— Basta! Basta! — exclamou Ana, procurando debalde imprimir ao rosto uma expressão séria, ao rosto que ele fixava demoradamente.
Erguendo-se até à fria plataforma da carruagem, deteve-se ali por momentos. Não se lembrava das palavras dele, mas sentia que aquela rápida conversa os unira muito, o que a assustava e a fazia feliz ao mesmo tempo. Alguns segundos depois penetrava no compartimento e sentava-se. Cada vez se sentia mais nervosa: chegou a pensar que ia partir-se dentro dela uma corda demasiado tensa. Não dormiu toda a noite. Mas naquela tensão nervosa e nos sonhos que lhe enchiam a imaginação nada havia de desagradável ou de triste, muito pelo contrário, havia qualquer coisa de perturbador, de ardente, de excitante. Pela madrugada, adormeceu na poltrona e ao acordar já era dia. O comboio aproximava-se de Sampetersburgo. Imediatamente se pôs a pensar na casa, no marido, no filho, e as preocupações do dia absorveram-na.
Mal desembarcou, o primeiro rosto que encontrou foi o do marido: «Meu Deus! Por que lhe terão crescido tanto as orelhas?» pensou ela, mirando-lhe a arrogante e fria figura e sobretudo as cartilagens das orelhas, que lhe chamavam agora a atenção, nas quais, dir-se-ia, vinham pousar as abas do chapéu. Ao vê-la, avançou ao seu encontro, com o seu habitual sorriso irônico, fitando-a com os seus grandes olhos fatigados. Uma sensação desagradável oprimiu o coração de Ana ao encontrar o olhar cansado e tenaz do marido. Era como se esperasse achá-lo diferente.
O que mais a surpreendia era a sensação de descontentamento consigo própria que a dominava ao ver-se junto dele. Afinal, no trato com ele experimentava uma sensação familiar, conhecida, uma espécie de hipocrisia; anteriormente não dava por isso, mas agora essa sensação tornava-se clara e dolorosa.
— Como vês, o teu terno marido, terno como no primeiro ano de casado, estava morto por tornar a ver-te — proferiu ele, na sua voz aguda e lenta, naquele tom como de mofa, que habitualmente adoptava para com ela, como se quisesse ridicularizar essa mesma maneira de se exprimir.
— E o Seriocha, está bem? — perguntou ela.
— Assim respondes à minha veemência!... Está bem, está bem.
Vronski nem sequer tentara dormir aquela noite. Passara-a inteira sentado com os olhos muito abertos. O seu olhar, fixo a maior parte das
vezes, atentava, de quando em quando, nas pessoas que entravam e saíam, sem as distinguir das próprias coisas. Nunca a sua serenidade parecera tão desconcertante, a sua altivez mais inabordável. Esta sua atitude desde logo lhe conquistou a inimizade do companheiro de viagem, um jovem funcionário judicial, nervoso, que tentara o impossível para fazê-lo compreender que fazia parte do número dos vivos. Mas por mais que lhe pedisse lume, que lhe dirigisse a palavra, que o acotovelasse mesmo, Vronski não lhe prestara maior atenção que à lanterna do comboio e o desgraçado, ofendido por tamanha fleuma, dificilmente se reprimia, pronto a explodir.
Se Vronski dava mostras de uma tão real indiferença não era por estar certo de haver tocado o coração de Ana. Não, isso não ousava pensar; mas o veemente sentimento que sentia por ela enchia-o de felicidade e de orgulho. Que resultaria de tudo aquilo? Não sabia nem queria pensar nisso. Mas sentia que todas as suas forças, relaxadas e dispersas até então, se enfeixavam e tendiam como que para um fim único e maravilhoso. Vê-la, ouvi-la, viver junto dela, a vida já não tinha para ele outro sentido. Este pensamento a tal ponto o dominava que não pôde evitar confessar-lho quando viu Ana na estação de Bologoia, onde descera para tomar um copo de soda. Estava contente por ter falado: Ana, agora, sabia que ele a amava, e não podia deixar de pensar nisso. Ao voltar para o seu compartimento, Vronski recapitulara, um por um, todos os pormenores dos encontros que tinha tido. Reviu todos os gestos, todas as palavras, todas as atitudes de Ana. E as imagens que se iam formando no seu espírito quase lhe paralisavam o coração.
Quando desceu do comboio em Sampetersburgo sentiu-se fresco e repousado como depois de um banho frio, embora não tivesse pregado olho a noite inteira. Deteve-se junto do carro dela, para a ver passar.
«Tornarei a ver-lhe mais uma vez o rosto, o andar», dizia consigo, com um sorriso involuntário. «Talvez tenha para mim um olhar, um sorriso, uma palavra, um gesto.» Mas a quem viu primeiro foi ao marido, acompanhado, com grande deferência, pelo chefe da estação. «Ah! Sim, o marido!» E quando o viu aparecer na sua frente com aquela cabeça, os ombros e as pernas perdidas dentro das calças, quando o viu, sobretudo, dar o braço a Ana, como homem que conhece os direitos que lhe assistem, Vronski teve de convencer-se de que aquela personagem, cuja existência até então se lhe afigurara problemática, existia, era de carne e osso, e que laços muito estreitos a uniam à mulher que ele, Vronski, amava.
Naquele frio rosto petersburguês, aquele ar severo e seguro de si, aquele chapéu de abas redondas, aquele dorso ligeiramente corcovado, de tudo isto Vronski teve de admitir a existência, mas com a sensação de um homem que, morto de sede, encontra uma nascente de água pura
conspurcada pela presença de um cão, de um carneiro ou de um porco. O andar de Alexei Alexandrovitch, de pernas hirtas e quadris bamboleantes, foi o que mais o incomodou. A ninguém reconhecia o direito, salvo a ele próprio, de amar Ana. Felizmente, esta era a mesma de sempre e ao vê-lo sentiu-se reanimado. O criado de Vronski, um alemão que viajara em ª classe, veio receber as ordens do amo. Confiando-lhe as bagagens, Vronski avançou resolutamente para ela. Assistiu, pois, ao encontro dos esposos e a sua perspicácia de namorado permitiu-lhe apreender o ligeiro constrangimento com que Ana acolheu o marido. «Não, ela não gosta dele, nem pode gostar», decretou. Embora Ana estivesse de costas, Vronski notou com alegria que ela lhe adivinhara a presença. Voltou-se um pouco, reconheceu-o e continuou a conversa que encetara com o marido.
— Passou bem a noite? — perguntou Vronski, inclinando-se diante do casal, dando assim oportunidade a Alexei Alexandrovitch de o reconhecer, caso isso lhe aprouvesse.
— Muito obrigada, passei bem — respondeu ela.
O seu rosto fatigado não aparentava a animação costumeira; no entanto, um lampejo lhe perpassou pelos olhos ao ver Vronski, e foi quanto bastou para ele se sentir feliz. Entretanto levantara os olhos para o marido, como para se certificar de que ele reconhecia o conde: Alexei Alexandrovitch olhava-o com um ar de poucos amigos, procurando lembrar-se de quem se tratava. A serenidade e a suficiência de Vronski chocaram-se com a fria segurança de Alexei Alexandrovitch, como uma foice que bate numa pedra.
— O conde Vronski — disse Ana.
— Ah! Creio que já nos conhecemos — replicou com indiferença Alexei Alexandrovitch, estendendo-lhe a mão. — Fizeste a viagem de ida com a mãe e a de volta com o filho — acrescentou, sublinhando cada palavra. — Tem estado de licença, naturalmente? — perguntou, e sem aguardar resposta dirigiu-se à mulher no seu habitual tom irônico: — Quê? Então houve muitas lágrimas à despedida em Moscovo? Pela maneira de se dirigir à mulher, Vronski percebeu que ele desejava estar só com ela. Mas Vronski, voltando-se para Ana, disse-lhe ainda: — Espero ter a honra de lhe apresentar os meus cumprimentos. Alexei Alexandrovitch olhou Vronski com os seus olhos cansados.
— Com muito gosto; recebemos às segundas-feiras — replicou com frieza, e, sem mais se preocupar com ele, voltou-se para a mulher. — Muita sorte tive em poder dispor desta meia hora para te vir esperar, e ter
podido mostrar-te todo o meu carinho — continuou ironicamente.
— Estás a ressaltar o teu carinho para que eu o aprecie melhor — respondeu Ana no mesmo tom irônico, ouvindo, involuntariamente, os passos de Vronski, que caminhava atrás dela. «Mas que me importa?», pensou. E imediatamente perguntou ao marido como Seriocha passara aqueles dias, na sua ausência.
— Oh, magnificamente! Mariette diz que esteve muito bonzinho...
E tenho de te dar um desgosto... Não teve tantas saudades tuas como o teu marido. E outra vez merci por teres vindo um dia mais cedo. O nosso querido samovar vai ter com isso uma grande alegria (era o nome que ele dava à célebre condessa Lídia Ivanovna, que vivia sempre em estado de emoção e de agitação). Perguntou por ti. Se me atrevesse a dar-te um conselho, dir-te-ia que a visitasses hoje mesmo. Sabes que sofre por tudo e por nada. Agora, além de todas as suas preocupações, está interessadíssima na reconciliação dos Oblonski.
A condessa Lídia Ivanovna era amiga de Alexei Alexandrovitch e o eixo do grupo da alta sociedade de Sampetersburgo que Ana mais freqüentava por causa do marido.
— Eu escrevi-lhe.
— Mas precisa de saber pormenores. Vai a casa dela, se não estás cansada, querida. Kondrati leva-te no carro. Eu tenho de ir a uma reunião. Enfim, já não jantarei só — acrescentou com ironia desta vez. — Não podes calcular como me habituei...
E dito isto, apertou-lhe demoradamente a mão, sorriu-lhe com o seu melhor sorriso e ajudou-a a subir para a carruagem.
A primeira pessoa que descobriu Ana quando esta chegou a casa foi o filho; sem querer ouvir os brados da preceptora, correu escada abaixo ao seu encontro, gritando numa grande alegria: «Mãezinha! Mãezinha!», e lançou-se-lhe ao pescoço.
— Eu bem lhe dizia que era a mãezinha! — gritava ele à preceptora. — Tinha a certeza.
Mas também o filho, tal como o pai, causou em Ana uma espécie de desencanto. Imaginava-o melhor do que ele era realmente. Para o apreciar plenamente, viu-se obrigada a descer à realidade e vê-lo tal como era, isto é, uma linda criança de caracóis louros, belos olhos azuis e
pernas bem feitas nas suas meias bem esticadas. Então experimentou um prazer quase físico ao senti-lo junto de si, ao receber as suas carícias e uma espécie de apaziguamento moral penetrou nela quando ele principiou a fazer as suas ingênuas perguntas e se pôs a perscrutar-lhe os olhos tão meigos, tão confiantes, tão cândidos. Desembrulhou os presentes que Dolly lhe mandava e contou-lhe que havia em Moscovo uma menina chamada Tânia, que já sabia ler e até ensinava os outros a ler.
— Então sou pior do que ela? — perguntou Seriocha.
— Para mim, meu amor, não há ninguém melhor do que tu.
— Eu bem sabia — disse Seriocha sorrindo.
Ainda Ana não acabara de tomar o café quando lhe anunciaram a condessa Lídia Ivanovna. Era uma mulher alta e cheia, de tez amarelada e enfermiça e uns melancólicos e bonitos olhos pretos. Ana, que a estimava, julgou aperceber-se pela primeira vez de que ela também tinha os seus defeitos.
— Então, querida, levaste-lhes o ramo de oliveira? — perguntou a condessa, mal entrou na sala.
— É verdade, tudo se consertou. Além disso as coisas não eram tão feias como pareciam — replicou Ana. — Em geral uma belle-soeur é um pouco precipitada nas suas decisões.
Mas a condessa Lídia, sempre muito interessada pelo que não lhe dizia respeito, tinha por costume não prestar a menor atenção ao que se supunha interessar-lhe. Interrompeu Ana.
— Sim, há muita maldade e muita desgraça neste mundo. Estou hoje tão desanimada! — Por quê? — interrogou Ana, procurando conter o riso.
— Começo a cansar-me de lutar em vão pela verdade e às vezes vejo-me completamente derrotada. A obra das nossas irmãzinhas (tratava-se de uma instituição filantrópica patriótico-religiosa) segue por bom caminho, mas não se pode fazer nada com estes senhores — disse a condessa Lídia Ivanovna, ironicamente, como que submetendo-se ao destino.— Apoderaram-se da ideia para a desvirtuarem e agora julgam-na de uma forma vil e indigna. Só duas ou três pessoas, no número das quais está o seu marido, compreendem o significado desta obra; as demais não sabem senão desacreditá-la. Ontem recebi uma carta de Pravdine...
Pravdine, célebre pan-eslavista, residia no estrangeiro. A condessa resumiu a Ana o conteúdo da carta dele. Depois contou-lhe as inúmeras ciladas e contratempos armados à obra da união das igrejas e retirou-se a
toda a pressa, pois ainda tinha de assistir, naquele dia, a duas reuniões, uma das quais do comitê eslavo.
«Nada disto é novo», dizia Ana com os seus botões, «mas por que não o percebi antes? Estaria ela hoje mais nervosa do que de costume? No fundo, tudo isto é cômico: esta mulher, que se diz cristã e que só pensa na caridade, zanga-se e luta com outras pessoas que trabalham exactamente pelos mesmos fins que ela.»
Depois da condessa, chegou uma amiga de Ana, esposa de um funcionário, que lhe contou as novidades da capital, e partiu às três horas, prometendo vir jantar com ela. Alexei Alexandrovitch estava no Ministério. Quando ficou só, Ana assistiu primeiro ao jantar do filho — a criança comia à parte — e depois procurou pôr em ordem as suas coisas e responder à correspondência em atraso.
Da perturbação, da vergonha inexplicável que a assaltara durante a viagem, já não havia vestígios. De novo no seu ambiente habitual, sentia-se outra vez segura e irrepreensível, e não conseguia perceber o estado de espírito por que passara na véspera. «Que se passou afinal de tão grave?», interrogou-se a si mesma. «Nada. Vronski disse uma loucura e eu respondi-lhe como devia. Não vale a pena falar no caso a Alexei, seria como que atribuir-lhe importância.» E recordou-se de ter contado, uma vez, ao marido que um subordinado dele estivera a ponto de se lhe declarar e ele lhe respondera que toda a mulher que freqüenta a sociedade está sujeita a coisas dessas, mas que confiava plenamente no seu tacto e nunca se permitiria humilhá-la e humilhar-se a si próprio deixando-se arrastar pelo ciúme. «O melhor, portanto, é calar-me», concluiu ela. «E, aliás, graças a Deus, nada tenho a dizer-lhe.»
Alexei Alexandrovitch voltou do Ministério às horas, mas, como freqüentemente acontecia, não teve tempo de entrar nos aposentos da mulher. Meteu-se logo no escritório para receber umas visitas que o aguardavam e assinar uns papéis que o secretário lhe trouxera. À hora do jantar chegou a velha prima de Alexei Alexandrovitch, um director do seu Ministério com a esposa e um rapazola que lhe fora recomendado (os Karenines tinham sempre dois ou três convidados para o jantar). Ana desceu ao salão para recebê-los. Às em ponto, ainda o relógio de bronze, estilo Pedro I, não deixara cair a última badalada, entrava Alexei Alevandrovitch, de sobrecasaca e duas condecorações ao peito, pois tinha
de sair logo após o jantar. Todos os minutos da sua existência eram cogitados, e para poder cumprir o que diariamente lhe competia via-se obrigado a observar uma pontualidade estrita. «Sem precipitação e sem descanso», eis o seu lema. Ao entrar no salão, cumprimentou todos os presentes e sentou-se, apressadamente, sorrindo para a mulher.
— Finalmente, acabou a minha solidão! Nem tu imaginas como é incômodo — sublinhou a palavra «incômodo» — comer sozinho.
Durante o jantar falou com Ana acerca de Moscovo, e com um sorriso irônico perguntou por Stepane Arkadievitch; mas conversou a maior parte do tempo sobre assuntos de ordem geral, tendo abordado questões do Ministério e da sociedade de Sampetersburgo. Findo o jantar, Alexei Karenine demorou-se meia hora com os seus convidados e depois de apertar de novo a mão da mulher, sorrindo sempre, saiu para ir assistir a uma nova sessão do conselho. Ana não foi a casa da princesa Betsy Tverskaia, nem ao teatro, onde tinha um camarote reservado. Não foi principalmente por ainda não ter pronto o vestido com que contava. Ao ocupar-se das suas toilettes depois da partida dos convidados, irritou-se muito. Antes de partir para Moscovo mandara à modista três vestidos para transformar. Em geral, tinha a habilidade de gastar pouco, vestindo-se embora muito bem. Precisava de transformar aqueles vestidos de tal sorte que ficassem irreconhecíveis, e havia já três dias que deviam estar prontos. No entanto, dois deles estavam por acabar, e o outro não lhe agradou. A modista apressou-se a explicar-lhe que o vestido ficava melhor como ela o fizera, e Ana enfurecera-se tanto com ela que até sentia vergonha agora ao recordá-lo. Para serenar, dirigiu-se ao quarto do filho e passou todo o serão com ele, deitou-o, arranjou-lhe a roupa com muitos cuidados e saiu depois de o abençoar com o sinal-da-cruz. E sentiu-se então bastante satisfeita por não ter saído e por ter passado uma tarde tão agradável. Estava serena e tranqüila, e via claramente que tudo que lhe parecera significativo durante a viagem era um facto corriqueiro e trivial da vida mundana e que não havia razão para se envergonhar nem perante si mesma nem perante ninguém. Sentou-se junto ao fogão e ali ficou tranqüilamente à espera do marido, entretida a ler o seu romance inglês. Às horas em ponto retiniu a campainha autoritária de Alexei Alexandrovitch e não tardou que ele entrasse na sala.
— Finalmente, chegaste! — exclamou ela, estendendo-lhe a mão, que ele beijou antes de se sentar junto da mulher.
— Vejo que a tua viagem obteve êxito — disse Alexei.
— Sim, o mais completo — replicou Ana, e contou tudo desde o princípio: a viagem com Vronskaia, a chegada a Moscovo e o desastre na
estação. Depois disse-lhe da compaixão que sentira primeiro pelo irmão e depois por Dolly.
— Sou de opinião que não se deve perdoar a um homem assim, embora se trate de teu irmão — disse ele com expressão severa.
Ana sorriu. Compreendeu que ele falava assim para provar que os laços de parentesco não o podiam impedir de emitir juízos sinceros. Confiou-lhe: esse traço de carácter e apreciava-o.
— Estou muito satisfeito que tudo tenha acabado bem — continuou. — Bom, o que se diz por lá da nova lei que apresentei ao conselho? Ana não ouvira falar de semelhante lei em Moscovo e envergonhou-se por ter esquecido uma coisa que tão importante era para ele.
— Aqui, pelo contrário, tem sido muitíssimo comentada — disse Alexei Alexandrovitch com um sorriso de satisfação.
Ana compreendeu que o marido lhe queria comunicar qualquer coisa agradável a propósito da referida lei e tantas perguntas fez que conseguiu que ele se explicasse.
— Dá-me isso muita satisfação. Isso só demonstra que, por fim, aqui começa a forma-se um ponto de vista firme e razoável acerca de semelhante assunto.
Depois de ter tomado dois copos de chá com nata, levantou-se disposto a voltar para o seu gabinete de trabalho.
— Não saístes? Deves ter-te aborrecido — disse à mulher.
— Oh, não! — replicou Ana, erguendo-se também e seguindo com ele ao longo da sala. — Que estás a ler agora? — La poésie des Enfers, do duque de Lille. É um livro muito interessante.
Ana sorriu, como em geral as pessoas sorriem diante das fraquezas dos seres amados, e, enfiando o braço no do marido, acompanhou-o até ao escritório. Conhecia o costume dele, que se lhe tornara imprescindível, de ler todas as noites. Sabia que apesar das obrigações, que lhe roubavam quase todo o tempo, considerava como que um dever acompanhar todas as coisas interessantes que apareciam no mundo intelectual. De resto, ela não ignorava que, assaz competente em política, filosofia e religião, Alexei Alexandrovitch nada entendia nem das letras nem das artes, o que, no entanto, não o impedia de se interessar particularmente por obras do gênero. E se em política, em filosofia, em religião lhe acontecia ter dúvidas e procurar esclarecê-las, nas questões de
arte, de poesia, de música, sobretudo nos assuntos de que nada entendia, estava sempre pronto a emitir opiniões definitivas e sem recurso. Gostava de discutir Shakespeare, Rafael ou Beethoven, de pronunciar-se sobre as novas escolas de música e poesia, e de classificá-las numa ordem tão lógica quanto rigorosa.
— Bom, até já — disse Ana Karenina, junto à porta do escritório. Junto à poltrona do marido já estavam acesas as velas com o seu abat-jour e posta uma garrafa com água.
— Vou escrever para Moscovo.
Alexei Alexandrovitch apertou-lhe a mão, tornando a beijá-la.
«Seja como for, é um homem bom e justo, de bom coração e notável no seu meio», dizia Ana para si mesma, ao regressar aos seus aposentos, como se o defendesse diante de alguém que o acusava e dissesse ser impossível amá-lo. «Mas por que razão lhe sobressaem tanto as orelhas? Teria cortado o cabelo?»
À meia-noite em ponto, Ana ainda escrevia a Dolly, sentada à sua pequenina secretária, quando ouviu aproximarem-se uns passos abafados e Alexei Alexandrovitch apareceu, com um livro na mão, de pantufas calçadas, já pronto na sua toilette da noite.
— São horas de dormir — disse-lhe ele com um sorriso malicioso, antes de penetrar no quarto de dormir.
«Que direito tinha de o olhar assim?», pensou Ana, lembrando-se, de repente, do olhar que Vronski lançara ao marido.
Ana não tardou a entrar no quarto do marido, mas onde estava aquela chama que em Moscovo lhe animava o rosto, lhe cintilava nos olhos, lhe iluminava o sorriso? Extinta, ou, pelo menos, bem escondida.
Ao deixar Sampetersburgo, Vronski cedera ao seu melhor camarada, Petritski, o amplo andar que ocupava na Rua Morskaia.
Petritski era um jovem tenente, de família modesta, sem bens e cheio de dívidas. Todas as noites se embriagava e com freqüência era preso por causa das suas aventuras divertidas e escandalosas. Mas, apesar de tudo, tanto os seus camaradas como os seus superiores o estimavam muito. Ao chegar a casa, pouco depois das horas, Vronski viu à porta uma carruagem que não lhe era desconhecida. Enquanto não lhe abriam a porta, ouviu risos de homens, a tagarelice de uma voz
feminina e em seguida os gritos de Petritski:
— Se é uma dessas aves de rapina, não a deixem entrar!
Vronski entrou na primeira saía, silenciosamente, sem se anunciar. Muito catita, no seu vestido de cetim lilás e com a sua carinha rosada, a amiga de Petritski, a baronesa Chiltone, tal qual um canário enchia toda a casa com o seu sotaque parisiense. Sentada a uma mesa redonda, preparava café. Petritski, à paisana, e o capitão de cavalaria Kamerovski, fardado (naturalmente chegava do serviço), estavam a seu lado.
— Olá, Vronski! — exclamou Petritski, levantando-se e fazendo ruído com a cadeira. — Aqui tem o dono da casa em pessoa! Baronesa, sirva-lhe café da cafeteira nova. Não te esperávamos! Que dizes a esta nova decoração do teu escritório? Espero que te agrade — exclamou ele, apontando para a baronesa.—Já se conhecem, não é verdade? — Pois não nos havíamos de conhecer? — replicou Vronski, sorrindo e apertando a mãozinha da baronesa. — Somos velhos amigos!
— Acaba de chegar de viagem? — perguntou a baronesa. — Então vou-me embora. Se incomodo, saio já.
— Está em sua casa, baronesa — replicou Vronski. — Olá, Kamerovitch — acrescentou, apertando-lhe friamente a mão.
— Vocês não sabem dizer coisas assim amáveis — censurou a baronesa, interrompendo a conversa de Vronski com o companheiro.
— Por quê? Depois de jantar, também lhas saberei dizer. E melhores ainda.
— Depois de jantar já não têm mérito. Bom, vou preparar-lhe café enquanto se lava e arranja — disse a baronesa, e pôs-se a arranjar a cafeteira nova. — Pierre, passa-me o café. Vou deitar mais — disse a Petritski. Chamava-lhe «Pierre», abreviando-lhe o nome, sem esconder a sua intimidade com ele.
— Vai estragá-lo!
— Não, não! Não o estrago... E a sua mulher? — perguntou a baronesa, interrompendo a conversa de Vronski com o companheiro. — Casámo-lo na sua ausência. Trouxe a sua mulher? — Não, baronesa. Nasci boêmio e espero morrer boêmio.
— Tanto melhor! Tanto melhor! Dê-me a sua mão. E sem o deixar partir, a baronesa começou a expor-lhe, entre gracejos, os seus últimos planos de vida pedindo-lhe conselhos.
— Ele continua a não querer consentir no divórcio. Que hei-de eu fazer? («Ele» era o marido.) Penso em dar início à acção. Que acha?... Kamerovski, cuidado com o café, que está quase a ferver. Bem vê que
estou a falar de negócios. Estou resolvida a instaurar o processo, porque preciso do que me pertence, não é verdade? Imagine, que atrevimento! Com o pretexto de que lhe sou infiel — sorriu, com desdém—aquele cavalheiro apropria-se do que é meu.
Vronski ouvia, divertido, a tagarelice daquela bonita mulher, dava-lhe razão, aconselhava-a, zombando, e não tardou a adoptar o tom que costumava empregar para com essa espécie de mulheres. As pessoas do seu meio dividiam a humanidade em duas categorias opostas: a primeira, de gente vulgar, estúpida e sobretudo ridícula, supõe que os maridos devem ser fiéis às suas mulheres, as donzelas puras, as mulheres castas, os homens corajosos, firmes e moderados, e que devem educar os filhos, ganhar a vida, pagar as dívidas e outras frioleiras do mesmo gênero. Esta era a gente antiquada e ridícula. A segunda, pelo contrário — * gente da «alta» —, à qual eles se vangloriam sempre de pertencer, preza a elegância, a generosidade, a audácia, o bom humor, entrega-se sem pudor a todas as paixões e ri-se de tudo o mais.
Ainda sob a impressão dos costumes moscovitas — quão diferentes! —, Vronski sentiu-se, por momentos, aturdido ao reencontrar aquela gente alegre e agradável, mas não tardou a adaptar-se à sua antiga existência com a felicidade de quem calça uma velha pantufa.
O famoso café nunca mais estava pronto. Transbordou da cafeteira para o tapete, sujou o vestido da baronesa, salpicou todos, conseguindo o que era preciso: provocar o riso e soltar o espírito.
— Bom, agora, adeusinho. Se não me vou embora, nunca mais se lavará nem arranjará, e sobre a minha consciência virá a pesar o maior delito que um homem elegante pode cometer — não se lavar. Acha então que lhe devo apontar o punhal ao peito?
— Com certeza, e procure a maneira de a sua mão lhe ficar bem perto dos lábios. Acabará por beijá-la e tudo ficará resolvido — replicou Vronski.
— Então, até logo, no Teatro Francês!
Kamerovski levantou-se também, e Vronski, sem esperar que ele se retirasse, apertou-lhe a mão e dirigiu-se ao quarto de banho. Enquanto ele procedia às suas abluções, Petritski pintava-lhe, a grandes pinceladas, o quadro da sua situação. Nada de dinheiro; o pai declarava não lhe dar dinheiro e nunca mais lhe pagara nenhuma dívida; um alfaiate estava disposto a recorrer à polícia e outro ameaçava-o de fazer o mesmo; o comandante decidido, caso continuasse aquele escândalo, a obrigá-lo a deixar o regimento; a baronesa, enfadonha como uma chuva miúda, sobretudo por causa das ofertas de dinheiro que constantemente lhe fazia; em compensação, uma nova beldade no horizonte, de estilo oriental,
«gênero escrava Rebeca, meu caro, e que tu precisas de conhecer»; uma questão com Berkochev, que estava disposto a enviar-lhe as suas testemunhas, mas que naturalmente nada faria. Entretanto tudo corria melhor e o mais alegremente possível. E sem dar tempo a que Vronski meditasse no que lhe acabava de dizer, Petritski pôs-se a contar-lhe todas as novidades que corriam. Ouvindo aquelas coisas que lhe eram tão familiares, em sua casa, naquela casa onde vivia há três anos, Vronski experimentava a agradável sensação de ter regressado à despreocupada e habitual vida petersburguesa.
— É impossível! É impossível! — exclamava, abrindo a torneira do lavatório, que ao jorrar lhe borrifava o pescoço forte e vermelho. — É impossível! — repetia, recusando-se a acreditar que a Laura tivesse deixado o Fertingov para viver com o Mileiev. — Ele continua o mesmo estúpido que sempre foi e a mesma criatura cheia de suficiência? E a propósito, que me contas do Buzulukov?
— Buzulukov? Ao Buzulukov aconteceu uma coisa estupenda! — exclamou Petritski. — Bem sabem que tem a paixão da dança e não falta a um só baile da Corte. Pois bem, foi a um grande baile com o capacete novo. Já viste os capacetes novos? São bons, mais leves... Lá estava ele, pois, de grande uniforme... Ouve, faz o favor de ouvir-me.
— Estou a ouvir —replicou Vronski, que se enxugava com uma toalha de felpa.
— Passa uma grã-duquesa pelo braço de um diplomata estrangeiro e por infelicidade a conversa recaía sobre os novos capacetes.
A grã-duquesa estava morta por mostrar um ao embaixador. De súbito, vê o nosso amigo, ali, de pé, de capacete na mão (dizendo o que, Petritski ia arremedando a atitude de Buzulukov). A grã-duquesa pede-lhe que lhe mostre o capacete. Ele não se mexe. Que significa aquilo? Todos lhe fazem sinais, caretas, piscadelas de olhos. Mas ele não se mexe. Parece petrificado. Podes imaginar a cena? Então um não sei quem... esquece-me sempre o nome dele... tenta tirar-lhe o capacete. Ele não deixa. O outro arrancá-lho da cabeça e apresenta-o à grã-duquesa. «Aqui tem o novo modelo», diz ela, examinando o capacete. Pois que julgas que sai de lá de dentro? Nunca te passará pela cabeça... Uma pêra, e bombons, duas libras de bombons... Tinha-se abastecido bem, o figurão! Vronski ria a bandeiras despregadas. E tempo depois, sempre que lhe acontecia, ao falar de coisas muito diferentes, lembrar-se da história do capacete desatava a rir, num riso franco e jovial que lhe punha à mostra os belos dentes fortes e regulares.
Inteirado das últimas novidades, Vronski envergou o uniforme, com a ajuda do criado de quarto, e cuidou de ir apresentar-se no quartel.
Tencionava passar depois por casa do irmão, visitar Betsy e principiar uma série de visitas pela sociedade onde lhe seria mais provável encontrar-se com Ana Karenina. Como sempre fazia em Sampetersburgo, saiu de casa na intenção de a ela não voltar senão noite adentro.