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À Amizade - Junqueira Freire

Junqueira Freire

Imagem falsa, duvidosa, incerta,
Não mais minha alma illudirás em sonhos.
Não mais me mostrarão ventura occulta
Teus ademães risonhos.

Candido espectro de fallaz doçura,
Não mais meus olhos te olharão saudosos;
Não mais por ti decorrerão perennes
Meus prantos tão gostosos.

Nutante grimpa, furtacôr, travessa,
Não mais meus passos guiarás na vida:
Não mais verás minha alma vacillante
De teu volver pendida.

Mentiroso pharol em mar-tormenta,
Não mais crerei em tua luz instável;
Não mais a ti dirigirei meu rumo
Com peito inabalável.

Ambiguo e vago doudo pyrilampo,
Não mais teus lumes seguirei constante;
Não mais me enganará por invios trilhos
Teu phosphoro brilhante.

Idéa vã, - phantastica Amizade,
A tempo conheci que eras mentira;
Sarcastico, irrisor demônio, ou fúria,
Que pelo mundo gira.


E eu cri um dia em teu olhar mentido,
Irônica Amizade! – e nescio e fatuo
Julguei teu riso um paraiso eterno.
Julguei as vozes que me davas doce,
Do coração mais intimo arrancadas.
Julguei tua alma um throno sacrosanto,
Onde reinava magestoso, excelso,
O genio bom das affecções mais puras.
Julguei teu peito, ó perfido phantasma,
Um thesouro de angelicas virudes.
Julguei que estava em tua bocca ambigua
A expressão da franqueza e da verdade.
Julguei que só moravam nos teus olhos
Os signaes da candura e da constancia.
Julguei-te um anjo que dos céos descias,
- És um demonio que do abysmo surges!

E eu cri um dia em teu olhar mentido,
Ironica Amizade! – e hallucinado
Abracei um anjo em vez de um anjo!

Olhei um dia para o mundo absurdo,
Que me cercava, deslumbrado, - e disse:
- Quantos homens hî vão contentes lindos,
Felizes, juntos! – que me falta emtanto,
Que sou tão triste de desgralçado?... – E o mundo
Me respondeu assim: - Sózinho, ó bardo! –
E eu repeti – sózinho: - e olhei-me em torno,
E vi ao pé de mim o debil junco
Elastico enrolando-se no tronco.
E vi de rojo a perfida serpente
Unificar-se ao vacillante arbusto.
E vi o arbusto, titubando ao vento,
Incarnar a raiz na gleba firme,
E vi a gleba se agarra fundo
Às camadas mais intimas de argilla.
E vi a argilla se internar mais infima
Nos estrados de ferro e prata e ouro.
E vi ainda os ultimos estrados
Ao coração da terra assimilarem-se.
E vi depois a terra – o globo inteiro
Girando em de redor ao sol formoso.
E eu disse então: -

Sou desgraçado e triste,
Porque meu coração – novel e nescio –
Não achou para unir-se em uma essencia
Um coração igual na dôr, no gozo.

Eis-aqui o que disse, - e que al diria? –
Eis o que disse a natureza inteira,
Quando me respondeu: - Sózinho, ó bardo!-

E em torno de mim eu procurei ancioso
Um coração para sentir commigo.

E eu tive um dia uma visão donosa:
- Era um rosto sereno – que trazia
A placidez divina da virtude,
A simples face da innocencia angelica,
- Reminiscencias da primeira vida
Que já vivemos lá no céo co’os anjos.
- E as lindas flôres que os jardins pintavam,
E as seculares arvores dos bosques,
E as namoradas ondas do oceano,
E a branda lua e as vividas estrellas,
E o céo, e a terra, e a natureza inteira
Pareceram dizer-me: - Achaste: é elle! –

E eu tive um dia uma visão terrivel;
- Esse rosto sereno – que trazia
A expressão da virtude e da innocencia,
Continha um coração de braza e ferro!

Do mar extenso a plana superficie
Tambem ás vezes assocega o nauta,
Emquanto lá na urna das procellas
A tempestade horrenda se prepara.

E puz-me a repetir: - Sózinho, ó bardo! –
E muitas vezes increpei injusto
Da natureza o vaticinio equivoco,
Que os olhos da paixao – cegos ou loucos –
Não me deram a ler no proprio espirito.

Reneguei-te, portanto, ó vão phantasma,
Para sempre, de mim, que hallucinado
Um anjo vi, - mas vejo-te um demonio.

Mas ha outro sentimento,
Ainda que mais mundano,
Verdadeiro;
Onde o prazer se desfructa,
Como a torrente perenne
De um ribeiro.

Mas ha outro sentimento
Mais doce, mais prazenteiro,
Mais real;
Que não é mais – Amizade, -
Que não é mais essa imagem
Ideal.

É de essencia differente
O physico sentimento
Do amor:
Sentimento necessario,
Que não póde ser fingido,
Nem traidor.

N’este sentir – todos sentem
Do modo que a natureza
Manda e quer;
Nem sabe ser cotrafeita,
Quando toda unida ao homem,
A mulher,
Eu quero este amor do mundo,
Este bello sentimento
Natural;
Quero: - que é elle sómente
O sentimento da vida
Mais real.

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