— Bom, maman, vamos?
Ana Karenina voltou ao vagão para se despedir da condessa.
— Bem, condessa, encontrou o seu filho e eu encontrei meu irmão — disse alegremente. — Esgotei todo o meu repertório, já não teria mais nada para lhe contar.
— Não creio. Era capaz de dar a volta ao Mundo na sua companhia sem me aborrecer — replicou a condessa, pegando-lhe na mão. — É uma pessoa simpática com quem é agradável conversarmos e até estarmos calados. Não pense tanto no seu filho, peco-lhe: é bom separar-se dele de vez em quando entregas-te ao amor platônico. Tanto melhor, querido, tanto melhor Ana Karenina permanecia imóvel, muito direita, os olhos risonhos.
— Ana Arkadievna tem um filho de oito anos, de quem nunca se separou, e está saudosíssima por ter sido obrigada a deixá-lo em Sampetersburgo — explicou a condessa a Vronski.
— Sim, passámos a viagem toda a conversar: eu, de meu filho; e a condessa, do seu — disse Ana Karenina, e de novo um sorriso lhe iluminou o rosto, e esse sorriso destinava-se a ele.
— Isso deve tê-la maçado muito — disse Vronski, que devolvia a Ana Karenina a coquetterie que ela lhe lançara, como quem devolve uma bola. Mas, pelo visto, Ana não queria continuar a conversa nesse tom e dirigiu-se, desta vez; à idosa senhora: — Estou-lhe muito agradecida. O dia de ontem passou sem que eu desse por isso. Até à vista, condessa.
— Adeus, minha senhora — replicou a mãe de Vronski. — Permita que lhe beije o lindo rosto e que lhe diga, velha que sou, que me conquistou inteiramente.
Apesar do que havia de convencional nesta frase, Ana Karenina pareceu acreditar nela e sentir-se comovida. Corou, inclinou-se ligeiramente e aproximou o rosto dos lábios da velha condessa; depois soergueu-se e com o mesmo sorriso inquieto estendeu a mão a Vronski. Este apertou aquela pequenina mão, muito feliz, como se fosse uma coisa extraordinária poder corresponder àquela pressão firme e enérgica. Ana Karenina saiu em passos rápidos, numa ligeireza surpreendente, dadas as suas formas pronunciadas.
— Encantadora! — exclamou a condessa.
O filho era da mesma opinião. Seguiu-a com os olhos até lhe perder de vista a graciosa figura, e só então o sorriso lhe desapareceu dos lábios. Através da portinhola viu-a aproximar-se do irmão, pôr-lhe a mão
no ombro e principiar a falar animadamente, sem dúvida de qualquer coisa sem a menor relação com Vronski, o que se lhe afigurou desagradável.
— Bom, maman, estás mesmo bem? — voltou a perguntar, dirigindo-se à mãe.
— Muito bem, maravilhosamente. Alexandre esteve muito simpático. E Maria está uma beleza. É uma mulher muito interessante.
E principiou a falar do que mais a interessava: o baptizado do neto — fora a Sampetersburgo para assistir a esse baptizado — e a especial atenção que o soberano dispensava ao seu filho mais velho.
— Ali está o Lavrenti, se queres podemos descer — disse Vronski, olhando pela janela.
O velho mordomo, que acompanhara a condessa na viagem, entrou no compartimento para dizer que tudo estava em ordem. A condessa levantou-se.
— Vamo-nos, agora há pouca gente — disse Vronski.
A criada grave pegou na maleta e no cãozinho, o mordomo e o carregador apanharam o resto da bagagem. Vronski deu o braço à mãe, mas quando desciam do comboio viram umas pessoas assustadas que passavam a correr. Atrás delas seguia o chefe da estação com o seu gorro de cor espaventosa. Devia ter acontecido alguma coisa imprevista. Os passageiros do comboio retomavam, correndo.
— Que foi?... Que aconteceu?... Onde...? Atirou-se?... Morreu?... — ouvia-se entre os que passavam.
Stepane Arkadievitch, de braço dado com a irmã, voltava também. No rosto deles havia uma expressão assustada. Para evitarem a multidão, pararam, muito aflitos, junto da portinhola do vagão.
As duas senhoras subiram para a carruagem, enquanto Vronski Estepane Arkadievitch iam inteirar-se dos pormenores do desastre.
O agulheiro, ou porque estivesse bêbedo, ou porque não ouvisse o comboio, de tão enroupado que estava por causa do frio, fora apanhado pela composição que recuava.
Antes do regresso de Vronski e de Stepane Arkadievitch já as senhoras estavam ao corrente de tudo através do mordomo.
Stepane Arkadievitch vira o cadáver mutilado. Oblonski estava visivelmente emocionado. Fazia caretas e por pouco não chorava.
— Ai, que horror! Se o tivesses visto, Ana! Que coisa horrível! — dizia ele. sereno.
Vronski estava calado, mas havia gravidade no seu rosto, aliás
— Ah, se o tivesse visto, condessa — exclamou Stepane Arkadievitch.— Está aí a mulher dele... Que horror... Atirou-se para cima do cadáver. Dizem que ele era o único a ganhar para uma numerosa família. Que desgraça! — Não poderíamos fazer alguma coisa por ela? — murmurou Ana Karenina, emocionada.
Vronski relanceou-lhe uma olhar e acto contínuo saiu do vagão.
— Volto já, maman — disse ele da portinhola.
Quando regressou, passados alguns minutos, Oblonski falava com a condessa de uma nova cantora, enquanto esta olhava impaciente para a portinhola, ansiosa pelo filho.
— Podemos partir — disse Vronski, entrando de novo no compartimento.
Desceram juntos. Vronski e a mãe seguiam adiante. Ana e o irmão atrás deles. À saída, o chefe da estação veio ao encontro de Vronski.
— O senhor entregou duzentos rublos ao meu ajudante. Faça o favor de dizer a quem se destinam? — À viúva — disse Vronski, encolhendo os ombros. — Não sei por que faz essa pergunta! — Deste-lhe dinheiro? —gritou Oblonski, e apertando o braço da irmã, acrescentou: — Muito bem, muito bem! Que rapaz encantador, não é verdade? Meus parabéns, condessa!
Oblonski e a irmã detiveram-se à procura da criada. Quando chegaram à porta da estação já a carruagem dos Vronski partira. As pessoas que entravam ainda faziam comentários sobre o sucedido.
— Uma morte horrível — comentava um cavalheiro que passava junto deles. — Dizem que ficou dividido em dois.
— Pelo contrário, a mim parece-me que foi a melhor deste mundo, repentinamente — dizia outro.
— Não percebo por que não se tomam medidas de precaução... — observou um terceiro.
Ana Karenina subiu para a carruagem e Oblonski viu, assombrado, que lhe tremiam os lábios e que mal podia conter as lágrimas.
— Que tens, Ana? — perguntou-lhe, quando o veículo se pôs em marcha.
— É mau presságio — respondeu ela.
— Tolices! Chegaste, é o principal. Pus todas as minhas esperanças na tua viagem.
— Conheces Vronski há muito tempo? — perguntou Ana.
— Sim, acho que acabará por casar com a Kitty, sabes?
— Realmente?...—comentou Ana em voz baixa. — Bem, agora falemos de ti. Recebi as tuas cartas e aqui me tens.
— Sim, todas as minhas esperanças estão em ti — acrescentou Stepane Arkadievitch.
— Conta-me tudo.
E Stepane Arkadievitch pôs-se a relatar o que acontecera. Ao chegar a casa, Oblonski ajudou a irmã a descer, suspirou, apertou-lhe a mão e dirigiu-se ao tribunal.
Quando Ana entrou na salinha, Dolly dava lição de francês a um rapazinho, gorducho e louro como o pai. Enquanto ia lendo a lição, o pequeno tentava arrancar o botão do casaco já meio desprendido. Por várias vezes a mãe o repreendera por isso, mas a mãozinha gorda da criança voltava a agarrar o botão. Então Dolly arrancou-o e guardou-o no bolso.
— Fica sossegado com as mãos, Gricha — disse-lhe ela.
E continuou o trabalho em que estava absorvida. Era uma colcha que principiara havia muito e em que apenas trabalhava nos momentos difíceis. Trabalhava nervosamente, encolhendo e distendendo os dedos, contando e recontando as malhas. Embora tivesse dito na véspera ao marido que pouco lhe importava a chegada da irmã dele, o certo é que preparara tudo pira a receber e esperava a com impaciência.
Por mais abatida e preocupada que estivesse com a sua dor, Dolly não podia esquecer se de que Ana, sua cunhada, era uma grande dama e esposa de uma das personalidades mais importantes de Sampetersburgo. Não ousaria, portanto, recebê-la mal «Além disso», dissera ela de si para consigo, «Ana não tem culpa de coisa alguma. Sempre tenho ouvido falar bem dela, e no que me diz respeito sempre me deu provas de amizade e de carinho» Era certo que, segundo se recordava, a casa dos Karenine em Petersburgo não lhe produzira muito boa impressão havia qualquer coisa
de falso na maneira de viver daquela família «Por que não haveria ela de a receber? Desde que se não lembre de me vir consolar!», pensava Dolly «Conheço muito bem essas exortações, essas admoestações, esses apelos à clemência cristã Já ruminei tudo isso quanto basta para saber o que vale.»
Todos aqueles dias estivera sozinha com os filhos. Não queria falar à ninguém na sua infelicidade, embora se sentisse incapaz de abordar qualquer outro assunto. Compreendia que com Ana se veria obrigada a romper o silêncio e ora lhe sorria a perspectiva dessa confidência ora, pelo contrario, a necessidade de revelar à irmã do marido a humilhação por que passava, e o ter de lhe ouvir as banais consolações, afiguravam -se lhe coisas intoleráveis.
Olhando a cada passo o relógio, ia contando os minutos, à espera de vê-la aparecer de um momento para o outro, mas, como tantas vezes acontece em casos semelhantes, tão abstracta estava que não ouvira a campainha. Quando passos ligeiros e o frufru de um vestido junto à porta a fizeram levantar a cabeça no seu rosto atormentado não se reflectiu alegria, mas surpresa Ergueu se para abraçar a cunhada.
— Como, pois já chegaste? — perguntou, beijando-a.
— Dolly? Que contente estou em tornar a ver te?
— E eu também — respondeu Dolly, sorrindo ligeiramente e pró curando averiguar, através da expressão da cunhada se ela estava ou não inteirada do sucedido.
«Deve saber tudo», pensou, ao reparar na expressão compadecida de Ana. E, procurando protelar quanto pudesse o momento da explicação, continuou.
— Vem daí Quero levar te ao teu quarto.
— Este é o Gricha? Meu Deus, que crescido está! Não, permite que fique aqui — replicou Ana, e beijando a criança sem afastar os olhos da cunhada, corou.
Tirou o xale e o chapéu que se prendeu nos cabelos negros frisados, e que conseguiu desprender sacudindo a cabeça.
— Estás radiante de felicidade e de saúde? — disse Dolly quase com inveja — Eu Sim — aquiesceu Ana — Meu Deus, Tânia? — És da idade do meu Seriocha — acrescentou, dirigindo se à menina que entrava na sala correndo. Pegou lhe nas mãos e beijou-a — Que criança encantadora! Quero vê-los todos.
Lembrava se não só do nome e da idade de todas as crianças, mas até do feitio de cada uma e das doenças que tinham tido Dolly sentiu se
tocada por tanta solicitude.
— Pois, sim vamos velas — disse ela — Vácia está a dormir, é uma pena.
Depois de ver as crianças, sentaram se as duas no salão diante de duas xícaras de café Ana estendeu a mão para a bandeja, mas logo a repeliu.
— Dolly, Stepane falou me de tudo — disse ela Dolly olhou a friamente. Esperava ouvir frases de fingida compaixão, mas Ana nada disse que se parecesse com isso.
— Dolly, querida — principiou — Não quero defendê-lo nem consolar te, é impossível. Deixa que te diga, apenas, que te lamento do fundo do coração? Por detrás das espessas pestanas reluziam as lágrimas Sentia se mais próxima da cunhada, e tomou a mão dela na sua mão pequena e enérgica Dolly não a retirou, mas a sua expressão continuava a ser fria.
— É inútil tentares consolar me. Depois do que aconteceu, tudo está irremediavelmente perdido.
Mas assim que pronunciou estas palavras, a expressão do seu rosto suavizou se subitamente Ana levou aos lábios a mão delgada e seca da cunhada e beijou a.
— Mas, enfim, Dolly, que pretendes fazer? Esta situação falsa não pode prolongar se Não seria melhor pensarmos numa solução qualquer? — Tudo acabou — disse Dolly — E o mais terrível, como vês, é que não posso deixá-lo, estou amarrada pelas crianças Mas não posso continuar a viver com ele, vê-lo é uma tortura para mim.
— Dolly, minha querida, o Stepane contou me tudo, mas eu gostaria que tu mo contasses por tua vez.
Dolly olhou para ela com uma expressão interrogativa. O carinho e a compaixão eram sinceros no rosto de Ana.
— Está bem, mas terei de te contar tudo desde o princípio — disse, de súbito — Sabes como me casei. Com a educação que a maman me deu, não era apenas inocente, era estúpida. Ignorava tudo. Dizem que os maridos costumam abrir se com as mulheres sobre a sua vida passada, mas Stiva — corrigiu — Stepane Arkadievitch não me contou nada. Talvez não acredites, até agora estava convencida de que tinha sido a única mulher na sua vida. E assim vivi oito anos. Compreendes não só não me passava pela cabeça que me fosse infiel, como até julgava isso impossível, e, com estas ideias na cabeça, podes imaginar o que foi para mim saber de um momento para o outro de todo esse horror, dessa
vilania... Compreende-me. Estar inteiramente confiante na felicidade e de repente... — continuou Dolly, reprimindo os soluços — receber uma carta... uma carta dele dirigida à amante, à preceptora dos seus filhos. Não! É uma coisa horrível! — Dolly puxou apressadamente o lenço, escondeu o rosto com ele e depois de um silêncio continuou: — Ainda posso admitir um momento de desvairamento, mas enamorar-se premeditadamente, enganar-me com malícia... e com quem?... E continuar a ser meu marido enquanto mantinha relações com ela!... Isto é horrível! Não podes fazer ideia.
— Estás enganada, faço, faço ideia, querida Dolly — exclamou Ana, apertando-lhe a mão.
— Ainda se ao menos se desse conta do horror da minha situação! — prosseguiu Dolly. — Mas não, continua feliz e satisfeito.
— Oh, não! — interrompeu-a Ana, pressurosa. — Faz pena olhar para ele: está cheio de remorsos, arrependidíssimo.
— Achas que é capaz de sentir remorsos? — interrompeu Dolly, por sua vez, observando atentamente a expressão da cunhada.
— É. Eu conheço-o. Não pude olhar para ele sem compaixão. Ambas o conhecemos. É bom, mas altivo, e agora sente-se tão humilhado... O que mais me impressiona — naquele momento Ana adivinhou o que mais poderia calar no espírito de Dolly — é que o atormentam duas coisas: o que ele sofre por causa das crianças e quanto sofre por te ter ferido, a ti, a quem ele ama, sim, sim, a quem ele ama acima de tudo neste mundo — insistiu ela, com receio de que Dolly a desmentisse. — «Não, não, ela nunca me perdoará», está sempre a dizer.
Dolly desviara os olhos da cunhada; meditava.
— Sim — disse ela, finalmente —, compreendo que a situação dele seja horrível. O culpado deve sofrer mais do que o inocente, quando se reconhece a causa de todo o mal. Mas como hei-de eu perdoar-lhe e voltar a ser mulher dele depois das suas relações com «ela»? A vida em comum será para mim agora um suplício, precisamente porque não posso esquecer o amor que lhe tinha antes disto...
Os soluços abafaram-lhe as palavras. Mas, como de caso pensado, logo que se comovia, voltava de novo a falar do que a irritava.
— Sim, a verdade é que ela é nova e bonita. Não compreendes, Ana, que a minha juventude e a minha beleza me foram arrebatadas?... E por quem? Por ele e pelos seus filhos. Tudo sacrifiquei por eles, e agora que já não presto para nada, é natural que ele prefira uma jovem, embora vulgar. Naturalmente divertiram-se à minha custa, ou pior ainda, esqueceram-se por completo de que eu existia. — Uma expressão de ódio
perpassou nos olhos de Dolly. — E que poderá ele vir dizer-me agora, depois disto?... Como hei-de eu acreditar nele? Nunca. Não, agora tudo acabou, tudo, tudo o que constituía a consolação, a recompensa dos trabalhos, dos sofrimentos... Serás capaz de acreditar? Estava dando a lição ao Gricha, o que antigamente para mim era uma alegria, e com que tormento o faço agora! Para que me esforço eu? Para que trabalho? É horrível que tudo se haja modificado na minha alma: em vez de amor e de ternura, ia não tenho dentro de mim senão ódio, sim, é ódio que eu sinto. Era capaz de matá-lo...
— Dolly, querida, compreendo perfeitamente, mas não te atormentes. Sentes-te tão ofendida e estás tão excitada que não és capaz de ver as coisas como elas realmente são.
Dolly serenou, e ambas ficaram caladas.
— Que hei-de fazer, Ana? Pensa e ajuda-me. Já examinei tudo e não me ocorre nada.
Para Ana afigurava-se-lhe difícil encontrar uma solução, mas cada palavra, cada olhar da cunhada achavam eco no seu coração.
— Uma coisa te posso dizer: sou irmã dele e conheço-lhe o carácter e a capacidade que tem de tudo esquecer — levou a mão à cabeça —, essa capacidade de se deixar seduzir completamente, mas, ao mesmo tempo, de cair em si e de se arrepender. Agora não compreende, não concebe que tenha sido capaz de proceder dessa maneira.
— Oh, não!—interrompeu-a Dolly.—Compreende-o, sempre o compreendeu perfeitamente. Aliás, pareces esquecer-te de mim, pois, ainda que assim fosse da parte dele, nem por isso eu sofreria menos.
— Ouve. Confesso-te que quando ele me falou eu não compreendi todo o horror da situação. Só via que ele me fazia pena, e à desordem do vosso lar. Foi dele que tive pena, mas agora, ao falar contigo, como mulher que sou, vejo as coisas de outra maneira: vejo o teu sofrimento e não sei dizer-te quanto te lastimo. Mas Dolly, minha querida, embora compreenda plenamente as tuas dores, uma coisa ignoro: até que ponto, no fundo do teu coração, ainda lhe queres. Só tu poderás saber se esse amor ainda chega para lhe poderes perdoar. Se ainda lhe queres o suficiente, perdoa-lhe.
— Não — ia dizer Dolly, mas Ana interrompeu-a, dando-lhe outro beijo na mão.
— Conheço o mundo melhor do que tu — disse ela. — Sei como os homens do tipo do Stiva encaram estas coisas. Dizes que eles teriam falado de ti. Nada disso. Os homens assim cometem infidelidades, é certo, mas o lar e a mulher são sagrados para eles. Desprezam as outras
mulheres, que não representam de maneira alguma um perigo para a família. Eu não posso compreender, mas é assim mesmo.
— Sim, mas ele beijou-a...
— Dolly, escuta, minha querida. Vi o Stiva quando estava enamorado de ti. Lembro-me da época em que vinha a minha casa, e chorava ao falar de ti, tão elevada e poeticamente te considerava, e sei que quanto mais tem vivido contigo tanto mais te respeita. Costumávamos rir-nos dele, porque estava sempre a dizer: «A Dolly é uma mulher excepcional.» Sempre foste e sempre continuarás a ser para ele uma divindade; ora, no capricho que ele teve agora o coração nunca entrou.
— Mas se volta a fazer o mesmo?
— Isso parece-me impossível.
— E tu, no meu lugar, perdoarias?
— Não sei, não me é possível julgar... — e, depois de pensar um momento, depois de sopesar mentalmente a situação, acrescentou: — Sim, seria capaz de o fazer! Não voltaria a ser a mesma, mas perdoar-lhe-ia... e perdoar-lhe-ia como se nada se tivesse passado, absolutamente nada.
— Claro, pois de outro modo não seria perdoar — interrompeu-a Dolly, com vivacidade, como se dissesse qualquer coisa em que já pensara mais de uma vez. — Sim, quando se perdoa, tem de perdoar-se de maneira completa, absoluta... Anda, vamos, quero acompanhar-te ao teu quarto — acrescentou, pondo-se de pé e logo em seguida abraçando-a.
— Minha querida, que bem fizeste em teres vindo. Sinto-me aliviada, muito aliviada.
Ana não saiu de casa naquele dia, quer dizer, de casa dos Oblonski, e não recebeu ninguém, nenhuma das pessoas que, prevenidas da sua chegada, a vieram visitar. Passou toda a manhã com Dolly e com as crianças. Entretanto mandara recado ao irmão, pedindo-lhe que viesse sem falta a casa. «Vem», dizia-lhe ela; «a misericórdia de Deus é infinita!» Oblonski jantou, pois, em casa; mantiveram uma conversa geral e a mulher tratou-o por tu, coisa que não fazia desde o que acontecera. As relações entre os dois permaneciam tensas, mas já não se falava em separação e Stepane Arkadievitch vislumbrava a possibilidade de chegarem a um acordo e reconciliarem-se.
Logo que acabaram de jantar, apareceu Kitty. Mal conhecia Ana Karenina e não sabia como a iria receber essa grande dama petersburguesa, que todos elogiavam tanto. Mas não tardou a tranqüilizar-se, pois sentiu que a sua beleza e a sua juventude agradavam a Ana, de quem, de resto, ela própria desde logo se encantou, como acontece às vezes às jovens que ficam como que fascinadas pelas mulheres casadas mais velhas do que elas. Ana não parecia uma senhora da sociedade nem a mãe de um filho de oito anos, mas uma garota de vinte anos, a julgar pela flexibilidade dos seus gestos, a frescura e a vivacidade da expressão, que ora lhe transparecia nos lábios ora nos olhos, agora séria e logo triste, coisa que muito surpreendeu Kitty. Foi precisamente esta particularidade que a seduziu: para além da simplicidade e da franqueza de Ana, adivinhava todo um mundo de poesia, misterioso, complexo, que se lhe afigurava inacessível. Depois do jantar, quando Dolly se retirou para os seus aposentos, Ana levantou-se e aproximou-se do irmão, que acendia um cigarro.
— Stiva — disse-lhe ela, persignando-se, ao mesmo tempo que lhe indicava com os olhos a porta da sala —, vai e que Deus te ajude! Oblonski compreendera e jogando fora o cigarro desapareceu, enquanto Ana voltava para junto das crianças. Em virtude da afeição que viam a mãe testemunhar-lhe ou apenas porque ela os conquistara de uma só vez, os dois mais velhos, e depois os mais novos, imitando-os, já antes do jantar se tinham agarrado às saias daquela nova tia e não queriam por nada deste mundo abandoná-la. Entre eles estabelecera-se uma espécie de jogo que consistia em se sentarem o mais perto possível dela, em tocar-lhe, em pegar-lhe na minúscula mão, dar-lhe beijos e brincar com o anel que ela trazia, ou pelo menos em se roçarem na sua saia.
— Bom, vamos outra vez para os nossos lugares, como estávamos há pouco — disse Ana Arkadievna, instalando-se no seu cantinho.
Gricha voltou a passar a cabeça por debaixo do braço de Ana, aninhando-se no vestido de seda, orgulhoso e radiante de felicidade.
— Quando é o próximo baile? — perguntou Ana a Kitty.
— Na semana que vem. Vai ser magnífico. Um desses bailes em que as pessoas estão sempre alegres.
— Há realmente bailes em que estejamos sempre alegres? — perguntou Ana com uma ligeira ironia.
— Embora pareça estranho, a verdade é que há. Em casa dos Bobrietchev estamos sempre alegres e em casa dos Nikitine também. Em compensação, na dos Mechkov estamos sempre aborrecidos. Nunca reparou nisso?
— Não, querida. Para mim já não existem desses bailes em que estamos sempre divertidas — disse Ana, e Kitty viu que lhe transparecia nos olhos esse mundo singular que nunca lhe fora revelado. — Para mim, há bailes menos penosos e menos aborrecidos...
— Como pode a senhora aborrecer-se num baile?
— Por que não havia «eu» de me aborrecer num baile? — perguntou Ana.
Kitty percebeu que Ana sabia a resposta que ela lhe iria dar.
— Porque é a mais bela de todas.
Ana corou, coisa que lhe acontecia freqüentemente, e disse:
— Em primeiro lugar, não é verdade. E ainda que o fosse, de que me serviria?
— Assistirá a esse baile? — perguntou Kitty.
— Vejo que não terei outro remédio senão assistir. Toma, apanha-o — disse a Tânia, que procurava tirar-lhe o anel, que lhe deslizava com facilidade pelo dedo branco e afilado.
— Gostaria muito que fosse. Seria tão bom vê-la no baile!
— Se me vir obrigada a ir, ao menos consolar-me-á a ideia de que lhe darei com isso satisfação... Gricha, não me puxes pelo cabelo, que já estou bastante despenteada — protestou, ajeitando um cacho de cabelos com que o pequeno se entretinha.
— Estou a vê-la no baile vestida de lilás.
— Por que há-de ser de lilás? — perguntou Ana, sorrindo. — Vamos, meninos, não estão a ouvir Miss Hull chamá-los para o chá? — acrescentou, repelindo as crianças, que se dirigiam à sala de jantar. — Já sei por que quer que eu vá ao baile. Espera muito dessa noite e deseja que todos tomem parte no seu triunfo.
— É verdade. Como sabe?
— Oh! Feliz idade a sua! Conheço-a, recordo muito bem essa neblina azul que faz lembrar a das montanhas suíças, essa bruma que tudo envolve, na época ditosa em que a infância está prestes a acabar, quando esse grande círculo divertido e feliz se converte num caminho cada vez mais estreito, num desfiladeiro ao mesmo tempo alegre e angustioso, embora pareça diáfano É encantador... Quem não passou por isso? Kitty sorria, calada. «Como teria ela vivido esse tempo? Gostaria tanto de saber!», pensou, recordando a figura pouco poética de Alexei Alexandrovitch, o marido de Ana.
— Sei alguma coisa a seu respeito. O Stiva contou-me. Felicito-a. Acho Vronski um rapaz muito agradável, encontrei-o na estação — prosseguiu Ana.
— Ah! Esteve na estação? — perguntou Kitty, corando. — E que lhe disse o Stiva? — Contou-me tudo. Da minha parte, teria muita satisfação... Fiz a viagem com a mãe de Vronski, que me falou dele todo o tempo; é o seu filho predilecto. Bem sei que as mães são parciais, no entanto...
— E que lhe contou?
— Oh! Muitas coisas. E embora eu saiba que é o seu filho predilecto, vê-se bem que é um cavalheiro. Contou-pie, por exemplo, que Vronski quis ceder todos os seus bens ao irmão e que criança ainda fez uma proeza extraordinária: salvou uma mulher de morrer afogada. Numa palavra: é um herói — disse Ana, sorrindo.
E lembrou-se dos duzentos rublos que Vronski dera ao empregado da estação. Disso, porém, não falou a Kitty. Lembrava-se dessa circunstância com um certo mal-estar, pois sentira nesse acto qualquer coisa que se relacionava com ela, algo que fora melhor não ter acontecido.
— Pediu-me muito que a fosse visitar, e terei grande satisfação em tornar a ver essa velhinha. Irei a casa dela amanhã. Graças a Deus, Stiva está-se demorando muito com Dolly no gabinete — acrescentou Ana, mudando de assunto e pondo-se de pé, contrariada por qualquer motivo, segundo pareceu a Kitty.
— Eu primeiro! Não, eu!—gritavam os pequenos, que tinham acabado de tomar o chá e corriam ao encontro de Ana.
— Todos ao mesmo tempo — exclamou ela. E rindo, correu para eles, abraçando o bando de crianças buliçosas que chilreavam entusiasmadas.
Depois do chá das crianças, foi servido o chá dos adultos. Dolly saiu sozinha do quarto de dormir, pois Stepane Arkadievitch devia ter saído por outra porta — Tenho receio de que sintas frio no quarto lá de cima — observou Dolly, dirigindo-se à cunhada. — Vou-te instalar lá em baixo e assim ficaremos mais perto
— Não te preocupes comigo — replicou Ana, fitando Dolly, procurando descobrir se a reconciliação era um facto.
— Aqui terás melhor luz.
— Garanto-te que durmo como uma pedra seja onde for.
— De que se trata? — perguntou Stepane Arkadievitch, que saíra do escritório e se dirigia à mulher.
Ana e Kitty compreenderam imediatamente pelo tom da voz dele que se tinham reconciliado.
— Queria instalar Ana aqui em baixo, mas é preciso pôr umas cortinas. Ninguém será capaz de fazê-lo, e terei eu mesma de pô-las — replicou Dolly.
«Só Deus sabe se se teriam reconciliado de todo», pensou Ana, ao ouvir o tom frio e severo da voz da cunhada.
— Bom, não vale a pena complicar as coisas, Dolly! — volveu Stepane Arkadievitch. — Mas, se quiseres, eu me encarregarei de tudo.
«Sim, devem ter-se reconciliado», reconsiderou Ana.
— Sim, já sei. Mandarás o Matvei fazer coisas impossíveis. E depois ir-te-ás embora, deixando que ele faça tudo ao contrário — replicou Dolly.
E o costumeiro sorriso irônico franziu-lhe as comissuras dos lábios.
«Graças a Deus, a reconciliação é completa, completa», voltou Ana a pensar. E contente por ter concorrido para isso, aproximou-se de Dolly e beijou-a.
— Ora, ora! Por que nos tens em tão pequena conta, a mim e ao Matvei? — perguntou Stepane Arkadievitch com um imperceptível sorriso.
Durante toda a tarde, Dolly conservou se ligeiramente irônica para com o marido e este mostrou-se contente e alegre, mas não tanto que desse a entender que, uma vez perdoado, se esquecera por completo da sua culpa. Às nove e meia o serão familiar, particularmente alegre e agradável, à mesa do chá dos Oblonski, foi interrompido por um acontecimento dos mais vulgares, o qual, no entanto, sem qualquer motivo, a todos pareceu surpreendente. Falavam de amigos comuns de Sampetersburgo quando, de súbito, Ana se levantou.
— Vou mostrar-lhes a fotografia do meu Seriocha — disse ela com um sorriso de orgulho maternal — Tenho-a comigo no meu álbum.
Por volta das dez horas da noite é que ela habitualmente costumava despedir se do filho. Muitas vezes, mesmo, antes de sair para um baile, era ela quem o deitava por suas próprias mãos. Eis por que,
quando essa hora se aproximava, sempre se sentia triste quando estava longe dele. Fosse qual fosse o assunto de que se falasse, tinha sempre de pensar no garotinho de cabelinho encaracolado. Assim, um grande desejo a assaltou de falar nele e de lhe contemplar o retrato. E aproveitando o primeiro pretexto, saiu da sala no seu passo ligeiro e decidido. A escadinha que conduzia ao seu quarto dava para um patamar da escadaria principal muito aquecida. No momento em que Ana deixava o salão, retinia a campainha do vestíbulo.
— Quem será? — perguntou Dolly.
— É cedo ainda para me virem buscar, mas, para uma visita, já é tarde — observou Kitty.
— Naturalmente são alguns documentos para mim — interveio Stepane Arkadievitch.
Quando Ana atravessava o patamar da escadaria, subia o criado para anunciar a pessoa recém chegada, nessa altura sob a luz do candelabro, em baixo, no átrio Ana olhou para o fundo das escadas e logo reconheceu Vronski, ao mesmo tempo que um estranho sentimento de alegria e receio lhe agitava o coração Vronski, de capote, procurava qualquer coisa no bolso. No momento em que Ana atingia o centro do patamar, ergueu os olhos e ao vê-la o seu rosto reflectiu confusão e receio. Ana desapareceu, com um ligeiro aceno de cabeça, e daí a pouco ouvia se a sonora voz de Stepane Arkadievitch, que convidava Vronski a subir, e a deste, baixa, suave e serena, que recusava.
Quando Ana voltou com o álbum, Vronski já não estava e Stepane Arkadievitch contava que o amigo, de passagem, quisera informar-se acerca de um jantar em organização para homenagear uma celebridade que vinha de fora.
— Não quis subir por nada deste mundo! Que original! — acrescentou.
Kitty corara. Julgava só ela compreender a razão por que Vronski ali aparecera, e porque se recusara a subir «Naturalmente foi a minha casa e, como eu não estivesse, pensou, talvez, encontrar-me aqui. Mas não quis entrar por ser tarde e pela presença de Ana.» Todos se entreolharam sem dizer palavra e em seguida puseram-se a folhear o álbum de Ana. Não havia nada de particular nem de estranho no facto de alguém visitar um amigo às nove e meia de noite para colher um informe sobre um banquete que se estava a organizar e não ter querido subir, mas a verdade é que a todos surpreendeu. E a pessoa mais surpreendida fora Ana, que achara aquilo uma impertinência.
O baile principiara havia pouco quando Kitty e a mãe apareceram na escadaria iluminada, cheia de flores, ao longo da qual se postavam os criados de libré vermelha e cabeleira empoada. Do patamar decorado com arbustos onde, diante de um espelho, elas ajeitavam o penteado, ouvia se um zunzum, semelhante ao de uma colméia, e os sons melodiosos dos violinos da orquestra começando a primeira valsa. Um senhor pequenino e idoso, que alisava os escassos fios de cabelos brancos diante de outro espelho, recendendo a perfume, afastou-se para as deixar subir os últimos degraus, extático diante da beleza de Kitty, a quem não conhecia. Um desses jovens imberbes, de colete muito decotado, a quem o velho príncipe Tcherbatski chamava «peralvilhos», cumprimentou-as, de passagem, enquanto compunha a gravata branca. Mas logo voltou atrás para pedir a Kitty que lhe concedesse a primeira quadrilha. Como já estava comprometida com Vronski, concedeu-lhe a segunda dança. Um militar, que abotoava as luvas junto à porta do salão, afastou-se para deixar passar Kitty e, retorcendo o bigode, pareceu fascinado diante daquela aparição toda vestida de rosa.
Embora o vestido, o penteado e os demais preparativos para o baile lhe tivessem custado muitos esforços, o certo é que Kitty entrava agora no salão de baile tão natural e simples, no seu complicado vestido de tule sobre um forro cor-de-rosa, como se todas aquelas rosinhas e rendas, todos aqueles enfeites não lhe tivessem custado, e aos seus, um minuto de atenção. Dir-se-ia ter nascido assim mesmo, já com aquele vestido de tule e aquele penteado alto coroado por uma rosa com duas folhas.
Quando a princesa mãe, antes de entrar no salão de baile, quis arranjar o cinto da filha, que se engelhara, Kitty afastara-a, relutante, pois sentia que tudo lhe assentava bem e caía com graça, que nada era preciso corrigir.
Realmente, estava num dos seus dias felizes: o vestido não a comprimia, assentava-lhe perfeitamente, nenhum dos adornos se amarrotara ou descosera, os sapatos cor-de-rosa, de salto alto, não apertavam, antes pareciam acariciar-lhe os pèzinhos, os bandos postiços, que lhe enchumaçavam os cabelos louros, não lhe pesavam na cabeça grácil, as luvas de canhão alto, sem uma ruga, moldavam-lhe o antebraço, apertados os seus três botões, sem se esgarçar, e a fitinha de veludo, de que pendia o medalhão, cingia-lhe o pescoço com uma graça sem par. De facto, aquela fita era um encanto, e Kitty, que diante do espelho do quarto já pudera verificar que lhe ficava muitíssimo bem, sorriu-lhe de novo ao
revê-la num dos espelhos da sala de baile Podia ter algum receio quanto ao resto da toilette, mas quanto àquele veludo, não, não tinha nada a dizer. Os ombros e os braços nus davam-lhe a sensação de uma frialdade marmórea, sensação de que particularmente gostava. Os olhos brilhavam-lhe e a certeza de que tinha de estar um encanto confiava-lhe aos lábios um sorriso involuntário.
Um enxame de raparigas, massas de tule, de fitas, de rendas, de flores, aguardava os seus pares, mas Kitty, nem agora nem em outra qualquer noite precisava de se lhes juntar mal entrara na sala, logo fora convidada pelo melhor dos pares, o mestre-de-cerimônia e organizador de bailes, um homem casado, belo, elegante, o Sr. Egoruchka Korsunski.
Acabava de deixar a condessa Banine, com quem abrira o baile, quando, relanceando um olhar aos seus domínios, isto é, a um grupo de pares que valsavam, descobriu Kitty que entrava no salão. Imediatamente se lhe dirigiu, nesse passo desenvolto, característico dos organizadores de bailes, e sem mesmo lhe pedir autorização, passou-lhe o braço pela cintura fina Kitty procurou com os olhos a quem entregar o leque a dona da casa pegou nele, sorrindo.
— Fez muito bem em ter vindo cedo — disse ele, no momento em que a enlaçava —Não compreendo essa mama de chegar tarde.
Kitty pousou a mão esquerda no ombro de Korsunski e os seus pèzinhos, nos sapatos cor-de-rosa, deslizaram, ao compasso da música, pelo soalho encerado.
— É um descanso dançar consigo — disse Korsunski mal deram os primeiros passos lentos da valsa — num encanto de ligeireza, de pré- cisto — acrescentou.
Costumava dizer o mesmo a todas as suas conhecidas. Mas Kitty sorriu ao ouvir o elogio e continuou a olhar para a sala por cima do ombro de Korsunski. Não era nem uma principiante, que confunde o rosto de todos os assistentes na embriaguez das primeiras impressões, nem tão-pouco uma dessas jovens já fartas de bailes a quem todos os rostos conhecidos apenas inspiram tédio. Nem uma coisa nem outra. Por mais excitada que estivesse, nem por isso deixava de se dominar, mantendo íntegra a sua faculdade de observação. Notou, por isso mesmo, que a nata da sociedade se agrupava no ângulo esquerdo da sala. Ali estava a dona da casa e a mulher de Korsunski, a bela Lídia, escandalosamente decotada, Krivne, que privava sempre com a alta-roda, exibia a sua calvície. Os rapazes olhavam de longe aquele grupo sem se atreverem a aproximar-se. E foi ali também que ela descobriu Stiva e depois a deliciosa cabeça de Ana e o seu elegante corpo moldado num vestido de veludo negro «Ele» também lá estava Kitty não o tornara a ver
desde a noite em que recusara a proposta de Levine. Os seus penetrantes olhos reconheceram no de longe, notou mesmo que ele a olhava.
— Quer dar mais uma volta? Não está cansada, pois não? — perguntou Korsunski, ligeiramente sufocado.
— Não, muito obrigada.
— Aonde quer que a acompanhe?
— Está ali a Karenina, parece Leve me até junto dela.
— Com todo o gosto.
E Korsunski, retardando o passo, mas valsando sempre, encaminhou-se para o grupo da esquerdá-la dizendo «Pardon, Mesdames; pardon, pardon, Mesdames», e tão bem a conduzia pelo meio daquela onda de rendas, de tules e de fitas, que nem uma só pluma se lhe prendeu ao vestido. Ao chegar ao seu destino, fez o seu par dar uma brusca pirueta, e a cauda do vestido de Kitty, desdobrando-se como um leque, veio pousar nos joelhos de Krivine, enquanto as delgadas pernas da dançarina, nas suas meias transparentes, se descobriam e mostravam Korsunski fez uma reverência, empertigou-se ligeiro e ofereceu-lhe o braço para conduzi-la até junto de Ana Arkadievna. Kitty, corando, um pouco aturdida, afastou a cauda do vestido dos joelhos de Krivine e volveu os olhos em busca de Ana. Esta não estava vestida de lilás, como tanto teria desejado Kitty. Um toilette de veludo preto, muito decotada, desnudava lhe os ombros esculturais, que lembravam velho marfim, assim como o colo e os braços roliços, de pulsos finos. Rendas de Veneza guarneciam lhe o vestido. Nos cabelos negros, sem postiços, ostentava uma grinalda de amores-perfeitos, combinando com outra que lhe adornava a fita preta do cinto, rematada por rendas brancas Estava penteada com muita simplicidade. Apenas alguns caracóis de cabelo frisado na nuca e nas fontes se lhe eriçavam rebeldes. Em volta do pescoço bem torneado brilhava um fio de pérolas.
Kitty, fascinada, todos os dias, em imaginação, via Ana vestida de lilás. Mas só agora, ao vê-la de preto, percebia que não apreendera todo o seu encanto. Via-a sob um aspecto novo e inesperado. Agora compreendia que o lilás não lhe ficasse bem. O seu grande encanto resultava precisamente desse relevo da sua personalidade. O que vestia passava despercebido Enquanto um vestido lilás a teria exibido, este, ao contrário, não obstante as sumptuosas rendas, era apenas uma moldura discreta que lhe punha em evidência a inata elegância, o encanto, a perfeita naturalidade.
Como sempre, lá estava, erecta, e quando Kitty se aproximou do grupo, ela, de cabeça ligeiramente inclinada, falava com o dono da casa.
— Não, não serei eu quem atire a primeira pedra, embora o não
compreenda — replicava Ana a um argumento daquele, e encolhendo os ombros, logo se dirigiu a Kitty com um meigo sorriso protector. Num rápido olhar, muito feminino, apreciou a maneira como ela estava vestida, esboçando, aprovador, um breve aceno de cabeça, que não escapou a Kitty.
— Parece que entrou na sala a dançar — disse-lhe ela.
— É uma das minhas melhores colaboradoras — observou Korsunski, numa reverência a Ana Arkadievna, que ainda não cumprimentara. — A princesa contribuiu para tornar o baile encantador e alegre. Ana Arkadievna, uma valsa? — disse, numa mesura.
— Ah, conhecem-se? — observou o dono da casa.
— Quem é que nos não conhece, à minha mulher e a mim? Somos o lobo branco. Esta valsa, Ana Arkadievna?
— Nunca danço, sempre que o posso evitar.
— Hoje não pode — teimou Korsunski. Vronski aproximou-se naquele momento.
— Está bem, já que hoje é impossível, dancemos — acedeu Ana Arkadievna, fingindo não ver o cumprimento que Vronski lhe dirigia e colocando, apressadamente, a mão no ombro de Korsunski.
«Por que estará ela enfadada com ele?», pensou Kitty, notando que Ana não respondera, intencionalmente, ao cumprimento de Vronski. Este aproximou-se de Kitty, lembrou-lhe que lhe prometera a primeira quadrilha e que lamentava não ter tido o prazer de a ver antes. Kitty ouvia-o enquanto, embevecida, contemplava Ana, que dançava. Julgara que Vronski a iria convidar para aquela valsa, mas ele não a convidou, e Kitty olhou-o surpreendida. Perturbado, Vronski deu-se pressa em convidá-la, mas quando passava o braço pela cintura da jovem e dava o primeiro passo, a música parou. Kitty fitou-lhe o rosto, que tão próximo estava do seu, e por muito tempo, anos e anos depois, sempre que lembrava o olhar cheio de amor que então lhe dirigira e a que ele não correspondera, atormentava-se envergonhada, — Pardon, pardon! A valsa, valsa — gritou Korsunski do outro extremo do salão.
E enlaçando a primeira senhora que lhe passava perto, principiou a rodopiar.
Vronski e Kitty deram alguns passos de dança. Depois Kitty foi para junto da mãe e mal teve tempo de trocar algumas palavras com a condessa Nordston, pois Vronski veio tirá-la para a primeira quadrilha Enquanto falaram nada disseram de especial, a conversa girou à volta do casal Korsunski, que Vronski descrevia de maneira assai cômica, como se fossem crianças de quarenta anos, e de um espectáculo de amadores em organização. Só uma vez a conversa tocou Kitty vivamente, quando Vronski, lhe perguntou se Uvine estava no baile, acrescentando que minto gostara dele. Aliás, Kitty pouco esperava da quadrilha, toda a sua esperança estava na mazurca. Acreditava que, nessa ocasião, tudo se decidira. Nem sequer se sentiu preocupada com o facto de Vronski não a ter convidado para a mazurca enquanto dançavam a quadrilha. Tinha a certeza de que a convidaria, como nos bailes anteriores, e recusou cinco pares sob o pretexto de estar comprometida. Todo o baile, até à ultima quadrilha, foi para Kitty um sonho encantador, cheio de cores, de sons e de movimentos harmoniosos. Só não dançava quando se sentia muito cansada e pedia que a deixassem descansar. Mas, durante a última quadrilha, que dançara com um rapaz enfadonho, a quem não pudera furtar-se, encontrou-se frente a frente com Vronski e Ana. Não voltara a ver Ana desde o princípio do baile e de novo ela se lhe apresentou sob um aspecto novo e inesperado. Viu em Ana aquela excitação que o êxito dá, tão sua conhecida. Dir-se-ia embriagada pela admiração que despertava em volta de si. Kitty conhecia essa sensação com todos os seus sintomas, e era o que via em Ana: o brilho inflamado dos olhos e o sorriso feliz e animado que, mal-grado ela, lhe assomava aos lábios, bem como a graça, a segurança e a ligeireza dos movimentos.
«Quem será?», perguntou a si própria. «Todos ou um apenas?» E sem prestar atenção ao rapaz com quem rodopiava, que fazia grandes esforços para reatar a conversa interrompida, e obedecendo, automaticamente, aos gritos imperiosos de Korsunski, que a todos ordenava um grand rond, ora a chaîne, Kitty observava-a enquanto o coração se lhe primia. «Não, não é a admiração geral que a embriaga, mas a admiração de um só. Será possível que seja a dele?» De cada vez que Vronski lhe falava, os olhos de Ana brilhavam alegres, e um sorriso de felicidade lhe aflorava aos lábios vermelhos. Dir-se-ia que fazia tudo para não deixar transparecer esses indícios de alegria, que se manifestavam apesar de tudo. «Mas que tem ela?», pensou Kitty, olhando Vronski horrorizada. No rosto dele viu o que tão claramente vira no de Ana. Onde estava a sua atitude, sempre firme e serena, e a sua expressão despreocupada e tranqüila? Agora, de cada vez que se dirigia a Ana,
inclinava ligeiramente a cabeça, como se desejasse cair-lhe aos pés, e no seu olhar tudo era receio e submissão. «Não quero ofendê-la, quereria apenas salvar-me e não sei como», parecia dizer o olhar dele. Kitty nunca vira aquela expressão no rosto de Vronski.
Ana e Vronski falavam das suas relações, a conversa era trivial, mas Kitty persuadia-se de que cada palavra que pronunciavam decidia ao mesmo tempo da sorte deles e da sua própria. E o mais estranho é que, embora na realidade comentassem o ridículo de Ivan Ivanovitch a falar um péssimo francês, e achassem que se poderia ter encontrado melhor partido para a Ieletskaia, de facto, as palavras que diziam tinham outro significado para eles, coisa de que se davam conta com tanta evidência como a própria Kitty. O baile, as luzes, tudo se velou de névoa na alma desta. A única coisa que a amparava era a sua rígida educação, que a forçava a fazer o que convinha, isto é, a dançar, a responder às perguntas que lhe faziam, a falar e até a sorrir. Mas antes de começar a mazurca, já colocadas as cadeiras e um certo número de pares a passar das salas pequenas para o salão, encheu-se de desespero e horror. Recusara cinco pares e ia ficar sem parceiro para a mazurca. Não tinha já esperança de que a convidassem, pois, como era grande o êxito que desfrutava em sociedade, ninguém pensava que naquela altura ainda estivesse sem par. Ver-se-ia obrigada a dizer à mãe que se sentia indisposta e que tinha de voltar para casa, embora lhe faltasse ânimo para isso. Era grande o seu abatimento.
Refugiando-se a um canto de uma das salinhas, deixou-se cair numa poltrona. A vaporosa cauda do vestido, envolvendo-a, parecia uma nuvem; uma das delicadas e finas mãos descaiu-lhe, ocultando-se entre as pregas do vestido; na outra tinha o leque, que de vez em quando agitava em rápidos movimentos diante do rosto arrebatado. No entanto, apesar desse aspecto de mariposa que acaba de pousar na relva, pronta a bater de novo as asas irisadas, uma terrível angústia lhe oprimia o coração.
«Talvez me tenha enganado, talvez não seja nada disso.» E de novo recordou tudo o que vira.
— Kitty, que tens tu? Não percebo nada — disse, entretanto, a condessa Nordston, que se aproximara silenciosamente, os passos abafados pelo tapete.
O lábio inferior de Kitty tremeu e ela ergueu-se precipitadamente.
— Kitty, não danças a mazurca?
— Não — respondeu ela, numa voz em que as lágrimas tremiam.
— Convidou-a para dançar a mazurca diante de mim — disse a condessa, certa de que Kitty saberia a quem ela aludia. — E ela
perguntou-lhe: «Então não a dança com a princesa Tcherbatskaia?»
— Tanto faz! — atalhou Kitty.
Ninguém, a não ser ela própria, podia compreender a situação em que se encontrava: ninguém se não ela sabia que recusara a proposta de um homem a quem talvez amasse, por acreditar noutro.
A condessa Nordston foi em busca de Korsunski, com quem dançaria a mazurca, e pediu-lhe que convidasse Kitty.
Kitty abriu a mazurca com Korsunski, felizmente sem necessidade de falar, uma vez que este ia de um lado ao outro dirigindo os pares. Vronski e Ana estavam sentados mesmo defronte dela. Via-os ora longe ora perto quando os pares se cruzavam, e quanto mais os observava mais se convencia da sua infelicidade. Adivinhava que ambos se sentiam completamente sós no meio do salão. E o rosto de Vronski, sempre tão resoluto e sereno, reflectia agora aquela expressão submissa e atemorizada que tanto a impressionara, fazendo-lhe lembrar a expressão de um cão inteligente quando se sente culpado.
Ana sorria e o seu sorriso comunicava-se a Vronski. Se porventura ficava pensativa, ele punha-se sério. Uma força sobrenatural atraía para Ana os olhos de Kitty. Estava encantadora com o seu vestido negro muito simples; os seus torneados braços, cingidos por pulseiras, eram belos; belo era o seu colo alto, em que avultava o fio de pérolas; encantadores os graciosos e ligeiros movimentos dos seus pèzinhos e das suas mãos; fascinante o seu rosto animado. No seu encanto, porém, havia qualquer coisa de cruel e de terrível.
Kitty olhava-a mais fascinada ainda do que até então e cada vez era maior o seu sofrimento. Sentia-se esmagada, e isso mesmo se lia no seu rosto. Quando Vronski a viu, ao encontrar-se com ela durante a mazurca, não a reconheceu logo, tão mudada estava.
— Que baile magnífico! — disse, para dizer alguma coisa.
— Pois é — respondeu Kitty.
Lá para o meio da mazurca, quando se ensaiava uma complicada figura inventada por Korsunski, Ana teve de colocar-se no centro do círculo e escolher dois cavalheiros e duas senhoras. Uma das senhoras que escolheu foi Kitty. Kitty aproximou-se, olhando-a, receosa. Ana, semicerrando os olhos, fitou-a sorrindo enquanto lhe apertava a mão. Mas ao ver que Kitty lhe respondia com uma expressão de angústia e surpresa, voltou-se e pôs-se a falar alegremente com outra senhora.
«Sim, há nela uma sedução estranha, diabólica», pensou Kitty consigo mesma.