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Serões da Província

Júlio Dinis

Ao ouvir os primeiros sons do piano, Tomás mostrou-se impaente.

— Ao que me parece, minha mãe recebeu visitas durante a nossa ausência. Que impertinência! Mas à medida que nos aproximávamos, as notas do instrumento tornavam-se mais distintas. A execução revelava uma mão conhecedora.

Tomás parou a escutá-las.

— Meu Deus! — exclamou surpreendido — quem pode tocar tão divinamente? De facto, quanto mais perto, mais sensível se tornava a mestria com que as teclas, ordinariamente mudas, eram movidas então, produzindo verdadeiros milagres de execução.

Uma voz feminina cedo acompanhou as harmonias do instrumento; cantava uma destas toadas melancólicas que nos comovem até ao fundo da alma.

Tomás apertou-me violentamente o braço em que se apoiava.

— Escute! — e depois acrescentou a meia voz, e como para si mesmo: — Paulina, se cantasse, devia cantar assim! Entremos.

Eu tive um sentimento de tristeza ao obedecer a este convite.

Esta mulher, quem quer que fosse, ia talvez exercer na imaginação de Tomás uma influência funesta para Paulina. De facto, reparando para ele, ao abrir a porta do salão, vi-o excessivamente agitado.

Entrámos.

A sala estava muito escura. Os últimos raios de um sol de Janeiro a custo podiam atravessar as cortinas de fina garça, que guarneciam as janelas.

Apenas me foi possível reconhecer D. Margarida, sentada ao lado do piano e parecendo não dar pela nossa chegada, absorvida como estava na contemplação da cantora.

Esta, voltada com as costas para nós, mostrava ser ainda jovem.

As tranças negras, artisticamente penteadas, realçavam sobre o vestido branco, em que se viam realizados os mil caprichos da moda.

A música parecia enlevá-la. Mostrava-se dominada pelos sentimentos que a canção exprimia. Cantando tristezas, a voz tinha modulações, que revelavam lágrimas, e para o desespero era o grito partido do coração ; para saudades dir-se-iam as notas maviosas da ave do crepúsculo para esperanças o trinado das que anunciam alegres a madrugada.

A voz desta mulher fascinava! Parámos à porta, a ouvi-la; a canção não se interrompeu e a letra tornou-se-nos inteligível. Fora semanas antes escrita por Tomás, em um dos seus momentos de exaltação, e em breve esquecida depois, como a tantas outras acontecia. Ao ouvir assim exprimir pensamentos que concebera, e palavras que havia escrito, Tomás adiantou-se pouco a pouco para a cantora. As pernas vacilavam-lhe, a palidez aumentava, parecia sob a influência de uma fascinação poderosa.

Mais vida! Meu Deus, mais vida!
Que a chama inda arde violenta,
E a alma, de viver sedenta,
Outros sonhos concebeu.

Ainda as derradeiras notas vibravam no espaço, já um grito de surpresa, um grito inexprimível lhe interrompia as harmonias, e Tomás recuava, exclamando: — Paulina! A cantora, que efectivamente não era outra senão Paulina, afastou violentamente a cadeira em que estivera sentada e lançou-se nos braços de Tomás.

A senhora de Entre Arroios chorava de comovida.

— Paulina, sim, Paulina — dizia a gentil menina, cobrindo o marido de beijos. Paulina, que te compreende, que sempre te compreendeu, meu pobre poeta, meu quase mártir! Aspiravas dar expansão à tua inteligência e receavas fascinar-me; mas tu não sabes que é à chama do teu espírito que eu me alento ? Querias elevar-te às regiões, onde a fantasia te chamava, e receavas despenhar-me da altura; mas ignoras que há muito eu te sigo aí, que estou contigo onde te julgavas solitário? Pois sabe-o agora, quero dizer-to assim, com os meus lábios unidos aos teus, quero gravar-to no peito, quero... ser digna de ti. Os versos que de noite confiavas à brisa, os cantos que a paixão te inspirava, recolhia-os eu no coração, repetia-os de manhã como a oração matinal; a melodia que encantasse teus ouvidos, guardava-a na memória, para a reproduzir mais tarde, para a extrair em notas sonoras deste piano, companheiro inseparável dos meus sonhos de felicidade, confidente de minhas esperanças no futuro; as paisagens que te agradavam, pedia ao crayon que as reproduzisse; os livros, que de preferência escolhias, lia-os e meditava-os na tua ausência, para me encontrar contigo também nas regiões do pensamento, para neles descobrir o caminho do teu espírito, como há tanto conheço o do teu coração, para um dia, entre beijos, te dizer como hoje, como agora te digo: Tomás, os teus pensamentos são os meus, as tuas aspirações são as minhas! Em qualquer direcção que elas te apontem, eu te acompanharei.

Partamos! E o entusiasmo animava as feições de Paulina, que parecia inspirada.

— Isto é um milagre do Céu! — disse Tomás, dominado pela comoção.

— Não, não, Tomás. É um milagre de uma santa, é o milagre de jya... de nossa mãe! — De minha mãe! — Não, meu filho — disse banhada em lágrimas de alegria a senhora de Entre Arroios, apontando para Paulina — é o milagre da inteligência dela.

— Minha mãe! Paulina! Oh! isto é de enlouquecer! Eu aproximara-me da senhora de Entre Arroios com um movimento de admiração. Compreendera enfim o mistério.

Os cinco anos de ausência de D. Margarida estavam explicados.

Tomás parecia duvidar ainda da realidade do que se passava neste momento. Temia ainda um desengano depois da alucinação.

— Tu és Paulina?!... —dizia ele contemplando sua mulher.

A dúvida era fundada.

Paulina, a gentil camponesa, oferecia agora sob novos trajes, cuja elegância e gosto mostravam que não desprezara o estudo da toilette enquanto cultivara os dotes naturais do espírito, novo aspecto à sua beleza.

Vendo-a, todos a diriam criada de pequena em um desses mimosos ninhos de rendas, onde vivem a infância as mais delicadas mulheres, que surgem depois borboletas, fracas em vigor, mas fortes pela fascinação que exercem.

Tomás caía de surpresa em surpresa. Paulina levou-o ao seu pequeno gabinete de estudo, no lugar mais remoto da casa, elegante santuário por ele ignorado até então. Aí tudo o extasiou. A história de seus poéticos amores ali renascia inteira; já em versos, que perdera ou deixara incompletos, já em mimosos desenhos, onde o lápis reproduzia os sítios mais queridos dos dois, todos aqueles onde se prendia uma recordação e uma saudade; em flores, em retratos, em mil pequenos nadas, com que se escreve a história de uns amores e que de futuro no-la recordam fielmente.

Enquanto Tomás e Paulina se esqueciam assim em amenas recordações, eu ouvia da senhora de Entre Arroios uma mais exacta explicação do milagre.

Logo depois da partida de Tomás, D. Margarida, obedecendo ao pensamento que tivera desde que lhe fora manifesta a paixão do filho, chamou Paulina para junto de si e fez-lhe compreender a necessidade de se elevar pela educação até à altura de Tomás, para assegurar a felicidade do seu porvir. A inteligência de Paulina, esclarecida pelo amor, compreendeu e aceitou com efusão o oferecimento da senhora de Entre Arroios.

Foram viver para Lisboa, sem o comunicarem a Tomás, que pela astúcia de D. Margarida continuou a receber cartas, pouco verdadeiras, datadas de Entre Arroios.

D. Margarida não se poupou a despesas para tornar Paulina perfeita nas artes e nas línguas. A inteligência natural da pobre menina, o ardor com que se votava ao estudo excederam toda a expectativa e surpreenderam os mestres. Em Lisboa corria-se com avidez para as soirées, aliás raras, onde Paulina cantava.

A tarefa que D. Margarida principiara, tendo só em vista a feli.

cidade do filho, completou-a com todo o amor do artista que se revê na sua obra.

Dentro de cinco anos Paulina era digna de Tomás.

A senhora de Entre Arroios não quis revelar a metamorfose da pequena leiteira, que para todos se conservou mistério. Era um bem desculpável amor-próprio, que desejava fazer sentir assim mais a necessidade da sua obra.

— E demais, quem sabe? — dizia ela, e eu admirava ainda neste ponto a sua penetração — quem sabe se Tomás sentiria então a mesma alegria, que sentiu agora? Ele amava Paulina tal como lhe aparecera havia seis anos; se a visse outra, se a visse mudada, talvez interiormente sentisse certo desgosto. Hoje era outra coisa. Viu como ele aceitou a transformação? E depois, aqui para nós — continuava a boa mãe com um sorriso espirituoso — de quando em quando não são de todo más estas metamorfoses entre casados. Avivam a luz, que se amortece.

Espero que não seja esta a última de Paulina, e a seguinte há-de ser ainda mais poderosa. Verá.

— Outro mistério, Sr.* D. Margarida? De que última quer falar? — Não temos mistério nenhum, homem. A última é a que é de esperar. A metamorfose da esposa em mãe.

Nisto entravam na sala a nova Paulina, como lhe chamava a senhora de Entre Arroios, e Tomás, o qual se mostrou esta noite mais espirituoso que nunca.

Ele tinha razão. A inteligência de Paulina só precisava de asas para voar ao lado da sua. Era um espectáculo interessante vê-los agora librarem-se no espaço e pairarem nas mais elevadas regiões, e D. Margarida, permita-se uma comparação que então me ocorreu, como o inventor dos primeiros aeróstatos, vendo-os cá de baixo subir, orgulhosa da sua obra.

Passei alguns dias ainda com esta família, regenerada quase, e, ao partir, trazia mais saudades do que nunca.

Tomás é feliz ainda hoje. Agora escreve-me poucas vezes, e não se lembra de que são compridas as noites de Inverno.

Paulina satisfaz-lhe às ambições de glória, como às ambições de amor. Se às vezes aspira a um espaço mais vasto para escrever seu nome, algumas páginas de seus escritos inéditos aparecem nas colunas dos jornais da época e são geralmente admiradas. Mas cedo se desengana que esta glória é menos real do que a primeira, e volta contente à sua feliz obscuridade.

D. Margarida é venturosa; descansa hoje a inteligência de seis anos de esforços. É nas crises que toda a grandeza do seu carácter se revela; agora entretém-se já um pouco a apoquentar os criados e encarrega-se de dar parte às leitoras do nascimento de um menino, que ela sustenta ser a cara do pai.

Eu, pela minha parte, quando nos embates continuados da vida me sinto desanimar, vou passar oito dias com a família de Entre Arroios, e venho curado.

O ESPÓLIO DO SENHOR CIPRIANO

DESDE que uma crença consegue radicar-se verdadeiramente na imaginação do povo, difícil é ao poder dos séculos ou à evidência dos factos desarraigá-la. Parece que à medida que um por um se vão quebrando os laços que a prendiam à razão e diminuindo a plausibilidade que dos espíritos sensatos a fazia ainda aceitar, mais atractivos ela ostenta à fantasia popular, sempre afeiçoada ao maravilhoso e impelida a correr atrás de uma destas sedutoras ilusões, como as crianças a perseguirem as borboletas através das campinas.

Quando o povo vê fugir, por inverosímil, do campo da discussão um facto controvertido, é quanto mais se apressa a recebê-lo como dogma, a adoptá-lo com a cegueira da fé; é então que o transmite aos filhos, à maneira de um novo artigo do seu credo religioso, e olha para o que se atreve a levantar a mão iconoclasta contra esses vagos objectos do seu culto ideal como para um ímpio, digno da fulminação celeste.

De historiadores e biógrafos se ri; não há provas nem documentos que valham para lhe fazer ver as coisas diferentes de como as imaginou ; mais vezes aqueles cedem até, sacrificando a exactidão à poesia, e admitindo em seus escritos a colaboração da pena popular. Por isso nas crónicas dos tempos passados é através das lendas que se pode procurar a história. Adornada com as galas e louçainhas do maravilhoso, é que o povo se apraz de acolher a tradição. Despida às mãos do historiador austero, parece afectar-lhe tão escandalosamente a vista, como a dos mais castos monges da Tebaida as formas nuas de tentadoras aparições.

Igualmente, ao lado da biografia exacta de um indivíduo, ainda dos mais obscuros, o povo refere de ordinário outra, menos documentada talvez, porém sempre mais curiosa.

Com olhar perscrutador penetra o seio das famílias a descobrir aí factos recônditos, pequenos incidentes da vida doméstica, onde, mais facilmente do que nos da vida pública, se reflectem os caracteres e as índoles.

Não julgueis que lhe basta a enumeração das batalhas, dos feitos brilhantes, dos serviços humanitários, dos actos civis do herói do dia; quer vê-lo em família, depois de despir a farda, a toga ou os arminhos, para envergar o modesto robe de chambre; aspira a devassar-lhe no modo de viver intimo e a estudar-lhe os hábitos; obriga a personagem da história a representar diante de si o papel de filho, de irmão, de amante, de esposo e de pai no drama da vida, e é então que mais interesse lhe excita, é então que aplaude; e quando lhe falecem as informações, inventa, recorre ao inesgotável tesouro da imaginação senão a alguma coisa de mais seguro. E nisto é o povo verdadeiramente admirável ! Há o que quer que é sobrenatural na maneira por que se lhe revelam às vezes segredos, sabidos apenas por duas pessoas, interessadas ambas em conservá-los ignorados ; não espera por provas, satisfaz-se já com indícios ; pronuncia-se, quando os mais prudentes hesitam, e, devemos confessá-lo, se em certos casos esta antecipação o leva ao erro, muitas vezes também, ou quase sempre, por caminhos misteriosos, o conduz a verdade.

Os boatos! Aí temos um desses problemas que desafiam toda a ciência humana. De onde partiram estas, deixem-me assim chamar-lhes, emanações subtis que aspiramos todos, os crédulos e os espíritos fortes, os ignorantes e os ilustrados, como todos contraímos a epidemia, cujo foco se desconhece? Suscita-se ãs vezes sobre qualquer indivíduo uma opinião que se diz pública, somente porque cada qual em particular se não atreve a reconhecê-la por sua; os factos conhecidos da vida desse homem parece desmentirem-na, todas as aparências lhe são contrárias, é humanamente impossível encontrar algures os fundamentos dessa crença, nascida não se sabe onde, propagada não se sabe como; e contudo persiste. Porquê? Quem o pode dizer? É, a meu ver, um facto da ordem de outros que observa o naturalista na história dos animais. É um fenómeno de instinto Na aproximação do Inverno, as aves viajoras reúnem-se em bandos para desertarem das paragens que parecia oferecerem-lhes ainda por algum tempo os últimos calores de uma estação favorável.

Que indício lhes revelou o perigo ? Quem lhes apontou o caminho de mais amenas regiões ? O instinto, respondem os filósofos; e a mesma lesposta obtereis, se o interrogardes sobre tantos outros maravilhosos actos que nos surpreendem, nos costumes de certas famílias zoológicas.

Concedam, pois, também ao povo instintos, instintos que o fazem adivinhar factos ocultos, como a ave pressente o Inverno, instintos sobre os quais se elevam juízos, que a razão prudente repele ao princípio, mas que tantas vezes o futuro vem confirmar mais tarde.

O povo tem uma fisiologia especial, que ainda está por escrever; concurso de individualidades tão heterogéneas, dá uma resultante, cuja noção não nos pode vir só do conhecimento isolado dos componentes.

Quem o fosse estudar por uma análise minuciosa, quem, por um quase processo anatómico o decompusesse em elementos, para um a um os examinar com escrupuloso cuidado, não o teria compreendido; não seria mais feliz do que se procurasse resolver o problema da vida dissecando um cadáver, e aplicando o microscópio a cada fibra de seus tecidos e órgãos. Onde os homens se reúnem em povo, uma influência oculta se lhes associa: uma como inteligência comum, daí os enigmas da multidão.

A solução destes enigmas não a procurem portanto nos indivíduos, que neles não reside; está na entidade colectiva; assim como o modo de reagir do sal neutro não se encontra no ácido, nem na base, seus elementos únicos; é o resultado da combinação.

Sirvam estas reflexões de prefácio ao caso modesto e obscuro que vamos narrar e que as exemplifica.

Por uma das tais vozes interiores, que entretém o povo dos mais recatados mistérios da vida de família, como se linguareiro duende lhos andasse segredando ao ouvido, era que em uma pequena cidade da província do Minho, havia muito se tornara opinião geral que Cipriano Martins, octogenário que vivia miseravelmente na mais estreita e mal esclarecida rua do menos limpo e povoado bairro daquela já de si não muito apetecível terra, não obstante tais aparências pouco inculcadoras, possuía fabulosas riquezas, e era devorado pela mais sórdida e inqualificável sovinice.

Nada podia modificar a opinião pública a este respeito; era absoluta, geral, intransigente, incapaz de vacilar, estável no seu posto, que defendia heroicamente contra o ataque combinado de todas as aparências ; sublime de pertinácia, admirável de resistência.

Nunca experimentara destas oscilações vulgares nas mais enraizadas crenças; nunca passara por as alternativas de desfavor que até as ideias mais generosas sofrem no correr das épocas, nunca; nem quando os aguçados cotovelos do velho Cipriano rompiam escandalosamente através das mangas coçadas e beneméritas do seu casacão de saragoça; nem quando aos olhos dos comentadores se patenteavam as laceradas plantas... das botas colossais de que o nosso Harpagão usava, ou as numerosas cicatrizes — vestígios honrosos de longos anos de assinalados serviços — que lhe crivavam as calças, onde cada fábrica de tecidos tinha um espécime de seus produtos combinados todos em artístico mosaico.

Cada vez que o inofensivo tema dos longos e pouco misericordiosos comentários populares, entrava em uma loja a comprar os parcos materiais de sua diária alimentação e estendia a mão para receber os trocos miúdos, aos quais, como outro qualquer, tinha direitos incontestáveis e garantidos por lei, havia nos circunstantes certo resfolegar de mofa que, ao voltar costas o velho, degenerava em bem significativas e nada equívocas exclamações.

— Olhem o unhas de fome! — Sume-te, porco! — É capaz de se enforcar por um vintém ! — Se lhe caísse um pataco ao Inferno, atirava-se lá para apanhá-lo, o tinhoso.

— Sovina! — A pobre irmã morre à míngua por causa da mesquinhez deste tesoureiro do Diabo.

— Come duas sardinhas barrentas, e cozinha só de três em três dias para não fazer despesa em lenha! Podem crê-lo ? — Junta, junta, para outros to gastarem! — O peso do teu cofre é que te há-de afogar na caldeira de Pêro Botelho! E assim por diante iam as apóstrofes, cada qual mais lisonjeira para a reputação do modesto velho, cujos nervos felizmente se não supraexcitavam com tais estímulos.

Tinha uns invejáveis nervos o Sr. Cipriano! a única das suas qualidades que lhe podiam invejar as leitoras.

Não há vício menos popular do que o da avareza, pela razão de serem poucos os que com ele lucram.

Assim Cipriano Martins era uma personagem antipática para os seus compatriotas.

Mas quem lhe vira o dinheiro? quem lhe descobrira a riqueza? Neste momento cada qual, interrogado à parte, encolhia os ombros, prolongava os beiços, enrugava a fronte, e respondia: — Diz-se.

Santa palavra! salvatério das asserções arrojadas! como a consciência fica tranquila quando, após uma afirmação, cuja responsabilidade não quer, a boca oficiosa te pronuncia! Descendente em linha recta daquele traditur dos historiadores romanos, tu és, como teu ilustre avô, o melhor e mais universal excipiente, em que se administram ao público fortes doses de boatos, que ele engole de mais boamente do que quantas pílulas tem arredondado de Hipócrates para cá os dedos dos boticários ou apregoado os Holloways de todos os tempos.

Cipriano Martins tinha uma vez por ano as suas liberalidades, circunstância que, longe de amenizar a rudeza dos juízos públicos a seu respeito, antes a exacerbava; pois de facto nunca mais alto subiam as murmurações como quando em sexta-feira santa saía das algibeiras do sóbrio velho para as dos pobres da freguesia a quantia realmente importante de... cem réis em moedas de cinco.

Então é que era ouvir o povo.

— Arrancou hoje cem fibras do coração.

— Tem para chorar cem dias, o velho.

— E para jejuar outros tantos.

— Se isto assim continua, aparece-nos de alguma vez o homem enforcado em sábado de Aleluia.

— Melhor, escusa o povo de queimar outro Judas.

Quando se entra na via das concessões é necessário não dar passos acanhados; sob pena de aumentar ainda mais a indisposição dos ânimos.

Consideração esta de longo alcance político, não obstante as aparências modestas que a revestem aqui.

Cipriano Martins caiu doente, e não chamou médico.

A câmara, que adoptava o pensamento público sobre o estado financeiro do seu patrício, recusava inscrevê-lo no quadro dos pobres, razão pela qual o não visitou o médico de partido.

A câmara andou assisada nisto e mostrou-se convencida da seguinte verdade, saída da boca de um grande vulto político: «Quando os governos não tomam espontaneamente a iniciativa no movimento das massas, são arrastados por ela.» Ora a câmara, que era o governo e não pouco respeitável, não tinha grande vontade de ser arrastada; um dos vereadores, mais que todos, em cuja caixa de rapé estava representado em gravura o fim trágico de Mazeppa, sentia de si para si um estremeção de grande desconforto só de ouvir o termo. Por isso, a câmara adoptou a opinião das massas, Esta subiu ao auge da indignação, vendo Cipriano desprezar a medicina.

— Olhem o miserável a regatear às portas da morte o preço da vida! — O homem tem razão — respondeu o barbeiro, a quem por consenso unânime fora decretado o diploma de espirituoso da terra — o homem tem razão, que bem conhece quão pouco ela lhe vale.

Este dito do ilustrado superintendente das mais respeitáveis barbas da freguesia foi repetido em todos os círculos com geral aplauso; e a reputação de aguçado satírico, de que há muito gozava o digno colega de Figaro, aumentou, se de aumento era susceptível ainda.

Cipriano Martins morreu, e então é que a curiosidade pública se pôs alerta, e, para entreter o tempo de espera, prestou ouvidos às historietas da imaginação. Esta fez o seu dever, nada deixando a desejar.

Cipriano a cerrar os olhos, e o público mais do que nunca a tomá-lo à sua conta. Discutiu-se-lhe a herança, avaliou-se-lhe a fortuna, apontaram- se os herdeiros, inventaram-se testamentos, fantasiaram-se cláusulas absurdas, anteviram-se demandas, devassaram-se esconderijos, arrombaram-se cofres, desenterraram-se riquezas monstruosas; isto tudo durante vinte e quatro horas, no fim das quais nem riquezas, nem esconderijos, nem cofres, nem herança, nem testamento, nem cláusulas e, por conseguinte, nem herdeiros nem demandas vieram justificar a geral expectativa.

Foi um desapontamento, que, a falar verdade, custou a digerir; os melhores estômagos imparam com ele e mais de uma vez foi regurgitado.

E toda aquela boa gente se punha então a ruminá-lo de seu vagar, sem que o fizesse mais digerível.

A irmã do morto, que de si para si nunca nutrira grandes esperanças, porque nunca tivera fé nas riquezas do mano, apresentou-se nesse mesmo dia, chorando, em casa do administrador a pedir-lhe que providenciasse para se fazer o enterro do velho Cipriano, pois, nas gavetas, só lhe encontrara uns cobres, que não bastavam para as despesas exigidas pela solenidade.

O administrador viera céptico de Coimbra, doença que apanhara nas margens do Mondego e que pelos modos se lhe tornara crónica no concelho, que, como diziam os jornais da época, tão dignamente administrava. Por isso olhou para a pobre Maquelina — pois era esse o nome dela — através dos vidros da luneta pendente, ao mesmo tempo que o mais incrédulo sorriso, que o espelho lhe aconselhara, vinha encrespar-lhe espirituosamente o lábio superior. Ao desbaste de crenças, que este magistrado sofrera, tinha por felicidade sobrevivido entre poucas a crença no espelho, um dos principais conselheiros a quem devia a manutenção da dignidade administrativa.

— Com que então só uns cobritos, diz vossemecê, hem? O bacharel fizera a descoberta de que este hem lhe dava às palavras certa melodia de bom gosto, e por isso o adoptara.

— Eis tudo quanto possuo — respondeu Maquelina, mostrando em patacos um cruzado, quando muito — V. S.ª bem vê — continuou — meu irmão tinha o seu pequeno negócio de socos, há muito em decadência; ele, coitado, estava velho e não queria oficiais... e agora com a moléstia... por mais economias que a gente fizesse, sempre eram despesas certas e nenhum dinheiro a apurar.

O administrador teve aqui um movimento de lábios, expressivo de inveterada descrença; e como para mais depressa se livrar do contacto de um ser humano, respondeu secamente: — Faça, se quiser, um requerimento à câmara, porque seu irmão não figura no quadro dos pobres.

E mais não disse.

Maquelina à palavra requerimento empalideceu. Fazer um requerimento é um negócio importante, um passo difícil na vida destes seres inofensivos e alheios a processos judiciais, a cuja confraria pertencia a boa mulher.

Mas que remédio! Saiu dali e procurou o presidente da câmara.

Era este um gordo merceeiro, cuja cabeça se podia dizer um vulcão de medidas tendentes todas ao melhoramento público e progresso social. Durante a sua feliz administração dos negócios municipais, contava actos realmente surpreendentes de tino governativo.

Seja-me lícito citar aqui alguns factos da vida pública deste não aproveitado estadista.

Os moradores de uma rua estreita, onde os beirais dos telhados fronteiros quase se encontravam a ponto de interceptarem a passagem da luz solar, queixavam-se da mania, desenvolvida em alguns vizinhos, de cultivarem frondosos arbustos nas sacadas das habitações, com grande incómodo e prejuízo dos queixosos, para os quais anoitecia mais depressa, graças à sombra impenetrável que projectavam os folhudos ramos na já de si pouco esclarecida rua. O sábio edil legislou à vista disso: «Ficam proibidas as árvores em todos os lugares onde a vegetação seja impossível.» Eu penso que se Montesquieu tivesse notícia desta lei havia de apreciá-la, pela admirável concordância com as da imutável natureza.

De outra vez os contribuintes pacíficos que habitavam próximo aos arrabaldes, lamentaram-se, em termos legais, pelas incómodas harmonias, com que todas as manhãs os despertavam os carreteiros com a infernal chiadeira de impertinentes carros. Pensava aquela boa gente que a sinfonia de ouverture da criação não perdia nada se lhe suprimissem da orquestra o pouco harmonioso instrumento. Atendendo à justa reclamação dos povos, o judicioso funcionário promulgou que: «Todos os carros que chiassem contra as posturas municipais, pagassem dois mil-réis de multa, sendo metade para o denunciante, dado o caso de serem ouvidos».

Já se vê que chiar contra as posturas era coisa séria; a câmara tinha susceptibilidades e ofendida chegava a multar... os carros.

Quando esta medida se discutiu em plena vereação, um dos camaristas levantou-se e deu mostras de querer falar.

— Peço a palavra, sr. presidente.

— Tem a palavra o ilustre colega.

— Eu desejava que se fosse mais severo contra os perturbadores do sono público e se desse maior alcance a esta medida policial, multando todo o carro que chiar, quer seja ouvido, quer não.

O conselho, atendendo porém a que não convinha ser demasiado ríspido com os povos e que os carros não sendo ouvidos, pouco podiam incomodar, adoptou a cláusula do autor do projecto, rejeitando a emenda.

E foi muito bem considerado.

Outra ocasião ainda, ouvindo o nosso homem discutirem dois bacharéis, classe de sábios que sempre respeitou, sobre a conveniência das Rodas, e vendo-os acordes na necessidade de importantes e radicais reformas nestes estabelecimentos, veio para casa pensativo, e o cérebro, fecundado por aquela ideia, lidou toda a noite em gestação mental, tendo no fim o seu bom sucesso, porquanto pela manhã c magistrado municipal apresentou à aprovação dos colegas a seguinte medida regulamentar:

«Toda a mãe que expuser seu filho sem um bilhete do município, fica tacitamente encarregada da educação deste.» A entender-se gramaticalmente a coisa, rude tarefa cabia à pobre da mãe, superior ao esforço humano.

Esta medida de um incomensurável alcance económico, por um triz ia passando.

Mas emperrou no advérbio tacitamente, que de facto era a maior palavra do período e que o legislador empregara para o arredondar; ele tinha lá suas ideias a respeito de estilo, não obstante viver antes das últimas reformas dos liceus, na qual pelos modos este assunto foi regulado de uma vez para sempre. Se a lacónica definição de Buffon é verdadeira, se o estilo é o homem, ninguém de facto como o nosso vereador podia fazer períodos mais rotundos. Mas o corpo camarário viu na frase não sei que sentido maquiavélico, e mostrou escrúpulos.

Em vão o digno chefe de tão respeitável corporação, com aquela abnegação quase estóica que o caracterizava, se prontificou a substituir esse advérbio por outro qualquer, sem escolha, tais como: restritamente, completamente, impreterivelmente, categoricamente, etc, etc; ele só queria salvar a beleza da forma; não houve de que, o conselho, entrando uma vez no caminho da desconfiança, não tinha por costume recuar.

Esteve ainda assim, vai não vai, a resolver-se pela adopção do categoricamente, agradado da eufonia da palavra; mas enfim nem esse admitiu, e a medida foi rejeitada.

Era pois diante deste vasto talento governativo que Maquelina fora enviada a implorar um diploma de pobre.

Louvado seja Deus! até isto se implora! — Mas — observou o judicioso presidente ao ouvi-la — pobre é todo aquele que não tem dinheiro.

Maquelina concordou. Pudera não.

A definição satisfazia a todos os preceitos mencionados no Genuense; curta, clara, etc, etc; e mais o nosso vereador não estudara lógica.

O homem continuou: E segundo é voz e fama vocês têm mundos e fundos.

Aqui principiava Maquelina a discordar, por infelicidade sua.

Em única resposta mostrou os cobres que trazia.

— Eis a minha riqueza.

— Pois sim, pois sim... mas... olhe, disso não quero eu saber.

É pobre ? Peça ao pároco e ao regedor um atestado, e depois,.. depois...

isso é com a junta de paróquia.

— Mas...

— Adeus, minha amiga, temos conversado.

E o oráculo emudeceu.

Maquelina ao sair levava uma cara, que seria a sua justificação, se o vereador acreditasse na ciência dos fisionomistas; mas parece-me poder atestar o contrário. O bom homem chamaria tolo a Laváter, se o tivesse conhecido.

Dali passou Maquelina a casa do pároco.

Eram horas da sesta e o reverendo dormia; único ponto de contacto que tinha com Homero.

E que sonol Bem pudera de seus paroquiais flancos elevar-se toda a bem provida árvore de Jessé, que está representada na nave direita da igreja dos Franciscanos no Porto, que ele rivalizaria em impassibilidade com aquele venerável patriarca, que a sustenta.

Quando o foram acordar, o pastor daqueles povos resmungou, moveu-se, voltou-se para o outro lado e... continuou a dormir. À segunda tentativa, tornou a resmungar, tornou a mover-se, a voltar-se para o outro lado e... tornou a dormir; à terceira, sentou-se na cama, esfregou os olhos, abriu a boca estrepitosamente e não deu acordo de si; pôs-se a olhar depois para o travesseiro com visíveis tentações de se precipitar de novo nele; obstou-o a criada, que voltou a chamá- lo â vida real. Então seguiu-se o descer do leito, o evacuar dos pulmões obstruídos por um catarro crónico, o fungar de uma farta pitada, e enfim apareceu o homem em toda a magnitude da sua...

gordura.

Dizem que o erguer do leito é a ocasião em que os monarcas são mais acessíveis a pedidos; o nosso abade, conquanto também cabeça coroada, não se parecia neste particular com suas majestades; pelo contrário, se havia para ele horas de mau humor eram as que se seguiam ao momento em que a inexorável força das circunstâncias o obrigava a emergir de entre os lençóis, oceano, onde voluntariamente aquele sol e mergulhava.

— Oh! oh! — bradou o indolente levita ao ver Maquelina — então foi-se o homem? — Assim o quis Nosso Senhor.

— E vamos a saber, quanto se herdou ? Maquelina exibiu os quatrocentos réis, que era todo o espólio em metal.

— Histórias da Maria Carocha — resmungou o abade zangado.

— É isto que digo a V. S.*: meu irmão...

— Não me venha contar tonilhos. Diga lá o que quer? Maquelina expôs o fim da visita.

O padre arregalou os olhos.

— Ui! Essa é de barbas! Eu hei-de atestar que você é pobre! Maquelina fez um sinal afirmativo.

— Ora, santinha, ora. E para isso fez-me acordar de um sono que... que...

— Mas, sr. abade, é a verdade que V. S.* atesta, e senão diga-me onde me encontra a riqueza? — Seu irmão há-de ter deixado somas fabulosas I — Pois venha V. Rev.ma ver e dirá depois. Jesus, meu Deus, procurem, procurem, oxalá que achassem, meu divino Pai do Céu — Enfim, mulher, não me meta em trabalhos; vá ter-se com o regedor, e eu, o mais que posso fazer, é confirmar lá na junta o que ele certificar.

Maquelina passou à regedoria.

O regedor era taberneiro, e naquele momento o seu duplo estabelecimento estava atulhado de fregueses.

As largas mãos deste vigilador da ordem pública distribuíam simultaneamente vinho e justiça aos circunstantes, e mais amplas medidas de justiça que de vinho a acreditarmos os consumidores.

A entrada de Maquelina causou sensação.

O regedor, em pleno gozo do seu funcionalismo, dignou-se interrogar a irmã do falecido, e os olhos da importante autoridade, pondo nela: — Então que a traz por aqui, Sr.* Maquelina? — disse com voz benigna. — Não é bonito andar assim já pela rua, quando tem seu irmão morto em casa. Que há-de dizer o público ?! Não sei de nada mais delicado, do que é este ser misterioso e respeitável por excelência, a que se dá o nome de público.

É singular como todos tomam a peito manter-lhe a veneração devida e se doem às mais levas infracções que esta sofre. Grita-se contra um facto escandaloso, pateia-se no teatro uma produção imoral, fulmina-se um procedimento menos honesto, em respeito ao público, já se sabe. Não me ofendi eu, nem vós, nem eles; interrogai-os um por um, nenhum se dará por ofendido, mas todos vos responderão com a fórmula: «e o público!» Porém valha-nos Deus, o público é exactamente constituído por mim, por ti, por vós todos que assim respondeis; como é, pois, que de elementos tão pouco susceptíveis resulta um produto tão melindroso? Cada qual no gabinete lê uma obra de duvidosa moralidade, ri-se, diverte-se com a leitura, e ninguém quererá admitir que ele lhe possa ter causado o menor prejuízo. Aí temos portanto uma obra inofensiva ; pois não é tal; antes a vemos proclamar um verdadeiro veneno servido pela imprensa ao público, um miasma que se ergue dos prelos, um fermento de dissolução de costumes, e outros nomes igualmente feios. A não vermos nestes factos a confirmação daquelas ideias, que nas primeiras páginas expendi, não sei que outra solução razoável daremos ao problema.

É certo, porém, que o público, citado pelo regedor, achava-se exactamente nestas circunstancias. Todos os presentes abanavam a cabeça em sinal de aprovação; nenhum pela sua parte se mostrava escandalizado com o extemporâneo aparecimento de Maquelina, mas o complexo pelos modos sofria muito com isso.

A referida observação da autoridade humedeceram-se os olhos de Maquelina.

— E que lhe hei-de eu fazer, Sr. Bento Maria ? Quem é pobre...

Houve sussurro na assembleia; o adjectivo parecia beliscar o auditório.

— Pobre! É sempre o mesmo estribilho — disseram algumas vozes.

O regedor serenou o tumulto, dirigindo-se a Maquelina.

— Bem, deixemos agora isso. O que a traz por aqui? Maquelina explicou-se.

A indignação dos circunstantes rebentou.

— Sempre é desaforo! — Também é preciso ter descaramento.

— É digna do irmão, já vejo.

— A alma do sovina meteu-se-lhe no corpo.

— Quem esconjura esta mulher ? • O regedor principiou a franzir a testa.

— Ora vejam a pobrezinha.

— Nosso Senhor a favoreça, irmã.

— Ora já viram! O regedor levantou-se.

— Quem enterra o mano ? — Forte perda, se fica de fora! — Aquele nem os bichos o querem.

— Leva rumor! Ai, que eu...—rugiu por entre dentes o regedor, e todos imediatamente... silent, arrectisque auribus adstant.

Pudera; o ai, que eu... do Sr. Bento Maria não ficou a dever nada ao célebre quos ego... de Neptuno. O regedor sabia, como Virgílio, o valor de eloquentes reticências.

Em auxílio da ordem veio de mais a observação de um circunstante, dotado de sentimentos mais humanitários.

— A mulher tem razão, coitadinha, se o miserável deixou tudo escondido.

As massas são fáceis de impressionar. O alvitre modificou as opiniões.

-— É assim, é assim.

— Pobre criatura! — Que vale tê-lo, se se não sabe aonde ? Por este tê-lo entendia-se dinheiro; é de facto o substantivo que mais elipses suporta; tão presente o trazem na ideia, que não necessita estar nas orações antecedentes, para ser subentendido.

— Sim, sim, ela tem razão, é pobre, é...

O regedor enfarinhado nas praxes constitucionais, não era homem que fosse de encontro à opinião dos fregueses e, portanto, depois de concentrar por algum tempo o espírito, operação que nem por isso lhe aumentou demasiado a energia, passou o seguinte atestado, modelo de diplomacia e de exactidão ortográfica: «Eu Bento maria do portal, regidor de esta freguesia atesto im como maquilina rosa martins, solteira, de esta Cidade, não tem, aberes para lazer, as despesas do intero do seu irmon cepreano cujo consta ter dinheiro. Mas o quecerto é que por morte se não incontrou i se é berdadeiro o dito do bulgo o debe ter, nalgum iscondrijo, que ainda se não inchergou. E por ser berdade o que Açupra, atesto e mo diserem pessoas diganas para mim de todo o Creto, pacei esta que juro.

«Dada em esta Cidade a 12 de Janeiro de...

«Bento maria do portal.»

Bento Maria era decididamente o funcionário público de mais expediente e de mais arrojadas medidas que existia então na cidade, Depois de mais algumas dificuldades e tropeços sempre se conseguiu enterrar, à ordem da junta de paróquia, o velho Cipriano, o qual de outra maneira bem teria de ficar fora do seio da terra, por não haver deixado dinheiro.

Todos estes acontecimentos, longe de desvanecerem os boatos das ocultas e sonhadas riquezas de Cipriano, os aumentaram, e deram lugar a duas versões diferentes.

Uns, mas eram a minoria, lançavam em rosto à pobre Maquelina o mesmo que haviam imputado ao irmão; outros, porém, viam nela uma vítima, ainda além da campa, da sórdida avareza do incorrigível octogenário.

Só Maquelina é que rejeitava urna e outra crença. Sabia-se inocente e não se acreditava vítima. E lutando com a idade avançada, tirava forças da fraqueza e ia provendo conforme podia ao seu sustento quotidiano.

Não pôde, porém, resistir inteiramente às insinuações dos que falavam em tesouros enterrados, e as portas da casa abriram-se de par em par a uma junta de inquérito, presidida pelo regedor, a qual, pelos mais escusos recantos, e a grande profundidade no quintal procurou o decantado tesouro, sem no fim colher frutos de tantos esforços.

E as coisas conservaram-se por muito tempo neste pouco agradável statu quo.

Um dia, porém, pioraram longe de se desanuviarem, as circunstâncias de Maquelina.

Um sobrinho seu, filho de uma irmã que morrera jovem, voltou do Brasil e, contra o que era de esperar, vinha como partira, isto é, com a riqueza de Job na desgraça.

A história deste rapaz é uma história longa e curiosa, que desta vez não contarei ao leitor.

Uma manhã, pois, quando Maquelina estava meditando em não sei que medida de economia doméstica, importantíssima para a melhor direcção de suas mesquinhas finanças, entrou-lhe pela porta dentro um rapaz magro, espigado, de fisionomia denunciadora de sofrimentos, o qual lhe estendia as mãos, dizendo:

— Bons dias, madrinha, então não me conhece? — Santa Maria! Querem ver que... És tu, Agostinho? — Eu, eu mesmo.

A boa Maquelina saltou-lhe ao pescoço e devorou-o de beijos.

O rapaz viu-se em talas e com ameaças de asfixia.

Depois veio um pensamento à tia Maquelina, pensamento um pouco interesseiro é verdade, mas desculpem-na, e não ma principiem já por isso a olhar com maus olhos; todos como ela o teriam, e, o que pior é, a poucos viria apenas em segundo lugar e só muito após dos espontâneos impulsos de uma afeição desinteressada: «o rapaz vinha Brasil... e o Brasil sempre é o Brasil» foi a ideia que lhe voou pelo — Então — disse ela, movida por essa ideia— vens... rico! Agostinho voltou os bolsos do avesso por única resposta.

Maquelina juntou as mãos e não deu palavra.

E para quê? Queriam ainda de parte a parte mímica mais expressiva! .— Vim para não morrer de fome.

Aqui benzeu-se a boa da tia.

— Embarquei como moço de navio por não ter dinheiro para a passagem.

Neste ponto persignou-se.

— E agora venho pedir-lhe — continuou o sobrinho — que me receba em casa até... até... arranjar modo de vida.

Maquelina, quando, junto da pia baptismal do pequeno Agostínho, se declarara madrinha, à face da Igreja, do filho querido de sua irmã, tinha já concebido uma alta ideia da missão que desde aquele momento ia adoptar por sua e para com o recém-nascido, que sustentava nos braços; nem foram para ela simples palavras de formalidade as que em tom de prédica ouvira ao pároco, sobre os seus deveres futuros.

«Na falta dos pais, dissera ele, aos padrinhos compete a vigilância e a educação das crianças, que sob a sua protecção entrarem no grémio da Igreja católica». Ora os pais de Agostinho lá se tinham já partido para melhor morada, e Maquelina, que, eminentemente escrupulosa em negócios de consciência, se julgava por ela obrigada a cumprir até ãs últimas extremidades os seus deveres de cristã, tinha de mais a mais um coração farto para afeições e sentimento.

Fechou, pois, os olhos aos sacrifícios futuros e aceitou a companhia do afilhado.

— Ele me ajudará também — dizia consigo mesmo a boa mulher, como se quisesse colorir com um pensamento egoísta o impulso que lhe viera directamente do coração.

Nós temos destas coisas.

Mas o certo é que, apesar da melhor vontade, em pouco podia Agostinho auxiliar a madrinha.

Auxiliar de que maneira?

Emprego não o pôde ele obter. Naquela cidade, como em muitas outras terras do reino, não se vêem com bons olhos os infelizes que voltam do Brasil pobres. Lá parece uma prova de pouco espírito e da nenhuma aptidão a essa boa gente um semelhante sucesso. O Brasil é, para ela, como o campo de batalha. Ou volta-se de lá vitorioso, ou morre-se combatendo. Fugir é de covardes.

E ora aí têm os leitores a razão por que dois meses depois da chegada de Agostinho, era ainda Maquelina quem só provia às despesas da casa, as quais, como era de supor, tinham aumentado; desenvolvendo a pobre velha esforços sublimes para um duplo resultado: obter meios de subsistência e ocultar ao sobrinho os imensos sacrifícios, a que para isso se sujeitava.

Mas Agostinho suspeitava-os e afligia-se.

Um dia falou à madrinha nas vozes que corriam ainda sobre as riquezas do defunto. Maquelina sorriu tristemente, respondendo: — Pois procura-as.

Agostinho deitou-se à obra com calma, revolveu de novo o quintal a mais de um metro de profundidade, despregou as tábuas do soalho, sondou as paredes, trepou aos mais altos escaninhos da casa... tudo foi inútil.

Disse adeus ainda a essa ilusão. O que lhe valeu foi estar já costumado a despedir-se delas. A primeira vez custa mais.

No entretanto os esforços e vigílias de Maquelina arruinaram-lhe a saúde. Lutou braço a braço com a doença como lutara com a fome.

Lutas heróicas que passam ignoradas, enquanto tantas outras, muito menos merecedoras das honras da epopeia, são extremamente celebradas em oitava rima.

Afinal caiu vencida no leito, e então é que o futuro se lhe mostrou carregado.

A pobre mulher não se iludia nem sobre a gravidade da sua moléstia, nem sobre as consequências da sua morte.

Que seria de Agostinho? Agostinho, a quem ela amava já como se amam os entes fracos que vieram procurar a nossa protecção, com esse amor bem mais intenso mesmo do que o votado aos seres que nos protegem.

Porque o primeiro lisonjeia o nosso orgulho, e o segundo, esse, revela a nossa inferioridade.

Coisas humanas.

O futuro de Agostinho era a ideia negra de Maquelina; como ela ficaria contente por morrer se não fora isso! Mas agora custava-lhe; esta lembrança aumentava-lhe a doença. Que diria ela à irmã, quando no Céu lhe pedisse novas do filho? Que o deixara na miséria? E era isso de boa madrinha? E estes pensamentos e apreensões definhavam-na a olhos vistos.

Agostinho aterrou-se, e reconheceu então tudo quanto tinha havido de heróica,abnegação no procedimento da tia.

O seu coração de homem teve um movimento pelo qual procurou libertar-se da espécie de colapso em que infortúnios continuados o haviam lançado. Agostinho curvara a cabeça sob a corrente de desgraças que sem interrupção haviam sucedido na sua vida; agora tentava e l e v á - l a em um último esforço.

— É preciso tentar fortuna — dizia ele consigo — amanhã de nhã sairei a pedir trabalho, a tudo me quero sujeitar, a tudo.

E adormeceu com este pensamento, sonhando daí a pouco em uma mina de ouro, onde ao fim de muita fadiga, só conseguiu extrair enormes pedras de carvão.

O leitor pode imaginar toda a agradável voluptuosidade de sememte sonho.

Por a manhã ergueu-se disposto a realizar o projecto da véspera; mas foi encontrar a tia em um estado tão assustador, que não teve imo para abandoná-la.

— Não tem de ser! — disse consigo Agostinho, a quem a desgraça ase tornara fatalista.

Maquelina mostrava-se de facto em risco iminente.

O facultativo de partido veio vê-la; pois Maquelina havia enfim conseguido entrar no quadro dos pobres.

Tomou-lhe um pulso, depois o outro; deu-lhe três pancadas do lado direito do tórax, igual número do esquerdo; pousou-lhe o ouvido sobre as descarnadas costelas, e, como se escutasse lá dentro os passos da morte, ergueu-se e fez um gesto de descontentamento visível.

Receitou um chá de alteia e saiu.

Agostinho esperava-o à porta.

— Então ? O médico puxou pelo relógio, ao qual principiou a dar corda, dizendo com a indiferença profissional: — Como àquela máquina se não dá corda como a esta, pára dentro em poucas horas.

Agostinho sentiu subirem-lhe as lágrimas aos olhos.

O médico voltou-se ainda de novo para dizer: — Eu escuso de cá voltar, agora o padre.

Estas palavras, ditas em tom mais alto e da maneira mais natural possível, como as sabem dizer alguns adeptos da ciência hipocrática, que se jactam de fortes, chegaram aos ouvidos de Maquelina, que juntou as mãos, e, erguendo os olhos ao Céu, disse com voz débil: — Aqui está a serva do Senhor, cumpra-se em mim a sua santíssima vontade.

Quando Agostinho entrou no quarto, encontrou-a resignada.

Nessa mesma tarde confessou-se e sacramentou-se aquela pobre de Cristo.

Na cidade dizia-se: — Coitada! o irmão matou-a. Morre de fome e fadiga e com dinheiro em casa.

Era forte cisma a do povo.

Mas há dessas teimas.

Ao pé da noite pediu Maquelina um chá para mitigar a sede Naquele dia não se acendera ainda o lume em casa. Agostinho esquecera- se de comer, e se se lembrasse não sei bem o que teria sucedido, Melhor foi que se não lembrasse.

Agostinho correu à cozinha, reuniu a custo alguns cavacos já meio queimados para acender o lume, e voltou à sala.

Maquelina dava-lhe instruções da cama.

— Ainda achaste lenha ? — Achei, sim, madrinha.

— Bem; ora agora... Essa lamparina está acesa ainda? — Está, madrinha, está, pois não vê.

— Não, filho, já a não vejo.

Havia neste já uma significação que comoveu Agostinho.

Ela continuava: — Encontraste carqueja ?...

— Não, madrinha... mas...

— Valha-me Deus — disse ela, lutando já com dificuldades para se fazer ouvir. —Olha, sabes, aí... na gaveta do toucador... está uma papelada de que... às vezes me sirvo para economizar. Acende alguma na... lamparina e... Ai! — terminou ela com um suspiro, que o longo esforço que tinha feito para falar lhe tornara necessário; e depois em voz mais baixa acrescentou: — Louvado seja o Senhor, a que estado eu cheguei! Agostinho abriu a gaveta.

— Aí — continuou Maquelina com voz sumida e trémula.

— Achaste? bem... ora agora...

Agostinho inflamou à chama escassa da lamparina um dos papéis que tirara do velho toucador da tia.

— Isso — disse esta satisfeita por se ver compreendida.

Ãs sombras indistintas que reinavam no aposento sucedeu a claridade da lavareda, mas foi de pouca duração. Ainda não teria ardido metade do papel, já Agostinho, soltando um grito inexprimível, o atirava ao chão, abafava-o com os pés, precipitando ao mesmo tempo pela vivacidade do movimento a lamparina, que se fez em pedaços.

A escuridade tornou-se completa.

— Que foi, santo nome de Jesus! que foi, Agostinho? — dizia assustada Maquelina, erguendo-se a meio corpo.

— Que papéis eram estes, minha madrinha? — Eu sei lá, filho; mas que foi ? valha-me o Senhor, — Uma luz! uma luz! — bradou Agostinho fora de si; e saiu repentinamente da casa, atravessou a rua, enfiou pela primeira porta que encontrou aberta, galgou um lanço de escadas, penetrou em um quarto onde trabalhavam pacificamente algumas mulheres, apoderou-se da luz que viu no meio da mesa, em volta da qual elas se formavam em círculo, e sem dar uma única palavra, saiu arrebatado, deixando em completa estupefacção as circunstantes, que só passados minutos voltaram a si, para correrem atrás do mancebo, que parecia possesso.

Agostinho entrou de novo no quarto da tia moribunda, aproximou- se do lugar onde deixara os restos do papel meio consumido, apanhou-o, examinou-o com escrupulosa atenção, depois correu à gaveta do toucador, sujeitou a igual exame os outros papéis semelhantes que ai estavam a monte.

— Por amor de Deus, madrinha... mas... de onde vieram estes papéis ? — exclamou ele, ao passo que um por um os passava em revista.

Maquelina, apoiada no braço convulso e com os olhos espantados, olhava para o sobrinho estupefacta.

— Eram do mano, o Senhor o tenha em glória; guardava-os naquela arca; ele sempre me disse que de nada valiam, e agora que eu me via precisada ia-os queimando, para...

— Mas, valha-nos a Virgem! era uma riqueza inteira que queimava assim! — Que dizes tu, filho? Os combustíveis da tia Maquelina eram nem mais nem menos que boas e excelentes notas de banco, às quais o velho Cipriano reduzira os seus haveres, porque o amedrontava o tinir do dinheiro metáico, como chamariz de ladrões: enquanto que por outro lado nunca se pudera resignar a separar-se do seu querido capital, em cuja contemplação saboreava aquela doce voluptuosidade, só dos avarentos conhecida.

Quando se procedeu a investigações em casa de Maquelina para descobrir o tesouro oculto, esqueceram-se, como quase sempre acontece", de examinar os lugares, por onde deviam ter principiado; enquanto profundavam a terra e escavavam as paredes, ninguém se lembrou de abrir a pequena gaveta, que nem chave tinha sequer, e onde Maquelina alojara toda a riqueza. Mas quem o podia supor! O instinto do povo não o enganara desta vez.

Cipriano era de facto rico. Vivera uma vida de privações, praticou um negócio de alta usura debaixo das maiores cautelas e mistério impenetrável; aí está explicada a sua riqueza.

É receita infalível para chegar ao mesmo resultado; as pessoas, a quem não nausearem os ingredientes, adoptem-na, porque não falha.

Desconfiando de todos, da própria irmã desconfiava, e dava-lhe por isso a entender que de nenhuma importância eram os papéis que ela ãs vezes por acaso chegara a descobrir.

Maquelina era ignorante, e nem imaginava sequer que se pudesse ter uma riqueza em papéis. Na sua inteligência, como na das crianças, a ideia de riqueza andava associada à de muito dinheiro em ouro e prata: gavetas, cómodas, caixas e burras cheias dele ; e por isso ia queimando agora lentamente aquele tesouro que o irmão acumulara; e isto com o fim de poupar carqueja !

Cleópatra, brindando os amantes com soluções de pérolas preciosas, não conseguiu ser mais magnifica.

Era um passatempo de milionário o de Maquelina.

Se Deus lhe prolongasse a vida, até onde iria aquela monstruosa combustão? Que soma enorme seria aniquilada! E ainda assim quanto não consumiria! Nunca se pôde calcular.

Há o quer que é de sublime neste quadro. Uma mulher velha, caquética, esfomeada, agonizante, tendo ao alcance do braço uma riqueza, como ela nem sequer concebera nos seus mais ambiciosos sonhos, e queimando-a! A notícia inesperada, que recebia agora, imprimiu àquela existência o derradeiro abalo. A alma, já quase desapegada do corpo, abandonou-o de todo e partiu.

À meia-noite morreu a santa criatura, contente, porque deixara rico o sobrinho e afilhado, único parente que possuía na terra.

Ainda assim, quando se divulgou a notícia, o que, graças à comunicabilidade das mulheres a quem Agostinho usurpara a luz, e que foram as primeiras a sabê-la, se não fez esperar muito, houve quem se penteasse como herdeiro.

Faria rir se expusesse aqui os fundamentos das pretensões desta gente, e eu não quero fazer rir o leitor a quem peço antes uma lágrima para a memória de Maquelina.

Não seguiremos agora a história de Agostinho, que se modela por a de todos os homens ricos.

Apenas direi que por suas especulações comerciais conseguiu multiplicar o capital tão inesperadamente herdado, e hoje é milionário.

Vejam o instinto do povo!

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