e expositores de jeunes filles à marier, nesta pequena exposição de Entre Arroios.

O médico, visivelmente contrariado, informou-se logo se Tomás tencionava persistir na aldeia, depois de tomar novo estado. Tomás respondeu que sim, porém, como para o acalmar, acrescentou que não estava disposto a exercer a clínica, a não ser gratuitamente aos pobres.

O nosso Esculápio não morria de amores por esta parte da clientela, e por isso louvou excessivamente a caridade do novo doutor, e esquecendo até o habitual laconismo, citou, no ardor do entusiasmo, Hipócrates recusando os presentes de Artaxerxes, facto da vida do médico de Cós, que o bom do homem, lá para com seus botões, julgava redonda parvoíce.

A família de Entre Arroios passou a viver uma vida toda interior e a gozar de uma serenidade que me deliciava.

Paulina mostrava-se terna, sensível e ingénua como dantes. Tomás parecia idolatrá-la. Ao serão, enquanto ela trabalhava em costura e a Sr.» D. Margarida, cuja vista cansada já lhe não permitia essas folias, dobava meadas com os movimentos regulados de um autómato. Tomás, sentado defronte delas, descrevia, até aos mínimos pormenores, a sua vida em Paris. A mãe escutava-o encantada. Por vezes as duas mulheres suspendiam o trabalho, para seguirem a narração nos pontos mais interessantes; por vezes D. Margarida trocava com Paulina, a quem votava uma afeição verdadeiramente maternal, um olhar e um sorriso, cuja significação eu não podia decifrar.

Conservei-me nesta casa até ao casamento de Tomás, que se efectuou passados quinze dias.

Foi um facto notável na aldeia.

Não se falou em outra coisa por muito tempo senão no jovem doutor, e na fidalga, conduzindo pela mão ao altar a Paulina, vestida ainda com os costumes do lugar, apenas mais artisticamente dispostos que os das outras raparigas em quem esta particularidade, compensada pelas maneiras modestas da noiva, longe de lhe atrair invejas, antes parecia despertar simpatias.

A senhora de Entre Arroios andava nesse dia visivelmente satisfeita.

— E os seus receios, minha senhora? — disse-lhe eu, em um momento que estivemos sós.

— Cuida que os perdi já? — respondeu-me sorrindo.

— Pois acaso?...

— Receio como dantes.

— Então...

— Acabe.

— Mas compreendo a alegria de V. Ex." neste momento, porque...

— Pareçe-lhe uma mãe desnaturada; não é isso ? — Não digo tanto, mas...

— Com o tempo falaremos.

E riu-se.

Na tarde desse mesmo dia, que era um domingo, percebendo que havia alegria suficiente naquela casa, para que a minha ausência pudesse ser muito sentida, despedi-me dos noivos e da senhora de Entre Arroios, e montei a cavalo para o Porto.

Ao sair de uma encruzilhada ouvi atrás de mim passos de cavalgadura.

Voltei-me; era a tradicional mula do médico, com seu descarnado senhor, cujas pernas retesadas e divergentes, lhe davam aparência de um ipsilo voltado.

— Então já de partida, meu caro ? — exclamou de longe ao avistar- me.

Esperei-o e caminhámos a par pela estrada.

— É verdade. Deixei a felicidade a substituir-me. Espero que se não queixarão da troca.

— Então sempre casou o Tomazito? Eu não pude assistir; tive um recado com pressa. E então que me diz de toda esta história? — Digo que o Tomás fez a sua felicidade.

— Ora não me venha com isso. A rapariga não tem nada de seu, e aquele rapaz podia aspirar a um bom casamento.

— Bom em que sentido ? — Essa é boa! Olhe que isto de casar é uma coisa séria.

— Não duvido e nem julgo que o Tomás o fizesse a rir. O doutor sabe tão bem como eu os pormenores deste casamento...

— Romances! O que me admira é a D. Margarida! Nunca esperei dela...

— Ora, meu caro senhor, isso não é assim. A mãe e o filho tiveram muito tempo para pensar nisto. Não foi um passo inconsiderado.

— Mas se eu lhe digo que D. Margarida não tem a cabeça em seu lugar ! — Ah! não sabia! — Pois é facto. Não me dirá o senhor o que ela fez durante cinco anos? — O que ela fez ? .— Sim; debalde penso nisso. Quebro a cabeça e não acho nada I Sorri-me da ingenuidade da confissão.

— Então não acha nada ? — E quebra a cabeça? É verdade.

— É mau sinal — não pude deixar de observar a meia voz.

— Mas o senhor não me diz o que fez D. Margarida? — teimava ele.

— Mas o que havia ela de fazer ? O que dantes fazia.

— E aquela viagem ! — Que viagem? — Uma viagem de cinco anos.

— Ah! pois D. Margarida...

— Um mês depois do pequeno partir, saiu também da terra com Paulinita, e lá andaram cinco anos... sabe Deus por onde.

— É singular! mas ela disse-nos que...

— Se eu lhe afianço que ela não tem o juízo em seu lugar! Nisto chegámos ao ponto onde nos devíamos separar. O doudespediu- se de mim, firmemente convencido de que a família de Entre Arroios não era forte em senso comum, e que aliás abundava nele.

Conquanto eu não adoptasse absolutamente esta opinião, nem em uma nem na outra parte, não podia deixar de reflectir no carácter excêntrico da senhora de Entre Arroios e na causa deste segredo, que ela parecia querer manter a respeito da sua viagem; segredo que só a sua muita táctica e o isolamento em que vivia a família lhe poderia assegurar por muito tempo.

Cheguei ao Porto com as melhores disposições, e em breve deixei de pensar no carácter e mistérios da senhora de Entre Arroios, os quais me satisfiz em explicar por um dos muitos caprichos de mulher; explicação, que à semelhança de muitas teorias em ciência, deixava o facto na mesma obscuridade.

Tomás, todo absorvido pela sua felicidade, não me escreveu por muito tempo. Nem tive durante um longo período, notícias de Entre Arroios.

Um dia apareceu-me finalmente uma carta de Tomás, na qual ele se dizia extremamente venturoso; só lamentava não me ver a seu lado e pediu-me que o visitasse breve.

Não me foi possível aceder então ao convite, Pouco tempo depois recebi segunda carta. Os mesmos protestos de felicidade e lastimava que não houvesse nas imediações ninguém com quem se conviver. Havia aí um parágrafo que me deu que cismar; era assim: «...e agora o Inverno aproxima-se. Já mo andam a anunciar estas pesadas nuvens de mau agouro, que obscurecem a cada passo a limpidez do céu. Confesso-lhe que me assusta um pouco esta perspectiva.

Com o Inverno vêm as noites compridas. Não me dirá no que as hei-de passar aqui?» — Noites compridas? — disse eu comigo ao ler, e lembraram-me as apreensões da senhora de Entre Arroios.

A estas seguiram-se outras cartas, nas quais Tomás me falava largamente de assuntos de literatura, de artes e de ciências. Eram verdadeiras expansões de um homem de talento, que de ordinário se vê obrigado a sufocá-las.

Na última deixava-me entrever vagamente a ideia de uma próxima viagem ao Porto.

Estes sintomas principiavam a inquietar-me, quando passados dois meses recebi uma pequena carta de D. Margarida, que continha estas palavras apenas: «Meu caro Sr. D...

«Olhe que os meus receios principiam a realizar-se. Convido-o a que venha examinar o meu doente e talvez a presenciar a cura.

«Sua dedicada, Margarida de Avelar.»

Esta carta, quase enigmática, excitou a minha curiosidade e foi com o mais vivo interesse que nessa mesma tarde tomei bilhete nas diligências e parti para Entre Arroios.

A primeira pessoa que encontrei foi Tomás passeando em uma alameda vizinha com um livro na mão.

Ao ver-me deu quase um grito de surpresa e abraçou-me com efusão. A minha presença parecia satisfazer nele uma necessidade.

Apresentou-me logo à mãe, que, ao cumprimentar-me, sorriu e me fez sinal de não falar a Tomás na carta que eu recebera dela.

Paulina também me acolheu com agrado, e, contra o que eu receava, pareceu-me Intimamente satisfeita.

Era bela como sempre. Tomás mostrava-se em extremo afectuoso para com ela. As vezes contemplava-a em uma tácita adoração e quase em êxtase; mas um suspiro vinha quase sempre terminar esta contemplação silenciosa.

Seria Prometeu ambicionando o fogo do Céu para animar a estátua ? A senhora de Entre Arroios, nestes momentos, olhava-me com um sorriso, como de vaidade satisfeita.

Ela via naquele suspiro realizada a sua profecia; mas eu avaliava muito bem a boa índole desta excelente senhora e a grandeza do seu amor maternal, para acreditar que isto lhe causasse o menor prazer, se ela não tivesse algum meio, meio que em vão tentei descobrir, para evitar-lhe as consequências.

Tomás saiu comigo, a instâncias da mãe e de Paulina, que ambas mostravam bastante empenho em que empreendêssemos este passeio.

Só com Tomás, que se despediu de sua mulher com um beijo afectuoso, tentei sondar a profundidade da doença, como lhe chamava a senhora de Entre Arroios.

— Vejo que se realizaram todos os seus votos; pode enfim zer-se feliz.

— Sim; extremamente feliz.

— Não tem nada que o penalize ? — Nada — respondeu em tom mais baixo e suspirando.

— Seja franco. Tem alguma coisa ? — Porque diz isso ? — Porque o acho preocupado. Triste quase.

— Oh! É engano.

— E quer que lhe diga o que o preocupa? — Mas...

— Oiça e fale depois.

— Pois diga.

— Há-de permitir me a franqueza.

— Exijo-a.

— Um pouco rude.

— Não lhe admito outra.

— Não tem direito para tanto, porque também a não usa comigo.

— Prometo-lha depois de ouvi-lo.

— Seja, e aí vai o que eu penso: se vou cometer uma indiscrição, perdoe-ma. O senhor casou por paixão e paixão violenta, que se não desvaneceu em seis anos de ausência. Sua mulher é bela, como poucas, extremosa e afável; possui um coração formado para simpatizar com o seu; saberá consolá-lo nas penas, exultar com as suas alegrias, receber e compreender as efusões do sentimento, mas...

— Mas ? — interrogou Tomás, com olhar de inquietação.

— Mas uma alma como a sua, Tomás, é mais exigente.

— Não, não é.

— Oiça. Há momentos em que isso lhe basta, em que essa reciprocidade, essa harmonia de sentimentos lhe parece a suprema ventura; bem sei. Mas há outros em que a inteligência aspira a encontrar- se com uma inteligência que o aprecie; ambiciona voar, engrandecer- se, elevar-se e não quereria achar-se só no espaço, desejaria outra para marcharem unidas, e essa outra não pode ser a de Paulina.

— Podia, se...

— Se se dessem circunstâncias, que se não realizaram.

— Há um fundo de verdade nisso que diz — respondeu Tomás — mas creia ainda assim que sou menos merecedor de exprobração, do que lhe parece talvez. Sim, é certo; lamento às vezes que Paulina não tivesse recebido uma educação superior, não por ambicionar quem possa satisfazer-me a vaidade de ser compreendido, apreciado, como diz; de estranhos pouco me importaria isso, mas por desejar ser em tudo compreendido por ela, tornar mais íntima esta identificação das nossas existências. Não lhe parece menos egoísta este sentimento assim ? — Por certo.

— E depois, sabe o que me consola ? É que esta necessidade de efusões é fictícia; as únicas verdadeiras e irresistíveis são as do coração.

Eu creio que ele sobrevive à inteligência. Alguns médicos chamaram- lhe o ultimum moriens; assim o considero também, referindo-lhe a vida dos afectos. Com a idade, as exigências do coração duram ainda, enquanto as da fantasia amortecem e acabam por se extinguir.

Isto em mim é uma crise que há-de passar; Paulina é a única mulher que podia realizar neste mundo a minha felicidade.

— Acredito, mas isso não tira que a desejasse animada pela luz da educação.

Torras ficou um pouco pensativo.

— Prometi ser franco — disse suspirando — hei-de sê-lo. É uma verdade.

— Bem dizia sua mãe. A cabeça domina agora o coração.

— Minha mãe! — Há seis anos que previra isto mesmo.

— Ela? É verdade que certas palavras vagas, certos olhares me davam a entender... e contudo eu próprio o duvidava ainda.

— Ânimo! É preciso vencer esse sentimento.

— Hei-de vencê-lo custe o que custar. Mas quando penso que aquela voz se perdeu para a música, aquela inteligência para a poesia!...

que aquele gosto, naturalmente delicado, se não exerce em lidas dignas dela!... quando me lembra de que aquele espírito, criado para voar, se não eleva por falta de asas...

— Agora recordo-lhe o que me disse quando chegou de França, lembra-se ? — o espírito aliena às vezes a mulher da vida de família.

— Oh! mas Paulina... — e interrompendo-se subitamente.— Vamos para casa. É pecar contra Deus ser tão exigente, quando se é tão feliz.

Caminhámos longo tempo silenciosos e quase tristes.

Ao aproximarmo-nos do pomar, uma vaga harmonia chegou aos nossos ouvidos; eram os sons de um piano.

D. Margarida introduzira esta inovação em Entre Arroios, depois.

que Tomás voltara de França, apesar de que só ele em casa tirava o instrumento do silêncio, em que dias inteiros se conservava, encostado à parede da sala principal, onde eu já uma vez me encontrei com o leitor.

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