Quando o criado apareceu com uma conta de vinte e seis rublos e uns tantos copeques, além de um acréscimo pela vodka, Levine, que noutra oportunidade se teria horrorizado, bom aldeão que era, por ter
gasto catorze rublos, não fez caso disso, e depois de pagar dirigiu se a casa para mudar de roupa, decidido a ir à recepção dos Tcherbatski, onde o seu futuro se decidiria.
A princesa Kitty Tcherbatski tinha dezoito anos. Era o primeiro Inverno em que fazia vida de sociedade, e nela obtinha maior êxito que as duas irmãs mais velhas e até mesmo mais do que esperava a própria mãe. Não só os rapazes que freqüentavam os bailes de Moscovo estavam todos enamorados de Kitty, como naquele mesmo Inverno já recebera duas propostas sérias de casamento a de Levine, e, imediatamente após a sua partida, a do conde Vronski.
O aparecimento de Levine no princípio do Inverno, as suas freqüentes visitas e o seu evidente amor por Kitty deram motivo a primeira conversa séria entre os pais sobre o futuro da filha e até haviam provocado algumas discussões. O príncipe defendia Levine e dizia que não podia desejar nada melhor para Kitty. A princesa, pelo contrario, com o característico costume que as mulheres têm de desviar as questões, opinava que Kitty era muito jovem, que Levine não demonstrara intenções sérias, que a pequena não se sentia inclinada para ele e outros argumentos deste gênero. Mas não dizia o mais importante isto é, que esperava um partido mais vantajoso para a filha, que não simpatizava com Levine e ainda por cima que não o entendia. Quando Levine partiu de Moscovo repentinamente, a princesa ficou contentíssima e disse ao ma rido com expressão de triunfo «Como vês, eu tinha razão» E quando apareceu Vronski, ainda mais alegre ficou, firmando se na opinião de que Kitty faria não só um bom casamento, mas um casamento esplêndido.
Para a princesa não podia haver comparação possível entre Levine e Vronski. Não gostava das estranhas e violentas opiniões de Levine, nem do seu acanhamento na sociedade, em parte motivado, assim o pensava, pelo orgulho, nem tão pouco dessa vida selvagem da aldeia, só entre animais e camponeses. E o que ainda mais lhe desagradava era o facto de Levine, enamorado da filha, ter lhe freqüentado a casa durante mês e meio sem se explicar francamente sobre as suas intenções. Desconheceria ele os costumes até esse ponto? Ou recearia, talvez, conceder-lhes uma excessiva honra? E, de repente, aquela partida sem quaisquer explicações «Ainda bem», pensou a princesa, «que é tão pouco atraente que nem sequer virou a cabeça da pequena!» Vronski, pelo contrário, satisfazia todas as suas ambições era muito rico, inteligente, famoso e aguardava o uma brilhante carreira tanto no exército como na Corte. Não podia desejar nada melhor.
Nos bailes, Vronski galanteava abertamente Kitty dançava com ela e freqüentava lhe a casa de tal maneira que ninguém podia ter dúvidas quanto à seriedade das suas intenções E no entanto a pobre mãe de Kitty passara todo o Inverno muito inquieta e preocupada.
A princesa casara se trinta anos atrás e fora uma tia quem lhe preparara o casamento. O noivo sobre quem se haviam antecipadamente tomado todas as informações, chegara, conhecera a noiva e dera se a conhecer. A casamenteira observou a boa impressão que cada um causara ao outro e disso inteirou ambas as partes. A impressão fora boa. Depois, e numa data prevista, procedeu se ao pedido, que foi aceito. Tudo fora muito fácil e simples. Foram muitos os receios que teve, muitos os pensamentos, muito o dinheiro que gastou e muitos os desgostos com o marido ao casar Daria e Natalia as duas filhas mais velhas. Agora, ao apresentar a sociedade a mais nova voltaram os mesmos receios, voltaram as mês mas duvidas e as discussões com o marido eram ainda maiores. Como todos os pais, o velho príncipe era muito escrupuloso a respeito da honra e da pureza das suas filhas. Era exageradamente cioso delas, especialmente de Kitty a predilecta, e a cada momento armava cenas com a mulher, alegando que ela comprometia a pequena. A princesa já estava acostumada com isso no que tocava as duas outras filhas, mas agora se apercebia de que a susceptibilidade do príncipe tinha fundamento nos últimos tempos muita coisa mudara nas recepções sociais e os seus deveres de mãe eram agora mais difíceis. Verificava que as raparigas da idade de Kitty formavam grupos, assistiam a não sei que cursos, tratavam os homens com desenvoltura, saíam sozinhas, muitas delas não faziam reverências ao cumprimentarem e, coisa bem pior, estavam convencidas de que a escolha de marido incumbia a elas e não aos pais «Hoje em dia já não se casam as filhas como dantes», diziam e pensavam todas essas jovens e mesmo as pessoas de idade. A princesa, contudo, não conseguia perceber como se casavam hoje em dia as raparigas. O costume francês, de acordo com o qual eram os pais quem decidia do futuro dos filhos não só não era admitido, mas criticado. O inglês, segundo o qual as mulheres deviam ser completamente livres, também seria repelido, impossível que era na sociedade russa. Considerava se ridículo o costume russo de arranjar os casamentos por intermédio de casamenteiras e todos se riam disso, inclusive a própria princesa. Mas ninguém sabia como levar a cabo os casamentos. Todas as pessoas com quem a princesa falava a este respeito lhe respondiam da mesma maneira «Nos nossos dias já é tempo de acabar com esses antigos costumes. Quem se casa são os filhos, não os pais, é preciso deixarmos que sejam eles que se entendam uns com os outros» Era muito fácil falar assim para quem não tinha filhas, mas a princesa compreendia que Kitty podia apaixonar se, no seu trato com os homens, por alguém que não tivesse intenção de casar com ela ou que não lhe conviesse. E por mais que lhe dissessem que nos tempos que tornam às jovens se devia dar a oportunidade de preparar o seu próprio futuro, não podia conformar se, como tão pouco se conformaria que houvesse uma época em que o melhor brinquedo para as crianças de cinco anos fossem pistolas carregadas Eis que a princesa andava mais preocupada com Kitty do que outrora com qualquer das suas duas filhas mais velhas.
Agora receava que Vronski se limitasse apenas a fazer a corte à filha Sabia que Kitty já estava enamorada dele, mas consolava-a a ideia de que Vronski era homem sério. Também sabia quão fácil era transformar a cabeça de uma rapariga na sociedade livre dos tempos modernos e a pouca importância que os homens atribuíam a semelhantes faltas. Na semana anterior Kitty contara à mãe a conversa que tivera com Vronski durante uma mazurca. Essa conversa tranqüilizada em parte a princesa, mas não lograra serená-la por completo Vronski contara a Kitty que tanto ele como o irmão estavam tão habituados a obedecer à mãe que nunca tomavam qualquer resolução importante sem lhe pedir conselho «E agora aguardo com uma grande felicidade a chegada de minha mãe a Sampetersburgo», concluíra.
Kitty contara isto à mãe sem lhe atribuir importância, mas a mãe interpretou essas palavras de outra maneira Sabia que Vronski esperava a mãe de um momento para o outro e que ma regozijar se com a escolha do filho No entanto, parecia lhe estranho que, para não ofender a mãe, Vronski não se decidisse a declarar se. Tão grande, porém, era o seu desejo de que esse casamento viesse a realizar se, e sobretudo tamanho o seu desejo de recuperar a serenidade depois de todas aquelas apoquentações, que confiava que Vronski o viesse a fazer. Conquanto a afligisse muito a infelicidade da filha mais velha, disposta a separar se do marido, o certo é que a preocupação com o futuro de Kitty a absorvia por completo. A chegada de Levine veio trazer lhe mais uma preocupação a princesa receava que a filha, que tempos antes mostrara simpatizar com ele, repelisse Vronski, por um excesso de escrúpulos e que, de maneira geral, o aparecimento desse pretendente atrapalhasse ou protelasse o assunto, tão próximo de um desfecho.
— Chegou há muito? — perguntou a princesa quando entraram em casa.
— Hoje mesmo, mãezinha.
— Quero dizer te uma coisa — principiou a princesa, e Kitty
adivinhou, pela sua expressão séria e animada, o que lhe ia dizer.
— Por amor de Deus, mãe, por amor de Deus, não me fale nisso — replicou Kitty, num arrebatamento, voltando se rapidamente para a mãe —Já sei, sei tudo muito bem.
Os desejos de Kitty eram os mesmos da mãe, mas ofendiam na os motivos que inspiravam os desejos desta.
— Apenas te quero dizer que se deste esperanças a alguém.
— Querida mãe, por amor de Deus!, não me diga nada. É terrível falar destas coisas.
— Esta bem, não falarei, mas ouve o que te digo — teimou a princesa, vendo lagrimas nos olhos da filha — promete me não teres segredos para mim Assim farás, não é verdade? — Não, nunca, mãezinha, não — replicou Kitty, corando e olhando a mãe nos olhos — Mas agora nada tenho que lhe dizer. Eu eu. Ainda que quisesse dizer lhe alguma coisa não sabia que, nem como. Não sei.
«Com estes olhos não pode mentir», pensou a princesa, sorrindo, ao ver a emoção e a felicidade da filha Sorria ao pensar quão grandes e importantes se lhe afiguravam, a pobrezinha da Kitty, as emoções do seu coração.
Depois do jantar e até ao princípio da noite, Kitty conheceu as mesmas impressões que costuma experimentar um jovem soldado nas vésperas de uma batalha... O coração pulsava-lhe com violência e não era capaz de concentrar o pensamento. Sentia que aquela noite, em que «eles» se encontrariam pela primeira vez, iria decidir do seu destino. Estava a vê-los constantemente, ora os dois juntos, ora cada um de per si. Quando recordava o passado, era com prazer e ternura que evocava a sua intimidade com Levine. As recordações de infância, bem como a, amizade de Levine com o falecido irmão, nimbavam de um encanto especial e poético as suas relações com ele. O amor que Levine lhe tinha, amor de que ela estava certa, inundava-a, enchendo-a de contentamento. Era-lhe agradável lembrar-se de Levine. Pelo contrário, ao pensar em Vronski uma espécie de mal-estar a assaltava, não obstante ser homem sossegado e extremamente mundano. Parecia que notava certa falsidade, não nele — era muito simples e simpático — mas nela própria, enquanto que com Levine se sentia completamente sincera e tranqüila. Todavia, se pensava no seu futuro com Vronski, o futuro aparecia-lhe brilhante e feliz, enquanto com Levine lhe surgia nebuloso.
Quando foi vestir-se e se mirou ao espelho, notou com alegria que estava num dos seus melhores dias, e que se encontrava no domínio pleno de todas as suas forças, coisa de que tanto precisava naquele momento. Nem a graça nem o sangue-frio lhe iriam faltar dentro de pouco. Às sete e meia, quando desceu ao salão, o criado veio anunciar: — Constantino Dimitrievitch Levine.
A princesa ainda estava nos seus aposentos e o príncipe também ainda não descera. «Meu Deus!», suspirou Kitty, e todo o sangue lhe afluiu ao coração. Ficou horrorizada ao ver-se tão pálida diante do espelho.
Agora compreendia claramente que Levine viera mais cedo só para se encontrar a sós com ela. E tudo lhe apareceu sob um aspecto distinto e novo. Naquele momento só percebeu que se tratava de saber com quem iria ser feliz e a quem amava, como se via na contingência de ofender um homem que lhe era querido. Ofendê-lo de maneira cruel... E por quê? Porque era simpático, porque lhe queria, porque estava enamorado dela. Mas não havia nada a fazer, era preciso, tinha de ser assim.
«Meu Deus!», pensou. «Será possível que tenha de lhe dizer eu mesma? Dizer-lhe que não gosto dele? Mas isso não é verdade. Que lhe direi então? Que gosto de outro? Não: é impossível. Vou-me embora, vou-me embora.» E já se aproximava da porta quando ouviu os passos de Levine.
«Não; não seria leal. De que tenho medo? Não fiz mal algum. Aconteça o que acontecer, dir-lhe-ei a verdade. Além disso, diante dele não me sinto embaraçada. Ele aí está», pensou, ao vê-lo aparecer, tímido na sua força, fixando nela um olhar ardente. Kitty fitou-o francamente face a face, e estendeu-lhe a mão.
— Acho que cheguei cedo de mais —disse Levine, relanceando os olhos ao salão vazio.
Ao certificar-se de que as suas esperanças se realizavam, que nada o impediria de fazer a sua declaração o seu rosto entristeceu-se.
— De maneira nenhuma — replicou Kitty, sentando-se junto à mesa.
— Era precisamente isso que eu queria, encontrá-la só — principiou Levine, sem se sentar e sem fitar Kitty, para não perder a coragem.
— Minha mãe já vem aí. Ontem ficou muito cansada. Ontem...
Kitty falava sem saber o que os seus lábios diziam e sem afastar de Levine os olhos suplicantes e acariciadores. Levine fitou-a. Kitty corou e calou-se.
— Já lhe disse que não sei se irei ficar muito tempo aqui... que isso dependia de si...
Kitty baixava cada vez mais a cabeça, sem saber que resposta dar ao que Levine lhe ia dizer.
— Que isso dependia de si —repetiu ele. — Queria dizer-lhe... Vim para que... que... seja minha mulher! — concluiu, sem saber bem o que dizia, mas dando conta de que o mais terrível e o mais grave estava dito. Então fixou nela os olhos.
Kitty continuava de cabeça baixa; respirava com dificuldade. Uma alegria imensa lhe enchia o coração. Nunca pensara que a confissão daquele homem lhe causasse uma impressão tão viva. Mas daí a pouco lembrou-se de Vronski. Ergueu para Levine os olhos luminosos e sinceros e ao ver a angústia que se lhe pintava no rosto, replicou apressadamente:
— Isso não pode ser... perdoe-me.
Havia pouco, que próxima dele se sentia e que importante na sua vida! E agora, que longe e alheia se lhe tornara! — Não podia ser de outra maneira — disse Levine sem a fitar. Com uma reverência, ia retirar-se.
Mas naquele momento entrava a princesa. No seu rosto transpareceu o horror que lhe causava vê-los ali sozinhos e com aquelas transtornadas expressões. Levine inclinou-se diante dela sem dizer palavra. Kitty, calada, não ousava erguer os olhos. «Graças a Deus, disse-lhe que não», pensou a mãe, e no seu rosto transpareceu o sorriso habitual, o sorriso com que acolhia todas as visitas de quinta-feira. Depois de se sentar, principiou a fazer perguntas a Levine acerca da sua vida na aldeia. Levine sentou-se também, aguardando a chegada dos convidados, para poder retirar-se discretamente.
Daí a cinco minutos chegava a condessa Nordston, amiga de Kitty, que se casara no último Inverno.
Era uma mulher delgada, amarelada, de brilhantes olhos negros,
nervosa e enfermiça. Gostava muito de Kitty e o carinho que sentia por ela, como acontece quase sempre da parte das casadas para com as solteiras, manifestava se no desejo de casar a amiga de acordo com o seu próprio ideal de felicidade queria vê-la casada com Vronski. Não simpatizava com Levine, a quem vira freqüentemente no último Inverno em casa dos Tcherbatski. Quando perto dele, o que mais a divertia era ridicularizá-lo.
— Gosto muito de o ver olhar-me do alto da sua superioridade, quando interrompe, convencido de que sou uma estúpida, os seus belos discursos intelectuais ou quando condescende em dirigir-me a palavra. Condescende! É esse mesmo o termo. Adoro que me deteste! — costumava dizer a condessa quando falava dele.
Tinha razão. De facto, Levine não a tolerava. Desprezava nela precisamente aquilo de que ela mais se orgulhava e tinha como suas maiores virtudes o nervosismo o desdém requintado, a indiferença por tudo que considerava material e grosseiro.
Havia-se estabelecido, pois, entre eles um gênero de relações muito comum em sociedade estimando-se aparentemente, no fundo a tal ponto se desprezavam que não podiam sequer tomar se a sério um ao outro nem ofender-se reciprocamente.
Lembrando-se de que Levine, no princípio do Inverno, comparara Moscovo a Babilônia, a condessa imediatamente abordou o assunto?
— Ah! Constantino Dimitrievitch? Então voltou à nossa pervertida Babilônia! — exclamou, estendendo-lhe a mão minúscula e amarelada — Foi a Babilônia que se regenerou ou foi você que se perverteu? — acrescentou com um sorriso irônico, enquanto relanceava um olhar a Kitty.
— Muito me lisonjeia, condessa, que se recorde das minhas palavras — replicou Levine, que entretanto se refizera do choque, adoptando o tom irônico e hostil com que habitualmente se dirigia à condessa Nordston —Vê-se que muito a impressionaram.
— Evidentemente? Registo-as todas Que tal, Kitty? Patinaste hoje?
E continuou tagarelando com Kitty.
Ainda que lhe custasse partir naquele momento, Levine achou isso preferível a ter de ficar toda a noite a ver Kitty, que de quando em quando olhava para ele, evitando encontrar-lhe os olhos. Quis levantar-se, mas a princesa, ao ver que ele não falava, perguntou-lhe.
— Conta ficar muito tempo em Moscovo? Creio que pertence ao zemstvo. Não deve poder demorar-se dias.
— Não, já não faço parte do zemstvo, princesa Estarei aqui alguns
«Tem qualquer coisa hoje», pensou a condessa, fitando-lhe o rosto concentrado e grave «Não está disposto a grandes discursos Mas eu o provocarei Gosto de pô-lo em ridículo diante de Kitty, e consegui-lo-ei» — Constantino Dimitrievitch, faça o favor de me explicar, o senhor que entende disso, por que é que os camponeses da nossa aldeia de Kaluga gastaram em bebida tudo quanto tinham e agora não nos pagam Que quer isto dizer? Está sempre a defendê-los.
Naquele momento entrava uma senhora no salão, e Levine levantou-se.
— Perdoe me, condessa, mas nada entendo disso e não me é possível responder-lhe — replicou, e dirigiu os olhos para o oficial que acompanhava a senhora recém-chegada.
«Deve ser Vronski», pensou, e para certificar-se olhou para Kitty. Esta já tivera tempo de olhar para Vronski e agora fitava Levine. E por aquele olhar, vendo que os olhos dela resplandeciam involuntariamente, Levine compreendeu, com a mesma certeza como se ela própria lho tivesse dito, que Kitty amava aquele homem. Mas que espécie de homem seria ele? Há pessoas que ao defrontarem-se com um rival afortunado, seja qual for o terreno em que se encontrem, são incapazes de lhe descobrirem qualquer qualidade, outras há que, pelo contrário, tratam de ver no rival as qualidades que lhe serviram para vencer, e tudo fazem para só lhes descobrir os méritos, apesar do sofrimento que isso lhes causa Levine pertencia a esta classe de pessoas. Mas não lhe foi difícil apreender as qualidades e os atractivos de Vronski Imediatamente lhe saltaram à vista. Vronski era um homem moreno, não muito alto, de forte compleição, belo, e de fisionomia extremamente serena e grave. Tudo na sua figura, desde os negros cabelos curtos e o rosto recém-barbeado até ao folgado uniforme novo, era simples e ao mesmo tempo vistoso. Depois de deixar passar a senhora que entrara ao mesmo tempo que ele, Vronski aproximou-se primeiro da princesa e depois de Kitty.
Ao acercar-se da jovem, os seus belos olhos brilharam de um modo especial e com um imperceptível sorriso feliz e discreto de triunfador (assim se afigurou a Levine) Inclinando-se, respeitoso e circunspecto, diante dela, estendeu-lhe a mão, larga mas não muito grande.
Depois de ter cumprimentado todos, sentou-se, sem olhar para Levine, que não o perdia de vista.
— Permita que lhe apresente — disse a princesa apontando para
Levine — Constantino Dimitrievitch Levine. Ó conde Alexei Kinlovitch Vronski.
Vronski ergueu-se e fitando amistoso Levine apertou-lhe a mão.
— Creio que no Inverno passado, em certa ocasião, devemos ter jantado juntos; mas o senhor partiu repentinamente para a aldeia — disse Vronski, com um sorriso franco e simpático.
— Constantino Dimitrievitch despreza e odeia a cidade e os citadinos— interveio a condessa Nordston.
— Pelo que vejo, as minhas palavras produziram-lhe grande impressão, visto que as recorda tão bem — observou Levine, mas, ao reparar que já dissera aquela mesma frase, corou.
Sorrindo, Vronski olhou para Levine e para a condessa.
— Vive sempre na aldeia? — perguntou Vronski. — Quer-me parecer que no Inverno é aborrecido.
— Não, quando temos qualquer coisa em que nos ocuparmos; também nunca o homem se aborrece na sua própria companhia — respondeu Levine bruscamente.
— Gosto da aldeia — disse Vronski, fingindo não ter dado pelo tom de Levine.
— Espero, conde, que não concordaria em passar o ano todo na aldeia — comentou a condessa Nordston.
— Não sei; nunca vivi muito tempo no campo. Mas senti qualquer coisa de extraordinário. Nunca tive tantas saudades da aldeia, da aldeia russa, com os seus lapti e os seus mujiques como no Inverno que passei em Nice com minha mãe — replicou Vronski, acrescentando: — Nice é muito aborrecida. E Nápoles também. De Sorrento, gosto, mas para pouco tempo. Precisamente ali é que nós nos lembramos mais vivamente da Rússia, e sobretudo das suas aldeias... É como se...
Falava dirigindo-se tanto a Kitty como a Levine e o seu olhar afectuoso e sereno fixava-se alternadamente num e noutro. Parecia dizer a primeira coisa que lhe vinha à cabeça.
Ao notar que a condessa Nordston queria falar, calou-se e ficou a ouvi-la atentamente.
A conversa não afrouxava um só momento. A princesa não precisava de lançar mão das peças de artilharia que reservava para o caso em que a conversa esmorecesse: o ensino das letras e das ciências e o serviço militar obrigatório. Também a condessa não teve oportunidade de troçar de Levine.
Este muito desejaria intervir na conversa geral, mas não conseguia
fazê-lo; estava sempre a pensar: «É agora que me vou embora», mas não se ia e continuava ali, como se esperasse alguma coisa.
A conversa versou depois sobre o tema das mesas que batem e dos espíritos; a condessa Nordston, que acreditava em espiritismo, pôs-se a narrar um facto sobrenatural a que assistira.
— Oh, condessa, por amor de Deus, leve-me a ver uma coisa dessas. Nunca vi nada de sobrenatural, apesar de fazer tudo para isso — disse Vronski, sorrindo.
— Está bem, no sábado próximo. E você, Constantino Dimitrievitch, acredita nestas coisas? — perguntou ela a Levine.
— Por que pergunta? Já sabe o que lhe vou responder.
— Queria saber a sua opinião.
— Na minha opinião essas mesas que se mexem apenas demonstram que a nossa pretensa sociedade culta está tão pouco desenvolvida como os nossos aldeões — replicou Levine. — Enquanto eles acreditam em mau-olhado, em feitiçarias e em aparições, nós, de nossa parte...
— Então você não acredita?
— Não posso acreditar, condessa.
— Mas eu estou a dizer-lhe que vi com os meus próprios olhos.
— Também as camponesas serão capazes de dizer que viram fantasmas.
— Então, na sua opinião, eu não falo a verdade —e a condessa pô-se a rir, mas o seu riso não reflectia satisfação.
— Não é isso, Macha, o Constantino Dimitrievitch quer apenas dizer que não pode acreditar em espiritismo — explicou Kitty, corando por Levine.
Este compreendeu e ia responder, ainda mais irritado, quando Vronski, com o seu sorriso franco e alegre, interveio na conversa, impedindo que ela tomasse um rumo desagradável.
— Não admite de modo algum essa possibilidade? — inquiriu.— Por quê? Admitimos a existência da electricidade, que não conhecemos. Por que não poderá haver uma força nova, ainda que desconhecida para nós, que...?
— Quando se descobriu a electricidade — interrompeu bruscamente Levine — apenas se comprovou o fenômeno, mas não a sua causa; ignorava-se de onde provinha e o que a produzia, e séculos decorreram antes que se lhe desse uma aplicação. Pelo contrário, os
espíritas começaram por receber comunicações, por meio de mesas de pé de galo, de aparições de espíritos, e depois atribuíram isso a uma força desconhecida.
Vronski, como sempre, ouviu atentamente Levine, interessado, ao que parecia, nas suas palavras.
— Sim: agora, porém, os espíritas dizem: não sabemos de que força se trata, mas a verdade é que essa força existe e que actua sob estas e estas condições. Aos sábios compete descobrir em que consiste. Não vejo por que não possa existir uma força nova, porque...
— Porque na electricidade — interrompeu de novo Levine — sempre que o senhor esfregue um bocado de resina com um pedaço de lã se produzirá certa reacção, enquanto no espiritismo isso não sucede com a mesma regularidade. Eis por que não pode ser um fenômeno natural.
Ao perceber que a conversa tomava um tom demasiado sério para o ambiente do salão, Vronski não respondeu e, procurando mudar de tema, sorriu, voltando-se para os outros.
— Vamos então fazer uma experiência, condessa — principiou por dizer. Levine, porém, teimou em completar o seu argumento.
— Na minha opinião, é um erro os espíritas tentarem explicar os seus prodígios como uma força desconhecida — continuou. — Falam de uma força espiritual e querem submetê-la a experiências materiais. — Todos estavam mortos por que Levine se calasse, e ele percebia-os.
— Pois eu acho que o senhor seria um médium de primeira ordem. Às vezes parece ficar em êxtase — observou a condessa Nordston.
Levine abriu a boca, quis dizer qualquer coisa, corou e não falou mais.
— Vamos, condessa, vamos demonstrar agora mesmo essa história das mesas de pé de galo — disse Vronski. — Dá licença, princesa?
Vronski pôs-se de pé, procurando com os olhos uma mesa de pé de galo. Kitty sentia-se tanto mais penalizada quanto sabia ser ela a causa daquela mágoa. «Se me puder perdoar, perdoe-me», dizia o olhar de Kitty. «Sou tão feliz!» «Odeio-os a todos, tanto a você como a mim mesmo», ripostou o olhar de Levine, que nesta altura pegara no chapéu. Mas não era ainda dessa vez que poderia partir. No momento em que todos se iam instalar em torno da mesa de pé de galo e Levine se dispunha a sair, entrava o velho príncipe, que, assim que cumprimentou as outras pessoas, se dirigiu a Levine.
— Quê? — exclamou alegremente. — Está aqui? Mas não sabia.
Muito prazer em vê-lo.
O velho príncipe dirigia-se a Levine tratando-o ora por tu ora por senhor. Abraçou-o e pôs-se a falar com ele sem reparar em Vronski, que se pusera de pé e aguardava que o príncipe lhe dirigisse a palavra. Kitty compreendia que, depois do que acabava de acontecer, as atenções do pai para com Levine deviam ser dolorosas para este. E corou ao notar a frieza com que o pai respondera ao cumprimento de Vronski e a surpresa com que este olhou para o príncipe, sem perceber por que podia ele estar mal disposto a seu respeito.
— Príncipe, consinta que Constantino Dimitrievitch se junte a nós — disse a condessa Nordston. — Queremos fazer uma experiência.
— De que se trata? De fazer girar mesas de pé de galo? Perdoem-me, minhas senhoras e meus senhores, mas acho muito mais divertido que brinquem antes às prendas — replicou o príncipe, fitando Vronski e adivinhando que fora dele a ideia. — Brincar às prendas tem algum sentido. Surpreendido, Vronski fitou o velho príncipe com os seus olhos graves e depois de um ligeiro sorriso pôs-se a falar com a condessa Nordston acerca de um baile que se realizava na semana seguinte.
— Espero que não falte — disse Vronski, dirigindo-se a Kitty.
No momento em que o velho príncipe se separara dele, Levine saíra sem ninguém dar por isso, e a última impressão que reteve daquela noite foi a impressão feliz e sorridente do rosto de Kitty respondendo à pergunta de Vronski sobre a baile.
Ao findar o serão, Kitty contou à mãe a conversa com Levine. Apesar da pena que lhe inspirava, estava contente que ele lhe tivesse feito uma declaração. Não tinha dúvidas de que procedera como devia. Mas, uma vez deitada, demorou muito a adormecer. Uma impressão a perseguia sem cessar: o rosto de Levine, de sobrancelhas franzidas e olhos profundamente tristes e bondosos, olhando-os, ora a ela, ora a Vronski, enquanto ouvia o príncipe. Tanta pena teve dele que lhe vieram as lágrimas aos olhos. Logo, porém, pensou no homem a quem preferira.
Lembrou vivamente o seu rosto sério e varonil; aquela nobre serenidade e benevolência para com todos; evocou o amor que lhe dedicava aquele a quem queria, e sentindo de novo a alegria na alma, com um sorriso feliz, deixou-se cair sobre o travesseiro. «Que pena, que pena, mas que hei-de fazer? A culpa não é minha», dizia a si mesma, embora uma voz interior
lhe segredasse o contrário. Não sabia se estava arrependida de ter conquistado Levine ou se de o haver repelido. E o certo é que a felicidade que sentia era empanada pelas dúvidas. «Meu Deus, perdoa-me! Meu Deus, perdoa-me!», foi repetindo intimamente, até que adormeceu.
Entretanto, lá em baixo, no pequeno gabinete do príncipe, desenrolava-se uma dessas cenas que freqüentemente se repetiam entre os pais, por causa daquela filha tão querida.
— Que há? Ainda perguntas? — exclamou o príncipe, gesticulando, ao mesmo tempo que ajeitava o roupão de petít-gris. — Ainda perguntas? Pois escuta. Não tens nem amor-próprio nem dignidade. Comprometes, perdes a tua filha com essa mania baixa e estúpida de impingi-la às pessoas.
— Mas, pelo amor de Deus! Que fiz eu? — replicou a princesa, a ponto de chorar.
Depois da conversa com a filha, a princesa, feliz e contente, viera, como de costume, dar a boa-noite ao marido, e embora não tencionasse falar-lhe na declaração de Levine nem na negativa de Kitty, disse-lhe que, segundo julgava, o assunto Vronski se poderia considerar resolvido, que se decidiria logo que a mãe dele chegasse. Ao ouvir estas palavras, o príncipe descontrolou-se, proferindo frases inconvenientes.
— Que fizeste? Em primeiro lugar, procuras atrair um noivo, e toda a gente em Moscovo irá falar nisso, aliás com inteira razão. Se queres dar festas, convida toda a gente e não apenas determinados pretendentes. Convida todos esses peralvilhos (assim chamava o príncipe aos jovens de Moscovo), arranja um pianista e que dancem. Não faças como hoje, que trouxeste para casa os pretendentes, e toca a tratar do casamento! Mete-me nojo tudo isto, conseguiste encher a cabeça da pequena de ideias tolas. Levine é um homem mil vezes melhor. Esse peralvilho de Sampetersburgo é dos que se fabricam em série. São todos iguais e nenhum presta para nada. Mesmo que fosse príncipe de sangue, a minha filha não precisa disso para nada.
— Mas que fiz eu?
— Que fizeste? — vociferou o príncipe, furioso.
— Só sei que, se te der ouvidos, nunca casaremos a nossa filha. Nesse caso é melhor irmos para o campo.
— Realmente, acho melhor.
— Escuta. Porventura provoquei alguém? O que há é o seguinte: esse rapaz, muito bom, enamorou-se de Kitty, e ela, pelo que sei...
— Isso é o que pensas! E se Kitty se apaixona de verdade e ele
pensa tanto em casar como eu...! Oh! Que os meus olhos não vejam uma coisa dessas...! «Oh, o espiritismo! Oh! Nice! Oh! O baile!» — E o príncipe, imitando a mulher, fazia uma reverência à medida que ia pronunciando cada palavra. — E se viermos a fazer a desgraça de Katienka, se ela toma isto a sério? — Mas por que supões uma coisa dessas?
— Não suponho, tenho a certeza. Para isso nós, os pais, temos uma acuidade que vocês, as mulheres, não têm. Vejo, por um lado, um homem com intenções sérias: Levine, e, pelo outro, esse pelintra que só pensa em divertir-se...
— Lá vens tu com as tuas manias...
— Lembrar-te-ás do que estou a dizer quando for tarde de mais, como aconteceu com a Dacha.
— Bom, bom, não falemos mais nisto — interrompeu-o a princesa, lembrando-se da infelicidade de Dolly.
— De acordo, adeus!
Depois de terem trocado o beijo e o sinal-da-cruz do costume, os dois esposos separaram-se, ambos persuadidos de que cada um ficaria com a sua opinião. No entanto, a princesa, ainda há momentos firmemente convencida de que naquela noite se decidira do futuro de Kitty, sentia agora essa convicção um tanto abalada pelas palavras do marido. E uma vez recolhida, o futuro surgia-lhe bem pouco seguro e, tal como Kitty, repetiu várias vezes, mentalmente: «Senhor, tem piedade de mim! Senhor, tem piedade de mim!»
Vronski não sabia o que era vida de família. Quando nova, a mãe, senhora da sociedade e mulher muito atraente, não só em vida do marido, mas principalmente depois de viúva, tivera muitas aventuras, que eram do conhecimento de todos. Vronski, educado no Corpo de Pajens, mal conhecera o pai. Saíra da escola muito novo e não tardou a levar a mesma vida de todos os ricos oficiais petersburgueses. Embora freqüentasse, de quando em quando, a alta sociedade de Sampetersburgo, o certo é que os seus problemas sentimentais estavam fora desse meio.
Em Moscovo experimentara pela primeira vez, rompendo com a vida ostentosa que levava, o encanto de conviver com uma jovem da sociedade, delicada na sua candura, e que não tardara a enamorar-se dele.
Nunca lhe passara pela cabeça que pudesse haver qualquer mal nas suas relações com Kitty. Freqüentava-lhe a casa, e nos bailes dançava de preferência com ela. Falava com Kitty das coisas de que em geral se fala na sociedade: uma série de tolices a que dava, instintivamente, um sentido especial que só ele podia entender. Embora nada lhe tivesse dito que não pudesse ser repetido diante de todos, percebia que Kitty dia a dia dependia mais dele e quanto mais o reconhecia mais agradável isso se lhe tornava. O sentimento que ela lhe inspirava ia-se tornando cada vez mais delicado. Ignorava que a maneira como a tratava tinha um nome específico: tentativa de sedução sem intenções matrimoniais, má acção corrente entre jovens arrogantes como ele. Dir-se-ia que era a primeira vez que descobria semelhante prazer, e tirava dele o melhor partido possível.
Grande seria a sua surpresa se tivesse podido ouvir naquela noite a conversa travada entre os pais de Kitty, se lhe fosse dado situar-se no ponto de vista da família e inteirar-se de que a jovem seria desgraçada se não casasse com ele. Como poderia ele considerar repreensível uma coisa que tão grande prazer lhe proporcionava e que tão agradável era, sobretudo para ela, Kitty? E ainda por cima ter de casar com ela!
Nunca encarara a perspectiva do casamento. Não só não apreciava a vida familiar, como via qualquer coisa estranha, hostil, e sobretudo ridícula na família, principalmente no marido, de acordo como o ponto de vista do grupo de solteiros que freqüentava. Mas o certo é que Vronski, embora não pudesse suspeitar da conversa havida entre os pais de Kitty, ao sair naquela noite de casa dela teve a impressão de que o laço espiritual que os unia se apertava mais, e a tal ponto que seria necessário tomar uma decisão. Mas que decisão? E de que espécie? «Precisamente o agradável é que nenhum de nós tenha dito nada e que, no entanto, nos compreendamos um ao outro só com essa muda linguagem dos olhares; hoje disse-me mais claramente do que nunca que me ama. E fê-lo de um modo tão agradável, tão simples e sobretudo tão confiado! Até me deu a sensação de que sou uma pessoa melhor, mais pura. Dou-me conta de que tenho coração e que há em mim muitas coisas boas», pensava Vronski ao regressar de casa dos Tcherbatski. E, como sempre que deixava essa casa, experimentava uma agradável sensação de pureza e de juventude, por um lado em virtude de não ter fumado durante toda a noite e pelo outro graças ao sentimento desconhecido, novo para ele, que lhe inspirava o enternecimento diante de Kitty e o amor que ela lhe tinha.
«Bom, que importância tem isso? Nenhuma. É agradável para mim e para ela também.» Vronski pôs-se a pensar onde acabar aquela noite. Mentalmente reviu os lugares aonde poderia ir. «Ao clube? Fazer
uma partida de bésigue e tomar champanhe com Ignative? Não, não vou. Ao Château des Fleurs, com as suas cançonetistas e os seus cancãs... e também com Oblonski? Não, estou cansado de todas essas coisas. E é precisamente por isso que tanto aprecio os Tcherbatski. Em casa deles sinto-me melhor pessoa. Vou para casa.» Dirigiu-se directamente para o seu quarto do Dusseau, pediu a ceia e assim que se despiu e que deitou a cabeça no travesseiro adormeceu pesadamente.
Às da manhã do dia seguinte Vronski foi à estação esperar a, mãe, que vinha de Sampetersburgo, e a primeira pessoa com quem se encontrou na escada foi Oblonski, que aguardava a irmã, que devia chegar no mesmo comboio.
— Seja bem aparecida Sua Alteza! A quem espera? — gritou-lhe Oblonski
— Minha mãe — respondeu Vronski, sorrindo, como todas as pessoas que se encontravam com Stepane Arkadievitch. E depois de lhe apertar a mão, subiram juntos para a gare. — Chega hoje de Sampetersburgo.
— Esperei-te ontem à noite até às . Aonde foste depois de saíres de casa dos Tcherbatski? — Para casa. Passei um serão tão agradável em casa deles que não me apeteceu ir a lugar algum — replicou Vronski.
— Conheço os cavalos fogosos pela marca e os jovens apaixonados pelos olhos — declarou Stepane Arkadievitch, repetindo o que dissera a Levine. Vronski sorriu, como a dar a entender que o não negava, mas mudou logo de conversa.
— E a quem esperas tu? — perguntou.
— Eu? A uma mulher muito bela — disse Oblonski.
— Olá!
— Honni soit qui mal y pense! Espero minha irmã Ana.
— Ah! A Karenina! —observou Vronski.
— Tu conheces-la?
Maldito seja quem mal pensar. Lema do escudo da Ordem da Jarreteira e das armas da Grã-Bretanha.
— Parece-me que sim, ou não... realmente não me recordo — replicou Vronski distraído, a quem o nome de Karenina evocava qualquer coisa de aborrecido e afectado.
— Mas com certeza conheces meu cunhado, o célebre Alexei Alexandrovitch. Toda a gente o conhece.
— Conheço-o de vista e de ouvir falar... Sei que é homem inteligente, sábio e um tanto sobrenatural... Mas, sabes, não é precisamente o meu gênero... Not in my Une — disse Vronski.
— Sim, é um homem notável; um tanto conservador, mas boa pessoa, boa pessoa — observou Stepane Arkadievitch.
— Tanto melhor para ele — tornou Vronski, sorrindo. — Ah, estás aqui! — exclamou, dirigindo-se ao velho e espadaúdo criado da mãe. — Segue-me.
Como todas as pessoas, Vronski também estava encantado com Oblonski, mas de há tempo que sentia no seu convívio um prazer muito especial: não seria ainda aproximar-se de Kitty? — Então está combinado — disse, alegremente, travando-o pelo braço. — Domingo oferecemos um jantar à diva? — Sem falta. Eu tratarei da subscrição. A propósito, conheceste ontem o meu amigo Levine? — perguntou Stepane Arkadievitch.
— Claro! Mas foi-se embora muito cedo.
— É um bom rapaz, não é verdade? — continuou Oblonski.
— Não sei porque todos os moscovitas, à excepção do que está a falar comigo, como é natural, têm certa rudeza no trato — observou, brincando. — Espinham-se à menor coisa e enfadam-se, como se nos quisessem dar uma lição.
— É verdade, é... — exclamou rindo, alegremente, Stepane Arkadievitch.
— O comboio demorará muito? — perguntou Vronski ao criado.
— Já saiu da última estação — replicou este.
O movimento crescente na gare, as idas e vindas dos carregadores, o aparecimento dos polícias, a chegada das pessoas que vinham esperar os viajantes, tudo era indício da aproximação do comboio. Fazia frio, e através da bruma viam-se operários de pelicas curtas e botas de feltro que atravessavam as linhas. Ao longe ouviu-se o silvo de uma locomotiva e daí a pouco distinguiu-se o ruído de uma massa pesada em movimento.
— Não! Não! Não apreciaste devidamente o meu amigo Levine —
Não é o meu tipo.
disse Stepane Arkadievitch, que muito desejava contar a Vronski as intenções de Levine a respeito de Kitty. — É um rapaz muito nervoso, que às vezes costuma ser desagradável, mas outras é capaz de ser muito simpático. E um coração de ouro, uma natureza recta e honrada. Mas ontem tinha motivos especiais — prosseguiu, com um sorriso significativo, esquecendo por completo a sincera compaixão que Levine lhe inspirara na véspera e experimentando naquele momento o mesmo sentimento em relação a Vronski. — Sim, tinha motivos para se sentir ou muito feliz ou muito desgraçado.
Vronski deteve-se, perguntando sem rodeios:
— Que queres dizer? Porventura se teria declarado ontem à tua belle-soeur?...
— Talvez — replicou Stepane Arkadievitch. — Creio que sim. Se partiu cedo e estava mal disposto, não há dúvida... Há tempo já que anda apaixonado; tenho muita pena dele.
— Ah, sim?... Seja como for, acho que Kitty pode aspirar a um melhor partido — observou Vronski, e, dilatando o peito, seguiu em frente. — Aliás, não o conheço... Deve ser, efectivamente, uma situação penosa. É por isso que a maioria dos homens prefere tratar com certas mulheres. Nessa altura, quando uma pessoa não tem êxito, é só por falta de dinheiro. Nos outros casos, os méritos pessoais é que estão em jogo.
Olha, lá vem o comboio.
Com efeito, a distância, silvava a locomotiva. Transcorridos alguns minutos, a plataforma estremeceu e a locomotiva entrou na gare, lançando nuvens de fumo, que a atmosfera gelada fazia descer para a terra, passando, ruidosamente, diante das pessoas que se aglomeravam na gare, às quais o maquinista, todo agasalhado e coberto de gelo, acenava com a mão, enquanto a biela da roda central se movia lentamente. Subitamente a plataforma foi ainda mais violentamente sacudida. Atrás do tender, refreando a marcha pouco a pouco, surgiu o furgão, onde um cão uivava, e, por fim, apareceram os vagões dos passageiros, que antes de parar foram sacudidos por um movimento brusco.
O condutor fez soar o apito ainda com a composição em movimento, e saltou. Depois principiaram a desembarcar, um por um, os passageiros impacientes: um oficial da Guarda, muito hirto, que olhava à sua volta com uma expressão severa; um jovem comerciante, ágil e sorridente, que carregava uma pasta; e, por fim, um camponês com uma sacola ao ombro.
Vronski, que se conservava ao lado de Oblonski, ia observando os vagões e os passageiros que desciam, esquecido da mãe. O que acabava de saber de Kitty emocionara-o; causava-lhe satisfação. Sem dar por isso, dilatara o tórax enquanto os olhos lhe faiscavam. Sentia-se vitorioso.
— A condessa Vronski vem naquela carruagem — disse o condutor, aproximando-se dele.
Estas palavras despertaram Vronski, obrigando-o a lembrar-se da mãe e da entrevista que daí a pouco iria ter com ela. No fundo da sua alma não respeitava a mãe e, conquanto não desse por isso, também não a estimava verdadeiramente.
De acordo com a mentalidade do meio em que vivia e a educação que recebera, não podia imaginar outras relações com ela além das do respeito e da extrema obediência, relações que se tornavam tanto mais aparentes quanto menos a estimava e respeitava no seu íntimo.
Vronski seguiu o condutor e subiu ao estribo do vagão, detendo-se à entrada do compartimento para dar passagem a uma senhora que saía.
Com a sua velha experiência de homem de sociedade, bastou-lhe um olhar para compreender, pelo aspecto da desconhecida, que pertencia à alta-roda. Curvou-se e ia entrar no vagão quando sentiu necessidade de voltar a olhá-la, não atraído pela sua beleza, nem pela sua elegância, nem pela singela graça que se desprendia de toda a sua pessoa, mas apenas porque a expressão do seu rosto encantador, quando passara junto dele, se mostrara especialmente suave e delicada. No momento em que se voltou, também ela olhara para trás. Os seus brilhantes olhos cinzentos, que pareciam escuros graças às espessas pestanas, detiveram-se nele, amistosos e atentos, como se o reconhecessem, e imediatamente se desviaram para a estação, como que procurando alguém. Naquele rápido olhar, Vronski teve tempo de lhe observar a expressão de uma vivacidade contida, os olhos reluzentes e o sorriso quase imperceptível dos lábios rubros. Parecia que algo excessivo lhe inundava o ser e, a pesar seu, transbordava ora do olhar luminoso, ora do sorriso. Não obstante ter velado intencionalmente a luz dos olhos, ela transparecia através do leve sorriso.
Vronski penetrou no compartimento. A mãe, uma velhinha mirrada, de olhos negros e caracóis na testa, apertou os olhos ao examinar o filho e um leve sorriso lhe aflorou aos lábios delgados. Levantou-se, passou uma maleta à criada grave, estendeu a mão magra ao filho, que a beijou, beijando-o ela, por sua vez.
— Recebeste o telegrama? Estás bem? Graças a Deus!
— Fez boa viagem? — perguntou Vronski, sentando-se a seu lado. Involuntariamente ia ouvindo uma voz feminina que ressoava do outro lado da portinhola. Sabia que era a voz da senhora com quem se cruzara à entrada do comboio.
— Não estou de acordo consigo — dizia essa voz.
— É o ponto de vista petersburguês, é o ponto de vista feminino — respondia ela.
— Então! Consinta que lhe beije a mão.
— Adeus, Ivan Petrovitch. Faça o favor de ver se o meu irmão está aí e diga-lhe que venha ter comigo — disse a mesma senhora, junto à portinhola, voltando ao compartimento.
— Encontrou o seu irmão? — inquiriu a Vronskaia, dirigindo-se a ela. Naquele momento, Vronski compreendeu que devia tratar-se da Karenina.
— Seu irmão está aí — disse-lhe ele, levantando-se. — Perdoe-me, não a tinha reconhecido; aliás, tão rápido foi o nosso encontro que é natural que não se lembre de mim.
— Oh, sim! Tê-lo-ia reconhecido, porque durante a viagem sua mãe e eu falámos muito a seu respeito — replicou Karenina, deixando, por fim, que o riso se lhe espalhasse no rosto. — Mas meu irmão é que não aparece.
— Vai chamá-lo, Aliocha — disse a idosa condessa. Vronski desceu à plataforma e gritou:
— Oblonski, estamos aqui!
Ana Karenina, porém, não esperou pelo irmão; ao vê-lo, saiu da carruagem com seu passo decidido e ligeiro. Quando chegou junto dele, num gesto que surpreendeu Vronski pela graça e firmeza, abraçou Stepane Arkadievitch com o braço esquerdo, puxando-o a si e beijando-o efusivamente. Vronski, sem a perder de vista, olhava-a, sorrindo sem saber porquê. Ao lembrar-se de que sua mãe o esperava, voltou para a composição.
— Não é uma pessoa muito agradável? — perguntou a condessa.
— O marido veio instalá-la a meu lado e isso deu-me muito prazer. Conversámos toda a viagem. Bom, e de ti dizem que... vous filez le parfait amour. Tant mieux, mon cher, tant mieux.
— Não sei a que te referes, maman — replicou Vronski friamente.