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Ana Karenina
(PRIMEIRA PARTE)

Leon Tolstoi

Julgava essa aspiração impossível, certo de que, aos olhos dos pais de Kitty, não era nem um bom partido nem a pessoa indicada para tão maravilhosa criatura Demais, convenceu se de que ela não podia amá-lo Aos olhos dos pais de Kitty, Levine não tinha nem profissão determinada nem posição social Enquanto os seus camaradas de estudo já eram, um coronel e ajudante de campo, outro catedrático, director de um banco e de uma companhia de caminhos de ferro um terceiro, e o último presidente de um tribunal, isto é, o próprio Oblonski, ele, pelo contrário (sabia perfeitamente o efeito que isso produzia nas outras pessoas), era simplesmente proprietário rural, dedicava se à criação de gado, à caça às perdizes e à construção Quer dizer era um homem sem aptidões, que não chegara a ser coisa alguma, e que na opinião geral, fazia apenas o que fazem os que não servem para mais nada.

A misteriosa e encantadora Kitty não podia gostar de um homem tão feio como ele, que Levine assim se considerava, e sobretudo de um homem tão simples, que não sobressaía em coisa alguma Por outro lado, as suas anteriores relações com ela — as relações de um homem com uma garota —, graças à amizade que mantivera com o irmão, apareciam lhe como mais um obstáculo a esse amor Imaginava que se podia querer como amigo a um homem bom, como se considerada, embora feio, mas que seria preciso ser belo e sobretudo excepcional para despertar amor igual ao que ele sentia por Kitty.

Ouvira dizer que as mulheres muitas vezes se enamoravam de homens vulgares, mas não acreditava nisso, pois julgava os demais por si, e ele só se sentia capaz de amar uma mulher bonita, misteriosa e original.

No entanto, após dois meses sozinho na aldeia, convencera se de que o sentimento que dele se apossara nada tinha a ver com os amores que conhecera na adolescência, uma vez que lhe era impossível sossegar e viver na ignorância de Kitty vir a ser ou não sua mulher Também se persuadira de que a família nenhuma razão tinha para o repelir Partiu, pois, para Moscovo, no intuito de fazer o seu pedido e de se casar, na hipótese de um bom acolhimento Caso contrário não podia imaginar quais as conseqüências de uma resposta negativa.

CAPÍTULO VII

Levine chegou a Moscovo no comboio da manhã e hospedou se em casa do irmão mais velho, Kosnichev Assim que mudou de roupa, entrou no gabinete do irmão disposto a expor lhe os motivos da sua viagem e a pedir lhe conselho Kosnichev, porém, não estava só Recebia, na ocasião, um professor de filosofia que viera de Karkov na intenção de esclarecer uma questão grave que entre ele surgira acerca de um muito importante problema de filosofia O professor sustentava uma luta encarniçada com os materialistas e Sérgio Kosnichev, que a acompanhava interessado, escrevera lhe expondo os próprios pontos de vista depois de ler o seu último artigo increpava-o por fazer demasiadas concessões ao maternalismo. O professor apresentara se imediatamente em Moscovo para discutir o assunto. Tratava se de uma questão actual. Existe um limite entre os fenômenos psíquicos e os fenômenos fisiológicos? Se existe, onde está?

Sérgio Ivanovitch acolheu o irmão com o sorriso afectuoso e frio com que costumava acolher a todos, e, depois de o apresentar ao professor, prosseguiu com este a conversa interrompida.

O professor, um homenzinho de óculos, de testa estreita, calara se por momentos para cumprimentar Levine, continuando em seguida o seu discurso sem lhe prestar a mínima atenção Levine sentou se, à espera de que o professor se fosse, mas não tardou a interessar se também pela discussão.

Já havia encontrado nas revistas artigos em que se falava do assunto em discussão, interessado que estava em ampliar os seus conhecimentos das ciências sociais Estudara ciências naturais, mas nunca estabelecera relação entre as conclusões da ciência sobre as origens do homem, os reflexos, a biologia, a sociedade e as questões que ultimamente o preocupavam cada vez mais, isto é, o sentido da vida e o significado da morte.

Ao ouvir a discussão de Sérgio Ivanovitch com o professor, reparou que eles relacionavam os problemas científicos com os que diziam respeito à alma Várias vezes abordaram tais questões, mas, ao chegarem ao ponto mais importante, na opinião de Levine, desviavam se imediatamente e voltavam a aprofundar, no domínio das subtis subdivisões, as críticas, as citações, as alusões, as referências às opiniões autorizadas, ficando ele sem perceber coisa alguma.

— Não posso concordar com Keiss — dizia Sérgio Ivanovitch com a sua peculiar clareza, o seu rigor de expressão e elegante dicção — em que o conceito que tenho do mundo exterior deriva das sensações A ideia

fundamental do ser não a recebo através das sensações, pois não existe órgão nenhum especial para a sua transmissão.

— Sim, mas Wurts, Knauts e Pripasov responder-lhe ao que a consciência que o senhor tem do ser deriva do conjunto de todas as sensações. Wurts afirma mesmo que sem a sensação, a consciência do ser não existe.

— Eu afirmo o contrário — principiou Sérgio Ivanovitch.

Neste momento, porém, Levine, pensando que eles se iam afastar do ponto capital uma vez mais, resolveu formular ao professor a seguinte pergunta: — Por conseguinte, quando os meus sentidos se aniquilam e o meu corpo morre, não há mais existência possível? O professor, despeitado e como que chocado por aquela interrupção, fitou o estranho interrogador, que mais parecia um rústico do que um filósofo, desviando em seguida os olhos para Sérgio Ivanovitch, como a perguntar-lhe: «Valerá esta pergunta uma resposta?» Sérgio Ivanovitch, no entanto, que estava longe de falar com a intransigência e a persuasão com que falava o professor, e cujas ideias eram suficientemente desenvolvidas para poder responder a esta pergunta e compreender o ponto de vista simplista e natural com que ela fora feita, sorriu, dizendo:

— Ainda não podemos responder a essa pergunta...

— Não temos dados — afirmou o professor, e prosseguiu com os seus argumentos. — Não. Observo que, se, como afirma Pripasov, as sensações se fundam nas impressões, devemos distinguir, de maneira rigorosa, estes dois conceitos.

Levine deixou de estar à escuta, e esperou que o professor se retirasse.

CAPÍTULO VIII

Quando o professor saiu, Sérgio Ivanovitch dirigiu-se ao irmão: — Gostei muito de ter ver. Vais demorar-te? Que tal a herdade? Levine sabia que ao irmão não interessavam as terras e que por mera condescendência se informava da herdade, por isso limitou-se a falar-lhe na venda do trigo e no dinheiro.

Teria querido falar-lhe na intenção que tinha de contrair

casamento e pedir-lhe conselho, decidido como estava a casar-se, mas quando viu Sérgio Ivanovitch e ouviu a sua conversa com o professor, quando atentou no tom involuntariamente protector com que ele se lhe dirigia a propósito da administração da propriedade (não tinham feito partilhas das terras herdadas da mãe e Levine era quem as administrava), percebeu que não podia falar com o irmão acerca dos seus projectos, pois ele não os tomaria em consideração como desejaria Levine.

— E que tal o vosso zemstvo? — perguntou Sérgio Ivanovitch, que mostrava grande interesse por esse organismo, atribuindo-lhe muita importância.

— Se queres que te diga, não sei...

— Como?... Pois não eras membro da administração?

— Não, já não sou; pedi a demissão, já deixei de assistir às reuniões — replicou Levine.

— É pena! — lamentou Sérgio Ivanovitch, de sobrecenho carregado. Para se justificar, Levine contou-lhe o que costumava suceder nas reuniões de seu distrito.

— É sempre a mesma coisa! — interrompeu Sérgio Ivanovitch. — Somos sempre assim, nós, russos! Talvez seja um bom traço do nosso temperamento sermos capazes de reconhecer os nossos defeitos. Mas exageramos, consolando-nos com a ironia que sempre temos na ponta da língua. Apenas te direi que se concedessem direitos como os que concedem as nossas instituições do zemstvo a qualquer outro povo europeu, por exemplo, aos Alemães ou aos Ingleses, acabariam por obter a liberdade por meio deles. Nós, pelo contrário, apenas sabemos zombar dessas coisas.

— Que havemos de fazer? — disse Levine, como que a desculpar- se. — Foi a minha última prova. Dediquei-me a ela com toda a minha alma, mas não posso, não sou capaz.

— Não é que não sejas capaz, encaras mal o assunto — replicou Sérgio Ivanovitch.

— Talvez — respondeu Levine, desanimado.

— Sabes que o nosso irmão Nicolau está aqui outra vez?

Nicolau, o irmão mais velho de Constantino Levine e gêmeo de Sérgio Ivanovitch, era um homem perdido. Dissipara grande parte da fortuna, tinha relações com pessoas extravagantes e de má reputação e não falava com os irmãos.

— Que dizes? — exclamou Levine, horrorizado. — Como soubeste?

— Prokofi viu-o na rua.

— Aqui em Moscovo? Onde mora? Sabes?

Levine levantou-se, como que disposto a sair imediatamente.

— Lamento ter-te dito — replicou Sérgio Ivanovitch, abanando a cabeça perante a agitação do irmão. — Mandei averiguar onde vive e remeti-lhe a letra de Trubine, que eu paguei. Eis o que ele me respondeu.

— Sérgio Ivanovitch estendeu ao irmão um papel que estava em cima da mesa, debaixo de um pesa-papéis. Levine leu o bilhete, escrito com uma letra esquisita, que lhe era familiar:

Peco-lhes encarecidamente que me deixem em paz. É a única coisa que exijo dos meus amáveis irmãos.

NICOLAU LEVINE

Depois de ler o bilhete, Levine permaneceu diante do irmão com o papel entre os dedos, sem levantar a cabeça. Na sua alma debatia-se o desejo de esquecer o irmão infeliz e a consciência de que tal atitude não era correcta — Pelo visto, pretende ofender me — prosseguiu Sérgio Ivanovitch —, mas não o consegue Desejaria ajudá-lo com toda a minha alma, sei, porém, que é impossível — Sim, sim — replicou Levine —Compreendo-te e aprecio o teu procedimento para com ele Mas eu irei procurá-lo — Pois vai, se queres, embora não te aconselhe a fazê-lo Não receio pelo que me diz respeito, não poderá indispor se comigo Mas não o aconselho por ti Enfim, faz o que entenderes — Talvez seja impossível ajudá-lo, mas sinto, principalmente neste momento (claro que se trata de outra coisa) que não possa ficar de braços cruzados — A verdade é que não o compreendo — disse Sérgio Ivanovitch — A única coisa que compreendo é essa lição de humildade Principiei a considerar de outra maneira, com mais indulgência, aquilo a que se costuma chamar infâmia, desde que o nosso irmão Nicolau tomou este caminho Bem sabes o que ele fez

— É horrível! É horrível! — repetiu Levine.

Quando o criado de Sérgio Ivanovitch lhe deu o endereço de Nicolau, Levine estava disposto a procurá-lo imediatamente, mas, depois de reflectir alguns instantes, decidiu adiar para a noite essa visita Antes

de mais nada, para tranqüilidade de espírito, queria resolver o assunto que o trouxera a Moscovo De casa de Kosnichev dirigiu-se à repartição de Stepane Arkadievitch e depois de se informar acerca dos Tchebatski, encaminhou se para o local onde aquele lhe dissera que podia encontrar Kitty.

CAPÍTULO IX

Às quatro da tarde, Levine, com o coração a latejar, apeou se de um carro de praça à porta do Jardim Zoológico e dirigiu-se por uma das áleas que levavam à pista de patinagem, certo de ali encontrar Kitty, pois vira a carruagem dos Tcherbatski à entrada do parque.

Era um dia claro e frio Junto à porta havia filas de carruagens e de trenós, de cocheiros e de polícias O público, bem vestido, com seus chapéus que resplandeciam ao sol brilhante, agitava-se junto aos portões e pelas alamedas limpas de neve, no meio das casinhas de estilo russo com os seus adornos esculpidos As velhas e frondosas bétulas do jardim, cujos ramos pendiam sob a neve, pareciam engalanadas de vestes novas e solenes

Levine caminhava pela álea de patinagem dizendo de si para consigo. «Não devo emocionar-me, preciso de estar sereno. Que é isso? Cala-te, tonto!», acrescentava, dirigindo-se ao seu próprio coração E quanto mais se esforçava por tranqüilizar-se, tanto mais emocionado se sentia Alguém o cumprimentou, mas Levine nem sequer o reconheceu. Aproximou se dos relevos do gelo, de onde os trenós se precipitavam, para voltarem a subir tirados por correntes, num grande ruído de ferros. No meio de todo aquele tumulto ouviam-se vozes alegres Andou mais uns passos, até encontrar a pista, e imediatamente no meio dos patinadores reconheceu Kitty.

A alegria e o temor que de repente lhe inundaram o coração revelaram-lhe imediatamente a presença dela. De facto, Kitty, no extremo oposto da pista de patinagem, falava com uma senhora.

Nada a distinguia das pessoas que a rodeavam, quer na atitude, quer no traje Levine, no entanto, logo a reconheceu no meio da multidão tão distintamente como reconheceria uma rosa num ramo de urtigas. Parecia tudo iluminar, dir-se-ia um sorriso que tudo fizesse refulgir à sua volta. «Ousarei, realmente, descer até à pista e aproximar me dela?», pensou Levine. O lugar onde estava Kitty parecia-lhe um santuário inacessível e por momentos sentiu tanto medo que pensou em fugir. Teve

de fazer um grande esforço para se convencer de que Kitty, rodeada como estava por toda a espécie de gente, não podia achar estranho que também ele ali aparecesse. Desceu até à pista, evitando olhá-la de frente, como se ela fosse o Sol, mas, sol que era, também não precisava de olhar para vê-la.

Era o dia e a hora em que todas as pessoas do mesmo nível social se encontravam semanalmente ali na patinagem. Havia excelentes patinadores, que exibiam as suas habilidades, e aprendizes que ensaiavam, atrás dos pequenos trenós, os seus primeiros passos tímidos e vacilantes. Jovens e velhos, todos se entregavam, por questão de higiene, ao mesmo exercício. Afigurava-se a Levine que todos eles eram seres eleitos dos deuses, só pelo facto de se encontrarem junto dela Perseguiam na, ultrapassavam na, interpelavam-na numa completa indiferença, divertindo se independentemente dela e como se a única coisa que lhes importasse fosse a excelente pista e o tempo óptimo. Nicolau Tcherbatski, o primo de Kitty, de casaco curto, calça justa, e de patins, descansava num banco Ao ver Levine, gritou-lhe.

— Olá, primeiro patinador da Rússia! Quando chegaste? O gelo está óptimo. Calça os patins.

— Não os trouxe — replicou Levine, surpreendido com semelhante audácia e desenvoltura diante de Kitty, sem a perder de vista um só instante, embora não olhasse para ela Sentia que o sol se ia aproximando Kitty, que estava num dos extremos da pista, principiara a deslizar na sua direcção, assustada, ao que parecia, colocando os pèzinhos, calçados com botas altas, em posição não muito firme sobre a superfície do gelo. Um rapazinho, vestido à maneira russa, gesticulando muito e todo inclinado para diante, procurava ultrapassá-la Kitty patinava com pouca segurança.

Tirara as mãos do regalo pendente do pescoço, como se se preparasse para cair, e olhando para Levine, que acabava de descobrir, sorria assustada. Ao findar a volta, com um impulso do pèzinho flexível, deslizou até junto de Tcherbatski, e, agarrando-se a ele, sorrindo, cumprimentou Levine com um aceno de cabeça. Ainda era mais encantadora do que ele imaginara. Quando pensava em Kitty, Levine podia contemplá-la, de repente, toda inteira, e sobretudo àquela sua encantadora cabecinha loura, tão graciosamente pousada nos jovens e esbeltos ombros, com aquele seu ar de menina, cheia de candura e bondade. O contraste entre a graça juvenil do rosto e a beleza feminina do busto davam lhe um encanto todo especial, que Levine muito apreciava. Mas o que sempre o assombrava nela eram os olhos, tímidos, serenos e sinceros, e aquele sorriso que o transportava a um mundo de magia, em que se sentia enternecido e dulcificado como só raras vezes se lembrava

de se ter sentido na primeira infância.

— Já esta aqui há muito tempo? — perguntou Kitty, estendendo-lhe a mão — Obrigada — acrescentou, quando Levine apanhou o lencinho que lhe caíra do regaço.

— Quê? Não, há pouco. Cheguei ontem, quer dizer hoje — respondeu ele, que não percebera logo a pergunta, em virtude da emoção que o assaltava — Pensava em ir a sua casa — prosseguiu, mas, ao lembrar se do motivo por que procurara Kitty, perturbou se, enrubescendo — Não sabia que patinava Patina admiravelmente.

Kitty fixou Levine com atenção, como se desejasse compreender o motivo do seu embaraço.

— O seu elogio é estimulante. É tradicional, aqui, a sua fama de ser o melhor patinador — observou ela, enquanto com a mãozinha enluvada de preto sacudia as agulhas de gelo do regalo.

— Sim, houve tempo em que patinar me apaixonava. Queria chegar à perfeição.

— Parece que se apaixonava por tudo — observou Kitty, sorrindo — Gostaria muito de vê-lo patinar. Calce os patins e vamos patinar juntos.

«Patinar juntos! Seria possível?», pensava Levine com olhos cravados em Kitty.

— É já — e foi calçar os patins

— Há muito tempo que não aparecia por aqui — observou o em pregado da pista de patinagem, enquanto lhe segurava o pé para firmar o patim — Ninguém patina como o senhor. Está bem assim? — perguntou lhe, apertando a correia.

— Esta bem, esta bem, depressa, por favor — respondeu lhe Levine, reprimindo a custo o sorriso de felicidade que, a pesar seu, lhe transparecia no semblante — «Isto é vida? Isto é a felicidade?», pensava «Disse pintos, vamos patinar juntos. Digo lhe agora? Mas agora, justamente porque me sinto feliz, é que receio dizer lho, feliz como estou, cheio de esperança. Mas é preciso. É preciso! Abaixo a timidez!»

Levine pôs se de pé, despiu o capote e, tomando impulso por cima do gelo crespo, logo ali junto ao pavilhão surgiu na superfície lisa da pista, deslizando sem esforço, como se acelerar, retardar ou dirigir a carreira, tudo dependesse da sua vontade. Aproximou se de Kitty com timidez, mas o sorriso desta tranqüilizou o de novo.

Kitty deu lhe a mão e deslizaram juntos, acelerando a marcha. Quanto mais depressa iam mais ele lhe apertava a mão.

— Consigo aprenderia a patinar mais depressa, não sei por quê,

mas sinto me segura na sua companhia — disse lhe ela.

— Eu também me sinto seguro quando se apóia em mim — replicou Levine, corando, assustado com a própria ousadia. E, efectivamente, mal pronunciou estas palavras, de repente, como se o Sol se escondesse atrás das nuvens, o rosto de Kitty anuviou se e uma ruga se lhe desenhou na testa Levine sabia que esta alteração no rosto de Kitty correspondia a uma concentração do pensamento.

— Que tem? Está claro que não tenho o direito de fazer lhe esta pergunta — disse ele, precipitadamente.

— Por quê? Não, não tenho nada. — respondeu Kitty, com uma expressão fria, acrescentando — Já viu Mademoiselle Linon? — Não, ainda não.

— Pois vá lhe falar, aprecia o muito.

«Que é isto? Ofendê-la ia? Meu Deus, ajuda me!», suspirou Levine, e dirigiu se, veloz, para o banco onde estava a velha francesa, toda caracóis grisalhos, que o acolheu como a um velho amigo, mostrando lhe, ao sorrir, a dentadura postiça.

— Estamos crescendo — observou ela, enquanto mostrava Kitty com os olhos — e envelhecendo Tiny bear já é maior — continuou ela, rindo, recordando lhe que costumava chamar, às três irmãs, os três ursinhos, os ursinhos de um conto inglês — Lembra se de que costumava chamá-las assim? Levine nem de longe se recordava do gracejo, mas a velha preceptora havia dez anos que lhe achava muita graça.

— Bom, vá, vá patinar, não fique aqui Não acha que a nossa Kitty já patina muito bem?

Quando Levine voltou, correndo, para junto de Kitty, no rosto dela já não havia severidade, e os seus olhos olhavam sinceros e suaves como antes. Todavia, Levine julgou notar lhe na afabilidade um tom especial de serenidade premeditada. E sentiu se triste. Depois de conversar com ele acerca da velha preceptora e das suas excentricidades, Kitty interrogou o sobre a sua vida.

— Será possível que não se aborreça durante o Inverno na aldeia?

— Não, não me aborreço, estou sempre muito ocupado — respondeu Levine, sentindo que ia acontecer o mesmo que no princípio do Inverno, pois ela, usando aquele seu tom tranqüilo, obrigava-o a manter-se no mesmo diapasão, do qual Levine não seria capaz de livrar-se.

— Pensa ficar muito tempo em Moscovo? — perguntou Kitty.

— Ainda não sei — disse Levine, sem prestar atenção ao que dizia. Pensava que se se tornasse a deixar dominar por aquele seu modo sereno, amistoso, voltaria para, a aldeia sem nada decidir, e resolveu rebelar-se.

— Como não sabe?

— Pois não sei. Depende de si — disse, logo assustado com as palavras que pronunciara.

Kitty ou não ouviu ou não quis ouvir essas palavras. Fosse como fosse, pareceu tropeçar, bateu duas vezes com o pèzinho no chão e afastou-se, rápida. Ao chegar junto de Mademoiselle Linon disse-lhe qualquer coisa e dirigiu-se ao pavilhão onde as senhoras calçavam e descalçavam os patins.

«Meu Deus, que lhe fiz eu? Meu Deus, ajuda-me, ilumina-me!», dizia consigo mesmo Levine, como que rezando; e como se, ao mesmo tempo, sentisse necessidade de um exercício violento, pôs-se a deslizar sobre os patins, descrevendo círculos atrás de círculos.

Entretanto um dos jovens, o melhor patinador de entre os novos, saiu do café, de cigarro na boca e os patins calçados. Ganhando impulso, desceu ruidosamente a escada, saltando degrau a degrau, prosseguindo, depois, sobre o gelo, sem mudar sequer a posição livre das mãos.

— Ah, um novo truque! — exclamou Levine, e imediatamente galgou os degraus, disposto a fazer o mesmo.

— Cuidado, veja lá se se magoa. É preciso prática — gritou-lhe Nicolau Tcherbatski.

Levine trepou até ao patamar, afastou-se para ganhar o maior impulso possível e deixou-se deslizar, mantendo o equilíbrio com a ajuda das mãos. No último degrau tropeçou, mas, roçando apenas de leve a superfície do gelo, fez um movimento rápido, ergueu-se e, soltando uma gargalhada, precipitou-se na pista.

«Que rapaz agradável», pensou Kitty, que naquele momento saía do pavilhão com Mademoiselle Linon, seguindo Levine com os olhos e sorrindo, doce e carinhosamente, como se se tratasse de um irmão querido. «Teria eu procedido realmente mal? Dizem que isto é coqueteríe! Sei que não é dele que eu gosto, mas nem por isso deixo de me sentir bem na sua companhia. É tão simpático... Mas por que me teria ele dito aquilo?...», pensava ela.

Ao ver que Kitty se retirava, e que a mãe a aguardava na escada, Levine, muito afogueado por causa do exercício violento que fizera, deteve-se, pensativo. E desembaraçando-se dos patins foi no encalço das senhoras até ao portão do parque.

— Muito prazer em vê-lo. Recebemos todas as quintas-feiras, como sempre — disse a princesa.

— Hoje, por conseguinte?

— Dar-nos-á muito prazer a sua presença — replicou a princesa secamente.

Esta frieza não agradou a Kitty, que, sem poder reprimir o desejo de suavizá-la, se voltou para trás e num sorriso disse: — Até logo.

Naquele momento, Stepane Arkadievitch, de chapéu à banda, rosto e olhos resplandecentes, entrava no parque com um ar alegre e triunfante. Ao aproximar-se, porém, da sogra, respondeu, com uma expressão triste e contrita, à pergunta que esta lhe fazia sobre a saúde de Dolly. Depois de ter falado com ela em voz baixa e desanimado, travou Levine pelo braço.

— Então, vamo-nos embora? — exclamou. — Tenho pensado em ti todo este tempo, e estou muito contente, muito, que tenhas vindo — acrescentou, olhando-o nos olhos com uma expressão significativa.

— Sim, vamo-nos, vamo-nos — tornou-lhe Levine, sentindo-se feliz, no ouvido o cristal da voz que lhe dissera «até logo» e nos olhos o sorriso que a acompanhara.

— Aonde vamos? Ao Hotel de Inglaterra ou ao Ermitage?

— Para mim dá no mesmo.

— Então vamos ao de Inglaterra — disse Stepane Arkadievitch, escolhendo esse restaurante, porque, como era maior ali a sua dívida do que no Ermitage, lhe parecia pouco decente evitá-lo. — Tens carro à tua espera? Óptimo. Mandei o meu embora.

Durante o trajecto os dois amigos conservaram-se calados. Levine pensava no que poderia significar aquela mudança de expressão no rosto de Kitty, ora cheio de esperança, ora desesperado e convencido de que eram insensatas as suas ilusões. No entanto, sentia-se outro, em nada se parecia com o homem que fora antes do sorriso de Kitty e do seu «até logo».

jantar.

Por sua vez, Stepane Arkadievitch ia preparando a ementa do

— Gostas de robalo? — perguntou a Levine ao chegarem.

— Que dizes? — inquiriu por sua vez Levine. — De robalo? Gosto muitíssimo.

CAPÍTULO X

Quando entraram no restaurante, Levine não pôde deixar de observar em Oblonski uma expressão especial, como que uma alegria contida, que se notava tanto no rosto como em todo o seu ser. Stepane Arkadievitch tirou o sobretudo e de chapéu à banda penetrou na sala de jantar, dando ordens aos solícitos criados que o rodeavam todos de fraque e guardanapo debaixo do braço. Cumprimentando para a direita e para. a esquerda os amigos que o acolhiam cheios de simpatia, como de costume, Oblonski aproximou-se do balcão, onde bebeu um copo de vodka enquanto petiscava uns mariscos. Disse qualquer coisa à empregada francesa — toda pintada e enfeitada de fitas e rendas — que a fez rir a bom rir. Pelo seu lado, Levine não quis beber vodka, precisamente porque o incomodava aquela francesa, para ele uma mistura de cabelos postiços, de poudre de riz e vinaigre de toilette. Como se se tivesse aproximado de um lugar pestilento, afastou-se dali precipitadamente. A sua alma transbordava de Kitty e diante de si só via os olhos dela irradiando ventura.

— Por aqui, se faz favor, Excelência — disse um criado velho cujos enormes quadris não lhe deixavam ajustar as abas do fraque. — Faça favor, Excelência — continuou, dirigindo-se também a Levine, em sinal de respeito por Oblonski.

Estendeu rapidamente uma toalha limpa numa mesinha redonda, já entoalhada, sobre a qual havia um candeeiro de bronze. E depois de aproximar da mesa as cadeiras forradas de veludo, quedou-se, o guardanapo numa das mãos, a lista na outra, aguardando as ordens de Stepane Arkadievitch.

— Se Sua Excelência prefere um gabinete reservado, terá um livre dentro de instantes. O príncipe Galitzine está ali com uma senhora, mas já vai sair. Temos ostras frescas.

— Ah! Ostras!

Stepane Arkadievitch ficou pensativo.

— Que achas? E se alterássemos o plano, Levine? — disse, apontando com o dedo a ementa. No seu rosto havia uma grande indecisão. — São boas as ostras? Hem? — São de Flensburgo. Hoje, de Ostende, não há.

— Tanto faz que sejam de Flensburgo. Mas, estão frescas?

— Recebemo-las ontem.

— Então principiamos pelas ostras e alteremos todo o plano. Hem?

— Para mim é a mesma coisa. Do que eu gosto é dos stchi e da kacha; mas aqui não há disso.

— Deseja Vossa Excelência kacha à la russe? — perguntou o criado, inclinando-se para Levine, como uma aia se debruça para uma criança.

— Não, realmente o que tu pedires estará bem. Patinei muito e tenho fome. E não penses — acrescentou, ao ver que Oblonski parecia descontente — que não vou apreciar a tua escolha. Comerei com muito prazer.

— Era o que faltava! Podes dizer o que quiseres, mas comer é um dos prazeres maiores da vida — exclamou Stepane Arkadievitch. — Bom, pois vais trazer-nos ostras, duas... Serão poucas: três dúzias. Sopa de verdura...

— Printanière — adiantou-se o criado. Mas, ao que parecia, Stepane Arkadievitch não desejava dar-lhe o prazer de dar nomes franceses aos pratos.

— De legumes, sabes? A seguir robalo com um molho e depois... rosbife, bem passado, hem! E por fim frango e conservas.

O criado, ao lembrar-se que Stepane Arkadievitch tinha a mania de dar aos pratos nomes russos, não ousou interrompê-lo mais. Uma vez escolhido o jantar, porém, deu-se ao prazer de repetir, malicioso, toda a ementa à francesa: «Soupe printanière, turbot sauce Beumarchais, poulard à l’estragon, macédoine de fruits.» E acto contínuo, como que movido por uma mola, retirou a ementa e apresentou a lista dos vinhos a Stepane Arkadievicth.

— Que vamos beber?

— O que quiseres, mas não muito. Champanhe — disse Levine.

— Quê? Para começar? É, talvez tenhas razão. Gostas do rótulo branco?

— Cachet Blanc — corrigiu o criado.

— Bom, traz desse para as ostras. Depois veremos.

— Muito bem. E que vinho de mesa deseja, Excelência?

— Traz-nos Nuits. Não, antes o clássico Chabits.

— Muito bem. E posso servir-lhe o seu queijo, Excelência?

— Sim, parmesão. Ou preferes outro?

— Tanto faz — respondeu Levine, sem poder conter o riso.

O criado afastou-se correndo, com as abas do fraque apertadas atrás, e daí a cinco minutos voltava, voando, com uma bandeja de ostras abertas nas suas conchas de nácar, e uma garrafa entre os dedos.

Stepane Arkadievitch desdobrou o guardanapo engomado, meteu uma das pontas no colete, apoiou os braços e pôs-se a comer as ostras.

— Não estão nada mal — disse, enquanto ia arrancando, com uma faquinha de prata, das suas conchas nacaradas as ostras vivas, que devorava umas atrás das outras. — Não estão nada mal — repetia, mirando, os olhos brilhantes, ora Levine, ora o criado.

Levine também comeu ostras, embora preferisse pão branco com queijo. Estava pasmado com Oblonski. O próprio criado, que desarrolhara a garrafa e deitara o espumoso vinho nas taças de cristal, olhava para Oblonski com um sorriso de satisfação enquanto ajeitava o laço da gravata branca.

— Não gostas muito de ostras ou estás preocupado? — perguntou Stepane Arkadievitch, virando a taça.

Oblonski desejava que Levine estivesse alegre. E efectivamente estava, mas sentia-se inibido. No seu estado de espírito incomodava-o aquele restaurante com os seus gabinetes reservados, em que se comia com mulheres, e aquela barafunda, bem como os bronzes, os espelhos, as luzes e os criados. Temia conturbar os belos sentimentos que tinha na alma.

— Eu? Sim, estou preocupado e além disso tudo isto me inibe — respondeu. — Não podes calcular como este ambiente me parece estranho, a mim, um aldeão. É um pouco como as unhas daquele senhor que eu vi na tua repartição.

— Sim, reparei nisso, que as unhas do pobre Grimevitch te interessaram muito — disse Oblonski, rindo.

— Sim, que queres? Procura compreender me, pondo te no meu lugar, adopta o ponto de vista de um homem que vive na aldeia. Ali procuramos ter as mãos para trabalhar com comodidade, por isso cortamos as unhas rentes, e às vezes até arregaçamos as mangas. Aqui, pelo contrario, as pessoas deixam crescer as unhas o mais que podem e, à guisa de abotoaduras, usam uma espécie de pires para nada poderem fazer com as mãos.

Stepane Arkadievitch sorriu jovialmente.

— Isso quer dizer apenas que não precisam de trabalhar com as mãos a cabeça lhes basta.

— Talvez. Mas, de qualquer forma, acho esquisito, da mesma maneira que não posso deixar de estranhar estarmos aqui, tu e eu, a comer ostras para despertar o apetite, ficando à mesa tempo infinito, quando na aldeia tratamos de comer o mais rapidamente possível para voltarmos às nossas ocupações.

— Claro. Mas é nisso mesmo que consiste a civilização fazer com que tudo se transforme em prazer — replicou Stepane Arkadievitch.

— Pois bem, se é esse o objectivo da civilização prefiro ser selvagem.

— Já o és, meu caro Todos os Levines o são.

Levine suspirou. Lembrou se de seu irmão Nicolau e, sentindo-se envergonhado e pesaroso, franziu as sobrancelhas. Mas Oblonski pôs-se a falar-lhe de uma coisa que logo o distraiu.

— Vais esta noite a casa dos Tcherbatski? — perguntou lhe com significativa expressão, enquanto afastava de si as rugosas conchas vazias, aproximando o queijo.

— Irei sem falta. Embora tenha a impressão de que a princesa me convidou de má vontade — replicou Levine.

— Que idéia! Tolices! São as maneiras dela. Eh, amigo, venha de lá a sopa! São os seus modos de grande dama. — disse Stepane Arkadievitch — Eu também irei. Mas antes tenho de ir ao ensaio do coro da condessa Bonina. Então, como é que tu não hás de ser um selvagem? Explica me, se fazes favor, por exemplo, o porquê do teu desaparecimento súbito de Moscovo. Os Tcherbatski passavam a vida a perguntar por ti, como se eu soubesse. Só sei uma coisa que fazes sempre o contrário de toda a gente.

— Sim, tens razão, sou um selvagem — confirmou Levine, lenta mente e com emoção — Mas não por me ter ido embora daqui e sim por ter voltado. Aqui estou outra vez.

— Que feliz te sentes! — interrompeu o Stepane Arkadievitch, fitando-o nos olhos.

— Por quê?

— «Os cavalos fogosos conhecem-se pela marca e as pessoas apaixonadas pelos olhos» — declarou Stepane Arkadievitch. — O futuro pertence te — E tu já só tens o passado?

— Já nada mais me resta senão digamos, o presente, e um presente onde nem tudo é cor-de-rosa.

— Que há contigo?

— As coisas não vão bem. Mas não te quero falar de mim, tanto mais que não me é possível entrar em todos os pormenores — disse Stepane Arkadievitch — Bom, para que vieste a Moscovo? Olha, tu, muda estes pratos — gritou para o criado.

— Não calculas? — replicou Levine, sem deixar de fitar Oblonski

com os seus olhos profundos e luminosos.

— Calculo, mas não me compete ser o primeiro a falar do assunto. Por isto podes imaginar se adivinho ou não — disse Oblonski, olhando para Levine enquanto sorria subtilmente.

— Pois bem, então que achas? — perguntou Levine em voz trêmula e percebendo que lhe estremeciam os músculos da face — Que achas? Stepane Arkadievitch levou aos lábios, lentamente, um copo de Chablis, enquanto continuava a olhar para Levine.

— Eu? Por mim, não desejaria outra coisa. Era o melhor que poderia suceder! — replicou.

— Mas não estás enganado? Sabes do que estamos a falar? Achas que é possível? — insistiu Levine, cravando os olhos no interlocutor.

— Acho que sim. Por que não?

— Realmente, achas isso possível? Diz me tudo o que pensas? E se me espera uma recusa? Estou quase convencido que sim.

— Por quê? — perguntou Stepane Arkadievitch, sorrindo ante a inquietação de Levine.

— Isso é o que me parece às vezes, e seria horrível para mim e para ela.

— Bom, em todo o caso, para ela não seria nada horrível. Qualquer jovem fica sempre lisonjeada quando a pedem em casamento.

— Sim, mas ela não é como as outras.

Stepane Arkadievitch sorriu. Compreendia perfeitamente o estado de espírito de Levine, sabia que para ele as mulheres do mundo se dividiam em duas classes a primeira incluía todas, excepto Kitty, e essas tinham todas as fraquezas humanas, sendo absolutamente vulgares, na segunda só cabia ela, que não tinha fraqueza alguma e pairava muito acima de tudo o que era humano.

— Espera, serve te de molho — disse, detendo a mão de Levine, que repelia a molheira.

Levine obedeceu, mas não deixou Stepane Arkadievitch comer em paz.

— Não, espera, espera — disse ele. —É preciso que compreendas que isto para mim é questão de vida ou de morte. Nunca falei com ninguém a este respeito nem posso falar a ninguém excepto contigo. Como vês, somos diferentes em tudo temos gostos e pontos de vista diversos, mas sei que és meu amigo e que me compreendes, e por isso te

aprecio muitíssimo. Mas, por amor de Deus, diz-me toda a verdade..

— Digo-te o que penso — respondeu Stepane Arkadievitch, sorrindo — e ainda te direi mais minha mulher é uma pessoa extraordinária — Oblonski suspirou ao lembrar se do estado das suas relações com Dolly, e após um breve silêncio continuou — Tem o dom de prever os acontecimentos. Conhece as pessoas como se lhes lesse na alma. Mas isto não é tudo. Sabe o que vai acontecer, sobretudo tratando-se de casamentos. Por exemplo, predisse que a Chakovskoi casaria com o Brenteln. Ninguém acreditava nisso, mas a verdade é que assim foi. E está do teu lado.

— Então?

— Não só gosta de ti, como diz que Kitty há de ser, seja de que maneira for, tua mulher.

Ao ouvir estas palavras, o rosto de Levine iluminou se num sorriso que se aproximava das lagrimas de ternura.

— Foi isso que ela disse? — exclamou — Sempre achei a tua mulher encantadora Bom, basta, não falemos mais no caso — acrescentou, levantando se.

— De acordo, mas senta te.

Levine não podia continuar sentado. Percorreu, duas ou três vezes, num passo firme, o recanto onde se encontravam, piscando os olhos para disfarçar as lagrimas.

— É preciso que compreendas — continuou ele, voltando a sentar se —, não se trata de um amor vulgar Já estive enamorado várias vezes, mas não era a mesma coisa O que me domina não é um sentimento meu, mas uma força exterior Saí de Moscovo porque decidira que isso não podia ser, pela mesma razão de que a felicidade perfeita não existe na terra Mas lutei comigo mesmo e acabei por reconhecer que não podia viver sem ela É necessário tomar uma resolução — Mas por que fugiste?

— Oh, espera! Oh! Se soubesses quantas ideias tenho dentro da cabeça, as coisas que te queria perguntar? Escuta me. Nem podes calcular o bem que me fizeste com as tuas palavras. Sou tão feliz que até me fiz uma pessoa má. Esqueço me de tudo. Soube hoje que meu irmão Nicolau está aqui em Moscovo. E até dele me esqueci Afigura se me que até ele próprio é feliz Isto parece loucura. Mas há uma coisa horrível. Tu, que és casado conheces esse sentimento. O que é terrível é que nos, homens maduros, já com passado não de amor, mas cheio de pecados, ousemos aproximar nos sem pejo de um ser puro e inocente. Isto é tão repulsivo que não posso deixar de me sentir indigno.

— Ora, tu não deves ter grandes crimes na consciência.

— E no entanto — replicou Levine —, quando analiso a minha vida, estremeço, amaldiçôo-me e lamento me cheio de amargura. Sim.

— Que havemos de fazer? O mundo é assim — disse Stepane Arkadievitch.

— Só vejo um lenitivo, essa oração de que eu tanto gostava «Perdoa me, Senhor, não pelos meus mentos, mas pela grandeza da Tua misericórdia» Só assim é que me pode perdoar.

CAPÍTULO XI

Levine esvaziou o copo, e ambos ficaram calados.

— Tenho ainda mais alguma coisa a dizer te. Conheces o Vronski? — inquiriu Stepane Arkadievitch.

— Não, não conheço. Por que perguntas?

— Traz outra garrafa — disse Stepane Arkadievitch, dirigindo se ao criado, que enchia os copos e se punha a girar em torno da mesa nos momentos mais inoportunos — Digo te, porque é um dos teus rivais.

— Quem é Vronski? — perguntou Levine, e no seu rosto, onde havia um entusiasmo pueril, surgiu, de repente, raiva e contrariedade.

— É um dos filhos do conde Kiril Ivanovitch Vronski e um dos mais belos exemplares da juventude dourada de Sampetersburgo. Conheci o em Tver, quando ali estive a servir. Costumava ir lá para o recrutamento. É imensamente rico, bela figura e com boas relações. É ajudante de campo e além disso rapaz muito simpático e bom moço. Quando lidei com ele aqui pude verificar que também é culto e muito inteligente é um homem que há de ir longe.

Levine franziu as sobrancelhas, conservando se calado.

— Esteve aqui pouco tempo depois de te teres ido embora. Segundo me parece, está enamoradíssimo de Kitty, e deves compreender que a mãe.

— Perdoa me, mas não entendo nada — replicou Levine, taciturno.

E imediatamente se lembrou do irmão Nicolau e se persuadiu de que era uma indignidade tê-lo esquecido.

— Espera, espera — disse Stepane Arkadievitch, sorrindo e pegando -lhe na mão — Disse te o que sabia. E repito te que na medida em que é possível fazerem se previsões num assunto tão delicado e subtil

como este, sou de opinião de que todas as vantagens são tuas. Levine recostou se no espaldar da cadeira Estava pálido.

— Mas aconselho-te a que decidas as coisas o mais depressa que puderes — prosseguiu Oblonski, enchendo o copo de Levine.

— Não, obrigado, não posso beber mais — disse este, repelindo o copo.— Acabaria bêbedo... Bom, e tu, como vais? — continuou, tentando, ao que parecia, desviar a conversa.

— Só mais uma palavra: em todo o caso, repito, aconselho-te a que decidas o caso quanto antes. Mas acho melhor não falares hoje. Vai amanhã pela manhã pedir a mão dela, segundo todas as praxes e que Deus te abençoe...

— Por que não vens caçar nas minhas terras? Aparece na Primavera — disse Levine.

Estava arrependidíssimo agora de ter tratado aquele assunto com Stepane Arkadievitch. Aquele seu sentimento tão íntimo fora maculado ao falarem desse oficial de Sampetersburgo, seu rival, e pelas conjecturas e conselhos de Oblonski.

Este sorriu, compreendendo o que se estava passando na alma de Levine:

— Mais tarde ou mais cedo, apareço por lá — disse ele. — Sim, homem, as mulheres são a mola que tudo move neste mundo. Também a mim as coisas não correm bem. E tudo por culpa das mulheres. Fala-me com sinceridade, dá-me um conselho — continuou, enquanto puxava de um cigarro e mantinha o copo suspenso na outra mão.

— De que se trata?

— Do seguinte. Suponhamos que estavas casado, que gostavas da tua mulher, mas outra te seduzia...

— Perdoa-me, não percebo absolutamente nada. Era como se eu, ao sair daqui satisfeito com o jantar, passasse por uma confeitaria e roubasse um doce.

Os olhos de Stepane Arkadievitch resplandeceram mais do que habitualmente.

— Por que não? Às vezes um doce cheira tão bem que a gente não pode conter-se.

Himmlisch ist’s, wenn ich bezwungen

Meine irdische Begier;

Aber doch wenn’s nicht gelungen,

Hatt’ ich auch recht hübsch Plaisir!

Ao dizer isto, Stepane Arkadievitch sorria, subtilmente. Levine também não pôde reprimir o sorriso.

— Basta de gracejos — prosseguiu Oblonski. — Pensa numa mulher agradável, tímida, afectuosa, só e pobre que tudo sacrificou por ti. Agora, que a coisa está consumada, poderei porventura abandoná-la? Suponhamos que nos separássemos para não destruir a vida familiar. Mas como não compadecer-me dela, não ajudá-la, não suavizar-lhe a sorte?

— Perdoa-me, já sabes que para mim as mulheres se dividem em duas classes.. Quer dizer, não. Mais exacto seria dizer que há mulheres e... Nunca vi uma mulher decaída com atractivo, nem verei, e as mulheres como aquela pintalgada do balcão, a francesa, com as suas risadas, são para num pior do que a peste. Todas as mulheres decaídas são iguais — E a do Evangelho?

— Oh! Cala-te! Cristo nunca teria pronunciado aquelas palavras se pudesse calcular o mau uso que viriam a fazer delas. São as únicas palavras do Evangelho que todos sabem de cor. Além disso não estou a dizer o que penso, estou a dizer o que sinto. Repugnam-me as mulheres decaídas. A ti metem-te medo as aranhas, e a mim essas misérias. Naturalmente nunca estudaste a vida das aranhas nem lhes conheces os costume: o mesmo acontece comigo.

— É-te fácil falares assim. Fazes-me lembrar aquela personagem de Dickens que com a mão esquerda atirava por cima do ombro direito todos os assuntos difíceis de resolver. A verdade, porém, é que negar um facto não é dar uma resposta. Dize-me: que fazer? Que fazer? A tua mulher envelhece e tu estás cheio de vida. Num abrir e fechar de olhos dás-te conta de que não podes continuar a amar a tua mulher por maior respeito que sintas por ela. E é então que aparece o amor. Estás perdido! Estás perdido! — concluiu Stepane Arkadievitch, pateticamente.

Levine sorriu com ironia.

— Estás perdido — prosseguiu Oblonski —, mas que fazer?

— Não roubes doces.

Stepane Arkadievitch soltou uma gargalhada.

— Ó moralista! Mas lembra-te disto: há duas mulheres — uma apenas se apóia no seu direito, que é esse amor que tu não lhe podes dar; ao contrário, a outra tudo sacrifica sem te exigir nada. Que deves fazer?

Digno do céu se sentia quando os meus terrenos apetites dominava. Mas quando não o conseguia, um inefável prazer de mim se apoderava

Como deves proceder? É um drama terrível.

— Se queres que te dê a minha opinião sincera sobre esse caso, dir-te-ei que não creio que se trate de um drama, e aqui tens porquê. Creio que o amor... essas duas classes de amor que, como te deves lembrar, Platão define no seu Banquete, constituem a pedra de toque dos homens. Uns só compreendem um destes amores; os demais, o outro. E os que só compreendem o amor não platônico, esses não têm o direito de falar de dramas. Com um amor dessa classe não pode existir nenhum drama. «Agradeço-lhe muito o prazer que me proporcionou, e adeus.» Nisso consiste todo o drama. E no que diz respeito ao amor platônico, também esse não pode produzir dramas, porque nele tudo é puro e diáfano, porque Naquele momento Levine lembrou se dos seus pecados e da luta interior que tinha mantido. Inesperadamente acrescentou: — Afinal de contas, talvez tenhas razão. É muito possível. Mas não sei, verdadeiramente não sei.

— Vês, és um homem íntegro. — volveu Stepane Arkadievitch — Esse é o teu defeito e a tua virtude. Tens um carácter íntegro e queres que toda a vida se componha de manifestações íntegras. Mas a verdade é que isso não acontece. Por isso desprezas a actividade social do Estado, pois queres que todo o esforço estivesse sempre directamente relaccionado com um fim, o que não é verdade. Também gostarias que a actividade do homem tivesse um objectivo que o amor e a vida conjugal fossem uma e a mesma coisa. Mas as coisas não se passam assim. Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida se compõe de luzes e de sombras.

Levine suspirou e nada respondeu. Pensava nos seus problemas e não prestava atenção a Oblonski. E de súbito ambos sentiram que, conquanto fossem amigos, conquanto tivessem comido e bebido juntos, o que os devia ter unido ainda mais, cada um deles só pensava em si, sem no fundo preocupar se com o que dizia respeito ao outro. Não era a primeira vez que Oblonski experimentava, depois de comer, essa separação extrema em vez de uma aproximação, e sabia o que devia fazer em tais circunstâncias.

— A conta? — gritou, e passou à sala contígua, onde se deparou com um ajudante de campo das suas relações. Puseram se então a conversar a respeito de uma actriz e seu amante. E logo se sentiu aliviado e descansado da conversa que tivera com Levine, que tinha a faculdade de o arrastar sempre para uma tensão mental e espiritual excessiva.

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