Sexta feira, 21 de agosto. - No dia seguinte, o magnífico gêiser desaparece. O vento, que aumentara, afastou-nos rapidamente da ilhota Axel. Os mugidos apagaram-se aos poucos.
O tempo, por assim dizer, vai mudar em breve. A atmosfera está carregando-se de vapores que contêm a eletricidade formada pela evaporação das águas salinas; as nuvens baixam sensivelmente e assumem um matiz uniformemente esverdeado; os raios elétricos mal conseguem atravessar a cortina opaca que desceu sobre o palco onde vai acontecer o drama das tempestades.
Sinto-me particularmente impressionado, como toda criatura diante da aproximação de um cataclismo. Os cúmulos' amontoados ao sul apresentam um aspecto sinistro; têm aquela aparência "impiedosa" que sempre observei no início das tempestades. O ar está pesado, o mar, calmo. Ao longe, as nuvens parecem grandes bolas de algodão amontoadas em desordem pitoresca; enchem-se aos poucos, perdendo em número o que ganham em tamanho; são tão pesadas que não conseguem se destacar do horizonte; ao sopro das correntes elevadas, gradualmente fundem-se, escurecem e logo apresentam uma única camada de aspecto temível; por vezes um novelo de vapores ainda iluminado salta sobre esse tapete acinzentado e logo vai perder-se na massa opaca.
É evidente que a atmosfera está saturada de fluido, do qual estou impregnado. Meus cabelos eriçam-se como nas proximidades de uma máquina elétrica. Tenho a impressão de que, se meus companheiros me tocassem nesse momento levariam um choque violento.
Às dez horas da manhã, os sintomas da tempestade são mais nítidos; seria possível dizer que o vento está enfraquecendo para tomar fôlego; o céu parece um odre imenso no qual os furacões se acumulam.
Não quero acreditar nas ameaças do céu, e no entanto não posso evitar dizer: - Vamos ter tempo ruim.
O professor não responde. Está com um humor horroroso por ver o oceano prolongar-se indefinidamente diante de seus olhos.
- Vamos ter tempestade - digo, estendendo a mão para o horizonte. - As nuvens estão baixando sobre o mar como que para esmagá-lo.
Silêncio geral. O vento cala-se. A natureza parece uma morta que não respira mais. No mastro, onde já vejo aparecer um leve fogo de Santelmo, a vela frouxa cai, formando pesadas dobras.
A jangada está imóvel no meio de um mar denso, sem ondulações.
Se não estamos andando, por que manter essa vela içada, que pode ser nossa perdição ao primeiro choque da tempestade? - É melhor recolhê-la e derrubarmos o mastro! É bem mais prudente.
- De jeito nenhum! - exclama meu tio -, de jeito nenhum! Que o vento nos pegue! Que a tempestade nos leve! Mas que finalmente eu veja os rochedos de uma margem, mesmo que a jangada se despedace! Mal termina sua frase, e já o horizonte sul muda subitamente de aspecto. Os vapores acumulados resolvem-se em água, e o ar, chamado com urgência para preencher os vazios produzidos pela condensação, transforma-se em um furacão, que vem dos cantos mais longínquos da caverna. A escuridão aumenta. Mal consigo fazer algumas anotações incompletas.
A jangada é erguida, salta. Meu tio cai. Arrasto-me até ele.
Está bem agarrado ao pé do mastro e parece considerar com prazer o espetáculo dos elementos em fúria.
Hans não se mexe. Seus longos cabelos puxados pelo vendaval e voltando a cair em seu rosto imóvel, atribuem-lhe uma fisionomia estranha, pois todas as pontas estão cobertas de pequeninos penachos luminosos. Sua máscara aterrorizadora é a de um homem antediluviano, contemporâneo dos ictiossauros e megatérios.
O mastro resiste. A vela incha como uma bolha prestes a explodir. A jangada corre, levada por um impulso que não consigo avaliar, mas ainda mais devagar que aquelas gotas de água deslocadas sob ela, cuja rapidez traça linhas retas e nítidas.
- A vela! A vela! - digo, fazendo sinal para que a recolham.
- Não! - responde meu tio.
- Nej - murmura Hans, abanando a cabeça com suavidade.
Enquanto isso a chuva forma uma catarata ruidosa diante do horizonte para o qual corremos enlouquecidos. Mas antes que ela chegue até nós, o véu de nuvens rasga-se, o mar entra em ebulição e a eletricidade, produzida por uma ampla operação química que acontece nas camadas superiores, entra em ação. Aos estouros do trovão misturam-se os jatos faiscantes do raio; inúmeros relâmpagos entrecruzam-se no meio das detonações; a massa dos vapores torna-se incandescente; os granizos que batem no metal de nossas ferramentas e armas parecem luminosos; as ondas revoltas lembram colinas ignívomas sob as quais se alimenta um fogo interior, cada aresta encimada por uma chama.
Meus olhos estão ofuscados pela densidade da luz, meus tímpanos estouram com o barulho do raio! Tenho de segurar-me ao mastro, como um caniço sob a violência de um furacão!!! (Aqui, minhas anotações de viagem tornam-se muito incompletas. Só encontrei algumas observações fugidias, escritas, de certa forma, maquinalmente. Mas, em sua precariedade, em sua própria falta de precisão, estão marcadas pela emoção que me dominava, e melhor que minha memória, transmitem o sentimento da situação.)
Domingo, 23 de agosto. - Onde estamos? Sendo levados numa velocidade incomensurável.
A noite foi terrível. A tempestade não se acalma. Vivemos num ambiente de barulho, de detonações incessantes. nossos ouvidos doem. Não é possível falarmos um com o outro.
Não pára de relampejar. Vejo os ziguezagues retrógrados, que, após um jato rápido, voltam de baixo até em cima para bater na abóbada de granito. Será que vai desmoronar? Outros relâmpagos bifurcam-se ou assumem a forma de globos de fogo que estouram como bombas. O ruído, em geral, não parece aumentar; ultrapassou o limite de intensidade que o ouvido humano pode agüentar e, mesmo que todos os depósitos de pólvora do mundo explodissem ao mesmo tempo, "não ouviríamos mais do que isso".
Há uma emissão contínua de luz na superfície das nuvens; a matéria elétrica desprende-se incessantemente de suas moléculas; é evidente que os princípios gasosos do ar estão alterados; inúmeras colunas d'água erguem-se para a atmosfera e voltam a cair, espumantes.
Para onde estamos indo?... Meu tio está inteiramente deitado na ponta da jangada.
O calor duplicou. Consulto o termômetro; indica... (O número está apagado.)
Segunda feira, 24 de agosto. - Isso não vai acabar nunca! Por que o estado dessa atmosfera, tão densa, uma vez modificado, não se tornaria definitivo? Estamos alquebrados de cansaço. Hans, como sempre. A jangada corre invariavelmente para sudeste. Já percorremos mais de duzentas léguas desde a nossa saída da ilhota Axel.
Ao meio-dia, a violência da tempestade intensifica-se ainda mais. Temos de amarrar solidamente todos os objetos que compõem nosso carregamento. Também nós amarramo-nos. As ondas passam por cima de nossas cabeças.
Há três dias não conseguimos trocar qualquer palavra. Abrimos a boca, mexemos os lábios, mas não produzimos qualquer som apreciável. Mesmo falando-nos ao ouvido, não conseguimos escutar uns aos outros.
Meu tio aproximou-se de mim. Articulou algumas palavras.
Acho que me disse: "Estamos perdidos". Não estou tão certo disso.
Decido escrever-lhe o seguinte: "Recolhamos a vela".
Dá-me o seu consentimento com um gesto.
Mal teve tempo de baixar e voltar a levantar a cabeça, quando um disco de fogo apareceu à beira da jangada. O mastro e a vela voaram ao mesmo tempo; vi que subiram a uma altura prodigiosa, como o pterodáctilo, pássaro fantástico dos primeiros séculos.
Estamos gelados de medo. A bola, metade branca, metade azulada, do tamanho de uma bomba de seis polegadas, passeia lentamente, girando numa velocidade surpreendente sob a corrente do furacão. Ela passa por aqui, por ali, sobe numa das estruturas do barco, pula o saco de provisões, volta a descer um pouco, salta, roça a caixa de explosivos. Horror! Vamos explodir! Não. O disco ofuscante afasta-se; aproxima-se de Hans, que o encara; de meu tio, que sai correndo de joelhos para evitá-lo; de mim, pálido e trêmulo sob o brilho de sua luz e calor; faz uma pirueta perto de meu pé, que tento tirar e não consigo.
Um cheiro de gás nitroso enche a atmosfera; penetra na boca, nos pulmões. Sufoco.
Por que não consigo retirar meu pé? Está preso na jangada! Ah! A queda do globo elétrico imantou todo o ferro que havia a bordo. Os instrumentos, as ferramentas, as armas agitam-se entrechocando-se com um tinido agudo; os pregos de meu sapato aderem a uma placa de ferro engastada na madeira. Não consigo tirar meu pé! Finalmente, arranco-o com um esforço violento no momento em que a bola vai pegá-lo em seu movimento giratório e arrastar-me, se...
Ah, que luz intensa! O globo está explodindo! Estamos cobertos por jatos de chamas! Depois, tudo apaga-se. Tive tempo de ver meu tio estendido na jangada, Hans ainda no leme "cuspindo fogo" sob a influência da eletricidade que o impregna! Para onde estamos indo? Para onde?
Terça feira, 25 de agosto. - Volto a mim após um desmaio prolongado. A tempestade continua; os relâmpagos parecem uma ninhada de serpentes solta na atmosfera.
Continuamos no mar? Sim, numa velocidade incalculável.
Passamos sob a Inglaterra, sob a Mancha, sob a França, talvez sob toda a Europa! Mais um barulho! Sem dúvida, o mar quebrando-se nos rochedos! Mas então...
Aqui termina o que chamei de "diário de bordo", felizmente salvo do naufrágio. Continuo minha narrativa como antes.
Não sei dizer o que aconteceu no choque da jangada com os escolhos da costa. Senti que caía no mar e se escapei da morte, se meu corpo não foi despedaçado pelas rochas pontiagudas, foi porque os braços vigorosos de Hans retiraram-me do abismo.
O corajoso islandês transportou-me para fora do alcance das ondas, para uma areia ardente onde me encontrei ao lado de meu tio.
Depois voltou aos rochedos, contra os quais batiam vagas furiosas, para salvar alguns restos do naufrágio. Não conseguia falar; estava alquebrado pelas emoções e pelo cansaço; precisei de uma hora para recuperar-me.
Enquanto isso, o dilúvio continuava, mas com aquela força que anuncia o fim das tempestades. Algumas rochas sobrepostas ofereceram-nos abrigo das torrentes do céu. Hans preparou alimentos em que não consegui tocar, e todos nós, esgotados por três noites de vigília, caímos num sono doloroso.
No dia seguinte, o tempo estava magnífico. O céu e o mar haviam-se acalmado de comum acordo. Todo vestígio de tempestade desaparecera. Com palavras alegres, o professor saudou meu despertar. Estava numa alegria terrível.
- Então, meu filho, dormiu bem? - exclamou.
Parecia que estávamos na casa da Königstrasse, que eu estava descendo tranqüilamente para o desjejum, que eu iria me casar com Grauben naquele mesmo dia.
Qual o quê! Por menos que a tempestade tivesse jogado a jangada para leste, já tínhamos passado sob a Alemanha, sob minha querida cidade de Hamburgo, sob aquela rua onde ficava tudo o que eu amava no mundo. Então apenas quarenta léguas estavam separando-me dela! Mas quarenta léguas verticais de um muro de granito, e na realidade mais de mil léguas a transpor! Todas essas dolorosas reflexões atravessaram-me rapidamente a mente antes de eu responder à pergunta de meu tio.
- E essa agora! - repetiu. - Você não quer dizer se dormiu bem? - Muito bem - respondi. - Ainda estou quebrado, mas não é nada.
- Claro que não é nada, só um pouco de cansaço.
- O senhor parece muito contente, meu tio.
- Estou encantado, meu rapaz, encantado! Chegamos! - Ao termo de nossa expedição? - Não, ao final desse mar que não acabava nunca. Agora voltaremos ao caminho de terra para penetrarmos realmente nas entranhas do globo.
- O senhor permite-me uma pergunta? - Permito, Axel.
- E a volta? - A volta! Você já pensa em voltar antes mesmo de termos chegado? - Não, só quero saber como voltaremos.
- Da maneira mais simples do mundo. Assim que chegarmos ao centro do esferóide, ou encontraremos um outro caminho para tornar a subir à superfície ou voltaremos da forma mais burguesa possível: pelo caminho já percorrido. Agrada-me pensar que não se fechará atrás de nós.
- Então teremos de consertar a jangada.
- Com certeza.
- Ainda há provisões suficientes para continuarmos nossa grande aventura? - Claro. Hans é um rapaz muito hábil, e tenho certeza de que salvou a maior parte do carregamento.
Saímos daquela gruta fustigada pela brisa. Tinha uma esperança que era, ao mesmo tempo, um temor; parecia-me impossível que a terrível abordagem da jangada não tivesse destroçado tudo o que carregava. Estava errado. Ao chegar à margem, vi Hans no meio de uma profusão de objetos bem arrumados. Meu tio apertou-lhe a mão num gesto de agradecimento. Aquele homem, de uma devoção sobre-humana, talvez único no mundo, trabalhara enquanto dormíamos e salvara os objetos mais preciosos correndo risco de vida.
Mesmo assim, perdemos objetos bastante importantes; nossas armas, por exemplo; mas afinal não eram tão indispensáveis. A provisão de pólvora estava intacta, depois de ter quase explodido durante a tempestade.
- Bem, já que os fuzis se foram, não seremos obrigados a caçar - exclamou o professor.
- E os instrumentos? - Aqui está o manômetro, o mais útil de todos, que vale por todos os outros! Com ele poderei calcular a profundidade e saber se alcançamos o centro. Sem ele, arriscaríamos ultrapassá-lo e ir parar na terra dos antípodas! Estava numa alegria feroz.
- E a bússola? - perguntei.
- Está ali, no rochedo, em perfeito estado, assim como o cronômetro e os termômetros. Esse caçador é mesmo precioso! Era preciso reconhecer que os instrumentos estavam todos ali. Quanto às ferramentas e outros equipamentos, vi, espalhados na areia, escadas, cordas, pás e picaretas.
Faltava saber dos víveres.
- E as provisões? - perguntei.
- Vejamos as provisões - respondeu meu tio.
As caixas com os alimentos estavam alinhadas na praia em perfeito estado; a maioria delas havia sido respeitada pelo mar, e podíamos contar com víveres para mais quatro meses, juntando os biscoitos, a carne-seca, a genebra e o peixe seco.
- Quatro meses! - gritou o professor. - Dá para ir e voltar, com o restante pretendo oferecer um grande jantar a meus amigos do Johannaeum.
Já devia ter-me habituado há muito tempo com o temperamento de meu tio, mas aquele homem sempre me surpreendia.
- Agora devemos nos reabastecer de água com a chuva que a tempestade depositou em todas essas bacias de granito; assim nada de sede a temer. Quanto à jangada, vou recomendar que Hans a conserte como puder, embora ache que não será mais útil.
- Por quê? - eu quis saber.
- Intuição, meu filho. Acho que não sairemos por onde entramos.
Olhei para o professor com uma certa desconfiança. Perguntava a mim mesmo se não tinha ficado louco. E, no entanto, nunca falara com tanto bom senso.
- Vamos comer - retomou.
Acompanhei-o até um cabo elevado depois que deu suas instruções ao caçador. Ali, a carne-seca, os biscoitos e o chá formaram uma refeição excelente, que, devo confessar, foi uma das melhores de minha vida. A necessidade, o ar puro, a calma depois da agitação, tudo isso contribuía para o meu apetite. Durante o almoço, conversei com meu tio sobre o problema de sabermos onde estávamos naquele momento.
- Acho difícil calcular - eu disse.
- Calcular exatamente - respondeu - é impossível, pois nesses três dias de tempestade não consegui anotar a velocidade e a direção da jangada. Mas dá para avaliar mais ou menos...
- De fato, a última observação foi feita na ilhota do gêiser...
- Na ilhota Axel, filho. Não decline a honra de ter batizado com seu nome a primeira ilha descoberta no centro do maciço terrestre.
- Muito bem! Na ilhota Axel havíamos atravessado cerca de duzentas e setenta léguas de mar, e estávamos a mais de seiscentas léguas da Islândia.
- Certo, partamos desse ponto e contemos quatro dias de tempestade, durante os quais nossa velocidade não deve ter sido inferior a oitenta léguas por vinte e quatro horas.
- Acho que sim. Seriam mais trezentas léguas.
- Sim, e o mar Lidenbrock teria mais ou menos seiscentas léguas de uma margem à outra! Sabe, Axel, que pode competir em grandeza com o Mediterrâneo? - Sim, principalmente se atravessamos seu comprimento.
- O que é bem possível! - E, fato curioso - acrescentei -, se nossos cálculos estiverem certos, o Mediterrâneo está justamente sobre nós.
- É verdade! - É mesmo verdade, pois estamos a novecentas léguas de Reykjavik.
- Percorremos uma bela distância, meu filho. Mas só podemos afirmar que estamos sob o Mediterrâneo em vez de sob a Turquia ou o Atlântico se não nos desviamos de nosso rumo.
- Não, o vento parecia constante; por isso acho que essa margem localiza-se a sudeste de porto Grauben.
- Isso é fácil de averiguar consultando a bússola. Consultemos a bússola! O professor dirigiu-se até o rochedo sobre o qual Hans depusera os instrumentos. Estava feliz, alegre, esfregava as mãos, fazia pose! Realmente um meninão! Acompanhei-o curioso de saber se não me enganara em minhas estimativas.
Chegando ao rochedo, meu tio pegou a bússola, deitou-a e observou a agulha, que, após oscilar, parou numa posição fixa pela influência magnética.
Meu tio olhou, esfregou os olhos, olhou de novo. Finalmente, voltou-se para mim estupefato.
- O que houve? - perguntei.
Fez um sinal para que eu examinasse o instrumento. Deixei escapar uma exclamação de surpresa. A agulha marcava o norte no lugar onde supúnhamos ser o sul! Voltava-se para a praia, em vez de mostrar o alto-mar! Mexi na bússola, examinei-a; estava em perfeito estado. Por mais que forçássemos outra posição para a agulha, esta retomava obstinadamente a direção inesperada.
Assim, não havia mais dúvidas de que, durante a tempestade, uma virada de vento que não percebêramos trouxera o barco de volta às margens que meu tio acreditava ter deixado para trás.
Impossível descrever a sucessão de sentimentos que agitaram o professor Lidenbrock, primeiro o estupor, depois a incredulidade e finalmente a raiva. Nunca vi homem a princípio tão desconcertado e depois tão irritado. Teríamos de começar tudo outra vez, o cansaço da travessia, os perigos! Recuáramos em vez de ter seguido em frente! Meu tio voltou rapidamente ao controle da situação.
- Ah! A fatalidade quer brincar comigo! - gritou. - Os elementos estão conspirando contra mim! O ar, o fogo e a água uniram seus esforços para impedir-me de passar! Muito bem, verão do que a minha vontade é capaz. Não cederei, não recuarei nenhum milímetro e veremos de quem será a vitória, do homem ou da natureza! De pé no rochedo, irritado, ameaçador, Otto Lidenbrock, semelhante ao poderoso Ajax, parecia desafiar os deuses. Achei que era o caso de intervir e brecar aquele arrebatamento insensato.
- Escute - disse num tom firme. - Aqui embaixo há um limit para qualquer ambição; não devemos lutar contra o impossível; estamos mal equipados para uma viagem por mar; não é possível percorrer quinhentas léguas numas vigas mal amarradas e com um cobertor à guisa de vela, um bastão como mastro, contra ventos enfurecidos. Não podemos dominar, não passamos de brinquedo das tempestades, e tentar outra vez essa travessia impossível é loucura! Pude desenvolver toda uma série de argumentos, todos irrefutáveis, durante dez minutos sem ser interrompido, mas unicamente em virtude da falta de atenção do professor, que não escutou uma só de minhas palavras.
- À jangada! - gritou.
Essa foi sua resposta. Por mais que eu suplicasse, me exaltasse, esbarrava numa vontade mais férrea que o granito.
Naquele momento, Hans acabava de consertar a jangada. Parecia que aquele ser bizarro adivinhava os planos de meu tio.
Consolidara a embarcação com alguns pedaços de surtarbrandur.
Já içara a vela, em cujas dobras flutuantes o vento brincava.
O professor disse algumas palavras ao guia, que logo embarcou as bagagens e arrumou tudo para a partida. A atmosfera estava bastante límpida e soprava um vento noroeste constante.
O que eu podia fazer? Resistir sozinho contra os dois? Impossível. Se Hans ficasse a meu favor! Mas não! Parecia que o islandês deixara de lado qualquer vontade pessoal e fizera voto de abnegação. Eu nada conseguiria de um criado tão submisso a seu patrão. Tinha de ir com eles.
Estava indo para meu lugar habitual na jangada quando meu tio me deteve.
- Só partiremos amanhã - disse ele.
Minha resposta foi um gesto de resignação.
- Não devo negligenciar nada - tornou -, e como a fatalidade empurrou-me para esta parte da costa, não a abandonarei antes de examiná-la.
Essa observação é compreensível na medida em que voltáramos às margens do norte, mas não exatamente ao local de nossa primeira partida. Porto Grauben não devia estar mais a oeste. Nada mais razoável então do que examinar com cuidado os arredores daquela nova abordagem.
- À descoberta! - chamei.
Deixando Hans ocupado com suas coisas, partimos. Era grande a distância entre o mar e o pé dos contrafortes. Caminhamos por uma boa meia hora antes de chegar à parede de rochedos.
Nossos pés esmagavam inúmeras conchas de todas as formas e tamanhos, onde viveram os animais das primeiras eras. Também via enormes carapaças, cujo diâmetro ultrapassava quinze pés.
Haviam pertencido aos gigantescos gliptodontes do período plioceno, diante dos quais a tartaruga moderna não passava de uma pequenina redução. Além disso o solo estava juncado de grande quantidade de cacos semelhantes a pedras, espécies de calhaus arredondados pelas ondas e dispostos em várias fileiras. Fui, portanto, levado a pensar que o mar ocupara outrora aquele espaço.
As vagas haviam deixado vestígios evidentes de sua passagem nas rochas dispersas e agora fora de seu alcance.
Isso podia explicar até um certo ponto a existência daquele oceano quarenta léguas abaixo da superfície do globo. Mas a minha opinião era que aquela massa líquida se perderia gradualmente nas entranhas da Terra, e provinha, sem dúvida, das águas do oceano, que abriram caminho por alguma fissura. No entanto, tinha de admitir que essa fissura estava atualmente tampada, pois toda aquela caverna, ou melhor, todo aquele imenso reservatório teria se enchido num prazo bem curto. Talvez até, por ter tido de lutar contra os fogos subterrâneos, a água tivesse, em parte, se evaporado. Daí a explicação das nuvens que pairavam sobre nossas cabeças e a emanação da eletricidade que criava tempestades dentro do maciço terrestre.
Essa teoria dos fenômenos que testemunháramos parecia-me satisfatória, pois, por maiores que sejam as maravilhas da natureza, sempre podem ser explicadas pela física.
Caminhávamos, portanto, por uma espécie de terreno sedimentar formado pelas águas, como todos os terrenos desse período, tão amplamente distribuídos pela superfície do globo. O professor examinava com atenção cada interstício de rocha. Achava importante sondar a profundidade de qualquer abertura.
Já andáramos uma milha ao longo das margens do mar Lidenbrock quando o solo mudou subitamente de aspecto. Parecia revolvido, convulsionado por uma elevação violenta das camadas inferiores. Em vários sítios, os afundamentos e levantamentos atestavam um forte deslocamento do maciço terrestre.
Avançávamos com dificuldade por aquelas fendas de granito, misturadas com sílex, quartzo e depósitos de aluvião quando apareceu um campo, mais do que um campo, uma planície de ossadas.
Parecia um imenso cemitério, em que gerações de vinte séculos confundiam sua poeira eterna. Ao longe, altas colinas de detritos estavam dispostas em andares. Ondulavam até os limites do horizonte, onde se perdiam numa bruma fundente. Ali, talvez em três milhas quadradas, acumulava-se toda a história da vida animal, pouco inscrita nos terrenos demasiadamente recentes do mundo habitado.
Estávamos sendo arrastados por uma curiosidade impaciente.
Nossos pés esmagavam com um ruído seco os vestígios daqueles animais ante-históricos e aqueles fósseis, cujos restos raros e interessantes eram tão disputados pelos museus das cidades grandes.
A vida de mil Cuviers não teria bastado para recompor os esqueletos dos seres orgânicos que repousavam naquele magnífico ossário.
Eu estava estupefato. Meu tio erguera seus longos braços para a espessa abóbada que nos servia de céu. A boca desmesuradamente aberta, os olhos fulgurantes sob as lentes dos óculos, a cabeça, que ele abanava de cima para baixo, da esquerda para a direita, enfim, toda a sua postura demonstrava uma surpresa infinita. Encontrava-se diante de uma coleção inigualável de leptotérios, mericotérios, lofópodes, anoplotérios, megatérios, mastodontes, protopitecos, pterodáctilos, todos monstros antediluvianos amontoados para sua satisfação pessoal. Imaginem se um bibliomaníaco fanático fosse transportado de repente para a famosa biblioteca de Alexandria, incendiada por Omar, por um milagre renascida das cinzas! Meu tio, o professor Lidenbrock, sentia-se diante de uma miragem.
Mas um sentimento bem diferente tomou conta dele quando, correndo pela poeira orgânica, deu com um crânio desnudo; gritou, a voz trêmula: - Axel, Axel, uma cabeça humana! - Uma cabeça humana! Tio! - respondi, não menos estupefato.
- Sim, meu sobrinho! Ah, Milne-Edwards, de Quatrefages por que vocês não estão aqui onde estou, eu, Otto Lidenbrock!
Para compreender essa evocação de meu tio aos ilustres cientistas franceses, é preciso saber que ocorreu um fato muito importante na paleontologia pouco tempo antes de nossa partida.
A 28 de março de 1863, empreiteiros de aterros que escavavam nas pedreiras de Moulin-Quignon perto de Abbeville, no Departamento de Somme, sob a direção de Boucher de Perthes, descobriram uma mandíbula humana catorze pés abaixo da superfície do solo. Era o primeiro fóssil dessa espécie a ser descoberto. Perto dele, foram encontrados machados de pedra e sílex talhados, coloridos e revestidos pelo tempo de uma pátina uniforme.
Foi grande o impacto da descoberta, não somente na França mas também na Inglaterra e na Alemanha. Vários cientistas do Instituto Francês, entre outros Milne-Edwards e de Quatrefages, dedicaram-se ao caso de corpo e alma, demonstraram a incontestável autenticidade das ossadas em questão e transformaram-se nos mais ardentes defensores desse "processo da mandíbula", como diziam os ingleses.
Uniram-se aos geólogos do Reino Unido, que consideravam o fato mais do que certo, Falconer, Busk, Carpenter, etc., cientistas da Alemanha, entre eles, nas primeiras fileiras, o mais fogoso, o mais entusiasta, meu tio Lidenbrock.
A autenticidade de um fóssil humano da era quaternária parecia; portanto, incontestavelmente demonstrada e admitida.
É verdade que houve um adversário encarniçado do sistema, Élie de Beaumont. Essa alta autoridade científica sustentava que o terreno de Moulin-Quignon não pertencia ao diluvium, mas a uma camada menos antiga, e, nesse ponto apoiado por Cuvier, não admitia ser a espécie humana contemporânea dos animais da era quaternária. Meu tio Lidenbrock, que concordava com a maioria dos geólogos, manteve sua opinião, discutiu e brigou, e Élie de Beaumont ficou praticamente sozinho na disputa.
Sabíamos de todos os detalhes do caso, mas ignorávamos que depois de nossa partida tinham surgido novos dados. Nos terrenos movediços e cinzentos da França, da Suíça e da Bélgica, foram encontradas outras mandíbulas idênticas, apesar de pertencerem a indivíduos de vários tipos e nações diferentes, assim como armas, utensílios, ferramentas, ossadas de crianças, adolescentes, homens e velhos. A cada dia que passava, confirmava-se mais a existência do homem quaternário.
E ainda: outros restos exumados do terreno terciário plioceno permitiram que os cientistas mais audaciosos atribuíssem uma maior antigüidade à raça humana. É verdade que esses restos não eram ossadas de homens, mas apenas objetos que ele fizera, tíbias e fêmures de animais fósseis com estrias regulares, de certa forma esculpidos, que traziam a marca do trabalho humano.
Assim, de repente, o homem revelava pertencer a tempos muito mais antigos; precedia o mastodonte, era contemporâneo do elephasmericionalis, tinha cem mil anos de existência, data determinada pelos geólogos mais famosos à formação do terreno plioceno.
Tal era a situação da ciência paleontológica, e o que dela sabíamos bastava para explicar nossa atitude em relação àquele ossário do mar Lidenbrock. Todos poderão compreender, portanto, o estupor e a alegria de meu tio, principalmente quando, vinte passos à frente, encontrou-se diante de, pode-se dizer cara a cara, com um dos espécimes do homem quaternário.
Era um corpo humano perfeitamente reconhecível. Um solo de natureza particular, como o do cemitério Saint-Michel em Bordéus, seria capaz de conservá-lo dessa forma por séculos? Não sei dizer. Mas aquele cadáver, pele esticada e pergaminhosa, membros ainda flexíveis - ao menos à visão -, os dentes intactos, basta cabeleira, unhas do pé e das mãos horrivelmente compridas, revelava-se tal como vivera.
Fiquei mudo diante daquela aparição de outra era. Meu tio, tão loquaz, tão falador normalmente, calou-se também. Havíamos erguido, colocado aquele corpo de pé. Olhava-nos através de suas órbitas vazias. Apalpávamos seu torso sonoro.
Após alguns minutos de silêncio, o tio foi vencido pelo professor Otto Lidenbrock, que, dominado por seu temperamento, esqueceu as circunstâncias de nossa viagem, o ambiente em que estávamos, a imensa caverna. Com certeza, achou que estava no Johannaeum, lecionando diante de seus alunos, pois assumiu um tom pedante, e dirigindo-se a um auditório imaginário: - Senhores - disse -, tenho a honra de apresentar-lhes um homem da era quaternária. Grandes cientistas negaram sua existência, outros não menos célebres, confirmaram-na. Se estivessem aqui, os são Tomé da paleontologia, poderiam tocá-lo e reconhecer seu erro. Bem sei que a ciência deve tomar cuidado com as descobertas desse gênero! Não ignoro que charlatães como Barnum e outros da mesma espécie exploraram os homens fósseis de forma desonesta. Conheço a história da rótula de Ajax. Do pretenso corpo de Oreste encontrado pelos espartanos e do corpo de Astérius com cinco côvados de comprimento, mencionado por Pausanias. Li relatórios sobre o esqueleto de Trapani, descoberto no século XIV, no qual se teria reconhecido Polifemo, e a história do gigante desenterrado no século XVI nos arredores de Palermo.
Os senhores sabem tanto quanto eu sobre a análise, feita junto a Lucerna em 1577, das grandes ossadas que o célebre médico Felix Platter declarava pertencerem a um gigante de dezenove pés! Devorei os tratados de Cassanion e todas as memórias, brochuras, discursos e réplicas publicadas a propósito do esqueleto do rei dos címbrios, Teutobochus, invasor da Gália, exumado de um areal do Delfinado em 1613! No século XVIII, teria combatido ao lado de Pierre Campet a existência dos pré-adamitas de Scheuchzer! Tive nas mãos o escrito chamado Gigans...
Aqui voltou a aparecer a enfermidade natural de meu tio, que não conseguia pronunciar as palavras difíceis em público.
- O escrito chamado Gigans... - tentou de novo.
Não conseguia prosseguir.
- Giganteo...
Impossível! A palavra infeliz não queria sair! As risadas teriam dominado o Johannaeum! - Gigantosteologia - arrematou o professor Lidenbrock entre dois palavrões.
Depois, continuando em grande forma e animando-se: - Sim, senhores, conheço todas essas coisas! Também sei que Cuvier e Blumembach reconheceram nessas ossadas simples ossos de mamutes e outros animais da era quaternária. Mas, nesse caso, qualquer dúvida seria uma injúria à ciência! O cadáver está aqui! Vocês podem vê-lo, tocá-lo! Não é um esqueleto, é um corpo intacto, conservado apenas para o estudo antropológico.
Não quis, de forma alguma, contradizer essa asserção.
- Se eu pudesse lavá-lo com uma solução de ácido sulfúrico - continuou meu tio -, eliminaria todas as partes terrosas e as conchas resplandescentes nele incrustadas. Mas não disponho do precioso solvente. No entanto, mesmo neste estado, o corpo poderá contar-nos sua própria história.
Naquele momento, o professor pegou o fóssil do cadáver e manobrou-o com a habilidade de mostrador de curiosidades.
- Como vocês vêem, não tem seis pés de comprimento e estamos longe dos pretensos gigantes. Quanto à raça a que'pertence, é incontestavelmente caucasiana. É de raça branca, de nossa raça! O crânio desse fóssil é regularmente ovóide, sem desenvolvimento das maçãs do rosto nem projeção do maxilar. Não apresenta qualquer característica do prognatismo que modifica o ângulo facial. Meçam o ângulo, é de quase noventa graus. Mas irei ainda mais longe nas deduções e ousarei dizer que essa amostra humana pertence à família japética, espalhada desde as Índias até os limites da Europa Ocidental. Não sorriam, senhores! Ninguém estava sorrindo, mas o professor estava tão acostumado a ver o sorriso desabrochar nos rostos durante suas dissertações científicas! - Sim - continuou ainda mais animado -, eis um homem fóssil, contemporâneo dos mastodontes, cujas ossadas se amontoam neste anfiteatro. Não me permitiria dizer por que caminhos chegou até aqui, como essas camadas que o esconderam escorregaram até essa cavidade enorme do globo. Sem dúvida, na era quaternária, perturbações consideráveis ainda manifestavam-se na crosta terrestre; o resfriamento contínuo do globo produzia rachaduras, fendas, falhas para onde provavelmente resvalava parte do terreno superior. Não é nada decisivo, mas, em fim, o homem está aqui, cercado de obras feitas por ele, machados de sílex talhados, que constituíram a Idade da Pedra, e a menos que tenha vivido como eu, como turista, como pioneiro da ciência, não posso colocar em dúvida a autenticidade de sua origem antiga.
O professor calou-se e rebentei em aplausos unânimes. Além disso, meu tio tinha toda a razão, e mesmo gente mais sábia que seu sobrinho não poderia refutar seus argumentos.
Outro indício. Aquele corpo fossilizado não era o único daquele imenso ossário. A cada passo naquela poeira encontrávamos mais corpos, entre os quais meu tio poderia escolher os mais maravilhosos para convencer os incrédulos.
Na verdade, as gerações de homens e animais misturados naquele cemitério era um espetáculo surpreendente. Mas havia um problema grave que não ousávamos resolver. Os seres animados haviam escorregado devido a uma convulsão do solo para as margens do mar Lidenbrock quando já reduzidos a pó? Ou teriam vivido aqui, neste mundo subterrâneo, sob este céu artificial, tendo nascido e morrido como os habitantes da Terra? Até então, os monstros marinhos, os próprios peixes haviam aparecido vivos para nós! Será que algum homem do abismo ainda estaria errando pelas praias desertas?
Durante mais meia hora pisamos naquelas camadas de ossos.
íamos em frente, levados por uma curiosidade ardente. Que outras maravilhas encerrava aquela caverna, que tesouros para a ciência? Meus olhos aguardavam qualquer surpresa, minha imaginação, todos os estupores.
As margens do mar haviam desaparecido há muito por trás das colinas do ossário. O professor imprudente, que pouco se preocupava em perder-se, estava levando-me para longe. Avançávamos em silêncio, banhados pelas ondas elétricas. Por um fenômeno que não saberia explicar, e graças à sua difusão, então completa, a luz iluminava uniformemente as várias faces dos objetos. Seu centro não mais se situava em um ponto determinado do espaço e não produzia qualquer resquício de sombra. Parecíamos estar em pleno verão nas regiões equatoriais, sob os raios verticais do sol. Todo vapor desaparecera. Os rochedos, as montanhas longínquas, algumas massas confusas de florestas distantes assumiam um aspecto estranho sob a distribuição uniforme do fluido luminoso. Parecíamos aquele personagem fantástico de Hoffmann que perdeu sua sombra.
Após uma milha apareceram as margens de uma floresta imensa, mas não se tratava mais daqueles bosques de cogumelos das proximidades de porto Grauben. Grandes palmeiras, de espécies hoje desaparecidas, soberbas palmacitas, pinheiros, teixos, ciprestes, tuias, representavam a família das coníferas e ligavam-se entre si por cipós inextrincáveis. Musgos e hepáticas atapetavam o solo. Alguns riachos murmuravam sob as sombras pouco dignas do nome, pois não produziam sombra. Às suas bordas cresciam fetos arborescentes semelhantes aos das serras quentes do globo habitado. No entanto, faltava cor àquelas árvores, àqueles arbustos, àquelas plantas, privadas do calor vivificante do sol. Que confundia-se num tom uniforme, amarronzado e como que murcho. As folhas não tinham verdor, e as próprias flores, tão numerosas na era terciária que as viu nascer, então sem cores e sem perfume, pareciam feitas de um papel descolorido pela ação da atmosfera.
Meu tio Lidenbrock aventurou-se naquela mata gigantesca.
Segui-o, não sem uma certa apreensão. Já que a natureza concedera à floresta toda a riqueza de uma alimentação vegetal, por que não abrigaria os temíveis mamíferos? Via naquelas clareiras amplas deixadas por árvores derrubadas ou corroídas pelo tempo, leguminosas, aceríneas, rubiáceas e mil arbustos comestíveis, caros aos ruminantes de todos os tempos. Depois apareciam, confundidas e misturadas, árvores de regiões bem diferentes da superfície do globo, o carvalho cruzando com a palmeira, o eucalipto australiano apoiando-se no pinheiro da Noruega, a bétula do Norte confundindo seus ramos com os do kauris zelandês. Vegetação que confundiria o raciocínio dos classificadores mais engenhosos da botânica terrestre.
De repente parei e detive meu tio com a mão.
A luz difusa permitia que enxergássemos os menores objetos nas profundezas do matagal. Acreditei ver... Não! Realmente via com meus próprios olhos formas imensas agitando-se sob as árvores! De fato, eram animais gigantescos, todo um rebanho de mastodontes, não mais fósseis mas vivos, parecidos com aqueles cujos restos foram descobertos em ISOI nos pântanos de Ohio! Via elefantes enormes cujas trombas se remexiam sob as árvores como uma legião de serpentes. Ouvia o barulho de suas grandes presas, cujo marfim perfurava os velhos troncos. Os ramos quebravam-se, e as folhas arrancadas por massas consideráveis submergiam nas vastas goelas dos monstros.
O sonho em que vira renascer todo o mundo dos tempos ante-históricos, das eras terciária e quaternária, enfim realizava-se E nós estávamos ali, sozinhos, nas entranhas do lobo, à mercê de seus habitantes selvagens.
Meu tio olhava.
- Vamos - disse de repente, pegando meu braço -, ande, ande! - Não - exclamei -, não! Não temos armas! O que faríamos no meio desse rebanho de quadrúpedes gigantescos? Venha, meu tio, venha! Nenhuma criatura humana pode enfrentar impunemente a cólera desses monstros! - Nenhuma criatura humana! - respondeu meu tio, abaixando a voz. - Você está enganado, Axel! Olhe, lá longe! Parece que estou vendo um ser vivo! Um ser semelhante a nós! Um homem! Olhei, dando de ombros e decidido a levar a incredulidade a seus últimos limites. Mas por mais que não acreditasse, tive de curvar-me às evidências.
De fato, a menos de um quarto de milha, apoiado no tronco de um enorme kauri, havia um ser humano, um proteu daquelas regiões subterrâneas, um novo filho de Netuno, pastoreando o rebanho imenso de mastodontes! Immanis pecoris custos, immanior ipse! Sim! Immanior ipse! Não era mais o ser fóssil cujo cadáver descobríramos no ossário, era um gigante capaz de comandar esses monstros! Tinha mais de doze pés de altura. Sua cabeça, do tamanho da de um búfalo, desaparecia nas brenhas de uma cabeleira descuidada. Uma verdadeira crina, semelhante à do elefante das primeiras eras. Brandia com a mão um galho enorme, cajado digno de um pastor antediluviano.
Ficamos imóveis, estupefatos. Mas podíamos ser vistos. Tínhamos de fugir.
- Venha, venha - exclamava, arrastando meu tio que pela primeira vez, deixava-se conduzir.
Quinze minutos depois, estávamos fora do alcance do temível inimigo.
E agora que penso naquilo com toda a tranqüilidade, que minha mente se acalmou, que se passaram meses desde aquele encontro sobrenatural e estranho, o que devo pensar, no que devo acreditar? Não, é impossível! Nossos sentidos enganaram-se, nossos olhos não viram o que viram! Não existe qualquer criatura humana naquele mundo subterrestre! Nenhuma geração de homens habita aquelas cavernas inferiores do globo sem preocupar-se com os habitantes da superfície, sem comunicar-se com eles! É insensato, completamente insensato! Prefiro admitir a existência de algum animal com estrutura semelhante à do homem, algum macaco das primeiras eras geológicas, algum protopiteco, algum mesopiteco parecido com aquele descoberto por Lartet na jazida de ossos de Sansan! Mas o que vimos ultrapassa em tamanho todas as medidas da paleontologia moderna! E daí? Um macaco, sim, um macaco, por mais inverossímil que seja! Mas um homem, um homem vivo e, com ele, toda uma geração escondida nas entranhas da Terra, nunca! Entrementes, saíramos da floresta clara e luminosa, mudos de surpresa, esmagados por um estupor que beirava o embrutecimento. Involuntariamente corríamos. Era uma verdadeira fuga, semelhante às correrias aterrorizantes de certos pesadelos. Voltávamos instintivamente para o mar Lidenbrock, e não sei por que divagações minha mente teria sido dominada, não fosse uma preocupação que me trouxe de volta a observações mais práticas.
Embora tivesse certeza de estar pisando em solo totalmente desconhecido para nós, via, por vezes, agrupamentos de rochedos cuja forma lembrava os de porto Grauben, o que aliás confirmava a indicação da bússola e nossa volta involuntária para o norte do mar Lidenbrock. Dava, por vezes, para confundir-se. Riachos e cascatas caíam às centenas pelas saliências das rochas. Acreditava estar revendo a camada de surtarbrandur, nosso fiel Hans Bach e a gruta onde voltara à vida. Depois, alguns passos além, a disposição dos contrafortes, o aparecimento de um riacho, o perfil surpreendente de um rochedo faziam com que eu voltasse às dúvidas.
Comuniquei minha indecisão a meu tio, que hesitou como eu. Não conseguia localizar-se naquele panorama uniforme.
- É claro - disse-lhe - que não abordamos em nosso ponto de partida, mas a tempestade levou-nos um pouco para cima, e seguindo a margem voltaremos a encontrar porto Grauben.
- Nesse caso - respondeu meu tio -, não vale a pena continuar a exploração, e o melhor que temos a fazer é voltar à jangada. Mas tem certeza de que não está enganado, Axel? - É difícil afirmar, meu tio, pois todos esses rochedos são parecidos. No entanto, acredito estar reconhecendo o promontório ao pé do qual Hans construiu a embarcação. Devemos estar próximos do portinho, se é que não estamos exatamente nele - acrescentei, examinando uma enseada que acreditei estar reconhecendo.
- Não, Axel, encontraríamos ao menos nossos próprios rastros, e não estou vendo nada...
- Mas eu estou - exclamei, correndo para um objeto que brilhava na areia.
- O que é? - Isto - respondi.
E mostrei ao meu tio um punhal todo enferrujado que acabava de recolher.
- Que coisa! - disse ele - você trouxe essa arma? - Eu não! Mas e o senhor? - Que eu saiba, não - respondeu o professor. - Nunca tive um objeto assim.
- Que estranho! - Não, é muito simples, Axel. Os islandeses carregam armas semelhantes a esta, deve pertencer a Hans, que a perdeu...
Abanei a cabeça, Hans não trouxera qualquer punhal.
- Seria então a arma de algum guerreiro antediluviano - exclamei -, de um homem vivo, de um contemporâneo do gigantesco pastor? Não, não é um instrumento da Idade da Pedra! Nem mesmo da Idade do Bronze! A lâmina é de aço! Meu tio deteve-me naquela nova divagação e disse-me num tom frio: - Acalme-se, Axel, e volte ao bom senso. Este punhal é uma arma do século XVI, uma verdadeira adaga, daquelas que os cavaleiros levavam à cintura para o golpe de misericórdia. É de origem espanhola. Não pertence a você, nem a mim, nem ao caçador, nem mesmo aos seres humanos que talvez vivam nas entranhas do globo! - O senhor ousa afirmar...
- Veja, ela não está estragada de tanto penetrar na garganta dos outros; sua lâmina está recoberta por uma camada de ferrugem que não data de um dia, nem de um ano, nem de um século! Como de hábito, o professor animava-se, deixando-se levar por sua imaginação.
- Axel - continuou -, estamos prestes a fazer uma grande descoberta! Este punhal ficou abandonado na areia por cem, duzentos, trezentos anos e foi estragado pelos rochedos do mar subterrâneo! - Mas não chegou aqui andando com as próprias pernas! não se torceu sozinho! Alguém nos precedeu!...
- Sim, um homem! - E quem é esse homem? - Esse homem gravou seu nome com este punhal! Esse homem quis marcar mais uma vez, com suas próprias mãos, o caminho para o centro. Vamos procurar, vamos! E prodigiosamente interessados mais uma vez percorremos a alta muralha, interrogando as menores fissuras, passíveis de transformar-se em galerias.
Chegamos assim a um local onde a margem se estreitava. O mar vinha quase banhar o pé dos contrafortes, deixando uma passagem de, no máximo, uma toesa de largura. Entre duas rochas que avançavam, via-se a entrada de um túnel escuro.
Ali, numa placa de granito, apareciam duas letras misteriosas um tanto corroídas, as duas iniciais do ousado e fantástico viajante: - A. S.! - exclamou meu tio. - Arne Saknussemm! Sempre Arne Saknussemm!