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Serões da Província

Júlio Dinis

ADVERTÊNCIA

ERA propósito de Júlio Dinis, quando em 1869 permitiu à casa More editar os Serões da Província, principiar a interessante colecção dos seus pequenos romances com a Justiça de Sua Majestade, estreia literária do talentoso romancista, escrita em 1858, ' se bem me recordo, e condenada pelo preceito de Horácio ao longo repouso de dez anos, do qual saiu para ser revista pelo autor.

A persistente doença de Júlio Dinis não lhe permitiu concluir a revisão do romance, e foi por essa causa que apareceu a primeira edição dos Serões da Província em 1870, sem a Justiça de Sua Majestade, que o destino condenou a um novo esquecimento.

Júlio Dinis faleceu prematuramente em 1871, legando a seu pai, o Sr. José Joaquim Gomes Coelho, o manuscrito da Justiça de Sua Majestade, que me foi entregue pelo venerando ancião para lhe dar publicidade, se me parecesse digno dela! — não se lembrando que hão podia ser censor do escrito de seu filho, quem, como eu, tem apenas o merecimento de haver sempre sido, e ser ainda, um dos seus maiores admiradores.

Assim, pois, fica-me inteira a responsabilidade de publicar a Justiça de Sua Majestade sem ter primeiro aquilatado o valor literário da obra, incumbência que compete de direito aos leitores, a quem a transmito, vista a incompetência do

Editor da terceira edição.

Porto, 9 de Julho de 1879.

Tinha Júlio Dinis 19 anos incompletos, pois nasceu no Porto em 14 de Novembro de 1839. 2 A. R. da Cruz Coutinho.

JUSTIÇA DE SUA MAJESTADE

FERVET OPUS !

ERA por uma manhã de Abril de 18S2.

O campo vestia-se de seus mais opulentos e matizados trajos.

O Minho estava fascinador.

Por toda a parte eram já espessuras frondosas e impenetráveis; sombras discretas; vales misteriosos e encantadores, graças ao claro- -escuro, com que a vegetação renascente os coloria; colinas adornadas e festivas, como um trono de altar em capela rústica; enfloradíssimos silvados, veigas a exuberarem de vida; e, por entre tudo isto, casas de brancura ofuscante, e acima de tudo um céu sem nuvens, um céu azul, daquele azul dos céus napolitanos, a meu ver, tão culpados na existência dos lazzaroni.

As torrentes estavam nas suas horas de bom humor; não bramiam, murmuravam apenas; não se precipitavam impetuosas do alto dos outeiros, deixavam-se escorregar pelas anfractuosidades das quebradas.

Os ventos, como que arrependidos, pretendiam com afagos fazer esquecer aos arbustos mais tenros as violências passadas.

A luz salutar da Primavera convertia-se, por mágica metamorfose, em perfumes que embalsamavam os ares, em flores que esmaltavam os prados, em harmonias vagas que as brisas transportavam de selva em selva, que as aves escutavam atentas e os ecos repercutiam sonoros.

Nestes dias assim sente-se palpitar de vida a natureza inteira.

Por toda a parte se realiza um genese. No solo é o grão que germina; nos troncos as novas folhas que brotam; nos ramos as flores que desabrocham; nas águas, nas florestas, nos vergéis, nos ares, uma jovem e inquieta geração de aves e de insectos que surge, animando tudo com seus magníficos concertos, com suas valsas incessantes e rápidas, iluminadas por um sol vivificador.

É contagiosa esta alegria da natureza.

O coração recebe o influxo dela.

A vida tem então também a sua inflorescência. Nesta quadra as ilusões, as esperanças, as mais puras e ideais concepções de fantasias exaltadas pululam, como as boninas na relva; a alegria, os risos e os prazeres reflectem-se nos semblantes, como a luz do arrebol nos cimos dos outeiros; ama-se melhor, perdoa-se melhor, e a poesia e os cânticos saem tão espontâneos, como o trinado dos pássaros de entre a folhagem dos pomares.

A fisionomia das cidades perde também então um pouco da sua habitual gravidade. O vento que lhes vem dos arrabaldes inocula-lhes este fermento de folgazão regozijo. A Primavera desinquieta-os, sedu- -los, atrai-os, a esses soturnos cidadãos, e a população urbana trás borda nas aldeias circunvizinhas.

Os mais sisudos burgueses, que, durante o Inverno, revestidos da gravidade do seu paletó, e confiando os pés à impermeabilidade dos seus sapatos de guta-percha, passavam sérios e ponderosos, cortejando- se com irrepreensível compostura, agora vestidos de linho, de chapéu de palha de forma pastoril e leveza que não era de esperar da sua idade e posição, seguem prazenteiros caminho do campo, contando anedotas de índole pouco edificante, fazendo sentir o sabor do sal, não absolutamente ático, que as tempera; recordando as mais atrevidas coplas da Maria Cachucha, acompanhadas de exibições coreográficas de fazerem estalar de riso a parte feminina do rancho que capitaneiam.

É a época de esplendor dos «bons retiros» campestres. Mas em 1852, alguma coisa havia, além da costumada influência da Primavera, a sobressaltar a laboriosa população do Norte do reino. A antiga província de Entre Douro e Minho mostrava o que quer que era extraordinário no alvoroço e geral agitação, que por toda ela ia.

No Porto trabalhavam com azáfama as modistas, os alfaiates, os sapateiros, as luveiras e os doceiros; enchiam-se a deitar por fora as hospedarias; espanavam-se, como em dia de procissão, as varandas, a cujos pacíficos aracnídeos se declarava guerra de extermínio; lavavam- se as vidraças, caiavam-se as fachadas, e, graças a esta limpeza geral que se fazia nas casas, os passeios tornavam-se intransitáveis.

Ruas e largos eram calçados com uma actividade sem análoga nos fastos do município. As sessões extraordinárias do excelentíssimo corpo camarário não permitiam um momento de repouso aos preocupados edis.

Uma população exótica das províncias, trajando de uma maneira incrível, acotovelava-se nas praças, e, extasiada diante das exposições de ouro da Rua das Flores, dificultava a passagem ao cidadão portuense, cuja proverbial celeridade era desta vez, por força maior, modificada.

A guarnição militar da cidade limpava e envernizava as correias e estudava o exercício, e nos quartéis de Santo Ovídio, S. Bento, Carmo e Torre da Marca ressoava de contínuo a música marcial das bandas que se ensaiavam, Na Rua das Flores e à entrada das Hortas erguiam-se arcos triunfais de madeira e lona e de uma arquitectura problemática; no Cais da Ribeira construíra-se um pavilhão de duvidosa elegância; no centro da Praça de D. Pedro terminava-se um obelisco, diversamente comentado pelos cadeirinhas do passeio do poente, pelos políticos do do sul, pelos vigias e. empregados municipais do do norte, e do lado do nascente pelos grupos de elegantes, e literatos, que então estacionavam nas imediações do Guichard, aquele café que há-de merecer uma menção honrosa na história da literatura portuense, se alguém se lembrar de a escrever um dia.

À entrada dos Aloques...—mal agourada procedência — montava- se o primeiro gasómetro que viu a cidade invicta, destinado a iluminar a gás uma árvore alegórica, em que se trabalhava a toda a pressa no alto da Rua de S. João.

Este movimento não ficava concentrado entre os limites das barreiras, estendia-se para o sul a Vila Nova de Gaia, onde, no alto da Bandeira, se construíra também um arco e por toda a estrada de Lisboa até além de Grijó; para Q norte também a tranquila vida da província havia sido alterada. Desde os fidalgos que lavavam os brasões das suas armas e reformavam as librés desbotadas dos criados, até o aldeão, que tirava do fundo da caixa meia dúzia de cruzados novos, cuja integridade e boa conservação eram dignas daquelas dinheirosas épocas de D. João V que os mandara cunhar; todos, mais ou menos, participavam deste geral alvoroço.

É tempo de dizermos o motivo de tanta e tão excepcional agitação destes estranhos preparativos de festa, se é que o leitor o não tem já descoberto. O motivo era efectivamente para todos estes resultados.

As províncias do norte, que muitos anos havia não tinham visto um monarca, preparavam-se para receber e saudar a virtuosa filha do valente Soldado, de cuja gloriosa história aqui se tinham escrito as páginas mais brilhantes e simpáticas.

No espaço de vinte anos o Porto e o Norte do reino, assistira a muitas revoluções, passara por muitos sacrifícios, defendera a todo o transe o estandarte da liberdade, plantado por suas mãos nas memoráveis areias do Mindelo; acontecimentos políticos, quase que sem análogos na história das nações, observara-os o Minho, e nesse sentido já de pouco se podia admirar, mas desafizera-se da vista da realeza; era para toda esta boa gente quase um espectáculo novo.

Os mesmos soldados de D. Pedro não estavam habituados a ela.

Era o duque de Bragança, o coronel de caçadores 5, que militara a seu lado, e não o rei ou o imperador, que antes de desembainhar a espada e subir com os mais bravos às trincheiras do Porto, havia deposto o ceptro e as duas coroas, e despido os arminhos e a púrpura real.

O geral do povo fazia dos emblemas da majestade uma ideia fabulosa.

O manto de S. Luís, da igreja dos Franciscanos, era um acessório, sem o qual não se podia conceber um rei, e de antemão-preparavam-se para admirarem o esplendor e a preciosidade da coroa de ouro, que devia cingir a fronte da soberana.

A multidão, como sempre e em toda a parte, atraída pelos espectáculos novos, aglomerava-se à borda das estradas por onde devia passar a real comitiva. Pinhas de cabeças infantis rompiam por entre a folhagem dos álamos do caminho; as cobertas de damasco e as colchas de chita ramosa adornavam as janelas, onde se encaixilhavam curiosos e pitorescos grupos de fisionomias dos mais diversos aspectos, rindo, berrando, gesticulando, pasmando; as câmaras municipais estavam a postos, tendo em punho os formidáveis e irresistíveis documentos da sua eloquência; o presidente suava; o regedor decretava, e os cabos de polícia passeavam a sua autoridade por entre as turbas que se afastavam respeitosas.

De quando em quando, uma nuvem de poeira ao longe, um coro desafinado de vivas infantis punha tudo isto em alvoroço, ferviam os cotovelões, distribuíam-se com profusão as trilhadelas, assobiava-se, gritava-se, berrava-se, imitavam-se as vozes de todos os animais possíveis e impossíveis, esqueciam-se as conveniências; um espectador pacífico sentia-se literalmente montado pelo vizinho, e vingava-se, procedendo de igual sorte, com o que lhe ficava diante; a população subia até aos telhados pendia, como cariátides, das telhas e das cornijas; os camaristas sacudiam com os lenços o pó das suas botas excepcionais e principiavam a tirar os chapéus, o presidente começava a desenrolar, com a gravidade que o caso pedia, o monumental discurso...

Tudo em vão! Era a carruagem de um proprietário das imediações, o qual seguia para o Porto, onde tinha um peitoril à sua espera e um lugar no teatro para essa noite.

Estes rebates falsos sucediam-se a miúdo. Desde o princípio da manhã a vereação estava esperando! Afinal chegava o cortejo. Os foguetes estouravam com um estampido digno do município; os vivas elevavam-se em um crescente ameaçador ; uma nuvem de crianças precedia os batedores; tudo falava na sua passagem, tudo arrastava consigo; o povo pendura va-se às portinholas do carro em que vinha a família real, devorava com o olhar a rainha, o rei e os príncipes, e ficava como que espantado de os ver rir e conversar como simples mortais.

As vezes, chegado o momento solene, o orador municipal engasgava- se à leitura da felicitação que andava estudando havia um mês.

O povo, a arraia-miúda, sempre desatenciosa, atropelando então todas as noções de acatamento, envolvia os camaristas com irreverência indesculpável e impedia assim que as suas municipais figuras se destacassem de um modo conveniente.

O cortejo passava, e cada qual ficava fazendo comentários sobre o trajo, o chapéu, o sorrir, os modos, os gestos ou as palavras de suas majestades e altezas.

E isto se reproduzia, quase invariavelmente, em todos os pontos da estrada até ao Porto, onde cenas não menos curiosas se passaram então.

A agitação, que, segundo já dissemos, havia muitos dias alvoroçava a cidade, subira de ponto à medida que o telégrafo noticiava a chegada dos reais viajantes ãs terras mais próximas deste heróico baluarte das liberdades pátrias. — Era assim que os poetas e os jornalistas chamavam ao Porto nas odes e artigos que estavam elaborando para a ocasião.

Na manhã da véspera tinham principiado a rodar, em direcção aos Carvalhos, as carruagens e trens das principais personagens da cidade a esperar suas majestades e altezas, que na noite desse dia ali repousaram. Para lá estava ainda o governador civil, o general da divisão, e vários titulares antigos e recentes, bem como uma turba muito maior de aspirantes a titulares; viam-se passar a todo o momento as deputações de vários corpos colectivos que corriam a felicitar os augustos hóspedes. As casacas, as gravatas e luvas brancas, as fitas dos hábitos e comendas, as fardas agaloadas, os chapéus armados perpassavam, como brilhantes e rápidos meteoros, perante os olhos curiosos dos peões que, depois de cortejarem os seus possuidores, lhes ficavam redigindo uma biografia digna de Tácito pela severidade.

O dia estava sereno e límpido. Um noticiarista pôde escrever, esfregando as mãos por ter de empregar um pensamento sempre novo: — Dir-se-ia que até o tempo, ostentando o seu brilho e galas, quis manifestar alegrias, confundindo as suas homenagens com o regozijo público.

A ansiedade geral tocava o seu auge. As onze horas da manhã interrompiam-se todas as transacções comerciais. Fechavam-se as lojas, como em dia santificado. Os pais de família conduziam já a fascinadora prole para as sacadas do amigo, que tinha a infelicidade de morar em uma das ruas do trajecto, e indirectamente arrastavam atrás de si, sem o saber, uma coorte mais ou menos numerosa de fascinados.

Os corpos da guarnição marchavam ao som das músicas marciais, estimulavam o entusiasmo da população. Precedia-os uma turba tumultuosa de garotos, que se voltavam seduzidos pelo brilhantismo das fardas de grande gala e pelas evoluções do tambor-mor. No Cais da Ribeira, onde afluíam os curiosos de todos os lados para assistirem ao desembarque e à cerimónia da entrega das chaves, a multidão era compacta, a ponto de dificultar o trânsito das carruagens dos vereadores e as manobras dos batalhões do cortejo.

Era um oceano de cabeças, ruidoso, agitado, ameaçador! De onde como de um pandemónio, partia a gargalhada, o grito, a aclamação, o insulto, o apupo, a ameaça, os vivas e os morras que a curiosidade revolvia, e fazia ondular em grandes e imponentes marés. O Doure coalhado de navios, barcas, lanchas, escaleres e canoas embandeirados, e reflectindo nas suas águas, então serenas, a ponte pênsil, toda adornada de flâmulas e galhardetes, oferecia um aspecto risonho e festivo, que lhe não é habitual.

Ao meio-dia as salvas de artilharia, o estourar das girândolas, e o repique dos sinos, comunicando uma violenta comoção às turbas impacientes, anunciavam que sua majestade chegara ao alto da Bandeira.

Meia hora depois desembocando da estreita e tortuosa Rua Direita na praia de Vila Nova, ao som dos vivas dos nossos vizinhos de além Douro, correspondidos pelos dos Portuenses, o cortejo real encaminhava- se para o rio, que, por entre fileiras de embarcações de todo o género, atravessou.

No momento do desembarque, a multidão teve um paroxismo de curiosidade entusiástica, para resistir ao qual a guarnição militar obrou prodígios, que os fastos da polícia portuense deveriam registar.

Esta crise durou todo o tempo empregado por o cortejo real em sair dos escaleres e entrar no pavilhão, onde o presidente da Câmara pronunciou a felicitação do estilo e ofereceu a suas majestades as chaves da cidade, e só terminou quando de novo tudo se pôs em marcha, observando a pragmática que a etiqueta cortesã instituiu para casos tais.

Os sinos repicavam, os foguetes subiam aos ares, as janelas e varandas vergavam sob o peso dos espectadores, as flores choviam sobre o carro real, flutuavam as bandeiras, as flâmulas e os damascos de diversas cores; o cheiro das espadanas e mais verdes, que juncavam as ruas, completava as aparências de festa. A multidão contitinuava- se compacta da Ribeira até à Lapa, onde devia ter lugar o Te Deum, e da Lapa ao palácio dos Carrancas, da Torre da Marca, ainda então propriedade de particulares.

Estava enfim D. Maria II dentro dos muros da cidade invicta.

II

EM QUE TRAVAM CONHECIMENTO ALGUMAS PERSONAGENS DESTA HISTÓRIA

NÓS, porém, deixaremos o Porto, justamente na ocasião em que de todos os lados aflui gente para ele, atraída pelas iluminações, paradas, espectáculos líricos e dramáticos, bailes, ceias, lunchs e almoços, com que, durante oito dias, se ocupou a população desta invicta cidade, que não desmentiu seus brios de abastada e amante da dinastia.

Os poetas contribuíram com o seu contingente de sonetos, odes, hinos, cantatas e elogios para o esplendor dos festejos.

Nos diários da época mais circunstanciadas notícias do que quantas eu lhes pudera aqui dar, encontrarão os que as desejarem.

O Porto conservou-se em folguedo permanente até aos princípios de Maio. Na manhã do dia 5 partiu a corte em direcção às províncias do norte, indo almoçar a Castedo, onde a Câmara de Bouças serviu à família real, juntamente com o almoço, uma felicitação.

Precedendo o luzido cortejo, percorramos a extensão da estrada que vai deste lugar a Vila Nova de Famalicão, onde teremos de nos demorar.

Por toda a parte era movimento e vida! Por baixo de um sem-número de arcos campestres e dos festões de murta e de flores, que adornavam todas estas duas léguas de caminho, moviam-se e agitavam-se consideráveis magotes de gente da aldeia que, a todo o momento, os caminhos laterais vazavam na estrada.

Os trajos pitorescos do Minho, as cores garridas dos lenços e saias, a alvura das camisas de linho, o brilho dos cordões e das arrecadas, as festas de viola e clarinete acompanhando vilancetes improvisados de alguma cantadeira famosa, davam a toda esta multidão, que se enfileirava de um e de outro lado da estrada, ou acampada em grupos nas devesas e pinhais vizinhos, procedia a apetitosos repastos, complemento de todos os regozijos populares no Minho, um ar de satisfação indescritível.

De tempos a tempos viam-se passar caleças, cabriolés ou carroções — esse portuguesíssimo veículo, contra o qual o Sr. Ricardo Guimarães soltara já então o fatal grito de extermínio — conduzindo famílias que regressavam, repletas de festejos, à sua casa de província; outras vezes eram correios de secretaria, carroças de bagagem, oficiais da corte encarregados de disposições para o alojamento do séquito real, liteiras com eclesiásticos, militares a cavalo, destacamentos de infantaria e em suma toda essa população que, em tais ocasiões, se vê circular de terra em terra ou por obrigação e ofício ou por curiosidade e prazer.

Foi então que se deu um facto notabilíssimo, que a posteridade acoimará de fabuloso, como nós hoje acoimamos, já não digo as façanhudas proezas do cavalo de Alexandre, mas até, com certa escola histórica, as heróicas acções dos sete reis de Roma.

Um dia, o povo portuense viu partir, caminho do norte, uma legião de cadeirinhas, que, a passo regrado, uniforme, imperturbável e filosófico até, transpôs as barreiras da cidade invicta, para demandar as da augusta Bracara.

Na fronte destes beneméritos da humanidade reluzia uma auréola que revelava a importância da missão que iam cumprir assim! Nunca tão sublimes de estoicismo escutaram as chufas e apupadas dos garotos; nunca tão cônscios da sua importância social guardaram mais solene silêncio, apenas, de quando em quando, interrompido por uma interjeição galega, que o tropeço de um adepto novel desafiara. Com que denodada coragem tomavam o caminho da peregrinação, transportando, com cadenciado movimento, o inseparável veículo! E contudo o projecto que assim os reunia em bandos era para fazer enfiar os mais ousados.

As façanhas de Hércules não lhe eram superiores; a empresa imposta por Carlos Magno a Hugon ou Huol, do poema de Wieland, não era de mais difícil execução.

Estes destemidos heróis propunham-se a nada menos que a fazer viajar no Gerês — e por 2$400 réis! — toda a corte e a família real! Que pena que circunstâncias, alheias ao ânimo dos novos e intrépidos argonautas, impedissem por fim a realização desse feito! A humanidade enriqueceria a sua crónica de heroicidades e a águia das serras abateria o orgulho, vendo a seu lado o cadeirinha, limpando o suor que o nobilitava e pendurando o capote listrado nos mais altos picos dos rochedos, como o guerreiro vitorioso pendurava na sala de armas a cota, o elmo e o morrião dos combates.

Menos feliz que o Porto, Vila Nova de Famalicão sentia um pesadelo no meio dos seus regozijos. O dia não estava seguro. Grossas nuvens, assopradas do sul, empanavam, de espaço a espaço, a claridade da manhã; aumentavam, corriam e cerravam-se, prestes a fundirem- se em uma só massa, como para reprimir todas aquelas expansões de entusiasmo festivo.

Junto a um arco de dimensões colossais, flanqueado de um a outro lado por duas altas colunas, e que fora erigido logo à entrada da vila, estacionava a câmara, dignitários e mais convidados para a solenidade da recepção. Deste numeroso grupo a todo o instante se erguia uma cabeça para fitar as nuvens, de cujo aspecto e movimento se auferiam vários prognósticos meteorológicos.

— Isto passa — dizia um velho, cujo pescoço, armado de uma inflexível gravata branca, mal lhe permitira o movimento necessário para fitar o céu.

— Hum ! Não sei — respondeu-lhe um dos vereadores com ar de abatimento, — O vento está do sul.

— Ainda quando tenhamos chuva, é lá mais tarde. Quando o vento acalmar, pode ser — opinava um terceiro.

— O pior é ser hoje quarto crescente.

— Pois se temos água para a noite, devem ser interessantes as iluminações! — observou um indivíduo, que, tendo sido encarregado dessa parte dos festejos, via a sua glória futura ameaçada de se evaporar, ou, mais propriamente, de se fundir na inundação que receava.

— Uma coisa assim! — suspirava um, lembrando-se do chapéu novo que estreara.

— Vão-se demorando! — respondia-lhe outro, a quem a incómoda constrição de umas botas de polimento tornava impaciente.

— Faz-se-me tarde para o jantar — retorquia-lhes um velho.

consultando o relógio e dando a entender em uma visagem expressiva que este adiamento era o máximo sacrifício que podia fazer à realeza.

E com os ânimos assim dominados pela impaciência ou pelo receio, uns bocejavam, outros assobiavam, outros passeavam, e todos estendiam a vista pela estrada, a descobrir vestígios do que tão ardentemente esperavam.

De repente um som distante de morteiros e foguetes veio aumentar- lhes a ansiedade.

Chegara enfim o momento? Tudo se pôs a postos. Erguiam-se nos bicos de pés e estendiam os pescoços.

De facto, passados alguns momentos mais, assomava no extremo da estrada, onde convergiam todos aqueles raios visuais, um carro de grandes dimensões e de formas ainda não conhecidas ali, que, puxado por mais de uma parelha e envolvido em um turbilhão de poeira, se aproximava a toda a brida do lugar de onde o observavam estes ansiosos espectadores.

— Aí estão — disse um dos camaristas, conjecturando que não podia deixar de ser real um tão estranho meio de locomoção.

E, a um sinal dado, o morrão aproximou-se dos foguetes aprestados, e uma salva de girândolas subiu aos ares, quando o referido carro parava junto do arco triunfai.

Estava dado o alarme na povoação.

A câmara aproximou-se da portinhola.

Oh desapontamento! Em vez do que esperavam encontrar, apenas depararam com meia dúzia de fisionomias que os olhavam sorrindo, como se compreendessem e saboreassem o equívoco.

Caíram então em si.

Era uma das diligências da Companhia Viação Portuense, que escolhera aquele dia solene para inauguração das suas viagens.

Não inventamos. Os viajantes que receberam nesta jornada um acolhimento de príncipes, eram pela maior parte desta cidade, e ainda hoje não terão por certo esquecido a honraria que um engano lhes proporcionou.

Quando o presidente, chegando ao carro, se preparava talvez para recitar os primeiros períodos da sua alocução, deu de chapa com um rosto rubicundo e jovial, que, surgindo a um dos postigos, disse para os circunstantes: — Guarda dentro, guarda dentro, e à vontade. Safa! Não se pode viajar incógnito por esta terra.

Os espectadores fizeram uma careta expressiva, porque haviam reconhecido a pessoa que assim lhes falava.

— Então isso faz-se, José? — disse-lhe em tom de amuo um dos enganados.

— É célebre! — continuava este, e depois de descer do carro e recebendo de um criado o saco de viagem. — É célebre! Viemos em triunfo! Nunca imaginei que me estavam reservadas estas glórias! Com que preparavas-te para me recitar a tua felicitação, não é assim? — dizia para o orador municipal, que começava a achar graça ao sucedido.

— Escapamos de boa, meus senhores — disse depois para os seus companheiros de jornada — escapamos de boa! A eloquência do município! Que pesadelo! E os foguetes ? Com os diabos! Esgotaram a provisão? Depressa! depressa! Olá, João das Pipas, acende outra vez o morrão, meu homem. Perdeste o teu tempo e a tua ciência.

Mas não tem dúvida. Vocês, sem querer, saudaram um grande acontecimento— a inauguração da Companhia Viação Portuense, da qual eu possuo vinte e três acções. Não sabem o que saudaram com esses foguetes? Saudaram o Minho, saudaram Braga, saudaram o progresso, os melhoramentos desta nossa terra, o engrandecimento da província, do comércio e da agricultura. Não vos arrependais, meus amigos; não choreis o dinheiro do município, que estourou agora nos ares. São de bom agouro estes estouros. São palmas dadas a um grande cometimento.

Não estivesse eu com fome, que vos dissera já aqui quanto há a esperar desta caranguejola em que eu vim mais estes cavalheiros, meus amigos, de quem me despeço hoje, porque já agora aproveito a ocasião para ir a Barcelos na comitiva real. Pensai vós nisto, e dai por bem empregada a pólvora que consumistes. Todavia ponde-vos outra vez a postos, que suas majestades não tardam, e preparai também os guarda-chuvas, porque já sinto cair as primeiras pingas.

E, terminando este aranzel, que os circunstantes escutaram com um sorriso nos lábios, o jovial accionista da Companhia Viação Portuense dirigiu-se, a correr, para a estalagem vizinha.

O seu prognóstico era verdadeiro. A chuva principiava a cair; e quando os coches reais entraram na vila era já tal a cópia de água, que não pararam para se ler a felicitação camarária, e seguiram imediatamente para a casa do Ex.m° Sr. António Emílio Brandão, onde a família real tinha de pernoitar.

Estava em maré de infelicidades a Câmara de Vila Nova de Famalicão.

No entretanto o indivíduo que vimos sair da diligência, fazendo alarde do desapontamento dos seus amigos de Vila Nova, subia apressado os lanços da escada da hospedaria.

Era um velho baixo e magro, mas todo viveza e actividade, de uma fisionomia aberta e expansiva, olhos penetrantes e lábios habitualmente risonhos.

Trajava vestuário de jornada, e mostrava claramente em certas particularidades do seu equipamento de viagem, não ser noviço nestas empresas.

Trauteando um dos muitos hinos com que, durante os dias que passara no Porto, tivera vagar de encher os ouvidos, avançava a dois e dois os degraus, seguido do criado que lhe trazia as malas.

No primeiro patamar encontrou-se frente a frente com o dono da hospedaria, que se descobriu ao avistá-lo.

— Olá! Viva o patrão. Passasse muito bem. Quero um quarto para esta noite.

O estalajadeiro fez uma visagem de embaraçado.

— Então? Vamos, adiante. Mostre-me um quarto, que tenho pressa.

— Mas... Valha-me Deus, Sr. José Urbano... É que eu não tenho nenhum quarto que lhe dê.

José Urbano fez um gesto de espanto, e pôs-se a olhar fito para o seu interlocutor.

— Com os diabos! Sr. Manuel! Você esquece-se que está falando com um dos mais assíduos fregueses da sua baiuca? — Não, senhor; mas é que eu não podia adivinhar que V. S.* chegava hoje e pretendia ficar aqui. Aluguei todos os quartos que tinha.

— Sr. Manuel! Olhe que eu sou José Urbano de Melo Ribeiro, e nunca na minha vida dormi uma noite ao relento. Arranje-se como puder; mas eu não saio daqui.

— Mas que quer V. S.' que eu faça! Eu se soubesse...

— Não tem desculpa nenhuma. Um homem conta sempre com um amigo.

— Mas nestas ocasiões...

— Pois nestas ocasiões é que se agradecem os favores. Então! Decida-se. Eu quero hoje ficar em Vila Nova. Parto amanhã para Barcelos.

Não desejo incomodar nenhum dos meus amigos que estão já abarrotados de hóspedes. Veja se rnô quer deixar em uma situação crítica. Tinha graça! Não saio daqui ao poder que eu possa...

— Valha-me Deus! — disse o estalajadeiro, coçando a cabeça.

— Deixemo-nos de lamentações. Se você não é homem de expediente, eu vou por aí pedir a esses inquilinos que me cedam metade do seu quarto. Alguns hão-de concordar. Com os diabos! Porque não ? Eu arrancho sofrivelmente a uma partida de stromboy ou voltarete ou de damas e gamão, e ainda não sou dos piores companheiros. Vamos lá.

Quando José Urbano acabou de pronunciar estas palavras, abriu-se por detrás dele uma porta, junto da qual se travara esta altercação, e um velho, de aparência marcial, vestido de um amplo capote ou sobretudo de mescla agaloado de vermelho e com botões de metal, e cabelo cortado à escovinha, se intrometeu na discussão, dizendo para José Urbano:.

— Aqui tem um que lhe aceita a companhia, se lha propuser e estiver disposto a aturar um velho soldado, que por certo o não poupará à narração de uma das suas campanhas.

José Urbano voltou-se. Achava-se na presença de um soberbo tipo de velho oficial, que desde logo lhe agradou.

Era uma figura, cuja cor e carnação revelavam saúde e robustez; bigode espesso e alvíssimo, umas certas rugas ao canto dos olhos, características de bom humor; porte airoso, movimentos fáceis, cabeça erecta; peito saliente.

— Bom! — disse José Urbano, intimamente satisfeito. — Eu logo vi que não estávamos em terra de bárbaros. Aceito, general, e agradeço.

— Devagar, devagar, meu ilustre amigo. Não posso com a patente. General! Safa! Como vai depressa! Major, major, e graças á febre promotora da Regeneração.

— Major! — disse José Urbano, instalando-se sem mais cerimónia no quarto do seu inesperado companheiro. — Como é isso ? Apre! Que tem andado a passo, meu salvador. Major! — Que quer? Servi a Junta do Porto em 1846. Está explicado o atraso.

— Hum! Então é dos meus! Está na presença de um patuleia.

Fique desde já sabendo.

— Folgo imenso.

E os dois apertaram novamente as mãos.

— Tirou-me de apertos, major — continuou José Urbano, revolvendo as malas. — Entre parêntesis, não repare se eu, compensando de alguma sorte a incúria dos governos, lhe chamar às vezes general.

— Chame-me o que quiser.

— Tirou-me de apertos, dizia eu. Imagine que esse desalmado do estalajadeiro me queria deixar sem quarto. A mim, que todos os meses lhe deixo aqui ficar alguns cruzados novos em troca de uns maus bifes de cebolada que me dá a tragar. Ainda assim é do melhor que se cozinha por cá. Olá, rapaz, traz-me cerveja inglesa — exclamou para um criado que atravessava o corredor. — Bebe cerveja, major? — Para lhe falar verdade, meu caro amigo, nunca fui afeiçoado a essa bebida de ingleses e flamengos. Lembra-me o tempo da emigração.

— Ah! emigrou também? Olá, rapaz, vinho do Porto.

— É para mim que o pede? Por quem é? Eu já não bebo antes de comer. Foi tempo.

— Está como eu. Rapaz, bifes de cebolada.

— Com os diabos, senhor.., como lhe hei-de chamar? — José Urbano, um seu criado.

— Meu caro Sr. José Urbano, veja que para jantar ainda é cedo.

— Chame-lhe lunch, chame-lhe o que quiser. O essencial é que eu coma. Em todo o caso... Rapaz, queijo londrino. Dá licença que me ponha à vontade, general? — Sem cerimónia. Está no seu quarto.

José Urbano não esperou nova autorização; vestiu um robe de chambre de chita, pôs um boné, calçou uns sapatos de tapete, que tirou da mala, e principiou a fazer os preparativos para se barbear.

O major, acendendo um cigarro, observava-o com visíveis mostras de satisfação.

— Então, com que o general ou o major veio com algum dos duques, não é verdade? — Rigorosamente falando, eu vim só. Há muito que desejava percorrer o Minho. Pedi licença em Lisboa, e aproveitei esta ocasião para levar a efeito esta visita.

— Não conhece a província? — Ora! como as minhas mãos.

— Visto isso, não tem roteiro marcado? — Senão o instituído por mim próprio. Quero abraçar alguns camaradas velhos e tornar a ver certos lugares.

— Segue para Barcelos amanhã, não é assim? — Não; vou primeiro a Braga.

— Diabo! —Que é? — Sinto não estar lá para o receber em minha casa.

— Agradecido.

— Talvez ainda nos encontremos. Demora-se ? — Veremos. Pode ser.

— Então é provável. Apressarei os meus negócios.

— É de Braga ? — Resido lá.

— É negociante ? — Às vezes. Quando me faz conta. Quer dizer, quando vejo probabilidades de bons resultados. No caso contrário vivo dos meus capitais.

Cultivo a minha horta, enxerto as minhas fruteiras, e uma vez ou outra, por desfastio, trabalho em eleições. Assim vou vivendo.

E com estas conversas pouco e pouco se foi estabelecendo a mais íntima familiaridade entre os dois; dentro de alguns minutos mais estavam um defronte do outro, prestando a devida homenagem ao talento culinário do vatel da estalagem, manifestado em um bife de cebolada, que teve as honras de bis.

Não os distraiu o estrondo dos morteiros, os hinos marciais e o murmúrio da populaça, que a chegada dos reais viajantes ocasionara nas ruas.

Acabada a refeição, José Urbano, que continuava a pôr de parte toda a cerimónia, dirigia ao major uma pergunta que envolvia uma intenção, evidente para o major.

— Não costuma dormir a sesta, coronel ? — Quase nunca, e hoje muito menos. Tenho de visitar o duque de Saldanha.

— Nesse caso não se constranja. Vá, vá. Eu dormirei, porque, para lhe falar francamente, ando muito falto de sono. Estes dias passados no Porto arrasaram-me. Na quinta-feira estive em S. João; representou a companhia dramática; recitaram os poetas. Na sexta fui ao baile da assembleia. No sábado voltei ao teatro; cantou-se a Lucrécia Bórgia.

Na segunda fui ao baile da Feitoria... em uma palavra, não me tenho em pé. Até logo,' general ou major, até logo. É verdade! Como se chama ? — Clemente Samora.

— Clemente! Tem graça. Esquisito nome de militar. Adeus, adeus.

E os dois separaram-se; José Urbano para se entregar às delícias de uma sesta que se não fez esperar; o major Samora para descer à rua, onde vários grupos de oficiais, chegados ultimamente, estacionavam.

Não havia muito que ali chegara o major, quando o chamou à parte um alferes ainda moço e imberbe, de compleição delicada, elegância irrepreensível e mãos aristocráticas, e ocupado a calçar uma luva de pelica com o mesmo escrupuloso cuidado que empregaria na plateia do teatro de S. Carlos.

A figura do recém-chegado, que, a julgar pelas aparências, dir-se-ia mais própria para adornar os salões da capital ou os passeios do Chiado, e para ostentar garbos nas paradas, do que a pernoitar em bivouac, vencer marchas e contramarchas, e dirigir uma carga de baioneta, contrastava com o ar marcial do major, que o seguia a passos vagarosos, revelando o hábito de cavalgar e talvez um princípio de reumatismo, que a vida de campanha lhe granjeara para a velhice.

— Não é verdade que tenciona seguir para Braga amanhã, major? — É, sim. Porque o pergunta? Posso ser-lhe útil? — Ofereço-lhe a minha companhia.

— Como! Pois não segue o cortejo ? — Não; o duque da Terceira encarregou-me de uma mensagem para o comandante do 8. Parto amanhã.

— Estimo. Faremos uma bela jornada. E sua mãe? — Segue ainda para Barcelos; depois parte para a quinta do Coural, cujos proprietários prometeu visitar. Esperam-na.

— Vai negociar o seu casamento, Filipe; aposto. As filhas desse capitalista são ricas e interessantes, dizem.

— Que importa ? Minha mãe sabe que para eu principiar a odiá-las bastava suspeitar que se tramava essa conspiração matrimonial. Mas descanse. As raparigas julgo que até estão prometidas a não sei que fidalgos do Minho.

— Então amanhã conto consigo ? — Sem falta.

— Eu moro na hospedaria. Acolá. E por sinal que tenho por companheiro de quarto um originalão. É verdade, se puder, apareçanos esta noite. Jogaremos uma partida de voltarete.

— Pode ser. Até a vista, — Até à vista.

Às nove horas da noite ia grande rumor no quarto do major Samora.

Este, José Urbano e Filipe de Rialva — que assim se chamava o jovem alferes, com quem acabamos de tomar conhecimento — jogavam uma partida de voltarete, a qual José Urbano acompanhava de observações críticas e sonoras exclamações.

A exigências suas, flanqueava a mesa do jogo uma boa provisão de bolacha, charutos e garrafas de Xerez e Porto, que concorriam em grande parte para o carácter ruidoso da partida.

José Urbano estava infeliz ao jogo. Rialva recordava-lhe, sorrindo, o velho adágio que lhe prometia felicidade nos amores.

José Urbano torcia o nariz à alusão.

— Não, meu caro amigo — exclamava ele, bebendo um cálice de Porto — desse achaque estou eu livre. Curti o coração ao sol do Rio de Janeiro e nas roças do sertão. Essas enxaquecas já não têm presa em mim.

— Vamos, Sr. José Urbano — continuava Rialva — se quiser ser ranço, talvez tenha que nos contar. Um episódio ameno no meio desse viver árido que diz.

— É certo — disse o velho negociante, tomando subitamente um ar de seriedade — é certo que nem tudo tem sido aridez na minha vida. Mas os poucos episódios amenos, como diz, os meus únicos amores... esses... são para mim demasiado sérios para os contar à mesa do jogo e entre dois goles de Xerez. Agora... Bebamos em honra da Carta Constitucional — exclamou, ao ouvir romper por baixo das janelas da hospedaria esse hino popular executado por uma filarmórica da localidade.

— Apoiado — respondeu o major, erguendo o cálice.

Rialva fitou por algum tempo José Urbano.

— O que se não conta a uma mesa de jogo — disse passados alguns momentos nesta contemplação — poderá contar-se um dia, dadas outras circunstâncias.

— Decerto — respondeu José Urbano.

— Bem; nesse caso... Em honra da Carta! E Rialva associou-se ao brinde.

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