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Serões da Província

Júlio Dinis

OS NOVELOS DA TIA FILOMELA

A tia Filomela era uma pobre mulher, que eu conheci em outro tempo, muito enrugada, muito magrinha, com a coluna vertebral como a do homem das cortesias do método Castilho; queixo e nariz prolongando-se-lhe em promontórios agudos e a fazerem lembrar os crescentes sob os minaretes das mesquitas ; olhos abertos para o mundo, somente quanto bastava para lhe descobrir as vaidades, e a cabeça incessantemente animada por um movimento convulsivo, que junto ao sorriso contínuo e quase irónico que se lhe estampara nos lábios, dava à fisionomia de ordinário meditativa da velha, não sei que vislumbre de filosofia céptica, que impressionava quantos a viam.

Os hábitos da tia Filomela atingiam o sublime da parcimônia.

Uma sociedade inglesa de temperança não hesitaria em lhe conferir diploma de sócia honorária, se deles tivesse notícia.

A voz estava em flagrante antagonismo com o nome melodioso, que predilecções, provavelmente maternas, lhe tinham dado na pia baptismal.

De facto, a tia Filomela — a culpa não era sua — faria corar de vergonha o rouxinol, seu harmonioso homónimo, se isto de corar não fosse esquisito atributo da espécie humana.

Eu não posso comparar o timbre daquela voz a ruído algum conhecido na natureza; em mim produzia o mesmo desconsolado efeito que me causa aos nervos o roçar de metal agudo sobre uma mesa de mármore polido.

Ouvindo falar algum tempo a tia Filomela, ficava-me a doer o peito, e o pulso subia a um algarismo em que principiava a revelar aspirações a febre.

Se me obrigassem a viver com ela muito tempo, estou que morreria ético,

Um dia falei nisto a um médico e ele explicou-me o fenômeno por uma palavra inexplicável.

Chamou-lhe uma idiossincrasia.

Eu dei-me por satisfeito. A coisa não era para manos.

Quando eu, com a minha idiossincrasia, conheci a tia Filomela, gozava a mulher de uma reputação, que, a falar verdade, não se podia dizer das mais lisonjeiras.

A gente da vizinhança — as vizinhanças na aldeia compreendem-se em um círculo de três léguas de raio — teimava a pés juntos que ela mantinha sinistras relações com os espíritos ruins, que aos sábados não faltava às soirées do Diabo, e enfim que era a pobre velha nem mais nem menos do que uma ladina e famigerada feiticeira.

Punge-me ter de arquivar aqui, forçado como sou pela veraci.

dade de cronista, que a origem principal de semelhantes boatos a fui encontrar na parte bela e amável do sexo, do qual a tia Filomela era um .

espécime avariado.

A beleza e a juventude fazem disto. As que as possuem, orgulhosas de seus dotes sedutores, invejam-se e odeiam-se mútua e cordialmente ; ao mesmo tempo que desprezam e caluniam as desfavorecidas nesse ponto pela nem sempre muito imparcial natureza.

Consolação suavemente consoladora para as leitoras feias, que não incorrem pelo menos em um destes pecados.

Foi efectivamente a uma conversa de raparigas que eu devi a revelação da íntima correspondência entre a tia Filomela e os espíritos das trevas.

Disse-mo Luisita, tomando certo ar de misteriosa seriedade, tal como a natureza do assunto o reclamava.

Luisita era uma galante rapariga dos arredores.

O diminutivo com que a designo aqui, e que era o adoptado por todos, vale mais do que qualquer minuciosa descrição.

Nós, os peninsulares, não empregamos indiferentemente as variedades de diminutivos, que possui em abundância a nossa língua.

Entre uma mulher a quem chamamos Luisita, e outra que nos valeu a mais doce denominação de Luisinha, vai uma diferença considerável; diferença de tipo, diferença de hábitos, diferença de carácter.

Uma será meiga, ingénua e sensível, quase sempre loura e alva, corando à menor palavra que lhe dirigirdes, baixando os olhos confusa, se a fitardes um momento, pronta a chorar de saudade, e tendo não sei que de triste até nas intensas alegrias; na outra, pelo contrário, encontrareis certa petulância e travessura, que arrostarão com vossos olhares mais impertinentes, um rosto provocador, risos prontos e francamente joviais, movimentos vivos, respostas fáceis e naturalmente epigramáticas; uma zombaria a cada galanteio; a cada fineza, uma reflexão, que nos desconcerta, e revelando sempre, até por entre lágrimas, um fundo inesgotável de contagiosa alegria.

Tal era Luisita. Tal a conheci eu naquele tempo. Tinha ela então dezoito anos; era baixa, trigueira, de olhos negros e engraçados; ninguém passava por ela na estrada que involuntariamente se não voltasse depois para a seguir com a vista. Adivinhava-o e lisonjeava-se com isso. Subitamente voltava-se também para surpreender em flagrante os numerosos contempladores, e poucas vezes podia reprimir uma risada, se conseguia perceber que os mortificara com a descoberta.

O rosto dela era o mais gracioso conjunto de imperfeições, que pode perturbar a cabeça dos menos predispostos para influências de tal ordem.

A natureza folga, de quando em quando, de pregar destas pirraças aos profundos conhecedores da arte, que imaginaram ter descoberto as verdadeiras leis do belo, em suas variadas manifestações. Apresenta- lhes uma dessas figuras de mulher que não resistem à análise, incorrectas e repreensíveis segundo as regras da arte e, a despeito de todas as teorias e sistemas, mau grado todos os princípios fundamentais de estética ou de plástica, inspira-lhes com elas as mais endiabradas paixões que podem transformar o juízo destes absolutos legisladores da coisa menos legislável do mundo.

Impressionados a seu pesar como os severos apreciadores de música, de mal consigo mesmo quando, em contradições com os sistemas a priori, se deixam entusiasmar pelos inspirados defeitos de Verdi, os tais artistas filósofos são então de uma inconsequência que me delicia.

É para ver como estes frios analistas, sempre prontos a pretender encontrar em certas combinações de curvas, certo contraste de cores, certa proporção de diâmetros, a razão de ser da beleza, e a causa única das sensações que ela inspira, param confundidos diante de uma dessas sedutoras irregularidades, que, despedaçando os moldes acanhados onde julgavam conter o poder criador do belo, lhes revela a cópia de recursos de que, em suas felizes infracções desses imaginários códigos, a natureza dispõe ainda a ocultas da pretensiosa arte.

Diante de tão misteriosas sínteses, que de uma maneira desconhecida assim profundamente nos afectam, é que a análise, destruindo tudo, à força de tudo querer decompor, se mostra pequena e incompleta.

Mas estava eu falando da Luisita que mal suspeita, por certo, ter servido de tema a considerações desta ordem.

Simpática rapariga aquela! Misto de ruindade e de candura, de timidez e de astúcia; carácter caprichoso e às vezes impertinente sobre um fundo de inexcedível bondade, agradava-me por isso mesmo.

A bondade excessiva, sempre coerente consigo, as abnegações completas, aproximam-se demasiado da perfeição angélica; são muito isentas de cor terrena, para nos inspirar outro sentimento que não seja o da veneração. Interessam-nos mais estes caracteres, que parece tocarem por um lado no Céu sem de todo se desprenderem da Terra, por onde justamente se acham em mais íntima relação connosco.

Lado frágil e vulnerável, que maiores simpatias nos desperta, A avezinha que todos nós mais amamos é a que ferida na asa, não eleva voos a grande altura do solo.

Ao menos eu por mim declaro-me mais sujeito a ser impressionado por estes caracteres mistos de mulher e de anjo, e ãs vezes até com seus ressaibos de demónio.

Fazem-me lembrar — porque o não direi ? — as felizes combinações que a cada passo realizam os confeiteiros, associando corno correctivo a adstringência de um ácido à excessiva e às vezes enjoativa doçura das massas de pastelaria.

Perdoem-me o comezinho da comparação e deixem-me continuar.

Dizia eu que fora de Luisita que obtivera as primeiras informações sobre a vida escandalosa da tia Filomela.

E por sinal que ia ficando de mal comigo ao divisar-me nos lábios, ao passo que falava, um sorriso de incredulidade.

— O senhor ri-se ? — disse-me ela com um gesto de contrariedade e uma ruga de mau humor a sulcar-lhe a fronte, o que dava à fisionomia a mais adorável expressão de cólera feminina que se pode imaginar — é dos tais que não acredita em feiticeiros ? — Se acredito! Tanto que ando enfeitiçado.

— Anda? — continuou ela, tomando já um aspecto todo risonho por aquela extrema mobilidade de feições que possuía, a par de igual mobilidade de carácter — vire o casaco do avesso ; dizem que é remédio pronto.

— Do avesso trago eu o coração, a julgar pela desordem que sinto cá dentro.

— Sim? Então quem lho voltou? — Olhe que não foi a tia Filomela, isso lhe juro eu. Há feiticeiras na terra, mas são de outra casta.

— Vamos então a saber. Conte-nos isso. Quem são essas feiticeiras ? — disse a minha gentil interlocutora a provocar o cumprimento que pressentia.

Saboreei um prazer de deuses em lhe não dar esse gosto e respondi- lhe: — As feiticeiras são estas árvores, estas flores, estas campinas e montes, estas tardes e madrugadas, que tão enfeitiçado me trazem que não há tirar-me daqui.

Ela compreendeu, porém, a táctica e respondeu-me com uma gargalhada provocadora,

II

ESTA cena passava-se na tarde de um domingo e no largo onde se reunia para dançar, rir, cantar e falar de amores, a parte jovem da população; e para rezar, dormir e falar do passado e das vidas alheias, a outra porção mais favorecida de anos e menos de descuidosa alegria.

Deste lugar, situado na encruzilhada dos quatro principais caminhos que atravessavam a aldeia, estendia-se a vista, do lado ocidental, em uma série extensa de várzeas e de campinas divididas em quarteirões, regulares como os tabuleiros de um jardim, por longas fileiras de choupos, que as vides, enleando-se-lhes nos ramos, guarneciam com pendentes e viçosos festões.

A diferente qualidade ou vigor de plantações e o diverso grau de cultura desses numerosos campos, em que se repartia a planície, davam a cada um deles uma aparência particular, quebrando agradavelmente a ordinária monotonia dos terrenos pouco acidentados.

A natureza empregara na tela os mil cambiantes da cor verde, própria às paisagens campestres, e, por um segredo de colorido que a arte mal pôde ainda imitar, soubera introduzir, na pintura em mosaico dessas vicejantes alcatifas, no meio de uma uniformidade aparente, a mais aprazível variedade.

Aqui e além elevados castanheiros, frondosos carvalhos ou oliveiras verde-pálidas formavam pequenos bosques em volta de uma ou de outra habitação isolada, como para ocultar o mistério de alguma existência obscura que se deslizasse ali e concentrar no seio da família o grato calor dos lares domésticos que alimenta e vigora os mais afectuosos sentimentos do coração humano.

Cada uma dessas habitações solitárias, assim envolvidas na sombra dos olivais, dos soutos ou das devesas, assim recatadas e discretas, como aquelas pessoas naturalmente pouco expansivas que se calam com suas alegrias e experimentam no gozá-las em silêncio a mais casta voluptuosidade, me parecia encerrar um poema inteiro de íntimas felicidades. A cada uma delas associava a minha imaginação, obedecendo a não sei que irresistível necessidade de fantasia, uma vida de tranquilos e inefáveis prazeres, cuja só concepção me deleitava.

E como para que às comoções agradáveis que toda esta cena despertava, não faltasse certa melancolia, que se insinua em nossos mais delicados sentimentos, lá estava a suscitar-ma, junto da igreja paroquial, o cemitério da aldeia, sem a magnificência dos mausoléus, mas com a poesia da tristeza; sem longas ruas assombradas por cedros e ciprestes, mas abundante em rosais sempre floridos, que, balouçados pelo vento, cobriam de pétalas desfolhadas as campas mais humildes e obscuras, onde nem sempre a amizade depusera sequer a devida homenagem de uma flor.

Mais longe, principiava o terreno, em suave declive, a elevar-se como nos degraus sucessivos de um extenso anfiteatro e sempre tão rico de vegetação, tão revestido de árvores e de relva, que dava ao país naquele ponto a pitoresca aparência de um vasto cabaz a trasbordar de verdura e de flores.

Nesta graciosa corrente de pequenas colinas, que circundavam a planície, divisavam-se as povoações vizinhas, como pequenos pontos brancos dispersos ou amontoados, por entre os arvoredos da encosta.

De cada uma delas começava já então a erguer-se o fumo dos lares em colunas densas e tortuosas, que cedo se misturavam, difundiam, rasgavam em mil pequenas nuvens irregulares, dissolvendo-se por fim em uma atmosfera de vapores, que pouco a pouco, como em transparente sendal, envolvia toda a paisagem.

Mais distante, ainda no extremo do horizonte, desenhavam-se em grandes sombras, vagamente contornadas sobre o claro do céu, iluminado àquela hora pelos últimos raios do Sol no ocaso, cordilheiras de remotas serras que, tingidas por a uniforme cor azulada das paisagens longínquas, mais pareciam pesados cúmulos de nuvens surgindo ameaçadoras do ocidente.

Quase sempre as coroavam altas neves, onde o sol, reflectindo-se, produzia surpreendentes efeitos de óptica, simulando fantásticos palácios de pórfiro e pedrarias. Daí se precipitavam as torrentes, que pouco a pouco, descendo nos vales e enleando-os nas malhas de uma rede complicada de arroios cristalinos, trocavam a primitiva impetuosidade, ao despenharem-se, como cataratas, em fragosas ribanceiras, por um sereno deslizar entre silvados e relvas, que apenas denunciava um confuso murmúrio.

Se, depois de ter assim contemplado este panorama risonho e aprazível, voltássemos os olhos para o lado do oriente, reconheceríamos um desses contrastes, a que é tão afeiçoada a natureza nos países onde mais inesgotável se mostra em seus recursos de artista; uma dessas rápidas mutações de cena, que deleitam, variando, de momento para momento, as impressões que produzem.

De facto, a perspectiva era deste lado mais limitada, ainda que absolutamente não menos bela.

Logo a pequena distância principiava o terreno a assumir uma rápida inclinação, perdendo ao mesmo tempo a amenidade e vigor da vegetação dos vales para revestir a severa e melancólica beleza das paisagens alpestres.

Na base desta colina, tão diversa das que do lado oposto parecia sorrirem-lhe envolvidas em seus vistosos mantos de folhagem, vinham expirar as últimas oliveiras, já pálidas e débeis, como se o vento das montanhas lhes consumira o vigor. À cor viçosa da relva sucedia pouco a pouco o verde sombrio das giestas e do tojo; suas tristes flores amarelas aos variegados matizes com que se adornam os campos; às sombras densas e impenetráveis das devesas, as sombras enganadoras dos pinhais; o gemer melancólico das rolas, o grito louco dos gaios, aos alegres gorjeios que ressoam nos vales, e o cheiro activo das resinas, aos brandos aromas das flores do prado.

Ao topo deste monte, em toda a extensão do qual nenhum vestígio de cultura e animação interrompia, por espaços sequer, o aspecto selvagem e de completo isolamento que nele imediatamente nos impressionava, condizia, descrevendo longas sinuosidades, um cami nho íngreme e quase intransitável, comprimido entre elevadas paredes deste terreno argiloso de cor ensanguentada, de onde raro brota uma planta, ou nasce sempre estiolada e débil, desfolhando-se ao menor sopro de aragem que por momentos a agite.

Iminente a esse caminho, no qual em pleno dia penetravam apenas os raios de um pálido crepúsculo, e a mais de meia encosta do monte, existia a casa da tia Filomela, que não desdizia, na sua aparência de miséria e tristeza, da paisagem que lhe servia como de fundo de quadro.

Fora esta casa solitária no meio de um pinheiral sombrio, que, contrastando fortemente com a amenidade da perspectiva fronteira, onde tudo era vida e cultura, me atraíra a atenção e dera lugar ao diálogo, no qual a personalidade da pobre mulher começava a ser discutida, não demasiado lisonjeiramente para ela.

A conversa travada entre mim e Luisita pouco a pouco se generalizou ; e tão popular era o assunto, que todos tomaram parte nela, interrompendo as danças, dando tréguas às violas, e sacrificando-lhe até os trocadilhos amorosos, com que mutuamente se mimoseavam os namorados.

A minha incredulidade aumentou o ardor e vivacidade das insistências ; longe por isso de aproveitar à pobre Filomela, antes a ia prejudicando.

— É ver, é ver — dizia uma morena, apertando debaixo da barba o lenço escarlate, que com o movimento da dança se lhe havia desatado — logo que veio para aqui aquela bruxa, foi um morrer de crianças como nunca se viu.

— E os carneiros do ti'Zé da Nora, que em menos de quinze dias lhe morreram todos, mirrados como um torresmo? — acrescentava outra, levando aos dentes, alvos como o marfim, uma laranja que principiava a descascar.

— E os pregos que lançou pela boca fora a tia do João dos Moinhos ? — Ora nem que ela lançasse pregos! isto pode lá ser! — disse, simulando cepticismo, um rubicundo mocetão de vinte anos, que alimentava para estas coisas no fundo da alma a mais fervorosa crença.

— Não ? pois pergunta-o ao sr. doutor, que saiu de casa dela a benzer-se e a dizer que não era aquilo doença de médicos.

— É verdade, é verdade. E foi lá o sr. abade fazer-lhe os exorcismos.

— Qual? o novo? — Não, o antigo, que Deus haja. O novo sim, olha, olha o outro| — Esse bem se ha nestas coisas.

— Assim Deus me perdoe, como ele me parece bruxo.

— Estás doida, rapariga! — Eu digo isto. Pois não vêem como fala de mano a mano com ela? — Se fosse bruxo, não faria as esmolas que faz — redarguiu Luisita, obedecendo aos seus bons instintos.

— Nanja eu que lhas quisesse.

— Que dizes tu, mulher, que dizes? Ora o Senhor te não castigue, — Ámen. Mas então para que conversa ele com a tia Filomela, sabendo de que casta ela é? Como lá diz o outro: «Quem não quer ser lobo...».

— Ele sabe lá se ela é bruxa! — Pois não lho dizem todos, e não repara que nunca ouve missa, e nem sequer vai à igreja? Eu vi Luisita quase disposta a tomar a defesa da tia Filomela.

A contradição irritava-a e instigava-a a reagir com toda a força de sua natural impaciência.

Uma das circunstantes, porém, trouxe novo artigo de acusação contra a velha Filomela, e conseguiu reunir de novo as opiniões, que a questão do reitor havia dividido.

— Sabem vocês, a minha capa nova? fui-a encontrar toda às tesouradas depois de uma terça-feira em que passei pela tia Filomela lá em baixo nas presas.

— Credo! e tornaste a trazê-la, rapariga? — Deus me livre I — E não coseste o bruxedo? — Ainda não. Como é que isso se faz ? — É preciso ferver toda a roupa em uma panela que ainda não tenha servido, e barrá-la muito bem com lodo e...

— Não — acrescentou uma outra — antes lançam-se na água sete pedras de sal, com a mão esquerda.

— Isso é depois...

— Não, senhora, é antes.

— Vem-me ensinar a mim, que o vi fazer à Joana do Viúvo, quando lhe embruxaram o sobrinho.

— Sim, mas também a Joana não diz as palavras que dizia a Rosa do Emídio, e sem elas não se faz nada, ah! — Se não diz essas, diz outras.

—E que palavras são?—perguntou a proprietária da capa enfeitiçada.

— As da Joana são assim:

Tarrenego esp'rito imundo,
Vai-te pra os fogos eternos,
Lá no fundo, bem no fundo,
Das profundas dos infernos.

Agua quente da panela
Ferva esta roupa bem cedo,
Fervida seja com ela
A bruxa com seu bruxedo.

— Como é o resto?... A bruxa com seu bruxedo... a bruxa com seu bruxedo — repetia a rapariga, vasculhando em vao a memória para achar o resto da cantilena imprecatória da Joana do Viúvo vedes, não me lembra, mas é assim uma coisa.

— Mas há-de ser dito com um ramo de alecrim bento na mão, fazendo três cruzes no ar a cada verso.

— Isso já se sabe.

Outra aventurou do lado o seguinte alvitre: — Diz que também o que é muito bom contra as feiticeiras, diz que é a hortelã verde do monte.

— Ora isso é para matar saudades. Quando o nosso Zé foi para o Brasil, minha mãe coseu-lhe hortelã no forro do colete, porque o pobre rapaz, coitadinho, ia esmorecido de todo.

— Eu cá do que sempre uso é de figas de azeviche — opinou outra, exibindo, como prova do seu dito, um dos objectos mencionados.

— Sim, que não chuparam as bruxas o pequeno da Tomásia, e mais tinha no pescoço uma figa que lhe dera a madrinha.

— O pequeno da Tomásia morreu de uma febre.

— Boa febre! Pois não se viu a olhos vistos ! Podiam-se-lhe contar as marcas que lhe deixaram as feiticeiras. Tinha o corpinho todo sarapintado de nódoas roxas, que era mesmo uma pena vê-lo.

— Eu desde que uma tarde, era já ao lusco-fusco, vi rondar a tia Filomela, com pés de lã, em volta da casa de Tomásia, logo me deu uma pancada no coração.

— E eu que tantas vezes lhe disse: — Tomásia, tu tem cautela com o teu filho! — não sei o que me dizia o que tinha de suceder.

— A rapariga também era desmazelada — observava outra, mantendo a conversa no tom de maledicência em que já ia afinada. Deixava andar sozinha aquela criança, ainda a engatinhar, em termos de lhe acontecer alguma desgraça. Quantas vezes a fui eu tirar da ribanceira e quase a rolar por ela abaixo? — Não, eu sempre digo que há mães também! — Depois então é que é o gritar: Ai o rico filho da minha alma! como ela gritava, que era até uma vergonha.

— Ora, uma vergonha sim! isso é bom de dizer, mas coitado de quem os tem! — E como o outro que diz: aquilo sempre é sangue do nosso sangue.

— Mas então que olhem por eles; não é só quando morrem que...

— A gente, enquanto eles têm saúde, nem bem sabe o amor que lhes tem; depois é que tudo são aflições.

— Isso lá é assim, é.

— Malditas bruxas — diziam algumas vozes, como se fora um estribilho de canção.

— Nessa mesma noite em que morreu o pequeno, foi que elas apareceram ao Luís do Canha.

— Ai, então apareceram-lhe as bruxas alguma noite? — Pois não o sabias, mulher? — Eu não! — Admira! Tanto se falou nisso.

— Mas então como foi? Eu não sei de nada.

— Foi uma noite em que o Luís do Canha veio mais tarde da cidade, e não encontrou companhia. Era num sábado. Ao passar nos Telheiros, pareceu-lhe ouvir o barulho de lavadeiras a bater a roupa nas presas.

O rapazinho, admirado de que se lavasse àquelas horas, parou um pouco e pôs-se a olhar para baixo.

— E que viu ? — perguntaram-lhe em coro umas poucas de vozes com uma inflexão em que se revelava o mais vivo interesse.

— Muitas sombras assim como fumo a correr de um lado para o outro, à roda, à roda, como folhas secas em dia de ventania. E logo umas risadas e umas vozes que chamavam por ele: — Luís! Luís! onde vais tão tarde? espera, espera, ouve um recado. — O pobre rapaz sentiu que se lhe arrepiavam os cabelos da cabeça e deitou a correr com toda a pressa que pôde.

«E aquelas risadas a persegui-lo. Ele a correr, e as vozes a chamá- lo ; depois apareceram-lhe umas sombras negras, altas como gigantes, que fugiam a esconder-se por entre as árvores, fazendo um barulho como o do vento nos pinheirais, e umas luzinhas a aparecer e a desaparecer, a aparecer e a desaparecer. Quando passou nos moinhos, viu à beira do riacho assim como um corpo morto, embrulhado em um pano branco, e a gritar: — Ai quem me acode ! ai quem me acode! — E assim o seguiram e perseguiram, até que o rapazinho chegando ao pé da igreja, disse: — Valha-me Nossa Senhora do Amparo! valha-me Nossa Senhora do Amparo, minha madrinha! — Tudo então desapareceu.

— Credo! disse uma das ouvintes, benzendo-se — se fosse isso comigo... eu sei lá?... já tinha morrido de susto.

— Pouco faltou ao Luís, que andava parecia enterrado em vida.

— Bom dinheiro gastou o pai para lhe tirar o mau olhado.

— Foram todos a pé ao Senhor de Matosinhos, com um vela do tamanho do rapaz, e só então é que ele ficou bom.

— Santo nome de Jesus! nunca vi terra tão azada a bruxas como esta nossa! — E o homem da Teresa dos palheiros? aquilo é feitiço ou não é feitiço? — Que feitiço? que feitiço? — exclamou uma gorda rapariga, que tinha motivos pessoais para não simpatizar com a tal Teresa dos palheiros— que queriam vocês que ele fizesse com uma mulher daquelas?

— Então que tem a mulher, criatura?! Tu também!...

— Isso; perguntem-no a mim, que há-de ser preciso. Ora já viram! — Mas diz lá o que tem ? — O pobre do homem a trabalhar como um mouro, e ela a gastarlhe tudo em roupinhas e gibões.

— Isso é feitiço que nos espera a todos — disse o principal tocador de viola da aldeia, apertando uma cravelha do instrumento, e experimentando nas cordas, irritantemente melodiosas, o grau de afinação.

Estas palavras consideradas ofensivas pela parte feminina do auditório, suscitaram uma discussão em que foram postos em paralelo os defeitos e qualidades dos dois sexos, de ambos os lados, com apaixonada parcialidade.

III

0vento que soprava do lado do monte trouxe-nos neste momento aos ouvidos bem distinta, apesar da distância, a voz da tia Filomela, com aquele timbre particular e penetrante, que já lhe conhecemos.

Chamava pelo seu gato preto, magro quadrúpede, que a junta de inspecção do exército, de que fala a Gaticânea, excluiria, por incapaz do serviço militar.

Este gato era um gravíssimo indício da criminalidade da tia Filomela.

Sempre que eu o via, regozjava-me interiormente por se terem apagado havia muito as fogueiras do Santo Ofício. Se elas ainda existissem, não sei eu se a tia Filomela com semelhante fama e com semelhante gato, haveria escapado ao processo de torrefacção com que naqueles infelizes tempos se apurava a fé.

— Então, visto isso — perguntei a Luisita — aquele gato é o Diabo? — Cruzes ! — exclamou ela, como correctivo ao feio nome que eu não hesitara em proferir, e depois acrescentou: — e não o diga a mangar, é ver como esse mafarrico anda em guerra aberta com os outros gatos e dá cresta de quantos pilha.

— Ah! pelo que vejo, o Diabo ocupa-se agora em baixos mesteres.

Voltou-se contra os gatos! Que decadência! — Está a brincar ? — Não, falo sério. Ora diga, a menina acredita deveras que o Diabo lhe dê para embirrar com os gatos ? Quem a persuadiu de semelhante coisa? — Não sei. Vejo que não crê no que lhe digo, Pois faz mal.

— Mas vamos cá, a tia Filomela, então...

— Para quê se não quer acreditar ?

— Quem lhe disse que não quero ? Eu só desejava que mostrasse a razão por que ela é bruxa.

A rapariga fez um gesto de impaciência.

— Bem sei que me vai dizer que ela é feia e velha... Ora aí está o que eu não posso admitir...

Estas palavras granjearam-me uma estrondosa gargalhada.

— Então acha-a bonita e nova ? E diz que não está enfeitiçado! Ah! ah! ah!...

— Valha-me Deus! Não é isso. O que eu não admito é que as bruxas sejam feias. As que me enfeitiçam são outras.

— Ai, isso é cantiga ? — E tomando um ar còmicamente sisudo, continuou: — Ora mas fique sabendo que a tia filomela em certas noites, berra de maneira que se ouve no povoado.

— Histórias! Afinal há-de ser o pavão da quinta das Cerdeiras.

Luisita encolheu os ombros expressivamente e prosseguiu sem mais resposta: — Acende-se às vezes em casa dela, lá por altas horas, um lume vermelho...

— Que faria se fosse azul! Aí está a justificação da boa mulher, vê ? O lume do Inferno é azulado; não sabe que é de enxofre ? Luisita olhou para mim, meia a rir-se meia despeitada.

— Como assim! Para que me hei-de estar a cansar ? Sabe que mais ? Espere pelo sábado, ponha-se à espreita, e verá bonitas coisas.

— Lembrou bem; hei-de observar uma noite a tia Filomela.

— Nem a mangar diga isso.

— Digo-o muito sério.

— Credo ! Deus o livre! — E depois hei-de contar-lhe o que me sucedeu.

— Não, se tal fizesse, nada me contaria depois.

— E porque não ? — Porque estaria morto.

— Santo nome de Deus! que sorte tão negra! sempre tem coisas! — E não se fia! — Aposto até que a tia Filomela me há-de dar de cear.

— Não diga isso, que até é pecado.

— Que mandamento ofendo eu? — Vamos, agora falo sério. Os senhores da cidade têm tolices e pode muito bem dar-lhe na cabeça essa extravagância. Olhe que não é uma história o que lhe digo; a tia Filomela sai muita vez de noite e anda pelos montes feita em uma luzinha, e de mês a mês vem visitá-la um homem de má catadura. Há quem o tenha visto; entra e sai logo.

— E então quem é esse homem ? — O demo ou coisa que lhe pertence; vem dar-lhe parte da grande assembleia de bruxas.

— Ah! reúnem-se mensalmente ? É para discussão dos estatutos ?

O bom humor da minha interlocutora havia-se esgotado; fez um movimento de não dissimulada impaciência, encresparam-se-lhe os lábios em um sorriso de generosa comiseração, e depois de me fitar por alguns instantes, voltou-me as costas, deixando-me entregue à minha ímpia incredulidade.

Foi bem feito!

IV

Mas O caso é que haviam conseguido excitar-me o interesse pela tia Filomela, em quem até ali mal atentara sequer.

Eu tinha então vinte anos, e nesta idade não há imaginação tão de gelo que não medite o seu romance. Todos nós pagamos esse tributo à violência de nossos sentimentos, à facilidade de nossas impressões e tendências que então sentimos para uma vida mais ideal, menos comprimida nos moldes estreitos da realidade.

Nem sequer esses romances se transportam aos livros, nem sequer desenvolvem em capítulos, ou revestem uma forma literária qualquer; muitos são os que abortam, os que não recebem a encarnação da escrita; tanto pior para a literatura, que fica assim privada talvez de seus mais perfeitos primores de arte.

Quer-me parecer que a literatura realizada até hoje, seria apenas um fraco reflexo desta que, assim concebida um momento, se destrói em gérmen e não passa dos primeiros lineamentos embrionários.

Porque nem sempre a improdução é prova de absoluta esterilidade.

— O que há de mais misterioso, de mais admirável e eternamente incompreensível para inteligências humanas — a concepção — é uma faculdade menos privativamente concedida do que se julga talvez; mas condições secundárias podem e vêm muitas vezes aniquilar-lhes os produtos logo à nascença, como um defeito de organização sacrifica ao primeiro desenvolvimento o gérmen de um futuro ser. Muitos que pressentem as delícias e voluptuosidades da concepção, não podem vencer as fadigas penosas do trabalho que executa e que reveste esses filhos da fantasia criadora, da forma que os torna visíveis.

Em meu espírito laborava então esta necessidade de criar um mundo imaginário, onde vivesse mais à vontade do que no mundo real. Tal é quase sempre a origem de tantos romances escritos — e de mais ainda fantasiados apenas — que nos ocupam as vigílias da juventude e às vezes reflectem o colorido mágico em nossos mais deliciosos sonhos.

Debaixo dessa poderosa influência é que eu via então as coisas, os homens e a natureza; eram essas ideias que me tinham acompanhado ao campo e me faziam perceber na sombra dos bosques, nas cambiantes das flores, nos indefinidos murmúrios das brisas embalsamadas da folhagem viçosa, mistérios de luz, de harmonias e de perfumes não sentidos por outros; invisível atmosfera de poesia e de ideal em que tudo parecia envolver-se a meus olhos, que me fazia conceber um drama, depois de ouvir a narração de um suicídio; imaginar uma alegria, um poema talvez, ao saber da morte de uma rapariga de quinze anos; que me mostrava um Chatterton, em cada escritor pálido ; — uma Diana Vernon, em cada amazona a cavalo; — um Antony, em cada enjeitado ; — uma Graziela, em cada filha de pescador; — uma indiana, em cada crioula; em cada criada de servir, uma Genoveva; e até um segundo Quasímodo, em um pobre sineiro que conheci na Sé do Porto.

Feliz tempo aquele! Via uma rapariga a chorar, um velho sentado, ao pôr do Sol, debaixo de uma árvore, um grupo de crianças brincando à borda de um regato, uma mãe amamentando o seu primeiro filhinho, um artista de blouse a ler nas horas de' desranso à porta da oficina, uma costureira serandando à luz do candeeiro — eram outros tantos romances que imaginava ; sempre romances, romances em tudo, romances por toda a parte.

A dificuldade estava na escolha. Felizmente que nunca me meti a averiguar como filósofo por que chorava a rapariga, em que pensava o velho, o que diziam as crianças, o que ia no coração da mãe, que livro lia o artista, e os hábitos e vida íntima da costureira; talvez que se me desse a esse trabalho, me reservasse a realidade bem desagradáveis desilusões; por isso o encarregava todo à fantasia.

Imaginem, pois, o efeito que as palavras de Luisita e das companheiras deviam ter produzido no meu espírito, assim predisposto para concepções desta ordem.

Passeios nocturnos, gritos desentoados, visitas misteriosas, luzes avermelhadas, um casebre solitário, uma velha decrépita, um gato negro... que preciosidades! «Ó pobre tia Filomela, que tiveste a desventura de, mal o imaginando talvez, te revestires de aparências românticas, és minha presa! já te não livras das garras do romancista, ávido de assuntos, sequioso de situações, guloso de tipos! Tens a imprudência de seres um tipo, e julgas que hás-de ficar assim ignorada e esquecida nas quatro paredes dessa miserável habitação; cá estou eu para te ir procurar, como o naturalista, arrancando da concha bivalve o inofensivo molusco e sujeitando-o à sua classificação. Vou eu também classificar-te. Quero saber a espécie e família da fauna romântica a que pertences. E se fosses uma espécie nova!» Isto pensava eu comigo mesmo, seguindo caminho de casa ao passo que tomava vulto no meu espírito o projecto de uma visita à protagonista dos- contos fabulosos, que havia muito corriam na aldeia de boca em boca, assumindo cada vez maiores e mais imponentes proporções.

Outro qualquer a quem esta mesma ideia tivesse preocupado, procuraria realizá-la da maneira mais simples, visitando de dia, e sob o primeiro pretexto admissível, a mulher que dera azo a tantas discussões e boatos; mas a fantasia, sob cujo domínio eu me regulava então, exigia mais. Exigia que a visita se efectuasse de noite, através de incómodos e perigos, à luz das estrelas, quando piassem todas as aves tristes, e se passassem tenebrosos mistérios.

Meus hábitos de comodidades reagiam, é verdade, contra estas instigações da fantasia; mas não tão valorosamente que não ficassem vencidos afinal.

Eram, pois, onze horas da noite, quando, envolvido misteriosamente em uma ampla capa, como os conspiradores no teatro, dei princípio a esta minha excursão romântico-artística, esforçando-me por não ser observado, para não excitar curiosidades, sempre fáceis na aldeia e sempre desagradáveis para quem é objecto delas.

Ora a noite prestou-se voluntariamente à colaboração do romance: pois se houve noite escura, ventosa, abundante de nuvens que pareciam montanhas, de clarões sinistros, que semelhavam incêndios, de ruídos estranhos que lembravam um pandemónio, foi aquela.

Pouco conhecedor ainda do terreno, tive de mais a mais a romântica felicidade de me extraviar, e, depois de um quarto de hora de jornada, adquiri a consoladora certeza de que andava errando cada vez mais longe do lugar a que me dirigia.

No entretanto, o vento redobrava de violência; acumulou imensas nuvens sobre a minha cabeça e como se umas contra as outras as espremesse, à maneira de esponjas embebidas, vazou-as sobre mim bom uma quase destruidora impetuosidade.

Debaixo de uma chuva daquelas, metamorfoseiam-se os países; os mais amenos revestem um aspecto medonho, tétrico; vales que, vistos à luz do Sol, fariam imaginar idílios e inspirariam poesias pastoris aos estros mais rebeldes, assumem nestes instantes as cores sombrias e carregadas, que empregavam outrora os poetas épicos para pintar a entrada das regiões infernais, onde, como complemento de educação, iam uma vez na vida os heróis de suas epopeias, como hoje vão a Paris os filhos-famílias de classes abastadas.

Naquela noite, para mim de humildes recordações, tudo parecia mudado; revolviam-se torrentes impetuosas, onde momentos havia se deslizavam regatos; despenhavam-se cataratas, de onde pouco antes caia apenas, sacudida pelo vento, a folhagem seca; profundavam-se lagos onde verdejavam lameiros; e as águas subindo galgavam as pontes campestres, tornando-as em restingas, os outeiros em ilhas, e os passeadores nocturnos, como eu, em náufragos ou em Robinsons Crusoés em completa incomunicabilidade com o resto dos viventes.

Imaginem, pois, minhas aventurosas manobras, para me guiar sem bússola através daqueles arquipélagos insidiosos, no meio daquelas sombras ameaçadoras e claridades pérfidas. Ainda hoje não sei por que milagre do instinto consegui encontrar-me depois de muito molhado e enlameado, no fim da minha jornada e à porta da tia Filomela.

Obra da inteligência é que por certo não foi; a cabeça tinha abdicado e concedido plenos poderes às pernas, que se não mostraram indignas de confiança.

Estas abdicações são ãs vezes mais profícuas do que geralmente se julga.

Eu pelo menos lucrei naquela noite consideravelmente com elas.

Achara-me enfim no antro da sibila; a Circe ia apresentar-se a meus olhos, rodeada dos indispensáveis utensílios da sua arte; em companhia dos animais, colaboradores natos de magias e esconjuros, envolvida em uma atmosfera de fumo exalado das fornalhas, onde se destilam em retortas e alambiques filtros subtis que envenenam a alma, espécie de venenos de que os toxicologistas nada puderam ainda saber, e que não figuram em nenhum dos seus catálogos. A minha imaginação fazia-me esperar, senão absolutamente, pelo menos alguma coisa de anilogo. O tipo de Norma, que Walter Scott imortalizou, embora apequenada por a influência despoetizadora deste século material, supunha eu ir encontrá-lo dentro da miserável casa, à qual depois de muitos trabalhos e perigos conseguira aportar.

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