As ações devem visar: investigação e controle de focos com o objetivo de diminuir o número de casos; diagnóstico e tratamento precoce dos doentes para evitar as deformidades.
Notificação: a LTA é doença de notificação, portanto, todo caso deve ser notificado pelos serviços de saúde públicos, privados ou filantrópicos através de ficha de notificação padronizada.
Investigação Epidemiológica: após a notificação de casos de LTA, a investigação epidemiológica faz-se necessária para identificar:
Os dados referentes à investigação de cada caso devem ser registrados e encaminhados aos níveis regionais e/ou central estadual através de ficha de investigação padronizada. As SES devem enviar mensalmente ao nível nacional consolidado estadual dos casos diagnosticados.
É considerado caso de LTA todo indivíduo com diagnóstico clínico, epidemiológico e laboratorial. Na falta do diagnóstico laboratorial, os diagnósticos clínico e epidemiológico são suficientes.
Indivíduo que apresenta lesão(ões) cutânea e/ou mucosa conforme descrito no item "Aspectos clínicos".
Confirmado: a confirmação do caso clinicamente suspeito deverá preencher no mínimo um dos seguintes critérios:
residência, procedência ou deslocamento em área endêmica + encontro do parasita nos exames parasitológicos diretos.
residência, procedência ou deslocamento em área endêmica + IRM positiva.
residência, procedência ou deslocamento em área endêmica (sem acesso a métodos de diagnóstico).
Obs.: Nas formas mucosas e mucocutâneas considerar presença de cicatrizes cutâneas anteriores como critério complementar para confirmação do diagnóstico.
Os casos autóctones são definidos como aqueles casos de LTA com provável infecção no local de residência.
O caso deve ser submetido à investigação clínica
e epidemiológica e, se disponível, aos métodos auxiliares
de diagnóstico para confirmação. Inicia-se o tratamento
segundo normas técnicas e acompanha-se mensalmente (para avaliação
da cura) até 3 meses após conclusão do esquema terapêutico.
Análise de dados: os dados referentes à notificação
e investigação dos casos de LTA devem ser consolidados agregando-se
as informações por localidades, distritos, municípios,
regionais e unidades federadas.
Estes dados são indispensáveis para a construção dos indicadores necessários à análise epidemiológica da doença, e ao acompanhamento e avaliação operacional do Programa de Controle em cada nível de atuação. Os indicadores epidemiológicos devem ser calculados com base em casos autóctones. Recomenda-se o repasse de informação sobre a ocorrência de casos importados aos municípios de origem para correção dos coeficientes. O fluxo e periodicidade do envio dos dados deve ser mensal, consoante com o sistema de informação da unidade federada e segundo as diretrizes do SUS, sendo imprescindível o intercâmbio de informações entre as instituições envolvidas nas ações do programa de controle.
Os propósitos do Programa de Controle da Leishmaniose Visceral são: reduzir o risco de transmissão pelo controle das populações de reservatórios e de insetos vetores; diagnosticar e tratar precocemente os doentes visando diminuir a letalidade e o número de casos.
Notificação: a Leishmaniose Visceral é uma doença de notificação que deve ser comunicada ao serviço de saúde mais próximo.
Informações a respeito de casos ou óbitos;
Informações a respeito da existência do vetor na área;
Informações a respeito da população de cães infectados.
Hospitais e ambulatórios;
Declarações de óbitos;
Órgãos que trabalham com controle da doença (Coordenações Regionais da FNS, SUCEN, órgãos municipais ou estaduais que desenvolvem este trabalho).
Fluxos: os fluxos devem ser estabelecidos de acordo com a organização e a definição de cada município, diretoria regional, ou estado.
Havendo notificação de casos de Calazar, deve-se proceder imediatamente à investigação epidemiológica, procurando definir e/ou viabilizar os seguintes aspectos:
Se a área é endêmica, procurar verificar se as medidas de controle estão sendo sistematicamente adotadas. Se for um novo foco, comunicar imediatamente aos níveis superiores do sistema de saúde e iniciar as medidas de controle pertinentes;
Iniciar busca ativa de casos visando a delimitação da real magnitude do evento;
Verificar se o caso é importado ou autóctone. Caso seja importado, informar ao serviço de saúde de onde se originou;
acompanhar a adoção das medidas de controle seguindo os dados da população canina infectada, existência de reservatórios silvestres, densidade da população de vetores, etc.;
acompanhar a taxa de letalidade para discussão e melhoria da assistência médica prestada aos pacientes.
Identificação do caso e início da investigação epidemiológica;
Notificação;
Colheita de material para exame laboratorial;
Início do tratamento em unidade de saúde, de maior ou menor complexidade, de acordo com a gravidade das manifestações clínicas.
Estabelecer a cronologia dos casos e a distribuição geográfica dos mesmos;
Garantir assistência médica para a população acometida;
Viabilizar adoção das medidas de controle;
Proporcionar campanhas de educação em saúde, informações corretas à população dos fatos que estão ocorrendo na área. Articulação com parcelas organizadas da comunidade visando o estabelecimento de parcerias nas atividades de educação em saúde.
É considerado caso suspeito todo indivíduo proveniente de área endêmica ou áreas onde esteja ocorrendo surto, com febre há mais de duas semanas, com ou sem outras manifestações clínicas da doença.
Todo paciente com exame sorológico ou parasitológico positivo com ou sem manifestações clínicas. De acordo com a sintomatologia, o caso é classificado em uma das formas clínicas.
Todos os dados obtidos na área devem ser sistematicamente analisados buscando-se definir: coeficiente de incidência, taxa de letalidade e curva epidêmica, quando for o caso. Os dados obtidos com as ações de reconhecimento dos elos de transmissão da infecção e das medidas de controle adotadas devem ser correlacionados com os dados de incidência, letalidade e curva epidêmica.
Fonte: dtr2001.gov.br
A leishmaniose ou leishmaníase ou calazar ou úlcera de Bauru é a doença provocada pelos parasitas unicelulares do género Leishmania. Há três tipos de leishmaníase: visceral, que ataca os orgãos internos, cutânea, que ataca a pele, e mucocutânea, que ataca as mucosas e a pele. No Brasil existem as três formas, enquanto que em Portugal existe principalmente a leishmaníase visceral e alguns casos (muito raros) de leishmaníase cutânea. Esta raridade é relativa, visto na realidade o que ocorre é uma subnotificação dos casos de Leishmaniose cutânea. Uma razão para esta subnotificação é o facto de a maioria dos casos de Leishmaniose cutânea humana serem autolimitantes, embora possam demorar até vários meses a resolverem-se. As Leishmania são transmitidas pelos insectos fêmeas dos géneros Phlebotomus (Velho Mundo) ou Lutzomyia (Novo Mundo). A Leishmaniose também pode afectar o cão. Aliás, na Europa, este é considerado o reservatório da doença.
Reino: Protista
Filo: Sarcomastigophora
Classe: Kinetoplastea
Ordem: Trypanosomatida
Género: Leishmania
As Leishmania são protozoários que são parasitas de células fagocitárias de mamíferos, especialmente de macrófagos. São capazes de resistir à destruição após a fagocitose. As formas promastigotas (infecciosas) são alongadas e possuem um flagelo locomotor anterior, que utilizam nas fases extracelulares do seu ciclo de vida. O amastigota (intra-celular) não tem flagelo.
Há catorze espécies patogénicas para o ser humano. As mais importantes são:
As espécies L. donovani, L. infantum, e L. chagasi que podem produzir
a leishmaniose visceral, mas, em casos leves, apenas manifestações
cutâneas.
As espécies L. major, L. tropica, L. aethiopica, L. mexicana, L. braziliensis
e L. peruviana que produzem a leishmaniose cutânea ou a mais grave,
mucocutânea.
O ciclo de vida das espécies é ligeiramente diferente mas há pontos comuns. São libertados no sangue pela picada de dois géneros atípicos de mosquitos (noutras línguas como inglês nem são denominados mosquitos, mas antes sandflies): Lutzomyia e Phlebotomus. As leishmanias na forma de promastigotas ligam-se por receptores específicos aos macrófagos, pelos quais são fagocitadas. Elas são imunes aos ácidos e enzimas dos lisossomas com que os macrófagos tentam digeri-las, e transformam-se nas formas amastigotas após algumas horas (cerca de 12h). Então começam a multiplicar-se por divisão binária, saindo para o sangue ou linfa por exocitose e por fim conduzem à destruição da célula, invadindo mais macrófagos. Os amastigotas ingeridos pelos insectos transmissores demoram oito dias ou mais a transformarem-se em promastigotas e multiplicarem-se no seu intestino, migrando depois para as probóscides.
Os parasitas são transmitidos pela picada dos mosquitos Phlebotomus no velho mundo e Lutzomyia no novo. Em Portugal a leishmaníase visceral por L. infantum não é rara, sendo transmitida por Phlebotomus perniciosus e Phlebotomus ariasi.
Leishmaniose principalmente visceral (organismos mais agressivos)
a L. donovani é a mais frequente causa de leishmaniose visceral. Em algumas regiões (Índia e Sudão) encontra-se uma forma de leishmaniose dérmica pos-kalazar (PKDL). É transmitida por Phlebotomus e existe no subcontinente indiano e na África equatorial (rara em Angola e Moçambique). O reservatório são os seres humanos e os cães.
a L. infantum provoca uma variante menos grave da leishmaniose visceral e existe na região mediterrânica, incluindo países do Norte de África, Turquia, Israel, Grécia, Itália, sul da França, Portugal e Espanha e ainda nos Balcãs, Irão, algumas regiões da China e Ásia central. É transmitida pelo Phlebotomus e o seu reservatório são os cães, lobos e raposas. Em Portugal é mais frequente em regiões como Trás-os-Montes, Coimbra e a Beira Litoral, Algarve e na região dos estuários dos rios Sado e Tejo.
a L. chagasi existe na América Latina, incluindo Brasil. O insecto transmissor é o mosquito Lutzomyia.
Reservatórios nos cães e gambás. Esta espécie é muito provavelmente sinónima de L. infantum.
Leishmaniose principalmente cutânea (organismos de virulência baixa):
L. major: Norte de África, Médio Oriente e Ásia central. Transmitida por Phlebotomus. Reservatório em roedores
L. aethiopica: Existe na Etiópia e no Quénia. Transmitida por Phlebotomus. Reservatório nos Hyrax, espécies de pequenos mamíferos.
L. tropica: Existe em países da costa Sul e Este do Mediterrâneo e no Médio Oriente. Transmitida por Phlebotomus. O reservatório é principalmente humano (antroponose), mas o Hyrax também foi incriminado em alguns foci.
L. mexicana: América central, e Sul dos EUA (especialmente no Texas). Transmissão pelo Lutzomyia. O reservatório são os roedores.
L. amazonensis: América do Sul. Transmissão pelo Lutzomyia. O reservatório são os roedores.
Leishmaniose principalmente mucocutânea (virulência intermédia):
L. braziliensis: existe em todo o Brasil, Venezuela, Colômbia e Guianas. Lutzomyia. Reservatório em roedores e gambás.
L.peruviana: predomina nos países andinos. Reservatório nos cães.
O resultado de uma infecção com leishmanias pode tomar dois cursos. Na maioria dos casos o sistema imunitário reage eficazmente pela produção de uma resposta citotóxica (resposta Th6) que destrói os macrófagos portadores de leishmanias. Nestes casos a infecção é controlada e os sintomas leves ou inexistentes, curando-se o doente ou desenvolvendo apenas manifestações cutâneas. No entanto, se o sistema imunitário escolher antes uma resposta (humoral ou Th2) com produção de anticorpos, não será eficaz a destruir as leishmanias que se escondem no interior dos macrófagos, fora do alcance dos anticorpos. Nestes casos a infecção progride para a leishmaniose visceral, uma doença grave, ou no caso das espécies menos virulentas, para manifestações mucocutâneas mais agressivas e crónicas.
Naturalmente que um indivíduo imunodeprimido não reage com nenhuma resposta imunitária vigorosa, e estes, especialmente os doentes com SIDA/AIDS, desenvolvem progressões muito mais perigosas e rápidas com qualquer dos patogénios. Em Portugal, Espanha, Itália e França este grupo tem ultimamente formado uma percentagem grande dos doentes com formas de leishmaniose graves.
A leishmaniose visceral, também conhecida por kala-azar ou febre dumdum, tem um período de incubação de vários meses a vários anos. As leishmanias danificam os orgãos ricos em macrófagos, como o baço, o fígado, e a medula óssea. Caracteriza-se, na minoria de indivíduos que desenvolvem sintomas, por início insidioso de febre, tremores violentos, diarreia, suores, mal estar, fadiga, hepatoesplenomegália, anemia, leucopenia e por vezes manifestações cutâneas como úlceras e zonas de pele escura (denominado kala azar, "doença preta" em hindi e persa, ou "botão do oriente"), em adultos principalmente. Se não tratada, é mortal num período curto ou após danos crónicos durante alguns anos, especialmente em doentes com SIDA/AIDS.
A leishmaniose cutânea tem uma incubação de algumas semanas a alguns meses, após o que surgem sintomas como pápulas ulcerantes extremamente irritantes nas zonas picadas pelo mosquito, que progridem para crostas com líquido seroso. Há também escurecimento por hiperpigmentação da pele, com resolução das lesões em alguns meses com formação de cicatrizes inestéticas. A leishmaniose mucocutânea é semelhante mas com maiores e mais profundas lesões, que se estendem às mucosas da boca, nariz ou genitais.
O diagnóstico é pela observação directa microscópica dos parasitas em amostras de linfa, sanguíneas ou de biopsias de baço, após cultura ou por detecção do seu DNA ou através de testes imunológicos, como a Reação de Montenegro.
O tratamento é por administração de compostos antimóniais, pentamidina, anfotericina ou miltefosina. A prevenção é por redes ou repelentes de insectos, construção de moradias humanas a distância superior a 500 metros da mata silvestre e pela erradicação dos Phlebotomus/Lutzomyia.
As moléculas mais utilizadas no tratamento da leishmaniose canina são os antimoniais e o alopurinol.
Enquanto no Homem consegue-se uma cura definitiva, no cão tratamento raramente leva à cura definitiva, pois o animal mantém-se como portador, apresentando uma melhoria clínica, com o desaparecimento dos sinais clínicos, que reaparecerão passados meses. As recidivas no cão também podem ser devidas a reinfecção, principalmente se o cão viver numa região endémica.
Uma vacina está sendo testada nos municípios de Caratinga e Varzelândia, em Minas Gerais, e também na Colômbia e no Equador, sob a coordenação da OMS. Os testes estão em fase final e, até agora, os resultados são bons e o pesquisador está otimista também com os resultados dos testes da vacina preventiva.
A Vacina Terapêutica para Leishmaniose, desenvolvida pelo Prof. Wilson Mayrink, pesquisador do Departamento de Parasitologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), recebeu o registro do Ministro da Saúde e, agora, pode ser comercializada no Brasil.
No cão ainda não existe uma vacina comercializada na Europa. Actualmente a forma mais eficaz de prevenção passa pela utilização de produtos especiais com efeito de repelência sobre os flebótomos. Estão comercializados vários produtos à bse de piretróides sintécticos. O produto que tem demonstrado mais eficácia e que é mais recomendado e referenciado é a coleira impreganada com deltametrina. Recentemente (Maio de 2007), as autoridades sanitárias do Estado de Mato Grosso do Sul, no Brazil, adquiriram vários milhares destas coleiras para fazer frente à Leishmaniose Canina.
A cura da doença foi descoberta, no início do século XX, pelo médico paraense, de Belém do Pará, Gaspar Viana.
No Brasil, o maior número de casos são registrados nas regiões Norte e Nordeste, onde a precariedade das condições sanitárias favorecem a propagação da doença. Mas o aumento do número de registros na Região Sudeste mostram que todo o país corre risco de ter epidemias de Leishmaniose. O interior paulista tem assistido a um crescimento grande do número de caos. Em 1999, Araçatuba enfrentou uma epidemia. Birigui e Andradina também registraram alto número de casos da doença. Em 2003, Bauru passou a registrar a doença de forma endêmica. Em todas essas cidades ocorreram óbitos, e há o risco da doença chegar a grandes centros urbanos paulistas de forma endêmica, como Campinas, Sorocaba, Santos e São Paulo.
Fonte: pt.wikipedia.org