No fim do almoço, separaram-se. Eugénio foi, como de costume, para o escritório. Não lia nem escrevia; sentado, fumava cigarro atrás de cigarro. O que o surpreendia e entristecia penosamente eram os pensamentos que, de repente, lhe vieram à cabeça, tanto mais que, desde que casara, se supunha liberto deles. Com efeito, a partir dessa data, não voltara a ter relações com Stepanida, nem com outra mulher que não fosse a sua. Intimamente regozijava-se com essa libertação, mas eis que, de súbito, como por acaso, verificava não
estar de todo liberto, posto que tais sentimentos viviam dentro de si, incisivos e indomáveis.Precisava de escrever uma carta. Sentou-se à secretária para esse efeito. Escrita a carta, esquecido completamente dos pensamentos de há pouco, dirigiu-se para a estrebaria. E, de novo, como de propósito ou por um infeliz acaso, quando ia a descer a escada, viu na sua frente a saia vermelha, o lenço vermelho e, balançando os braços requebrando o corpo, ele passou à sua frente. Não só passou à sua frente, mas deu também uma pequena corrida, como se estivesse a brincar com ele. Neste momento, vieram-lhe à imaginação o meio dia brilhante, as urtigas, Danilo, a cabana e, à sombra dos plátanos, uma boca risonha que mordiscava folhas...
Não, é impossível deixar isso tudo, disse ele, e, esperando que as duas mulheres desaparecessem, tornou ao escritório. Era meio dia em ponto e contava lá encontrar o feitor que, com efeito, acabava de acordar. Espreguiçando-se e bocejando, olhava para o vaqueiro, que lhe dizia qualquer coisa.
- Vassili Nicolaievitch! - Queira dizer, senhor.
- Preciso de lhe falar.
- Estou às suas ordens! - Acabe o que estava a dizer.
- Verás que não podes com ele... - disse Vassili Nicolaievitch, voltando-se para o vaqueiro.
- É pesado, Vassili Nicolaievitch.
- Que há? - perguntou Eugénio.
- Foi uma vaca que pariu no campo.
- Bem. Vou dar ordens para arrearem Nicolau que leve um carro dos grandes.
O vaqueiro saiu.
- Veja lá, Vassili Nicolaievitch, o que me havia de acontecer... - começou Eugénio, corando e sentando-se. - Calcule que em solteiro tive uma ligação... Talvez tenha ouvido falar nisso.
Vassili Nicolaievitch sorriu e, mostrando-se compadecido, perguntou: - Trata-se da Stepanida? - Sim. Peço-lhe, que não torne a contratá-la para trabalhar cá em casa. Compreenderá que isso é muito desagradável para mim...
- Foi o criado Ivan, quem possivelmente, deu essa ordem.
- Então, ficamos entendidos. Não acha que faço bem? - disse Eugénio para esconder a sua confusão.
- Vou já tratar disso.
E Eugénio tranquilizou-se pensando que, se passara um ano sem a encontrar, não seria difícil esquecê-la definitivamente. De resto, Vassili Nicolaievitch falará ao criado, este por sua vez falará a Stepanida, e ela compreenderá a razão por que não quero vê-la aqui, dizia consigo Eugénio, satisfeito por ter tido a coragem de se abrir com Vassili Nicolaievitch, embora isso lhe tivesse custado. «Sim, tudo, menos esta vergonha». E estremecia, só com a lembrança desse crime.
O esforço moral que fez, para ter aquele desabafo com Vassili Nicolaievitch e lhe dar aquela ordem, serenou Eugénio. Parecia-lhe que tudo estava arrumado e até Lisa notou que o marido voltava inteiramente calmo e mesmo mais alegre do que era costume. Se calhar estava aborrecido por causa das discussões entre minha mãe e a dele. Realmente, com a sua sensibilidade e o seu nobre carácter, é sempre desagradável ouvir alusões, hostis e de tão mau gosto, pensava Lisa.
O tempo estava lindo. As mulheres, segundo uma velha tradição, foram ao bosque apanhar flores, com as quais teceram coroas e, aproximando-se da escadaria da casa senhorial, puseram-se a dançar e a cantar. Maria Pavlovna e Bárbara Alexievna, com os seus elegantes vestidos, saíram para o terraço e acercaram-se da roda para ver as camponesas. O tio, um bêbedo muito devasso, que passava o verão com Eugénio, seguia-as, envergando um trajo chinês.
Como de costume, havia uma grande roda gritante de cores vivas, de mulheres novas e de raparigas, roda que era como o centro de toda aquela animação. Em volta dela, de todos os lados, como planetas que giram em torno do astro principal, raparigas de mãos dadas faziam rodar as saias; os rapazes riam com satisfação e por tudo e por nada, corriam e agarravam-se uns aos outros; os mais velhos, de poddiovka azul e preta, com bonés e blusas encarnadas, quando passavam, faziam estalar entre os dedos sementes de girassol; os criados e os estranhos olhavam, de longe, a roda.
As duas senhoras aproximaram-se mais; Lisa pôs-se atrás delas, vestida de azul, com uma fita da mesma cor no cabelo, mostrando os braços bem torneados e brancos, e os cotovelos que saíam das largas mangas. Eugénio não desejava aparecer, mas seria ridículo esconderse.
Apareceu, pois, na escadaria, de cigarro na boca; saudou os rapazes e os camponeses e dirigiu-se a um deles. Nesse momento, as raparigas cantavam, batiam palmas e saltavam em animada roda.
- A senhora chama-o - disse-lhe um criado aproximando-se dele. Lisa chamava-o para que ele visse uma das mulheres que melhor dançava. Era Stepanida. Vestia saia amarela, corpete sem mangas e ostentava lenço de seda. Estava enérgica, corada e alegre. Era, não havia dúvida, certo que dançava muito bem, mas Eugénio nem sequer deu por isso.
- Sim, sim, - respondeu ele enquanto tirava e voltava a pôr os óculos.
Desta forma nunca mais me vejo livre dela!, pensou. E não a fitava porque receava o seu encontro; mas, assim mesmo, olhando de soslaio, achou-a extraordinariamente insinuante.
Além disso, lia-lhe nos olhos que ela também o via e se sabia admirada. Demorou-se apenas o bastante para não parecer grosseiro e, percebendo que Bárbara Alexievna o chamava, tratando-o com afectada hipocrisia por «querido», voltou as costas e foi-se embora.
Regressou a casa para não a ver, mas, quando subiu ao andar superior, sem saber como nem porquê, abeirou-se da janela e ali ficou a olhar para Stepanida, embevecido, enquanto as duas senhoras e Lisa se conservavam perto da escadaria. Depois, retirou-se para que o não vissem e voltou para o terraço. Acendeu um cigarro e desceu ao jardim ao encontro da camponesa. Mal tinha dado dois passos na alameda, quando, por entre as árvores, descortinou o seu colete sem mangas sobre a blusa cor-de-rosa e o lenço encarnado. Ia com outra mulher. Para onde? De repente apoderou-se dele um desejo irreprimível, ardente.
Como se obedecesse a uma força estranha, Eugénio dirigiu-se-lhe.
- Eugénio Ivanovitch! Eugénio Ivanovitch! Quero pedir-lhe um favor - disse, por detrás dele, uma voz.
Era o velho Samokhine, encarregado de abrir um poço. Parou, retrocedeu bruscamente e encaminhou-se para ele. Finda a conversa, voltou a cabeça e viu que as duas mulheres se dirigiam para o poço ou, pelo menos, tomavam esse caminho. Porém, não se demoraram e voltaram novamente para a roda.
Despedindo-se de Samokhine, Eugénio voltou a casa tão deprimido como se tivesse cometido um crime. Primeiro, Stepanida convenceu-se de que ele desejava vê-la; segundo, a outra, essa Ana Prokhorova, sabia de tudo, evidentemente. Sentiu-se abatido. Tinha a consciência de que perdera o domínio de si próprio, que era impelido por uma força estranha, que desta vez tinha escapado, por milagre, mas que, mais cedo ou mais tarde,
sucumbiria.Sim, estava perdido! Atraiçoar a sua jovem e terna esposa com uma camponesa! Aliás toda a gente o sabia! Era a derrocada da sua vida conjugal, fora da qual ele não poderia viver.
Não, não! É preciso arrepiar caminho. Mas que devo fazer? Tudo o que me for possível, para deixar de pensar nela.
Não pensar!... E era precisamente nela que continuava à pensar! Via-a diante de si, até na sombra dos plátanos! Lembrou-se de que tinha lido algures a história dum velho que, para fugir à sedução duma mulher sobre a qual devia colocar a mão direita, a fim de a curar, punha, no entanto, a esquerda por cima de uma fogueira. «Sim, estou disposto a queimar a mão, mas não quero sucumbir». Olhando à volta de si e vendo que se encontrava só no quarto, acendeu um fósforo e chegou-o aos dedos. Bem, agora pensa nela!, disse com ironia. Mas, sentindo queimar-se, retirou os dedos e atirou para o chão o fósforo, acabando por se rir de si mesmo.
«Que estupidez! Não é preciso fazer isto. O que é preciso é tomar providências para que não a torne a ver. Afastar-me ou afastá-la. Sim, é melhor afastá-la. Dar-lhe dinheiro para que se instale com o marido noutra parte. Isto começará a constar. Depois será o tema das conversas de toda a gente. Tudo, menos isso. Sim, tem de ser, dizia ele sem a perder de vista. Aonde é que ela vai? perguntou a si próprio. Pareceu-lhe que Stepanida o vira perto da janela e, depois de o envolver num olhar significativo ia, de braço dado com a outra mulher, para os lados do jardim, requebrando-se.
Mesmo sem dar por isso, Eugénio dirigiu-se ao escritório. Vassili Nicolaievitch, de blusão novo, tomava chá com a mulher e uma visita.
- Diga-me, Vassili Nicolaievitch, pode dar-me atenção por um momento? - Porque não? Aqui me tem.
- Não, vamos antes lá para fora.
- É para já. Passa-me o chapéu, Tamia, e tapa o samovar - disse Vassili Nicolaievitch, acompanhando Eugénio, de bom humor.
A este, pareceu-lhe, que Vassili Nicolaievitch tinha bebido uma pinga a mais; mas talvez fosse melhor assim, talvez encarasse com mais simpatia o caso que lhe ia expor.
- Ouça. Vassili Nicolaievitch, queria falar-lhe novamente acerca daquela mulher...
- Que há? Eu já dei ordem para que não voltem a chamá-la.
- Não é isso! Pensando melhor, não seria possível mandá-la daqui para fora? A ela e toda a família? É um conselho que desejo pedir-lhe.
- Mandá-los, para onde? - perguntou Vassili Nicolaievitch, com estranheza e Eugénio interpretou aquelas palavras com descontentamento e ironia.
- Pensei que lhes podia dar dinheiro ou até algum terreno em Kholtovskoié, mas com a condição de ela não permanecer aqui mais tempo.
- Mas como se há-de expulsar essa gente? Como poderemos nós arrancá-los da sua terra? Que mal lhe causa a sua presença? Em que é que os incomodam, senhor? - É que, Vassili Nicolaievitch, você deve compreender, se uma coisa destas chegasse aos ouvidos de minha mulher, seria terrível...
- Mas quem terá o atrevimento de lho dizer? - Depois, seria para mim uma tortura constante viver, dia a dia, hora a hora, com receio de que ela viesse a saber...
- Não se apoquente. «Quem se recorda de faltas passadas, não mostra muito tino, e quem não pecou diante de Deus não é culpado perante o czar».
- Em todo o caso, acho que seria preferível levá-los para fora daqui. Você não poderia tocar nisto ao marido? - Mas para quê? Para que é que o senhor anda com esses escrúpulos? São coisas que acontecem. E agora, quem se atreveria a censurá-lo? Ora! - Tenha paciência... fale com o homem...
- Bem, já que assim o quer, falarei, embora eu esteja convencido de que nada se arranjará.
Esta conversa fez serenar um pouco Eugénio. Chegou até a acreditar que, por causa do seu receio, exagerara o perigo em que estava. Afinal, voltara a ter qualquer entrevista com ela? Não, muito simplesmente, ia dar uma volta pelo jardim quando, por acaso, ela surgira. No dia da Trindade, depois do jantar, Lisa, passando pelo jardim, quis saltar uma valeta para ver no prado um pé de trevo que o marido desejava mostrar-lhe, mas, ao fazê-lo, deu um trambolhão. Caiu suavemente, de lado, soltou um ai e Eugénio viu-lhe na cara uma expressão de sofrimento. Quis levantá-la mas ela afastou-o com a mão.
- Não, Eugénio, espera um bocadinho - disse com um sorriso forçado - parece que desloquei um pé.
- Vês? Há muito tempo que eu ando a dizer-te que, no estado em que estás não deves andar aos saltos - censurou Bárbara Alexievna.
- Não, não é nada, mamã. Eu levanto-me já.
Levantou-se com a ajuda do marido, mas no mesmo instante empalideceu e o terror estampou-se-lhe no rosto.
- Sim, parece que não me sinto bem - segredou-lhe, para que a mãe não ouvisse.
- Ah, meu Deus, o que fizeram? Eu bem lhe dizia que não andasse tanto - gritava Bárbara Alexievna. - Esperem, que eu vou chamar alguém. Ela não deve caminhar. É preciso levála.
- Não tens medo, Lisa? Eu levo-te - disse Eugénio, passando-lhe o braço esquerdo à volta da cinta.
- Segura-te no meu pescoço. Vamos, isso mesmo - e, inclinando-se, levantou-a com o braço direito. Nunca mais Eugénio esqueceu a expressão contristada e ao mesmo tempo feliz que se reflectia no rosto de Lisa.
- Não achas que peso muito, meu amor? - perguntou-lhe ela sorrindo. - Olha a mamã a correr! - E, dobrando-se para ele, beijou-o.
Eugénio gritou a Bárbara Alexievna que não se afligisse porque ele podia bem com Lisa.
Mas a sogra, parando, começou a gritar ainda com mais força: - Tu deixa-la cair, pela certa. Olha que a matas! Não tens a consciência...
- Posso bem com ela, esteja descansada...
- Não posso, não quero ver a morte da minha filha - e correu para o fundo da alameda.
- Isto não é nada, vais ver - afirmou Lisa a sorrir.
- Oxalá que não suceda como da outra vez! Embora Lisa pesasse um pouco, Eugénio, orgulhoso e alegre, transportou-a até casa, não querendo entregá-la à criada de quarto nem ao cozinheiro, que Bárbara Alexievna encontrara e mandara ao encontro deles. Levou Lisa até ao quarto e deitou-a na cama estendendo-a ao comprido.
- Bem, vai-te embora - disse ela e, puxando-lhe a mão, beijou-o. - Nós cá nos arranjaremos, eu e Annuchka.
Maria Pavlovna viera também, a correr. Enquanto despiam Lisa e a metiam no leito, Eugénio, sentado numa sala próxima, com um livro na mão, esperava. Bárbara Alexievna passou diante dele com um ar tão mal encarado e tão carregado de censuras que deixou o genro aterrado.
- Que aconteceu - inquiriu.
- Para que o perguntas? Aconteceu o que possivelmente desejavas ao obrigares tua mulher a saltar a valeta.
- Bárbara Alexievna! - exclamou ele indignado. - Eu não lhe admito tais insinuações! Se me quer atormentar e envenenar a vida... ia continuar: «Vá-se embora», mas suspendeu a frase.
A senhora não tem vergonha de me atribuir essas ideias? Não percebo porquê? - Agora já é tarde! - e retirou-se, sacudindo com violência a coifa, ao transpor a porta. E saiu.
A queda fora efectivamente desastrosa. O pé deslocara-se, mas o pior era que o abalo sofrido podia ocasionar um aborto. Toda a gente sabia que, naquela emergência, nada havia a fazer. O mais recomendável era deixá-la repousar. Apesar disso, resolveram chamar o médico quanto antes.
«Meu prezado Nicolau Semiwovitch - escreveu Eugénio - você tem sido sempre muito amável para connosco e, por isso, mais uma vez lhe peço que venha acudir a minha mulher; ela... etc.».
Depois de escrever a carta, dirigiu-se à cavalariça, a fim de indicar qual o carro e os cavalos que deviam seguir para trazer o médico. Depois, voltou para casa. Eram aproximadamente dez horas da noite. Lisa, na cama, dizia que já se sentia bem e que nada lhe doía. Bárbara Alexievna, sentada à cabeceira, oculta por detrás duma rima de papéis de música, trabalhava numa grande coberta vermelha e o seu rosto denunciava que, depois do que se passara, não voltaria a haver paz naquela casa.
- Os outros podem fazer o que quiserem; eu cá entendo que já cumpri o meu dever.
Eugénio compreendia bem os sentimentos que a animavam, mas fingia não dar por isso.
Contou, com ar satisfeito e desembaraçado, que já tinha enviado a carruagem e que a égua Kavuchka puxava muito bem, engatada à esquerda.
- Quando se trata de pedir socorros urgentes é realmente ocasião propícia a experiências com cavalos? Oxalá que se não atire também com o doutor para algum barranco - disse Bárbara Alexievna, olhando fixamente detrás dos óculos, para o trabalho, que chegara agora para junto da lâmpada e sobre o qual se inclinara.
- De qualquer modo, era preciso mandá-lo buscar... Fiz o que me pareceu melhor.
- Sim, lembro-me muito bem de que os seus cavalos quase me atiraram contra uma escada...
Era uma invenção sua, já antiga; mas, desta vez, Eugénio cometeu a imprudência de afirmar que as coisas não se tinham passado como ela pretendia mostrar.
- Razão tenho eu para dizer... e quantas vezes já o disse ao príncipe, que muito me custa viver com gente injusta e falsa. Suporto tudo, mas isso não. Nunca! - Se a alguém isto custa, é principalmente a mim - afirmou Eugénio.
- Bem se vê! Claro! - Mas que é que se vê? - Nada. Estou a contar as malhas.
Nesse momento, Eugénio encontrava-se perto do leito. Lisa fitava-o. Com uma das mãos, que tinha fora das roupas, ela pegou-lhe na dele e apertou-a. «Tem paciência, por mim, ela não impedirá que nos amemos», dizia o seu olhar.
- Não farei nada - murmurou ele beijando-lhe a mão húmida e, depois, os belos olhos, que se fecharam languidamente.
- Será como da outra vez? - perguntou ele. - Como te sentes? - É horrível pensar nisso, mas julgo que o menino vive e viverá - respondeu ela, olhando para o ventre.
- Ah! é terrível, é terrível mesmo só pensar nisso.
Apesar da insistência de Lisa para que se retirasse, Eugénio ficou até junto dela; dormitava, mas pronto a dispensar-lhe os seus cuidados. A tarde correu bem; se não esperassem pelo médico, talvez ela se levantasse. O médico chegou à hora da ceia. Disse que, embora tais acidentes pudessem ser perigosos, não havia indícios concretos e portanto só poderiam formular-se hipóteses. Aconselhou a que ficasse de cama e tomasse determinados medicamentos, posto que fosse contrário a drogas. Além disso, dissertou largamente sobre a anatomia da mulher; Bárbara Alexievna escutava-o meneando a cabeça com ar de importância. Depois de receber os seus honorários, colocados na concha da mão como é da praxe, o médico retirou-se e Lisa ficou de cama durante uma semana.
Eugénio passava a maior parte do tempo junto da mulher. Tratava-a, conversava com ela, lia-lhe qualquer coisa e até suportava, sem enfado, Bárbara Alexievna, chegando mesmo a gracejar com ela. Mas não podia estar sempre em casa. Lisa mandava-o embora, receando que a sua permanência ali o aborrecesse, e ainda porque a propriedade necessitava constantemente da sua presença. Não podia estar sempre em casa. E Eugénio lá partiu, percorrendo os campos, o bosque, o jardim, o pomar; por toda a parte o perseguia a lembrança e a imagem de Stepanida; só raramente conseguia esquecê-la. Mas isso era o menos, porque talvez pudesse vencer esse sentimento: o pior é que dantes passava meses sem a ver e agora encontrava-a a cada passo. Stepanida compreendera, sem dúvida, que ele desejava reatar as antigas relações e procurava atravessar-se-lhe no caminho. Mas, como
nada tinham combinado, não havia entrevistas.Fazia apenas o possível para se encontrar com ele, como que por acaso.
O melhor lugar para tal era o bosque, onde as mulheres iam buscar sacos de erva para as vacas. Eugénio sabia disto e todos os dias passava por esses sítios. E todos os dias resolvia não voltar lá. Mas não passava um dia sem lá ir. Quando ouvia vozes, parava, com o coração a palpitar. Escondia-se atrás de uma moita, para ver se era Stepanida... Se fosse ela, ainda que estivesse só, não iria ao seu encontro, pensava ele. - Não, fugir-lhe-ia, mas tinha necessidade de a ver. Sim, tinha.
Uma vez encontrou-a. Ia a entrar no bosque quando ela saía com outras mulheres, levando um grande saco de erva às costas. Se tivesse vindo um instante mais cedo, talvez a tivesse encontrado no bosque; agora, porém, diante das outras mulheres, não poderia ir ter com ela.
Apesar disso, correndo o risco de chamar a atenção das companheiras, Eugénio conservouse atrás dum massiço de aveleiras. Como era natural, ela não apareceu e ele ali ficou por muito tempo. Meu Deus! com que atractivos ele a revia na sua imaginação! E não era uma vez, eram muitas, muitas vezes, cada vez mais viva e real... Nunca lhe parecera tão sedutora e nunca a possuira tão completamente.
Sentia que já não era bem senhor de si; aquilo enlouquecia-o. No entanto, não deixava de ser severo consigo próprio; compreendia a monstruosidade dos seus desejos e até dos seus actos. Sabia que, se a encontrasse em qualquer parte, num lugar escuro, bastaria tocar-lhe para que a sua paixão o empolgasse. Sabia que só se continha por vergonha dos outros, dela e talvez de si. E sabia que procurava forma de ocultar essa vergonha e pensava num lugar escuro ou num contacto que viesse saciar-lhe a paixão.
Considerava-se, assim, um miserável, um criminoso, desprezava-se e abominava-se, indignado. E detestava-se por não ter cedido. Rogava a Deus diariamente que o fortalecesse, que o livrasse da perdição. Resolvia diariamente não dar mais um passo, nunca mais a fitar, esquecê-la; imaginava diariamente todos os meios de se libertar dessa obsessão e punha-os em prática. Mas tudo era em vão.
Um dos meios consistia em ocupar o seu espírito com qualquer outra ideia: outro era o trabalho físico e o jejum; um terceiro, a reflexão da vergonha que sobre ele cairia quando toda a gente, a mulher e a sogra viessem a saber. Fazia tudo isto e supunha dominar-se, mas, quando chegava ao meio-dia, a hora das antigas entrevistas, a hora em que costumava encontrá-la com o saco da erva, corria para o bosque só para a ver.
Assim passaram cinco penosos dias. Só a via de longe; nunca se aproximava dela.
Lisa melhorava pouco a pouco; já dava pequenos passeios mas inquietava-se com a mudança do marido, cuja causa ela não compreendia. Bárbara Alexievna retirou-se por algum tempo e em casa apenas ficaram o tio e Maria Pavlovna. Eugénio encontrava-se nesse estado de angústia, quando chegaram as grandes chuvas que se prolongam por alguns dias, como sucede sempre depois das tempestades de Junho. As chuvas fizeram suspender todos os trabalhos: não se podia juntar o estrume por causa da humidade e da lama e os camponeses esperavam em casa; os pastores dificilmente conseguiam meter os rebanhos nos redis, as vacas e os carneiros invadiam os pátios, e as mulheres descalças e de xale, patinhando na lama, procuravam os animais tresmalhados. Os caminhos estavam transformados em ribeiros, as folhas e a erva estavam ensopados, os riachos e as lagoas transbordavam. Eugénio ficara em casa com a mulher, que começara a sentir-se um pouco agoniada. Lisa várias vezes interrogara o marido sobre a causa daquela mudança de disposição, mas ele respondia-lhe com enfado dizendo que não tinha nada. Lisa desistira
por fim de o interrogar e ficara triste.Uma tarde, depois do almoço, estavam todos reunidos no salão e pela milésima vez o tio contava as suas aventuras mundanas. Lisa trabalhava num casaquinho de bebé e suspirava, queixando-se do mau tempo e de dores nos rins. O tio pediu vinho e aconselhou-a a que se deitasse. Eugénio aborrecia-se muito em casa; tudo ali lhe era desagradável. Fumava e lia, mas sem compreender o que lia. «Tenho que sair para ver o que se passa», disse, e levantou-se para sair.
- Leva o guarda-chuva.
- Não, tenho o casaco de couro, e não vou ao bosque.
Calçou as botas, vestiu o casaco de couro e foi até à refinaria. Mas ainda não tinha dado vinte passos quando encontrou Stepanida com a saia arregaçada até ao joelho, mostrando a perna branca. Caminhava segurando, com as mãos o xale que lhe cobria a cabeça e os ombros.
- Que procuras? - perguntou sem saber com quem falava.
Quando a reconheceu já era tarde. Ela parou, sorriu, fitou-o demoradamente.
- Procuro um bezerrinho. Onde vai o senhor com este tempo? - perguntou como se se vissem todos os dias.
- Vamos à cabana - disse Eugénio sem mesmo dar pelas palavras que pronunciara.
Ela fez, com os olhos, um sinal de assentimento e dirigiu-se para o jardim direita à cabana; ele seguiu o seu caminho com intenção de contornar o massiço de lilazes e ir juntar-se-lhe.
- Senhor! - gritaram-lhe atrás - a senhora pede-lhe que vá a casa depressa.
Era o criado Miguel. Meu Deus! salvaste-me pela segunda vez!, pensou Eugénio; e voltou logo para casa. Lisa queria lembrar-lhe que ele prometera uma poção a certa doente e pedia-lhe que não se esqueceria de a arranjar.
Decorreram quinze minutos enquanto preparava a poção e, quando saiu, não se atreveu a ir directamente à cabana receando que alguém o visse. Mal percebeu que o não viam, deu uma volta e dirigiu-se para a cabana. Sonhava vê-la ali sorrindo alegremente, mas não a encontrou, e não havia indício de lá ter estado. Pensou que não tivesse ido, que não compreendesse ou não ouvisse as suas palavras murmuradas entre dentes, ou que talvez não o quisesse. «E porque razão havia de lançar-se-me ao pescoço?» interrogara. «Tem o marido. Eu é que sou um miserável; tenho uma linda mulher e ando atrás de outra».
Sentado na cabana onde a água escorria a um canto, Eugénio pensava. Que felicidade se ela tivesse vindo! Sozinhos ali, com aquela chuva! Possuí-la ao menos uma vez, quaisquer que fossem as consequências! «Ah, sim - lembrou-se - se ela veio deve ter deixado rasto».
Olhou para o chão, para um carreirinho sem relva e notou as pegadas de um pé descalço.
Sim, ela tinha vindo. Já não hesitaria. Onde quer que a visse, iria ter com ela. Iria a sua casa, de noite. Esteve muito tempo na cabana acabando por se afastar ansioso e cansado.
Levou a poção, regressou a casa e deitou-se à espera da hora do jantar.
Antes disso, Lisa foi ter com ele, dissimulando tanto quanto pôde a sua tristeza. Informou-o de que pretendiam levá-la para Moscovo, antes do parto; mas que ela, receando que esse projecto desagradasse a Eugénio, resolvera ficar e que, por nada sua alma, tinha Eugénio tanta lama, tanta fraqueza - um amedrontava por temer não dar à luz uma criança fisicamente bem constituída, e por isso enterneceu-o a facilidade com que ela se prestava a sacrificar tudo ao seu amor. Na sua casa achava que tudo era bom, alegre, puro e, no entanto, na coisa. «Mas é impossível!» dizia ele passeando no quarto, um horror! Durante o serão pensou que, apesar da sua sincera repugnância pela fraqueza que o subjugava e apesar da decidida intenção de lhe escapar, no dia seguinte aconteceria a mesma coisa. «Não, é impossível» dizia ele passeando no quarto, dum lado para o outro. «Deve existir qualquer solução para esta miséria. Meu Deus, que devo eu fazer?»
Alguém bateu à porta duma maneira especial. Percebeu que era o tio.- Entre! - disse secamente.
O tio vinha como emissário, mas espontaneamente, falar-lhe de Lisa.
- Tenho ultimamente observado em ti uma certa mudança e compreendo que certamente isso há-de afligir a tua mulher. É certo que te será aborrecido teres de abandonar a empresa em que te meteste, mas hás-de ter paciência. Eu penso que deverias sair daqui com ela.
Ambos ficariam mais sossegados. Não achava mal que fossem até à Crimeia: o clima é esplêndido, há lá um afamado parteiro e vocês chegariam justamente na época das chuvas.
- Tio - disse emocionado Eugénio - posso confiar-lhe um segredo, um segredo horrível, vergonhoso mesmo? - Então desconfias de teu tio? - O tio pode auxiliar-me! E não apenas isso, mas salvar-me até - disse Eugénio. E a ideia de se abrir com o parente, que aliás não estimava, o pensamento de se lhe apresentar sob o aspecto mais miserável agradava-lhe. Reconhecia-se fraco, culpado, e queria, portanto, castigar-se, punir-se de todos os seus pecados.
- Podes falar, Eugénio: bem sabes como sou teu amigo - segredou-lhe visivelmente lisonjeado por descobrir um segredo, um segredo escandaloso de que seria confidente, além de que poderia ser útil ao sobrinho.
- Antes de mais nada, quero dizer-lhe que sou um canalha.
- Que estás para aí a dizer? - Que estás para aí a dizer? - Como é que não hei-de considerar-me um criminoso, se eu, marido de Lisa, cuja pureza e cuja afeição por mim são indiscutíveis, se eu quero enganá-la com uma camponesa? - Que dizes? Por enquanto, queres... Mas ainda não a atraiçoaste? Não é assim? - Para o caso, é a mesma coisa. Se a não atraiçoei, não foi porque não fizesse esforços nesse sentido. As circunstâncias é que o proporcionaram.
- Mas, vamos lá a saber do que se trata.
- Oiça: quando solteiro, caí na asneira de manter relações com uma mulher cá da terra.
Encontravamo-nos no bosque...
- E que tal? Era bonita? - perguntou o tio.
A essa pergunta, Eugénio franziu as sobrancelhas, mas fingindo não ouvir, continuou nervosamente.
- Realmente, eu pensei que daí nenhum mal resultaria para mim; que, depois de a deixar, tudo estava terminado. E, assim, cortei relações com ela antes do meu casamento, e durante, quase um ano não a vi, nem nela tornei a pensar. Mas, de súbito, não sei como nem por quê, voltei a vê-la e senti-me novamente preso dos seus encantos. Chego a revoltar-me contra mim próprio, compreendo todo o horror do meu procedimento, quero dizer, do acto que estou pronto a praticar na primeira ocasião, e, apesar de reconhecer tudo isso, continuo a procurar essa ocasião, e até ao presente só Deus me tem livrado de assim proceder. Ontem ia encontrar-me com ela quando Lisa me chamou.
- Com aquela chuva? - Sim... Estou cansado, tio, e resolvi confessar-lhe tudo e pedir-lhe que me ajude. O tio pode ajudar-me.
- Efectivamente, aqui reparam muito nessas coisas. Mais dia menos dia saberão tudo, se o não, sabem já. Compreendo que Lisa, fraca como é, precisa de ser poupada...
Eugénio simulou mais uma vez não o ouvir, para chegar ao fim da sua narrativa.
- Peço-lhe que me ajude. Hoje foi o acaso que me impediu de cair, mas agora também ela sabe... Não me deixe só.
- Está bem, disse o tio. Mas estás assim tão apaixonado? - Oh! Não é bem isso. É uma força qualquer que me prende, me domina. Não sei o que heide fazer. É possível que quando me sentir com mais coragem...
- Bem, a única ajuda que posso dar-te é esta: irmos todos para a Crimeia! Que te parece? - É uma solução que me agrada - respondeu Eugénio, - mas não vamos já, por hora ficarei aqui com o tio a conversar um pouco.
Ao confessar o seu segredo ao tio, em especial aquilo que tanto o apoquentava após aquele
dia da chuva, Eugénio sentiu-se mais aliviado. Marcou-se a partida para a semana seguinte.Daí a dias, Eugénio foi à cidade levantar dinheiro para a viagem, deu as necessárias ordens para que a lavoura não sofresse qualquer atraso e de novo se tornou alegre e optimista.
Sentia-se renascer.
Partiu com Lisa para a Crimeia sem ver uma só vez Stepanida. Passaram dois meses deliciosos. Eugénio, com as profundas impressões experimentadas nos últimos tempos, esquecera-se completamente do passado. Na Crimeia fez relações e novos amigos se lhes juntaram. A vida então tornara-se para Eugénio uma festa. Davam-se também com um velho marechal, pertencente à nobreza provinciana, homem liberal e inteligente que muito distinguia Eugénio.
No fim do mês de Agosto, Lisa deu à luz uma linda e sadia menina, depois dum parto inesperado e fácil. Em Setembro voltaram à sua casa de campo, trazendo consigo uma ama, porque Lisa não podia amamentar a criança. Completamente liberto das antigas apoquentações, Eugénio voltava feliz e parecia outro homem. Em seguida àqueles transes por que passam todos os maridos nesse momento difícil da vida das esposas, sentia que amava a sua cada vez com maior ardor. Aquilo que experimentava pela filhinha quando a segurava nos braços era um sentimento inédito, que fazia dele o mais feliz dos homens.
Acrescia que um novo interesse se juntara, agora, às suas ocupações. Com efeito, devido à sua intimidade com Dumchine, o velho marechal da nobreza, Eugénio interessava-se pelo Zemstvo, entendendo que era da sua obrigação tomar parte nos negócios públicos. Em Outubro devia ser convocada a assembleia para efeitos da sua eleição. Depois de regressar da Crimeia teve de ir, uma vez, à cidade e outra a casa de Dumchine. Não mais voltara a pensar nos tormentos que passara nem na luta que se vira obrigado a travar para não cair na tentação. Era com dificuldade que relembrava, agora, essa crise, cuja causa atribuía a uma espécie de loucura que se apoderara de si. Sentia-se livre, tão livre que uma vez estando a sós com o feitor, chegou a pedir, com toda a serenidade, informações sobre Stepanida.
- Que faz Petchnikoff? Agora está sempre em casa? - Não. Continua permanentemente na cidade.
- E a mulher? - Oh! Essa! Deu em droga. Agora vive com Zinovci. É uma perdida, uma desgraçada.
É melhor assim, pensou Eugénio, coisa estranha. O caso agora é-me por completo indiferente. Devo estar muito mudado.
E assim a vida para Eugénio corria-lhe à medida dos seus desejos: a propriedade pertencialhe inteiramente; a refinaria funcionava com regularidade, a colheita da beterraba tinha sido esplêndida, a mulher dera à luz uma linda menina, com a maior felicidade, a sogra tinha-se ido embora; e fora eleito por unanimidade. A seguir à eleição, Eugénio regressou a casa e foi muito felicitado. Viu-se obrigado a agradecer, e ao jantar bebeu cinco taças de champanhe. Tudo se lhe apresentava decididamente com um risonho aspecto. Tudo parecia estar resolvido.
Enquanto se dirigia para casa, ia a magicar em vários projectos que tencionava realizar. O verão impunha-se o caminho era lindo e o sol brilhava radiante. Ao aproximar-se da quinta, Eugénio pensava que, por causa da sua eleição, iria ocupar agora entre o povo a situação que sempre ambicionara, isto é, poderia dar trabalho a muita gente e dispor da influência política de que passava a gozar. Fantasiava já como daí a três anos sua esposa, as outras pessoas e os camponeses o julgariam. Por exemplo, aqueles que acolá vêm, pensava ao avistar um homem e uma mulher que se dirigiam para ele, com um balde de água, e que se detiveram para lhe dar passagem. O camponês era o velho Petchnikoff e a mulher era Stepanida! Eugénio olhou para ela, reconheceu-a e sentiu alegremente que ficara absolutamente calmo.
Ela estava cada vez mais bela mas isso em nada o perturbou. Dirigiu-se a casa. Lisa esperava-o na escada.
- Posso dar-te um abraço - perguntou o tio? - Sim, fui eleito.
- Magnífico! Agora é preciso beber! Na manhã seguinte Eugénio percorreu toda a propriedade, o que já há algum tempo não fazia. Na eira estavam a funcionar as debulhadoras de trigo. Para inspeccionar o trabalho, Eugénio passou entre as mulheres não reparando em nenhuma delas. Mas, apesar dos seus esforços nesse sentido, por duas vezes notou os olhos pretos e o lenço vermelho de Stepanida. Ela transportava palha. Duas vezes, também, ela o olhou de soslaio e de novo Eugénio sentiu qualquer coisa que não sabia bem o que era. Mas no outro dia, quando voltou à eira, onde se deixou ficar duas horas, sem necessidade para tal, mas, apenas, para olhar a imagem daquela formosa mulher, Eugénio percebeu que estava irremediavelmente perdido. Outra vez os antigos tormentos, outra vez todo aquele horror e já não havia salvação possível.
Acontecera aquilo que sempre receara. No dia seguinte, à tarde, sem saber como, apareceu junto da sebe do pátio, em frente da granja onde certa vez, pelo Outono, tivera uma entrevista com Stepanida. Ia passeando mas, num dado momento, parou para acender um cigarro. Uma vizinha notou-o e, voltando para trás, ele ouviu dizer a alguém: Vai, que ele está à tua espera, há mais de uma hora. Vai, não sejas tola! Não podia voltar atrás; um camponês vinha agora ao seu encontro, mas viu uma mulher que corria para ele do lado da granja. Era Stepanida.
E a antiga luta recomeçou, mas com redobrado ímpeto. À noite, Eugénio imaginava coisas terríveis. Pensava que o seu viver era monótono, cheio de tédio, que a autêntica vida estava lá fora, em contacto com aquela mulher robusta, forte, sempre alegre. O seu desejo era arrancá-la de casa, metê-la numa carruagem ou sentá-la na garupa dum cavalo, e
desaparecer na estepe ou ir para a América. E muitas ideias iguais lhe assaltavam o cérebro.Ao entrar no salão tudo lhe pareceu desconhecido, absolutamente estranho e sem significado Levantou-se tarde mas cheio de coragem, decidido a esquecer aquela mulher, disposto a não pensar mais nela. Quase sem dar por isso passou toda a manhã alheio ao trabalho, fazendo esforços para fugir às preocupações. Aquilo que até ali lhe parecera de grande importância passava de repente a não ter qualquer valor. Inconscientemente, procurava enfronhar-se no seu trabalho. Julgava ser-lhe indispensável ver-se livre dos cuidados, das preocupações para devidamente reflectir em tudo. Afastava os que estavam junto de si, ficava sozinho. Mas, logo que se sentia isolado, começava a passear pelo jardim ou pelo bosque. Todos aqueles lugares tinham sido testemunhas de cenas que o empolgavam arrebatadamente. Passeava pelo jardim e pensava que era preciso resolver qualquer coisa, mas não descobria o quê e, doida e inconscientemente, esperava. Esperava que um milagre a fizesse saber quanto a desejava e aparecesse ali, ou noutro sítio qualquer, onde ninguém os visse, ou que, numa noite escura, ela o procurasse para que todo o seu corpo lhe pertencesse, só a ele pertencesse.
Ora aqui está - dizia - aqui está: para me sentir feliz arranjei uma mulher saudável mas está demonstrado que se não pode brincar com as mulheres... Julgava tê-la atraído e foi ela, afinal, quem me prendeu nas malhas dos seus encantos, e agora não consigo libertar-me dela. Julguei-me senhor absoluto dos meus actos, mas isto não passava duma ilusão.
Enganei-me a mim próprio quando resolvi casar. Tudo o que eu sentia era estupidez, era mentira. Desde a altura em que a possuí, experimentei um sentimento novo... O verdadeiro sentimento do homem adulto. Sim, não posso passar sem ela. Mas o que estou a pensar não passa duma tolice! Isto não pode ser! exclamou subitamente... - O que é preciso é reflectir, ver claramente o que tenho a fazer.
Deu uma volta pelos campos e continuou a pensar: Sim, para o meu caso só há dois caminhos a seguir: Aquele por onde enveredei desde que conheci Lisa, as minhas funções políticas, a lavoura, a minha filha, o respeito pelos outros. A fim de prosseguir nesse caminho é indispensável que Stepanida seja afastada definitivamente. O outro caminho será arrebatá-la ao marido, dar-lhe dinheiro, fazer calar as bocas do mundo e viver com ela. Mas para isso é necessário que Lisa e a minha filha desapareçam. Não, porque... A criança podia ficar... Mas o que é indispensável é que Lisa se vá embora e saiba de tudo. Que me amaldiçoe, mas que desapareça. É preciso que saiba que eu a troquei por uma camponesa, que sou um miserável, um homem sem vontade própria. Não, é horrível! Isto não pode ser! Talvez se arranje tudo doutra maneira... Lisa pode ficar doente, morrer... Ah, se ela morresse tudo se remediaria, tudo correria às maravilhas! E viveríamos felizes.
Em todo o caso, não passo de um miserável. Não, se uma delas tem de morrer, que morra antes a outra. Se Stepanida morresse, seria melhor. Agora compreendo como é possível matar, como se pode envenenar, estrangular as amantes. Pegar num revólver, fazê-la vir aqui e, em lugar de beijos dar-lhe um tiro no peito. Pronto, estava tudo acabado. É horrível.
Foi contra minha vontade que ela se apoderou de mim. Matá-la, a ela, ou matar minha mulher. Continuar nesta vida, é-me impossível, totalmente impossível! É preciso reflectir e encarar tudo a sangue-frio. Mas deixar as coisas continuarem como até aqui, daria mau resultado. Juraria ainda muitas vezes não tornar a vê-la, renunciar a ela, mas não passaria das promessas vis, porque no dia seguinte esperá-la-ia. Ela sabe-lo-ia e lá estaria eu na mesma alternativa. Ou a minha mulher o saberá, pois não falta quem lho vá dizer, ou eu próprio lho direi, porque não posso continuar a viver desta forma. Não posso. Tudo se saberá. Todos o sabem já. Bem! Mas será possível que se possa viver assim? Não, não se pode. Só há duas saídas: matá-la ou matar a minha mulher. Mas existe ainda uma terceira: «Matar-me», murmurou sofrendo e seguidamente um arrepio lhe percorreu o corpo.
- Sim, mato-me! Assim, já não será preciso que qualquer delas morra. É o que devo fazer.
Tremia violentamente, sentindo que era esse o único caminho possível. Tenho em casa um revólver. Terei de acabar desta forma? Eis o que até hoje ainda não tinha pensado... Mas agora...
Entrou em casa, dirigiu-se ao seu quarto e abriu a gaveta onde se encontrava o revólver mas antes que tivesse tempo de o tirar, Lisa entrou.
Cobriu o revólver com um jornal, apressadamente.
- Então continuas na mesma? - perguntou Lisa sobressaltada, fitando-o.
- Que queres dizer com isso? - Vejo no teu olhar a mesma expressão que tinhas outrora, quando nada querias dizer-me...
Dize-me meu querido, o que te aflige... Tenho a certeza de que sofres. Desabafa comigo, isso aliviar-te-á. Qualquer que seja a causa dos teus sofrimentos, encontraremos um remédio para eles.
- Acreditas nisso? - Fala, fala, não te deixarei sem que me digas o que tens.
Eugénio esboçou um sorriso doloroso.
- Falar? É impossível. Aliás, nada tenho para te dizer.
Podia ser, no entanto, que acabasse por lhe dizer tudo; mas nessa altura entrou a ama e perguntou-lhe se podia ir dar uma volta. Lisa saiu para cuidar da filha.
- Hás-de dizer-me o que tens, eu venho já.
- Sim, talvez...
Ela nunca pôde esquecer o sorriso magoado com que o marido disse estas palavras. Saiu.
Apressadamente, como se fosse praticar um delito, Eugénio pegou no revólver e examinouo.
«Estará carregado? Sim, e desde há muito... Já foi até disparado uma vez... Bem, aconteça o que acontecer...
Encostou o revólver ao parietal direito, hesitou um momento mas, lembrando-se de Stepanida e da decisão tomada de não a tornar a ver, da luta que nos últimos tempos travara consigo próprio, da tentação, da queda, tremeu horrorizado. «Não, antes isto». E deu ao gatilho...
Quando Lisa acorreu ao quarto, mal tivera tempo de descer a varanda, viu-o deitado de bruços, no chão, e o sangue negro e espesso corria da ferida.
Procedeu-se a investigações, mas ninguém pôde atinar com a causa do suicídio. O tio nem por sombras podia admitir que o acontecimento tivesse qualquer relação com as confidências que dois meses antes Eugénio lhe fizera.
Bárbara Alexievna afirmava que sempre tinha previsto aquele desfecho. «Via-se logo, quando se punha a discutir».
Nem Lisa nem Maria Pavlovna compreendiam como aquilo sucedera, e nem tão pouco se podiam conformar com a opinião dos médicos, que classificaram Eugénio de psicópata, de semi-louco. Não podiam admitir tal hipótese, estavam convencidos de que ele era mais ajuizado do que a maioria dos homens.
Se Eugénio Irtenieff era um anormal, um doente, ter-se-ia de concluir que todos os homens o eram e, ainda mais, que doentes serão todos os que nos outros vêem sintomas de loucura quando não têm um espelho em que possam ver o que lhes vai dentro da alma.
Fonte: www.ufpel.edu.br