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Inspirações do Claustro

Junqueira Freire

A natureza d'esta publicação exige de si algumas palavras de explicação. Este prologo é filho da necessidade tamsomente.

Longe de mim a vaidade dos discursos ociosos.

As poesias presentes agradarão a bem poucos: agradarão apenas a algumas almas fortes, que não poderam ainda ser eivadas nem do cancro do septicismo, nem da mania do mysticismo: agradarão apenas a alguns homens completamente livres, que não subjeitaram-se ainda, si não ás luzes da razão.

Ora, estes homens sam bem raros na sociedade actual, porque a hyperbole dos systemas e das crenças traz em si não sei que talisman, qué arrasta todos os espíritos, por bem formados que sejam. O eclectismo nas opiniões, que não sam essencialmente philosophicas, repugna ainda aos animos, e é chrismado de absurdo.

Eu tenho, por tanto, a maioria dos homens por meus inimigos.

Pela mão invisivel da Providencia fui arrojado ha três annos para o coração do claustro. Por essa inclassificavel acção, de que hoje me espanto, tive as bençãos de uns e os escarneos de outros. Eram ainda os homens mysticos e os scepticos que louvavam-me ou vituperavam-me. Pela mão invisível da Providencia fui arrojado outra vez para o torvelinho da sociedade. Por isso tive a maldição de quasi todos.

Eram ainda os mysticos, que não pejavam-se de cantar a palinodia dos louvores, que me haviam magnificamente dispensado,— eram os scepticos, que compunham d'este accontecimento um marcialico epigramma.

Hoje, entre tanto, venho offerecer ao publico o complemento de meus pensamentos durante meu triennio claustral.

Serei recebido pelos mesmos homens: — por tanto, muito mal.

Não importa.

Nos paizes eminentemente illustrados não aguarda-se mais pelo juizo da posteridade. Vivendo-se, goza-se já do nome, que antigamente depozitava-se nas ares mysteriosas do porvir.

No Brazil, porem, não é ainda assim. Eu tenho — graças a Deus,— o consolo de poder esperar pelo futuro em minha patria! N'este sonho sedativo da consciencia,— seja uma illusão embora,— adormecerei tranquillo.

Entre tanto,— fervam os pensamentos da paixão. Os escriptos poeticos, que apresento, não foram formados em delírio.

Enthusiasma da raiva! que tenho eu com tigo ? A hora da inspiração é um mysterio de luz que passa inappercebivel. Com tudo, eu tenho consciência de que, por mais ethereo que seja aquelle momento, cantei tamsomente o que o imperativo da razão inspirava-me como justo. Não exclui, na verdade, o sentimento n'estas composições a que presidia a solidão, porque ninguém o pode,— mas também não sou cabalmente um poeta. Ha em mim alguma cousa de menos para completar o anjo das harmonias terrestre.

Ha, por ventura, a reflexão gelada de Montaigne, que apaga os impetos, que matta ás vezes a mesma sublimidade. Klopstok, eu não posso accompanhar teus vôos! Pelo lado da arte, meus versos, segundo me parece, aspiram a cazar-se com a proza medida dos antigos.

Sabe-se que os latinos modulavam os periodos do discurso.

Sabe-se que os italianos, em seu seculo classico, imitaram miudamente aquelles, de quem tinham herdado a litteratura. Sabe-se que os primeiros escriptores portuguezes cadenciavam egualmente suas construcções. Sabe-se que, attingindo a musica prozaica a uma perfeição absurda, desterrou-se completamente do discurso todo o artificio.

A versificação triumphou sobre as ruinas da proza. Bocage deixa de ser poeta, para ser musico. A proza tinha expirado.

Começa-se entam a procurar um accôrdo. O modulo dos latinos, estudado e seguido pelos italianos, quasi aperfei-coado pelos portuguezes, tinha algum tanto de justo e de bello. A proza recobrou os seus direitos.

Tudo isto traz com sigo algumas perguntas necessarias: Athe onde irá a melodia da proza ? Será a proza um dia tam acabada de melodia, de rythmo, de harmonia mesma, que venha a ser inútil a musica da fórma poetica ? Chegará um dia a litteratura a um tal grau, que distinga a proza e a poesia tamsomente pelo nuance dos pensamentos ? Nascerá um dia d'estas duas expressões mais ou menos bellas uma fórma intermediaria, que expose tanto da singeleza da proza, quanto do artificio da versificação ? Será o futuro o mesmo que o passado,— e a proza, em um circulo constantemente vicioso, voltará para a poesia, e a poesia de novo para a proza ? O Telemaco de Fenelon, os Martyres de Chateaubriand, os Dramas modernos, os Romances mesmos de agora, que sam por ventura arremêdos de epopeas, não se levantam, como brados magestosos, contra esta ultima hypothese? Teremos de viver continuamente no gyro desesperador que descreveu o Ecclesiastes ? O que foi será o mesmo que ha de ser em toda a sua amplitude,— ou aquelle axioma sagrado admitte restricções ? Meu Deus! o vosso Christo, descendo de vosso eterno e fecundo seio, não trouxe á humanidade alguma idea nova, algum facto que inda não tivesse sido? Presentemente,— cuido eu,— nem uma resposta póde dar-se a estas questões, si não uma duvida. Pois bem: — meus versos representam esta hesitação, segundo penso.

Procuram,, a pezar meu, a naturalidade da proza, e recêam desprezar completamente a cadência bocagiana.

Alem d'isto, a quem canta pela razão, e pouco talvez pelo sentimento, esta fórma singela, quasi não trabalhada, por ventura mais severa, é que melhor lhe póde convir.

O aspecto social, que parecem ter estas composições, obrigam- me ainda a não finalisar de subito este prologo.

O que cantas ? — perguntar-me-ão.

O que podia eu cantar, incerrado nas muralhas solitárias de um claustro, ouvindo a cada hora os toques continuados de um sino que chama á oração, vendo uma turma de homens com vestidos talares negros, que levavam-me â recordação dos costumes dos tempos antigos, passeando sempre sôbre um chão povoado de sepulchros, conversando com o silencio do dia e a solidão da noute? Cantei o monge e a morte. .

Cantei o monge, porque elle soffre,— soífre muito.

Cantei o monge, por que o mundo o despreza. Cantei o monge, porque elle é hoje uma cousa inutil e ociosa, em consequencia de suas instituições anachronicas. Cantei o monge, por que elle não tem culpa de ser mau, nem pôde por si só ser bom. Cantei o monge, por que elle poderia ser uma personagem quasi necessária, dandose- lhe as leis communs da humanidade.

Cantei o monge, por que elle é infeliz. Cantei o monge, por que elle é escravo, não da cruz, mas do arbitrio estúpido de outro homem. Cantei o monge, por que não ha ninguém, que se occupe de cantal-o.

E por isso que cantei o monge, cantei também a morte. É ella o epilogo mais bello de sua vida: é seu único triumpho.

Na verdade, ao homem sincero amante de sua patria, doe-lhe dentro da alma ver tanta gente estaccionada, sem nada fazer, podendo produzir tanto bem. Não ! a charidade que o Christo insinou, não é egoista : — imagem real do pelicano, que arranca o coração para dal-o aos filhos ! Muitos, a quem tomam o cuidado de chamar — impios, — censuram o monge no monge. Eu deploro-o somente, por que elle não é criminoso. A instituição, a instituição é que, depois de lhe tirar o trabalho, hoj'em dia já não precizo, de rotear montanhas, não lhe forneceu outro qualquer em ordem ás necessidades da epocha, mas antes convidou-o : a uma espécie de ócio, no qual elle não póde ser mais, que | mau e desgraçado.

Eu fallo com o coração entre as mãos acerca de todas essas cqusas,— de todos esses padecimentos.

Quorum pars magna fui.

Como esse Eneas, desenhado pela imaginação de Virgilio, sahindo do boqueirão das chammas, que ainda lavram, posso, — graças a Deus! — fallar de Troya, sem correr seus riscos.

Oh monges,— feitos assim como estais, constituídos d'este modo,— que sois mais que estas arvores infructiferas, de que falla o evangelho, que não servem, si não para o fogo? . Si o homem Deus passasse por vós, como passou pela figueira esteril, não vos destruiria pela raiz, como o raio fulminante da maldição eterna ? Sêde jesuítas, como sois, sêde-o: mas sêde-o tambem, como os Anchiettas, os Nobregas, os Vieiras. Por que não? Olhae : — ahi estam nossos sertões, nossas florestas seculares, sombreando immenso gentio, acubertando um culto infame, defendendo barbaros costumes, balouçando de terror e de esperança. Ide, apostolos do Unigenito do Eterno, atirae-vos a essas mattas, pregae o evangelho, civilizae! Não é esta a vossa missão? A civilisação do mundo ainda carece de vós. Os Thomés ainda sam necessarios.

Ide, athletas da charidade, marchae para a conquista do pensamento christão. Que vos falta ? Vosso mestre vos inviava ás nações — munidos tamsomente da palavra.

Os Nobregas não tinham mais do que vós,— e nós,— não nos invergonhemos,— fomos civilisados por elles.

Eis-aqui porque a memoria dos filhos de Loyola me é cara, eis-aqui por que eu os canto também a elles, pelo que fizeram,— como vos canto a vós, pelo que podieis fazer.

Commetteram erros, elles: mas não é um dos axiomas da historia — que os que imprehendem grandes cousas, cqmmettam egualmente grandes erros ? .

Por essas convicções,—não escureço,—achar-me-ão sem duvida em contradicção nos meus cantares.

Meditae, porem, examinae o fundo, e lá incontrareis a unidade, o foco, o centro, o principio da luz, embora o prisma represente raios de diversas cores.

O seculo passado para mim é sempre um século magnanimo de crimes: mas nem um seculo escoou-se debalde no percorrer dos tempos : o seculo passado é também um século intelligente e progressista. Remontando-me algumas vezes ao seio d'elle, eu, com a alma fundida na educação do seculo dezenove, arripio-me de horror, e canto a charidade christan, que lá incontro menoscabada. Procuro entam revestir-me com os ademães dos homens catholicos daquella epocha, esqueço-me exteriormente de mim, detesto- lhe a moda absurda de impiedade, e maldigo aquelle circulo de ferro, em que circumscreveu-se aquelle periodo de torpeza. Os meus — Claustros— e algumas composições mais assumiram esta cor. Quando, porem, limito-me ao meio-seculo, em que tenho apparecido, e deparo com tudo o que me cerca, digo: — Respeitemos nossos pais.— Si elles olharam para a charidade christan, para a fé evangelica, como para estatuas de irrizão,— collocaram todavia em um altar a liberdade. A liberdade tambem é filha do Christo. O meu poemeto — O monge — representa principalmente este estado.

Eis-ahi, pois, a definição de meu trabalho. Julgae-o por essa maneira,— e sêde rigorosos, sim,— porem justos.

A despeito de toda esta minha confissão, eu sinto, como por instincto, que muitos, lendo este livro segundo seus proprios gostos, e não segundo o espirito que por todo elle domina, dirão que é uma collecção de orações e blasphemias.

Não! eu não direi isto. Lembrarei somente que esta é a obra de um joven educado no seio de uma corporação religiosa. É esta toda a minha apologia.

Não posso concluir este prologo sem cumprir com o dever sagrado do agradecimento para com o Rvm. Sr. conego José Joaquim da Fonseca Lima, e padre mestre Domingos José de Britto, pelas lisongeiras expressões de animação e benevolencia, que me dirigiram por vezes nas columnas do Noticiador Catholico. O illustrado publicista Sr. José Pedro Xavier Pinheiro é tambem para com migo credor de muita estima e gratidão, pelo modo distincto e acoroçoador, com que tractou-me em sua Revista no periódico Justiça. O Sr.

Dr. Ricardo Gumbleton Dunt penhorou-me egualmente com as palavras de alento, que dispensou largamente com migo, na Aurora Paulistana. Julgo preencher um compromisso bem difficil, estampando n'esta pagina a abundancia de minha gratidão, muito mais ainda quando os liames da amizade não me estreitam a nem um d'elles.

JOSÉ JOAQUIM JUNQUEIRA FREIRE

Era joven, e bem joven, o Bahiano Junqueira Freire! Nascido no dia 31 de Dezembro de 1832, entrou para o convento dos Benedictinos na edade de 19 annos, e nelle passou o tempo precioso da juventude. Conseguiu porem secularisar- se em 1854, trocando então a solidão pela sociedade, e deixando a cellula do monge para se atirar na existencia contrariada do mundo.

A parca cruel arrebatou-lhe a vida immediatamente; ceifou- a assim em flor, sem nenhuma piedade e no momento em que, ao desabrochar, já espargia tanto aroma, e promettia á terra da pátria um genio admirável! Desappareceu do claustro; não era porem o mundo destinado para elle; desappareceu logo do mundo; deixou todavia para memória um livro, pouco volumoso, mas rico de inspirações elevadas, de pequeno numero de paginas, e resplandecente de poesia, e poesia verdadeira! São tão raros os poetas! Não faltam versificadores, principalmente nas línguas do meio-dia da Europa, cujas palavras se prestam excellentemente á rima, e é a phrase já por si harmoniosa e cadente; os poetas que todavia nascem inspirados, e que a natureza enriquece com imaginação espantosa; os poetas verdadeiros, raros são, porque a Providencia tem predilectos, e não podem ser estes numerosos.

Era Junqueira Freire poeta! O pequeno livro das INSPIRAÇÕES DO CLAUSTRO o demonstra; ardia-lhe no cérebro a chamma divina; ainda quente deve estar o seu corpo, si bem que já sepultado na terra, e já d'elle fallámos como de uma cousa que foi, de uma nuvem que passou, e de um som que se sumiu no espaço.

Parece que teve um presentimento de morte precoce: sabido do claustro, publicou o bebo livro das inspirações, e logo que o entregou ao mundo, como para deixar-lhe a dor e a saudade, feixou os olhos, e desceu á sepultura! Não é novo este acontecimento na historia litteraria: Chatterton morreu antes de 18 annos de edade, Gilbert chegou apenas aos 29.

Como Chatterton e Gilbert, sentia o poeta Junqueira Freire intensa necessidade de olhar para o céo e para a eternidade; no meio de suas dores do claustro, como aquelles seus irmãos, no meio das angustias da fome, appellava o vate para Deos, e no seio immenso do Creador do mundo encontrava abrigo e consolações:

Porque se me extasia a mente ás vezes, E vaga, e vaga, aligera e perdida Pelas soidões do Armamento ethereo, Bem como o seraphim, que esguarda os mundos, Livre os celestes paramos percorre? Porque penetra, ás vezes arrojada, Nos mysterios reconditos do eterno, E toda entorna-se a seus pés,—bem como O alabastro de nardo aos pés do Christo? Porque se abraça em incorporeo amplexo Co'os angélicos seres de alem-astros, E, como as chaves das eternas portas, Abre os thesouros do poder do Altíssimo, E nelles bebe inexhauriveis gozos?

Extasia-se assim Junqueira Freire, o poeta que a Bahia e o Brazil acabam de perder, quando á mente lhe fulgurava a imagem solemne da immensidade; sonhava, delirava, adivinhava, como sonham, deliram e adivinham os grandes genios que nascem feitos e não se formam no mundo.

Poeta, que vida fora a tua ? tu o dizes quando pintas as dores do claustro. Ali se quebrou a tua juventude como o aço ao roçar da pedra; perderam-se os teus gemidos pelos longos corredores e sombrias cellas: ajoelhado ao pé do altar, e em cima de sepulturas, é que te vinha o allivio, a esperança, e a voz.do anjo, que te chamava para outro mundo, que devia ser o teu, pois que é o mundo que te merecia.

longos corredores e sombrias cellas: ajoelhado ao pé do altar, e em cima de sepulturas, é que te vinha o allivio, a esperança, e a voz.do anjo, que te chamava para outro mundo, que devia ser o teu, pois que é o mundo que te merecia.

Gosto de meditar, de noite, ás vezes, Como um infante, Espasmado no olhar, fitando o corpo Que tem diante1.

Entre tantos canticos e pela maxima parte canticos de dor, que lhe arranca a solidão, parece que não ha escolha ; contêm quasi todos bellezas que denunciam um genio poetico da primeira plana: imaginação, sentimento, ideas, paixões, inspiração sublime, tudo se allia perfeitamente com a selecção da palavra, o apropriado da phrase, a maviosidade do verso e a justeza da rima.

Junqueira Freire, si pela imaginação pertencia á eschola de Sousa Caldas, Francisco Manuel, Almeida Garrett e Diniz, pela fórma, vestes exteriores, e metriíicação, recebeu de certo lições de Gonzaga, Camões, Garção, Bocage e José Basilio da Gama.

Como é lindo e melancólico o cântico intitulado — Um pedido² ! Com este cantico rivalisam em doçura e tristeza o da profissão de frei João das Mercês Ramos, a canção intitulada— Ella,—os versos aos jesuítas, cheios d'uma côr local brazileira, que muilo agradam, e as elègias — Flor murcha do altar, Freira, e Devota; derrama-se a poesia por todas as strophes, versos, phrases, e palavras; sente-se com a sua leitura, e sente-se profundamente, a perda d'um genio que começava os seus vôos, que já se podem chamar — vôos de águia! Ah! si a dura morte se não apressasse a riscal-o do numero dos viventes; si este joven de 22 annos tivesse tempo de amadurar o seu ingenho, moderar e regularisar a sua inspiração, colher no estudo mais profundeza de pensamentos, que grande poeta que fôra, e quanta gloria derramaria sobre o seu paiz natal! O cântico á profissão de frei João das Mercês denota o sentimento, magoa e dôr, que já haviam começado a apoderar- se do seu espirito, e desbotar-lhe as côres mais suaves; o isolamento do claustro não poderá vencer as paixões do joven, e quebrar-lhes os brios naturaes; affigurava-se-lhe o claustro um inferno medonho, aonde lhe haviam enterrado a existência para lh'a amargurar e emmurchecer; no meio das suas angustias exhalava suspiros desesperados como os Claustros, Apóstata, Converso, e Misantropo; ás vezes felizmente o salvava o sopro divino, arrebatando-lhe o espirito e vôos para as ideas melancholicas, religiosas e moraes, que brilham e resplandecem primorosamente na Meditação, Incenso do altar, Irmãs de caridade, e Pobre soberbo.

Quereis ouvir como se perdia aquelle espirito poetico, quando balançando entre a desesperação do isolamento e as crenças religiosas, entre as saudades da vida humana e a prisão da cellula, fazia soar a lyra com arrebatamentos dolorosos? Lêde o Cântico á profissão de frei João das Mercês¹.

Versos expressivos tem tambem o cantico da Meditação; ha um doer constante, e penar contemplativo, que se observa nesta existencia juvenil e ardente, que fere e rasga o peito, e chama as lagrimas aos olhos.

Oh! morra o coração — germen fecundo De mil tormentos; Desfalleçam-lhe as fibras — espedacem-se Os filamentos.

Isenta de paixões — de amor, ou odio, Surja a razão; Não obedeça escrava aos sentimentos Do coração.

Torne-se o coração lampada extincta, Cinza no lar; E deixe que a razão veleje livre Em largo mar.

Creia n'um Deus — e dos dulçores goze De almo ascetismo; Não mais lhe rôa as visceras o cancro Do scepticismo.

A divida infernal, batendo as azas, Perdendo as cores, Precepite-se súbito nas chammas Exteriores.

E Deus, que vivifica o alvar pinheiro, E a tenra planta ; Que os soberbos calcina, e que os humildes Do pó levanta; De minha vil baixeza, como os homens, Ah ! — não se peja; Que elle mão cheia de mil dons em todos Largo despeja.

Mas si té'qui parece deslembrado, Triste de mim! Si não manda a guardar minh'alma dubia Um cherubim! Si nunca se lembrar que um ente existe N'essa amargura! Melhor não fôra me gelasse o sangue A morte dura ?

Bastam estes extractos para conhecer-se o genio poetico que se escondia sob as vestes do monge; servem elles para deplorar-se o passamento prematuro de uma existencia tão cheia de futuro, de um engenho tão ricamente mimoseado pela Providencia divina. Como era joven não podia escapar á sorte humana e aos defeitos da mocidade; ha nos seus canticos alguma exaggeração de sentimentos, alguma extravagancia de ideias: é defeito da edade. É tambem influxo da eschola de Lord Byron, cuja leitura se tem espalhado por todo o mundo, e produz nos cerebros juvenis tendencias desordenadas, que só a edade, e a razão amadurecida sabem evitar.

O talento e o genio poetico nascem espontaneamente, recebem porem da educação, do tempo, do estudo, e do mundo, o aperfeiçoamento necessario que lhe troca as vestes brilhantes e seductoras do fogo ardente pelos vôos acertados e sublimes do enthusiasmo reflectido.

Tem canções que revelam qualidades de Juvenal: a cantata a Frei Bastos, que parece que ajuntava os dotes da poesia e oratoria a vicios immundos que lhe estragavam o corpo e desseccavam-lhe o espirito, é interessantissima, alem de pittoresca: denuncia a força do poeta, e a elevação do espirito que o animava1.

Não foi infelizmente Junqueira Freire o unico poeta dos nossos dias e da nossa terra que a morte ceifou na juventude, roubando á litteratura brazileira escriptos, que promettia gloriosos o genio das florestas americanas. Dutra e Mello, Alvares de Azevedo, Francisco Bernardino, Pinheiro Guimarães, e Casimiro d'Abreu já tambem desceram ao sepulchro, legando poesias inacabadas, que provam todavia que sobre este solo não espargiu sómente o Creador da natureza favores divinos para o bem estar, crescimento, e riqueza do povo, que o habita. Pretendeu tambem, em sua infinita bondade, que o espirito se elevasse, e a imaginação dos homens subisse á comprehensão dos seus mysterios, podendo satisfazer as precisões moraes da sociedade, que si necessita de marchar physicamente, não consegue fortalecer-se, e medrar sem o alimento para a alma, e a instrucção para o pensamento immaterial, que dirige o homem.

Durante os tempos coloniaes enriqueceu-se a litteratura portugueza com os productos dos genios, que creou a sua conquista dos Tropicos. Era de razão, porque formavamos todos o mesmo paiz, e um só reino. Basilio da Gama, Sousa Caldas, Durão, Alexandre de Gusmão, Antonio José, Rocha Pitta, os dous Alvarengas, Gregorio de Mattos, Benevides, os bispos de Coimbra e Elvas, Moraes, Bartholomeu Gusmão, Cláudio Manuel, Mello Franco, São Carlos, Antonio de Sá, Vidal de Negreiros, Camaras, Conceição Velloso, e tantos engenhos mais, nascidos no Brazil, enriqueceram as paginas da historia portugueza nas artes, sciencias, letras, e politica; nos campos sanguinolentos da guerra, e nas agradaveis planicies da paz. Ergue-se com a sua emancipação politica uma nação nova, á qual D. Pedro I e José Bonifacio ensinam os primeiros passos, e illustra o visconde de Cayrú com a sua instrucção variada.

Brilham já a tribuna sagrada e parlamentar com uma gloria propria. Uma historia nacional se ergue á parte, e caminha o paiz para os seus destinos particulares. Animam associações litterarias o desenvolvimento espiritual.

São Leopoldo practica o ramo historico, acompanhado por J. F. Lisboa, eVarnhagem, Januario, e Pedro Branca entôam canticos agradaveis. Abre Magalhães espaços novos para a poesia. Seguem-no Gonçalves Dias, Porto-Megre, Firmino, Norberto, Macedo, e tantos jovens talentos que fulguram no horizonte da patria. Reune e publica o Instituto materiaes os mais importantes para a historia e geographia.

Já mesmo no theatro apparecem engenhos origiginaes, que traçam scenas copiadas do povo com quem vivem.

Brilham ainda hoje mais as letras, na verdade, no seio da antiga metropoli; não estão porem n'ella mais adiantadas as sciencias practicas e abstractas: e os progressos materiaes no Brazil tomaram sem duvida a dianteira; a liberdade politica ganhou mais profundas raizes; e a amor ás instituições tornou-se mais universal, e seguro.

Corra o tempo. Desappareçam todas as rivalidades, filhas de prejuizos antigos e hoje sem a menor base. A lingua é a mesma; e ajudando-se ambas as litteraturas, honrar-se-ha cada uma das duas nações com o que é seu próprio, e luctarão, sem o mesquinho espirito da inveja e despeito, no vasto e brilhante theatro da intelligencia humana, elogiando-se e estimando-se mutuamente.

Assim o practicam os Estados-Unidos da America do Norte, e não deram elles á Inglaterra, durante os tempos coloniaes, vultos notáveis, que honrassem a mãe patria, como o fez o Brazil para com Portugal. A independência das colônias britannicas forneceu-lhes pccasião então de tornar conhecidos Franklin e Washington. Á nacionalidade que criaram, devem o impulso e movimento que recebem os espiritos actualmente.

Irving, Cooper, Story, Longfellow, Webster, Prescott, Banckroft, Wheaton e Maury, são vivas demonstrações de que a terra americana produz também talentos que honram a lingua ingleza, e em todos os ramos dos conhecimentos humanos. Distingue-se porem a litteratura propriamente da America; forma já uma espécie de nacionalidade; guarda como que uma autonomia. Ha no colorido, na expressão, e no próprio desenho a especialidade do compatriota de Washington; differem as sociedades em pontos sensíveis, como pode a litteratura deixar de acompanhal-as, quando não é ella mais do que a imagem intellectual das sociedades? Possue a Grã-Bretanha os seus clans e montanhezes, as suas luctas civis, e torneios do cavalheirismo, para que um Walter Scott os pinte, e poetise um Shakspeare, historiadores nacionaes mais profundos do que Hume e Robertson.

Apresenta a America do Norte os seus indios bravios, com os pittorescos costumes, e hábitos originaes, guerreando constantemente os invasores europeus, que vinham roubarlhes a terra, a caça, os lagos e os rios, aonde viviam e viveram os seus avós: é esta a primeira differença, histórica inteiramente. Nasce a segunda do estado actual do governo, instituições, leis, usos e tendências: que separação immensa entre os dois povos! Apparece ainda uma terceira, e notavelmente grave. O americano de hoje não é mais o descendente do inglez, é tão inglez como é este normando; procede o povo inglez de hoje de uma única raça, saxonica, normanda, ou da primitiva, que encontraram os romanos, quando, no seu tempo de dominio universal, se apoderaram das ilhas d'alem da Mancha ? De certo, não. Formou-se uma nação original da agglomeração de todos os povos, que para alli se dirigiram, e que, inimigos ao principio, se foram, depois das successivas conquistas, approximando e aluando, reunindo elementos heterogeneos, e fundindo as raças. É assim hoje o povo americano. A origem foi, em geral, britannica; mas a torrente de colonisação, e as tendencias da democracia, a tem metamorphoseado já, de modo a nem reconhecer-se talvez mais a tintura primitiva.

Amálgama de Allemão, Inglez, Francez. Hespanhol, Italiano, e até de gente do Norte, tornou-se uma raça nova e distincta, cujos traços se manifestam á primeira vista, apesar da homogeneidade da lingua. Não pode portanto escapar a sua litteratura ás divergências sensíveis e graves, que separam a sua sociedade da sociedade da antiga metrópole.

Si bem que entre o povo do Brazil e o de Portugal não appareça uma tão grande differença, porque nem as instituições, e governo das duas nações se distinguem em tão larga escala, e nem tem o Brazil modificado a raça conquistadora com a infusão de sangue de outras raças diversas, como succedeu no Norte da America; ha todavia no céo, na terra, nos mares, nos rios, na atmosphera, na distancia, nas producções da natureza, emfim, uma separação tão palpavel, que já, durante os tempos coloniaes, distinguiramse alguns poetas nascidos no Brazil, pelas vestes, colorido, e tendencias de seus escriptos, dos vates da Lusitania, si bem que a maior parte, educando-se, e vivendo na Europa, adoptaram inteiramente os habitos portuguezes, e seguiram as inspirações de Ferreira, Quita, e Sá de Miranda.

Souberam todavia tomar differente direcção, Cláudio Manuel, Basilio da Gama, e Durão, que se podem appellidar os chefes da litteratura brazileira, que hoje, com a emancipação politica, e a vida propria da sociedade, desenvolve a sua autonomia, e segue os vôos da aguia, que paira sobre as alcantiladas cordilheiras, que se perdem no espaço, e espantam e embellezam os olhos dos viajantes.

Erga-se pois a mocidade brasileira! Tenha fé nos seus destinos, e inspire-se com a patria admiravel, que lhe coube na partilha que fez da terra a Providencia divina! Desenvolva- se a sua litteratura no meio do seu clima esplendido e soberbo, e encontre ella no seu povo o apoio e protecção, a que tem indisputavel direito!

PORQUE CANTO?

Porque se me extasia a mente ás vezes, E vága e vága, aligera e perdida, Pelas soidões do Armamento ethereo, Bem como o seraphim que esguarda os mundos, Livre os celestes páramos percorre? Porque penetra, ás vezes arrojada, Nos mysterios reconditos do Eterno, E toda intorna-se a seus pés,— bem como O alabastro de nardo aos pés do Christo ? Porque se abraça em incorporeo amplexo Co'os angelicos sêres de alem-astros, E, como a chave das eternas portas, Abre os thesouros do poder dot Altissimo, E n'elles bebe inexhauriveis gosos?

Porque Deus — substancia eterna — D'onde minh’alma baixou, Quer ás vezes que ella suba Ás delicias, que deixou, 1

Porque se me extasia a mente ás vezes, E por entre deliquios exaltados.

Desce ás fataes, exteriores trevas, Aos in sondaveis boqueirões do inferno, Bem como o anjo da soberba outr'ora Pela invisivel dextra fulminado? Porque prova um prazer terrivel, forte, Em ver a imagem d'esse horror tremendo, Em ver a face d'esse cahos torvado, Em ver o orgulho do peccado iníindo ? Porque no fundo da geenna ardente Sentir procura as emoções mais barbaras, Gostar deseja sensações de fogo, Como procura a fatua mariposa Chammas de luz, que ha de, talvez, queimal-a ?

Porque Deus tambem ás vezes Para os abysmos nos lança, Para vermos seus castigos, Seus thesouros de vingança !

Porque se me extasia a mente ás vezes, E sente em si um vacuo desmedido, Uma infinita inanição ignota, Como talvez o espaço, o qual se estende, Se derrama e se perde a nossos olhos? Porque procura — sequiosa, arfando — Encher esse vazio indefinivel,

Qual para labios torridos, queimados, Enche-se um calix de crystal suave ? Porque procura, um coração extranho, Qualquer embora,— mas que o seu não seja, Para n'elle fundir-se inteiro, inteiro, Como varios metaes de varias sortes Ao mesmo fogo identicos se ligam ?

Porque Deus — saber eterno — Taes a nós nos quiz formar: Quiz a hera unida ao tronco, Quiz a terra unida ao mar.

Porque se me extasia a mente ás vezes, E vága pelo mundo, e julga os homens, Qual severo juiz, e os escarnece, E compondo um sarcasmo ás phrases suas Co'o riso de Democrito os insulta ? Porque descrê das affeições, que mostram, Francos, singelos, como o rir do infante? Porque despresa um coração de amigo, Que o foi por tempos, na apparencia ao menos, E falsario, traidor, demonio o chama, Por um assomo de suspeita ou cholera ? Porque da creação blasphema ás vezes, E tem por maus os sentimentos de homem, E a natureza dos mortaes exprobra Ante o Senhor, que nol'a deu tam justa ?

Porque Deus tambem ás vezes O braço de nós retira, Para vêrmos os perigos, Em que noss'alma se atira !

Porque se me extasia a mente ás vezes, E n'um inlevo mentiroso sonha, E dá no seio de um prazer sem termos, Esbarrando no amor, como na imagem Da ventura maior que o mundo offerta ? Porque se abraça n'este amor terrestre, E as emoções mais physicas apura, E as quer, e as busca, e tresloucado as ama Co'a mesma devoção, que aos céos dedica ? Porque em tal modo o espirito embrutece, E vai sua alma estupida tornando, Que ás plantas da mulher, que d'elle zomba, Chega a prostrar-se, e jura-lhe perverso Paixão eterna, além da campa; — e o corpo Dar ao martyrio por amor promette?

Porque Deus deixa a materia Ter tambem sua victoria, Para que,— quando a alma vença,— Brilhe maior sua gloria!

Porque se me extasia a mente ás vezes, — E quanto fui beber no ceu, no inferno.

No mundo, em tudo, que medito ou vejo, Por meus labios de vate se derrama Em torrentes de harmonica linguagem?

Porque Deus poz em meu peito Um thesouro de harmonia : Deu-me a sina de seus anjos, Deu-me o dom da poesia.

Cantarei o ceu, o inferno, O mundo,— o que me approuver Cantarei a Deus, o homem, Os amores da mulher : Cantarei, em quanto vivo, Porque Deus assim o quer !

O REMORSO DA INNOCENTE

Á minha irman Maria Augusta

Alma de seraphim, prenda do Eterno, Ai! quem te despenhou do céo á terra?

I

Não sabe o nome dos crimes, Ás paixões não dobra o dorso; Mas n'aquelle peito ingenuo Mora inquieto um remorso! Como reliquias sagradas.

Conserva os primores seus; Mas doe-lhe não ser ainda Toda, toda — só de Deus.

II

Eil-o, o remorso da virgem, O remorso da innocencia, Que, como a idea do Eterno, Ameiga na consciencia.

Rezou, rezou fervorosa, Beijando seu relicario; Arfou,— qual luz matutina Tremendo no alampadario.

E um sorriso descorado Descerrou-lhe labio e labio, Como o palor que desenha A fronte vasta do sabio.

Beijou a lage da campa, — Da campa, que ha de ser d'ella, E vai scismar merencoria Na gelosia da cella.

— Por simpleza arreceando Que algum phantasma não venha, A correr, aos ares dava Suas vestes de estamenha.

Que as trevas do claustro e as tumbas Bafejam tremor sagrado; E as virgens sempre imaginam Erguer-se um morto a seu lado.

III

Scisma a virgem mansamente Em pensa mentos do céo, Mais candida que as rolinhas, Mais candida qu e seu véo.

E scismava : — Ai! que eu não seja Já para Deus menos bella, Como a bonina que murcha Que eu arranco da capella ! —

E scismava : — Ai! que eu não tenha Um crime, sem eu saber! Qual será ? — Hontem de noute Eu não pude adormecer! —

E scismava : — Ai! que eu não seja Menos linda ao meu Senhor! Já hoje eu corri do claustro : Dos mortos tive temor...—

E scismava: — Ai! que eu não seja Ré de um crime que eu não sei, Bem como o insecto escondido Na rosa qu'hontem cortei! —

Eil-a, a scisma da donzella, Da filha da solidão; Eil-o, o remorso que esconde Nas dobras do coração.

IV

O remorso do malvado É desespero e loucura, E a reminiscencia d'elle O coração lhe tortura.

Mas o remorso da virgem Lhe cala na consciência, Como a placidez do justo, Como a visão da innocencia.

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