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Ana Karenina
(PRIMEIRA PARTE)

Leon Tolstoi

Ana não queria ficar para a ceia, mas o dono da casa insistiu.

— Fique, Ana Arkadievna — disse Korsunski, puxando-a pelo braço nu — Tenho uma ideia para o cotillon. Un bijou!

E procurava arrastá-la, encorajado pelo sorriso do anfitrião.

— Não, não posso ficar — respondia Ana, sorrindo. No entanto, apesar daquele sorriso, tanto o dono da casa como Korsunski compreenderam, graças ao seu tom decidido, que ela não ficaria.

— Já dancei hoje mais em Moscovo do que durante um ano inteiro em Sampetersburgo. Preciso de descansar antes da viagem — acrescentou, voltando-se para Vronski, que estava junto dela.

— Sempre parte, realmente, amanhã? — perguntou ele.

— Sim, acho quê sim — volveu-lhe Ana, como que surpreendida com o atrevimento da pergunta.

Mas o irresistível brilho dos seus olhos e o sorriso que lhe lançou enquanto lhe dirigia a palavra abrasaram-no.

Ana Arkadievna partiu sem ter querido cear.

CAPÍTULO XXIV

«Sim, em mim há qualquer coisa de desagradável, qualquer coisa que afugenta», pensava Levine ao sair da residência dos Tcherbatski, enquanto se dirigia a pé para casa do irmão. «Não sirvo para conviver com as pessoas. Dizem que é orgulho, mas a verdade é que nem sequer sou orgulhoso. Se o fosse, não estaria na situação em que estou.» E diante de seus olhos aparecia o feliz, o bom, o inteligente Vronski, o qual, com certeza, nunca se vira numa situação assim. «Era naturalíssimo que ela o preferisse. Não podia ser de outra maneira, e não devo queixar-me de nada nem de ninguém. A culpa é minha. Com que direito pensei eu que ela estivesse disposta a unir a sua vida à minha? Quem sou eu? Que sou eu? Um homem inútil, de quem ninguém precisa.» Lembrou-se do irmão Nicolau e essa lembrança consolou-o. «Pois não tem ele razão quando diz que tudo neste mundo é mau e repugnante? Não sei se fomos justos armando-nos em juizes do nosso outro irmão. Naturalmente do ponto de vista de Prokofi, que o vê de pelica rota e bêbedo, é um homem desprezível; mas eu vejo-o de outra maneira. Conheço-lhe a alma e sei que nos parecemos um com o outro. E o certo é que em vez de o ter ido procurar fui jantar e depois apresentei-me ali.» Levine aproximou-se de um lampião, puxou da carteira, leu o

endereço de Nicolau, chamou um carro de praça e deu a direcção ao cocheiro. Durante o longo trajecto foi recordando os episódios que conhecia da vida do irmão. Lembrou-se de que ele, durante os anos dos seus estudos universitários e mesmo até um ano depois de concluído o curso, apesar da troça dos amigos, vivera como um frade, cumprindo rigorosamente os preceitos da religião, assistindo à missa e praticando jejuns, evitando toda a sorte de prazeres e sobretudo mulheres. Depois, mudara de chofre, passando a acompanhar-se de gente da pior espécie e votando-se a uma vida dissoluta. Lembrou-se da história do garoto que trouxera da aldeia para educar e em quem batera tanto num momento de excitação que fora chamado ao tribunal para responder pelos maus tratos que lhe infligira. E também daquele grego a quem dera em pagamento de uma dívida de jogo uma letra de câmbio (a letra que Sérgio Ivanovitch acabava de pagar), denunciando-o depois por crime de estroquerie. De outra vez passara uma noite no comissariado da polícia por desordem na via pública. E ainda intentara um processo contra o irmão Sérgio, a quem acusava de não lhe ter entregue a parte que lhe cabia na herança materna.

A sua última proeza fora quando viajara para a Polônia, em busca de trabalho, e se vira em sérios apuros, chamado ao tribunal, por haver maltratado um magistrado. Evidentemente que tudo isto era odioso mas menos odioso, no entanto, aos olhos de Levine do que aos daqueles que não conheciam nem a vida nem o coração de Nicolau.

Levine recordou que na época em que Nicolau procurara na religião e nas suas práticas mais austeras um freio, um dique a opor à sua natureza apaixonada, ninguém o amparara, pelo contrário, todos, e ele em primeiro lugar, o tinham ridicularizado, chamando-o de eremita e beato. Quando Nicolau mudou, e o dique se rompeu, todos, em vez de o ampararem, se afastaram dele, desgostosos e horrorizados.

Levine dava conta de que no seu íntimo, no mais fundo da sua alma, apesar da vida depravada que levava, ele, o irmão, não era mais culpado do que os que o desprezavam. Não tinha culpa de ter nascido com aquele carácter indomável e aquela ilimitada inteligência. Sempre desejara ser bom. «Falar-lhe-ei com o coração nas mãos, obriga-lo-ei a fazer o mesmo e provar-lhe-ei que o estimo e portanto que o compreendo», decidiu Levine, falando consigo mesmo, ao chegar ao hotel que o endereço indicava, cerca das onze horas.

— Lá em cima, no e no — respondeu o porteiro, em resposta à pergunta de Levine.

— Está em casa?

— Creio que sim.

A porta do nº estava entreaberta e do quarto desprendia-se um

fumo espesso de tabaco ordinário. Levine ouviu, primeiro, uma voz desconhecida, e em seguida a conhecida tossezinha do irmão.

Quando entrou, numa espécie de vestíbulo, a voz desconhecida dizia:

— Tudo depende da habilidade e da prudência com que se fazem as coisas...

Levine olhou pela porta entreaberta e viu que quem falava era um rapaz de grande cabeleira que vestia uma podiovka. No divã estava sentada uma mulher nova, picada de bexigas, com um vestido de lã, sem mangas nem gola. Não se via Nicolau. Constantino Levine sentiu oprimir-se-lhe o coração ao ver a espécie de gente com quem o irmão privava. Ninguém dera por ele e Levine ficou a ouvir o que dizia o rapaz de podiovka enquanto descalçava as galochas. Falava de um negócio em projecto.

— Que o diabo as leve, às classes privilegiadas! — disse Nicolau, tossindo. — Macha, pede a ceia e serve-nos vinho, se o há; se não, manda-o vir.

A mulher levantou-se do divã, passou para o outro lado do tabique e viu Constantino.

— Nicolau Dimitrievitch, está aqui um senhor — disse ela.

— Quem procura? — exclamou a voz irritada de Nicolau Levine.

— Sou eu — respondeu Constantino, aproximando-se da luz.

— Eu, quem? — exclamou Nicolau, ainda mais irritado.

Levine ouviu-o levantar-se de chofre, agarrando-se a qualquer coisa, para daí a momentos ver diante dele a alta silhueta descarnada e um pouco corcovada do irmão. Por mais familiar que lhe fosse a figura de Nicolau, o seu aspecto doentio e selvagem não deixou de o assustar.

Ainda estava mais magro que da última vez que o vira, três anos antes. Vestia uma sobrecasaca curta, e os seus braços e os seus ossos salientes ainda pareciam maiores. Tinha os cabelos menos fartos, o bigode que lhe escondia os lábios era ainda o mesmo e a mesma surpreendente ingenuidade se lia no olhar que fixava no recém-chegado.

— Ah! Kóstia! — exclamou, ao reconhecer o irmão, e nos olhos perpassou-lhe um lampejo de alegria.

Ao mesmo tempo, porém, virara-se para o amigo com aquele movimento convulsivo de cabeça e pescoço que Constantino tão bem lhe conhecia, como se a gravata o enforcasse, e uma expressão diferente — selvagem, de sofrimento e crueldade — se reflectiu no seu rosto magro.

— Já lhe mandei dizer, e também ao Sérgio Ivanovitch, que não

quero nada com vocês. Que desejas? Que deseja o senhor?

Não era aquele o homem que Constantino imaginara ir encontrar. Ao pensar nele esquecera o pior e o mais penoso do carácter do irmão, o que tornava tão difícil o trato com ele. E agora, ao ver-lhe o rosto, e sobretudo aquele seu convulsivo movimento de cabeça, tudo lhe vinha à memória.

— Nada quero de ti — respondeu, com uma certa timidez. — Vim apenas para te ver.

A timidez de Constantino pareceu acalmar Nicolau. Contraiu os lábios.

— Ah, vens por desfastio? — disse ele. — Bom, entra, senta-te.

Queres cear? Macha, traz três rações. Não, espera. Sabes quem é? — perguntou ao irmão, apontando para o rapaz da podiovka. — O Senhor Kritski, um amigo meu ainda do tempo de Kiev, um homem notável. Como é natural, anda perseguido pela polícia, pois não é um canalha. — E, segundo seu velho costume, relanceou os olhos por todos os que o rodeavam. Ao ver que a mulher, ainda junto à porta, se dispunha a sair, gritou-lhe: — Disse-te que esperasses!

E com aquela indecisão e aquela falta de eloqüência que Constantino tão bem lhe conhecia, pôs-se a contar ao irmão, depois de perpassar de novo a vista por todos, a história de Kritski: que fora expulso da Universidade por ter criado uma sociedade de auxílio aos estudantes pobres e às escolas dominicais, que se fizera professor de uma escola pública e também fora expulso dali, e que depois disso lhe haviam instaurado um processo.

— Estudou na Universidade de Kiev? — inquiriu Levine de Kritski, para interromper o silêncio desagradável que se formara no quarto.

— Sim, em Kiev — murmurou este, franzindo as sobrancelhas, numa expressão de enfado.

— E esta mulher, Maria Nikolaievna, é a companheira da minha vida — interrompeu Nicolau Levine, apontando Macha. — Tirei-a de uma casa... — ao dizer isto agitou convulsivamente o pescoço. — Mas quero-lhe e respeito-a e peço a todos que queiram entender-se comigo que lhe queiram e a respeitem. — É como se fosse minha mulher, tal qual como se o fosse. Bom, agora já sabes com quem estás a falar. Se achas que isso te rebaixa, a porta está ali, vai-te com Deus.

De novo percorreu os olhos pelos circunstantes, numa expressão interrogativa.

— Não sei por que havia de me rebaixar.

— Então, Macha, encomenda a ceia: que tragam três rações, vodka e vinho. Não, espera... Não, está bem... Raspa-te!

CAPÍTULO XXV

— Já vês — continuou Nicolau Levine, fazendo uma careta e enrugando a testa, pois não sabia lá muito bem que dizer ou que fazer —, como vês...

Apontou para um recanto do quarto onde estavam umas barras de ferro amarradas com cordas.

— Estás a ver aquilo? — conseguiu dizer, finalmente. — É o começo de uma nova obra a que nos vamos consagrar. Trata-se de uma cooperativa operária de produção...

Constantino quase não lhe prestava ouvidos. Observava-lhe o rosto de tuberculoso e cada vez era maior a compaixão que lhe inspirava. Não conseguia prestar atenção ao que ele dizia. Compreendia que aquela cooperativa era para ele apenas uma tábua de salvação: a forma de não se desprezar a si próprio por completo. Deixava-o, pois, perorar.

— Bem sabes que o capital oprime o trabalhador. Entre nós, os operários e os camponeses suportam todo o peso do trabalho, e as coisas estão feitas de tal maneira que por mais que trabalhem não conseguem passar de bestas de carga. Todos os benefícios, tudo o que permita ao trabalhador melhorar a sua condição, ter descanso e, por conseguinte, tempo para instruir-se, todos esses benefícios os capitalistas lhes roubam.

A sociedade está organizada de tal maneira que quanto mais os operários trabalharem tanto mais amealharão os comerciantes e os donos da terra, continuarão aqueles a ser bestas de carga. É preciso modificar esta ordem de coisas — concluiu, olhando interrogativamente para o irmão.

— Claro, é natural — corroborou Constantino, notando a cor que aparecera nas maçãs salientes do rosto de Nicolau.

— Estamos a organizar uma cooperativa de serralheiros em que tudo será em comum: trabalho, lucros e até as principais ferramentas.

— Onde instalarão a cooperativa? — perguntou Levine.

— Na aldeia de Vozdrema, na província de Kazan.

— Por quê numa aldeia? Em geral nas aldeias não falta trabalho. Para que quererão ali uma cooperativa de serralheiros?

— Porque o camponês contínua escravo como antes e o que vos desagrada, tanto ao Sérgio como a ti, é que o vão tirar dessa escravidão— replicou Nicolau, irritado com a interrupção.

Constantino suspirou enquanto examinava o quarto sujo e lúgubre. E aquele suspiro ainda pareceu irritar mais Nicolau.

— Conheço muitíssimo bem os pontos de vista aristocráticos de Sérgio Ivanovitch e os teus. Sei que ele põe em prática todo o vigor da sua inteligência para justificar o mal existente.

— Nada disso; mas para que é o Sérgio chamado aqui? — perguntou Levine, sorrindo.

— Por que chamo aqui o Sérgio Ivanovitch? Pois vou já dizer-te, vou já dizer-te! — vociferou Nicolau exasperado, ao ouvir o nome do irmão. — Mas, o que adianta discutir? Diz-me só uma coisa... Que vieste fazer? A nossa empresa não te merece senão desprezo, não é verdade? Está bem, mas então vai-te com Deus! Vai-te! Vai-te! — gritou, levantando-se. — Vai-te! Vai-te! — Não a desprezo, nem sequer a estou a discutir — disse Constantino, timidamente.

Naquele momento entrava Maria Nikolaievna. Nicolau voltou-se para ela, irritado. Maria aproximou-se dele e disse-lhe qualquer coisa precipitadamente.

— Estou doente, tudo me irrita — murmurou Nicolau Levine, serenando e respirando penosamente. — E vens tu falar-me do Sérgio Ivanovitch e do artigo dele. É um absurdo, um embuste, a maneira de uma pessoa se enganar a si própria. Que há-de dizer da justiça um homem que não conhece a justiça? Leu o artigo dele? — perguntou a Kristki, enquanto voltava a sentar-se e se punha a juntar a um lado o monte de cigarros espalhados na mesa.

— Não — replicou Kritski, com uma expressão taciturna, como se não quisesse tomar parte na conversa.

— Por quê? — perguntou Nicolau Levine, exasperado desta vez com Kritski.

— Eu acho que não vale a pena perder tempo com essas coisas.

— Perdão, como sabe que é perder tempo? Esse artigo está para além da compreensão de muitos. Quanto a mim, é diferente. Eu conheço o fundo das suas ideias, conheço-lhe os pontos fracos.

Todos se calaram. Kritski levantou-se vagarosamente e pegou no chapéu.

— Não quer cear? Bom, então passe muito bem. Volte amanhã

com o serralheiro.

Depois de Kritski sair, Nicolau Levine sorriu, piscando o olho.

— Este também não vale grande coisa. Vejo que... Naquele momento Kritski chamou-o da porta.

— Que é que há — perguntou Nicolau, que saiu ao patamar da escada.

Ao ficar sozinho com Maria Nikolaievna, Levine perguntou-lhe:

— Vive há muito tempo com meu irmão?

— Vai para dois anos. Piorou muito de saúde. Bebe de mais.

— Que me diz?

— Sim, bebe muita vodka, e isso faz-lhe muito mal.

— Será possível?

— Bebe — respondeu Macha.

E olhou receosa para a porta, onde nessa ocasião assomava Nicolau Levine.

— De que falavam? — perguntou ele, franzindo o sobrolho, enquanto olhava ora para um ora para outro, com olhos assustados. — De quê? — De nada — replicou Levine, um pouco confuso.

— Se não queres dizer, não digas. Mas não tens nada que falar com ela. Ela é uma prostituta e tu és um cavalheiro — exclamou, com um movimento convulsivo do pescoço. — Estou vendo que percebeste tudo e que estás a mostrar compaixão para com os meus desvaira-mentos — acrescentou, alteando a voz.

— Nicolau Dimitrievitch, Nicolau Dimitrievitch — murmurou Maria Nikolaievna, aproximando-se dele.

— Bom, bom!... E a ceia? Ah! Lá vem ela — acrescentou, ao ver o criado com a bandeja. — Aqui, aqui, ponha aqui — disse, irritado, e imediatamente encheu um copo de vodka, que bebeu de um trago, avidamente. — Queres beber? — perguntou, já mais alegre, ao irmão.— Bom, deixemos o Sérgio Ivanovitch. Seja como for, estou contente por te ver. Por mais que diga, vocês não são uns estranhos para mim. Anda, bebe. Conta-me o que tens feito. Que vida levas? — continuou, enquanto mastigava com avidez um pedaço de pão e enchia outro copo de vodka.

— Vivo só na aldeia, como antigamente, e trato das terras — respondeu Constantino Levine, horrorizado com a maneira ávida como o irmão comia e bebia e procurando fingir que não percebia.

— Por que não te casas?

— Ainda não calhou — replicou Constantino, ruborizando-se.

— Ora. No que me diz respeito, adeus, acabou-se! Dei cabo da vida. Digo e repito: se me têm dado a minha parte quando necessitava dela, toda a minha vida teria sido diferente.

Constantino deu-se pressa em mudar de assunto.

— Sabes que empreguei o teu Vânia em Pokrovskoie como auxiliar de escritório? — disse ele.

— Sim, conta-me o que vai lá por Pokrovskoie. A casa continua de pé, e as nossas bétulas e o nosso quarto de estudo? E o Filipe, o jardineiro, ainda é vivo? Estou a ver o pavilhão e o divã!... Não mudes nada na casa, casa-te depressa e que tudo fique como dantes. Então irei visitar-te, se a tua mulher for uma rapariga às direitas.

— Por que não hás-de vir agora comigo? Entender-nos-íamos tão bem os dois! — Iria, se tivesse a certeza de que não me ia encontrar com o Sérgio Ivanovitch.

— Não te encontrarás com ele. Vivo completamente independente.

— Por mais que digas, tens de escolher entre ele e eu — disse Nicolau, olhando o irmão nos olhos com uma expressão onde havia timidez. Essa timidez comoveu Constantino.

— Se queres que te fale com toda a franqueza, dir-te-ei que nessa vossa disputa não estou nem contigo nem com o Sérgio Ivanovitch. Nenhum de vocês tem razão. Tu não a tens, digamos, na forma e ele no fundo.

— Ah! Compreendeste! Compreendeste! — exclamou Nicolau alegremente.

— Mas, se queres saber, aprecio mais a tua amizade, porque...

— Por quê? Por quê?

Constantino não podia dizer-lhe por que o considerava desgraçado e portanto mais necessitado de carinho. Mas Nicolau compreendeu-o e franzindo as sobrancelhas pôs-se a beber vodka.

— Basta, Nicolau Dimitrievitch! — disse Maria Nikolaievna, estendendo o braço nu e torneado para a garrafa.

— Larga! Deixa-me em paz! Queres apanhar? — gritou Nicolau. Maria Nikolaievna sorriu, entre doce e bondosa, comunicando o seu sorriso a Nicolau, e retirou a garrafa.

— Julgas que não percebe nada? — perguntou ele. — Entende

tudo melhor do que nós. Não é verdade que há nela qualquer coisa de simpático, de agradável? — A senhora não viveu já em Moscovo? — perguntou Constantino, para dizer alguma coisa.

— Não a trates por senhora, isso faz-lhe medo. Nunca ninguém, à excepção do juiz de paz, que a julgou quando quis sair daquela casa de corrupção, a tratou até agora por senhora. Meus Deus, quantas coisas absurdas neste mundo! São um escândalo essas novas instituições, esses juizes de paz, esses zemstvos.

E principiou a contar os seus conflitos com as novas instituições. Constantino Levine escutava-o, e embora fosse da mesma opinião e como tal se tivesse manifestado muitas vezes, agora, ao ouvi-lo dizer a mesma coisa, sentia uma impressão desagradável.

— No outro mundo, havemos de compreender tudo isto — disse-lhe por zombaria.

— No outro mundo? Oh, não gosto do outro mundo! — exclamou, pousando os olhos selvagens e assustados no rosto do irmão. — Tenho vontade de sair de toda a esta porcaria, dizer adeus às nossas misérias e às do próximo, mas tenho medo da morte, tenho um medo horrível da morte. — Teve um arrepio. — Anda, bebe qualquer coisa. Queres champanhe? Ou então vamos dar uma volta. Queres ir ver os zíngaros? Agora gosto muito dos zíngaros e das canções russas.

Entaramelava-se-lhe a língua, passava de um assunto a outro; Constantino, ajudado por Macha, convenceu-o a que não saísse, e deitaram-no completamente embriagado.

Macha prometeu a Levine que lhe escreveria em caso de necessidade e que faria o possível por convencê-lo a ir morar com ele.

CAPÍTULO XXVI

No dia seguinte pela manhã, Constantino Levine saía de Moscovo e chegava a casa ao fim da tarje. Durante o trajecto entabulou conversa com os companheiros, falou de política, de caminhos de ferro, e tal como em Moscovo não tardou a sentir-se submerso no caos das opiniões, descontente consigo próprio e envergonhado sem que soubesse muito bem porquê. Mas quando, à luz indecisa que se derramava das janelas da estação, viu Inácio, o cocheiro estrábico, a gola do cafetã levantada, depois o trenó coberto de peles e os cavalos com os seus arreios bem

tratados, e aquele lhe contou, enquanto ele se instalava, as novidades da aldeia — que chegara um comprador e que a Pava tivera o seu bom sucesso —, Levine sentiu que toda aquela confusão de ideias se esclarecia e que a vergonha e o descontentamento se dissipavam. Entretanto, essa impressão teve-a apenas ao ver Inácio e os cavalos, quando se embrulhou na tulup que o cocheiro tivera o cuidado de lhe trazer e se sentou bem abrigado no trenó, que se pôs a andar, pensou nas ordens que teria de dar logo que chegasse a casa e, examinando um dos cavalos, o seu preferido para montar — um velho cavalo do Don, já gasto, mas ainda veloz — pôs-se a ver de maneira muito diferente o que lhe acontecera. Deixou de querer ser outro que não ele próprio e apenas desejou ser melhor do que fora até ali. Em primeiro lugar, decidiu que daí por diante não poria as suas esperanças numa felicidade extraordinária, como a que esperara do casamento, e que, por conseguinte, não iria menosprezar tanto o momento presente; depois, que nunca mais se deixaria conduzir por uma baixa paixão, como acontecera na véspera de se decidir a declarar-se. E, lembrando-se do irmão, resolveu nunca mais o esquecer nem o perder de vista, para assim poder ajudá-lo sempre que ele precisasse. Pressentia que isso iria acontecer dentro de pouco. Em seguida pensou na conversa que tivera com o irmão sobre o comunismo e que tão superficialmente encarara na oportunidade. Considerava absurda a reforma das condições econômicas, mas sempre se dera conta da injustiça que representava o muito que tinha em comparação com a miséria do povo. Para se sentir completamente justo, apesar de que sempre trabalhara muito, vivendo sem luxo algum, tomou a resolução de trabalhar cada vez mais e de levar uma vida ainda mais simples. Tudo lhe parecia tão fácil de realizar que pensar nisso foi a coisa mais agradável que lhe ocorreu durante o trajecto. Quando chegou a casa, por volta das nove da noite, sentiu que uma vida nova, uma vida mais bela, começava para ele. Uma réstia de luz filtrava-se através das janelas de Agáfia Mikailovna, a sua velha ama, agora governanta da casa. A velha ainda não dormia. Acordou Kuzma, que, estremunhado e descalço, veio até ao alpendre. Também Laska, a cadela, apareceu, e por pouco não derrubava Kuzma, ladrando e esfregando-se nas pernas de Levine, sem ousar pôr-lhe as patas dianteiras no peito.

— Ora ainda bem que voltou tão cedo, paizinho! — exclamou a velha.

— Tinha saudades, Agáfia Mikailovna. Estamos bem em casa dos outros, mas ainda melhor na nossa — respondeu Levine, entrando no escritório.

À luz de uma vela trazida à pressa e que iluminou lentamente a casa, Levine viu surgir, pouco a pouco, da obscuridade os objectos seus

conhecidos: os chifres de veado, as estantes cheias de livros, o espelho, a estufa com o seu ventilador, sempre à espera de conserto, o divã do pai, a mesa grande com um livro aberto em cima, um cinzeiro partido e um caderno com anotações suas. Quando viu tudo aquilo, pareceu-lhe mais difícil a mudança de vida com que sonhara durante a viagem. Todos aqueles vestígios do passado pareciam apoderar-se dele, dizendo: «Não, não nos abandonarás, não hás-de ser outro, continuarás o que sempre foste: com as tuas dúvidas, o teu perpétuo descontentamento contigo mesmo, as tuas baldadas tentativas de aperfeiçoamento, as tuas crises, a tua sempre renovada esperança de uma felicidade que não consegues e que não foi feita para ti.» Era o que diziam as coisas que o rodeavam; mas outra voz falava do fundo da sua alma e essa dizia-lhe que não se submetesse ao passado, que cada um pode fazer de si próprio o que quiser. Obedecendo àquela voz, Levine aproximou-se de um recanto, onde tinha dois pesos de um pua cada um, e principiou a fazer com eles alguns exercícios na intenção de se animar. Entretanto ouviram-se uns passos atrás da porta e Levine largou precipitadamente os pesos. Era o administrador. Declarou que graças a Deus tudo ia bem, a não ser o trigo-negro, que se queimara um pouco na nova secadora. A notícia irritou Levine. A nova secadora fora construída e em parte inventada por ele. O administrador mostrara-se sempre hostil a essa máquina e agora vinha anunciar-lhe aquele malogro com um triunfo dissimulado. Levine estava convencido de que aquilo acontecera por não se terem tomado as precauções que ele mil vezes recomendara. Zangado, repreendeu o administrador. Mas logo lhe passou a má disposição quando lhe anunciaram um acontecimento importante e agradável: Pava, a melhor vaca, adquirida numa exposição, tivera o seu bom-sucesso.

— Kuzma, dá-me o tulup. E você — disse ele ao administrador — mande acender uma candeia: vou ver a Pava.

O estábulo das vacas seleccionadas ficava mesmo por detrás da casa. Levine contornou o monte de neve acumulada sobre o maciço dos lilases, aproximou-se do estábulo e abriu a porta, em parte gelada nos gonzos. Lá de dentro saiu um quente cheiro de estrume; as vacas, surpreendidas pela luz da candeia, revolveram-se na sua cama de palha fresca. O amplo lombo preto e branco da vaca holandesa avultou na penumbra. Berkut, o touro, deitado, com um anilho nas narinas, fez menção de se levantar, depois, mudando de ideia, limitou-se a mugir quando passaram junto dele. A magnífica Pava, imensa como um hipopótamo, deitada de costas, não permitia que os recém-chegados vissem a bezerrinha, que arfava.

Levine aproximou-se dela, examinou-a e ergueu a bezerra, malhada de branco e vermelho, sobre as suas longas pernas vacilantes. A

vaca mugiu, inquieta, mas assim que Levine aproximou dela a cria, sossegou, e, depois de beijá-la como se suspirasse, pôs-se a lambê-la com a língua, áspera. A bezerra procurava-lhe os úberes, metendo a cabeça nos flancos da mãe, enquanto meneava a cauda.

— Alumia aqui, Fiador. Aproxima a candeia — disse Levine, examinando a cria. — Parece-se com a mãe, mas no pêlo faz lembrar o pai! É bonita! E que grande, que forte! Não é bonita, Vacili Fiodorovitch? — exclamou, voltando-se para o administrador, reconciliado com ele, graças à alegria que lhe causava a bezerrinha.

— Pois como não havia ela de ser bonita, Constantino Dimitrievitch! A propósito, no dia seguinte ao da sua partida, apareceu aí o Semionov, o comerciante. Temos que regatear muito com ele. Bom, já lhe disse o que se passou com a máquina.

Esta simples frase fez reentrar Levine de novo nos pormenores da herdade, que era grande e complicada. Do estábulo dirigiu-se directamente ao escritório, e depois de falar com o administrador e com o comerciante Semionov voltou para casa e subiu ao salão.

CAPÍTULO XXVII

A casa era grande e antiga, e ainda que Levine vivesse só, ocupava-a inteiramente e aquecia-a de ponta a ponta. Sabia que aquela vida era absurda, contrária aos seus novos planos e, inclusive, que não estava certa, mas aquela casa representava todo um mundo para ele: o mundo onde tinham vivido e morrido os pais. Ali haviam levado uma existência que se lhe afigurava ideal e era com isso mesmo que ele sonhava: voltar a viver com a mulher essa mesma vida ideal.

Embora mal se lembrasse da mãe, Levine mantinha um verdadeiro culto da sua memória e parecia-lhe impossível desposar uma mulher que não fosse a encarnação desse ideal adorado. Não concebia o amor fora do casamento; mais, era na família que ele pensava em primeiro lugar e só depois na mulher que lhe daria essa família. Ao contrário de todos os seus amigos, que apenas viam no casamento mais uma das manifestações da vida social, ele considerava-o o principal acto da existência, aquele de que dependia toda a felicidade do homem. E agora via-se obrigado a renunciar a ele.

Penetrou no salãozinho onde lhe costumavam servir o chá, pegou num livro, sentou-se na sua poltrona, e, enquanto Agáfia Mikailovna lhe trazia uma chávena de chá e se retirava para o vão da janela, declarando,

como de costume: «Vou sentar-me, paizinho», com grande surpresa sua, Levine reconheceu que não renunciara às suas ilusões e que não podia viver sem elas.

«Com ela ou com outra, pouco importa», disse consigo, «mas tem de ser.» Por mais que tentasse ler ou que se esforçasse por prestar atenção à tagarelice de Agáfia Mikailovna, em imaginação iam-lhe perpassando, desordenadamente, várias cenas da sua futura vida de família. E compreendeu que uma ideia fixa se instalara de vez nos recessos da sua alma. Agáfia Mikailovna contava-lhe que, sucumbindo à tentação, Prochor, a quem Levine confiara uma certa importância para a compra de um cavalo, se pusera a beber e a espancar a mulher, que ficara meia morta. Enquanto a ouvia, Levine lia o livro e pouco a pouco reencontrava o fio das ideias que aquela obra outrora despertara nele. Era o tratado de Tyndall sobre o calor. Lembrava-se de ter censurado ao autor a sua suficiência, quando falava das próprias experiências com grande vanglória e inteiramente desprovido de pontos de vista filosóficos. De súbito, um alegre pensamento lhe ocorreu: «Dentro de dois anos terei duas holandesas, talvez a Pana ainda seja viva, e se juntarmos às doze crias de Berkut essas três, será uma beleza!» Voltou à leitura: «Bom, admitamos que a electricidade e o calor são o mesmo e único fenômeno; mas, na equação que serve para resolver o problema, poderemos nós empregar as mesmas unidades? Não. E então? A relação existente entre todas as forças da natureza nota-se por instinto... Que linda manada quando a filha de Pava se tiver transformado numa bela vaca vermelha e branca e lhe tenhamos juntado as três holandesas!... Magnífico! Quando nós sairmos com os convidados, minha mulher e eu, para ver as vacas... Minha mulher dirá: «Kóstia e eu criámos este bezerro como se fosse uma criança.» «Como pode interessar-se por estas coisas?», perguntará um dos convidados. «Tudo o que interessa a meu marido me interessa também.» «Mas quem será ela?» E lembrou-se do que acontecera em Moscovo.

«Que havemos de fazer?... A culpa não é minha... Agora tudo caminhará de maneira diferente. É absurdo não aceitarmos a vida como ela é, deixarmo-nos dominar pelo passado. Há que lutar para viver melhor, muito melhor.» Levine levantou a cabeça das páginas do livro e ficou a pensar, perdido nas suas reflexões. Entretanto a velha Laska — que ainda não perdera a alegria que lhe causara a chegada do dono, que ia ladrar lá fora por tudo e por nada, voltou à sala meneando o rabo, impregnada do ar fresco da noite. Aproximou-se de Levine, meteu-lhe a cabeça debaixo da mão e principiou a latir, queixosa, como que exigindo que ele a acariciasse.

— Só lhe falta falar — disse Agáfia Mikailovna. — Sendo uma cadela... compreende que o dono voltou para casa e que está triste.

— Por quê?

— Julga que eu não vejo? Vivo com os meus amos desde rapariga, já tenho tempo de os conhecer. Criei-me com eles. Mas não se atormente, paizinho. Desde que haja saúde e que a consciência esteja tranqüila.

Surpreendido de vê-la adivinhar-lhe os pensamentos, Levine olhou-a atentamente.

— Quer mais um pouco de chá?—perguntou a velha, e saiu levando a chávena.

Laska continuava a meter a cabeça por debaixo da mão de Levine. Este acariciou-a, e a cadela, enroscando-se-lhe aos pés, apoiou o focinho na pata traseira, que estendera para a frente. E como que a demonstrar que tudo agora estava bem, entreabriu a boca, remexeu o focinho, ajeitou em volta dos lábios pegajosos os velhos dentes e adormeceu numa paz beatífica. Levine, que observara atentamente todos estes movimentos da cadela, disse consigo mesmo: «Façamos o mesmo. Não vale a pena atormentarmo-nos. Tudo se arranjará.»

CAPÍTULO XXVIII

Na manha seguinte ao baile, Ana Arkadievna telegrafou ao marido anunciando-lhe que partiria de Moscovo naquele mesmo dia.

— Tenho de ir, tenho de ir — dizia, explicando à cunhada, num tom peremptório, como se lhe ocorresse de repente que tinha muitas coisas inadiáveis a fazer. — Não. É melhor que seja hoje mesmo.

Stepane Arkadievitch não jantou em casa, mas prometeu estar de volta às sete para acompanhar a irmã.

Kitty também não apareceu, e mandou um bilhetinho desculpando-se. Dolly e Ana jantaram as duas sozinhas com a inglesa e as crianças. Entretanto, ou pela inconstância própria da idade ou adivinhando que Ana já não era a mesma pessoa do dia em que a ela se tinham afeiçoado, e que pouca atenção lhes prestava agora, as crianças perderam de súbito toda a amizade pela tia, já não queriam brincar com ela nem tinham pena que se fosse embora. Toda a manhã Ana estivera ocupada com os preparativos da viagem: escreveu alguns bilhetes de despedida, fez as suas contas e arrumou as malas. Parecia a Dolly que Ana não estava tranqüila ou que se encontrava num estado de preocupação que ela própria conhecia, e que raras vezes se produz sem motivo e na maior parte dos casos esconde um verdadeiro

descontentamento íntimo. No fim do jantar, Ana foi vestir-se nos seus aposentos e Dolly seguiu atrás dela.

— Que estranha estás hoje! — disse-lhe.

— Eu? Achas? Não estou estranha, mas triste. Acontece-me isto às vezes. Tenho vontade de chorar. É uma tolice, daqui a pouco estou boa — replicou Ana, rapidamente, escondendo o rosto afogueado com o saquinho onde guardava os lenços e a touca de dormir. Tinha um brilho especial nos olhos, que a cada momento se enchiam de lágrimas.

— Não tinha vontade de sair de Sampetersburgo, e agora, pelo contrário, não tenho vontade de me ir embora daqui.

— Uma boa inspiração te trouxe —disse Dolly, examinando-a atentamente.

— Não digas isso, Dolly. Nada fiz e nada podia fazer. Por vezes pergunto a mim mesma por que hão-de as pessoas estar assim todas de acordo para me tecerem elogios. Que fiz eu e que podia fazer? No teu coração é que havia amor bastante para perdoares...

— Só Deus sabe o que teria acontecido se não tens aparecido! Que feliz tu és, Ana! Na tua alma tudo é claro e puro.

— Todos temos os nossos skeletons na alma, como dizem os Ingleses...

— Que skeletons tens tu? Em ti tudo é tão claro!

— Tenho-os—disse Ana, repentinamente, e um inesperado sorriso, malicioso e zombeteiro, lhe assomou aos lábios através das lágrimas.

— Pelo que vejo, o teu skeleton deve ser divertido e não triste — observou Dolly, sorrindo.

— Não; é triste. Sabes por que me vou embora hoje em vez de ir amanhã? Estava atormentada com isto, mas quero confessar-te a verdade — volveu Ana, reclinando-se numa poltrona, em atitude decidida, enquanto cravava os olhos nos de Dolly.

E com grande surpresa, Dolly viu que Ana rosara-se até às orelhas, até à própria raiz dos seus ondulados cabelos negros.

— Sabes por que é que Kitty não veio jantar hoje em tua casa? — prosseguiu Ana.—Tem ciúmes de mim. Estraguei-lhe a felicidade... Por minha causa o baile tornou-se para ela um tormento em vez de uma alegria, quando a verdade é que não tenho culpa ou tenho muito pouca culpa no que aconteceu — disse, arrastando em voz débil a expressão «muito pouca».

Esqueletos, mas figurativamente, «segredo».

— Oh! Disseste isso de maneira tão parecida à maneira de falar do Stiva — observou Dolly, sorrindo.

— Oh, não! Oh, não! Não sou como o Stiva — exclamou, franzindo as sobrancelhas. — Conto-te isto porque não me permito duvidar de mim mesma um instante que seja.

Mas no momento de pronunciar estas palavras, Ana deu conta de que não correspondiam à verdade: não só duvidava de si mesma como pensar em Vronski a perturbava e apenas antecipara a partida com o único objectivo de o não tornar a ver.

— Sim, o Stiva contou-me que dançaste a mazurca com Vronski e que ele...

— Não podes calcular a graça que as coisas tomaram. Propunha-me armar em casamenteira, e resultou o contrário. Talvez contra minha vontade...

Corando, calou-se.

— Oh, os homens sentem isso imediatamente! — exclamou Dolly.

— Ficaria muito pesarosa se ele tivesse tomado as coisas a sério — interrompeu-a Ana. — Mas tenho a certeza de que tudo esquecerá e que Kitty deixará de me odiar.

— Por outro lado, Ana, para te falar a verdade, não tinha grande desejo que Kitty casasse com ele. Acho melhor que este casamento se desfaça, uma vez que Vronski pôde enamorar-se de ti tão depressa.

— Oh, meu Deus, seria absurdo! — exclamou Ana, e de novo ficou toda corada, tão grande a satisfação que a percorreu ao ouvir pronunciar em voz alta o pensamento que o preocupava. — E aqui me tens que me vou embora depois de ter feito da Kitty uma inimiga, a Kitty de quem tanto gostava. É tão simpática! Mas tu arranjarás tudo, não é verdade, Dolly?

Dolly a muito custo reteve um sorriso. Gostava de Ana, mas não lhe desagradava a ideia de que também ela tinha as suas fraquezas.

— Uma inimiga? Isso não pode ser.

— Gostaria muito que todos me quisessem como eu lhe quero a ela. E agora ainda vos quero mais do que antigamente — disse Ana, com as lágrimas nos olhos. — Ah, que tola eu estou hoje!

Passou o lencinho pelos olhos e principiou a vestir-se.

Precisamente na ocasião em que ia partir, chegava Stepane Arkadievitch, que vinha atrasado, cheirando a vinho e a tabaco e muito corado e alegre.

A comoção de Ana apoderara-se de Dolly, e quando abraçou a cunhada pela última vez, murmurou: — Lembra-te, Ana, de que nunca esquecerei o que fizeste por mim.

E quero que saibas que sempre te quis e sempre te hei-de considerar a minha melhor amiga! — Não compreendo por quê — replicou Ana, beijando-a e escondendo as lágrimas.

— Compreendeste-me e ainda me compreendes. Adeus, minha querida!

CAPÍTULO XXIX

«Graças a Deus, tudo acabou!», foi o primeiro pensamento de Ana Arkadievna ao despedir-se pela última vez do irmão, que permaneceu na plataforma, impedindo a entrada do vagão, até a sineta tocar o terceiro sinal. Ana sentou-se no seu lugar, ao lado de Anuchka, examinando tudo à sua volta, na semipenumbra do compartimento. «Graças a Deus, amanhã verei o meu Seriocha e Alexei Alexandrovitch e retomarei a minha vida agradável.» Sentindo a mesma preocupação que a tomara todo o dia, mas com certo prazer, começou a instalar-se para a viagem; abriu, com as suas mãos ágeis, o saquinho vermelho, retirou dele uma almofada, que colocou em cima dos joelhos, e embrulhou as pernas na manta de viagem, sentando-se com toda a comodidade. Uma senhora doente dispôs-se a deitar-se desde logo. Outras duas puseram-se a conversar com ela e uma dama gorda queixava-se do mau aquecimento enquanto embrulhava as pernas. Ana respondeu com algumas palavras a perguntas que elas lhes dirigiam, mas ao ver que a conversa era destituída de interesse, pediu a Anuchka a lanterninha, que prendeu no braço do assento, e tirou da maleta um romance inglês e uma espátula de cortar papel. De princípio não pôde ler. O ir e vir das pessoas incomodava-a, e quando o comboio se pôs em andamento foi-lhe impossível não prestar atenção aos ruídos dos vagões. Mas daí a pouco distraía-se com a nevasca que caía, açoitando a vidraça da portinhola esquerda, com o condutor que passava, muito agasalhado e coberto de neve, e os comentários a respeito da tempestade que se desencadeava. Mais adiante tudo se repetia, o trepidar da composição, a neve na vidraça, as bruscas mudanças de temperatura, do calor para o frio e do frio para o calor, as mesmas caras na obscuridade e as mesmas vozes. Contudo conseguira principiar a ler e a compreender o

que lia. Anuchka já dormitava, segurando entre as mãos enluvadas — uma das luvas estava rota — o saquinho vermelho em cima dos joelhos. Ana Arkadievna lia e compreendia o que lia, mas o desejo que ela própria tinha de viver era grande de mais para se interessar pela vida dos outros.

Se a heroína do romance tratava um doente, Ana tinha desejos de andar em passos leves pelo quarto do enfermo; se um membro do Parlamento pronunciava um discurso, ela própria desejaria tê-lo pronunciado, se lady Mary cavalgava atrás da sua matilha, irritando a nora e a todos assombrando com a sua audácia, Ana ambicionava ser ela própria a galopar. Mas nada tinha que fazer! E lá ia revolvendo nas mãos a espátula de cortar papel e prosseguindo na leitura.

O herói do romance estava já a dois passos de conseguir o que constitui a felicidade inglesa: o título de barão e uma terra, onde ela teria gostado de o acompanhar, quando, de repente, se lhe afigurou que o dito herói devia sentir vergonha e que essa vergonha a atingia também. Mas por quê vergonha? «De que me envergonho eu?», perguntou a si mesma assombrada e sentida. Abandonou o livro e recostou-se no assento, apertando a espátula entre os dedos. Que fizera ela? As suas recordações de Moscovo perpassaram-lhe diante dos olhos: eram todas excelentes.

Lembrou-se do baile, de Vronski, com o seu rosto transido de enamorado, a atitude que ela mantivera para com ele: nada disso a podia envergonhar. Mas ao mesmo tempo, precisamente neste ponto das suas recordações, a vergonha aumentou, como se uma voz interior lhe dissesse enquanto pensava em Vronski: «Foi-te agradável, foi-te muito agradável!» «Sim, e depois», perguntou a si mesma, resoluta, agitando-se no assento. «Que tem isso? Terei medo de enfrentar esta recordação? Que houve, afinal? Existe, poderá existir alguma relação, além das simples relações mundanas, entre mim e aquele militarzinho?» Sorriu, desdenhosa, e voltou a pegar no livro; era-lhe, porém, completamente impossível compreender o que lia. Passou a espátula pela vidraça coberta de gelo, depois perpassou pelo rosto a superfície fria e lisa, e, cedendo a um súbito acesso de alegria, desatou a rir quase ruidosamente. Notou que os nervos se punham cada vez mais tensos, que os olhos se lhe abriam desmesuradamente; as mãos e os pés crispavam-se; qualquer coisa a sufocava. E naquela penumbra vacilante os sons e as imagens impunham- se-lhe com uma estranha intensidade. A cada momento perguntava a si mesma se o comboio avançava, recuava ou permanecia no mesmo lugar. Era Anuchka realmente ou seria uma estranha aquela mulher ali sentada a seu lado? «Que está suspenso daquele cabide? Uma pelica ou um animal? Sou eu realmente quem está sentada nesta almofada? Serei eu ou outra mulher?» Receava abandonar-se a semelhante estado de inconsciência. Mas algo a arrastava para ele, embora se lhe pudesse ou não entregar consoante a sua vontade. Ergueu-se, sentindo-se ainda

incapaz de resistência, jogou a manta, tirou a capa. Momentaneamente voltou a si, compreendendo que o homem magro com um grande capote a que faltava um botão era o encarregado do aquecimento que viera verificar o termômetro e que o vento e a neve tinham entrado atrás dele pela porta do compartimento. Depois, porém, tudo se confundiu outra vez... O homem alto pôs-se a raspar qualquer coisa na parede do carro; a senhora idosa estendeu as pernas, levantando uma nuvem de pó negro; ouviu um ranger, um martelar medonho, como se estivessem a torturar alguém; uma luz vermelha cegou-a, depois a escuridão tudo invadiu. Ana julgou que se despenhava de um precipício. As sensações que experimentava eram, aliás, mais alegres que terríveis. A voz de um homem todo enroupado e coberto de neve gritou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Recuperou os sentidos, compreendeu que se aproximavam de uma estação. O homem era o condutor. Imediatamente pediu à criada que a acompanhava o xale e a capa, agasalhou-se e dirigiu-se para a porta.

— A senhora quer sair? — perguntou Anuchka.

— Quero, preciso de respirar; aqui sufoca-se.

Ana tentou abrir a portinhola. O vento e a neve fizeram-lhe frente. Era divertido. Por fim, tendo conseguido abri-la, saiu. Dir-se-ia que o vento a esperava: ululava, querendo arrastá-la, mas Ana agarrou-se com uma das mãos ao varão da portinhola e erguendo a saia com a outra pôs os pés na plataforma. Abrigada pela composição, respirou com verdadeira satisfação o ar glacial daquela noite de tempestade. De pé, junto da portinhola, olhava a gare e as luzes da estação.

CAPÍTULO XXX

Desencadeara-se uma terrível tempestade de neve e o vento sibilava por entre as rodas do comboio e os postes próximos da estação. As carruagens, os postes, as pessoas, tudo ficava coberto de neve, que aumentava constantemente. Após uma curta acalmia, a tempestade redobrou de intensidade e tão violentamente que parecia nada poder resistir-lhe. Entretanto a porta da estação abria-se e fechava-se continuamente para dar passagem a pessoas que corriam de um lado para o outro ou ficavam a conversar alegremente na plataforma, cujas pranchas rangiam debaixo dos pés. A sombra de um homem curvado pareceu sair de sob a terra junto do local onde Ana se encontrava; ouviu o retinir de um martelo num pedaço de ferro e em seguida, do lado oposto, uma voz irritada, que saía das trevas, e vociferava: «Mande um

telegrama!», dizia, e outras vozes gritavam: «Por aqui, se faz favor! O nº !» Ana viu passar diante de si vultos cobertos de neve, atrás dos quais dois senhores caminhavam fumando tranqüilamente. Ana respirou outra vez a plenos pulmões o ar frio, e, já com a mão na portinhola do compartimento, de novo se preparava para embarcar quando um homem de capote militar se aproximou, ocultando a luz do farol. Ana observou-o e reconheceu Vronski. Este levou a mão ao barrete, inclinou-se e perguntou se lhe podia ser útil em alguma coisa. Ana olhou-o um momento sem responder. Embora ele estivesse de costas para a luz, julgou ver-lhe nos olhos e na fisionomia a expressão de respeitoso entusiasmo que tanto a impressionara na véspera. Acabava de dizer para si mesma, depois de o repetir tantas e tantas vezes naqueles últimos dias, que Vronski, para ela, era um rapaz como outro qualquer que encontrava por todos os lados na sociedade, e em quem nunca se permitiria pensar, e eis que, de repente, ao vê-lo, se apoderavam dela a alegria e o orgulho. Não precisava de lhe perguntar por que estava ali. Estava ali, sabia-o com toda a certeza, como se ele lho tivesse dito, evidentemente para se encontrar com ela.

— Não sabia que tinha de ir a Sampetersburgo! Que vai fazer lá? — perguntou Ana, deixando descair a mão, que se firmara já no varão da portinhola.

A animação e a alegria, uma animação e uma alegria indizíveis, resplandeciam-lhe no rosto.

— Que vou fazer lá — repetiu Vronski, fitando-a nos olhos. — Bem sabe que vou para estar junto de si. Não posso fazer outra coisa.

Naquele instante o vento, como se tivesse acabado de derrubar todos os obstáculos, arrancou a neve do tecto das carruagens, agitou no ar uma prancha metálica que arrancara de qualquer parte, e, lá mais para diante, ressoou, triste e lúgubre, o estridente silvo da locomotiva. Todo o horror da tormenta se lhe afigurou ainda mais grandioso. Vronski dissera precisamente o que Ana no fundo da sua alma desejava que ele dissesse, embora a sua razão receasse ouvi-lo. E não respondeu. Ele viu que na expressão dela se traduzia um sentimento de luta.

— Perdoe-me, se o que acabo de dizer lhe desagrada — pronunciou humildemente.

Falava com respeito e cortesia, mas com tanta firmeza e decisão que Ana se viu impossibilitada de lhe responder logo.

— Isso não está certo, e peco-lhe, se é homem de bons sentimentos, que esqueça o que disse; eu farei o mesmo — pronunciou, finalmente.

— Não esquecerei, nem poderei esquecer nunca uma só palavra, um só gesto seu.

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