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A Morte de Ivan Ilitch

Leon Tolstoi

VI

Ivan Ilitch via que estava se finando e o desespero não o largava. No fundo da alma, sabia bem que ia morrendo, mas não só não se acostumava com a idéia, como não a compreendia mesmo — uma absoluta incapacidade de compreendê-la.

O exemplo de silogismo que aprendera no compêndio de lógica de Kiesewetter — “Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal” — sempre lhe parecera exato em relação a Caio, jamais em relação a ele. Que Caio, o homem abstrato, fosse mortal, era perfeitamente certo; ele, porém, não era Caio, não era um homem abstrato, era um ser completa e absolutamente distinto de todos os demais. Ele fora o pequeno Vánia, com sua mamãe e seu papai, com Mítia e Volódia, com os brinquedos, o cocheiro, a ama, depois com Kátienka e com todas as alegrias, tristezas e entusiasmos da infância, da adolescência e da mocidade. Porventura conheceu Caio o cheiro da pequena bola de couro listrado de que Vánia tanto gostava? Por acaso Caio beijava a mão da mãe como Vánia? Era para Caio que a seda do vestido da mãe fazia aquele frufru? Fora Caio quem protestara, na escola, por causa dos pastéis? Tinha Caio amado como Vánia? Seria Caio capaz de presidir, como ele, uma audiência?

“Caio é de fato mortal e, portanto, é justo que morra, mas quanto a mim, o pequeno Vánia, Ivan Ilitch, com todos os meus sentimentos e minhas idéias, o caso é inteiramente Outro. É impossível que eu tenha de morrer. Seria demasiado horrível.”

Era assim que ele sentia.

“Se eu tivesse de morrer como Caio, liaveria de sabê-lo muito bem. Minha intuição me diria. Mas jamais me disse coisa alguma. Eu e os meus amigos sabemos que nada temos de comum com Caio. E eis que a morte se apresenta!”, pensava. “Não pode ser. Não pode, mas está aí! Como? Como poderá se entender uma loucura igual?”

Não conseguia entender e procurava afastar tal idéia — falsa, anormal, mórbida — valendo-se de outras sensatas e sadias. Mas aquela idéia, ou melhor, aquela realidade, voltava como para enfrentá-lo.

Para vencê-la procurava convocar uma série de outras, esperando encontrar nelas algum apoio. Tentou restabelecer uma velha corrente de pensamentos com que anteriormente escondia a idéia da morte. Mas, estranhamente, tudo quanto antes escondia, anulava, destruía a consciência da morte, já não surtia efeito. Ivan Ilitch passou, então, a consumir a maior parte do seu tempo nas tentativas de revigorar a primitiva corrente. Por vezes, dizia consigo mesmo:

“Vou de novo me dedicar ao dever. Antes ele era toda a minha vida”. E ia para o tribunal, escorraçando todas as dúvidas e hesitações. Conversava com os colegas, sentava-se e, conforme antigo hábito, passava pela assistência um olhar distraído, apoiando as mãos emagrecidas nos braços da poltrona de carvalho. Depois virava-se ligeiramente para o assessor, empurrava-lhe uns autos, trocava em voz baixa algumas considerações funcionais e, bruscamente, levantando os olhos, reaprumava-se na poltrona, proferia as palavras de praxe e abria a sessão. De repente, no meio de um julgamento, a dor do lado, indiferente ao processo em curso, recomeçava a sua teimosa ação. Ivan Ilitch voltava a atenção para ela, tentava enxotar a idéia que ela sugeria, mas não o conseguia. A idéia voltava e estacava diante dele, e encarava-o, e ele ficava lívido, e o brilho se apagava em seus olhos, e novamente começava a se interrogar: “Será crível que somente ela seja verdade?” Os colegas e subalternos viam, espantados e desgostosos, que ele, um juiz brilhante e sutil, confundia-se, claudicava. Ele se mexia, esforçando-se para se dominar, levava de qualquer maneira a sessão até o fim e regressava a casa com a dolorosa certeza de que as suas funções de magistrado não podiam mais esconder, como outrora, aquilo que não desejava ver, nem tinham méritos bastante para pô-lo a salvo dela. E, o pior de tudo, ela obrigava-o a concentrar nela toda a sua atenção, não para agir contra ela, mas tão-somente para vê-la frente a frente, incapaz, sofrendo indescritivelmente.

E, para escapar a tal opressão, Ivan Ilitch buscava outras consolações, outros tapumes, atrás dos quais conseguisse se resguardar; mas pouco duravam, desmoronando-se ou se tornando transparentes e assim permitindo que ela os atravessasse e nada pudesse encobri-la.

Nos últimos tempos, se entrava na sala de visitas, que ele próprio decorara — a mesma em que sofrera a queda, e pela qual, pensava agora com amarga ironia, sacrificara a vida, pois sabia que os seus males começaram com aquela pancada — se entrava, procurava ver se a mesa envernizada estava arranhada. Se estava, investigava a causa e constatava que fora o enfeite de bronze de um álbum. Pegava o rico álbum, que ele mesmo amorosamente organizara e ficava indignado com o desmazelo da filha e das amigas dela, pois ora havia rasgões, ora os retratos estavam colocados de cabeça para baixo. Punha tudo cuidadosamente em ordem e endireitava as cantoneiras de bronze.

Acudia-lhe a idéia de dar um outro arranjo à sala, colocando a mesa com os álbuns num canto, perto das plantas.

Chamava um criado, mas a mulher ou a filha se antecipava; não concordavam, discutiam, a mulher lhe dizia coisas, e ele se zangava. Mas tudo estava bem, pois se esquecia dela, não a estava vendo.

Certo dia, quando estava sozinho remexendo alguns objetos, a mulher observou-o: “Deixe isso para os criados. Você pode se machucar novamente”. E eis que ela atravessa o tapume e ele a vê. Era apenas uma visão e Ivan Ilitch tinha esperança que ela logo desaparecesse, mas, involuntariamente, apalpou o lado doente — a dor continuava lá a verrumá-lo. já não podia esquecê-la e ela, evidentemente, o estava espiando por trás das plantas. Por quê?

“Será que, perto daquela cortina, eu perdi realmente a vida como num assalto a uma fortaleza? Será mesmo? Como é terrível e estúpido! Não pode ser. Não pode ser, mas é.”

Ia para o escritório, deitava-se e novamente ficava a sós com ela. Cara a cara e sem nada poder fazer, salvo encará-la, enquanto o coração gelava-se no peito.

VII

É impraticável dizer como se dera aquilo, pois viera passo a passo, imperceptivelmente. Mas no terceiro mês da doença aconteceu que a mulher, a filha, o filho, os colegas e conhecidos, os médicos, os criados e, sobretudo, o próprio Ivan Ilitch se inteiraram de que todo o interesse que ele podia despertar nos outros consistia em saber quando abriria uma vaga, quando descansariam os vivos da angústia que causava a sua presença, e quando ele mesmo iria se livrar dos seus padecimentos.

Dormia cada vez menos. Davam-lhe ópio por via oral e injeções hipodérmicas de morfina, sem que o aliviassem.

A vaga angústia que sentia na sonolência trouxe-lhe a principio um certo relaxamento, mas apenas como novidade, pois logo se tornou tão penosa quanto a dor pura e simples, talvez até mais.

De acordo com a determinação médica, tinha uma alimentação especial, que cada dia se tornava para ele mais insossa e nauseante.

Para as suas excreções havia também providências especiais que as tornavam em verdadeiro suplício, pela inconveniência do ato, pela sujeira, pelo mau cheiro e pela humilhante e obrigatória ajuda de uma pessoa.

Mas foi exatamente graças a tão penosa circunstância que Ivan Ilitch experimentou um dado consolo. Quem sempre vinha limpar o vaso era o camareiro Guerássim.

Tratava-se de um jovem mujique, asseado e saudável, que engordara um pouco com a comida da cidade, se mostrava sempre bem-humorado. No começo, Ivan Ilitch ficara constrangido com a presença daquele homem limpo, na sua branca roupa de camponês, desempenhando um serviço tão nojento.

Um dia, quando se levantou do vaso, não teve forças para suspender as calças, deixou-se cair numa poltrona e ficou horrorizado olhando para as coxas nuas, bambas, descarnadas, cujos músculos desenhavam-se nitidamente sob a pele. Foi nesse instante que entrou Guerássim, num passo ligeiro e firme, com suas grossas botas, que espalhavam ao redor um cheiro bom de alcatrão e uma frescura de inverno. Trazia um avental listrado, uma camisa muito branca, de algodão, e as mangas arregaçadas mostravam um par de braços jovens e sólidos. Aproximou-se da cadeira furada na qual se encaixava o vaso, sem olhar para o amo enfermo, a fim de não ofendê-lo com a alegria de viver que ostentava no rosto.

— Guerássim — chamou fracamente Ivan Ilitch.

O rapaz estremeceu, visivelmente temeroso de que houvesse cometido algum descuido, e rapidamente volveu o rosto fresco, bondoso, simples e quase imberbe.

— Que deseja, senhor?

— Deve ser muito desagradável para você. Desculpe-me. Mas eu não posso me limpar.

— Que desagradável coisa nenhuma — Os olhos de Guerássim cintilaram e ele mostrou a dentadura alvíssima:

— O senhor está doente, não está? Portanto não e mais do que a minha obrigação.

E, com as mãos ágeis; e rudes, desempenhou a tarefa, saindo logo depois com o vaso. Não demorou muito a voltar e encontrou o amo ainda sentado na poltrona.

— Venha cá, Guerássim, — disse Ivan Ilitch, depois que o outro recolocou o vaso lavado na cadeira furada. Ajude-me por favor.

Guerássim acercou-se.

— Levante-me. Sozinho, é muito difícil para mim, eu mandei o Dmítri embora.

Guerássim segurou-o com seus braços fortes, suspendeu-o cuidadosamente, e, sustentando-o num braço só, com a outra mão levantou-lhe as calças. Ia sentá-lo novamente, quando Ivan Ilitch pediu que o levasse para o divã.

Sem esforço, amparando-o suavemente, Guerássim carregou o doente para o divã, onde o deixou. — Muito obrigado. Como você faz tudo com facilidade. E faz bem! Guerássim esboçou um sorriso e virou-se para ir embora. Mas Ivan Ilitch sentia-se tão bem com ele que quis retê-lo.

— Outra coisa, por favor. Chegue esta cadeira para junto de mim. Não, a outra. Ponha as minhas pernas em cima dela. Sinto-me melhor com os pés mais altos.

Guerássim trouxe a cadeira, pousou-a no chão sem fazer barulho e, delicadamente, colocou as pernas de Ivan Ilitch sobre a cadeira. O doente teve uma sensação de alívio, quando Guerássim levantou-lhe os pés.

— Sinto-me muito melhor quando meus pés estão mais alteados — disse, — Ponha mais uma almofada.

Guerássim obedeceu. Levantou novamente as pernas do amo, ajeitou a almofada, deixou-as repousar cautelosamente. Outra vez, Ivan Ilitch sentiu-se melhor, quando lhe suspendiam as pernas e, quando Guerássim as largou, teve a impressão de que piorava.

— Guerássim, você estava ocupado?

— Nem um pouco, senhor — respondeu Guerássim, que aprendera com a gente da cidade a falar com os patrões.

— Que é que você tem ainda a fazer?

— O que tenho a fazer, senhor? já fiz tudo. Só falta picar um pouco de lenha para amanhã.

— Se é assim, fique segurando um pouco meus pés no alto... Pode ser?

— Como não?

Guerássim manteve mais altas a- pernas do amo e Ivan Ilitch achou que em tal posição não sentia dor nenhuma.

— E a lenha, como vai ser?

— Não se preocupe, senhor. Eu arranjarei tempo.

Ivan Ilitch ordenou a Guerássim que se sentasse, segurando-lhe as pernas, e puxou conversa com ele. E, curioso, tinha impressão de que passava sensivelmente melhor enquanto Guerássim sustinha no alto as suas pernas.

Desde aí, Ivan Ilitch costumava chamar Guerássim, obrigando-o a manter seus pés sobre os ombros — ficando de prosa com ele. Guérassim prestava-se a isso de bom grado, com tanta singeleza e bondade que Ivan Ilitch ficava comovido. A saúde, a força, a vitalidade de outros ofendiam Ivan Ilitch, mas o vigor e a energia de Guerássim, longe de mortificá-lo, acalmavam-no.

O que mais fazia Ivan Ilitch sofrer era a mentira, aquela mentira aceita por todos, não sabia por quê, de que ele se encontrava apenas doente e não moribundo, e que seria suficiente repousar e seguir à risca o tratamento para arribar.

E, no entanto, sabia perfeitamente que, por mais coisas que fizesse, tudo seria inútil e os sofrimentos se prolongariam, ainda mais cruéis, até a morte. E a mentira o atormentava pelo fato de não quererem admitir uma coisa que todos viam claramente, inclusive ele e, descaradamente mentindo, o obrigassem a participar daquela farsa. Aquela mentira, que lhe era pregada nas portas da morte, aquela mentira que rebaixava o solene e terrível desenlace ao nível das suas visitas, das suas cortinas, do esturjão que comera no jantar, era horrivelmente dolorosa para Ivan Ilitch. E, coisa estranha, quando eles à sua volta começavam com tais fingimentos, mil vezes teve vontade de desmascará-los: “Chega de embustes! Vocês sabem, tão bem quanto eu, que estou morrendo! Não quero mais ouvir mentiras!” Mas nunca teve ânimo de fazê-lo. o monstruoso, o horrendo ato da morte — bem o via — era por todos rebaixado ao nível de um incidente fortuito, desagradável, quase inconveniente (mais ou menos como se trata alguém que entrasse numa sala, tresandando a catinga), e tudo era praticado em nome daquela decência, que ele tanto defendera durante toda a vida. Via que ninguém tinha piedade dele, porque ninguém tentava sequer compreender a sua situação. Somente Guerássim compreendeu-o e compadeceu-se. E era por isso que Ivan Ilitch só se sentia bem na companhia dele. Mostrava-se aliviado quando Guerássim segurava-lhe as pernas, às vezes por uma noite inteira, e se recusava a ir para a cama:

“Não se incomode por minha causa, Ivan Ilitch, Eu darei um jeito de dormir”; ou quando, subitamente passando à intimidade e tratando-o por “tu”, acrescentava: “Se não estivesses doente, seria outra conversa; mas, no estado em que estás, por que não te ajudar um Pouco?” Guerássim era o único que não mentia e tudo indicava que também era o único a compreender plenamente o que se passava e não considerava necessário ocultá-lo, singelamente condoía-se do patrão tão fraco e esquelético. Uma vez até, disse com toda a franqueza, quando Ivan Ilitch mandou que ele fosse descansar: “Todos nós temos de morrer um dia. Por que não me sacrificar um pouco agora?”, e com tais palavras queria explicar que não considerava pesado o seu trabalho, justamente por ser feito para um moribundo, e confiava que merecesse o mesmo quando chegasse a sua vez.

Além daquela mentira, ou resultante dela, o que também atormentava Ivan Ilitch era que ninguém o lastimasse conforme gostaria de ser lastimado. Momentos havia, depois de demorados sofrimentos, em que queria acima de tudo, por mais que se envergonhasse de confessá-lo, ver-se tratado como se fosse uma criança doente. Queria ser acarinhado, mimado, beijado, tal como se faz com as crianças. Sabia que era um juiz importante, dono já de uma barba grisalha e que por isso mesmo o que ambicionava era impossível, mas ainda assim ambicionava. E no comportamento de Guerássim para com ele havia qualquer coisa próxima daquilo que queria e de tal forma sentia-se um pouco confortado. Ivan Ilitch queria chorar, queria ser acariciado e consolado, mas quando chegava o seu colega Chebek, em vez de lágrimas e enternecimentos, Ivan Ilitch punha no rosto uma máscara de seriedade, dignidade e profundeza e, pela força do hábito, trocava opiniões sobre determinado acórdão da Corte de Apelação e obstinadamente defendia seu ponto de vista. A falsidade à sua volta e dentro dele envenenou mais do que tudo os seus derradeiros dias.

VIII

Era de manhã. Ele sabia que era de manhã unicamente porque Guerássim se fora e o criado Piotr viera apagar as velas, levantar as cortinas e silenciosamente começar a arrumação do quarto. Fosse manhã ou noite, sexta-feira ou domingo, não havia diferença, tudo era igual para Ivan Ilitch: a dor surda, implacável, incessante; a sensação de que a vida não parava de fugir; a certeza de que a odiosa e temida morte se aproximava como a única realidade; e sempre a mesma mentira. Que importância tinham, portanto, as semanas, os dias, as horas?

— O senhor quer que sirva o chá?

“Ele é ordeiro e acha que os patrões precisam tomar chá de manhã”, pensou Ivan Ilitch, e respondeu apenas:

— Não.

— O senhor não quer passar para o divã?

“Ele precisa arrumar o quarto, mas eu o atrapalho. Sou a sujeira e a desordem”, pensou, e disse somente:

— Não, deixe-me aqui.

O criado continuou nos arranjos. Ivan Ilitch estendeu a mão. Piotr acercou-se, solícito:

— Que deseja o senhor?

— Meu relógio.

Piotr apanhou o relógio, que se encontrava bem à mão de Ivan Ilitch, e entregou-o ao amo.

— Oito e meia. Já se levantaram?

— Ainda não, senhor, a não ser Vassílli Ivánovitch era o filho —, que foi para o colégio. Mas Praskóvia Fiódorovna deu ordem para que a acordassem se o senhor a chamasse, quer que eu a acorde?

— Não. Não é preciso. — “Talvez fosse bom eu tomar um chá”, pensou. E pediu: — Bem, traga-me o chá.

Piotr encaminhou-se para a porta. Ivan Ilitch teve medo de ficar só. “Como retê-lo? Ah, o remédio!”

— Piotr, me dê a poção. — E pensou: “Por que não? Talvez me faça

Tomou uma colher cheia. “Não. Não adianta nada. Tudo é bobagem, tapeação”, e o gosto enjoado, desesperante, que tão bem conhecia. “Não. Não acredito em mais nada! Mas por que aquela dor? Que bom se ao menos parasse um pouquinho.” E gemeu. Piotr virou-se.

— Não vá embora. Traga-me o chá.

Piotr foi buscá-lo. Só, Ivan Ilitch gemia, não tanto da dor, por mais insuportável que fosse, mas de aflição. “E sempre a mesma coisa, a mesma, por dias e noites intermináveis. Se ao menos viesse mais depressa... Mais depressa o quê? A morte, a treva? Não, não! Tudo, menos a morte!”

Quando Piotr voltou com a bandeja do chá, Ivan Ilitch olhou-o longamente, perplexo, sem compreender quem era ele e o que fazia ali. Piotr ficou perturbado com aquele olhar e Ivan Ilitch se recompôs.

— Ah, o chá... Muito bem, ponha-o aqui. Mas me ajude primeiro a me lavar e me arranje uma camisa limpa.

E Ivan Ilitch começou a se lavar. Fazendo inúmeras pausas, lavou as mãos e o rosto, escovou os dentes, penteou os cabelos e mirou-se no espelho. Assustou-se ao ver a sua imagem, principalmente os cabelos escorrendo, lisos, na testa lívida.

Ao mudar a camisa, não tinha dúvida de que ainda ficaria mais assustado ao ver o seu corpo, e desviou o olhar do espelho. Afinal, se aprontou. Pusera o roupão, cobrira-se com a manta e sentara-se na poltrona para tomar o chá. Por um momento, sentiu-se refrescado, mas, mal começou a tomar o chá, sentiu voltar o mesmo gosto e a mesma dor. Foi com grande esforço que acabou de tomá-lo. Deitou-se depois, estendendo as pernas, e dispensou Piotr.

A coisa não mudava. Se brilhava um raio de esperança, logo vinha um tempestuoso mar de desespero e sempre aquela dor, sempre aquela agonia invariavelmente. Sozinho, sente uma aflição tremenda, tem vontade de chamar alguém, mas sabe de antemão que se viessem ainda seria pior. “Mais uma dose de morfina seria bom para me tontear, esquecer tudo. Vou pedir ao médico que me arranje qualquer coisa. É impossível, impossível continuar deste jeito.”

Uma, duas horas se escoam assim. Eis que a campainha toca. “Será o médico?” É. Chega fresco, gordo, jovial, com o ar de quem diz: “Estão se assustando à toa. Num minutinho vou botar tudo nos eixos”. Sabe perfeitamente que tal ar não tem o menor cabimento ali, mas fixou-o à sua indumentária e não pode dispensá-lo, assim como um homem que vestiu de manhã o seu fraque para fazer visitas.

Esfrega as mãos, decidido e tranqüilizador:

— Que frio! Está nevando que não é brincadeira! Deixe-me esquentar-me um pouco! — diz como se bastasse ele se reaquecer para resolver tudo.

— Muito bem. Como vai?

Ivan Ilitch tem a nítida impressão de que o médico gostaria de dizer: “Como vão os negócios?” Como isso, porém, não tem propósito ali, diz:

— Como passou a noite?

Ivan Ilitch olha o médico, como a perguntar: “Será crível que você não tenha vergonha de mentir?” Mas o médico não quer saber de tal pergunta e Ivan Ilitch se queixa:

— Tão mal como ontem. A dor não cessa. Se fosse possível fazer alguma coisa para atenuá-la...

“Todos os doentes são a mesma coisa... Bem, agora já estou com as mãos quentes. Até Praskóvia Fiódorovna, que é tão exigente em matéria de mãos frias, nada teria a dizer das minhas. Posso já cumprimentá-lo.” E o médico aperta a mão do paciente.

E, aí, opera-se nele uma transformação. Não é mais o cavalheiro jovial. Põe-se circunspecto e começa a examinar o enfermo. Toma-lhe o pulso e a temperatura, ausculta-o, faz a percussão.

Ivan Ilitch sabe perfeitamente que tudo aquilo é bobagem, mentira sem sentido. Mas quando o médico se ajoelha e se inclina Sobre ele, encostando o ouvido aqui e ali, executando, com o ar mais sério, uma série de movimentos de ginástica, Ivan Ilitch submete-se a tudo, tal como se entregava aos discursos dos advogados, ciente muito bem de que todos mentiam e não ignorando por que mentiam.

O médico, vergado sobre o divã, continuava a examiná-lo, quando o ruge-ruge do vestido de seda de Praskóvia Fiódorovna anunciou a entrada dela no quarto.

Imediatamente, ela ralhou com Piotr por não lhe ter comunicado a chegada do doutor. Beija depois o marido, e começa a provar que já se levantara há muito tempo e que somente devido à falta do criado não se encontrava ali quando o doutor chegara.

Ivan Ilitch olha-a de alto a baixo, censurando intimamente a brancura e a maciez da pele, o brilho dos cabelos, o fulgor dos olhos vivazes. Odeia-a com todas as fibras do coração. E o seu contato provoca nele um assomo de raiva que lhe aumenta o sofrimento.

A atitude dela, em relação a Ivan Ilitch e à doença dele, não se modificou. Da mesma maneira que o clínico estabelecera para com os seus clientes uma linha de conduta, da qual não podia se afastar, ela também traçara uma — a de dizer que Ivan Ilitch fazia tudo ao contrário do que devia ser feito, sendo, portanto, passível de censura, e ela, em tom amigável, não deixava de censurá-lo. E de tal linha não recuava um pé.

— Ele não obedece a ninguém, doutor! Não toma a medicação nas horas certas. E, sobretudo, fica numa posição que positivamente não pode lhe fazer bem: de pernas para cima.

E contou que ele obrigava Guerássim a ficar mantendo-lhe as pernas suspensas. O médico teve um sorriso de afável superioridade, que parecia traduzir: “Que vamos fazer! Os doentes têm a mania de inventar uma infinidade de asneiras. Mas devemos desculpá-los”.

Terminado o exame, o doutor consultou o seu relógio e então Praskóvia Fiódorovna comunicou a Ivan Ilitch que, quer ele fizesse cara feia ou não, já mandara chamar certo famoso especialista para unia conferência com Mikhail Damílovitch (o médico da família).

— É favor não pôr objeções. Faço isso por mim mesma — disse com ironia, dando a entender que fazia tudo pelo esposo, o que não deixava a ele o direito de recusar.

Ele não abriu o bico, limitando-se a franzir as sobrancelhas. Sentia que a fraude tecera em volta dele um tal emaranhado que já era impraticável ver claro.

Tudo quanto Praskóvia Fiódorovna fazia por ele era unicamente visando ao seu próprio interesse; mas, ao afirmar, frisando-o bem, que o fazia por si mesma, cuidava que ele tivesse a obrigação de compreendê-la ao contrário.

Realmente, às onze e meia chegou o famoso especialista. Recomeçaram as auscultações e percussões entremeadas de considerações científicas, ora na presença do enfermo, ora no aposento contíguo, sobre o rim e o ceco, que não funcionavam corretamente. E foi uma chuva de perguntas e respostas, em tom solene, em que a questão da vida ou da morte de Ivan Ilitch não interessava absolutamente nada — o que importava exclusivamente era a questão de o rim e o ceco se comportarem rebeldemente, mas que o célebre facultativo e Mikhail Damílovitch prometiam colocar no bom caminho.

O famoso especialista despediu-se com ar grave, mas não desencorajador. E, quando Ivan Ilitch perguntou-lhe timidamente, os olhos brilhando de temor e esperança, se havia qualquer possibilidade de cura, respondeu que não poderia garantir, mas que sempre havia uma probabilidade.

O olhar esperançoso com que Ivan Ilitch acompanhou o médico até a porta era tão patético que Praskóvia Fiódorovria não pôde conter as lágrimas ao pagar os honorários da celebridade no escritório.

Pouco durou a confiança inspirada pelas palavras do especialista. Novamente o mesmo quarto, o mesmo papel de parede, os mesmos quadros, cortinas, vidros de remédios, o mesmo corpo sofredor. E Ivan Ilitch começou a gemer. Aplicaram-lhe uma injeção de morfina e ele tombou num estado de torpor.

Quando tornou a si, já escurecia. Serviram-lhe o jantar.

Com dificuldade engoliu o caldo. E novamente a noite sempre igual.

Após o jantar, às sete horas, Praskóvia Fiódorovna entrou no quarto em vestido de noite, o cheio busto comprimido num espartilho, o rosto empoado. Pela manhã avisara-o de que tinham de ir ao teatro. Sarah Bernhardt apresentava-se na cidade e eles haviam comprado um camarote por insistência do próprio Ivan Ilitch. Ele se esquecera e o vestido de gala da mulher ofendeu-o, porém escondeu o amargor ao lembrar que a iniciativa da reserva do camarote partira dele mesmo, achando que seria um espetáculo estético e educativo para os filhos.

Praskóvia apareceu muito satisfeita, mas ao mesmo tempo com um certo quê de culpa. Sentou-se um instante e indagou do seu estado, mas, segundo ele percebeu, apenas por formalidade, pois sabia plenamente que ele continuava na cama. E logo entrou a falar naquilo que de fato queria: que de nenhum modo pretendia ir, mas que o camarote já estava comprado, que iriam também Helena, Lisanka e Pietrichtchov (o juiz de instrução, pretendente da filha) e que não ficaria bonito deixá-los ir sozinhos; que para ela seria muito mais agradável ficar ao lado dele; e que não se esquecesse de seguir, na sua ausência, as prescrições do médico.

— Ah, uma coisa, Fiódor Pietrichtchov — o pretendente — gostaria de vê-lo. E Lisa também. Podem?

— Está bem.

A filha veio, elegantemente vestida, decotada, exibindo o corpo. Era forte, sadia, visivelmente apaixonada, e irritada com a doença, os padecimentos e a perspectiva da morte, porque perturbavam a sua felicidade. Fiódor Pietrichtchov entrou em seguida, de traje a rigor, cabelo frisado à la Capout o pescoço de veias salientes entalado num alto colarinho branco, um largo peitilho também engomado, as calças pretas muito justas nas pernas musculosas, luvas brancas numa das mãos e, na outra, a claque. Atrás dele, escondia-se o colegial, metido num uniforme novo em folha, pobrezinho, de luvas, as olheiras arroxeadas, cuja significação Ivan Ilitch sabia muito bem.

O filho sempre lhe parecera lastimável. E era atroz ver agora o olhar dele, assustado e compadecido. Parecia a Ivan Ilitch que, além de Guerássim, o menino era a única Pessoa que o compreendia e tinha pena dele.

Todos se sentaram e perguntaram como ia. Depois, um silêncio. Lisa interrogou a mãe sobre o binóculo. Houve um breve bate-boca entre mãe e filha, que se acusavam mutuamente de tê-lo perdido, o que gerou um sensível mal-estar.

Fiódor Pietrichtchov perguntou a Ivan Ilitch se ele já vira Sarah Bernhardt. No primeiro momento Ivan Ilitch não compreendeu a pergunta, mas depois respondeu:

— Não. E você já viu?

— Sim. já vi. Em AdtIenne Lecouvreur.

Praskóvia Fiódorovna referiu-se a alguns papéis que Sarah Bernhardt desempenhara magnificamente. A filha discordou. A conversa, então, recaiu sobre a elegância e o realismo que a atriz imprimia a certas cenas, e tomou o rumo de todas as conversas de tal natureza.

No meio da conversação, Fiódor Pietrichtchov deitou um olhar a Ivan Ilitch e calou-se. Os outros também olharam para o enfermo e ficaram silenciosos. Ivan Ilitch enfrentou-os com os olhos brilhando, visivelmente indignado. Era uma situação penosa — o silêncio tinha de ser quebrado. Mas ninguém se decidia, medrosos todos de que a convencional mentira ficasse evidente e que imperasse a dura realidade. Lisa tomou, afinal, a iniciativa, mas ao tentar ocultar o que todos sentiam traiu-se.

— Bem, já que temos de ir, está na hora — disse consultando o relógio, que fora presente do pai, e trocando com o jovem um imperceptível sorriso, cujo significado somente os dois sabiam.

E levantou-se num frufru de sedas. Todos a imitaram, deram as boas-noites e se foram.

Quando se viu só, Ivan Ilitch foi tomado por um breve alívio: a falsidade saíra com eles. Mas ficara a dor, a mesma dor e o mesmo pavor que tornavam tudo tão monotonamente semelhante.

Os minutos tornaram a seguir-se a outros muitos, as horas a outras horas, sempre na mesma toada, e o fim inevitável parecia cada vez mais próximo.

— Sim, mande cá o Guerássim — respondeu a uma pergunta de Piotr.

IX

A mulher voltou tarde. Entrou nas pontas dos pés, ele ouviu. Abriu os olhos e logo fechou-os de novo. Ela quis mandar Guerássim embora e ficar junto dele. Ivan Ilitch abriu os olhos e disse:

— Não. Vá dormir.

— Está doendo muito?

— Como sempre.

— Tome um pouco de ópio.

Ele concordou e ingeriu a poção. A mulher saiu.

Até perto das três horas, permaneceu imerso num penoso entorpecimento. Parecia-lhe que o empurravam dolorosamente para dentro de um saco preto, estreito e fundo; forçam-no, mas não consegue passar pela boca do saco; está apavorado, porém, quer cair lá dentro, como para se livrar da terrível dor que sente; luta, luta, cooperando, e, de repente, o saco se rompe, ele cai e torna à realidade.

Guerássim permanece sentado no pé da cama, cochilando, calmo e paciente, enquanto ele está estendido de costas, os pés, magros, calçados de meias, se apóiam nos ombros do criado. A vela continuava a se queimar no castiçal. E a dor persistia.

— Pode ir dormir, Guerássim — sussurrou.

— Não estou cansado, senhor. Posso ficar mais um pouco.

— Não. Pode ir.

Tirou os pés da cômoda posição, deitou-se de lado sobre um braço e teve pena de si mesmo. Aguardou, apenas, que Guerássim deixasse o quarto para, incontidamente, desatar em pranto. Chorava a sua impotência, a sua terrível solidão, a crueldade dos homens, a crueldade de Deus, que o abandonava.

“Por que me reduziste a isto? Por que me trouxeste ao mundo? Com que fim me martirizas tanto?”

Não esperava resposta, e mais chorava porque não havia nem podia haver resposta. A dor fez-se mais aguda, mas não se mexeu, nem chamou ninguém. Ouvia uma voz dentro dele: “Está bem, continua!

Bate-me com mais força! Mas por que razão? O que foi que eu Te fiz? Por quê?”

Depois, sossegou, deixou de chorar, prendeu a respiração, ficou atentamente ouvindo a voz que vinha silenciosamente, a voz da sua alma, a torrente de pensamentos que dentro dele se acumulara.

“O que é que tu queres?”, foi a primeira coisa que ouviu, claramente. “O que é que tu queres? O que é que tu queres?”, repetiu. E respondeu: “O que eu quero é viver. Viver sem sofrer.”

E novamente prestou atenção e tão concentradamente que nem a dor o desviava.

“Viver? Como?”, perguntou a voz interior. “Ora, viver como sempre vivi. Bem, agradavelmente”, respondeu. “Como viveste antes, bem e agradavelmente?”, tornou a voz.

E ele começou a repassar na imaginação os melhores momentos da sua vida. Mas — coisa estranha! — tais momentos não lhe pareciam agora tão agradáveis como cuidava que fossem, salvo as primeiras recordações da infância.

Na meninice, sim, havia certas coisas verdadeiramente prazenteiras, que gostaria que se repetissem se pudesse viver outra vez. Mas aquele menino estava morto, era como a reminiscência de uma outra pessoa.

Quando entrou a repassar o período que gerara o atual Ivan Ilitch, tudo o que lhe parecera ser alegria se desmoronava ante seus olhos, reduzindo-se a algo desprezível e vil.

E quanto mais longe da infância e mais perto do presente, tanto mais as alegrias que vivera lhe pareciam insignificantes e vazias. A começar pela faculdade de direito. Nela conhecera alguns momentos realmente bons: o contentamento, a amizade, as esperanças. Nos últimos anos, porém, tais momentos já se tornavam raros. Depois, no tempo do seu primeiro emprego, junto ao governador, gozara alguns belos momentos: amara uma mulher. Em seguida tudo se embrulhou e bem poucas eram as coisas boas. Para adiante, ainda menos. E, quanto mais avançava, mais escassas se faziam elas. Veio o casamento, um mero acidente e, com ele, a desilusão, o mau hálito da esposa, a sensualidade e a hipocrisia. E a monótona vida burocrática, as aperturas de dinheiro, e assim um ano, dois, dez, vinte, perfeitamente idênticos. E, à medida que a existência corria, tornava-se mais oca, mais tola. “É como se eu estivesse descendo uma montanha, pensando que a galgava. Exatamente isso. Perante a opinião pública, eu subia, mas, na verdade, afundava. E agora cheguei ao fim — a sepultura me espera.

“Mas o que significa isso, afinal? Por quê? Impossível! A vida não pode ser assim tão sem sentido e nojenta! Mas, se ela foi tão nojenta e sem sentido, por que devo eu morrer e morrer sofrendo? Alguma coisa, positivamente, está errada!”

“Talvez eu não tenha vivido como deveria”, acudiu-lhe de súbito. “Mas de que sorte, se eu sempre procedi como era preciso?” — e imediatamente afastou a única hipótese possível para o enigma da vida e da morte,

“E o que queres agora? Viver? Viver de que maneira? Viver como viveste no tribunal, quando o oficial de justiça anunciava: — Está aberta a sessão!”... “Está aberta a sessão!”, repetiu. “O julgamento vai começar. Mas eu não sou culpado!”, exclamou, indignado. “Por quê?”

E parou de chorar. Com o rosto voltado para a parede, pôs-se a martelar a mesma coisa: Por quê? Para que tal horror? Mas, por mais que repisasse a questão, não encontrava solução. E quando lhe vinha a idéia de que não vivera como deveria, o que amiudadamente acontecia, lembrava-se logo da correção da sua vida e repelia o insólito pensamento.

Mais uma quinzena se escoou. Ivan Ilitch já não deixava o divã. Não queria ficar na cama. E quase todo o tempo, com o rosto voltado para a parede, sofria solitário os mesmos insolúveis tormentos, martirizava-se com o mesmo insolúvel problema: “O que é isso? Será, realmente, a morte?” E a voz interior lhe respondia: “Sim, é a morte”. “Mas para que tanto sofrimento?” E a voz tornava a responder: “Para nada. Além disso não há nada”.

Desde a primeira consulta ao médico para ver o que tinha, a vida de Ivan Ilitch dividira-se em dois estados de espírito, opostos e alternados: ora desespero e expectativa de uma morte absurda e atroz, da qual nada o salvaria, ora esperança e acurada observação dos seus órgãos, que se recusavam a funcionar regularmente. E, quanto mais progredia a doença, mais ilusórias e fantásticas eram as suas esperanças no rim e no ceco, e mais real o sentimento da morte iminente.

Era suficiente comparar o que fora há três meses com o que era agora e, da simples constatação da derrocada, vinha a certeza de que se afastava de qualquer possibilidade de salvação.

Nos últimos tempos da sua solidão, solidão no meio de uma grande cidade, cercado por inúmeros amigos e parentes e que não poderia ser mais completa nem mesmo no fundo do mar ou nas entranhas da terra, na sua terrível solidão, Ivan Ilitch, com o rosto voltado para o encosto do divã, vivia somente das recordações do passado. Diante dele, um após outro, surgiam os acontecimentos antigos.

Começava sempre pelo mais próximo no tempo, ia depois se transportando para os mais remotos até que chegava à infância, onde parava. Se Ivan Ilitch pensava nas ameixas cozidas que lhe serviram naquele dia, vinham-lhe logo à memória as ameixas secas da sua infância, muito enrugadas, com um gosto todo especial e que provocavam uma abundante saliva quando mordido o caroço; e a lembrança desse gosto desencadeava uma seqüência de outras daquela época: a ama, o irmão, os seus brinquedos. “Não devo pensar em tais coisas. É triste demais”, pensava, e voltava ao presente e, bem diante dos olhos, estavam o botão no encosto do divã e as pregas do marroquim. “O marroquim é caro e pouco durável e nós discutimos bastante a respeito. Mas houve um outro marroquim e uma outra discussão, quando rasgamos a pasta de meu pai, fomos castigados e mamãe nos trouxe bolos às escondidas.” E novamente se detinha na infância, mas as lembranças lhe eram dolorosas e procurava afastá-las pensando em outra coisa.

Paralela a essa cadeia de recordações, perpassava em seu espírito uma outra, relacionada com a evolução e o agravamento da doença. Também aí, à medida que remontava no tempo, se via mais vivo. Havia mais bondade na existência e a vida, propriamente dita, era mais vida. O bem e a vida se fundiam. “Assim como a dor tem sido cada vez pior, também a minha vida fica cada vez pior”, pensava. “Só um ponto luminoso, lá longe, no começo da vida. Depois tudo se torna negro, cada vez mais negro e mais rápido, na razão inversa do quadrado da distância da morte.” E a imagem da pedra que rola com crescente velocidade calou-lhe na mente. A vida, uma série de sofrimentos crescentes, rolava cada vez mais veloz para o seu termo, para o último e mais terrível sofrimento. “Eu estou rolando...” SobressaltaVa-se, agitava-se, tentava lutar, mas já sabia que qualquer resistência era impossível e, de novo, com os olhos fatigados, mas incapazes de deixar de ver aquilo que estava diante deles, fixava o encosto do divã e aguardava a medonha queda, o choque, o aniquilamento.

“Não se pode resistir”, pensou. “Se ao menos pudesse entender por quê? Mas também não posso. Talvez houvesse uma explicação, se se pudesse admitir que eu não vivi como deveria. Mas é absolutamente inadmissível”, e se lembrava da honestidade, da correção, da decência de sua vida.

“Absolutamente inadmissível”, repisava, sorrindo levemente, como se alguém pudesse ver o seu sorriso e se iludir com ele. “Não há explicação! Os sofrimentos, a morte... Para quê?”

Outras duas semanas transcorreram, no meio das quais ocorreu aquilo que Ivan Ilitch e a esposa tanto desejavam: Pietrichtchov fez um pedido formal de casamento.

Foi de noite. No dia seguinte, Praskóvia Fiódorovna entrou no quarto do marido pensando na melhor maneira de lhe comunicar o acontecimento, mas deu-se que naquela noite se agravara o estado dele. Encontrou-o no divã, mas numa posição diferente: de costas e olhando fixamente para o alto.

Começou a lembrar-lhe os remédios; ele, porem, virou os olhos para ela, que não terminou a frase, tal o ódio que se lia naquele olhar, muito especialmente contra ela.

— Pelo amor de Jesus Cristo, deixe-me morrer em paz! — falou.

Ela ia se retirar, mas, no exato momento, entrou a filha para dar bom-dia. Olhou-a do mesmo jeito que olhara a mulher, e, como ela indagasse como ele ia, respondeu com secura que bem depressa todos ficariam livres dele. As mulheres ficaram mudas e, após se sentarem um pouco, saíram.

— Que culpa é a nossa? — disse Lisa à mãe. — Não fomos nós que inventamos a doença! Tenho pena de papai, mas por que razão ele nos atormenta assim?

Na hora costumeira, o médico veio. Ivan Ilitch respondia apenas “sim” e “não”, sem tirar dele os olhos pesados de rancor. Por fim disse:

— O doutor está farto de saber que não pode fazer nada por mim. Então, me deixe quieto.

— Podemos aliviar os seus sofrimentos.

— Não podem, não. Deixem-me!

O médico foi para a sala de visitas e comunicou a Praskóvia Fiódorovna que as coisas iam mal e que só lhe restava o recurso do ópio para abrandar as dores, que seriam tremendas.

Não mentia o doutor, mas as dores morais de Ivan Ilitch eram infinitamente piores do que as físicas. Resultavam do fato de, naquela noite, ao contemplar o rosto de Guerássim, sonolento, bondoso, de maçãs salientes, acudira-lhe à mente a seguinte indagação: “E se toda a minha vida, a minha vida consciente, tivesse sido realmente errada?”

Ponderou que aquilo que antes acreditava ser totalmente impossível, isto é, não ter vivido como deveria, podia ser verdade. Considerou que as pequeninas tentativas que fizera, tentativas quase imperceptíveis e que logo sufocava, para lutar contra o que era considerado acertado pelas pessoas mais altamente instaladas na sociedade, podiam representar o lado autêntico das coisas, sendo falso tudo o mais. E que os seus deveres profissionais, sua vida regrada, a ordem familiar e todos os interesses mundanos e oficiais, não passassem de grandes mentiras. Tentou defender tudo aquilo perante si mesmo e, de repente, atinou com a fragilidade da sua defesa. Não, não havia nada a defender.

“Mas, se assim é, estou eu saindo da vida com a plena consciência de ter destruído tudo o que me foi concedido e, se a perda é irreparável, que irei fazer?”, pensou. E, deitado de costas, pôs-se a passar em revista a sua vida de maneira completamente diversa.

De manhã, quando apareceram sucessivamente o criado, a mulher, a filha e o médico, cada palavra, cada gesto deles era a confirmação da tremenda verdade que lhe fora revelada de noite. Reviu-se em cada um — sua existência fora precisamente o que era a deles. E viu de forma espantosamente clara que não passava ela dum imenso e horrendo embuste, que escondia a vida e a morte. Tal certeza intensificou, decuplicou os seus sofrimentos físicos. Gemia, remexia-se, empurrava as cobertas que o incomodavam, o abafavam. E odiava todos os que o cercavam.

Deram-lhe uma dose forte de ópio e ele adormeceu, mas, na hora do jantar, tudo recomeçou. Enxotou todos do quarto e entrou a se debater no divã.

Praskóvia Fiódorovna acercou-se dele e disse:

— Jean, meu querido, faça isto por mim. Não pode lhe fazer mal e até muitas vezes alivia. Mesmo as pessoas sas...

Ele arregalou os olhos:

— O quê? A extrema-unção? Para quê? Não, não é preciso. Todavia...

Ela rompeu em pranto.

— Faz, meu querido? Eu vou mandar chamar o nosso padre. Ele é tão bom!

— Está bem. Mande.

Veio o padre e ouviu a confissão. Ivan Ilitch relaxou-se, sentiu como que um atenuamento das suas dúvidas e, conseqüentemente, dos seus sofrimentos. Baixou sobre ele um pequenino raio de esperança e entrou a pensar no ceco e nos meios de curá-lo. Comungou com os olhos cheios de lágrimas.

Quando de novo o deitaram, após a comunhão, mostrou-se aliviado por uns instantes e reacendeu-se nele a pequena chama da esperança. Começou a pensar na operação que lhe haviam aconselhado. “Viver! Eu quero viver!”, gritava intimamente.

A mulher veio felicitá-lo, disse as costumeiras palavras e acrescentou:

— Está se sentindo melhor, não está?

— Sim — confirmou ele, sem olhá-la.

Seu vestido, seu porte, sua fisionomia, o tom da sua voz, tudo lhe dizia: “Não é nada disto. Tudo aquilo pelo que você viveu, e ainda vive, é falsidade, empulhação, que esconde de você a vida e a morte”. E, apenas pensou isso, reanimou-se nele o seu ódio e, com o ódio, os sofrimentos físicos e, a par deles, a certeza do fim próximo e inevitável. E uma nova sensação de dor verrumava-o, transpassava-o, sufocava-o.

A expressão do seu rosto, quando disse “Sim”, fora atroz. Depois de ter proferido o “Sim”, fixou duramente a mulher e, com uma rapidez incomum para o seu depauperamento, virou-se de bruços, afundou o rosto no travesseiro e berrou:

— Vão embora! Vão embora! Deixem-me em paz!

X

A partir daquele momento, começaram os gritos, que se prolongaram por três dias, e tão horríveis que não se podia ouvi-los, mesmo através de duas portas fechadas, sem que os nervos não se abalassem. No mesmo instante em que respondera à mulher compreendera que estava liquidado, que chegara ao irremediável fim, mas que as suas dúvidas permaneciam sem resposta.

“Ai! Ai! Ai!”, gritava em diferentes tons. Começara por um “Não quero!” e continuara naquele “Ai! Ai! Ai!”, sem interrupção.

Durante três dias inteiros, nos quais o tempo deixou de existir para ele, debateu-se contra aquele saco negro, para dentro do qual era empurrado por uma força invisível e irresistível. Debatia-se como um condenado à morte nas mãos do carrasco, sabendo que não poderia escapar. E a cada segundo percebia que, não obstante seus desesperados esforços, mais se aproximava daquilo que o atemorizava. Sentiu que a sua agonia era devida à penetração no saco negro e ainda mais pelo fato de não poder escorregar logo para dentro dele. E o que o impedia de entrar era a convicção de que a sua existência tinha sido boa. E tal justificativa o retinha, impedia de ir para a frente, e o torturava mais que tudo.

Súbito, uma força desconhecida vibrou no lado do seu peito um violento golpe, que lhe cortou a respiração, e ele entrou no saco e, lá bem no fundo, viu brilhar uma luz. Experimentou, então, o que antes já experimentara num trem — quando pensava que estava andando para a frente, e o trem recuava, bruscamente verificara a verdadeira direção da marcha.

“Sim, era tudo outra fazer coisa”, pensou. “Mas não tem importância. Pode-se ainda aquilo. Mas aquilo o quê?”, perguntou, e de repente ficou sereno.

Isso foi no terceiro dia, poucas horas antes da sua morte. E, precisamente nesse momento, o menino entrou no quarto sem fazer ruído e acercou-se do leito. O moribundo não parava de berrar desesperadamente agitando os braços.

Sua mão encontrou a cabeça do filho e o menino agarrou-a, apertou-a contra os lábios e desatou a chorar. Justamente aí, Ivan Ilitch caía no fundo do saco, divisava a luz e percebia que a sua vida não fora o que deveria ter sido, mas ainda podia ser reparada. Perguntou a si mesmo:

“O que é aquilo?” E ficou silencioso, atento. Sentiu, então, que alguém lhe beijava a mão. Abriu os olhos, viu o filho e teve pena dele. A mulher se aproximou. Olhou-a. Ela também o olhava, com a boca aberta, numa expressão de desespero, as lágrimas escorrendo pelo nariz e pelas faces. Teve pena dela também.

“Sim, estou a atormentá-los”, pensou. “Eles lamentarão, mas estarão melhor quando eu tiver morrido.” Quis dizer o que sentia, porém não teve força. “Aliás, para que falar? Devo é agir”, pensou. Com um olhar à mulher, indicou o filho e falou: Leve-o daqui... Tenho pena dele... E de você também... Tentou acrescentar: “Perdoe-me”, mas disse: — Passe bem — e, não tendo mais força para corrigir o lapso, esboçou um gesto com a mão, sabendo que Aquele a quem se entregava devia compreendê-lo.

E, de repente, percebeu com nitidez que aquilo que o atormentara e o oprimia se ia dissipando, escoando para fora do seu corpo por todos os lados ao mesmo tempo.

“Ivan Ilitch tem piedade deles, não deve mais fazê-los sofrer. É preciso libertá-los e libertar ele próprio de tais tormentos. Como é bom, como é simples”, pensou. “E a dor?”, perguntou em seu íntimo. “Que fim levou? Onde estás, minha dor?” E prestou atenção. “Ah, ei-la! E daí? É deixá-la doer. E a morte? Onde está?” Procurou o seu habitual medo da morte e não o encontrou. “Onde ela está? Que morte?” Não tinha mais medo, porque também a Morte desaparecera de sua frente. Em lugar dela, via luz. “Então é isso!”, exclamou de repente em voz alta. “Que alegria!”

Foi tudo isso obra de um instante, e a significação desse instante não se modificou mais. Para os que o cercavam, porém, a sua agonia ainda durou duas horas. Seu peito estertorava, o corpo, esquelético, estremecia. Pouco a pouco os estertores e tremores foram rareando.

— Acabou! — disse alguém perto dele.

Ele ouviu a palavra e repetiu-a na alma. “Acabou a morte. A Morte já não mais existe!”, ainda pensou. Aspirou profundamente, deteve-se a meio, inteiriçou-se e morreu.

Fonte: www.esnips.com

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