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Ana Karenina
(Oitava PARTE)

Leon Tolstoi

CAPÍTULO XII

Levine seguia em passos largos pela estrada real, atento não tanto aos seus pensamentos — ainda não era capaz de pô-los a claro — como ao seu estado de espírito, completamente novo para ele.

As palavras do mujique tinham-lhe produzido na alma o efeito de uma faísca eléctrica, que subitamente transformasse e fundisse num todo o enxame de ideias incompletas, desordenadas e impotentes que andava sempre com ele. Era nessas ideias que pensava sem dar por isso na altura em que falava no arrendamento das terras.

Agora sentia na alma o que quer que fosse que enchia de satisfação, embora ainda não soubesse o que era.

«Não devemos viver para nós, mas para Deus. Para quê Deus? Haverá coisa que faça menos sentido? Fiodor disse que o homem não devia viver para as necessidades, isto é, para o que compreende, para o que o atrai, para aquilo de que gosta, mas para qualquer coisa de incompreensível, para Deus, a quem ninguém pode entender nem definir. Sim, e que aconteceu? Não entendi as palavras sem sentido de Fiodor? Uma vez entendidas, duvido que sejam justas? Pareceram-me tontas, vagas e imprecisas? Não compreendi-as tal qual como ele: compreendia-as inteiramente e como ainda não compreendera nada com tanta clareza. E não só eu, mas todo o mundo compreende isso perfeitamente, ninguém duvida de tal coisa e todos estão de acordo.

«E eu que procurava milagres, pesaroso de não ter visto nenhum que me convencesse! Um milagre material ter-me-ia conquistado. E sem ver o único milagre possível, o milagre permanente e que nos rodeia por todos os lados! «Fiodor disse que Kirilov vive para a barriga. É compreensível e racional. Todos nós, racionais, não podemos viver de outra maneira: vivemos para a barriga. Mas Fiodor é de opinião que não deve ser, que devemos viver para a verdade, para Deus, e basta uma só palavra para eu o entender. Não só eu: milhões de seres que viveram há séculos e estão a viver agora, camponeses pobres de espírito, sábios que meditaram e escreveram sobre esse problema num idioma incompreensível, todos, todos dizem o mesmo, todos estamos de acordo quanto ao objecto da vida e quanto ao que devemos ter por bem. A única coisa que tenho de

comum com todos é esta convicção firme, indubitável e clara, que isso não pode explicar-se pela razão e que não tem causas nem pode ter conseqüências.

«Se o bem tiver uma causa, já não é bem; se tiver conseqüências, quer dizer, recompensa, também não. Portanto, o bem está fora do encadeamento de causas e efeitos. Conheço-o como toda a gente. Querem maior milagre? Será possível que tenha encontrado a solução de tudo?

Que tenha acabado com os meus sofrimentos?», ia pensando Levine enquanto caminhava pela estrada coberta de pó. Não sentia calor nem cansaço; era como se se lhe apaziguassem todos os seus grandes tormentos. E esta impressão despertava nele tamanha alegria que não ousava acreditar nela.

Sufocado pela emoção, faltavam-lhe as forças para seguir avante. Saiu da estrada, internou-se na mata e sentou-se, à sombra dos olmos, em cima da erva por ceifar. Depois de tirar o chapéu da cabeça a escorrer suor, estendeu-se na erva espessa e macia, apoiado num dos braços.

«É preciso compreender isto, tornar isto claro», pensava, olhando fixamente a erva por pisar, que alteava diante de si enquanto seguia os movimentos de um insecto verde que trepava por um talo de centinódia e se detinha na ascensão, impedido de seguir caminho por causa de uma folha. «Que descobri eu?», perguntava-se a si mesmo, afastando a folha que impedia o insecto de passar e aproximando dele outro talo. «De onde vem esta alegria? Que descobri eu?» «Nada. Apenas me inteirei do que já sabia. Compreendi qual a força que não me deu a vida no passado, mas ma dá agora também. Libertei-me do meu erro e conheci o meu Senhor.

«Antes dizia que o meu corpo, tal como o dessa planta e o desse insecto (não quisera trepar pelo novo talo e, abrindo as asas, voou), realizava as transformações da matéria de acordo com leis físicas, químicas e fisiológicas. E que em todos nós, em nós e nos álamos, nas nuvens e nas névoas se produz uma evolução. Evolução de quê? Evolucionamos para quê? Uma evolução infinita e uma luta... Como se pudesse existir qualquer tendência e qualquer luta no infinito! E surpreende-me que, apesar da grande tensão mental nesse sentido, não se me aclarasse o significado da vida e o dos meus desejos e aspirações. Agora digo que conheço o sentido da minha vida: é preciso viver para Deus para a alma. E apesar do que há nisto de evidência, é misterioso e magnífico! Eis o sentido de tudo quanto existe. Sim, e o orgulho...», para si mesmo, estendendo-se de bruços, enquanto atava raminhos erva, procurando não parti-los.

«Não só o orgulho da inteligência, mas a estupidez da inteligência.

o pior é a malícia, sim, a malícia da inteligência. A fraude da inteligência», repetiu.

E, resumidamente, Levine evocou o caminho seguido pelos seus pensamentos naqueles últimos anos, desde que tivera a ideia clara e vidente da morte na presença do seu querido irmão enfermo, sem esperanças de cura.

Compreendera então pela primeira vez que mais nada existe para is, inclusive para ele próprio, além do sofrimento, da morte e do falecimento eterno. E decidira ser impossível viver assim, ser preciso encontrar uma explicação qualquer para a vida, de sorte que esta se lhe não apresentasse colho uma ironia maligna e diabólica e não o levasse a estourar os miolos.

Porém, não fizera nem uma coisa nem outra. Continuara a sua vida, continuara a pensar e a sentir. Casara-se, também, nessa altura e tivera muitas alegrias, sentindo-se feliz sempre que não pensava na vida.

Que queria isso dizer? Que vivia bem, mas pensava mal.

Vivia (sem ter consciência disso) segundo as verdades espirituais que assimilara com o leite materno; mas pensava, não já apenas sem reconhecer tais verdades, senão apartando-se delas cuidadosamente.

Agora afigurava-se-lhe evidente que só pudera viver graças às crenças em que fora educado.

«Que teria sido de mim, que teria sido da minha vida se não fossem essas crenças, se não soubesse que é preciso viver para Deus e não para as minhas necessidades? Teria roubado, teria matado, teria mentido. Nenhuma das principais alegrias da minha vida teria podido existir para mim.» E por mais esforços mentais que fizesse, não conseguia ver-se a si próprio o ser bestial que teria sido, caso não soubesse para que vivia.

«Buscava resposta à minha pergunta. Mas o pensamento não me podia responder, pois o pensamento não pode medir-se com a pergunta. A própria vida se encarregou de me responder graças ao conhecimento do bem e do mal. E esse conhecimento não o adquiri através de coisa alguma, foi-me outorgado, como a todos os demais, visto que o não pude encontrar em parte alguma.

«De onde o soube? Porventura foi através do raciocínio que eu cheguei à conclusão de que é preciso amar o próximo e não lhe fazer mal? Disseram-mo na infância e acreditei-o com alegria, pois trazia-o na alma.

E quem o descobriu? A razão, não. A razão descobriu a luta pela existência e a lei, que exige que se eliminem todos quantos nos impedem de satisfazer os nossos desejos. Esta a dedução do raciocínio, que não

pode descobrir que se deve amar o próximo, pois amar o próximo não é razoável.»

CAPÍTULO XIII

Levine recordou uma cena recente entre Dolly e os filhos. Estes, tendo ficado sozinhos certo dia, principiaram a cozinhar framboesas dentro de uma chávena, que chegavam ao pavio de uma vela enquanto ingeriam golos de leite. Ao surpreender as crianças nesta brincadeira. Dolly pusera-se a explicar-lhes, na presença de Levine, quanto trabalho custava aos adultos prepararem o que eles destruíam. Dissera-lhes que tudo aquilo era feito para elas, que, se partissem as chávenas, não teriam onde tomar o chá e, se entornassem o leite, ficariam sem comer, morrendo de fome.

Levine ficou surpreendido com a serena incredulidade com que as crianças ouviram a mãe. Apenas pareciam lamentar que ela tivesse interrompido a sua brincadeira, não acreditando numa só palavra do que ela estava a dizer. E não acreditavam nela porque não podiam imaginar a magnitude de tudo o que desfrutavam nem eram capazes de compreender estarem a destruir o que a vida lhes proporcionava.

«Todas essas coisas vêm de per si», pensava, «não têm nada de interessante nem são importantes, porque sempre existem e existiram. É sempre o mesmo. Não temos de pensar nisso, tudo está em ordem. Queremos inventar por nós qualquer coisa nova e ao nosso estilo, Inventamos deitar framboesas numa chávena e cozê-las ao pavio de uma vela, inventamos deitar leite na boca uns dos outros, como se se tratasse de uma fonte. É uma coisa divertida, nova, e não é pior do que beber leite pelas chávenas.

«Porventura não fazemos nós o mesmo? Porventura não era o que eu fazia ao procurar, pela razão, o significado das forças da Natureza e o sentido da vida do homem? «Não fazem o mesmo todas as teorias filosóficas, levando o homem, através do pensamento, que lhe é estranho, que lhe não é próprio, ao conhecimento do que sabe há muito e sem o que não poderia viver? Não se vê claramente, através do desenvolvimento da teoria de cada filósofo, que todos eles conhecem de antemão, tal qual o camponês Fiodor, o verdadeiro sentido da vida e que só procuram regressar, por caminhos equívocos, ao que todos sabem? «Se se deixasse que as crianças adquirissem por si aquilo de que

necessitam, se tivessem de ser elas a preparar a louça em que comem e a ordenhar as vacas que lhes dão o leite continuariam a fazer travessuras? Morreriam de fome. Se nos deixarem com as nossas paixões e pensamentos privados da ideia de um Deus único e criador, ou sem a ideia do bem, e sem nos explicarem o mal moral, nada podemos edificar de sólido. Se estamos ávidos de destruir é porque, à semelhança das crianças, nos encontramos espiritualmente saciados. Somos verdadeiras crianças! De onde procede este meu alegre conhecimento, comum ao camponês, que me proporcionou esta paz de espírito? Onde fui eu buscá-lo? «Eu, educado como cristão na ideia de Deus, tendo enchido a minha vida dos bens espirituais que me deu o cristianismo, vivendo desses bens sem disso ter consciência, procuro, como aquelas crianças, destruir o que me alimenta. Assim que chegar, porém, uma hora grave da vida, tal qual como essas criaturas quando sentem fome e frio, recorro a Ele e não menos que as crianças, a quem a mãe ralha por causa das suas travessuras infantis, sinto que não se têm em conta os seus intentos de fazer tolices.

«O que sei não me foi revelado pelo pensamento, mas pelo coração, pela fé no que ensina a Igreja.

«A Igreja? A Igreja!», repetiu Levine, mudando de posição e apoiando-se num braço. Em seguida pôs-se a olhar para longe, para um rebanho que descia a encosta pela outra margem do rio.

«Mas poderei eu crer em tudo o que a Igreja ensina?», pensou, como que a experimentar-se, procurando algo que pudesse destruir a sua serenidade actual. «A propósito», principiou, recordando, precisamente, aquelas doutrinas da Igreja que sempre lhe haviam parecido estranhas e o atraiam. «A criação? Como explicava eu a minha própria existência? Pela própria existência? E o Diabo e o pecado? E como explicava eu o mal?... A redenção? «Mas nada sei e nada posso saber se não o que a todos foi revelado!» Agora afigurava-se-lhe que não existia doutrina da Igreja que destruísse o essencial: a fé em Deus e no bem como destino único do homem. Cada doutrina da Igreja podia ser substituída pela crença no serviço da verdade em lugar do serviço das necessidades. E não só nenhum dogma destruía isto como era necessário, para que se levasse a cabo o milagre fundamental que constantemente se apresenta na terra e que consiste em tornar possível a todos os homens, a milhões de pessoas diferentes, sábios e bem-aventurados, crianças e velhos, ao camponês, a Lvov, a Kitty, a reis e mendigos, compreenderam sem vacilar e ordenarem a vida da alma, a única que vale a pena viver, a única que

apreciamos.

Deitado de costas, olhava para o céu alto, sem nuvens.

«Porventura não sei que isto é o espaço infinito e não uma abóbada? Mas, por mais que pisque os olhos e que aguce a vista, não posso deixar de ver este espaço como uma abóbada e algo de limitado, e apesar dos meus conhecimentos sobre o espaço infinito, tenho razão quando vejo essa abóbada azul sólida e ainda mais quando me esforço para ver mais para além.» Levine deixou de pensar e parecia apenas atento a umas vozes misteriosas que falavam entre si com alegria e inquietação.

«Será isto a fé?», perguntou a si mesmo, sem querer acreditar na felicidade que sentia. «Obrigado, meu Deus!», murmurou, sufocando os soluços que lhe subiam à garganta e enxugando com ambas as mãos as lágrimas que lhe inundavam os olhos.

CAPÍTULO XIV

Levine olhava em frente, observando o rebanho. Entretanto reconhecera no carro que surgia ao longe a telega de casa, puxada pelo Voronoi, e o cocheiro da quinta, que, ao chegar junto ao rebanho, se dirigiu ao pastor. Daí a pouco ouvia perto de si o ruído das rodas e os relinchos do belo cavalo. Tão absorto estava, porém, nos seus pensamentos, que nem sequer lhe acudiu perguntar que vinha ali fazer o cocheiro. Isso apenas lhe ocorreu quando ele, já a seu lado, lhe dizia: — A senhora mando-o buscar. Chegou o irmão do senhor com um amigo.

Levine subiu para a telega e pegou nas rédeas.

Como se acabasse de acordar, levou tempo a compreender o que estava a passar-se à sua roda. Olhava para o belo cavalo, que tinha os flancos e o pescoço, entre as rédeas, cobertos de espuma, e para o cocheiro Ivan, sentado a seu lado, lembrando-se de que esperava efectivamente a chegada do irmão, de que naturalmente a mulher estaria inquieta com aquela sua longa ausência, e procurava adivinhar quem seria o desconhecido que chegara. Tanto o irmão como Kitty e o hóspede se lhe apresentavam agora sob um aspecto distinto. Afigurava-se-lhe que as suas relações com os outros teriam de ser diferentes de ora avante.

«Já não haverá entre mim e meu irmão a separação que sempre tem existido entre nós; nunca mais discutiremos; não mais me zangarei com a Kitty; mostrar-me-ei amável e bom para com o convidado, seja

quem for; e igualmente para com os criados e para com Ivan: tudo será diferente.» De rédeas tensas, refreando o cavalo que bufava, impaciente, como se pedisse que o deixassem correr à vontade, Levine relanceara a vista para Ivan, que, nada tendo que fazer com as mãos, agarrava a camisa, tufada pelo vento. Procurou um pretexto para lhe dirigir a palavra; quis dizer-lhe que apertara demasiado a barrigueira, mas isso teria parecido uma censura, e o que ele desejava era uma conversa amável. No entanto, não lhe ocorria qualquer outra coisa.

— Faça o favor de guiar pela direita, está ali um tronco — disse- lhe, entretanto, o cocheiro, puxando-lhe a rédea.

— Peço-te que não me toques nem me dês lições! — exclamou Levine, irritado com a intervenção de Ivan.

Como de costume, a intervenção do cocheiro indignara-o, e logo se deu conta, penalizado, de que seria errôneo supor que o seu estado de espírito o teria feito mudar perante a realidade da vida.

Quando ainda faltava um quarto de versta para chegar a casa, Levine viu Gricha e Tânia, que corriam ao seu encontro.

— Tio Kóstia! Vem ali a mãezinha, o avozinho, Sérgio Ivanovitch e outro senhor — disseram, trepando para a telega.

— Quem é?

— Um senhor muito feio. Está sempre a fazer assim com as mãos — replicou Tânia, pondo-se de pé para imitar Katavassov.

— É velho ou novo? — perguntou Levine, rindo, pois os gestos de Tânia lhe lembravam alguém conhecido.

«Desde que não seja alguém antipático», pensou. Quando chegaram à curva da estrada e viram o grupo que caminhava ao encontro da telega, Levine reconheceu Katavassov, com o seu chapéu de palha, que vinha agitando os braços, tal qual como na imitação de Tânia.

Katavassov gostava muito de falar de filosofia, embora tivesse dessa matéria aquelas vagas noções dos «cientistas», que, em geral, se não dedicam a tais assuntos. Em Moscovo, nos últimos tempos, Levine discutira muito com ele problemas desses.

A primeira coisa de que se lembrou ao reconhecê-lo de longe foi uma dessas discussões em que Katavassov julgara levar a melhor.

«Não discutirei nem exporei os meus pensamentos à ligeira, por nada desta vida», pensou.

Apeou-se da telega e depois de cumprimentar o irmão e Katavassov, perguntou por Kitty.

— Ficou na mata com o Mitia — respondeu Dolly. — Estava

muito quente em casa.

Levine aconselhava sempre Kitty a que não levasse a criança para a mata, coisa que lhe parecia imprudente. E a noticia contrariou-o.

— Anda sempre com ele de um lado para o outro — disse o príncipe, sorrindo. — Aconselhei-a a que não experimentasse a geleira.

— Pensava ir ter com vocês ao colmeal. Supunha-te lá — disse Dolly.

— Então, e tu que fazes? — perguntou Sérgio Ivanovitch ao irmão, separando-se dos outros e aproximando-se dele.

— Nada de especial. Como sempre, aqui ando nos trabalhos da quinta — tornou-lhe Levine. — Vens com demora? Há muito que te esperávamos.

— Umas duas semanas. Tenho muito que fazer em Moscovo. Ao dizer estas palavras, os olhos dos dois irmãos encontraram-se. Apesar do constante desejo, naquele momento particularmente intenso, de manter relações amistosas com o irmão, e sobretudo simples, Levine sentiu que lhe desagradava olhá-lo. Baixou os olhos sem saber que dizer. Procurando temas de conversa agradáveis ao irmão e que os afastassem dos assuntos bélicos da Sérvia e da questão eslava, coisas a que ele aludira ao referir-se às suas ocupações de Moscovo, Levine principiou a falar do livro de Sérgio Ivanovitch.

— Que tal? Têm aparecido críticas ao teu livro? — perguntou-lhe. Sérgio Ivanovitch sorriu perante a premeditada pergunta.

— Ninguém falou dele, e eu menos do que ninguém — disse. — Olhe, Daria Alexandrovna, vai chover — acrescentou, apontando, com o guarda-chuva, umas nuvens brancas que se acastelavam por cima da copa dos álamos.

Aquelas palavras foram o suficiente para que se restabelecesse de novo entre os dois irmãos aquele trato não precisamente hostil, mas frio, que Levine tanto desejaria evitar.

— Ainda bem que teve a boa ideia de aparecer por aqui! — disse Levine a Katavassov.

— Há muito que me dispunha a fazê-lo. Agora poderemos discutir. Leu o Spencer?

— Não, não acabei — replicou Levine. — E, por outro lado, já não preciso de o ler.

— Por quê? É muito interessante!

— Persuadi-me de que não encontraria a solução das questões que me interessam nem nele nem em outros como ele. Agora...

Mas a expressão jovial e serena de Katavassov surpreendeu-o. Teve pena de perturbar o estado de espírito em que ele se encontrava, e, lembrando-se dos seus bons propósitos, deteve-se.

— Bom, falaremos disso depois. Se querem ir ao colmeal, vamos por aqui, por este atalho — acrescentou, dirigindo-se aos outros.

Entrando pelo atalho estreito, alcançaram um campo por ceifar, coberto de margaridas de cores muito vivas e onde cresciam arbustos de heléboro verde-escuros. Levine instalou os companheiros nos bancos e troncos ali colocados, à sombra dos álamos novos, para os visitantes que tinham medo das abelhas, dirigindo-se ao colmeal na intenção de trazer pão, pepinos e mel fresco.

Procurando não fazer movimentos bruscos e atento às abelhas que cruzavam os ares cada vez mais amiúde, seguiu pelo atalho direito à isbá. Junto à porta uma abelha zumbiu, enredou-se-lhe nas barbas. Mas Levine logo a ajudou cautelosamente a desprender-se. Ao penetrar no vestíbulo, pegou na máscara dependurada na parede, pô-la na cara e metendo as mãos nos bolsos penetrou no colmeal. Em filas regulares, firmes em estacas, lá estavam, num campo ceifado, as colméias velhas. Cada uma delas tinha a sua história, que Levine conhecia ponto por ponto. Ao largo da cerca que rodeava o colmeal, alinhavam-se as novas colméias instaladas nesse Outono. A entrada de cada uma delas revoluteavam nuvens de insectos, sempre no mesmo sítio. As obreiras passavam voando, umas em direcção à mata, a caminho das tílias em flor, outras de regresso às colméias carregadas de pólen. Ouviam-se constantemente os diversos sons do enxame das obreiras, que voavam diligentes, dos ociosos zangãos e das abelhas guardiãs, que defendiam do inimigo que era seu. Num extremo da cerca, o velho guarda, entretido a aplainar uma tábua, não dera por Levine. Este não o chamou e deteve-se no meio do colmeal.

Gostava daquela oportunidade para estar só. Queria recordar-se do que em tão pouco tempo alterara por completo o seu estado de espírito.

É certo que já tivera tempo de se irritar com o Ivan, de mostrar frieza ao irmão e de falar com ligeireza a Katavassov...

«Será possível que se trate apenas de um estado de espírito momentâneo, que irá passar sem deixar rasto?»

Naquele momento, porém, voltando ao estado de espírito anterior, sentiu com júbilo que algo de novo e importante se operara nele. A realidade apenas alterara momentaneamente a paz que alcançara. Esta continuava íntegra.

Assim como o distraíam e o privavam de uma completa paz as abelhas à sua roda, ameaçando-o e obrigando-o a encolher-se para as evitar, também as preocupações que o tinham assaltado no momento em que subira para a telega lhe haviam privado a alma de tranqüilidade. Mas fora apenas enquanto estivera no meio daquela gente. Apesar de o incomodarem as abelhas, mantinha as suas forças físicas. Era o mesmo com a consciência da sua força espiritual.

CAPÍTULO XV

— Kóstia, sabes com quem vinha no comboio Sérgio Ivanovitch? — perguntou Dolly, depois de distribuir pelas crianças pepinos e mel. — Com Vronski! Vai para a Sérvia!

— E não vai só, leva um esquadrão pago do seu bolso — acrescentou Katavassov.

— Fica-lhe muito bem. Mas ainda continuam a seguir voluntários?— perguntou Levine, fitando Sérgio Ivanovitch.

Este não lhe respondeu, ocupado que estava a retirar, de uma chávena, cuidadosamente, com a ponta de uma faca, uma abelha ainda viva, que ficara pegada a um pedaço de mel.

— Essa agora! Se tivessem visto como a estação estava ontem! — disse Katavassov, mastigando, ruidosamente, um pedaço de pepino.

— Como é que isso se entende? Por Deus, Sérgio Ivanovitch, explique-me para onde vão esses voluntários e contra quem é que lutam — perguntou o velho príncipe, continuando, ao que parecia, um» conversa encetada na ausência de Levine.

— Contra os Turcos — ripostou Sérgio Ivanovitch, sorrindo tranqüilamente.

Conseguira retirar a abelha, negra de mel, que agitava as patinhas, e entretinha-se a colocá-la numa folha de álamo com a ponta da faca.

— Quem declarou a guerra aos Turcos? Ivan Ivanovitch Ragozov, a condessa Lídia Ivanovna e Madame Stahl?

— Ninguém lhes declarou guerra, mas as pessoas têm pena dos sofrimentos dos seus irmãos e procuram ajudá-los — tornou-lhe Sérgio Ivanovitch.

— Não respondes à pergunta do príncipe — disse Levine, tomando o partido do sogro. — Está simplesmente admirado que, sem

terem sido autorizados pelo governo, ousem particulares intervir numa guerra.

— Olha, Kóstia, outra abelha. Vão-nos picar, pela certa — exclamou Dolly, enxotando uma vespa.

— Não é uma abelha, é uma vespa — tornou-lhe Levine.

— Por que não hão-de os particulares ter esse direito? Explique-nos a sua teoria — interveio Katavassov, desejoso de fazer falar Levine.

— A minha teoria, aqui a tem: a guerra é uma coisa tão bestial, tão monstruosa, que nenhum cristão, que nenhum homem tem o direito de tomar sobre si a responsabilidade de a declarar. Esse papel cabe aos governos; que, aliás, acabam sempre por conduzir os povos à guerra. Trata-se de uma questão de Estado, de uma dessas questões em que os cidadãos abdicam de toda a vontade pessoal. À falta de ciência, o bom senso, eis quanto bastava para o demonstrar.

Sérgio Ivanovitch e Katavassov tinham respostas prontas.

— Nisso está enganado, meu caro — disse, em primeiro lugar este último. — Quando um governo não atende à vontade dos cidadãos, cabe a estes impô-la.

Sérgio Ivanovitch parecia não apreciar muito a objecção.

— Tu não formulas a questão como deve ser — disse ele, franzindo o sobrolho. — Não se trata, neste caso, de uma declaração de guerra, mas de uma demonstração de simpatia humana, cristã. Estão a assassinar os nossos irmãos, irmãos de raça e religião, estão a chacinar mulheres, velhos e crianças. Isso provoca a indignação do sentimento de humanidade do povo russo, que corre em auxílio desses desgraçados. Supõe que vês na rua um bêbedo a espancar uma mulher e uma criança. Começarás tu, porventura, antes de correres em auxílio deles, por te informares se declararam guerra àquele indivíduo? — Não, mas também não o mataria a ele.

— Claro que o matarias.

— Não sei. Talvez o matasse arrastado pelas circunstâncias de momento, mas o que eu nunca faria era entusiasmar-me com a defesa dos Eslavos.

— Não somos todos da mesma opinião — replicou Sérgio Ivanovich, pouco satisfeito. — O povo não esquece facilmente os irmãos ortodoxos que sofrem sob o jugo dos infiéis. E foi o povo quem fez ouvir a sua voz.

— Talvez — disse Levine, evasivamente. — Mas eu não vejo as

coisas assim. Também eu pertenço ao povo e não sinto da mesma maneira.

— É o que acontece comigo — interveio o príncipe. — Durante a minha estada no estrangeiro, li os jornais que me revelaram, antes dos horrores da Bulgária, o amor súbito que se apoderou, ao que parece, da Rússia inteira pelos seus irmãos eslavos, e a verdade é que eu não sentia nem sinto nada por eles. Apoquentava-me muito essa ideia e supunha-me um monstro, ou que Karlsbad exercia má influência sobre mim. Mas a verdade é esta, que quando aqui cheguei fiquei tranqüilo, pois pude verificar que não estava só. Havia muito mais gente que apenas se interessava pela Rússia, não pelos seus irmãos eslavos. Por exemplo, o Constantino.

— As opiniões pessoais não significam nada — replicou Sérgio Ivanovitch. — As opiniões pessoais não interessam nada quando a Rússia inteira, todo o povo, manifestou a sua vontade.

— Perdoe-me, mas não é isso que eu vejo. O povo nem sequer sabe de que se trata — objectou o príncipe.

— Não, pai... Que está a dizer? Lembre-se de domingo, na igreja — interveio Dolly, que seguia a conversa. — Faça favor, deixe ver esse guardanapo — disse para o velho guarda que contemplava as crianças, sorrindo. — Não é possível que toda essa gente...

— Que sucedeu no domingo na igreja? Mandaram o padre ler aquilo e foi o que ele fez. Os fiéis não entenderam nada e limitaram-se a suspirar, como quando ouvem um sermão — continuou o príncipe. — Depois disseram-lhe que iam fazer uma colecta para uma boa obra. E todos puxaram do seu copeque e entregaram-no, sem saberem muito bem para quê.

— O povo não pode ignorar o seu destino. Tem a intuição disso e em momentos como este comprova-o — disse Sérgio Ivanovitch, fitando o velho guarda com intenção.

O arrogante velho, de barbas pretas encanecidas e espessos cabelos prateados, permanecia imóvel, tendo na mão o jarro de mel. Olhava para os amos do alto da sua estatura com expressão tranqüila e doce, naturalmente sem compreender nem querer compreender nada.

— Assim é — assentiu, movendo a cabeça, significativamente, ao ouvir as palavras de Sérgio Ivanovitch.

— Pergunta-lhe. E verás como nada sabe nem tem opinião — disse Levine, e acrescentou, dirigindo-se ao velho: — Ouviste falar da guerra, Mikailitch? Falaram nisso na igreja. Que achas tu? Devemos lutar para defender os cristãos?

— Que havemos nós de dizer? O imperador Alexandre Nikolaievitch, que pensa por nós em todos os outros assuntos, também resolvera este. Para ele é mais fácil... Querem que lhes traga pão? O menino quer mais? — perguntou, dirigindo-se a Daria Alexandrovna e apontando para Gricha, que acabava de comer uma côdea.

— Que necessidade temos nós de o interrogar — disse Sérgio Ivanovitch —, quando estamos a ver centenas de homens tudo abandonarem para irem servir uma causa justa? Vêm de todos os cantos da Rússia. Uns sacrificam os seus últimos copeques, os outros alistam-se, e todos sabem claramente a que motivos obedecem. São capazes de me dizer que isto não significa nada?

— Na minha opinião — replicou Levine, que principiava a animar-se — isso apenas significa que num povo de oitenta milhões de habitantes se encontram sempre, não já apenas centenas, mas dezenas de milhares de homens que perderam a sua posição social, gente de vida desordenada, pronta a alistar-se na primeira aventura, quer se trate de seguir Pugatchov ou para a Sérvia ou para Kiva, ou seja lá para onde for.

— Já te disse que não se trata de centenas, nem de gente sem rei nem roque, mas dos melhores representantes do povo — disse Sérgio Inanovitch, muito irritado, como se defendesse os seus derradeiros haveres. — E os donativos? Nisso todo o povo exprime a sua vontade.

— A palavra «povo» é tão indefinida... — arguiu Levine. — Os escriturários das câmaras, os mestres-escola e talvez um camponês em mil saibam do que se trata. Mas os restantes oitenta milhões, como, por exemplo, Mikailitch, não só não exprimem a sua vontade, como não têm sequer a menor ideia de que o devam fazer. Com que direito dizemos nós que é a vontade do povo?

CAPÍTULO XVI

Hábil dialecta, Sérgio Ivanovitch, sem responder, conduziu a conversa para outro terreno.

— É evidente que não dispondo do sufrágio universal, o qual, aliás, nada prova, não nos será possível conhecer, aritmèticamente, a opinião do país; mas existem outros meios de apreciação. Não me refiro a essas correntes subterrâneas que agitam as águas até aí estagnadas do oceano popular, claras para qualquer homem sem prevenção. Considero a sociedade no sentido estrito da palavra. Os partidos mais diversos do mundo intelectual, tão hostil uns aos outros anteriormente, fundiram-se

num só. As discórdias acabaram, todos os jornais são da mesma opinião. Todos compreenderam a força titânica que os envolve e os arrasta na mesma direcção.

— É o que os jornais dizem sempre — objectou o príncipe. — Realmente! Parecem rãs antes de uma tempestade! Os gritos deles é que não deixam ouvir nada.

— Não sei se são rãs ou não são; não publico nem me proponho defendê-los. Falo apenas da unanimidade de opinião nos meios esclarecidos — disse Sérgio Ivanovitch, dirigindo-se ao irmão.

Levine ia responder, mas o velho príncipe adiantou-se-lhe.

— Essa unanimidade tem sem dúvida a sua razão de ser. Aí têm, por exemplo, o meu caro genro Stepane Arkadievitch, que acaba de ser nomeado membro de não sei que comissão... Uma pura sinecura, não é segredo para ninguém, Dolly, com oito mil rublos de vencimento! Perguntem, pois, a esse homem de boa fé o que pensa ele do referido lugar: demonstrar-lhes-á que não há outro mais necessário. E trata-se de um homem que fala verdade: a verdade é esta, não pode deixar de estar convencido da utilidade de oito mil rublos! — Ah! Sim, Stepane Arkadievitch pediu-me que comunicasse a Daria Alexandrovna que conseguira o lugar — disse Sérgio Ivanovitch, nada satisfeito, pois lhe pareceram pouco oportunas as palavras do príncipe.

— É o que acontece com a unanimidade de opiniões nos jornais. Ouvi dizer que em tempo de guerra vendem o dobro dos exemplares. É muito natural que ponham acima de tudo o instinto nacional, os irmãos eslavos e o que mais lhes vier à cabeça! — Não sou muito afeiçoado aos jornais, mas parece-me injusto, meu príncipe — disse Sérgio Ivanovitch.

— Afonso Karr dava no alvo quando, antes da guerra franco-prussiana, propunha aos partidários da guerra que formassem a primeira linha e que fossem eles que suportassem os primeiros tiros.

— Que linda figura haviam de fazer os nossos jornalistas! — exclamou Katavassov, soltando uma grande gargalhada, ao visionar alguns redactores seus conhecidos nessa legião selecta.

— Deitariam a fugir — disse Dolly. — Só serviriam de estorvo.

— Se fugirem, que disparem contra eles ou que os ponham sob a vigilância de cossacos armados de chicotes — argüiu o príncipe.

— Perdoe-me, príncipe, mas isso não passa de um gracejo e um gracejo de mau gosto — observou Sérgio Ivanovitch.

— Não acho que seja mau gracejo... — quis dizer Levine, mas o irmão interrompeu-o.

— Cada membro da sociedade tem os seus deveres a cumprir — declarou ele — e os homens que pensam têm o seu papel: darem expressão à opinião pública. A unanimidade desta opinião é um sintoma feliz que é preciso inscrever no activo da imprensa. Há vinte anos o povo ter-se-ia calado; hoje em dia, pronto a sacrificar-se, a levantar-se como um só homem para salvar os seus irmãos, deixa ouvir a sua voz unânime. É um grande passo em frente, uma prova de força.

— Perdão — insinuou timidamente Levine —, não se trata apenas de um sacrifício, mas de matar turcos. O povo está sempre pronto a muitos sacrifícios quando se trata da sua alma, mas não de matar — acrescentou, relacionando involuntariamente aquela conversa com as ideias que o preocupavam.

— A que chama alma? Para um naturalista, alma é um termo assaz impreciso. Que vem a ser a alma? — perguntou Katavassov, sorrindo.

— Bem sabe o que eu quero dizer.

— Garanto-lhe que não faço a mínima ideia — replicou Katavassov, com uma gargalhada sonora.

— «Vim trazer não a paz, mas o gládio», disse Cristo — observou, por sua vez, Sérgio Ivanovitch, citando, como se se tratasse da coisa mais clara desta vida, um dos passos do Evangelho, que mais perturbara Levine.

— É verdade — repetiu o velho guarda, que estava junto deles, respondendo ao olhar que casualmente lhe dirigiu Kosnichev.

— Aqui o temos derrotado, derrotado por completo — exclamou Katavassov, alegremente, para Levine.

Este corou, incomodado, não por se sentir derrotado, mas por não ter sabido dominar-se, evitando a discussão.

«Não, não devo discutir com eles», pensou. «Eles usam uma couraça impenetrável e eu estou nu.» Não lhe parecia possível convencer o irmão e Katavassov e ainda lhe parecia mais difícil vir a estar de acordo com eles. O que fazia era apregoar esse orgulho de espírito que estivera a ponto de o perder. Como podia ele admitir que um grupo de homens, entre os quais o irmão, se arrogasse o direito de representar, com os jornais, a vontade da nação, quando era certo que essa vontade exprimia, por assim dizer, um sentimento de vingança e de assassínio e quando tudo que tinha por certo

assentava em narrativas suspeitas de algumas centenas de fala-barato à procura de aventuras? O povo, no seio do qual vivia, de que tinha a consciência de fazer parte, não confirmava de maneira alguma qualquer destas afirmações. Aliás, também em si próprio não as via confirmadas: tal como o povo, ignorava em que consistia o bem comum, embora soubesse perfeitamente que o não podemos alcançar pela estrita observação dessa lei moral inscrita no coração de todos os homens.

Eis por que não podia preconizar a guerra, por mais generoso que fosse o seu objectivo. Era da opinião de Mikailitch, o que expressava o sentir de todo o povo, e representava muitíssimo bem a tradição relativa ao apelo aos Varengos: «Reinai e governai; prometemo-vos alegremente uma obediência completa. Tomamos para nós os penosos trabalhos e os pesados sacrifícios, mas a vós compete julgar e decidir.» Seria possível acreditar, de acordo com o que dizia Sérgio Ivanovitch, que o povo tivesse renunciado a um direito comprado por tão elevado preço?

Teria gostado de dizer, demais, que, se a opinião pública é juiz infalível, porque não seriam a revolução e a comuna tão legítimas como o movimento em prol dos Eslavos? A verdade, porém, é que eram pensamentos que não duram nada. Só uma coisa era evidente: que naquele momento a discussão irritava Sérgio Ivanovitch e que por isso mesmo não seria bom discutir. Levine não falou mais; limitou-se a chamar a atenção dos seus hóspedes para as nuvens, dizendo-lhes que lhe parecia mais prudente voltarem para casa.

CAPÍTULO XVII

O príncipe e Sérgio Ivanovitch subiram para a telega e foram-se embora, enquanto os demais, acelerando o passo, empreenderam o regresso a pé. Mas as nuvens cada vez obscureciam mais o céu, acastelando-se com tal rapidez que lhes foi preciso apressarem ainda mais o andar para chegarem antes que principiasse a chover. As nuvens dianteiras, baixas e negras, como fuligem, corriam pelo céu com extraordinária velocidade. Ainda faltavam uns duzentos passos para chegarem a casa, já se levantara o vento e um aguaceiro ia cair de um momento para o outro. As crianças corriam adiante, gritando, entre assustadas e alegres. Daria Alexandrovna, embaraçada com as saias, que se lhe enrodilhavam nas pernas, já não andava, corria também, sem perder os filhos de vista. Os homens avançavam em grandes passos, segurando os chapéus. Já estavam perto do alpendre quando principiaram a cair grandes gotas, que vieram esparrinhar-se contra a

goteira. Crianças e adultos abrigaram-se sob o telhado tagarelando alegremente.

— Onde está Catarina Alexandrovna? — perguntou Levine à governanta, que vinha ao seu encontro, no vestíbulo, com xales e mantas de viagem.

— Julgávamos que estava com os senhores.

— E Mitia?

— No Kolok, a criada deve estar com eles.

Levine pegou numa das mantas e correu para a mata.

Nesse breve intervalo de tempo, as nuvens haviam encoberto o Sol, escurecera como quando de um eclipse. O vento arremetia contra Levine, tenaz, como se lhe quisesse arrebatar a manta que ele levava, arrancava as folhas e as flores das tílias, despojando, sem piedade, os ramos brancos das bétulas, vergando tudo para o mesmo lado: acácias, flores, sebes, ervas e copas das árvores. As raparigas que trabalhavam no jardim passaram, correndo e gritando, a refugiar-se na dependência dos criados. A branca cortina de chuva torrencial cobria já toda a longínqua mata e metade do campo mais próximo e avançava rapidamente sobre Kolok. Sentia-se no ar a humidade da chuva que se fragmentava em gotas minúsculas.

Todo inclinado para diante, em luta com o vento que lhe arrebatava a manta das mãos, Levine aproximou-se da mata. Já distinguia qualquer coisa alvejando junto a um roble, quando, de repente, tudo se inflamou, a terra inteira se incendiou e foi como se a abóbada celeste se lhe rachasse por cima da cabeça. Ao abrir os olhos, momentaneamente cegos, Levine viu, horrorizado, através do espesso véu de chuva que o separava agora de Kolok, que a copa do roble que ele conhecia tão bem, e que ficava no centro da mata, mudara estranhamente de posição. «Será possível que lhe tenha caído em cima?», pensou. E logo em seguida, num movimento cada vez mais acelerado, a copa do roble desapareceu por detrás de outras árvores e ressoou-lhe aos ouvidos o estrondo da árvore que caía.

A cintilação do relâmpago, o estrondo e o arrepio que lhe percorreu todo o corpo foram simultâneos. Um medo horroroso o tomou.

— Meu Deus! Meu Deus! Que não-tenha caído em cima deles! — exclamou.

E conquanto tivesse, sentido, acto contínuo, quanto era absurda aquela súplica tardia, voltou a repeti-la, percebendo instintivamente que não podia fazer outra coisa. Dirigiu-se para o local da mata onde Kitty costumava ficar. Não a encontrou. Entretanto ouviu-a chamar do outro

lado do bosque. Correu para aí tão depressa quanto lho permitiam as botas cheias de água, que chapinhavam na lama. E foi então, tendo começado a clarear, que a descobriu, debaixo de uma tília, debruçada, ela e a criada, sobre um carrinho tapado com um guarda-sol verde. Embora a chuva tivesse deixado de cair, ambas permaneciam imóveis, na posição que haviam tomado no princípio da tormenta, procurando proteger a criança o melhor que podiam. O aguaceiro caíra-lhes em cima; a saia da criada ainda estava enxuta, mas o vestido da ama, encharcado, colava-se-lhe ao corpo. Na cabeça, o chapéu perdera a forma. Kitty voltou para Levine o rosto afogueado, a escorrer água, onde pairava um sorriso tímido.

— Sãos e salvos, louvado seja Deus! — exclamou Levine, patinhando na terra encharcada com as botas cheias de água. — Que imprudência, parece impossível! — gritou fora de si.

— Juro-te que não tive a culpa, íamos voltar para casa, quando nos vimos obrigados a mudar-lhe as fraldas. Era preciso... e foi então... — desculpou-se Kitty.

— Graças a Deus! Nem sei o que digo — confessou ele.

Pegaram na roupa encharcada. A criada retirou a criança do carrinho e com ela ao colo foram andando.

Ao lado de Kitty, Levine, arrependido de se ter irritado, apertava-lhe o braço às escondidas da criada.

CAPÍTULO XVIII

Apesar da decepção que experimentara ao verificar que aquela sua regeneração moral em nada lhe modificara o carácter, nem por isso Levine deixou de sentir, durante todo o dia, no meio das conversas mais variadas, conversas em que apenas parecia participar a parte exterior da sua inteligência, uma plenitude de coração que o enchia de contentamento.

Depois do jantar, conquanto a chuva houvesse parado, a humidade e o risco de novo aguaceiro impediram-nos de sair. Todavia, passaram o resto da jornada em casa bastante alegres e sem qualquer outra discussão. Ao princípio Katavassov fez rir as senhoras com os seus gracejos originais, que tanto agradavam sempre àqueles que o conheciam pela primeira vez; logo em seguida, contudo, provocado por Sérgio Ivanovitch, falou sobre as suas interessantíssimas observações acerca da

vida, das diferenças de caracteres e da fisionomia de machos e fêmeas das moscas caseiras.

Sérgio Ivanovitch também estava alegre. Durante o chá, instado pelo irmão, expôs as suas ideias acerca do futuro do problema oriental, e tão bem as expôs e de maneira tão simples que todos o ouviram com satisfação. Kitty foi a única que não o pôde escutar até ao fim: chamaram-na para dar banho ao Mitia. Daí a pouco tempo, também Levine era chamado ao quarto do filho. E inquieto, pois só o costumavam chamar em casos importantes, foi até lá.

Apesar do plano de Sérgio Ivanovitch — que Levine não acabara de ouvir — a respeito da importância que teria para a Rússia a emancipação de quarenta milhões de eslavos, início de uma nova era na história, coisa que muito interessava Levine, e se lhe afigurava algo de completa-mente novo, não obstante a curiosidade e a preocupação que lhe causara o facto de o terem chamado, logo que se viu só, assim que saiu do salão, lembrou-se das ideias que tivera essa manhã. E acto contínuo todas essas considerações acerca da importância do elemento eslavo na história universal lhe pareceram tão insignificantes em comparação com o que se lhe passava na alma que tudo esqueceu, abandonando-se ao estado de espírito anterior.

Agora já não recordava como até aí o processo das suas ideias. Não era preciso. Imediatamente se afundou no sentimento que o dominava e se relacionava com essas ideias, verificando ser esse o sentimento mais intenso e definido do que nunca. Agora não lhe sucedia o que costumava acontecer-lhe quando procurava maneira de se inquietar e lhe era necessário restabelecer todo o processo dos seus pensamentos em busca disse sentimento. Pelo contrário, a sensação de alegria e serenidade era mais viva que anteriormente e os pensamentos não lhe podiam acompanhar o sentimento.

Seguia pela varanda além, com os olhos em duas estrelas que já cintilavam no céu crepuscular quando, subitamente, lembrou o seguinte: «Ao olhar para o céu, pensando que a abóbada celeste não era a realidade, algo deixei por esclarecer, escondi qualquer coisa de mim próprio. Mas de qualquer forma, não pode haver objecção. Tudo se esclarecerá quando voltar a pensar nisso.»

Ao penetrar no quarto do filho, lembrou-se do que de si mesmo escondera: se a principal prova da divindade se traduz na revelação do bem, porque se limita apenas à Igreja cristã essa revelação? Que relações têm com semelhante revelação a crença dos budistas e a dos maometanos, que, outrossim, pregam e praticam o bem? Levine julgava possuir a resposta para isso, mas antes de ter

tempo de a expor entrou no quarto. Kitty, de mangas arregaçadas, permanecia ao lado da banheira do filho, mas, ao ouvir os passos do marido, virou para ele o rosto, chamando-o. Com uma das mãos amparara a cabeça de Mitia, que, de barriguinha para o ar, agitava os pèzinhos na água; com a outra espremia a esponja ritmicamente.

— Chega aqui! Olha para ele! — disse, quando Levine se aproximou. — Agáfia Mikailovna tem razão: já conhece as pessoas.

Evidentemente, nesse dia Mitia principiara a reconhecer os que o rodeavam.

Voltaram a fazer uma experiência diante de Levine, experiência que obteve êxito completo. A cozinheira, a quem haviam chamado especialmente para esse efeito, inclinou-se para a criança, franziu as sobrancelhas e abanou a cabeça. Porém, quando Kitty fez a mesma coisa um sorriso radiante iluminou a carinha de Mitia, que pousou as mãozinhas na esponja, produzindo com os lábios um ruído de estranho contentamento. Não só se entusiasmaram com isso Kitty e a criada, mas o próprio Levine.

Retiraram a criança da água, que gritava desesperadamente, espremeram-lhe a esponja em cima, envolveram-na num lençol e quando acabaram de a limpar entregaram-na à mãe.

— Ainda bem que começas a gostar dele — disse Kitty para o marido, logo que se sentou tranqüilamente no lugar do costume e deu o peito a Mitia. — Estou muito contente, principiava a afligir-me. Dizias que não sentias nada por ele.

— Exprimia-me mal. Apenas queria dizer que me causou uma decepção.

— Quê? A criança decepcionou-te?

— Estava à espera que ele me revelasse um sentimento novo e pelo contrário, só me inspirou, de princípio, piedade e desgosto...

Enquanto enfiava de novo nos dedos os anéis que tirara para dar banho a Mitia, Kitty ouvia o marido com uma atenção concentrada.

— Sim, piedade e temor, também... Foi só hoje, durante a. tempestade, que eu compreendi quanto gostava dele. Kitty sorriu, radiante.

— Assustaste-te muito? — inquiriu ela. — Eu também, e agora, que tudo passou, ainda sinto mais medo. Hei-de ver o roble. Que simpático o Katavassov! Apesar de tudo, passámos muito bem o dia. E tu, quando queres, sabes ser tão bom para o Sérgio Ivanovitch! Vai, vai ter com eles. Depois do banho fica sempre aqui muito calor.

CAPÍTULO XIX

Assim que saiu do quarto da criança e ficou só, Levine lembrou-se imediatamente desse pensamento em que havia algo não esclarecido. Em vez de voltar para o salão, onde se ouviam vozes, deteve-se na varanda e, apoiando-se na balaustrada, fitou o céu.

Já escurecera de todo. Ao sul, onde pousava os olhos, o céu estava claro, as nuvens acastelavam-se no lado oposto. Um relâmpago riscou a abóbada celeste e ao longe ouviu-se um trovão. Levine escutava atentamente as gotas que caíam rítmicas nas tílias do jardim, enquanto contemplava o triângulo de estrelas que lhe era familiar e a Via Láctea que o atravessava pelo meio. De cada vez que cintilava um relâmpago, não só desaparecia a Via Láctea, mas também as estrelas rutilantes. Porém, quando os relâmpagos se desvaneciam, as estrelas tornavam a aparecer no mesmo sítio, como que atiradas por mão certeira.

«Vejamos, que vem a ser isto que me perturba?», perguntou Levine a si próprio, sentindo, no fundo da sua alma, a solução para as suas dúvidas, embora ainda não soubesse qual fosse.

«Sim, a única manifestação evidente e indiscutível da divindade está nas leis do bem, expostas ao mundo pela revelação que sinto dentro de mim e me identifica, quer queira, quer não, com todos aqueles que como eu as reconhecem. É esta congregação de criaturas humanas comungando na mesma crença que se chama Igreja. Mas os judeus, os muçulmanos, os budistas, os confucionistas?», disse para si mesmo, repisando o ponto delicado. «Estarão eles entre milhões de homens privados do maior de todos os benefícios, do único que dá sentido à vida?... Ora vejamos», continuou, após alguns instantes de reflexão, «qual é o problema que eu a mim mesmo estou a pôr? O das relações das diversas crenças da humanidade com a Divindade? É a revelação de Deus no Universo, com os seus astros e as suas nebulosas, que eu pretendo sondar. E é no momento em que me é revelado um saber certo inacessível à razão que eu me obstino em recorrer à lógica!

«Eu bem sei que as estrelas não caminham», prosseguiu, notando a mudança que se operara na posição de um planeta que subia por detrás de uma bétula. No entanto, incapaz de imaginar a rotação da Terra, ao ver as estrelas mudarem de lugar, tenho razão quando digo que elas caminham. Teriam os astrônomos chegado a compreender tudo isto, teriam chegado a calcular alguma coisa se porventura houvessem tomado em consideração movimentos da terra tão variados e complicados? As surpreendentes conclusões a que eles chegaram sobre a distância, o peso, o movimento e as revoluções dos corpos celestes não terão por ponto de

partida os movimentos aparentes dos astros em torno da Terra imóvel, estes mesmos movimentos de que eu sou testemunha, como milhões de homens o foram e o serão durante séculos e que sempre podem vir a ser verificados? Pela mesma razão que as conclusões dos astrônomos seriam vãs e inexactas se não fossem deduzidas das observações do céu aparente, em relação a um única meridiano e a um único horizonte, também as minhas deduções metafísicas se veriam privadas de sentido se eu as não fundamentasse neste conhecimento do bem inerente ao coração de todos os homens e de que eu tive, pessoalmente, a revelação, graças ao cristianismo, e que sempre me será dado verificar na minha alma. As relações das outras crenças com Deus continuarão para mim insondáveis, e eu não tenho o direito de as perscrutar.

— Quê, pois tu ainda estás aí? — disse, de súbito, a voz de Kitty, que voltava para o salão. — Não tens nada que te preocupe? — insistiu ela, procurando ler no rosto do marido, à claridade das estrelas. Um relâmpago que atravessou o espaço entremostrou-lho sereno e feliz.

«Ela compreende-me», pensou Levine, vendo-a sorrir. «E bem sabe no que estou a pensar. Devo dizer-lho? Devo.» No momento em que ia falar, Kitty interrompeu-o.

— Faz-me favor, Kóstia — disse ela —, vai dar uma olhadela ao quarto do Sérgio Ivanovitch. Estará tudo em ordem? Ter-lhe-iam posto um lavatório novo? A mim custa-me ir lá.

— Está bem, vou — respondeu Levine, beijando-a.

«Não, é melhor calar-me», decidiu ele, enquanto a mulher entrava no salão. «Este segredo só tem importância para mim, e palavra alguma o poderia explicar. Este novo sentimento não me modificou, não me deslumbrou, nem me tornou feliz, como eu supunha. Sucedeu a mesma coisa com o amor paternal, que não foi acompanhado de surpresa ou de deslumbramento. Devo chamar-lhe fé? Não sei. Sei apenas que me penetrou na alma através do sofrimento e nela se implantou com toda a firmeza.

«Continuarei, sem dúvida, a impancientar-me com o meu cocheiro Ivan, a discutir inutilmente, a exprimir mal as minhas próprias ideias. Sentirei sempre uma barreira entre o santuário da minha alma e a alma dos outros, mesmo a da minha própria mulher. Sempre tornarei Kitty responsável dos meus terrores, arrependendo-me logo em seguida. Continuarei a rezar sem saber porque rezo. Que importa! a minha vida não estará mais à mercê dos acontecimentos, cada minuto da minha existência terá um sentido incontestável. Agora possuirá o sentido indubitável do bem que eu lhe sou capaz de infundir!»

FIM DO LIVRO

Fonte: www.portaldetonando.com.br

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