Barbicane já não sentia qualquer inquietação, se não sobre o êxito da viagem, pelo menos a respeito da força de impulsão do projétil, cuja velocidade virtual o levava a ultrapassar a linha neutra. Portanto, nem voltaria à Terra nem se imobilizaria no ponto de anulação das atrações. Das hip óteses aventadas, uma única ainda não se realizara: a chegada do projétil ao alvo pela ação da atração lunar.
Na realidade, era uma queda de oito mil duzentas e noventa e seis léguas sobre um astro onde a gravidade tem apenas a sexta parte do valor da terrestre. Apesar disso, a queda seria formidável, pelo que todas as precauções deviam ser tomadas sem demora.
Havia a considerar duas espécies de precauções: uma destinada a amortecer o choque no momento em que o projétil caísse no solo lunar, outra tendente a retardar-lhe a queda, tornando-a, conseqüentemente, mais suave.
Para amortecer o choque, pena era que Barbicane não dispusesse dos mesmos meios que tão eficazmente haviam atenuado o abalo da partida, isto é, da água para servir de almofada e dos tabiques quebradiços. Estes ainda existiam, mas faltava a água, visto que nada aconselhava a utilizar para esse fim a reserva de que dispunham, reserva preciosa no caso de vir a faltar-lhes o elemento líquido nos primeiros dias de permanência no solo lunar.
A reserva era insuficiente para servir de almofada. A camada de água armazenada no projétil à partida, sobre a qual assentava o disco estanque, ocupava nada menos de aos pés de altura, tendo por base uma área de cinqüenta pés quadrados. Era uni volume de seis metros cúbicos, que pe178 sava cinco mil setecentos e cinqüenta quilos. Ora, os recipientes da reserva não comportavam nem a quinta parte daquele volume. Obviamente, havia que renunciar ao emprego desse poderoso meio de amortecer o choque da chegada.
Por uni feliz acaso, Barbicane não se contentara em empregar apenas água e munira o disco móvel com fortíssimas molas, destinadas a minorar o choque na base do projétil, depois da destruição dos tabiques horizontais. Essas molas também não se haviam perdido, mas necessitavam de ser reajustadas, assim como o disco móvel precisava de ser reposto na posição inicial. Tornava-se fácil manipular e levantar todas essas peças, dado que o seu peso era naquele momento diminuto.
E assim se fez. As diferentes partes foram reajustadas sem qualquer dificuldade. Com alguns parafusos e porcas, a quest ão resolveu-se, já que a respeito de ferramentas estavam os viajantes bem fornecidos. Em breve, o disco, totalmente recomposto, assentou sobre os seus suportes de aço, como unia mesa nos seus pés. A recolocarão apresentava, contudo, um inconveniente: a vidraça inferior ficava obstruída, o que impossibilitaria os viajantes de observar a Lua por aquela abertura, quando começassem a cair na perpendicular do globo lunar. Mas assim tinha de ser. Mas ainda se poderia avistar vastas regiões lunares pelas vigias laterais, como se vê a Terra da barquinha de uni aeróstato.
A montagem do disco exigiu unia hora de trabalho. Passava do meio-dia quando os preparativos foram dados por concluídos. Depois, Barbicane procedeu a novas observa- ções sobre a inclinação do projétil; mas, com grande pesar, verificou que ele não se voltara o suficiente para iniciar a queda, antes parecia seguir unia curva paralela ao disco lunar. 0 astro da noite brilhava esplendidamente no espaço, enquanto do lado oposto o astro do dia o incendiava com os seus raios de fogo.
A situação era inquietante.
Conseguiremos chegar? - perguntou Nicoles.
- Procedamos como se estivéssemos para chegar - respondeu laconicamente Barbicane.
- Grandes medrosos me saíram! - censurou Michel Ardan.
- Chegaremos e mais depressa do que desejamos.
Tal resposta fez com que Barbicane retomasse os trabalhos preparatórios e se ocupasse de imediato com a inspeção dos engenhos destinados a amortecer a queda.
Convém aqui lembrar o meeting que teve lugar em Tampa, na Flórida, durante o qual o Capitão Nicoles se apresentou como inimigo de Barbicane e como adversário de Michel Ardan. Ao Capitão Nicoles, que sustentava que o projétil se partiria como uni vidro, Michel respondera que lhe amorteceria a descida por meio de foguetes convenientemente dispostos.
Realmente, possantes engenhos pirotécnicos, montados na base de projétil para funcionar no exterior, podiam produzir uni movimento de recuo e, com seqüentemente, diminuir numa certa proporção a velocidade do projétil. É verdade que esses foguetes tinham de arder no vácuo, mas o oxigênio não lhes, faltaria, porque a própria combinação pirotécnica o forneceria, como acontece com os vulcões lunares, cuja erupção nunca deixou de dar-se por falta de atmosfera em torno da Lua.
Barbicane munira-se, portanto, de vários engenhos pirotécnicos, contidos em pequenos tubos de aço que dispunham de rosca, que se podiam atarraxar à base do projétil.
Interiormente, os tubos afloravam-lhe o fundo. Exteriormente destacavam-se-lhe em cerca de meio pé. Eram ao todo vinte. Unia abertura, especialmente contra o efeito e localizada no disco móvel permitia acender a mecha de que uni estava provido. Devido à sua colocação todo o efeito se produzia para o lado de fora. As misturas que entrariam em fusão foram previamente introduzidas sob pressão nos tubos. Bastava, portanto, retirar os obturadores metálicos engastados na base do projétil e substituí-los pelos tubos, que se ajustavam rigorosamente às aberturas deixadas por aqueles.
Essa operação foi concluída às três horas. Tomadas tais precauções, nada mais havia a fazer senão esperar. .
Entretanto, o projétil aproximava-se visivelmente da Lua.
Era evidente que estava submetido à sua influência numa certa proporção. Mas a velocidade própria, impulsionava-o também numa direção oblíqua. A resultante destas duas forças era unia linha que muito provavelmente se transformaria numa tangente. Unia coisa, porém, era clara: o projétil não cairia normalmente para a superfície da Lua, porque, sendo assim, a parte inferior, em virtude do seu peso, deveria estar voltada para o astro.
As inquietações de Barbicane redobravam, visto que o projétil resistia às influências da gravitação. 0 desconhecido dos espaços interestelares, abria-se diante dele. Ele, o homem de ciência, julgara ter previsto todas as hipóteses possí- veis: regresso à Terra, queda na Lua ou imobilidade sobre a linha neutral E eis que unia outra, carregada de todos os terrores do infinito, surgia inopinadamente. Para enfrentá- la sem desânimo, era preciso ser-se uni sábio resoluto como Barbicane, uni ente fleumático como Nicoles ou uni audacioso aventureiro como Michel Ardan.
0 assunto dominou daí em diante todas as conversas. Outros homens teriam considerado o problema do ponto de vista prático. A si próprios teriam perguntado para onde os arrastaria o vagão-projétil. Eles, não. Limitaram-se a tentar descobrir a causa que provocara aquele efeito.
- Quer dizer que descarrilhamos. Mas porquê? - Receio - aventou Nicoles - que o columbiad, apesar de todas as precauções tomadas, não tenha sido apontado com a exatidão necessária. Uni erro, por muito pequeno que fosse, bastava para nos pôr fora da atração lunar.
- Teria sido então uni erro de pontaria? - perguntou Michel.
- Não, não o creio - disse Barbicane. - A perpendicularidade do canhão era rigorosa; a direção para o zênite do lugar incontestável. Ora, como a Lua passava pelo zênite, devíamos atingi-la em cheio. Há outra razão, mas não atino com ela...
- Não chegaremos muito tarde? perguntou de chofre Nicoles.
- Muito tarde? - ecoou Barbicane.
Sim - explicou Nicoles. - A nota do Observatório de Cambridge diz que o trajeto deve completar-se em noventa e sete horas, treze minutos e vinte segundos. 0 que quer dizer que, mais cedo, a Lua não estará ainda no ponto indicado, e que, mais tarde, já lá não se encontrará.
- De acordo - replicou Barbicane. - Mas nós partimos em 1? de dezembro, às dez horas, quarenta e seis minutos e setenta e cinco segundos da noite, e devemos chegar à meia-noite do dia 5, no momento preciso em que a Lua estiver em plenilúnio. Pois bem, estamos a 5 de dezembro e são três e meia da tarde. Deveriam bastar, portanto, oito horas e meia para atingirmos o alvo. Então por que é que não chegamos? - Não será por excesso de velocidade? - lembrou Nicoles. - Porque sabemos agora que a velocidade inicial foi maior do que supúnhamos.
- Não! Cem vezes não! - bradou Barbicane. - Uni excesso de velocidade, se a direção do projétil fosse boa, não nos impediria de atingir a Lua. Não! Houve um desvio! Fomos desviados.
- Por quem? Por quê? - interrogou Nicoles.
- Nada posso dizer - confessou Barbicane.
- Olha, Barbicane - disse então Michel -, tens interesse em saber a minha opinião sobre o desvio? - Fala, homem.
- Eu nem meio dólar dava para o saber! Desviamo-nos, é um fato. Para onde vamos, tanto faz como tanto fez! Vê-lo-emos na altura própria. Que diabo! Uma vez que estamos sendo arrastados por esse espaço, acabaremos por ir parar a algum centro de atração.
A indiferença de Michel Ardan não podia contentar Barbicane.
Não que este se inquietasse com o futuro! 0 que o preocupava era o desvio do seu projétil, cuja razão queria conhecer custasse o que custasse.
Enquanto isto, o projétil continuava a deslocar-se lateralmente em relação à Lua, e com ele todo o cortejo de objetos alijados. Tomando pontos de referência na Lua, que estava a menos de duas mil léguas, Barbicane pôde até concluir que a velocidade se ia tornando uniforme. Nova prova de que não haveria queda. A força de impulsão sobrepunha- se ainda à atração lunar, mas a trajetória do projétil aproximava-o decerto do disco lunar, pelo que podia esperar-se que, a menor distância, a ação da gravidade predominasse e provocasse finalmente a queda.
Os três companheiros, por nada de melhor terem para fazer, prosseguiam com as observações. Continuavam, por ém, sem poder determinar a disposição topográfica do satélite. A projeção dos raios solares nivelava todos os relevos.
Barbicane obstinava-se em encontrar unia solução para o insolúvel problema que se lhe deparava.
As horas decorriam e a situação mantinha-se. 0 projétil aproximava-se visivelmente da Lua, mas era também visí- vel que não a atingiria. Quanto a saber-se até que distância o projétil se aproximaria da sua superfície pouco ou nada se podia avançar, visto que essa distância seria a resultante das duas forças - a atrativa e a repulsiva - que atuavam sobre o móvel.
- Só peço unia coisa - repetia Michel. -: passar tão perto da Lua quanto possível para lhe desvendar os segredos! - Amaldiçoada seja a causa que fez - desviar o nosso projétil - desabafou Nicoles.
- Amaldiçoada seja - apoiou Barbicane, como se de repente se fizesse luz no seu espírito -; maldito seja o bólide que se cruzou conosco! - Hem! - fez Michel Ardan.
- Que quer dizer? - perguntou Nicoles, surpreendido.
- Quero dizer - respondeu convictamente Barbicane - que o nosso desvio se deve apenas a esse corpo errante.
- Mas ele nem sequer nos roçou... - objetou Michel.
- Não importa. A sua massa, comparada com a do nosso projétil, era enorme, e bastou essa atração para afetar a nossa direção.
Tão pouco! - exclamou Nicoles.
É verdade, Nicoles; mas por pouco que fosse - replicou Barbicane -, numa distância de oitenta e quatro mil léguas, seria o bastante para nos fazer errar a Lua! A direção seguida pelo projétil arrastava-o para o hemisfé- rio setentrional da Lua. Os viajantes estavam longe daquele ponto central onde deveriam cair, se a trajetória não tivesse sofrido uni irremediável desvio.
Passava meia hora da meia-noite. Barbicane estimou em mil e quatrocentos quilômetros a distância que os separava da Lua - distância um pouco superior ao comprimento do raio lunar, e que devia diminuir à medida que avançassem em direção ao pólo norte. Na ocasião, o projétil encontrava- se, não à altura do equador, mas na direção do décimo paralelo, e a partir dessa latitude, cuidadosamente assinalada no mapa até o pólo, Barbicane e os companheiros puderam observar a Lua em melhores condições.
Realmente, mediante o uso dos binóculos, a distância de mil e quatrocentos quilômetros reduziu-se a quatorze ou seja, três léguas e meia. 0 telescópio das Montanhas Rochosas estava ainda em ?vantagem, mas a atmosfera terrestre afetava-lhe consideravelmente a potência ótica. Eis a razão por que, postado no projétil, Barbicane alcançava com o seu binóculo certos pormenores que não podiam ser observados da terra.
- Meus amigos - disse então o presidente com unia voz grave -, não sei para onde vamos, não sei se voltaremos a ver o globo terrestre. Apesar disso, procedamos como se uni dia estes trabalhos pudessem vir a ser úteis aos nossos semelhantes. Mantenhamos o espírito liberto de toda e qualquer preocupação. Somos astrônomos. Este projétil é uni posto espacial do Observatório de Cambridge. Façamos o que temos a fazer: observemos! Dito isto, o trabalho foi iniciado com extrema precisão, de tal maneira que conseguiram reproduzir fielmente os diversos aspectos da Lua às distâncias variáveis que o projétil foi ocupando em relação ao astro.
Cerca das duas da manhã, Barbicane encontrava-se à altura do vigésimo paralelo lunar, não longe da pequena montanha de mil quinhentos e cinqüenta e nove metros que tem o nome de Pítias. A distância do projétil à Lua não excedia os mil e duzentos quilômetros, que os binóculos reduziam para três léguas.
As duas e meia da manhã, o projétil encontrava-se em frente do trigésimo paralelo lunar, a unia distância de mil quilômetros, reduzida a dez pelos instrumentos óticos.
Continuava a parecer impossível que pudesse atingir qualquer ponto do disco. A velocidade de translação do projétil, relativamente medíocre, era inexplicável para o Presidente Barbicane. Aquela distância da Lua, essa velocidade deveria ser. considerável para manter o projétil, apesar da força de atração. Havia nesse fato uni fenômeno cuja razão lhe escapava ainda. Não tinha tempo para investigar-lhe as causas.
0 relevo lunar desfilava sob os olhos dos viajantes, que dele não queriam perder o mínimo pormenor.
Perto das quatro horas da manhã, na altura do qüinquagésimo paralelo, a distância do projétil à Lua reduzia- se a seiscentos quilômetros. À esquerda, corria uma linha de montanhas caprichosamente recortada por unia luz intensa. À direita, ao contrário, cavava-se um buraco negro, como uni imenso poço, insondável e escuro, furado no solo lunar.
Às seis horas, o pólo lunar fez a sua aparição. 0 disco não era mais aos olhos dos viajantes do que uma metade violentamente iluminada. A outra desaparecera nas trevas.
Subitamente, o projétil transpôs a linha de demarcação entre a luz intensa e a sombra absoluta, e mergulhou instantaneamente numa noite profunda.
Na altura em que se produzia tão bruscamente aquele fen ômeno, o projétil rasava o pólo norte da Lua a menos de cinqüenta quilômetros de distância. Tinham-lhe bastado portanto alguns segundos para mergulhar nas trevas eternas do espaço. A transição operara-se de forma tão rápida, sem matizes, sem diminuição gradual da luz, sem atenua ção das ondulações luminosas, que o astro parecia terse apagado sob a influência de uni poderoso sopro.
- A Lua fundiu-se, desapareceu! - exclamou Michel Ardan.
Na verdade, não se enxergava qualquer reflexo ou sombra.
Do disco, ainda há pouco resplandecente, nada restava.
A obscuridade era completa e tornava-se ainda mais profunda devido à cintilação das estrelas. Era o ?negro? de que se impregnam as noites lunares, que 1 duram trezentas e cinqüenta e quatro horas e meia em cada ponto do disco - longa noite que resulta da igualdade existente entre os movimentos de translação e rotação do satélite, uni sobre si próprio, outro à volta da Terra. 0 projétil, imerso no cone de sombra do disco, estava fora do alcance dos raios solares como qualquer dos pontos da sua parte invis ível.
iriam, passavam o tempo fazendo experiências, como se estivessem tranqüilamente instalados num confortável gabinete de trabalho.
A isto poder-se-ia contrapor que homens de tão rija têmpera, que não se atemorizavam por tão pouco, ou que tinham mais que fazer do que se abandonar à incógnita da sua sorte, estavam acima de semelhantes preocupações.
A verdade, porém, é que não eram senhores do projétil.
Não podiam travar-lhe a marcha nem modificar-lhe a direção.
0 marinheiro muda a seu bel-prazer o rumo do navio; o aeronauta pode imprimir ao seu balão movimentos verticais.
Eles, porém, não podiam exercer qualquer ação sobre o seu veículo. Nenhuma manobra lhes era possível. E daí aquela disposição de deixar andar, de ?deixar correr?, segundo a expressão marítima.
Onde estavam naquele momento, às oito da manhã do dia que na Terra era o sexto do mês de dezembro? Decerto nas vizinhanças da Lua, de tal maneira perto que o astro lhes parecia com o aspecto de uni imenso quebra-luz negro desdobrado no firmamento. Quanto à distância que os separava, era impossível avaliá-la. 0 projétil, mantido por forças inexplicáveis, rasara o pólo norte do satélite a menos de cinqüenta quilômetros. Mas, decorridas duas horas sobre o instante em que o projétil entrevia no cone de sombra, teria aquela distância diminuído ou aumentado? A falta de pontos de referência para estimar a direção e a velocidade do projétil era total. Talvez se afastasse rapidamente do disco, de forma a deixar em breve a sombra pura. Talvez se aproximasse sensivelmente, a ponto de chocar com qualquer pico elevado do hemisfério invisível, o que poria fim à viagem, mas sem dúvida com prejuízo dos viajantes.
Levantou-se a este propósito uma discussão, em que Michel Ardan, sempre pródigo em explicações, emitiu a opinião de que o projétil, retido pela atração lunar, acabaria por cair no astro, como os aeró1itos caem na superfície do globo terrestre.
- Em primeiro lugar, meu amigo - respondeu-lhe Barbicane -, nem todos os aer61itos caem na Terra, mas apenas uma pequena parte. Logo, se de fato passamos ao estado de aerólito, isto não significa, necessariamente, que nos despenquemos na superfície da Lua.
- No entanto - insistiu Michel -, se nos aproximássemos bastante...
- Puro erro - atalhou Barbicane. - Pois não viste já milhares de estrelas cadentes riscar o céu, em certas épocas? - Pois bem, essas estrelas, ou, melhor, esses corpúsculos, só brilham porque aquecem quando deslizam nas camadas atmosféricas. Ora, se atravessam a atmosfera, passam a menos de dezesseis léguas do Globo, onde, todavia, caem raramente. 0 mesmo pode acontecer ao nosso projétil: passar perto, muito perto mesmo da Lua e, apesar disso, não cair lá.
- Visto isso - declarou Michel. -, tenho muita curiosidade em saber como se comportará no espaço o nosso veículo errante.
- Há duas hipóteses - esclareceu Barbicane, depois de alguns instantes de reflexão.
- Quais são? - -0 projétil pode descrever uma de duas curvas matemá- ticas, e seguirá uma ou outra, consoante a velocidade de que estiver animado, velocidade que neste momento não sei avaliar.
- Sim - interveio Nicoles -, descreverá uma parábola ou uma hipérbole.
- Certo - confirmou Barbicane. - Até uma certa velocidade seguirá a parábola, e a hipérbole se a velocidade for mais acentuada.
- Gosto desses palavrões - exclamou Michel Ardan. - É ouvi-los e compreendê-los, está bem1 Mas, por favor, o que é isso de parábola? - Meu amigo - explicou Barbicane -; parábola é uma curva de segunda ordem que resulta da seção de um cone por um plano paralelo a um plano tangente ao cone.
- Ah! Ah! - fez Michel Ardan, com um ar satisfeito.
- É isto mais ou menos - ajudou Nicoles - a trajetória que descreve uma bomba lançada por um morteiro.
- Muito bem. E a hipérbole? - quis saber Michel Ardan.
- A hipérbole, Michel, é uma curva de segunda ordem produzida pela interseção de uma superfície cônica e de um plano paralelo ao seu eixo. Tem dois ramos separados um do outro, que se prolongam indefinidamente nos dois sentidos.
- É possível i - exclamou Michel, Ardan, com a maior seriedade, como se acabassem de lhe dar uma notícia grave. - Nicoles, presta muita atenção ao que vou dizer. Do que eu gosto na tua definição de hipérbole (eu ia dizer ?hiperpatranha?) é que ainda é menos clara do que a palavra que quiseste definir! Nicoles e Barbicane pouco ligaram aos gracejos de Michel Ardan, já que se haviam envolvido numa discussão científica.
Que curva seguiria o projétil? Eis o que os apaixonava.
Um teimava na hipérbole, o outro insistia na parábola. Fundamentavam as respectivas afirmações em razões eriçadas de x. A argumentação era feita numa linguagem que fazia pular Michel. A discussão decorria acesa, e nenhum dos adversários queria sacrificar ao outro a curva da sua predileção.
Como a disputa científica se prolongava, Michel Ardan acabou por se impacientar.
- Ora esta! - disse ele. Senhores de co-seno, acabam ou não de atirar à cabeça um do outro parábolas e hipérboles? Eu só quero saber a única coisa que interessa no meio de tudo isto. Já se sabe que seguimos uma das suas curvas.
Muito bem. Agora pergunto: para onde nos levarão elas? - A parte nenhuma - respondeu Nicoles.
- Como? A parte nenhuma? - Mas é evidente - corroborou Barbicane. - São curvas que não se fecham, que se prolongam até o infinito! - Ah, sábios1 - exclamou Michel. - Sábios do meu cora ção!... Eh, olhem lá? Que nos importa a parábola ou a hipérbole, se ambas nos mandam para o espaço infinito! Barbicane e Nicoles não puderam, dessa vez, deixar de sorrir.
Nunca uma questão mais ociosa fora tratada em momento menos oportuno. A sinistra verdade era que o projétil, marchando hiperbólica ou parabolicamente, nunca mais regressaria à Terra ou reencontraria a Lua.
Que sucederia aos audaciosos viajantes num futuro muito próximo? Se não morressem de fome, se não soçobrassem pela sede, pereceriam dentro de dias à míngua de ar, quando o gás se esgotasse. Isto se o frio não os enregelasse primeiro.
0 certo é que, por mais importante que fosse a economia de gás, o excessivo abaixamento da temperatura ambiente os obrigaria ao consumo de uma certa quantidade. Em rigor, podiam passar sem luz, mas nunca sem calor. Por felicidade, o calor desenvolvido pelo aparelho Reiset e Regnault ajudava a elevar um pouco a temperatura do interior do projétil, pelo que, sem grandes gastos, pôde manter- se num grau suportável.
Como já foi dito, as observações através das vigias tornaram- se difíceis. A umidade do interior do projétil condensavase nos vidros e congelava de imediato. Era necessário combater aquela opacidade com sucessivas fricções. Mesmo assim, foi possível verificar alguns fenômenos do mais alto interesse.
Realmente, se aquele disco invisível tivesse atmosfera, não era natural que se vissem estrelas cadentes a sulcá-la com as suas trajetórias? Se o próprio projétil atravessasse as camadas fluidas, não era provável que se surpreendesse algum ruído repercutido pelo ecos lunares, tal como o ribombar de um trovão, o estrépito de uma avalancha, as detonações de um vulcão em atividade? E se alguma montanha vulcânica as ornamentasse com um rubro penacho de relâmpagos, não se avistariam as suas intensas fulgurações? Tais fatos, se cuidadosamente observados, serviriam para elucidar de forma decisiva a obscura quest ão da constituição lunar. Eis por que Barbicane e Nicoles, postados junto às vigias, como se fossem astrônomos, observavam com escrupulosa paciência a noite circundante.
Até então, o disco permanecera mudo e escuro, sem responder às múltiplas interrogações que lhe punham aqueles ardentes espíritos.
Tal silêncio sugeriu a Michel esta reflexão aparentemente justa: - Se alguma vez voltássemos a fazer esta viagem, seria bom que escolhêssemos a fase da lua nova.
- Tens razão - disse Nicoles -: essa circunstância seria mais favorável. É certo que a Lua, mergulhada nos raios solares, não seria visível durante a viagem; mas, em compensa- ção, ver-se-ia a Terra, que estaria ?cheia?. Além disso, se fôssemos arrastados à volta da Lua, como agora acontece, teríamos pelo menos a vantagem de lhe ver o solo, agora invisível, magnificamente iluminado! - Isto é que é falar, Nicoles! - aplaudiu Michel Ardan. - Que pensas tu disto, Barbicane.
- Penso - respondeu o ponderado presidente - que, se alguma vez voltássemos a fazer esta viagem, partiríamos na mesma época e nas mesmas condições. Suponham que tivéssemos alcançado o nosso objetivo; não seria melhor encontrar continentes cheios de luz do que regiões mergulhadas numa noite escura? A nossa instalação não se faria em circunstâncias mais favoráveis? Claro que sim. Quanto ao lado invisível, tê-lo-íamos visitado durante as viagens de reconhecimento no globo lunar. Assim, a fase de lua cheia foi muito bem escolhida. A idéia era chegar ao objetivo, mas, para lá chegar, era necessário que não houvesse desvios de rota.
Quanto a isso, nada tenho a objetar - disse Michel Ardan. - A verdade é que perdemos uma bela oportunidade de ob servar a outra face da Lua. Quem sabe se os habitantes dos outros planetas não estão mais adiantados do que os sábios da Terra no que diz respeito aos seus satélites? A esta observação de Michel Ardan, poder-se-ia responder muito simplesmente do seguinte modo: sim, há outros sat élites, cujo estudo, por estarem mais pr6ximos, se torna mais fácil. Os habitantes de Saturno, de Júpiter e de Urano, se é que existem, puderam estabelecer com suas luas comunica ções mais fáceis. Os quatro satélites de Júpiter gravitam às distâncias de cento e oito mil duzentas e sessenta léguas, cento e setenta e duas mil e duzentas léguas, duzentas e setenta e quatro mil e setecentas léguas e quatrocentas e oitenta mil cento e trinta léguas. Todavia, essas distâncias são contadas a partir do centro do planeta. Subtraindo- lhes o comprimento do respectivo raio, que é de dezesseis a dezoito mil léguas, vê-se que o primeiro satélite está menos afastado dá superfície de Júpiter do que a Lua está da Terra. Das oito luas de Saturno, quatro estão igualmente mais próximas: Diana está a oitenta e quatro mil e seiscentas léguas; Tétis a sessenta e duas mil novecentas e sessenta e seis; a quarenta e oito mil cento e noventa e uma, e, finalmente, Mimas a uma distância mé- dia de trinta e quatro mil e quinhentas. Dos oito satélites de Urano, o primeiro, Ariel, está apenas a cinqüenta e uma mil quinhentas e vinte léguas do planeta.
Isto significa que, na superfície desses três astros, uma experi ência análoga à do Presidente Barbicane teria apresentado menores dificuldades. Assim, se os respectivos habitantes tentaram a aventura, é possível que tenham reconhecido a constituição daquela metade do disco que todos os satélites ocultam eternamente dos olhos dos habitantes dos outros astros principais. Mas, se nunca deixarem os seus planetas, não estão mais avançados que os astrônomos da Terra.
. Entretanto, o projétil descrevia nas trevas uma trajetória que a inexistência de pontos de referência não permitia cal cular. Ter-se-ia modificado a sua direção, quer por influência da atração lunar, quer pela ação de algum astro desconhecido? Barbicane não podia dizê-lo. Mas a verdade é que se dera uma alteração na posição relativa do veículo, altera ção de que Barbicane se apercebeu por volta das quatro horas da manhã.
Consistia a alteração no seguinte: a base do projétil voltara- se para a superfície lunar e mantinha-se na perpendicular que passava pelo eixo da Lua. A atração., ou seja, a gravidade, operara tal modificação. A parte mais pesada do projétil inclinara-se para o disco, exatamente como se nele fosse cair.
E cairia? Os viajantes iam finalmente atingir o tão almejado alvo? Não. Com a ajuda de um ponto de referência, aliás pouco explicável, Barbicane teve a certeza de que o projétil não se aproximava da Lua: deslocava-se descrevendo uma curva concêntrica ao astro.
0 ponto de referência atrás citado foi um clarão luminoso que Nicoles assinalou de ;súbito no limite do horizonte formado pelo disco negro. Aquele clarão não podia ser confundido com uma estrela. Era uma incandescência avermelhada, que, pouco a pouco, se avolumava - prova incontestável de que o projétil se deslocava na sua direção, e de que não se dirigia normalmente para a superfície do astro.
- Um vulcão! E um vulcão em atividade - gritou Nicoles. - Uma erupção dos fogos interiores da Lua. Aquele mundo não está, portanto, extinto.
- Sim! É uma erupção - confirmou Barbicane, que estudava cuidadosamente o fenômeno com o seu binóculo de noite.
- Que outra coisa poderia ser senão um vulcão? - Mas então - raciocinou Michel Ardan -, para alimentar aquela combustão, é preciso ar. Portanto, há uma atmosfera envolvendo aquela parte da Lua.
- Talvez haja - admitiu Barbicane -, ou talvez não. 0 vulcão pode, mercê da decomposição de certas matérias, forne cer a si próprio o oxigênio e lançar assim chamas no vá- cuo. ?Estou mesmo para crer que aquela deflagração tem a intensidade e o brilho dos objetos cuja combustão ocorre no meio de oxigênio puro. Não nos apressemos, portanto, em afirmar a existência de uma atmosfera lunar.
A montanha vulcânica devia estar situada perto do quadrag ésimo quinto grau de latitude sul da parte invisível do astro.
Mas, com grande decepção de Barbicane, a curva que o projétil descrevia levava-o para longe do ponto onde fora assinalada a erupção, pelo que não lhe foi possível estudá- la convenientemente.
Meia hora depois, o tal ponto luminoso desaparecia por detrás do escuro horizonte. De qualquer forma, a simples verificação do fenômeno era já um fato notável para os estudos selenográficos: provava que o calor não desaparecera ainda das entranhas daquele globo. Ora, se há por lá calor, quem pode garantir que o reino vegetal e mesmo o reino animal não tenham resistido até hoje às influências destrutivas? A existência daquele vulcão em atividade, se viesse a ser reconhecida sem reservas pelos sábios da Terra, daria sem dúvida muitos argumentos favoráveis à controversa teoria da habitabilidade da Lua.
Barbicane abandonara-se às suas reflexões, ao mudo devaneio onde se encastelavam os misteriosos segredos do mundo lunar. Tentava descobrir o fio comum a todos os fatos até então observados, quando um novo incidente o trouxe bruscamente à realidade.
Era mais do que um fenômeno cósmico: era um verdadeiro perigo, cujas conseqüências podiam ser desastrosas.
De repente, do meio do éter, daquelas profundas trevas, uma enorme massa aparecera. Era como que uma lua, mas uma lua incandescente, com um brilho tanto mais insustent ável quanto brusco era o contraste com a completa escuridão do espaço. A massa, de forma circular, lançava uma luz que enchia o projétil. Os rostos de Barbicane, Nicoles e Michel Ardan, violentamente. banhados por aque les feixes esbranquiçados, ganhavam a aparência espectral, lívida, baça, que os físicos produzem com a luz artificial de álcool impregnado de sal.
- Com mil diabos! - exclamou Michel Ardan. Como nós estamos horrendos! Que raio de lua é aquela? - É um bólide - esclareceu Barbicane. Um bólide inflamado, no vácuo? - Sim.
0 globo de fogo era de fato um bólide. Barbicane não se enganava. Mas se os meteoros cósmicos observados da Terra apresentam, de uma maneira geral, uma luz um pouco inferior à da Lua, ali, no sombrio éter, resplandecem.
Esses corpos errantes trazem consigo o princípio da sua incandescência. 0 ar ambiente não é necessário à sua deflagração. E se, realmente, alguns desses bólides atravessam as camadas a atmosféricas a duas ou três léguas da Terra, outros há que, ao contrário, descrevem a sua trajetória a uma distância em que não existe atmosfera.
Vem a propósito lembrar que, em 27 de outubro de 1844, um desses bólides desapareceu à distância de cento e oitenta e duas léguas. Alguns desses meteoros têm de três a quatro quilômetros de diâmetro e são animados de velocidades que podem ir até setenta e cinco quilômetros por segundo, na direção inversa do movimento da Terra.
0 globo cadente, subitamente aparecido da sombra a uma distância de pelo menos cem léguas, devia ter de diâmetro dois mil metros, segundo cálculo de Barbicane. Avançava com uma velocidade próxima de dois qui18metros por segundo, ou seja, trinta léguas por minuto, e a sua trajetória cortava a rota do projétil, pelo que devia atingi-lo dentro de alguns minutos. Conforme se aproximava, aumentava de volume em enorme proporção.
. Imagine-se, se puder, a situação dos viajantes. É impossí- vel descrevê-la. Apesar da sua coragem, do seu sanguefrio, da sua indiferença perante o perigo, estavam mudos, imóveis, com os membros contraídos, tomados por um horrível pavor. 0 projétil, a que não podiam alterar a marcha..
corria na direção daquela massa ígnea, mais intensa do que as goelas abertas de um forno de reverberação.
Parecia que ia precipitar-se num abismo de fogo.
Barbicane agarra as mãos dos companheiros, e os três olhavam, através das pálpebras semicerradas, aquele asteróide incandescente. Se neles não estivesse embotado ,o pensamento; se, no meio daquele pavor, ainda o cérebro fosse capaz de raciocinar, considerar-se-iam por certo perdidos! Dois minutos depois da brusca aparição do bólide - dois séculos de angústia! -, o projétil parecia prestes a colidir.
De repente, porém, o globo de fogo explodiu como uma bomba, mas sem ruído, como, aliás, era natural, já que o som não podia produzir-se no meio do vácuo, por ser causado apenas pela agitação das camadas de ar.
Nicoles soltou um grito. Ele e os companheiros precipitaram- se para as vigias. Que espetáculo! Que pena poderia descrevê-lo? Que paleta poderia reproduzir aquela riqueza de cores? A luz que saturava o éter propagava-se com uma incompar ável intensidade, porque os asteróides; a dispersavam em todos os sentidos. Num dado momento, chegou a sert ão viva que Michel, arrastando Barbicane e Nicoles para junto da vigia em que se encontrava, exclamou: - Ei-la visível, enfim! Eis a invisível Lua.
E os três, através do eflúvio luminoso de alguns segundos, entreviram a misteriosa face oculta, que o olhar humano via pela primeira vez.
Que distinguiram, àquela distância que não podiam avaliar? Algumas faixas alongadas sobre o disco, verdadeiras nuvens formadas num meio atmosférico muito restrito, do qual emergiam, não só todas as montanhas, mas também relevos de pouca importância, círculos, crateras escancaradas, caprichosamente dispostas, análogas às da face vis ível. Depois, imensos espaços, não já planos áridos, mas verdadeiros mares, oceanos largamente espraiados, que refletiam no seu liquido espelho toda a deslumbrante magia dos fogos do espaço. Finalmente, na superfície dos continentes, vastas manchas escuras, idênticas às produzidas por imensas florestas sob o rápido clarão de um relâmpago...
Seria isto um erro, uma miragem, uma ilusão de ótica? Poderiam eles sancionar cientificamente uma observação tão superficial? Ousariam pronunciar-se sobre o problema da habitabilidade do satélite, fundados em tão precário exame da face invisível? Amorteceram, entretanto, as fulgurações do espaço. Decresceu pouco a pouco o fugaz brilho. Os asteróides foram- se dispersando, seguindo diferentes trajetórias, e apagaram- se na distância. 0 éter retomou a habitual tenebrosidade. As estrelas, eclipsadas por instantes, cintilaram no firmamento, e o disco, que fora apenas entrevisto, perdeu-se de novo na impenetrável noite.