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Lavoisier e o Começo da Química Moderna





As últimas décadas do século 18 foram palco de desenvolvimentos extraordinários e descobertas que propiciaram o surgimento da química moderna. A teoria do flogisto, intensamente usada pelos químicos para explicar uma variedade grande de fenômenos, enfraqueceu-se consideravelmente por não apresentar um carácter universal. Cada estudioso apresentava sua propria versão na explicação dos fenômenos observados fato que levava muitas vezes à explicações contraditorias ou estranhas. A quantidade de fatos novos descobertos, novas reações e propriedades reconhecidas nas substâncias usadas, e o uso de métodos mais racionais, tanto qualitativos quanto quantitavamente, permitiram que o século 19 despontasse sob o efeito de uma revolução renovadora de idéias e conceitos.

Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794), com a descoberta experimental de que os fenômenos de combustão, amplamente estudados até então, estavam ligados à presença de um componente do ar levou os químicos ao abandono da teoria do flogisto e total revisão de conceitos seculares arraigados. Lavoisier, era um aristocrata rico, que tinha vida pública muito intensa, de esmerada educação científica, e extremamente bem informado das descobertas e trabalhos europeus.

Utilizava em seus estudos um enfoque conceitual e experimental típico dos físicos, dando ênfase aos aspectos quantitativos das experiências. O uso da balança foi fundamental para o sucesso das suas descobertas e a eclosão das novas idéias químicas. Recomendava o uso da balança para determinar a massa dos reagentes e dos produtos obtidos, evitando-se perdas. No seu Traité Élémentaire de Chimie (1789) recomenda o uso de cinco tipos diferentes de balanças e dá uma descrição completa dos equipamentos de um laboratório químico e seu uso. Suas experiências eram planejadas para estudar os aspectos fundamentais dos fenômenos e fornecer respostas concretas às perguntas formuladas. Em 1772 começou seus estudos de combustão e calcinação utilizando uma lente grande para concentrar raios solares nos materiais de interêsse.

Do mesmo modo que outros químicos da época mostrou que o diamante podia ser fundido, desta forma, no ar. Passou a estudar os produtos de combustão do fósforo e do enxofre mostrando que ambos se combinavam com o ar produzindo compostos ácidos. Passou a estudar metais, como o chumbo e o estanho e iniciou um projeto de repetir e variar todas as experiências de Black e de Priestley. Mostrou que o aumento de pêso na combustão não era provocado pela absorção de fogo. Esta idéia, defendida por químicos famosos como Boyle e outros, foi mostrada ser errônea. Lavoisier mostrou quantitativamente que o aumento de pêso se dava devido à formação de um "cal" (óxido) com o ar. Mostrou, também, que o "cal" aquecido com carvão vegetal liberava o metal. Este era acompanhado de um gas idêntico ao "gas sylvestre " de van Helmont ou ao "gas fixado", (CO2), estudado por John Black.

Em 1775 passou a estudar o "precipitado vermelho" (óxido de mercúrio), já estudado por Priestley, mostrando por aquecimento, com sua lente, que ele se decompunha em mercúrio e um novo gas, contido no ar. Mostrou que o ar continha dois componentes, um inerte, que denominou "azote" ( ou nitrogenio, mais tarde) e o outro, " ar respirável" (mais tarde chamado de oxigênio). Muitas experiências levaram-no à conclusão que o "ar respirável" era responsável pela produçao de calor na respiração dos seres vivos.

Também era responsável pela formação do "gas fixado" de John Black na combustão do carvão vegetal no ar. Lavoisier publicou suas observações nos anais (Mémoires) da Académie de Sciences de 1778, chamando mais tarde o "ar respirável" de "principe oxygine". Numa comunicação de 1783 à Académie, mas sòmente publicada em 1786, indica quais as dificuldades que a teoria do flogisto enfrentava para explicar os fenômenos de combustão e mostra que é necessário considerar o oxigênio do ar e a evolução de calor e a emissão de luz. Ainda em 1783 repete as experiências de Priestley e Cavendish da combustão do "ar inflamável"( hidrogênio) no ar com a formação de água. Chega, então, à conclusão que a água é formada de hidrogênio e de oxigênio. Os estudos da combustão incluem sistemáticamente medidas da quantidade de calor gerado nas reações. No seu livro descreve detalhadamente suas experiências quantitativas sôbre combustão do fósforo, do carbono, do hidrogênio.

Estuda também a combustão de substâncias compostas, como a de uma vela, a do óleo de oliva, dando inclusive dados sôbre a composição ( carbono e hidrogênio) e quantidade de calor desprendido ( 1784). No Traité Lavoisier descreve a formação e a análise dos gases atmosféricos , a combustão de corpos simples, a formação de ácidos em geral e sua nomenclatura, a formação de óxidos metálicos e a decomposição da água pelo carbono e pelo ferro, e estuda o calor desprendido em difertentes espécies de combustão. Também aborda a combinação de substâncias combustíveis uma com as outras, faz considerações sôbre óxidos e ácidos relacionados à bases diversas e estuda a composição de substâncias vegetais e animais e sua decomposição pela ação do fogo. Ocupa-se com os fenômenos de fermentação (fermentation putride; fermentation acéteuse) e lamenta que ainda não tem dados quantitativos precisos. No final da 1a. parte de seu livro estuda a formação de sais neutros a partir de substâncias básicas (potassa, soda, amoníaco, giz, magnésia, barita, alumina) e dezessete metais.

Na 2a. parte dá um número grande de tabelas sôbre as reações químicas que estudou, tanto inorgânicas quanto orgânicas. A 3a. parte fornece uma descrição minunciosa dos equipamentos e da metodologia que usou nas suas experiências. O livro de Lavoisier teve grande aceitação sendo traduzido para todas as linguas européias e convertendo os químicos às novas idéias. Os métodos preconizados por Lavoisier são os métodos que levaram ao surgimento da Química moderna. A nomenclatura que introduziu foi ampliada e melhorada e constitui a linguagem moderna para representar as substâncias e compostos. Aos 51 anos, durante a revolução francesa, foi decapitado por ter como uma de suas atividades de renda um cargo junto a uma organização de cobrança de impostos.

Lavoisier: princípios básicos da Química moderna No Traité Élémentaire de Chimie Lavoisier introduz nova conceituação sôbre como encarar os fenômenos químicos. Estabeleceu as bases fundamentais que permitiram remover as idéias alquímicas do cenário do estudo dos fenômenos de transformação da matéria.

A partir de suas concepções a química rápidamente tornou-se uma ciência quantitativa, com expressão rigorosamente científica e com linguagem e metodologia próprias. Alguns princípios básicos enunciados por Lavoisier:

1)Definição de elementos químicos (substancias que não são decompostas em outras; incluem alguns óxidos , o calor e a luz) e sua descrição (forma física, densidade,cor). Os elementos químicos são as substâncias mais simples que se obtém pela decomposição de um material. Tais elementos podem combinar-se em proporções diversas e diferentes formando substâncias compostas diversas.

2)Descrição de compostos químicos formados pela combinação dos elementos (achava erroneamente que todo ácido contém oxigênio).

3)Nomenclatura dos compostos inorgânicos usando seus elementos constituintes. Toda e qualquer substância composta deve possuir um nome e sòmente um.
Este nome caracteriza sòmente uma só substância. O nome deste composto deve indicar o nome dos seus elementos constituintes.

4) Composição quantitativa dos compostos usando a massa: a balança deve ser usada para determinar as massas das substâncias antes e depois das transformações.

5)Medidas quantitativas das características térmicas dos elementos, dos compostos puros e de suas reações: a quantidade de calor envolvida na caracterização e nas transformações das substâncias deve ser medida (desenvolveu com Laplace um calorímetro de fusão de gêlo para determinar calor de combustão).

6) Estabelecimento de três leis de conservação: a das massas (a massa total das substâncias resultantes de uma transformação química é igual à massa total das substâncias iniciais), a dos elementos nas transformações químicas e a constância da composição das combinações químicas.

O surgimento da Química Analítica

Análise gravimétrica

Nas últimas décadas do século XVIII e o começo do XIX a análise química dos compostos, minerais, orgânicos e biológicos, desenvolveu-se e ampliou-se consideràvelmente. Os métodos que usavam a balança (métodos gravimétricos) sofreram pronunciado refinamento desde a época de Lavoisier. A balança, por sua vez, normalmente construida por exímios artesãos, sob encomenda, sofreu grande aperfeiçoamento e a partir de 1850 já era comercializada por várias firmas. A parte quantitativa da análise foi aperfeiçoada graças aos esforços de químicos de vários países da Europa. Na Alemanha destacou-se Martin Heinrich Klaproth (1743-1817), contemporâneo de Lavoisier, cuja preocupação principal era seguir uma metodologia analítica rigorosamente científica na determinação da proporção dos componentes nos compostos.

Para isto adotou técnicas e métodos analíticos que levaram a resultados mais rigorosos que os obtidos normalmente pelos outros químicos e suscitaram a descoberta de novos elementos. Na análise percentual de compostos minerais, por exemplo, mostrou que muitas vezes o valor que deixava de ser considerado para totalizar 100 poderia ser atribuido a novas substâncias. Assim, foi levado a descobrir algumas "terras": oxidos de zirconio, uranio, telurio e titanio. Estas sómente muitos anos mais tarde forneceram os respectivos elementos obtidos por outros químicos usando métodos de redução.

Na França, Louis Nicolas Vauquelin (1763 - 1829), muito ligado a Fourcroy, trabalhava com compostos orgânicos e com análise de compostos inorgânicos. Embora seus métodos não fossem tão rigorosos como os de Klaproth descobriu o metal cromo e uma "terra", a glicinia ou berilia, cujo metal só foi isolado muitos anos mais tarde. Na Inglaterra, William Hyde Wollaston (1766 - 1828), um médico versado em física e química, dedicou-se ao estudo das propriedades da platina, metal já conhecido desde 1750. Seus estudos levaram a descobrir, em 1803, o paládio e o rodio, encontrados como impurezas da platina. Um seu associado, Smithson Tennant (1761 - 1815), que também estudava a platina, descobriu em 1804 dois novos elementos , o iridio e o osmio, em resíduos de dissolução de platina bruta com água régia.

Na Rússia, Karl Karlovitch Klaus (1796 - 1864), um farmaceutico e quimico, muito versado no estudo de metais semelhantes à platina, descobriu em 1844 o elemento rênio. Análise volumétrica Os métodos da análise química chamada volumétrica, relativa à soluções, seus equipamentos de laboratório e técnicas associadas, começaram lentamente a evoluir a partir de 1750. Já em 1729 C.L. Geoffroy procurava determinar a "força" de vinagres indiretamente pesando a quantidade de álcali necessária para neutralizá-los. O ponto de neutralização era determinado pela cessação do ruido da reação ou pela ausência de efervescência.

Nas décadas seguintes esta prática de neutralização foi usada para estimar a força de ácidos fortes, como o nítrico. Também em muitos casos usava-se a mudança de côr de uma substância adicionada (indicador) como o tornassol, a curcuma ou outras. Estas substâncias adquirem côr diferente ao se atingir o ponto de neutralização ácido-base. Os equipamentos de vidro utilizados, cilindros graduados, pipetas, buretas graduadas volumetricamente, foram inicialmente desenvolvidos entre 1782 e 1806. As medidas eram grosseiras e os resultados não muito confiáveis e não havia sido desenvolvida uma maneira de aferir os resultados usando-se soluções padrões. Análises volumétricas mais precisas começaram a surgir a partir de 1824 com o trabalho de Gay-Lussac sôbre titulação quantitativa de ácidos e bases. Mas sómente a partir de 1850 observou-se uma popularização destes métodos de análise. Karl Friedrich Mohr (1806 - 1879), um farmacêutico muito interessado em química analítica, foi responsável por um número grande de aperfeiçoamentos dos equipamentos e métodos usados na análise gravimétrica e na volumétrica. Desenvolveu também o uso de substâncias padrões na alcalimetria (ácido oxálico) e o chamado sal de Mohr (sulfato ferroso amoniacal) na oxidimetria. Em 1855 publicou um livro intitulado Lehrbuch der chemisch-analytischen Tritiermethode ou Tratado do Método Titrimétrico de análise química. Nele descreve os métodos de análise volumétrica de soluções e propõe vários melhoramentos nos procedimentos de análise. Outros métodos de análise surgiram entre os quais um chamado de iodometria, introduzido por Bunsen a partir de 1853, para a determinação quantitativa de agentes oxidantes.

Faraday e a Eletroquímica

Michael Faraday, que fazia pesquisas em física e química, em 1833, passou a estudar a condução de eletricidade por soluções de sais em água e de sólidos, como o gêlo, e por sais minerais fundidos. Chegou à conclusão que havia uma relação quantitativa entre a quantidade de uma substância decomposta e a quantidade de eletricidade que passava através da solução quando fazia sua eletrólise numa célula eletrolítica. Para medir a quantidade de eletricidade desenvolveu uma célula eletrolítica especial que permitia recolher os gases que se desprendiam com a decomposição da água. Mostrou que a quantidade de eletricidade que liberava um grama de hidrogenio liberava também quantidades específicas de outras substâncias. Assim, para 1 grama de hidrogenio liberado, 8 gramas de oxigenio, 36 de cloro, 125 de iodo, 104 de chumbo e 58 de estanho, eram liberados na eletrólise de seus respectivos compostos.

Denominou tais quantidades de "equivalentes eletro-químicos". Berzelius, muito ativo no estudo de pesos atômicos, não entendeu o significado da descoberta de Faraday e a ignorou. Esta descoberta de Faraday, entretanto, 50 anos mais tarde, revelou-se de importância fundamental na determinação de pesos atômicos. Faraday, com a colaboração de William Whewell (1794-1866), estabeleceu a terminologia usada na eletroquimica- ânions, cátions, eletrodo, catodo, eletrólito, etc., - de uso corrente. Com a atenção voltada para outros problemas de eletricidade Faraday fez importantes descobertas como a indução magnética e ação do magnetismo sôbre a luz .

Teoria dos Radicais

A idéia de existência de radicais provém de Lavoisier no seu estudo dos ácidos. No seu Traité são listados 48 ácidos, entre inorgânicos e orgânicos, com indicação do nome dos radicais que entram na sua composição. Lavoisier supunha que todos os ácidos continham oxigênio ligado a um radical, sendo compostos binários.

Por exemplo, cita o ácide muriatique oxigené que possuiria o radical muriatique ligado ao oxigênio, o que não está correto. No seu livro explica o conceito de radical associado a um ácido. Assim, indica que o ácido que contém enxofre forma sulfatos com as bases salificáveis (em número de 24, dos quais 3 alcalis, 4 terres e 17 substances metalliques) e nome dos respectivos radicais para os outros 47 restantes de sua classificação. Entre estes estão incluidas os ácidos orgânicos conhecidos na sua época, entre os quais : acético, oxálico, citrico, málico, gálico, benzoico, sucínico, canfórico, fórmico, responsáveis pela formação dos acetatos, oxalatos, etc., respectivamente.

Nos ácidos minerais o radical indicado é composto de um único elemento mas nos orgânicos era diferente. As análises mostravam que o carbono e o hidrogenio podiam entrar em proporções diferentes com o oxigenio para formar ácidos diferentes. A partir de 1815 Berzelius mostrou que a teoria dualística embora aplicável aos compostos inorgânicos não tinha o mesmo sucesso com os orgânicos. Mas publica uma tabela com as formulas de alguns compostos orgânicos que incluem ácidos mas cujas proporções sòmente em alguns poucos casos estão corretas.

O conceito de radical orgânico só ganhou proeminência a partir do trabalho de Dumas e F.G. Boullay (1777 - 1869), publicado em 1828.

Nele fazem um paralelo entre compostos de etileno (C2h2) com os de radical amônia (Nh2), mostrando a semelhança de comportamento entre seus radicais componentes. A parte etilênica dos compostos seria alcalina comportando-se de forma idêntica à parte amoniacal dos compostos considerados. Isto aconteceria , por exemplo, no ester acético, (C2h2,C2h2O2 ) e no acetato de amônia, (Nh2,C2h2O2 ). Em 1832, Justus von Liebig (1803 - 1873), notável químico orgânico que desenvolveu o método de análise elementar, e Whöler, estabeleceram a existência do radical benzoila, preparando compostos variados do mesmo, tais como o cloreto, o cianeto e outros.

Pela primeira vez obtivera-se um radical contendo oxigênio (C14H10O2 ou modernamente, C7H5O). Segue-se um período de confusão no reconhecimento de vários radicais que foram descobertos (metila, cetila, benzoila, cinamila, cacodila, etc.) e de diferenças na representação dos compostos orgânicos por meio de fórmulas químicas. Alguns compostos destes radicais eram perigosos: Robert Wilhelm Bunsen (1811 - 1899) , por exemplo, em 1839, trabalhando com cianeto de cacodila, sofreu sério acidente com uma explosão, perdendo um olho. Um dos fatores responsáveis pelas discrepâncias de representação era o uso de pesos atômicos diferentes por diferentes pesquisadores.

Embora ao Hidrogênio fôsse atribuido o peso 1 por todos, alguns favoreciam o Carbono com pêso 12 (Berzelius), ou 6 (Liebig e Dumas). Ao Oxigênio era atribuido o pêso 16, por todos, com exceção de Liebig que usava 8. Os valores usados por Berzelius estão próximos dos valores atuais mas suas fórmulas frequentemente diferiam das dos outros pesquisadores. Não havia consenso na representação dos compostos orgânicos embora os elementos constituintes e as proporções fossem as mesmas. A partir de meados de 1830, Dumas e Auguste Laurent (1807 - 1853), passaram a estudar a substituição do hidrogênio por cloro, bromo e iodo, em uma variedade de compostos orgânicos.

Laurent estudava a substituição no benzeno, naftaleno e fenol tendo formulado uma teoria sôbre o assunto. Denominou-a de teoria dos radicais fundamentais e dos radicais derivados que resultariam da substituição, numa parte nuclear daqueles, do hidrogênio. Tal teoria, entretanto, não era muito aceita pelos químicos importantes da época, Liebig, Berzelius e Dumas. Em 1840 Dumas propôs uma teoria, a dos tipos, que contrariava a teoria dualística, de Berzelius, e que usava as idéias de Laurent sem lhe dar crédito. Com ela tentava justificar a substituição do hidrogênio pelo cloro em substâncias como o metano, formando o cloroformio, no ácido acético, formando ácido tricloroacético, e no acetaldeido, formando o cloral. De um modo geral as reações das substâncias obtidas eram muito semelhantes às das originais, ou seja, do mesmo tipo.

As teorias de Laurent e de Dumas, apesar da evidência experimental que as suportava, não eram bem aceitas. Berzelius, por exemplo, não admitia que um elemento eletronegativo pudesse fazer parte de um radical, substituindo o hidrogênio. Era apoiado por Liebig e sugeria que em vez de substituição haveria uma transformação do radical do composto inicial em outro de composição diferente. Liebig, por sua parte, foi levado a mudar de posição, a partir de 1837, pelo seus estudos de ácidos orgânicos que se comportavam de forma semelhante aos ácidos polibásicos inorgânicos, como os fosfóricos, estudados por Thomas Graham ( 1805 - 1869). Graham mostrou que havia três tipos de ácidos fosfóricos que diferiam na quantidade de água combinada com o óxido de fósforo (P2O5). Na formação de sais destes ácidos a água era substituida por uma base resultando numa relação de 1:1, 1:2 e 1:3 entre a quantidade de ácido e base.

O mesmo acontecia com ácidos do arsênico e seus derivados. Liebig que estudava os ácidos cítrico, tartárico, málico e outros, e os seus sais, de início julgou que se comportassem como os ácidos estudados por Graham. Chegou à conclusão que considerar que a água tinha o mesmo papel que nos compostos inorgânicos era inadequado. Revivendo as idéias de Davy relativas ao ácido clorídrico chegou à conclusão que ácidos são compostos de hidrogênio nos quais estes podem ser substituidos por metais. Aplica, então, este conceito aos ácidos fosforicos e mostra que os ácidos que estudava formavam sais análogos àqueles.

Química Analítica

Métodos Instrumentais

Os métodos instrumentais básicos da Química Analítica, no século XIX , desenvolveram-se consideràvelmente na segunda metade, à partir de 1875, embora as técnicas físicas já fôssem conhecidas anteriormente. A produção de vidros opticos de melhor qualidade permitiu, neste século, a aplicação mais frequente de refratômetros, espectroscoópios, polarímetros e microscópios, à problemas de interêsse químico. O espectroscópio, particularmente, sofreu muitos aperfeiçoamentos que permitiram fazer análise de elementos difíceis de serem estudados usando o método de queima de Bunsen. A química astronômica progrediu muito com o trabalho de um colega de Bunsen, Gustav Robert Kirchhoff (1824 - 1887), que em 1859 enunciou suas leis da espectroscopia. Mostrou que um corpo incandescente emite um espectro contínuo de luz. E que um corpo excitado produz um espectro com linhas brilhantes. E que gases aquecidos, quando submetidos à luz branca, absorvem as mesmas cores emitidas por seus vapores quando excitados.

Usando estas leis Kirchoff e Bunsen descobriram vários elementos a partir de 1860. Os astrônomos com uso do espectroscópio passaram a determinar a composição química das estrêlas.

Os químicos passaram a utilizá-lo com frequência nos seus estudos e nas suas análises. A utilização da luz em análise orgânica iniciou-se com a polarimetria. Esta técnica utiliza o fenômeno de polarização da luz , descoberta por Huygens, no século XVII. Jean Baptiste Biot (1774 - 1862), cristalógrafo francês, em 1813, descobriu que a luz, ao atravessar uma placa de quartzo ou alguns líquidos, tem seu plano de polarização girado. Verificou este fenômeno com a essencia de terebentina, alguns óleos naturais, como o de limão ou uma solução alcoólica de cânfora.

A partir de 1828 foram feitos vários melhoramentos nos polarímetros. Passou-se a usar um prisma especial, invenção de William Nicol (1768 - 1851), para separar a luz polarizada incidente em dois feixes, e utilizou-se luz monocromática alguns anos mais tarde. O polarímetro tornou-se mais popular depois que se descobriu como usar luz branca introduzindo-se no caminho optico uma cunha de quartzo compensadora. Como o açucares são opticamente ativos, o polarímetro passou a ser adotado na análise de alimentos, particularmente na determinação da sacarose, na indústria açucareira, a partir de 1860. O uso de luz polarizada se estendeu ao estudo do isomerismo óptico de compostos e complexos orgânicos, a partir de 1891. Os avanços da Óptica levaram à melhoria dos microscópios, que, a partir de 1820, passaram a ser usados regularmente. Um dos responsáveis por estes avanços foi Ernst Abbe (1840 - 1905), um físico, que em 1872 desenvolveu um condensador de luz que fica na parte inferior da platina do microscópio. Também foi responsável, em 1886, pelo aperfeiçoamento do refratômetro, comumente usado em química orgânica.

A análise eletroquímica, baseada na eletrólise de soluções, a partir de 1865, passou a ser usada como método de análise química quantitativa. O. Wolcott Gibbs (1822 - 1908), a partir de 1864, descreveu métodos de determinação eletrolítica de metais. Determinou cobre, níquel, bismuto, prata, e por via indireta, a partir dos dióxidos, o manganês e o chumbo. Este processo de análise se tornou popular tendo estudos mostrado a importância das diferenças de potencial usados na eletrodeposição. Também surgiram melhoramentos nos métodos usados: foram desenvolvidos eletrodos rotatórios e de telas metálicas, com excelentes resultados. Muitos destes avanços foram obtidos por Alexander Classen (1843 - 1934), na Alemanha, que publicou um livro sôbre este tipo de análise, Handbuch des chemischen Analyse durch Electrolyse. Ao final do século XIX uma variedade considerável de instrumentos e métodos tinham sido desenvolvidos e eram regularmente usados em química analítica.

Muitos deles passaram a ser usados nas indústrias, principalmente nas de alimentos e de remédios. A evolução do uso foi também consequência da disponibilidade de excelentes instrumentos produzidos por indústrias especiais que surgiram eainda hoje se mantém ativas.

Cronologia do desenvolvimento da Química no século 19

1800 Alessandro Volta Produção de corrente elétrica por meios químicos
1800 William Herschel Descoberta da radiação infra vermelho
1801 John Dalton Lei das pressões parciais na mistura de gases
1801 Humphrey Davy Desenvolvimento do arco elétrico
1801 Humphrey Davis Uso de células voltaicas na decomposição de compostos
1801 A.F. Fourcroy Métodos gerais de análise orgânica (qualitativa)
1801 J.W. Ritter e W.H. Wollaston
Descoberta da ação da luz ultravioleta sôbre cristais de cloreto de prata
1803 John Dalton Tábua dos pesos atômicos relativos
1803 Jon Berzelius Decomposição eletrolítica de sais.
1804 John Dalton Teorias atômica nas reações químicas
1807 Humphrey Davis Obtenção de sódio e potássio por eletrólise
1808 Gay-Lussac
Lei dos volumes de combinação dos gases
1808 Humphrey Davis Obtenção de magnésio, cálcio, estrôncio e bário por eletrólise
1811 Amadeo Avogadro Hipótese de Avogadro sôbre número de partículas em volumes iguais de gases nas mesmas condições
1812 Jon Berzelius Teoria dualística
1813 Humphrey Davys Contrata Michael Faraday como assistente
1815 William Prout Hipótese de que os elementos sào compostos de hidrogênio
1815 Jon Berzelius Calcula fórmulas de compostos orgânicos a partir de dados analíticos experimentais
1819 Eilhardt Mitscherlich Lei do isomorfismo na cristalização de compostos
1823 Michael Faraday Liquefação do cloro e outros gases
1823 Michel Eugéne Chevreul Corpos graxos de origem animal
1824 Michel Eugéne Chevreul Análise orgânica e suas aplicações
1826 Jean Baptiste Dumas Método de medida da densidade de vapor para determinar peso atômico
1828 Friederich Whöler Síntese da Urea e fim do Vitalismo
1829 J.W. Döbereiner Introduz tríades de elementos e prediz pesos atômicos
1832 Justus von Liebig e F. Whöler Descoberta do radical benzoila
1833 Michael Faraday Estabelece a terminologia da eletroquímica
1833 Thomas Graham Classificação dos ácidos fosfóricos
1834 David Brewster Análise química por absorção de radiação
1844 Adolf Wilhelm Hermann Kolbe Síntese de compostos orgânicos partindo de inorgânicos
1855 Edward Frankland Introduz o conceito de valência na combinação de fragmentos orgânicos com metais
1853 Robert Bunsen
Inicia odesenvolvimento da análise química inorgânica instrumental com a invenção do espectroscopio
1858 Friedrich August Kelulé
Introduz o conceito de carbono tetravalente e a habilidade de átomos de carbono ligarem-se uns aos outros
1858 Stanislao Cannizaro Aplica a hipótese de Avogadro na determinação dos pesos atômicos e moleculares
1859 Gustav Robert Kirchhoff Estabelece as leis da espectroscopia
1860 Robert Bunsen e G.R. Kirchhoff Descoberta do césio por via espectroscopica
1861
Robert Bunsen e G.R. Kirchhoff
Descoberta do rubídio por via espectroscópica
1861 William Crookes Descoberta do tálio por via espectroscópica
1862 A.E. Béguyer de Chancourttois Introduz a hélice telúrica para classificar os elementos segundo os pesos atômicos
1863 Ferdinand Reich e H.T. Richter Descoberta do índio por via espectroscópica
1864 Lothar Meyer Publica uma tabela incompleta precursora da tabela periodica dos elementos
1865 Alexander Reina Newlands Tabela dos elementos segundo oitavas e descoberta da periodicidade
1869 Dmitrii Ivanovich Mendeleev Classificação periódica dos elementos
1870 Lothar Meyer Propriedades periódicas duplas dos elementos

Fonte: www.cq.ufam.edu.br

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