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Viagem ao Centro da Terra

Júlio Verne

XL

Desde o início da viagem, já tivera muitas surpresas: acreditava estar imune a elas e ter-me tornado indiferente a qualquer estupor. Ao ver, contudo, aquelas duas letras gravadas ali a trezentos anos, fui possuído por um assombro próximo da estupidez.

Não somente lia a assinatura do sábio alquimista na rocha, mas ainda tinha em mãos o estilete que a traçara. A menos que fosse uma insígnia de má-fé, já não podia colocar em dúvida a existência do viajante e a realidade de sua viagem.

Enquanto essas reflexões giravam em turbilhão na minha cabeça, o professor Lidenbrock tinha um acesso um tanto ditirâmbico em relação a Arne Saknussemm.

- Gênio maravilhoso! - exclamava. - Nada esqueceste do que deveria abrir os caminhos da crosta terrestre a outros mortais, e teus semelhantes podem seguir as pegadas deixadas por teus pés, há três séculos, nas profundezas destes sombrios subterrâneos! Reservaste a outros olhos além dos teus a contemplação destas maravilhas! Gravado a cada etapa, teu nome conduz direto ao objetivo o viajante audacioso o suficiente para te seguir, e no próprio centro de nosso planeta ainda o encontraremos inscrito com tua própria mão! Muito bem, eu também assinarei essa última página de granito com meu nome. Mas que, a partir desse momento, este cabo, visto por ti, perto deste mar descoberto por ti, seja chamado para todo o sempre de cabo Saknussemm! Eis mais ou menos o que ouvi, e senti que o entusiasmo transmitido por aquelas palavras começava a dominar-me. Um fogo interior ardia em meu peito! Esquecia tudo, os perigos da viagem, os riscos do retorno. Queria fazer aquilo que um outro tinha feito, e nada do que era humano me parecia impossível! - Avante! Avante! - gritei.

Já precipitava-me em direção à escura galeria, quando o professor deteve-me, e ele, homem de impulsos, aconselhou-me a paciência e o sangue-frio.

- Antes de mais nada, voltemos até Hans - disse-me -, e transportemos a jangada para cá.

Obedeci de má vontade e esgueirei-me rapidamente pelos rochedos das margens.

- O senhor sabe, meu tio, que até agora as circunstâncias foram extremamente favoráveis para nós? - Ah, você acha, Axel? - Sem dúvida, até a tempestade nos colocou no caminho certo! Bendita seja ela! Trouxe-nos para esta costa de onde seríamos afastados pelo bom tempo! Suponha por um momento que tivéssemos aportado nossa proa (a proa de uma jangada!) às margens meridionais do mar Lidenbrock, o que seria de nós? O nome de Saknussemm não teria aparecido, e agora estaríamos abandonados numa praia sem saída.

- Sim, Axel, embora estivéssemos vagando para o sul, a Providência nos trouxe de volta precisamente para o norte, para o cabo Saknussemm. Tenho de admitir que é mais do que surpreendente, e há aí um fato que não consigo mesmo explicar.

- Para que explicar? Não temos de explicar fato nenhum e sim aproveitá-lo.

- Claro, meu filho, mas...

- Mas vamos voltar para o caminho do norte, passar sob as regiões setentrionais da Europa, da Suécia, da Sibéria, sei lá, em vez de embrenharmos sob os desertos da África ou sob as vagas do oceano, e não quero saber de mais nada! - Sim, Axel, você tem razão, e tudo está indo da melhor forma possível, pois estamos abandonando este mar horizontal que não poderia levar-nos a lugar algum. Vamos descer, descer mais, continuar descendo! Você sabe que só faltam quinze léguas para chegarmos ao centro do globo? - Bah! - exclamei. - Nem vale a pena falar sobre isso.

Em frente! Em frente! Continuávamos ainda aquela conversa insensata quando alcançamos o caçador. Estava tudo preparado para uma partida imediata. Todos os pacotes embarcados. Subimos na jangada, e, içada a vela, Hans dirigiu-se para o cabo Saknussemm, acompanhando o litoral.

O vento não era favorável para um tipo de embarcação que não conseguia manter-se muito próxima das margens. Em vários lugares, tivemos de remar com os bastões de ferro. Muitas vezes, fomos obrigados a fazer desvios muito longos devido aos rochedos à flor da água. Finalmente, depois de três horas de navegação, ou seja, por volta das seis da tarde, atingimos um local propício para o desembarque.

Saltei para a terra, seguido pelo meu tio e pelo islandês. A travessia não me acalmara, muito pelo contrário. Propus até acabarmos com qualquer forma de recuar. Mas meu tio foi contra.

Achei-o singularmente frouxo.

- Pelo menos - disse - partamos sem perder um só instante.

- Sim, meu filho, mas antes examinemos essa nova galeria para sabermos se temos de preparar as escadas.

Meu tio ligou o aparelho de Ruhmkorff; abandonamos a jangada, amarrada à margem; a abertura da galeria era a vinte passos dali, e nossa pequena tropa, comigo na frente, alcançou-a imediatamente.

O orifício, mais ou menos circular, tinha cerca de cinco pés de diâmetro; o túnel estava escavado na rocha viva e fora cuidadosamente alisado pelas matérias às quais outrora dava passagem; sua parte inferior roçava o solo, de forma que nele pudemos penetrar sem qualquer dificuldade.

Seguíamos por um plano praticamente horizontal quando, depois de seis passos, nossa marcha foi interrompida por um bloco enorme.

- Maldita rocha! - exclamei com raiva, ao ver-me detido por um obstáculo intransponível.

Por mais que procurássemos em cima ou embaixo, à direita ou à esquerda, não havia qualquer passagem, qualquer bifurcação.

Fiquei extremamente desapontado, não queria admitir a realidade do obstáculo. Abaixei-me. Olhei embaixo do bloco. Nenhum interstício. Em cima, a mesma barreira de granito. Hans levou a luz da lâmpada a todos os pontos da parede, mas esta não oferecia qualquer solução de continuidade. Deveríamos renunciar a qualquer esperança de passar.

Sentara-me no chão. Meu tio dava grandes passadas pelo corredor.

- E o Saknussemm? - exclamei.

- É mesmo - suspirou meu tio -, foi detido por esta porta de pedra? - Não, não! - continuei com vivacidade. - Em virtude de um abalo qualquer ou de um desses fenômenos magnéticos que agitam a crosta terrestre, este pedaço de pedra fechou a passagem. Passaram-se muitos anos entre o retorno de Saknussemm e a queda deste bloco. Não é evidente que esta galeria foi outrora caminho das lavas e que então as matérias eruptivas nela circulavam livremente? Veja, há fissuras recentes sulcando o teto de granito; trata-se de pedaços trazidos, de pedras enormes, como se a mão de algum gigante tivesse trabalhado nessa substrução; mas, um dia, o impulso foi mais forte, e este bloco, semelhante a uma chave de abóbada que está faltando, escorregou para o chão, obstruindo a passagem. É um obstáculo acidental com que Saknussemm não deparou e se não o transpusermos, não seremos dignos de chegar ao centro do mundo! De que forma eu falava! A alma do professor transferira-se para mim. Estava sob inspiração do gênio das descobertas. Esquecia o passado, desdenhava o futuro. Nada mais existia para mim na superfície desse esferóide dentro do qual mergulhara, nem as cidades, nem os campos, nem Hamburgo, nem Königstrasse, nem minha pobre Grauben, que devia supor estar seu amado perdido para sempre nas entranhas da Terra! - Muito bem! - decidiu meu tio -, abriremos nosso caminho, derrubaremos essa muralha a picaretadas e enxadadas! - É duro demais para a picareta! - Então usemos o enxadão! - É comprido demais para o enxadão! - Mas...

- Muito bem! A pólvora, as minas, tentemos explodir o obstáculo! - A pólvora! - Sim! Não passa de um pedaço de rocha! - Mãos à obra, Hans! - gritou meu tio.

O islandês foi até a jangada e logo voltou com um enxadão com o qual cavou um buraco para a mina. Era um trabalho e tanto. Tratava-se de fazer um buraco grande o suficiente para conter cinqüenta libras de algodão-pólvora, cujo poder expansivo é quatro vezes maior do que o da pólvora de canhão.

Minha excitação alcançara o paroxismo. Enquanto Hans trabalhava, ajudava ativamente meu tio a preparar uma mecha longa feita com pólvora molhada e encerrada numa mangueira de tecido.

- Passaremos! - eu dizia.

- Passaremos! - repetia meu tio.

Terminamos completamente nosso trabalho de mineiros à meia-noite. A carga de algodão-pólvora estava no buraco e a mecha, que se desenrolava pela galeria, alcançava a parte exterior da caverna.

Agora bastava uma faísca para ativar aquele engenho formidável.

- Amanhã - declarou o professor.

Tive de resignar-me a aguardar mais seis longas horas.

XLI

O dia seguinte, 27 de agosto, foi uma data célebre em nossa viagem subterrânea. Ainda hoje, quando dela me lembro, o coração salta em meu peito. A partir daquele momento, nossa razão, nosso julgamento e nossa engenhosidade perderam qualquer autoridade e transformamo-nos em joguetes dos fenômenos da Terra.

Às seis horas, estávamos de pé. Aproximava-se o momento de, com a pólvora, abrirmos caminho através da crosta de granito.

Solicitei a honra de atear fogo à mina. Feito isso, deveria unir-me a meus companheiros na jangada, que não descarregáramos; singraríamos para não sofrer os perigos da explosão, cujos efeitos poderiam não se concentrar no interior do maciço.

De acordo com nossos cálculos, a mecha deveria arder por dez minutos antes de incendiar a câmara de explosivo. Dispunha, portanto, do tempo necessário para alcançar a jangada.

Preparava-me para fazer meu trabalho, não sem uma certa emoção.

Após uma rápida refeição, meu tio e o caçador embarcaram, enquanto eu ficava na praia. Eu levava uma lanterna acesa, que me serviria para atear fogo à mecha.

- Vá, meu filho - disse-me meu tio -, mas volte imediatamente.

- Pode ficar tranqüilo - respondi -, não me distrairei no caminho.

Dirigi-me para o orifício da galeria. Acendi minha lanterna e peguei a extremidade da mecha.

O professor mantinha o cronômetro na mão.

- Você está pronto? - gritou-me.

Estou.

- Então, fogo, meu rapaz! Mergulhei rapidamente a mecha na chama, que faiscou com o contato, e voltei correndo à beira do mar.

- Embarque - apressou-me meu tio - e larguemos.

Com um impulso vigoroso, Hans nos levou para o mar. A jangada afastou-se umas vinte toesas.

Era um momento palpitante. O professor seguia com os olhos a agulha do cronômetro.

- Ainda cinco minutos - dizia. - Ainda quatro! Ainda três! Meu pulso marcava os meios segundos.

- Ainda dois! Um!... Desabem, montanhas de granito! O que aconteceu então? Acho que não ouvi o ruído da detonação. Mas vi a forma dos rochedos modificar-se de repente; abriram-se como uma cortina. Vi cavar-se em plena praia um abismo insondável. Sofrendo uma vertigem, o mar não passou de uma vaga enorme, em cujo dorso a jangada ergueu-se perpendicularmente.

Nós três fomos derrubados. Em menos de um segundo, a escuridão tomou o lugar da luz. Senti a falta de um apoio sólido, não para meus pés, mas para a jangada. Achei que estávamos naufragando. Não era nada disso. Quis dirigir-me a meu tio, mas o mugido das águas impediria que o professor me ouvisse.

Apesar das trevas, do barulho, da surpresa e da emoção, compreendi o que acontecera.

Atrás da rocha que acabara de explodir existia um abismo.

A explosão provocara uma espécie de tremor de terra naquele solo sulcado de fissuras, abrira-se um abismo, e o mar, transformado em torrente, arrastava-nos com ele.

Senti que estava perdido.

Uma hora, duas horas, sei lá! passaram-se assim. Agarrávamo-nos pelos cotovelos, pelas mãos, para não ser jogados para fora da jangada. Quando a embarcação batia nas muralhas, aconteciam choques de extrema violência. Os choques, porém, eram raros, daí eu concluir que a galeria se alargava consideravelmente.

Tratava-se, com certeza, do caminho de Saknussemm; mas, em vez de descermos só nós, por ele, tínhamos. com nossa imprudência, arrastado todo o mar.

É possível compreender que essas idéias se apresentavam de forma vaga e obscura. Associava-as com dificuldade durante aquela corrida vertiginosa, que mais parecia uma queda. Pelo ar que me fustigava o rosto, a velocidade devia ultrapassar a dos trens mais rápidos. Era, portanto, impossível acender uma tocha naquelas condições, e nosso último aparelho elétrico quebrara-se no momento da explosão.

Qual a minha surpresa então ao ver uma luz brilhar de repente perto de mim. A figura calma de Hans iluminou-se. O hábil caçador conseguira acender a lanterna, e embora a chama vacilasse a ponto de quase apagar-se, lançou alguns clarões na aterrorizante escuridão.

A galeria era ampla. Estava certo em minha avaliação. A insuficiência de luz não nos permitia ver suas duas muralhas ao mesmo tempo. A inclinação das águas que nos levava ultrapassava a das correntezas mais intransponíveis da América. Sua superFície parecia feita de um feixe de flechas líquidas disparadas com muita força. Impossível transmitir minha impressão por uma comparação mais correta. Passando certos redemoinhos, por vezes a jangada corria girando. Quando se aproximava das paredes da galeria, eu nelas projetava a luz da lanterna e conseguia avaliar a velocidade da embarcação vendo as saliências das rochas transformarem-se em traços contínuos, de forma que parecíamos encerrados numa rede de linhas moventes. Estimava nossa velocidade em trinta léguas por hora.

Eu e meu tio trocávamos olhares desvairados, agarrados ao resto do mastro, que no momento da catástrofe quebrara-se. Dávamos as costas para o mar, para não ser sufocados pela rapidez de um movimento que nenhuma força humana poderia deter.

As horas passavam. A situação não mudava, mas um incidente veio complicá-la.

Ao tentarmos colocar o carregamento em ordem, vi que a maioria dos objetos embarcados desaparecera no momento da explosão, quando o mar nos assaltou tão violentamente. Quis saber exatamente com que recursos contar, e, lanterna na mão, comecei a examinar. De nossos instrumentos, só restavam a bússola e o cronômetro. As escadas e as cordas reduziam-se a um pedaço de cabo enrolado ao redor do mastro. Nenhuma pá, nenhuma picareta, nenhum martelo e, desgraça irreparável, só tínhamos víveres para mais um dia.

Perscrutei os interstícios da jangada, todos os cantinhos formados pelas vigas e junção de pranchas. Nada! Nossas provisões consistiam unicamente em um pedaço de carne-seca e uns biscoitos. , Olhava com um ar de estupidez! Não queria compreender E, no entanto, com que perigo estava me preocupando? Mesmo que os víveres fossem suficientes para meses, anos, como sair dos abismos para onde aquela torrente irresistível nos arrastava? Para que temer as torturas da fome, quando a morte já se oferecia sob tantas outras formas? Será que teríamos tempo para morrer de inanição? Contudo, por uma inexplicável estranheza da imaginação, esquecia-me do perigo imediato, e as ameaças do futuro apareciam diante de mim com todo o seu horror. Além disso, talvez pudéssemos escapar dos furores da torrente e voltar à superfície do globo. Como? Não sei. Onde? Que importância teria? Uma chance em mil é sempre uma chance, enquanto a morte por fome não nos deixava qualquer tipo de esperança, por menor que fosse.

Pensei em dizer tudo ao meu tio, em mostrar-lhe a que penúria estávamos reduzidos e em fazer o cálculo exato do tempo de vida que nos restava. Mas tive coragem para calar-me. Queria que ele mantivesse todo o seu sangue-frio.

Naquele momento, a luz da lanterna diminuiu gradualmente até apagar-se por completo. A mecha ardera até o fim. A escuridão voltou a ser absoluta. Não era o caso de pensar em dissipar as trevas impenetráveis. Restava ainda uma tocha, mas não conseguiríamos mantê-la acesa. Então, como uma criança, fechei os olhos para não ver toda aquela escuridão.

Após um espaço de tempo bastante longo, a velocidade de nossa corrida duplicou, fato que pude perceber pela reverberação do ar em meu rosto. A inclinação das águas tornava-se excessiva.

Acho que não mais escorregávamos, caíamos. A impressão era a de uma queda praticamente vertical. As mãos de Hans e de meu tio, agarradas a meus braços, detinham-me com vigor.

De repente, após um tempo impossível de avaliar, senti como que um choque; a jangada não batera num corpo duro, mas fora subitamente detida em sua queda. Uma tromba d'água, uma imensa coluna líquida desabou sobre sua superfície. Senti-me sufocado.

Estava me afogando...

No entanto, a inundação súbita não durou muito. Em alguns segundos, senti que voltava ao ar livre, que inspirei a plenos pulmões. Meu tio e Hans apertavam-me o braço a ponto de quase quebrá-lo e ainda estávamos os três na jangada.

XLII

Suponho que deviam ser dez horas da noite. Meu primeiro sentido que funcionou após a última aventura foi a audição. Quase que imediatamente ouvi - foi um ato de verdadeira audiçãoo silêncio voltar à galeria e substituir os mugidos que há muitas horas enchiam meus ouvidos. Finalmente as palavras de meu tio chegaram-me como um murmúrio: - Estamos subindo! - O que o senhor está querendo dizer? - exclamei.

- Estamos subindo, sim, estamos subindo! Estiquei o braço e toquei a muralha; minha mão ficou ensangüentada. Subíamos com extrema rapidez.

- A tocha! A tocha! - exclamou o professor.

Hans conseguiu acendê-la com bastante dificuldade, e a chama, mantendo-se de baixo para cima, apesar do movimento ascencional, iluminou bastante todo o cenário.

- É exatamente o que eu estava pensando - disse meu tio.

- Estamos num poço estreito, que não tem nem quatro toesas de diâmetro. Tendo chegado ao fundo do abismo, a água está subindo para voltar ao seu nível e faz com que subamos com ela.

- Para onde? - Não sei, e devemos estar preparados para qualquer acontecimento. Subimos a uma velocidade que avalio ser de duas toesas por segundo, ou seja, cento e vinte toesas por minuto e mais de três léguas e meia por hora. A esse ritmo, estamos andando bastante.

- Sim, se nada nos detiver, se houver uma saída nesse poço! Mas se estiver bloqueado, se o ar se comprimir gradualmente devido à pressão da coluna de água, se formos esmagados! - Axel - respondeu o professor na maior calma -, a situação é quase desesperadora, mas há algumas chances de salvação e faço questão de examiná-las. Se a cada minuto podemos perecer, a cada momento podemos ser salvos. Estejamos prontos para aproveitar as menores circunstâncias.

- Mas o que podemos fazer? - Recuperar nossas forças comendo.

Olhei para meu tio com um ar desvairado. Devia finalmente dizer o que não quisera confessar: - Comer? - repetia.

- Sim, imediatamente.

O professor acrescentou alguns termos em dinamarquês. Hans balançou a cabeça.

- Como! - exclamou meu tio. - Perdemos nossas provisões? - Sim, só nos resta um pedaço de carne-seca para três.

Meu tio encarava-me sem querer compreender o que eu dizia.

- Então o senhor continua achando que podemos nos salvar? Não obtive resposta.

Passou-se uma hora. Começava a sentir uma fome violenta.

Meus companheiros também sofriam, mas nenhum de nós ousou tocar naquele miserável resto de alimento.

Entrementes, continuávamos a subir com extrema rapidez.

Por vezes, o ar nos cortava a respiração, como acontece com os aeronautas cuja ascensão é rápida demais. Mas se eles sentem um frio cada vez maior à medida que se elevam nas camadas atmosféricas, sofríamos um efeito absolutamente contrário. O calor aumentava de forma preocupante e com certeza devia atingir quarenta graus naquele momento.

O que significava aquela mudança? Até então, os fatos haviam dado razão às teorias de Davy e Lidenbrock; até então as condições particulares das rochas refratárias, de eletricidade e de magnetismo haviam modificado as leis gerais da natureza, concedendo-nos uma temperatura moderada, pois, na minha opinião, a teoria do fogo central continuava a ser a única verdadeira e explicável. Estávamos voltando para um ambiente onde esses fenômenos aconteciam com todo o rigor e no qual o calor reduzia as rochas a um estado de fusão total? Era o que eu temia e o disse ao professor: - Se não naufragarmos ou formos despedaçados, se não morrermos de fome, ainda poderemos ser queimados vivos.

Ele contentou-se em dar de ombros e voltar a suas reflexões.

Mais uma hora se passou sem que qualquer incidente modificasse a situação, a não ser um leve aumento da temperatura.

Finalmente, meu tio rompeu o silêncio: - Bem, temos de tomar alguma atitude.

- Atitude? - repliquei.

- Sim. Temos de recuperar nossas forças. Se tentarmos prolongar nossas vidas por algumas horas poupando esse resto de comida, ficaremos fracos até o fim.

- Sim, até o fim, que não tardará.

- Muito bem. E se aparecer uma chance de salvar-nos, se for necessário agir, onde encontraremos as forças necessárias, se nos deixarmos enfraquecer pela inanição? - Ah, meu tio, se devorarmos esse pedaço de carne, o que nos restará? - Nada, Axel, nada. Mas você se sente mais bem nutrido devorando-a com os olhos? Isso é raciocínio de um homem sem vontade, sem energia! - Então o senhor está desesperado? - exclamei, irritado.

- Não! - replicou o professor com firmeza.

- O quê! O senhor ainda tem esperanças de salvar-se? - Claro que sim! Enquanto o coração bater e a carne palpitar, não admito que um ser dotado de vontade ceda lugar ao desespero! Que palavras! E o homem que as pronunciava em tais circunstâncias tinha com certeza um caráter pouco comum.

- Mas o que fazer? - perguntei.

- Comer até a última migalha o resto da comida para recuperar as forças que perdemos. Mesmo que seja a nossa última refeição! Mas ao menos, em vez de permanecer esgotados, voltaremos a ser homens! Meu tio pegou o pedaço de carne e os poucos biscoitos que escaparam do naufrágio; dividiu em três porções iguais e distribuiu-as. Dava cerca de uma libra de alimento para cada um. Meu tio comeu com avidez, com uma espécie de arrebatamento febril; eu, sem prazer apesar de minha fome, quase com nojo; Hans, tranqüilamente, com moderação, mastigando sem ruído os pedacinhos, saboreando-os com a calma de um homem nada preocupado com os problemas futuros. Depois de muito procurar, encontrara um cantil cheio, até a metade, de genebra; ofereceu-nos, e aquele licor tão benéfico conseguiu reanimar-me um pouco.

- Förtraffkg! - disse Hans, bebendo.

- Excelente! - volveu meu tio.

Voltara a ter alguma esperança. Mas nossa última refeição terminara. Eram cinco horas da manhã.

O homem é feito de tal forma que sua saúde é um efeito puramente negativo. Satisfeita a necessidade de comer, dificilmente consegue imaginar os horrores da fome; precisa senti-los para compreendê-los. Ao final de um longo jejum, alguns bocados de biscoito e carne venceram nossos sofrimentos passados.

Após a refeição, cada qual voltou a suas reflexões. Em que pensava Hans, aquele homem do Extremo Ocidente dominado pela resignação fatalista dos orientais? Quanto a mim, só pensava nas lembranças que me faziam voltar à superfície daquele globo que jamais deveria ter abandonado. A casa da Kõnigstrasse, minha pobre Grauben e a boa Marthe passaram como visões diante de meus olhos, e acreditava surpreender os ruídos das cidades da Terra nos grunhidos lúgubres que percorriam o maciço.

Meu tio, sempre em seu posto, tocha na mão, examinava com atenção a natureza dos terrenos. Tentava reconhecer nossa situação pela observação das camadas sobrepostas. Esse cálculo, ou melhor, essa estimativa, só podia ser muito aproximativa. Um cientista, porém, é sempre um cientista quando consegue conservar seu sangue-frio, e, sem dúvida, o professor Lidenbrock possuía essa qualidade num grau pouco comum.

Ouvia-o murmurar palavras da ciência geológica; eu era capaz de compreendê-las, e involuntariamente interessava-me por aquele derradeiro estudo.

- Granito eruptivo - dizia. - Ainda estamos na era primária, mas estamos subindo, subindo cada vez mais. Quem sabe o que encontraremos? Quem sabe? Continuava a ter esperanças. Tocava a parede vertical e, poucos instantes depois, tornava: - Gnaisses! Micaxistos! Bem, logo chegaremos a terrenos da era de transição e então...

O que o professor queria dizer? Era capaz de medir a espessura da crosta terrestre suspensa sobre nossas cabeças? Tinha um meio qualquer de fazer esse cálculo? Não. Sem o manômetro, qualquer estimativa tornava-se impossível.

A temperatura continuava aumentando, e sentia-me completamente molhado naquela atmosfera ardente. Só conseguia compará-la ao calor dos fornos de uma fundição na hora da moldagem. Gradualmente Hans, meu tio e eu tiráramos nossos paletós e coletes; a menor peça de roupa provocava muito mal-estar e até sofrimento.

- Estamos subindo em direção a um forno incandescente! - exclamei ao sentir o calor aumentar.

- Não - respondeu meu tio. - É impossível! É impossível! - No entanto - eu disse, apalpando a parede -, essa muralha está fervendo! No momento em que pronunciei essas palavras, minha mão aflorara a água, e tive de retirá-la o mais depressa possível.

- A água está fervendo! - exclamei.

Dessa vez, a única resposta do professor foi um gesto de cólera.

Então um terror invencível tomou conta de meu cérebro e não o abandonou mais. Sentia a aproximação de uma catástrofe de tamanhas proporções que nem a imaginação mais audaciosa seria capaz de concebê-la. Uma idéia, a princípio vaga, transformou-se em certeza para mim. Não ousava formulá-la. Algumas observações involuntárias, contudo, confirmavam minha convicção. À luz duvidosa da tocha, observei alguns movimentos desordenados nas camadas graníticas. Era evidente que ocorreria algum fenômeno ligado à eletricidade. Além disso, o calor excessivo, a água fervente!... Quis consultar a bússola.

Ela enlouquecera!

XLIII

Sim, enlouquecera! A agulha pulava bruscamente de um pólo para outro, percorria todos os pontos do marcador e girava como se estivesse com vertigem.

Eu sabia muito bem que, de acordo com as teorias mais aceitas, a crosta mineral do globo nunca está em estado de repouso absoluto; as modificações provocadas pela decomposição das matérias inertes, a agitação proveniente das grandes correntes líquidas, a ação do magnetismo, tendem a abalá-la sem cessar, enquanto os seres disseminados em sua superfície nem suspeitam de sua agitação. Esse fenômeno não teria me assustado demais, nem me evocado qualquer idéia terrível.

Outros fatos, porém, alguns detalhes sui generis, não conseguiram me enganar por muito tempo. As detonações multiplicavam-se com uma intensidade aterrorizante. Só podia compará-las ao estrondo de um grande número de carroças arrastádas com rapidez pela calçada. Um trovão contínuo.

Além disso, a bússola enlouquecida, abalada por fenômenos elétricos, confirmava minha opinião. A crosta mineral ameaçava romper-se, os maciços graníticos unir-se, a fissura preencher-se, o vazio encher-se e nós, pobres átomos, seríamos esmagados por aquele abraço formidável.

- Meu tio, meu tio! - exclamei. - Estamos perdidos! - Qual é o seu medo desta vez? - respondeu-me com uma calma surpreendente. - Qual é o problema? - Problema! Observe estas muralhas agitando-se, o maciço deslocando-se, este calor tórrido, a água fervendo, os vapores cada vez mais densos, a agulha enlouquecida, tudo indica um terremoto! Meu tio abanou a cabeça com suavidade.

- Um terremoto? - disse.

- Claro! - Acho que você está enganado, meu filho! - Como, você não conhece os sintomas? - De um terremoto? Não. Estou esperando algo bem melhor.

- O que o senhor quer dizer? - Uma erupção, Axel.

- Uma erupção! - eu disse. -Estamos na cratera de um vulcão em atividade! - Acho que sim - disse o professor sorrindo -, e é o melhor que pode nos acontecer! O melhor! Meu tio ficara louco? O que significavam aquelas palavras? Por que aquela calma e aquele sorriso? - Como! - exclamei. - Estamos numa erupção! A fatalidade jogou-nos na trilha das lavas incandescentes, das rochas ardentes, das águas ferventes, de todas as matérias eruptivas! Vamos ser repelidos, expulsos, jorrados, vomitados, expectorados pelos ares com pedaços de rocha, chuvas de cinzas e escórias, num turbilhão de chamas, e é o que pode nos acontecer de melhor! - Sim - respondeu o professor, encarando-me por cima dos óculos -, pois é a única chance que temos de voltar à superfície da terra! Repasso rapidamente as mil idéias que se cruzaram em meu cérebro. Meu tio tinha razão, toda a razão e jamais me pareceu tão audacioso e convicto quanto naquele momento em que esperava e calculava com calma as chances de uma erupção.

Enquanto isso, continuávamos subindo. A noite passou naquele movimento ascensional; o barulho ao redor aumentava; estava quase sufocado, achava ter chegado a minha hora, e no entanto a imaginação é tão estranha que me dedicava a uma pesquisa realmente infantil. Mas eu suportava meus pensamentos, não conseguia dominá-los! Era óbvio que estávamos sendo repelidos por um impulso eruptivo; sob a jangada, águas ferventes, e sob essas águas, uma pasta de lava, um agregado de rochas que, no topo da cratera, seriam dispersas em todos os sentidos. Estávamos, portanto, na cratera de um vulcão. Não havia dúvidas a esse respeito.

Mas desta vez, em vez do Sneffels, vulcão extinto, tratava-se de um vulcão em plena atividade. Perguntava-me portanto que montanha seria aquela e em que parte do mundo seríamos expulsos.

Nas regiões setentrionais, sem dúvida. Antes de enlouquecer, a bússola nunca apontara outra direção. Desde o cabo Saknussemm, havíamos sido conduzidos diretamente para o norte por centenas de léguas. Será que voltáramos para baixo da Islândia? Seríamos expulsos pela cratera do Hecla ou por um dos sete outros montes ignívomos da ilha? Só me lembrava, naquele paralelo, num raio de quinhentas léguas a oeste, dos vulcões pouco conhecidos da costa noroeste da América. A leste só existia um no grau oitenta de latitude, o Esk, na ilha de Jean-Mayen, nada longe do Spitzberg! Não faltavam crateras, todas espaçosas o suficiente para vomitar todo um exército. Contudo eu tentava adivinhar qual delas nos serviria de saída.

O movimento de ascensão acelerou-se pela manhã. O calor aumentara, em vez de diminuir com a aproximação da superfície do globo, simplesmente porque era bem local e provocado pela influência vulcânica. Nosso meio de locomoção não deixava qualquer dúvida. Uma força enorme, de várias centenas de atmosferas, produzida pelos vapores acumulados no centro da Terra, impulsionava-nos irresistivelmente. Mas a quantos perigos nos expunha! Logo reflexos fulvos penetraram na galeria vertical que se alargava; eu via, à direita e à esquerda, corredores profundos semelhantes a imensos túneis, de onde saíam vapores espessos; línguas de chamas lambiam as paredes, cintilando, - Veja, veja, meu tio! - exclamei.

- O que é que tem? São chamas sulfurosas. Nada mais natural numa erupção.

- E se nos envolverem? - Não nos envolverão.

- E se formos sufocados? - Não seremos sufocados. A galeria está alargando-se, e se for preciso abandonaremos a jangada para abrigar-nos em alguma fenda.

- E a água? A água está subindo? - Não há mais água, Axel, mas uma espécie de pasta de lava que nos ergue com ela até o orifício da cratera.

Com efeito, a coluna líquida desaparecera para ceder lugar a matérias eruptivas bastante densas, embora ferventes. A temperatura tornara-se insuportável, e um termômetro naquela atmosfera marcaria mais de setenta graus! Eu estava inundado de suor. Não fosse a rapidez da ascensão, teríamos sufocado.

O professor esqueceu sua idéia de abandonar a jangada, no que fez muito bem. Aquelas vigas mal unidas ofereciam uma superfície sólida, um ponto de apoio que nos faltaria em qualquer outra parte.

Por volta das oito horas da manhã, aconteceu, pela primeira vez, um novo incidente. O movimento ascensional parou de repente. A jangada permaneceu completamente imóvel.

- O que é isso? - perguntei, abalado por aquela parada súbita, como o teria sido por um choque.

- Uma parada - respondeu meu tio.

- A erupção acalmou-se? - Espero que não.

Levantei-me. Tentei olhar a meu redor. Talvez a jangada, detida por uma saliência de rocha, opusesse uma resistência momentânea à massa eruptiva. Se fosse esse o caso, deveríamos apressar-nos em libertá-la o quanto antes.

Não era nada disso. A coluna de cinzas, escórias e detritos pedregosos parara de subir por conta própria.

- Será que a erupção parou? - exclamei.

- Ah! - murmurou meu tio, cerrando os dentes. - Você está com medo disso; mas fique tranqüilo, o momento de calma não se prolongará muito; já dura cinco minutos, e logo voltaremos à nossa ascensão ao orifício da cratera.

Enquanto falava, o professor não parava de consultar seu cronômetro, e, mais uma vez, devia ter razão em seus prognósticos. Logo a jangada voltou a ser abalada por um movimento rápido, que durou mais ou menos dois minutos e tornou a parar.

- Bem - resmungou meu tio observando a hora -, daqui a dez minutos voltará a andar.

- Dez minutos? - Sim. Trata-se de uma erupção intermitente. O vulcão permite-nos respirar com ele..

Pura verdade. No minuto preciso, fomos jogados de novo com extrema rapidez. Precisávamos agarrar-nos às vigas para não ser lançados para fora da jangada. Mais uma vez, o impulso deteve-se.

Desde então, reflito sobre aquele fenômeno singular sem encontrar qualquer explicação satisfatória. Parece-me, no entanto, evidente que não estávamos na cratera principal do vulcão, mas num conduto acessório, onde um efeito de repercussão se fazia sentir.

Não sei dizer por quantas vezes essa manobra se repetiu. Só sei dizer que toda vez que o movimento voltava éramos lançados com uma força crescente, como se estivéssemos num projétil.

Nos instantes de parada, sufocávamos; nos momentos de projeção, o ar ardente cortava-me a respiração. Pensei, por um momento, na volúpia de encontrar-me de repente nas regiões glaciais, num frio de trinta graus abaixo de zero. Minha imaginação excitada passeava pelas planícies de neve das regiões árticas, e eu aspirava ao momento de rolar pelos tapetes gelados do pólo! Além disso, alquebrado pelos repetidos abalos, perdi a cabeça. Não fossem os braços de Hans, teria arrebentado mais de uma vez o crânio nas paredes de granito.

Não conservei, portanto, nenhuma lembrança precisa do que aconteceu nas horas seguintes. Tenho o sentimento confuso de contínuas detonações, da agitação do maciço, de um movimento giratório que arrebatou a jangada. A embarcação ondulou pelas correntes de lava em meio a uma chuva de cinzas. Foi envolvida por chamas estrepitosas. Um furacão que parecia ser provocado por um imenso ventilador agitava os fogos subterrâneos. Vi o rosto de Hans pela última vez num reflexo do incêndio, e meu último sentimento foi o terror sinistro dos condenados amarrados à boca de um canhão no momento em que vai ser disparado, e então dispersar seus membros pelos ares.

XLIV

Quando tornei a abrir os olhos, senti que a mão vigorosa do guia me apertava a cintura. Com a outra mão, ele segurava meu tio. Não estava gravemente ferido, mas alquebrado por um cansaço geral. Vi que estava deitado na vertente de uma montanha, a dois passos de um abismo, no qual poderia cair ao menor movimento. Hans salvara-me da morte, quando eu rolava pelos flancos da cratera.

- Onde estamos? - perguntou meu tio, que me pareceu muito irritado por ter voltado à superfície da terra.

O caçador ergueu os ombros, mostrando que ignorava.

- Na Islândia - eu disse.

- Nej - respondeu Hans.

- Como não? - gritou o professor.

- Hans está enganado - disse, erguendo-me.

Após as inúmeras surpresas da viagem, mais um estupor aguardava-nos. Esperava ver um cone coberto de neves eternas, no meio dos áridos desertos das regiões setentrionais, sob os raios pálidos de um céu polar, além das latitudes mais altas; mas, ao contrário de todas as previsões, meu tio, o islandês e eu estávamos estendidos no flanco de uma montanha calcinada pelos ardores do sol, que nos devorava com seu calor.

Não conseguia acreditar no que via; o fato de sentir meu corpo assado, porém, não permitia qualquer dúvida. Saíramos seminus da cratera, e o astro radioso, ao qual nada pedíamos há dois meses, mostrava-se pródigo em luz e calor, banhando-nos numa esplêndida irradiação.

Assim que meus olhos se habituaram ao brilho ao qual não estavam mais acostumados, empreguei-os para retificar os erros de minha imaginação. Queria, pelo menos, estar no Spitzberg, e não estava com humor para ceder tão facilmente.

O professor foi o primeiro a falar e disse: - De fato, isto não parece nada com a Islândia.

- Será a ilha de Jean-Mayen? - respondi.

- Também não, meu rapaz. Isto não é um vulcão do norte com suas colinas de granito e sua calota de neve.

- Mas...

- Olhe, Axel, olhe! Acima de nossas cabeças, a quinhentos pés no máximo, abria-se a cratera de um vulcão pela qual saía, a cada quinze minutos, com uma detonação muito forte, uma alta coluna de chamas, misturada a pedra-pomes, cinzas e lavas. Sentia as convulsões da montanha, que respirava à maneira das baleias e lançava de quando em quando fogo e ar pelos seus enormes respiradouros.

Abaixo, num declive bastante íngreme, os lençóis de matérias eruptivas estendiam-se por uma profundidade de setecentos a oitocentos pés, o que fazia com que a altitude total do vulcão mal alcançasse trezentas toesas. Sua base desaparecia numa verdadeira corbelha de árvores verdes, entre as quais eu distinguia oliveiras, figueiras e vinhas carregadas de uvas vermelhas.

Era preciso convir que não parecia nada com as regiões árticas.

Quando o olhar transpunha aqueles limites verdejantes, chegava rapidamente a perder-se nas águas de um mar admirável ou de um lago, que transformava aquela terra encantada numa ilha com apenas algumas milhas de largura. No levante, via-se um portinho, precedido por algumas casas, no qual navios de formato singular balançavam às ondulações das vagas azuladas.

Mais além, saíam da planície líquida grupos de ilhotas tão numerosos que pareciam um vasto formigueiro. Em direção ao poente, as costas afastadas arredondavam-se no horizonte; numas, perfilavam-se as montanhas azuis de conformação harmoniosa, noutras, mais distantes, agitava-se um penacho de fumaça. Ao norte, uma imensa extensão de água resplandecia aos raios de sol, revelando aqui e ali a extremidade de uma mastreação ou a convexidade de uma vela inchada pelo vento.

O imprevisto de tal espetáculo centuplicava suas maravilhosas belezas.

- Onde estamos? Onde estamos? - eu repetia, baixinho.

Hans fechava os olhos com indiferença, e meu tio olhava sem entender.

- Qualquer que seja esta montanha - disse ele finalmente - faz bastante calor; as explosões continuam, e realmente não vale a pena sair de uma erupção para levar um pedaço de rocha na cabeça. Desçamos, para conseguir orientar-nos. Além disso, estou morrendo de fome e de sede.

Decididamente, o professor não tinha um temperamento contemplativo. Quanto a mim, esquecera as necessidades e o cansaço e teria permanecido naquele lugar por muito mais tempo, mas tive de acompanhar meus companheiros.

As encostas do vulcão eram muito íngremes. Escorregávamos por verdadeiros atoleiros de cinzas, evitando os riachos de lava que se alongavam como serpentes de fogo. Enquanto descia, conversava com loquacidade, pois minha cabeça estava cheia demais para não se esvaziar em palavras.

- Estamos na Ásia - exclamei -, nas costas da Índia, nas ilhas Malaias, em plena Oceânia! Atravessamos metade do globo para chegar aos antípodas da Europa! - E a bússola? - respondia meu tio.

- Sim, a bússola - dizia eu um tanto embaraçado. - De acordo com ela, caminhávamos sempre para o norte! - Então ela mentiu? - Ora, mentiu! - A menos que estejamos no pólo norte! - O pólo não, mas...

Era inexplicável. Não sabia o que pensar.

Entrementes, aproximávamo-nos daquela verdura que dava prazer de olhar. A fome e a sede atormentavam-me. Felizmente, após duas horas de caminhada, apareceu um lindo campo completamente coberto de oliveiras, romãzeiras e vinhedos que pareciam pertencer a todos. Além disso, em nossa penúria, não tínhamos condições de examinar melhor o terreno. Que prazer espremer os frutos saborosos nos lábios e morder com gosto as uvas dos vinhedos vermelhos! Perto, na relva, à sombra deliciosa das árvores, descobri uma fonte de água fresca, onde mergulhamos voluptuosamente pés e mãos.

Enquanto nos abandonávamos às doçuras do repouso, apareceu um menino entre duas ramagens de oliveira.

- Ah! - exclamei. - Um habitante desta região afortunada! Era uma espécie de pobrezinho, miseravelmente vestido, aspecto doentio, que pareceu muito assustado com nossa aparência.

De fato, seminus, barbas por fazer, estávamos horríveis e, a menos que se tratasse de uma região de ladrões, tínhamos tudo para assustar seus habitantes.

No momento em que o garotinho ia fugir, Hans correu atrás dele e trouxe-o, apesar de seus gritos e chutes.

Meu tio tentou tranqüilizá-lo, dizendo-lhe em bom alemão: - Qual é o nome dessa montanha, amiguinho? O menino não respondeu.

Perguntou a mesma coisa em inglês.

O menino também não respondeu. Eu estava muito intrigado.

- Será que é mudo? - exclamou o professor, e então, muito orgulhoso de ser poliglota, repetiu a pergunta em francês.

Mesmo silêncio do garoto.

- Tentemos o italiano - retomou meu tio, e disse nessa língua: - Dove noi siamo? - Sim, onde estamos? - repeti com impaciência.

Nada de o garoto responder.

- Vamos, fale! - gritou meu tio, que começava a ficar nervoso e sacudia o menino pelas orelhas. - Come si noma questa isola ? - Stromboli - respondeu o pastorzinho, que escapou das mãos de Hans e correu para a planície dos olivais.

Nem pensávamos mais nele! O Stromboli! Que impacto esse nome inesperado provocava em minha imaginação! Estávamos em pleno Mediterrâneo, no meio do arquipélago eólio, mitológico, na antiga Stronbole, onde Eólio mantinha os ventos e as tempestades acorrentados. E aquelas montanhas azuis, que se arredondavam no levante, eram as montanhas da Calábria! E o vulcão que se erguia no horizonte sul era o Etna, o selvagem Etna.

- Stromboli! Stromboli! - eu repetia.

Meu tio acompanhava-me com gestos e palavras. Parecíamos estar cantando em coro! Ah, que viagem, que viagem maravilhosa! Tendo entrado por um vulcão, saímos por outro, e esse outro localizava-se a mais de mil e duzentas léguas do Sneffels, daquela região árida da Islândia, banida para o fim do mundo! O acaso de nossa expedição transportara-nos para o centro de uma das regiões mais harmoniosas da terra. Abandonáramos a região das neves eternas para chegar à da verdura infinita e deixáramos as brumas acinzentadas das zonas glaciais para voltar ao céu azul da Sicília! Após uma refeição deliciosa de frutas e água fresca, voltamos a caminhar para alcançar o porto Stromboli. Revelar como chegáramos à ilha não nos pareceu prudente; o espírito supersticioso dos italianos não deixaria de ver em nós demônios que o seio do inferno vomitara. Devíamos resignar-nos a passar por humildes náufragos. Era menos glorioso, mas mais seguro.

Enquanto caminhávamos, ouvia meu tio murmurar: - Mas a bússola! A bússola apontava para o norte! Como explicar isso? - Ora - desdenhei -, não explique, é mais fácil! - Essa não, seria uma vergonha um professor do Johannaeum não encontrar o motivo de um fenômeno cósmico.

Ao falar isso, meu tio, seminu, bolsa de couro pendurada na cintura e arrumando seus óculos no nariz, voltou a ser o terrível professor de mineralogia.

Uma hora depois de termos deixado o bosque das oliveiras, chegamos ao porto de San Vicenzo, onde Hans reclamou o salário da décima terceira semana de serviço, que lhe foi entregue com apertos de mão calorosos.

Naquele momento, se não compartilhou nossa emoção bem natural, pelo menos deixou-se levar por um movimento de expansão extraordinário.

Apertou levemente nossas duas mãos com a ponta de seus dedos e sorriu.

XLV

Eis a conclusão de uma narrativa na qual as pessoas mais habituadas a não se surpreender com nada acreditarão. Mas armei-me antecipadamente contra a incredulidade humana.

Fomos recebidos pelos pescadores de Stromboli com todas as atenções devidas aos náufragos. Deram-nos roupas e víveres.

Após uma espera de quarenta e oito horas, a 31 de agosto, uma pequena speronare conduziu-nos a Messina, onde nos recuperamos com alguns dias de descanso.

Na sexta-feira, 4 de setembro, embarcávamos no Volturne, um dos navios-correio das empresas de transportes imperiais da França, e, três dias depois, estávamos em Marselha, com uma única preocupação: a da maldita bússola. O fato inexplicável não parava de atormentar-me. A 9 de setembro à noite, chegávamos a Hamburgo.

Renuncio a descrever o estupor de Marthe e a alegria de Grauben.

- Agora que você é um herói - disse-me minha querida noiva -, não precisará mais abandonar-me, Axel! Olhei para ela. Chorava sorrindo.

Deixo em aberto quanto a volta do professor Lidenbrock provocou sensação em Hamburgo. Graças à indiscrição de Marthe, todo mundo sabia de sua viagem para o centro da Terra. Ninguém acreditou, nem quando retornou.

No entanto, a presença de Hans e as várias informações procedentes da Islândia modificaram um pouco a opinião pública.

Então meu tio tornou-se um grande homem, e eu, o sobrinho de um grande homem, o que já é alguma coisa. Hamburgo deu uma festa em nossa homenagem. Numa sessão aberta ao público no Johannaeum, o professor relatou sua expedição, só omitindo os fatos relativos à bússola. Naquele mesmo dia, depôs nos arquivos da cidade o documento de Saknussemm e lamentou não terem as circunstâncias permitido que seguisse os rastros do viajante islandês até o centro da Terra. Foi modesto em sua glória, e sua reputação aumentou.

Tanta honra suscita inveja. Suscitou, e como suas teorias, baseadas em dados seguros, contradiziam os sistemas da ciência sobre a questão do fogo central, sustentou, pela pena e pela palavra, notáveis discussões com oscientistas de todos os países.

Quanto a mim, não consigo admitir sua teoria do resfriamento: a despeito do que vi, acredito e sempre acreditarei no calor central; mas confesso que algumas circunstâncias ainda mal definidas podem modificar essa lei sob a ação dos fenômenos naturais.

No momento em que essas questões estavam palpitantes, meu tio passou por um verdadeiro desgosto. Apesar de sua insistência, Hans deixara Hamburgo; o homem ao qual devíamos tudo não quis deixar que pagássemos nossa dívida. Estava com saudades da Islândia.

- Farval - disse ele um dia, e com essa simples palavra de adeus partiu para Reykjavik, onde chegou bem.

Havíamos nos afeiçoado muito ao nosso corajoso caçador de êider. Jamais será esquecido por aqueles cujas vidas salvou, e com certeza não morrerei sem ir vê-lo pela última vez.

Para concluir, devo acrescentar que essa Viagem ao centro da Terra provocou sensação entre o público. Foi publicada e traduzida para todas as línguas. Os jornais mais autorizados disputaram seus episódios principais, que foram comentados, discutidos, atacados e apoiados com igual convicção pelos crédulos e incrédulos. Coisa rara: ainda em vida, meu tio gozava de toda a glória que conquistara, e até Bamum propôs "exibi-lo" nos Estados Unidos por um preço elevado.

Mas um problema, podemos dizer até um tormento, atrapalhava a glória. Um fato continuava inexplicável, o da bússola; ora, para um sábio, tal fenômeno inexplicável torna-se um suplício para a inteligência. Bem, os Céus concederiam ao meu tio a felicidade completa.

Um dia, enquanto eu arrumava uma coleção de minerais em seu gabinete, vi a famosa bússola e comecei a observá-la.

Estava ali, em seu canto, há seis meses, sem desconfiar do escândalo que provocava.

De repente, qual não foi o meu estupor! Gritei. O professor acorreu.

- O que foi? - perguntou.

- Essa bússola!...

- O que é que tem? - Sua agulha indica o sul e não o norte! - O que você está dizendo? - Olhe! Seus pólos estão trocados! - Trocados! Meu tio olhou, comparou, e fez a casa tremer com um tremendo pulo.

Acendeu-se uma luz em nossas mentes.

- Então - exclamou, assim que conseguiu falar -, desde a nossa chegada ao cabo Saknussemm, a agulha dessa maldita bússola apontava para o sul, em vez de apontar para o norte? - É claro.

- Então nosso erro está explicado. Mas que fenômeno provocou essa inversão de pólos? - Nada mais simples.

- Explique-se, meu filho.

- Durante a tempestade no mar Lidenbrock, aquela bola de ferro que estava imantando o ferro da jangada simplesmente desorientou nossa bússola.

- Então foi uma simples questão de eletricidade? - O professor caiu na gargalhada.

A partir daquele dia, meu tio tornou-se o mais feliz dos sábios, e eu, o mais feliz dos homens, pois, abdicando de sua posição de pupila, minha bela Virlandesa assumiu, na casa da Königstrasse, a dupla função de sobrinha e esposa. É inútil acrescentar que seu tio era o professor Otto Lidenbrock, membro correspondente de todas as sociedades científicas, geográficas e mineralógicas das cinco partes do mundo.

Fonte: www.4shared.com

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