Alexei Alexandrovitch não previra que a mulher dana provas de arrependimento sincero, que obteria o seu perdão e... se restabeleceria.
Dois meses após o seu regresso de Moscovo, este erro evidenciou-se-lhe em toda a sua gravidade. Era um erro que se fundamentava menos na falta de cálculo do que no descobrimento do seu próprio coração Junto ao leito da mulher agonizante, pela primeira vez na sua vida se abandonara a esse sentimento de comiseração pelas dores alheias contra que sempre lutara como se luta contra uma fraqueza perigosa. Os remorsos que sentia por ter desejado a morte de Ana, a piedade que ela lhe inspirava e acima de tudo o próprio sentimento de felicidade que lhe vinha do perdão concedido haviam convertido uma fonte de sofrimento num manancial de alegria tudo o que no seu ódio e na sua cólera julgava inextrincável, se tornava claro e simples, agora que amava e que perdoava.
Perdoara à mulher e apiedava se dela pelo muito que sofria e se arrependia. Perdoara a Vronski e igualmente se apiedava dele depois do seu acto de desespero. Tinha pena do filho e mais pena do que até então, pois se acusava a si mesmo de o ter menosprezado. Quanto à recém-
nascida, essa inspirava-lhe mais do que piedade verdadeira ternura. Ao ver aquela criança débil abandonada durante a doença da mãe, consagrou-se a ela e salvou a da morte, dedicando se lhe sem dar por isso.
A criada e a ama, que o viam entrar várias vezes ao dia no quarto das crianças, intimidadas de princípio, acabaram por habituar se a vê-lo. Ficava, às vezes, meia hora a contemplar o rostozinho vermelho, cor de açafrão, gorduchinho e enrugado, da pequenina criatura adormecida, e seguia lhe os movimentos da testa plissada, observando-lhe as mãozinhas cheias, que esfregavam o nariz e os olhos. Nesses momentos Alexei Alexandrovitch sentia-se tranqüilo, em paz consigo mesmo, e não dava pelo que havia de anormal na situação.
Mas, à medida que o tempo passava via, com maior nitidez, que, por mais natural que se lhe afigurasse aquele estado de coisas, continuar assim não era possível. Dava se conta de que para além da bondosa força moral que lhe estimulava a alma, outra força havia, vulgar, e tão forte ou mais forte que lhe guiava a vida e lhe permitiria desfrutar daquela tranqüilidade pacífica que tanto desejava. Notava que era olhado por todos com surpresa e interrogação, que o não compreendiam e que esperavam dele alguma atitude. E acima de tudo notava a inconsciência e a pouca naturalidade das suas relações com a mulher.
Quando se desvaneceu esse enternecimento que a vizinhança da morte facilita, Alexei Alexandrovitch principiou a dar se conta de que Ana tinha medo dele, que se não sentia à vontade na sua presença e que não ousava olhá-lo nos olhos. Era como se quisesse dizer lhe qualquer coisa, sem coragem para isso, e também como se pressentisse que as suas relações não podiam continuar assim e aguardasse da sua parte uma solução qualquer.
Em fins de Fevereiro, a recém nascida, Ana também, adoeceu Alexei Alexandrovitch, que fora pela manhã ao quarto das crianças, depois de ordenar que chamassem o médico, seguiu para o Ministério. Concluído que foi o seu trabalho, voltou para casa quando já passava das três horas. Ao penetrar no vestíbulo, viu um criado pernalta com uma libré guarnecida de pele de urso, que tinha debaixo do braço uma capa de pele branca.
— Quem é que esta aí? — perguntou Karenine.
— A princesa Isabel Fiodorovna Tverskaia — respondeu o criado, sorrindo, que assim se lhe afigurou.
Durante toda aquela penosa quadra, Karenine notara, da parte das suas relações mundanas, sobretudo femininas, um interesse muito particular, tanto por ele como pela mulher. Observara em toda essa gente aquela espécie de alegria mal dissimulada que encontrara nos olhos do
advogado e que via agora nos do lacaio. Se lhe perguntavam pela saúde, dir se ia que os seus interlocutores pareciam encantados, era como se alguém fosse casar-se.
A presença da princesa não podia agradar a Alexei Alexandrovitch não só nunca lhe fora afeiçoado, como lhe vinha trazer desagradáveis recordações. Eis por que foi direito ao quarto das crianças. Na antecâmara, Seriocha, deitado em ama da mesa e com os pés sobre a cadeira, desenhava, tagarelando alegremente. Sentada junto dele, a preceptora inglesa, que substituía a francesa, então à cabeceira de Ana, fazia crochet. Assim que viu entrar Karenine, levantou se, fez uma vênia e pôs Seriocha na cadeira Alexei Alexandrovitch acariciou a cabeça do filho, respondeu às perguntas da preceptora acerca do estado da senhora e perguntou qual a opinião do médico a respeito do baby.
— Disse que não era nada de cuidado, Excelência. Mandou dar-lhe uns banhos.
— Mas continua a queixar se — observou Alexei Alexandrovitch, ouvindo os vagidos da criança no quarto contíguo.
— Acho que a ama não é das melhores — notou, resolutamente, a inglesa.
— Porquê? — inquiriu Karenine, detendo se.
— Está a suceder o que sucedeu em casa da condessa Pol, Excelência Tratavam a criança com remédios, mas o que ela sentia era fome a ama estava sem leite.
Alexei Alexandrovitch pensou um momento e daí a pouco entrava no segundo quarto. A pequenina chorava, deitada nos braços da ama, a cabeça atirada para trás e recusando o seio que ela lhe dava. Nem a criada nem a ama conseguiam sossegá-la.
— Não está melhor? — perguntou Alexei Alexandrovitch.
— Está muito agitada — respondeu a criada a meia voz.
— Miss Edward é de opinião que a ama não tem leite.
— Também acho, Alexei Alexandrovitch.
— Porque o não disse?
— A quem o havia de dizer? Ana Arkadievna está doente — respondeu a criada, velha na casa, em tom irritado. E esta frase muito simples, de novo se lhe afigurou uma referência à situação dele.
A criança cada vez chorava mais, sufocando, enrouquecendo. A criada teve um movimento de impaciência e, tirando a criança dos braços da ama, pôs se a passeá-la, baloiçando-a.
— É preciso dizer ao médico que examine a ama. Receosa de perder o seu lugar, esta, mulher de aparência robusta, e bem vestida, disse qualquer coisa a meia voz. A ideia de que lhe faltasse leite levou-a a ter um sorriso de desdém, que Karenine interpretou de novo à sua maneira.
— Pobre menina! — exclamou a criada, que procurava sossegar a criança.
Alexei Alexandrovitch sentou se e ficou por momentos a seguir com a vista os movimentos da criada. Quando finalmente essa se afastou, depois de deitar a criança no berço e de lhe ajeitar o travesseiro, levantou- se, aproximou se na ponta dos pés, ficou se a observá-la, por instantes, sem dizer nada e sempre com o mesmo ar prostrado. De súbito, um sorriso lhe perpassou pelo rosto, saindo do quarto muito suavemente. Uma vez na sala de jantar, tocou a campainha e mandou chamar o médico. Pouco contente por ver como a mulher abandonava aquela criança encantadora, não queria ir ao quarto dela, tanto mais que não teria prazer algum em encontrar se com a princesa. No entanto, como Ana poderia estranhar que ele alterasse o habito em que estava, recalcando os seus ressentimentos, dirigiu se para o quarto de dormir da mulher. Ao aproximar se, como o espesso tapete amortecesse o ruído dos passos, ouviu umas palavras que o impressionaram.
— Se ele não se fosse embora, compreenderia a tua negativa e a dele Mas o teu marido deve estar acima disso — dizia Betsy.
— Não se trata do meu marido, mas de mim, não me fales mais em semelhante coisa — murmurava Ana em voz comovida.
— Será possível que não queiras tornar a ver o homem que quis matar-se por tua causa? — É precisamente por isso que eu o não quero tornar a ver.
Alexei Alexandrovitch parou perturbadíssimo, e pensou mesmo retroceder; reconhecendo, porém, que essa fuga era pouco digna, seguiu avante, tossicando. As vozes calaram-se e ele penetrou no quarto. Ana, com um penteador cinzento, os espessos cabelos pretos cortados rentes, que cresciam em forma de escova, estava sentada num canapé. Toda a sua animação desapareceu, como de costume, mal o marido entrou. Baixou a cabeça, relanceando um olhar inquieto a Betsy. Esta, vestida ao rigor da moda, tinha um chapéu minúsculo, que mais parecia um abat-jour, pousado no alto da cabeça, e um vestido cor de pombo com riscas diagonais, à frente, no CP pinho e atrás, na saia. Sentada junto de Ana mantinha erguido quanto possível o busto chato. Acolheu Alexei Alexandrovitch com uma inclinação de cabeça e um sorriso irônico.
— Oh! — exclamou ela, como que surpreendida. — Muito prazer em vê-lo. Não aparece em parte nenhuma. Desde que Ana adoeceu que o não tinha tornado a ver. Mas soube dos cuidados que teve com ela. Que marido extraordinário!
Disse isto num tom significativo, e afectuoso, como se lhe conferisse uma condecoração pela magnanimidade do seu procedimento para com Ana.
Alexei Alexandrovitch baixou-lhe friamente a cabeça e, depois de beijar a mão à mulher, perguntou-lhe como se sentia.
— Acho que estou melhor — disse Ana, evitando-lhe o olhar.
— Estás tão corada que parece que tens febre — disse Karenine, repisando a palavra «febre».
— Falámos de mais — observou Betsy. — Compreendo que foi egoísmo da minha parte. Vou-me embora já.
Levantou-se; mas Ana, corando de repente, reteve-a pela mão.
— Não, fica, peço-te. Tenho de te dizer... Não, a ti — acrescentou, dirigindo-se a Alexei Alexandrovitch, e um vivo rubor lhe cobriu a testa e o colo. — Não quero nem posso ocultar-te nada.
Alexei Alexandrovitch fez estalar os dedos e baixou a cabeça.
— A Betsy disse-me que o conde Vronski queria vir despedir-se antes de partir para Tachkent. — Falava depressa, sem olhar para o marido, desejosa de acabar. — Respondi que o não queria receber.
— Querida, disseste que isso dependeria de Alexei Alexandrovitch — corrigiu Betsy.
— Mas não, não posso recebê-lo, e, também, isso não serviria para nada... — Ana calou-se repentinamente e olhou para o marido com uma expressão interrogativa (ele não olhava para ela). — Numa palavra: não quero.
Alexei Alexandrovitch levantou-se e, aproximando-se dela, fez menção de lhe tomar uma das mãos.
Num primeiro impulso, Ana recusou a mão do marido, mão húmida e com grandes veias intumescidas. Porém, num esforço evidente sobre si mesma, apertou-a.
— Agradeço muito a tua confiança; mas... — replicou Karenine, perturbando-se, e compreendo, enfadado, que aquilo que facilmente podia ter dito a sós não lhe era possível dizê-lo diante da princesa Tverskaia. Esta representava para ele a personificação dessa força vulgar que teria de guiar-lhe a vida aos olhos do mundo, impedindo-o de se entregar ao sentimento de perdão e de amor. Deteve-se, fitando a
princesa Tverskaia.
— Então adeus, querida amiga — disse Betsy, levantando-se. Beijou Ana e saiu. Karenine acompanhou-a.
— Alexei Alexandrovitch, considero-o um homem generoso e sincero — disse Betsy, detendo-se no quarto de toucador e apertando a mão de Karenine de maneira significativa. — Sou uma estranha, mas estimo tanto a Ana e aprecio-o tanto ao senhor que me atrevo a dar-lhe um conselho. Alexei Vronski é a personificação da honra. Vai para Tachkent. Receba-o.
— Agradeço o seu interesse e os seus conselhos, princesa, mas só a minha mulher pertence decidir se pode ou não receber seja quem for.
Karenine pronunciou estas palavras arqueando as sobrancelhas, numa expressão de dignidade, como era seu costume. Imediatamente, porém, pensou que, fossem quais fossem as suas palavras, não estava em situação compatível com atitudes de grande dignidade. O sorriso contido, irônico e malévolo com que Betsy acolheu a sua frase claramente lho demonstrou.
Alexei Alexandrovitch acompanhou Betsy até ao salão, despediu-se dela e voltou para junto da mulher. Ana estava deitada, mas, ao ouvir os passos do marido, deu-se pressa em retomar a postura anterior e olhou para ele, assustada. Alexei Alexandrovitch notou que ela tinha chorado.
— Agradeço-te muito a confiança que depuseste em mim — disse ele, timidamente. E repetindo, em russo, a resposta que dera em francês a Betsy, sentou-se ao lado de Ana (aquela sua maneira de a tratar por tu quando falava russo tinha o condão de irritar Ana). Sim — continuou, sentando-se junto dela —, estou muito reconhecido pela decisão que tomaste. Penso, como tu, que desde que o conde Vronski se vai embora, não há necessidade de o receber. Aliás...
— Mas se eu já o disse, para que havemos de tornar a falar nisso? — interrompeu Ana, com uma irritação que não soube evitar. «De facto não há necessidade», pensou ela, «de um homem que se quis matar querer dizer adeus à mulher a quem ama e que pelo seu lado não pode viver sem ele!»
Apertou os lábios e baixou os olhos para as grossas mãos que o
marido esfregava, lentamente, uma na outra.
— Não falemos mais nisso — acrescentou ela, em tom mais sereno.
— Deixei que fosses tu a resolver esse problema com toda a liberdade, e sinto-me feliz por ver...
— Que os meus desejos estão de acordo com os seus — concluiu Ana, agastada de o ouvir falar tão pausadamente quando ela sabia de antemão tudo o que havia a dizer.
— Sim — confirmou ele —, e a princesa Tvetskaia faz mal em imiscuir-se, a despropósito, em penosos assuntos de família, ela sobretudo que...
— Não acredito em coisa alguma do que se diz, e ela estima-me sinceramente.
Alexei Alexandrovitch suspirou e calou-se. Ana agitava nervosamente o cordão do penteador e olhava-o de vez em quando com esse sentimento de repulsa física que não podia deixar de se censurar a si própria, embora fosse incapaz de o dominar. A presença daquele homem era-lhe odiosa e não pensava noutra coisa senão em ver-se livre dele o mais depressa possível.
— Acabo de mandar chamar o médico — disse, por fim, Alexei Alexandrovitch.
— Para quê? Sinto-me bem.
— Para a menina que está a chorar muito; parece que a ama tem pouco leite.
— Por que não consentiste que eu a amamentasse, quando eu pedi tanto que me deixassem experimentar? Apesar de tudo (Karenine percebeu o que ela queria dizer com esse «apesar de tudo») é uma criança e acabarão por matá-la. — Ana chamou a criada e mandou que lhe trouxessem a menina. — Pedi que ma deixassem criar, não mo consentiram, e agora censuram-me por isso...
— Não te censuro nada...
— Sim! Acho que sim, que me censura! Meu Deus, por que não morri eu? — E rompeu em soluços. — Perdoe-me, estou nervosa, sou injusta — continuou ela, procurando dominar-se. — Mas vai-te embora...
«Não, isto não pode continuar assim», disse, resolutamente, Karenine, ao sair do quarto da mulher.
Nunca se lhe apresentara tão claramente como naquele momento ser-lhe impossível manter semelhante situação perante & sociedade, e Ana nunca deixara transparecer com tamanha evidência a repulsa que ele lhe inspirava. E também nunca se lhe revelara tão flagrantemente o poder
dessa misteriosa força brutal que, ao arrepio das aspirações da sua alma, lhe dirigia impetuosamente a vida, exigindo dele uma mudança de atitude em relação à mulher. Tanto a sociedade como a mulher exigiam dele algo que não compreendia bem, mas que lhe despertavam no coração uma revolta que acabaria por destruir o mérito da vitória que tivera sobre si próprio.
Embora de opinião que Ana devia romper com Vronski, estava disposto, se todos achassem impossível semelhante rompimento, a tolerar as suas relações, desde que as crianças continuassem junto dele, ao abrigo dos salpicos de lama, e mudança alguma viesse a operar-se na sua própria existência.
Esta solução, por mais abjecta que fosse, seria melhor do que um rompimento, o qual, jogando Ana para uma situação vergonhosa e sem saída, acabasse de privá-lo a ele de tudo o que amava. Porém, sentia-se sem forças na luta, sabendo de antemão todos contra ele e prontos a impedirem-no de fazer o que lhe parecia tão natural e tão sensato, para o obrigarem ao que consideravam um dever.
À porta do salão, Betsy encontrara-se com Stepane Arkadievitch, que acabava de chegar do Elisseiev, onde tinham recebido ostras frescas.
— Oh, princesa! Que agradável encontro!—exclamou ele. — Estive em sua casa.
— O encontro não será longo: vou-me embora — respondeu Betsy, sorrindo, enquanto abotoava uma das luvas, — Um momento, princesa, antes de calçar a luva permita que lhe beije a encantadora mãozinha. Não há nada de que eu mais goste nas antigas modas do que este costume de beijar a mão às senhoras.
Beijou a mão de Betsy.
— Quando nos tornaremos a ver?
— Não o merece muito — respondeu Betsy, sempre a sorrir.
— Oh, mereço, sim! Estou feito o mais sério dos homens: não só trato das minhas coisas pessoais, mas até das dos outros — disse ele, com importância.
— Realmente? Estou maravilhada — respondeu Betsy, percebendo que se referia a Ana.
E, voltando para dentro do salão, arrastou Oblonski para um canto da casa — Acabara por matá-la — murmurou ela, convencida —, isto e impossível, impossível! — Ainda bem que pensa assim — respondeu Stepane Arkadievitch, abanando a cabeça numa comiseração cheia de simpatia — Foi por isso que vim a Moscovo — Todos falam no caso. A situação é intolerável. A desgraçada esta a consumir se a olhos vistos. Ele não compreende que ela pertence ao numero das mulheres cujos sentimentos não podem servir de joguete. De duas uma ou a leva daqui para fora procedendo energicamente ou pede o divorcio. De contrario esta situação acaba com ela.
— Sim, sim é verdade — disse Oblonski suspirando — Foi para isso que eu vim ou antes, não, não inteiramente por isso Acabo de ser nomeado camarista e tenho que apresentar os agradecimentos a quem de direito Mas o mais importante é resolver este assunto.
— Pois bem, que Deus o ajude — disse Betsy.
Oblonski acompanhou a ate a porta, tornou a beijar lhe a mão um pouco acima do canhão da luva, ali onde bate o pulso e dizendo lhe uma inconveniência de tal quilate que Betsy ficou sem saber se deveria ofender se ou sorrir, deixou a e dirigiu se para o quarto da irmã. Encontrou a lavada em lagrimas.
Apesar do seu estado de espírito jovial, que espalhava alegria por onde passava, Stepane Arkadievitch adoptou, com naturalidade, o tom poeticamente exaltado que convinha aos sentimentos de Ana. Perguntou lhe pela saúde e como passara essa manhã.
— Muito mal, muito mal. Passei mal a manhã, passei mal o dia, e todos os dias tenho passado mal e assim hão de ser também os dias que estão para vir — respondeu lhe ela.
— Parece me que te entregas demasiado à melancolia. É preciso reagires. Faz se mister olhar a vida cara a cara. Bem sei que custa muito mais.
— Ouvi dizer que as mulheres amam os homens até nos seus vícios — principiou Ana, de repente —, pois eu, pelo contrário, odeio até na virtude. Não posso viver com ele. Compreendê-lo é algo que actua sobre mim fisicamente e me faz perder o domínio de mim mesma. É me impossível, completamente impossível, viver com ele. Que hei de eu fazer? Era desgraçada e pensava não ser possível vir a sê-lo mais do que já era. Não podia sequer imaginar o que sofro agora. Queres crer? Apesar de
saber que é um homem bom e virtuoso, odeio-o! Odeio o pela sua própria magnanimidade. Nada me resta senão — quis dizer a morte, mas Stepane Arkadievitch não a deixou concluir.
— Estás doente e excitada — disse-lhe —, exageras muitíssimo A situação não é tão horrível como tu dizes.
E Stepane Arkadievitch sortiu. Ninguém no seu lugar, ao tratar de assunto tão desesperado, se teria permitido sorrir (pareceria extemporâneo) , mas no seu sorriso, de uma ternura quase feminina, havia tamanha bondade que não podia considerar se ofensivo. Pelo contrário, amenizava, era quase sedativo. As suas apaziguadoras palavras e o seu sorriso agiam tão suavemente como óleo de amêndoas doces Ana imediatamente o sentiu.
— Não, Stiva— disse — Estou perdida, estou perdida, pior ainda. Ainda não morri nem posso dizer que tudo tenha terminado. Pelo contrario, sinto que ainda não terminou. Sou como uma corda tensa que tem de acabar por partir. Ainda não cheguei ao fim mas há-de ser terrível.
— Não, não, a corda pode ir se distendendo, pouco a pouco. Não há situação que não tenha uma saída.
— Pensei muito. Só há uma.
Stepane Arkadievitch compreendeu pelo olhar de Ana que a saída a que se referia era a morte, e não consentiu que terminasse a frase.
— Nada disso — replicou — Dá licença. Tu não podes considerar a tua situação como eu. Permite me que te diga sinceramente a minha opinião — voltou a sorrir, cauteloso, com o seu sorriso de óleo de amêndoas doces — Começarei pelo princípio casaste te com um homem vinte anos mais velho do que tu, sem amor e sem conheceres o amor. Suponhamos que tenha sido este o teu erro.
— Erro pavoroso! — exclamou Ana.
— Mas, repito, este é um facto consumado Depois tiveste a infelicidade de te enamorares de outro. Foi uma desgraça, mas é também um facto consumado. Teu marido veio a sabê-lo, e perdoou te — Stepane Arkadievitch fazia uma pausa depois de cada frase, à espera que Ana objectasse qualquer coisa, mas ela nada dizia — As coisas estão neste pé.
A questão estriba se agora em saber se podes continuar a viver com teu marido, se é esse o teu desejo e se esse é o desejo dele.
— Não sei nada, não sei nada.
— Mas tu própria me disseste que o não podias suportar.
— Não, não o disse. Retiro as minhas palavras Não sei nem entendo nada.
— Sim, mas permite.
— Tu não podes compreender. Sinto que caí de cabeça para baixo até ao fundo de um precipício e que nada devo fazer para me salvar. Não posso.
— Pouco importa. Teremos o cuidado de pôr qualquer coisa lá no fundo e de te apanharmos no ar. Compreendo te, compreendo que não possas decidir-te a exprimir o teu desejo nem os teus sentimentos.
— Não desejo nada, não desejo nada. Apenas que tudo isto acabe.
— Mas ele vê e sabe o que há, julgas que sofre menos do que tu? Atormentas te a ti e a ele. Que pode resultar de tudo isto? Em compensação, o divórcio tudo soluciona — concluiu, não sem esforço, Stepane Arkadievitch.
Exprimira a sua ideia fundamental e agora olhava para Ana com uma expressão significativa.
Ana, sem responder, moveu negativamente a cabeça de cabelos aparados. Mas pela expressão do seu rosto, repentinamente iluminada de beleza antiga, Oblonski compreendeu que, se o não desejava, era apenas por considerar tal solução uma felicidade inacessível.
— Tenho muita pena de vocês! Que feliz seria se pudesse dar-lhes remédio — exclamou Stepane Arkadievitch, sorrindo com mais resolução — Não me digas nada, não me digas nada! Se Deus me permitisse dizer as coisas como as sinto. Vou falar com o teu marido.
Ana fitou o irmão, com olhos brilhantes e pensativos, e não lhe disse nada.
Stepane Arkadievitch entrou no escritório de Karenine naquela atitude um tanto solene com que costumava ocupar a poltrona de presidente das sessões da sua auditoria. Alexei Alexandrovitch, de mãos atrás das costas, passeava de um lado para o outro, pensando nisso mesmo em que Oblonski falara com Ana.
— Incomodo-te? — perguntou Stepane Arkadievitch, ao ver que o cunhado ficara perturbado, coisa insólita nele.
Para disfarçar, Karenine puxou de uma cigarreira especial que acabara de comprar, cheirou a e tirou um cigarro.
— Não. Precisas de alguma coisa? — respondeu, sem pressa,
Alexei Alexandrovitch.
— Preciso. Queria. Necessitava de sim, queria falar-te — respondeu Stepane Arkadievitch, surpreendido por se sentir cada vez mais intimidado. Aquele sentimento era nele tão inesperado, tão estranho, que a Oblonski não ocorreu que podia ser a voz da consciência a dizer lhe que ia cometer qualquer acção má. Com um grande esforço, venceu a timidez que o inibia.
— Espero que acredites no carinho que tenho pela minha irmã e no respeito e afecto sinceros que te tributo — disse, corando.
Alexei Alexandrovitch parou sem responder, mas a sua expressão de vítima resignada impressionou Oblonski.
— Pois bem — continuou ele incapaz de recuperar a serenidade — Eu tinha a intenção de te falar de minha irmã e da situação dos dois.
Alexei Alexandrovitch olhou para o cunhado com um sorriso triste e, sem lhe responder, pegou numa carta inacabada que estava em cima da mesa e apresentou lha.
— Não penso noutra coisa — disse ele, por fim. — Aqui tens o que eu procurei dizer lhe, pensando que me exprimiria melhor por escrito, pois a minha presença a irrita.
Stepane Arkadievitch considerou com espanto os olhos ternos do cunhado fitos nele, pegou no papel e leu-o.
Vejo que a minha presença lhe é desagradável; por mais penosa que me seja reconhecê-lo, é isto que verifico e que não pode ser de outra maneira. Não a censuro de nada. Só Deus sabe que durante a sua doença tomei a firme resolução de esquecer o fossado e de principiar vida nova. Não me arrependo, nunca me arrependerei do que então fiz. Mas era a sua salvação, a salvação da sua alma que eu desejava, e verifico que o não consegui. Peço lhe que me diga o que lhe poderia restituir a paz e a felicidade. Desde já me submeto ao sentimento de justiça que porventura guiar a sua decisão.
Stepane Arkadievitch voltou a entregar a carta ao cunhado e continuou a observá-lo cheio de perplexidade, sem saber que dizer. Aquele silêncio era penoso para os dois. Os lábios de Oblonski tremiam.
— Aqui tem o que eu queria fazer lhe saber — pronunciou, enfim, Karenine, voltando-se.
— Sim... sim... — balbuciou Stepane Arkadievitch, que sentia um soluço na garganta — Sim — pôde, finalmente, dizer —, compreendo.
— Que quer ela?, eis o que eu gostaria de saber.
— Receio que nem ela própria o saiba Ela não pode ser juiz na questão — disse Oblonski, procurando dominar se — Está arrasada, literalmente arrasada pela grandeza da tua alma Se ela ler a tua carta, será incapaz de responder e não fará senão vergar ainda mais a cabeça.
— Mas então que hei de eu fazer? Como explicar lhe? Como conhecer-lhe os desejos? — Se me autorizas a emitir a minha opinião, a ti compete apontares claramente as medidas que achas susceptíveis de resolver de vez a situação.
— Por conseguinte, entendes que é preciso resolver de vez a situação? — interrompeu Karenine — Mas como? — acrescentou, passando a mão por diante dos olhos, num gesto seu habitual — Não vejo saída possível...
— Todas as situações têm uma saída — disse Oblonski, levantando-se e arrumando-se a pouco e pouco — Pensaste outrora no divórcio Se estás convencido de que a felicidade é impossível entre vocês.
— Pode conceber-se a felicidade de maneiras muito diferentes Admitamos que aceito tudo — como vamos nós sair desta situação?
— Queres a minha opinião — disse Stepane Arkadievitch com o mesmo sorriso untuoso que tivera para a irmã. E esse sorriso era tão persuasivo que Karenine, cedendo à fraqueza que o invadia, sentiu-se inteiramente predisposto a acreditar em tudo o que o cunhado lhe dissesse. — Ela nunca dirá o que quer. Mas não pode desejar senão uma coisa romper os laços que lhe lembram cruéis recordações. Na minha opinião, é indispensável tornar as suas relações mais claras, o que não pode conseguir-se senão retomando cada um de vocês a sua respectiva liberdade.
— O divórcio! — interrompeu com repugnância.
— Sim, acho que sim, o divórcio sim, é isso mesmo, o divórcio — repetiu Stepane Arkadievitch, corando — A todos os títulos é o partido mais sensato, quando dois cônjuges se encontram na situação em que vocês se encontram. Que se há-de fazer, quando a vida em comum se torna intolerável? E isso são coisas que acontecem muitas vezes Alexei Alexandrovitch soltou um profundo suspiro e tapou os olhos com as mãos.
— Só há uma coisa a ter em consideração quererá um dos dois cônjuges, sim ou não, contrair novo matrimônio? Se a resposta é não, o divórcio não oferece dificuldade alguma — continuou Stepane Arkadievitch cada vez mais à vontade.
Alexei Alexandrovitch, a fisionomia conturbada pela emoção,
murmurou qualquer coisa entre dentes, mas não respondeu. Aquilo que a Stepane Arkadievitch se lhe afigurava tão simples já ele o pensara milhares de vezes. E não só o não considerava simples, mas completamente impossível. O divórcio, cujos pormenores conhecia já, parecia-lhe impossível agora, porque o sentimento da sua própria dignidade e o respeito pela religião não lhe permitiam assumir a responsabilidade de um adultério fictício e muito menos ainda tolerar que a sua própria mulher, a quem perdoara e a quem amava, viesse a ser considerada culpada e vilipendiada. O divórcio parecia-lhe impossível, além disso, por outros motivos ainda mais importantes.
Que seria de seu filho se se divorciasse? Era impossível deixá-lo com a mãe. A mãe, divorciada, constituiria uma família ilegítima, em que a situação do enteado não poderia deixar de ser má. Ficar ele com o filho? Seria vingança da sua parte e não desejava vingar-se. E sobretudo parecia-lhe o divórcio impossível, pois, consentindo nele, tornar se ia responsável da perdição de Ana. Tinham-lhe calado fundo na alma as palavras que lhe dissera Daria Alexandrovna em Moscovo, quando lhe fizera ver que, pedindo o divórcio, só em si próprio pensava, provocando desse modo a definitiva perdição da mulher. Relacionando essas palavras com o facto de ter perdoado e o carinho que sentia pelas crianças, interpretava as agora à sua maneira. Se consentisse no divórcio, deixava Ana completamente livre, isto é, rompia os últimos laços que o prendiam à vida — as crianças a quem tanto queria —, acabava com o último apoio com que contava no caminho do bem, empurrando-a para o abismo. Uma vez divorciada, Karenine tinha a certeza de que Ana se lançaria nos braços de Vronski, tornando se ilegítimas e culposas as suas relações, visto que, segundo a lei da Igreja, a mulher não pode ter outro marido enquanto viver o primeiro «Ana juntar-se á com ele, um ou dois anos depois Vronski abandona-la-á ou ela passará a ter relações com outro», pensava Alexei Alexandrovitch «E eu, consentindo nesse divórcio lícito, serei o responsável da sua perdição.» Karenine pensara em tudo isto milhares de vezes e estava convencido de que o problema do divórcio não só não era simples, como afirmara o cunhado, mas mesmo impraticável. Embora não acreditasse nas palavras de Oblonski e tivesse muitas objecções a fazer-lhe, ouvia-o, certo de que nessas palavras se traduzia aquela força poderosa e trivial que lhe orientava a vida e a que teria de submeter-se.
— Só resta saber agora as condições em que consentes no divórcio. Ela nada quer. Nada se atreve a pedir-te e submeter-se-á à tua magnanimidade.
«Meu Deus! Meu Deus! Por que me castigas assim?», suspirou Alexei Alexandrovitch, recordando-se dos pormenores do divórcio em
que o marido tomava a responsabilidade, e, num gesto idêntico ao de Vronski, tapou o rosto com as mãos, tamanha a vergonha que sentia.
— Estás perturbado, compreendo o perfeitamente. Mas, se pensares bem...
«Oferece a face esquerda a quem te esbofetear a direita e dá a camisa a quem te tiver tirado o cafetã», pensou Alexei Alexandrovitch.
— Sim, sim — exclamou em voz aguda — A vergonha será minha, ceder-lhe-ei mesmo o meu filho, mas não será melhor que deixemos isso? De resto, faz o que tu quiseres.
E, voltando as costas ao cunhado, de molde a não o ver, sentou se numa cadeira junto à janela. Sentia amargura e uma grande vergonha, se bem que ao mesmo tempo o tomassem a alegria e o enternecimento que vinham da consciência da sua própria humildade.
Stepane Arkadievitch estava comovido Permanecia calado.
— Alexei Alexandrovitch, acredita. Ana saberá apreciar a tua magnanimidade — disse, por fim — Esta é a vontade divina — acrescentou, e, ao pronunciar estas palavras, percebendo que dissera uma tolice só a muito custo conseguiu reprimir um sorriso.
Karenine quis responder-lhe qualquer coisa, as lágrimas, porém, embargaram-lhe a voz.
— É uma desgraça fatal e o remédio é aceitá-la. Aceito-a como um facto consumado e procurarei ajudá-los a ambos — disse Stepane Arkadievitch.
Quando saiu do escritório do cunhado, embora se sentisse comovido, também experimentava uma certa alegria, a alegria de ter conseguido resolver a situação com pleno êxito, persuadido como estava de que Alexei Alexandrovitch nunca voltaria com a palavra atrás. E a uma tal situação vinha associar-se a ideia de que, uma vez tudo aquilo acabado, poderia dizer à mulher e aos amigos íntimos: «Onde está a diferença entre mim e um marechal de campo? Pois bem: enquanto um marechal de campo comanda uma parada sem benefício para ninguém, eu consigo um divórcio com que se beneficiam três pessoas. Ou então, em que é que nos parecemos, um marechal de campo e eu?... Quando... Bom, há-de ocorrer qualquer coisa melhor», concluiu para si mesmo, sorrindo.
A ferida de Vronski era perigosa, embora a bala não tivesse atingido o coração. Durante alguns dias esteve entre a vida e a morte.
Quando pôde falar pela primeira vez, só Vária, a mulher do irmão, se encontrava à sua cabeceira.
— Vária — disse Vronski, fitando-a com uma expressão grave —, a arma disparou-se por casualidade. Peço-te que digas isso mesmo a todos e que não faças comentários. De outra forma, seria demasiado estúpido.
Sem lhe responder, Vária debruçou-se para ele e fitou-o com um sorriso de contentamento. Os olhos de Vronski estavam claros, não febris, mas a expressão era grave.
— Louvado seja Deus! — exclamou Vária. — Dói-te alguma coisa?
— Aqui, um bocado — e Vronski apontou a arca do peito.
— Então, vou mudar-te o penso.
Vronski, em silêncio, comprimia as fortes mandíbulas, enquanto Vária lhe mudava o penso. Quando acabou, Vronski disse-lhe:
— Não estou a delirar. Peço-te que procures que se não diga que disparei deliberadamente.
— Ninguém diz semelhante coisa. Mas espero que não voltes a disparar sem querer — comentou Vária, interrogativa, com um sorriso.
— É provável que o não faça, embora tivesse sido melhor...
E Vronski sorriu tristemente.
Apesar destas palavras e do sorriso que as sublinhou, coisa que tanto assustou Vária, logo que a inflamação decresceu e principiou a melhorar, Vronski sentiu que se libertara por completo de uma parte das suas.
Jogo de palavras: em russo, divórcio e parada designam-se com o mesmo termo: aflições. Com o acto que praticara, afigurava-se-lhe ter sanado a vergonha e a humilhação por que passara. Agora podia pensar tranqüilamente em Alexei Alexandrovitch. Reconhecia-lhe a grandeza de alma e já não se sentia humilhado. Aliás, entrou de novo na engrenagem da sua vida anterior. Admitia a possibilidade de fitar as pessoas nos olhos sem pejo e de retomar a sua vida habitual de acordo com os princípios que a regiam. A única dor que não podia arrancar do coração, apesar da luta que constantemente travava contra esse desesperado sentimento, era a dor de ter perdido Ana para sempre. Resolvera, firmemente, que uma vez que expiara a sua falta perante Karenine, devia renunciar a Ana e não mais se interpor entre a mulher arrependida e o marido. Não conseguia, porém, arrancar do coração a mágoa que lhe causava a perda desse amor nem esquecer de todo os momentos felizes passados com Ana, momentos que tão pouco apreciara então e agora o perseguiam com todo o seu
sortilégio. Serpukovski conseguiu que lhe oferecessem uma missão em Tachkent, e Vronski aceitou-a sem vacilar. Mas à medida que se aproximava a data da partida mais penoso se lhe revelava o sacrifício que fazia no altar do dever.
A ferida curou-se. Vronski já saía de casa para tratar dos preparativos da jornada.
«Vê-la ainda uma vez, e depois enterrar-me, morrer!», pensava. Quando foi despedir-se de Betsy disse-lhe isso mesmo.
Com essa embaixada deslocou-se Betsy a casa de Ana e de lá voltou com resposta negativa.
«Tanto melhor», murmurou Vronski com os seus botões, ao receber a resposta. «Era uma fraqueza que me teria consumido as últimas forças.» No dia seguinte, pela manhã, Betsy foi a casa de Vronski. Comunicou-lhe que recebera, por intermédio de Stepane Arkadievitch, a certeza de que Karenine consentia no divórcio e que, portanto, ele podia encontrar-se com Ana.
Sem se preocupar sequer em conduzir Betsy até à porta, esquecido de todas as resoluções que tomara e sem inquirir quando podia visitar Ana e onde estaria o marido, dirigiu-se imediatamente a casa dos Karenine. Subiu a escada correndo, sem ver nada nem ninguém, e, em passo rápido, incapaz de o reprimir, penetrou nos aposentos de Ana. Não procurou saber se havia ou não alguém no quarto e estreitou Ana nos braços, cobrindo-lhe de beijos o rosto, as mãos e o colo. Ana tinha estudado a forma de o receber e pensara no que lhe diria; ele, contudo, não lhe deu tempo para nada. A paixão de Vronski apoderou-se dela também. Teria querido aquietá-lo e aquietar-se a si própria, mas já era tarde. O sentimento de Vronski comunicara-se-lhe. De tal modo lhe tremiam os lábios, que por muito tempo não pôde dizer nada. — Sim, conquistaste-me, sou tua — pronunciou, finalmente, apertando contra o seio as mãos de Vronski.
— Tinha de ser assim — replicou este. — Enquanto vivermos terá de ser assim. Agora tenho a certeza.
— É verdade — confirmou Ana, empalidecendo cada vez mais e enleando a cabeça de Vronski. — No entanto, há qualquer coisa de terrível em tudo isto, depois do que se passou.
— Tudo passará, tudo passará, e seremos felizes. O nosso amor, se pudesse crescer, cresceria, pois há nele qualquer coisa de terrível — replicou Vronski, levantando a cabeça e mostrando os fortes dentes na boca que sorria.
E Ana não pôde deixar de responder com um sorriso, não às
palavras de Vronski, mas aos seus olhos enamorados. Pegou-lhe numa das mãos e com ela afagou a sua própria face muito fria e os seus cabelos curtos.
— Não te reconheço com esses cabelos cortados. Estás muito melhor. Pareces um garoto. Mas que pálida! — Sim, estou muito fraca — respondeu Ana, sorrindo. E de novo lhe tremeram os lábios.
— Iremos a Itália. Restabelecer-te-ás.
— Será possível que possamos viver como marido e mulher, os dois sós, uma família? — perguntou Ana, fitando-o nos olhos, muito próximo dele.
— A única coisa que me surpreende é que alguma v«z tenha podido ser de outra maneira.
— Stiva disse que ele consente em tudo, mas não posso aceitar a sua. magnanimidade — tornou Ana, olhando-o, pensativa, mais para além de Vronski. — Não quero pedir o divórcio. Agora é o mesmo para mim. Só não sei o que ele irá decidir a respeito de Seriocha.
Vronski não compreendeu que Ana, durante aquela entrevista, pudesse pensar no filho e no divórcio. Porventura teria isso alguma importância? — Não fales em semelhante coisa, não penses nisso — disse-lhe, pegando-lhe na mão e procurando distraí-la. Mas Ana continuou sem olhar para ele.
— Oh! Porque não morri eu? Teria sido melhor! — exclamou ela, e lágrimas silenciosas lhe deslizaram pelo rosto. No entanto, procurou sorrir para não entristecer Vronski.
Até então, Vronski teria julgado impossível subtrair-se à lisonjeira e perigosa missão de Tachkent. Agora, pelo contrário, recusou-a sem hesitar. E ao dar-se conta de que a recusa fora mal interpretada nas altas esferas, pediu a exoneração.
Um mês depois, Alexei Alexandrovitch ficava só com o filho, enquanto Ana partia para o estrangeiro na companhia de Vronski, depois de ter renunciado definitivamente ao divórcio.