Precipitei-me para a plataforma. Sim! Era mar livre. Excetuando alguns pedaços de gelo dispersos, icebergs imóveis, avistava-se um extenso mar, tuna infinidade de aves nos ares e milhares de peixes nas águas. O termômetro marcava três graus centígrados abaixo de zero. Era como uma primavera relativa fechada atrás do banco de gelo, cujas massas longínquas se elevavam no horizonte norte.
- Estamos no pólo? - perguntei ao capitão, emocionado.
- Não tenho certeza - respondeu-me. - Ao meio-dia faremos o ponto.
- O senhor acha que o sol se mostrará através da bruma? - Por pouco tempo que apareça será o suficiente.
A dez milhas do “Nautilus”, para o sul, elevava-se uma ilha solitária, a uma altura de duzentos metros. Navegávamos para ela, mas prudentemente, porque aquele mar poderia estar semeado de escolhos.
Uma hora depois chegávamos à ilha e duas horas mais tarde tínhamos completado uma volta em redor dela. Media quatro a cinco milhas de circunferência e um estreito canal separava-a de tuna extensão de terra considerável, talvez um continente. A existência desta terra parecia dar razão às teorias de Maury. O engenhoso americano afirmara que entre o Pólo Sul e o sexagésimo paralelo, o mar estaria coberto de gelos flutuantes de enormes dimensões, que não se encontram iguais no Atlântico Norte. Desse fato concluiu que o círculo antártico encerraria terras consideráveis, uma vez que os icebergs não podem se formar em pleno mar, mas apenas junto das costas. Segundo os seus cálculos, a massa de gelo que envolve o pólo austral forma uma calota cuja largura deve atingir quatro mil quilômetros.
No entanto o “Nautilus”, temendo encalhar, tinha parado a três braças de uma praia dominada por um montão de rochas. O bote foi lançado ao mar. O capitão, dois tripulantes levando os instrumentos, Conselho e eu embarcamos nele. Eram dez horas da manhã. Eu não tinha visto Ned Land. Certamente ele não quereria sofrer uma crítica minha, já que havíamos chegado ao Pólo Sul e com todas as possibilidades de regresso sem problemas.
Algumas remadas levaram o bote até a praia. No momento em que Conselho ia saltar para a terra, agarrei-o e lhe disse - Cabe ao Capitão Nemo a honra de ser o primeiro de nós a pisar esta terra - falei e fiz um gesto de cortesia ao capitão, indicando-lhe a ilha.
- Obrigado, professor - disse ele. - Se não hesito em aceitar a sua gentileza é porque até hoje nenhum ser humano pisou a terra deste Pólo Sul. Tenho o privilégio de fazê-lo.
Dito isto, saltou ligeiro para a areia. Dominava-o uma estranha emoção.
Subiu a uma rocha que terminava a pique por um promontório e ali, de braços cruzados, olhar ardente, imóvel e mudo, parecia tomar posse daquelas regiões austrais. Passados cinco minutos naquele êxtase, voltou-se para nós e falou: - Quando quiser, Sr. Aronnax.
Desembarquei seguido de Conselho.
Começamos a andar pela ilha. O solo, numa grande extensão, apresentava um tufo de cor avermelhada, como se fosse feito de tijolo moído, coberto por escórias, correntes de lavas e pedra-pomes. Era impossível negar a sua origem vulcânica. A vegetação daquele continente desolado me pareceu extremamente reduzida.
No entanto, a vida nos ares era superabundante. Milhares de aves de espécies variadas esvoaçavam acima de nossas cabeças, ensurdecendo- nos com seus gritos. Algumas pousavam nas rochas vendo-nos passar, sem mostrar qualquer receio. Pingüins ágeis e rápidos dentro da água, caminhavam lentamente na terra. Soltavam terríveis gritos e formavam numerosas assembléias, sóbrios nos gestos mas pródigos nos clamores.
Mas a bruma não se levantava e às onze horas o sol continuava encoberto.
A sua ausência inquietava-nos. Sem ele não seria possível fazermos observações. Como determinar então se realmente tínhamos atingido o pólo? Aproximei-me do Capitão Nemo que estava encostado em um rochedo olhando para o céu. Pareceu-me contrariado e impaciente. Não podia fazer nada. Homem audaz e poderoso ele não imperava no sol tal como o fazia no mar.
Chegou ao meio-dia sem que o astro-rei aparecesse por um só instante.
Era até possível se reconhecer o lugar que ele ocupava por trás da cortina de nuvens.
- Fica para amanhã - disse-me o capitão.
Voltamos ao “Nautilus”.
No dia seguinte, 20 de março, o frio era intenso. O nevoeiro começou a dissipar-se e ficamos esperançosos de que o sol aparecesse para fazermos as nossas observações.
Como o capitão ainda não tinha aparecido, eu e Conselho pegamos o bote e fomos para a terra. Dirigimo-nos diretamente para a praia do que julgamos ser o continente. Milhares de aves, como encontráramos na pequena ilha, animavam aquela parte do continente polar, mas a partilhavam com enormes rebanhos de mamíferos marinhos, os quais nos olhavam calmamente. Eram focas de várias espécies, umas estendidas no solo, outras deitadas em pedaços de gelo à deriva, e muitas outras saindo ou entrando nas águas do mar. Não fugiam à nossa aproximação, demonstrando que não nos receavam. Calculei que ali havia uma quantidade delas suficiente para abastecer algumas centenas de navios.
- Ainda bem que Ned Land não nos acompanhou - disse Conselho.
- Por que você diz isso? - Ele haveria de querer exterminá-las todas - indicou com o olhar as milhares de focas.
= Todas, é exagero, meu caro. Na verdade eu creio que não conseguiríamos impedir que o nosso amigo canadense arpoasse algumas delas.
Isso não agradaria nem um pouco ao Capitão Nemo.
- Como posso classificar esses animais, professor? - perguntou-me Conselho. Eu já esperava essa pergunta.
- São focas e morsas. Esses nomes lhe bastam.
- De fato, professor. São dois gêneros que pertencem à família dos pinípedes, ordem dos carnívoros, grupo dos ungüiculados, subclasse dos monodelfininos, classe dos mamíferos, ramo dos vertebrados.
Eu invejava a incrível memória do meu criado.
- Muito bem, Conselho. Mas esses dois gêneros, focas e morsas, dividem-se em espécies e, se não me engano, teremos oportunidade de observá-las aqui. Vamos.
Eram oito horas da manhã. Restavam-nos quatro até o momento em que o sol poderia ser utilmente observado. Dirigimo-nos para uma vasta baía que era recortada na falésia granítica da margem.
Ali, a perder de vista, as terras e os pedaços de gelo estavam cobertos de mamíferos marinhos e, involuntariamente, procurei o velho Proteu, o pastor mitológico dos imensos rebanhos de Netuno. Eram principalmente focas, que formavam grupos distintos, machos e fêmeas, o pai vigiando a sua família, a mãe aleitando os filhos, alguns jovens já fortes dando alguns passos, emancipando-se.
Repousando em terra, esses animais assumiam atitudes extremamente graciosas. Por isso, os Antigos, ao observarem o seu olhar doce e expressivo, que a mais suave e bela mulher não poderia suplantar, reparando as suas poses encantadoras e poetizando-as a sua maneira, metamorfosearam os machos em tritões e as fêmeas em sereias.
Nenhum mamífero, excetuando-se o homem, tem matéria cerebral mais rica do que a das focas. Em conseqüência disso, elas são facilmente educáveis, deixam-se domesticar quase sem trabalho e eu penso, como alguns naturalistas, que elas, convenientemente ensinadas, poderiam prestar grandes serviços como cães de caça marítima.
Aproximamo-nos, a seguir, de alguns elefantes-marinhos.
- Esses animais não são perigosos? - perguntou-me Conselho.
- Não. A não ser que sejam atacados. Mesmo a foca, quando precisa defender o filho, é de um furor terrível.
- Está no seu direito - ponderou o meu criado.
- Penso assim também - apoiei o que ele acabara de dizer.
Depois de ter examinado essa colônia de focas resolvi voltar ao submarino.
Eram onze horas. O Capitão Nemo deveria querer vir à terra para observar o sol. Tivemos apenas o tempo suficiente para levar o bote até o barco. O capitão saltou para dentro dele com os instrumentos e voltamos novamente para a terra.
Mas parecia uma fatalidade. Chegou o meio-dia e, como na véspera, o sol não apareceu. Não se podiam fazer as observações. Se no dia seguinte acontecesse a mesma coisa, teríamos de renunciar definitivamente a tomar o ponto. Sem isso não poderíamos afirmar com absoluta certeza se estávamos realmente no Pólo Sul.
Estávamos a 20 de março. No dia seguinte, 21, dia do Equinócio, não contando com a refração, o sol desapareceria no horizonte por seis meses e com o seu desaparecimento começaria a longa noite polar.
Foi exatamente isso que eu disse ao Capitão Nemo.
- Tem razão, Sr. Aronnax. Se amanhã eu não obtiver a altura do sol, antes de seis meses não poderei consegui-la. Mas se os acasos da navegação me trouxeram a esses mares, foi porque a 21 de março eu poderei fazer o ponto, com facilidade, ao meio-dia.
Preferi não fazer nenhum comentário à observação dele.
No dia seguinte, às cinco horas da manhã, eu subi para a plataforma e o Capitão Nemo já estava .lá.
- O tempo vai se desanuviando aos poucos - disse-me ele. - Tenho esperanças. Depois do almoço iremos para a terra, a fim de escolhermos um ponto de observação.
Deixei-o e fui procurar Ned Land. Eu queria que ele nos acompanhasse.
O obstinado canadense recusou-se ao meu convite. Sua taciturnidade aumentava a cada dia.
Terminado o almoço fomos para a terra. O “Nautilus” avançara mais quatro milhas durante a noite, estando então ao largo, a uma légua da costa. O bote nos deixou na praia. O céu clareava. As nuvens deslocavam- se para o sul. As brumas abandonavam a superfície. das águas frias. O Capitão Nemo dirigiu-se para um pico que fazia frente para o mar e tinha uma altura aproximada de quatrocentos metros. Eu e Conselho o acompanhamos.
Gastamos duas horas para chegar ao cimo dele. Lá no alto o capitão mediu a altura da montanha, pois tinha de contar com ela para as suas observações.
As onze horas e quarenta e cinco minutos, o sol, visto então apenas por refração, mostrou-se como um disco de ouro e espalhou os seus últimos raios sobre aquele mar nunca navegado. O momento era muito solene para nós.
Munido de um óculo de retículos, o qual, por meio de um espelho corrigia a refração, o Capitão Nemo observou o astro que pouco a pouco desaparecia no horizonte, seguindo uma longa diagonal. Eu segurava o cronômetro e o meu coração estava acelerado. Se o desaparecimento do sol coincidisse com o meio-dia do cronômetro, estávamos mesmo no pólo.
- Meio-dia! - exclamei.
- O Pólo Sul - falou o Capitão Nemo, com voz grave, passando-me para a mão o óculo que mostrava o astro precisamente cortado em duas metades iguais pelo horizonte. Vi os seus últimos raios coroarem o pico onde estávamos e as sombras subirem pouco a pouco pelas suas vertentes.
Naquele momento, o Capitão Nemo, apoiando a mão no meu ombro, disse-me - Sr. Aronnax: em 1600, o holandês Ghéritk, arrastado por correntes e tempestades, atingiu sessenta e quatro graus de latitude sul e descobriu as ilhas New Shetland. Em 1773, a 17 de janeiro, o ilustre Cook, seguindo o trigésimo oitavo meridiano, atingiu 71° 15' de latitude. Em 1820; o americano Morrel, cujos relatos são duvidosos, chegando ao quadragésimo segundo meridiano, descobriu o mar livre a 70° 14' de latitude. Em 1825, o inglês Powell não conseguiu ultrapassar o sexagésimo segundo grau. No mesmo ano, um simples pescador de focas, o inglês Weddel, chegou a 720 14' de latitude no trigésimo quinto meridiano e a 74° 15' no trigésimo sexto. Em 1829, o inglês Foster, comandante do “Chanticleer”, tomava posse do continente antártico a 63° 26' de latitude e 66° 26' de longitude. Em 1831, no dia 1.° de fevereiro, o inglês Biscoae descobria a terra de Enderby a 68° 50', de latitude; a 5 de fevereiro de 1832, a terra de Adelaide, a 670 de latitude, e a 21 de fevereiro a terra de Graham, a 64° 45' de latitude. Em 1838, o francês Dumond d’Urville, detido pelo banco de gelo a 620 57' de latitude, descobria a terra de Luís Felipe; dois anos depois, em outra viagem ao sul, a 21 de janeiro atingia a 660 30' a terra de Adélia e, oito dias depois, a 64° 40' a Costa Clarie. Em 1838, o inglês Wiles progredia até o sexagésimo nono paralelo, no centésimo meridiano. Em 1839, o inglês Balleny descobria a terra Sabrina, no limite do círculo polar.
Finalmente, em 1842, a 12 de janeiro, o inglês James Ross, comandando o “Erebus” e o “Terror”, encontrava a 76° 56' de latitude e 17° 7' de longitude leste, a terra Vitória; a 23 do mesmo mês, chegava ao septuagésimo quarto paralelo, o ponto mais avançado até então atingido; a 27 estava a 76° 8'; a 28 a 77° 32'; a 2 de fevereiro, a 78° 4' e, em 1842 regressava ao septuagésimo primeiro grau, que não conseguiu ultrapassar. Pois bem! Eu, Capitão Nemo, a 21 de março de 1868, cheguei ao Pólo Sul, aos noventa graus, e tomo posse desta zona do globo terrestre, equivalente à sexta parte dos continentes conhecidos.
- Em nome de quem, capitão? - Em meu nome, senhor professor!
Dito isto, o Capitão Nemo desfraldou uma bandeira negra com um N gravado no tecido. Depois, virando-se para o sol, cujos últimos raios brilhavam no horizonte, falou: - Adeus, sol! Desaparece, astro radioso! Esconda-se nesse mar livre e deixe uma noite de seis meses estender as suas sombras sobre o meu novo domínio!
No dia seguinte, 22 de março, às seis horas da manhã, começamos os preparativos para a partida. Os últimos raios do crepúsculo misturavam-se com a noite. O frio era intenso. As constelações resplandeciam com surpreendente intensidade. No zênite brilhava o admirável Cruzeiro do Sul, a Estrela Polar das regiões antárticas.
O termômetro marcava doze graus abaixo de zero e quando o vento soprava sentia-se picadas dolorosas. Os pedaços de gelo multiplicavam- se na água. O mar tendia a gelar. Evidentemente a bacia natural, gelada durante os seis meses de inverno, seria inacessível.‘ Os reservatórios de água haviam sido cheios e o “Nautilus” imergia lentamente. Parou a uma profundidade de trezentos metros. Avançou para o norte com uma velocidade de quinze milhas por hora. A tardinha já navegava sob a imensa carapaça do banco de gelo. Por prudência os painéis do salão tinham sido fechados para evitar possíveis choques dos vidros com algum bloco de gelo solto. Como não tinha nada para fazer no salão fui me deitar.
As três horas da madrugada fui acordado por um choque violento.
Levantei-me da cama e me pus à escuta no meio da obscuridade, quando fui bruscamente precipitado para o meio do quarto. O “Nautilus” adernava depois do choque. Amparei-me às paredes e arrastei-me pelos corredores até o salão. Conselho e Ned Land já estavam lá comentando o acontecimento, mas tão ignorantes como eu do que realmente acontecera e qual era a situação do submarino.
Estávamos há vinte minutos tentando escutar os mínimos ruídos no interior do “Nautilus”, quando o Capitão Nemo entrou. O seu rosto habitualmente impassível revelava uma certa preocupação. Observou em silêncio a bússola e o manômetro e foi pôr o dedo num ponto do planisfério, na parte que representava os mares austrais.
Eu não quis interromper os estudos que ele fazia nos aparelhos. Passado um momento, quando se virou para mim, eu lhe dirigi a palavra utilizando uma expressão de que ele havia se servido quando encalhamos no Estreito de Torres: - Um incidente, capitão? - Não, professor, desta vez é um acidente.
- Grave? - Talvez. Mas não há perigo imediato. O “Nautilus” encalhou devido a um capricho da natureza e não à imperícia dos meus homens. Não foi cometido um único erro nas nossas manobras. Pode-se desafiar as leis humanas, mas não se pode resistir às leis da natureza.
Sobre o acidente, a resposta dele não nos esclareceu nada.
- Pode me dizer qual a causa do acidente, capitão? - Um enorme bloco de gelo, uma montanha inteira, virou-se. Quando os icebergs são minados na base por. águas mais quentes ou por repetidos choques, o seu centro de gravidade sobe. Então, viram-se ao contrário.
Foi o que aconteceu. Um desses blocos ao virar-se bateu no meu barco que flutuava sob as águas. Depois, deslizando-lhe por baixo do casco e elevando-o com força irresistível, arrastou-o para camadas menos densas, onde se encontra deitado de flanco.
- As providências...
- Já estão sendo tomadas, professor. Os reservatórios estão sendo esvaziados e o senhor pode ouvir as bombas funcionando. O ponteiro do manômetro indica que o “Nautilus” está a subir, mas o bloco de gelo sobe também. Até que um obstáculo de qualquer ordem detenha a ascensão dele a nossa situação não se alterará.
O capitão não tirava os olhos do manômetro. De repente sentimos um movimento do casco e o submarino começou a se endireitar. Ninguém falava. Com os corações apertados, observávamos, sentíamos os movimentos do navio. O chão tornava-se horizontal debaixo dos nossos pés. Passaram-se dez minutos. O “Nautilus” voltara à sua posição normal.
- Flutuaremos, capitão? - perguntei.
- Certamente que sim, uma vez que os reservatórios ainda não estão vazios. Logo que estejam, levarão o “Nautilus” à superfície do mar.
O capitão saiu. Logo depois o submarino começou a flutuar. Mas a uma distância de dez metros em seu redor, elevava-se uma resplandecente muralha de gelo. Por cima e por baixo a mesma muralha. Ele estava prisioneiro num verdadeiro túnel de gelo, com cerca de vinte metros de largura e cheio de uma água tranqüila.
De repente, como se tivesse encontrado uma saída, o “Nautilus” adquiriu velocidade. Os painéis do salão foram fechados. Eram então cinco horas da manhã. Naquele momento sentimos um novo choque na proa do submarino. Percebi que seu esporão havia batido de encontro a um bloco de gelo. Calculei que o avanço para a frente não deveria ser impossível. Contrariando a minha expectativa, o “Nautilus” iniciou um movimento de retrocesso muito pronunciado.
- Voltamos para trás? - perguntou Conselho.
- Sim. Este lado do túnel não deve ter saída - respondi.
- E depois?...
- Depois a manobra é muito simples. Voltamos pelo mesmo caminho e saímos pela abertura sul. É tudo! Ao falar assim, eu quis dar a impressão de estar mais tranqüilo do que realmente estava. Entretanto, o movimento de retrocesso do barco acelerava-se e, avançando a contra-hélice, movia-se velozmente.
- Será um atraso - disse Ned Land.
- Que interessam umas horas a mais ou a menos, desde que se saia - falei, um tanto rispidamente.
- Sim, desde que se saia - repetiu ele.
Passaram-se algumas horas. Eu observava constantemente os instrumentos suspensos na parede do salão. O manômetro indicava que o “Nautilus” se mantinha a uma profundidade .constante de trezentos metros e a bússola marcava para o sul. Sua velocidade era de vinte milhas horárias, realmente excessiva num espaço tão apertado. Mas o capitão sabia que tinha de andar depressa e que na nossa situação os minutos valiam séculos.
As oito horas ocorreu um segundo choque, dessa vez na ré. Empalideci.
Os meus companheiros tinham se aproximado e eu peguei na mão de Conselho. O silêncio exprimia melhor a nossa angústia.
O capitão apareceu naquele momento e eu me dirigi a ele - O caminho está obstruído para o sul? - Sim, professor. Ao virar-se, o iceberg vedou-nos todas as saídas.
- Estamos bloqueados? - Sim.
À volta do “Nautilus” e por cima e por baixo havia uma intransponível muralha de gelo. Estávamos prisioneiros do banco de gelo. Ned Land bateu com sua robusta mão numa mesa. Conselho permanecia calado.
Eu olhava ,para o capitão: seu rosto retomara a habitual impassibilidade.
Tinha cruzado os braços e refletia. O “Nautilus” estava imóvel e nenhum de nós tinha qualquer idéia salvadora.
Então o capitão rompeu o silêncio e disse: - Meus senhores, nas condições em que nos encontramos, há duas maneiras de morrermos.
Personagem inexplicável, sua voz soou calma e ele parecia um professor de matemática fazendo uma demonstração.
- A primeira é morrermos esmagados, a segunda é morrermos asfixiados.
Não falo da possibilidade de morrermos de fome, porque as provisões do “Nautilus” certamente durarão mais do que nós.
Preocupemo-nos portanto com as hipóteses de esmagamento e asfixia.
- Quanto à asfixia - disse eu - não é muito de recear porque os nossos reservatórios estão cheios de ar.
- É verdade. Chegam para mais dois dias - falou o capitão. - Ora, estamos há trinta e seis horas debaixo da água e a pesada atmosfera do “Nautilus” pede para ser renovada. Dentro de quarenta e oito horas a nossa reserva de ar estará esgotada. Entretanto, vamos tentar perfurar a muralha que nos rodeia. A sonda nos indicará o lado melhor para a nossa tentativa. Vou encalhar o “Nautilus” no banco inferior e os meus homens, envergando escafandros, atacarão o iceberg pela sua parede menos espessa.
- Pode-se abrir os painéis, capitão? - perguntei.
- Não há inconveniente porque estamos parados.
Ele saiu em seguida. Logo depois o “Nautilus” desceu lentamente e foi parar no banco de gelo a uma profundidade de trezentos e cinqüenta metros.
- Meus amigos - falei com meus dois companheiros - a situação é grave, mas conto com a coragem e a energia de vocês.
- Não será num momento como esse que irei aborrecê-lo com as minhas recriminações, professor - disse o canadense. - Estou pronto a fazer tudo o que for necessário para a salvação de todos.
Fiquei comovido e apertei a mão dele. Ofereceu-se para trabalhar com os homens do capitão ajudando a furar a parede de gelo. Sua oferta foi aceita e ele me pareceu bastante satisfeito com isso.
Eu e Conselho voltamos para o salão, cujos painéis já estavam abertos.
Examinei as camadas ambientes que suportavam o submarino. Passados alguns instantes, vimos doze homens da tripulação pisar o banco de gelo, entre os quais se contava Ned Land, reconhecível pela sua elevada estatura. O Capitão Nemo estava junto com eles.
Antes de começar a escavar as muralhas, ele fez as sondagens para assegurar a - boa direção dos trabalhos. Depois de várias experiências com as compridas sondas, ele se decidiu pela superfície inferior que nos separava da água apenas dez metros, pela sua verificação. O trabalho começou imediatamente, conduzido com infatigável obstinação.
Após duas horas de enérgico trabalho, Ned Land e seus companheiros foram substituídos por outra turma, da qual eu e Conselho fazíamos parte. Quando após duas horas de trabalho voltei a bordo para comer e descansar, achei uma grande diferença entre o ar puro que me fornecia o aparelho Rouquayrol e a atmosfera do “Nautilus” já carregada de gás carbônico. Pelo rendimento de nosso trabalho conjunto durante quatro horas, eu fiz um cálculo de que levaríamos mais cinco noites e quatro dias para levarmos a bom termo a nossa tarefa.
- Cinco noites e quatro dias e só temos ar para dois dias nos reservatórios - falei aos meus companheiros.
- Sem contar - replicou Ned - que uma vez libertos desta prisão continuaremos prisioneiros do banco de gelo e sem comunicação possível com a atmosfera.
Com todas essas reflexões pessimistas, mas absolutamente razoáveis, o trabalho continuou em ritmo acelerado. No entanto, eu já havia notado e falado só com o Capitão Nemo, que as paredes do fosso que estávamos abrindo, iam se fechando. No dia 26 de março retomei o meu trabalho de mineiro, escavando com disposição. Logo que comecei a trabalhar percebi que as paredes laterais e a superfície inferior do banco de gelo se engrossavam sensivelmente. Era visível que se uniriam antes do “Nautilus” poder se safar. A picareta quase me fugiu das mãos.
Parecia-me que estava entre as terríveis mandíbulas de um monstro e elas se fechavam inexoravelmente.
Naquele momento, o Capitão Nemo passou junto de mim. Toquei-lhe a mão e apontei para as paredes de nossa prisão. Ele me fez sinal para segui-lo. Regressamos a bordo e, tirado o escafandro, acompanhei-o até o salão.
- Sr. Aronnax, temos de tentar qualquer meio heróico, ou seremos esmagados por esta água que se solidifica como cimento! - Estou de acordo, capitão. Mas o que havemos de fazer? Ele começou a refletir, silencioso e imóvel. Eu notava quando uma idéia lhe surgia no espírito. Logo depois percebia que ele a afastava. Respondia negativamente a si mesmo. Finalmente ele falou: - Água a ferver! - Água a ferver? - exclamei.
- Sim, professor. Estamos fechados num espaço relativamente pequeno.
Talvez jatos de água fervendo constantemente injetados pelas nossas bombas, elevem a temperatura do meio e atrasem a congelação.
- É preciso tentar - concordei resolutamente.
- Pois tentemos, professor.
O termômetro marcava sete graus no exterior. O capitão me chamou .para a cozinha, onde funcionavam enormes aparelhos de destilação, os quais forneciam água potável por evaporação. Encheram-se de água e todo o calor elétrico das pilhas foi lançado através de serpentinas banhadas pelo líquido. Em poucos minutos a água atingiu cem graus e foi lançada para as bombas, enquanto nova água a substituía e assim sucessivamente. O calor desenvolvido pelas pilhas era tal que a água fria aspirada do mar, apenas atravessava os aparelhos, já chegava fervendo nas bombas.
A injeção começou e três horas depois o termômetro marcava uma temperatura exterior de seis graus abaixo de zero. Tínhamos ganho um grau. Duas horas mais tarde o termômetro marcava apenas quatro graus.
- Conseguiremos - eu disse ao capitão.
- Penso que sim. Não seremos esmagados. Agora só temos que recear a asfixia.
No dia seguinte, 27 de março, já tinham sido escavados seis metros.
Faltavam quatro. Eram mais quarenta e oito horas de trabalho. O ar já não podia ser renovado no interior do “Nautilus”. O trabalho prosseguia com vigor. Faltavam apenas dois metros para chegarmos ao mar livre.
Mas os reservatórios estavam quase vazios de ar.
Quando terminei o meu turno de trabalho e voltei para bordo, quase sufoquei. Aquela foi uma noite horrível e eu não saberia descrevê-la.
No dia seguinte minha respiração era abafada. As dores de cabeça juntavam-se terríveis vertigens que faziam de mim um ébrio. Os meus companheiros sentiam os mesmos sintomas. Alguns tripulantes agonizavam.
Naquele dia, o sexto do nosso aprisionamento, o Capitão Nemo, achando que a picareta era muito lenta, resolveu esmagar a camada de gelo que ainda nos separava da camada líquida. Aquele homem tinha conservado o sangue-frio e a energia. Com a sua força moral, ele dominava as dores físicas. Pensava, combinava, agia.
A uma ordem sua, o navio foi elevado. Uma vez a flutuar, foi manobrado de forma a ficar por cima do imenso fosso desenhado segundo a sua linha de flutuação. Então toda a tripulação entrou a bordo e a dupla porta de comunicação foi fechada. O “Nautilus” repousava agora na camada de gelo que não tinha mais de um metro de espessura e que a sonda tinha furado em mais de mil locais.
As torneiras dos reservatórios foram abertas, permitindo a entrada de cem metros cúbicos de água, aumentando em cem mil quilos o peso do submarino. Esperávamos, escutávamos, esquecendo o nosso sofrimento.
Era a nossa última oportunidade de salvação.
Apesar do latejar da minha cabeça, ouvi distintamente ruídos debaixo do casco do “Nautilus”. Ocorreu um desnivelamento. O gelo quebrouse com um estalido semelhante ao do papel ao ser rasgado, e o submarino desceu.
- Passamos! - murmurou Conselho ao meu ouvido. Levado pela sua enorme sobrecarga, o “Nautilus” desceu como se tivesse caído no vazio. Então foi transmitida toda a força às bombas e elas começaram a expelir a água dos reservatórios. Após alguns minutos a nossa queda foi suspensa e o manômetro começou a marcar um movimento ascensional.
A hélice, trabalhando a toda velocidade, fazia estremecer o casco por inteiro e nos levava para o norte.
Mas quanto tempo duraria a navegação sob o banco de gelo? Prostrado num divã da biblioteca, eu me sentia sufocar. Já não via e nem ouvia.
A noção de tempo tinha desaparecido do meu espírito. Não sei dizer quantas horas passei assim, mas tive consciência do começo de minha agonia. Eu ia morrer...
De repente recuperei os sentidos. O ar me enchia os pulmões. Teríamos subido à superfície? Teríamos ultrapassado o banco de gelo? Não.
Eram os meus dois grandes amigos, Ned Land e Conselho que se sacrificavam para me salvar. Alguns átomos de ar restavam ainda no fundo de um aparelho e, em vez de o respirarem, eles os davam para mim. Enquanto sufocavam, davam-me vida gota a gota! Olhei para o relógio. Eram onze horas da manhã. Devíamos estar a 28 de março. O “Nautilus” avançava à fantástica velocidade de quarenta milhas por hora. O manômetro me indicou que estávamos apenas a uns seis metros da superfície. Uma simples camada de gelo nos separava da atmosfera. Não seria possível quebra-la? O “Nautilus” ia tentar.
Senti que ele era colocado em posição oblíqua, baixando a ré e levantando o esporão. Impelido pela sua poderosa hélice, atacou o banco de gelo de baixo para cima. Foi quebrando-o pouco a pouco. Recuava e tornava a se precipitar contra o campo de gelo, desmoronando-o.
Finalmente, num esforço supremo, lançou-se contra a superfície gelada e esmagou-a com seu peso.
O alçapão foi aberto e o ar penetrou em todos os seus compartimentos.
Ignoro como eu fui parar na plataforma. Talvez o canadense tivesse me levado. Mas eu respirava e absorvia o ar vivificante do mar. - Ah! - dizia-me Conselho. - O oxigênio é tão bom! O senhor não tenha receio de respirar. Há que chegue para todos.
Quanto a Ned Land, não falava mas abria a boca de tal maneira que assustaria um tubarão. E que poderosas inspirações! O canadense arfava como um fogão em plena combustão.
Recuperei imediatamente as forças e, quando olhei à minha volta, vi que estávamos sós na plataforma. Nenhum dos homens da tripulação e nem o Capitão Nemo. Os estranhos marinheiros do “Nautilus” contentavamse com o ar que circulava no interior.
As primeiras palavras que pronunciei foram de agradecimento e gratidão para meus dois companheiros.
- Bom, professor, não se fala mais nisso - disse-me Ned Land. - Não temos nenhum mérito pelo que fizemos. Foi uma questão de aritmética.
A sua existência valia mais do que a nossa e portanto era preciso conservá-la.
- Não, Ned, não valia e nem vale mais. Ninguém é superior a homens generosos como vocês..
Ficamos calados por um momento e depois eu disse: - Meus amigos, estamos ligados uns aos outros para sempre. Vocês têm sobre mim os direitos...
- Dos quais abusarei - interrompeu-me o canadense.
- Como? - perguntou Conselho.
- Abusarei do direito de levá-lo comigo quando deixar este infernal “Nautilus” - respondeu Ned Land.
- De fato - disse Conselho - vamos no bom caminho.
- Sim - acrescentei - vamos para o lado do sol e aqui o sol significa norte.
- Sem dúvida - concordou Ned Land - mas resta saber se navegamos para o Pacifico ou para o Atlântico.
Para os mares freqüentados ou os desertos.
Tínhamos que pensar nisso.
O “Nautilus” avançava rapidamente. O círculo polar foi ultrapassado, assim como o cabo que fica no Promontório de Horn. Estávamos na extremidade do Continente americano no dia 31 de março às sete horas da noite.
Olhando as anotações do imediato na carta de navegação, eu podia determinar a direção exata do “Nautilus”. Ora, naquela tarde ficou evidenciado, para minha grande satisfação, que voltávamos para o norte pela rota do Atlântico.
Comuniquei essa minha observação aos meus companheiros.
- Boa notícia - disse Ned Land. - Mas para onde vai o “Nautilus”? - Não sei, meu caro.
- Ele não nos diz nada - falou Conselho, referindo-se ao capitão - mas eu só posso dizer que é um grande homem esse Capitão Nemo. Não lamentaremos por tê-lo conhecido.
- Sobretudo quando o tivermos deixado – retrucou Ned Land.
No dia seguinte, 1.° de abril, quando o “Nautilus” subiu à superfície das águas, alguns minutos antes do meio-dia, avistamos uma costa a oeste.
Era a Terra do Fogo, à qual os primeiros navegadores deram este nome ao verem os numerosos focos de fumo que se elevavam das cabanas dos indígenas. A costa parece baixa mas ao longe elevam-se altas montanhas. Julguei até ter visto o Monte Sarmiento, com dois mil e setenta metros acima do nível do mar, bloco piramidal de xisto, de cume aguçado, o qual segundo informação de Ned Land estando enevoado ou limpo anuncia o mau ou o bom tempo.
A noite o “Nautilus” aproximou-se do Arquipélago das Maloínas. A profundidade do mar era pouca. Pensei então que aquelas duas ilhas, rodeadas por numerosas ilhotas, faziam outrora parte das terras de Magalhães. As Maloínas foram descobertas provavelmente pelo célebre John Davis, que lhes pôs o nome de Davis-Southern-Islands. No princípio do século XVIII, foram chamadas de Maloínas pelos pescadores de Saint-Malo e, finalmente, por Falklands pelos ingleses., Quando as Maloínas desapareceram no horizonte, o “Nautilus” submergiu entre vinte e vinte e cinco metros e seguiu a costa americana. O Capitão Nemo estava sumido.
A 3 de abril, ora submerso ora à superfície, navegamos na região da Patagônia. O “Nautilus” passou pelo grande estuário formado pela desembocadura do Rio da Prata e a 4 de abril estávamos em frente ao Uruguai, a cinqüenta milhas ao largo. A sua direção se mantinha para o norte, seguindo as longas sinuosidades da América Meridional. Já tínhamos então percorrido dezesseis mil milhas desde o nosso embarque, nos mares do Japão.
Por volta das onze horas da manhã passamos o Trópico de Capricórnio no meridiano 37 e navegamos ao largo do Cabo Frio. O Capitão Nemo, para grande aborrecimento de Ned Land, não gostava das costas habitadas do Brasil, pois passou por elas com grande velocidade.
Essa rapidez manteve-se durante vários dias. A 9 de abril, à noite, avistamos a ponta mais oriental da América do Sul, que forma o Cabo São Roque. No dia 11 de abril o “Nautilus” subiu para a superfície e a terra reapareceu à vista do Rio Amazonas, vasto estuário cuja caudal é tão considerável que tira o sal ao mar numa extensão de várias léguas.
Tínhamos passado o Equador. A vinte milhas para oeste ficavam as Guianas, terras francesas, onde facilmente encontraríamos refúgio. Mas o vento soprava forte e as vagas, furiosas, não permitiam que um frágil bote as enfrentasse. Ned Land deve ter compreendido isso, pois não me falou em evasão. Por meu lado não fiz qualquer alusão ao assunto, porque não queria levá-lo a uma tentativa infalivelmente condenada ao malogro.
No dia 12 de abril, o “Nautilus” aproximou-se da costa, junto da embocadura do Maroni. A finalidade, que não tardamos a descobrir, foi a pesca para reabastecer de carne as despensas do navio.