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Inspirações do Claustro

Junqueira Freire

OS DOUS CADAVERES

Aos manes do venerando anelâo — o Dr. Fr. José de Sancta Escholastlca
e Oliveira, fallecldo a 22 de março, e do meu joven
amigo Fr. Henrique de Sancta Rosa Ribeiro, fallecldo
a 22 do mesmo mez.

Felizes,— não só pela honradez da
vida, como pela opportunidade da
morte.
TACITO

I

As lamentaveis orações que escuto
Dizem que é tempo de choral-os inda.
Precizam certas dores longa ausencia
Para tornar-se fortes. Nem no tempo
É que se inxugam lagrimas de amigos.
E as lamentáveis orações que escuto
Dizem que é tempo de choral-os inda.

II

Em dous dias somente á terra demos
Dous cadaveres nossos. E essa terra
Duas fauces abriu para ingolil-os,
— Duas fauces terriveis. Parecia
Por duas boccas horrorosa rir-se
Com sardonico aspecto.

III

Entre as preces de morte aqui trouxemos
Primeiro um ancião. Vivera um dia,
Mas um dia completo. A sua aurora
Fora risonha: o seu zenith mais bello:
Mais bello o seu occaso.
De sua historia as paginas douradas
Todas n'um verbo apenas se resumem,
— No verbo da virtude.
E vós, filhos do mundo,— e vós, que tendes
Menoscabado, ironizado os claustros,
Vêde aquelle sepulchro. Alli na pedra
Lereis vossa loucura, alfim vencida
De pejo e confusão,— indo esconder-se
Por entre as nossas orgulhosas palmas
De funebre victoria.
E esse quadrado, povoado ao longo
De cadaveres mil, attesta aos impios
Que esta insania da cruz não cai ainda.
Vinde estudar na lapida dos tumulos
A sorte do porvir. Aqui se enastram
Nas flores do martyrio immensos nomes
Que figuram no ceu. Aqui lançâmos
Ao mundo inteiro uma solemne prova
Do que elle chama — as ambições do monge.
Inclinae vossa fronte em nossas campas,
Oh impios,— e apprendei! Aqui se escondem
Do monge as ambições mortas com elle.
Perguntae, perguntae ás mesmas campas
— Quaes ellas foram ? — Uma prece humilde
Depois de sua morte.

Taes do monge ancião, que inda chorâmos,
As ambições na vida e além dos túmulos.

Foram cumpridas, ellas. Seu cadaver
Entre as preces de morte aqui trouxemos.

Tinha troado luctuoso o bronze
Gravosos sons de morte.
De dobres e orações os ares pejam.
Da dor o espectro, o genio dos lamentos
Nos tectos pousa, em lagrimas folgando.

E o campanario immudeceu: nas auras
De todo em todo o lugubre ruido,
Voando, esperdiçou-se em tenues ecchos.
Somente as orações crebras susurram
Pela extensão dos solitarios claustros.
E tudo o mais era silencio e nada.
Quando outra vez o acostumado bronze
Mais outra morte clama :

Era um joven que um passo apenas dera
No caminho da vida. Uma pégada
Marcou somente nos degraus do mundo :
Desceu,— e deu no tumulo a segunda.
Um momento parará ante os altares
Cantando o Eterno em maviosos hymnos:
Foi toda a vida sua esse momento:
E remontou-se ao ceu, findado o canto.
Quando de tarde internecida e meiga
Falia entre as folhas dos rosaes a briza,
Um som — quasi canção — se expande ao longo,
Melodioso, sim: porém mais bello
Era o seu hymno harmonioso e brando.
Quando sobre a montanha aérea orchestra
De altivos rouxinoes em fortes trinos
De musica atrevida os ares enchem,
Para os ouvir o camponez deserta
O innocente tugurio,— e as feras bravas

E as torrentes caudaes e os nortes param:
Mas nada d'isso a sua voz copia.
Nem a harpa immortal tangida outr'ora
Pelo joven David nos regios paços,
Do possesso Saul calmando as furias,
Traduz o seu cantar. Já para a terra
Era de mais ouvil-o.
Tinha excedido ha muito o ser de humano,
E já tocava á perfeição dos anjos.
Talvez que precizasse o ethereo throno
Mais de um cantor, qual elle.
Ou d'entre os choros seus—Deus, por momentos,
Tirara um anjo que viesse ao mundo
Cantar canções do ceu,— dizendo aos homens
Como se adora a Deus na patria eterna.

VI

Cantor, cantor do ceu! tu não morreste,
Nem mudaste de patria.
Não pode, não, ser teu nem um dos orbes.
Si na terra passaste, oh sim,— viagem,
Missão de Deus foi isso em nossa esphera.
A patria tua é tam somente o Eterno!
Tu gemias, eu sei, eu vi-te, eu mesmo,—
Gemias, circumscripto em teu segredo,
Com saudades de lá. Cuidando ás vezes

A sós comtigo e tua idea estares,
Em quentes preces ao Senhor pedias
Sua mensagem concluir comtigo.
Lá no Golgotha assim, na cruz suspenso,
Entre dores ao Pae rogava o Christo
Que lhe passasse o calix.
Deus emfim te attendeu, cantor sagrado.
Almas dignas de Deus — Deus sempre as ouve.
Não choremol-o, não. Um pranto esteril
Sôbre os manes de um anjo — insulto fòra.
Gravemos só em sua campa um nome,
E o mais em nossos peitos.

22 de abril de 1854

Al !

Pelo fallecimento do venerando anelão — Frei Marcellino do
Coração de .Jesus, accontecido em junho de 1854 no mosteiro
do Rio de Janeiro.

Sam velhos que batalharam,
E que jamais renegaram
A sua divisa e fé.
MUNIZ-BARRETO

Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,
Deixaste a tua cella?
Para o baculo ainda um dia tinhas,
Um dia para a mitra!
Não tinhas mais que performar no mundo ?
Esgotaste da vida o vário calix,
Onde, a par do prazer que á tona sobe,
Assentam magoa e fezes ?
Saciaste-te bem de dor, de gozos!
Fartaste-te da vida ?
Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,
Deixaste a tua cella?

Era cedo, talvez. Ainda as faces
Alardiavam mocidade e vida.
Na fronte ainda o ébano luzente
Entremeava a prata.
Rija, sonora, da tribuna eterna,
A voz ainda estremecia as turbas,
Apavorava os grandes.
Podias espalhar mais bem no mundo,
Si fosses mais um dia.
Porque deixaste o teu mosteiro, oh monge,
Deixaste a tua cella?

Fôras um homem necessario agora.
Precizavam de ti victimas tantas,
Ai! tantos desgraçados!
A mão iniqua de sagrados odios
Sobre o collo innocente alçou de novo
A secure de Herodes.
Co'a garganta infantil cozida ao cêpo,
Do algoz romano pavidos ouviram :
— Obediencia ou morte! —
Obedeceram.— A tortura, o açoute,
O ergastulo, o patibulo, as pantheras,
Dos impios Neros foram.
Hoje ha Neros christãos mais brutos que elles.
Sam de todas as epochas os typos
De crime, de ferocia.
Não ha, porem, amphitheatro e féras.
Conhecem mais o sofrimento, as dores,
O que mais damna os homens.
Dam-nos apenas cárcere e destêrro!

Ah! o desterro!... prolongada estatua
De morte que do ceu se prende ao inferno,
— De morte que não finda! Ai!
para tantos mizeros agora
Que necessário fôras!
Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,
Deixaste a tua cella?

Não viste as salas humidas do pranto
Dos mizeros proscriptos.
Não viste o panno dos sagrados muros
Transudando de lagrimas.
Não viste o corucheu do templo annoso
— Testemunha da dor,— curvar-se a ella,
Em respeito á desgraça.
Não viste á noute nos soturnos claustros,
De par em par fendendo-se os sepulchros,
Rangindo os ossos, levantar-se os mortos
Brandindo maldições em férreos carmes
Sobre os filhos sacrilegos.
Mui agra fora a teus provectos annos
Uma scena de sangue.
Ah! tanto horror te causaria infernos!
Foste feliz: — morreste.
Quando os pequenos, tam do Christo amados,
Fossem vistos de ti,— pallidos, tristes
Co'as faces cavas do soffrer profundo,
Castigados sem crime, em hostia á raiva
De phariseus hypocritas...

Uma lagrima tua, um gesto, um brado,
De balsamo lhes fôra.
Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,
Deixaste a tua cella?

Tambem foste proscripto. A dor do exilio
Não era-te ignota.
Ah! quantas vezes desejaste em âncias
Voltar á pátria cara!
Na pedra tumular da avita gloria,
Sobre o pó dos tropheus, pobre, aviltado,
Seus maus destinos Portugal prantêa,
E pranteando dorme.
Ossada de nação co'os pés em terra,
Co'as mãos a custo sustentando o craneo,
A cada sôpro do suão vacilla.
Mas inda assim amavas-lhe os destroços !
Lá o teu berço estava.
Mas ah! os toques matinaes não soam
Nas cupolas da Arrabida.
Jazem seus claustros pavorosos êrmos.
Murmura ainda nas extensas naves
O ruido do sangue.
Nas vácuas cellas estampado impera
O crime de seus filhos.
Só esta idea te rasgava as veias,
Te amargurava o peito.
Receaste, avistando-lhe as ruinas,
Desfallecer chorando.

Mas esses prantos que o sublime excita
Contêem suave gozo.
Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,
Deixaste a tua cella?

Hoje de lá do ceu a vista inclina
Para a dor dos pequenos.
Uma prece de ti merecem, querem
Tam innocentes almas.
Roga por elles ao Senhor que os ama.
Prostra-te ainda d'ante o solio eterno
Orando pelos impios.
Talvez o Christo lhes perdoe o crime,
Dizendo ainda ao Pae, qual disse outr'ora :
— Não sabem o que fazem.
Talvez subiste ao ceu por impios tantos.
Seria lá preciza a prece tua,
Para abrandar-se a cholera divina,
Que já baixava em laminas de fogo
Nas mãos do archanjo que assolara o Egypto,
Sobre a cabeça grávida de crimes
Dos phariseus modernos.
Por que, sinão por isto, ao ceu subiste ?
Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,
Deixaste a tua cella ?

MAIS UM TUMULO

Pelo fallecimcnto do venerando ancião—Frei José de S. Bento
Damasio, a 1O de septembro de 1854.

I

Mais um tumulo aberto ! Amada lyra,
Tempéra as cordas de tristeza e lucto.
Ah! não te esqueça teu dever funereo !
Nossa missão é esta.
Internemos na pedra um ai, um carme,
E alabastros de preces.
Cantemos sempre os males que se findam
No liminar da morte.
Merece cantos uma dor que expira.
Quem hoje desce á profundez do nada
Foi infeliz,— foi monge.

II

Mas ah! que imagem me arrebata extranha
A tetricos abysmos!
Quem és ? — archanjo ou fada ? — As longas vestes
Vitreas, tam de crystal, os ares quebram
E refrangentes choques!
Que cor, que face transparente, annilea,
Qual índigo de louça!
Que cor, que face, que platíneos olhos,
Quâes pallidas estrellas !
Onde me arroubas, ai! que cahos, que abysmos
Que gelos glaciaes, que moveis plagas,
Que campos fluctuantes!
Quantas campas aqui quebram-se e correm !
Quantos craneos,—que horror! — de sánie sujos,
Surgem medonhos d'ellas!
Eis! de um lado levantam-se, frangendo,
De negras togas adornados todos,
Altivos esqueletos!
Ah! esfoutros, porem, forcejam, luctam,
Tremendos uivam, por querer debalde
Transpôr-se do sepulchro,
Algum grilhão, talvez, lhes prende as plantas
Lá na raiz da rocha,
Anjo, demônio, deusa, incanto, ou fada,
Ah! dize-me o que vejo!

Que crâneo immundo em desespêro apponlas,
Demonio, deusa, archanjo!
Não reconheço-o não. A patria minha
Não é aqui. A região dos mortos,
Zona do ceu, do inferno, elysio, averno,
Gurgite infindo, tenebroso ou claro,
Pegos de luz ou turbilhões de trevas,
Não me pertencem inda.
Outra nação, aqui, de essência extranha,
Este logar occupa.

Deixa-me, pois, voltar demonio ou anjo.
Transporta-me outra vez ao ser que tinha.
Não tenho ainda o meu dever completo.
Minha missão me chama.
Concede-me um instante, um verso, um canto,
Uma improviza nenia.
Quem hoje desce á profundez do nada
Foi infeliz,— foi monge...

III

«Não cantarás,» atterradora brada
A meu ouvido a furia.
«Não cantarás» me repetiu, inchado,
E rebentou, tinnindo.

FIM

Fonte: www.dominiopublico.gov.br

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