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Ana Karenina
(Quarta PARTE)

Leon Tolstoi

CAPÍTULO I

Os Karenine, marido e mulher, continuavam a viver na mesma casa e a ver-se todos os dias, mas completamente alheios um ao outro. Alexei Alexandrovitch impôs-se a si próprio como norma ver diariamente a mulher, para evitar que os criados desconfiassem do que se passava, mas procurava não jantar em casa. Vronski nunca os visitava; Ana via-o fora de casa e Alexei Alexandrovitch sabia-o.

A situação era penosa para os três e ninguém a teria suportado um só dia sem a esperança de que mudaria afinal, que era uma dificuldade passageira e amarga que não ia durar sempre. Karenine estava convencido de que aquele caso acabaria como acaba tudo, que todos esqueceriam essa bela paixão e que o seu nome ficaria sem mácula. Ana, de quem a situação dependia e para quem ela era mais penosa do que para ninguém, suportava-a; não só porque esperava, mas por estar mesmo firmemente convencida de não tardar muito um desenlace. Não sabia como ia dar-se esse desenlace, mas tinha a certeza de que seria para breve.

Em meados do Inverno, Vronski passou uma semana muito enfadonha. Apresentaram-no a um príncipe estrangeiro que chegara a Sampetersburgo e a quem devia mostrar todas as coisas interessantes da cidade. Escolheram-no a ele porque Vronski tinha boa presença, possuía a arte de comportar-se com respeito e dignidade e estava habituado a tratar com pessoas de estirpe. Mas aquela missão foi para ele aborrecidíssima. O príncipe não queria deixar de ver na Rússia, com interesse, nenhuma daquelas coisas a respeito das quais o poderiam interrogar de regresso à pátria. Além de que desejava aproveitar o mais possível todos os divertimentos russos. Vronski tinha de o orientar nos dois aspectos. Pela manhã saíam a visitar as curiosidades e à noite tomavam parte nos divertimentos locais. O príncipe desfrutava de uma saúde extraordinária, incluso entre os príncipes. Graças à ginástica e muitos cuidados corporais, chegara a ter tanta força que, apesar dos excessos a que se entregava, parecia tão fresco que lembrava um grande pepino holandês muito brilhante. Farto de viajar, era de opinião que uma das vantagens das modernas comunicações estava em poder uma pessoa aproveitar todas as diversões típicas. Estivera em Espanha, onde fizera serenatas e conhecera

uma espanhola que tocava guitarra. Na Suíça, matara uma camurça. Em Inglaterra, de gabinardo vermelho, montara a cavalo, saltara barreiras e numa aposta matara duzentos faisões. Na Turquia, visitara um harém; na Índia montara elefantes, e agora, na Rússia, queria saborear todos os prazeres típicos.

A Vronski, espécie de mestre-de-cerimônias do príncipe, dava-lhe muito trabalho organizar todas as diversões que diferentes pessoas lhe ofereciam. Houve passeios a cavalo, blini, caçadas aos ursos, troikas, ciganas e banquetes, nos quais, de acordo com o costume russo, se quebrava toda a louça. O príncipe adaptou-se ao ambiente russo com extraordinária facilidade, partia bandejas, sentava as ciganas nos joelhos e parecia perguntar se não havia mais que fazer e se naquilo se resumia o espírito eslavo. Realmente, de todos os prazeres russos aquele que mais agradou ao príncipe foram as artistas francesas: uma bailarina e o champanhe de rótulo branco. Vronski estava habituado a conviver com príncipes, mas a verdade é que, ou porque ultimamente mudara muito ou por ter conhecido este príncipe demasiado de perto, aquela semana foi-lhe particularmente penosa. Durante toda ela experimentou um sentimento semelhante ao de um homem que acompanha um louco perigoso e teme ao mesmo tempo o louco e perder a razão no convívio com ele. Constantemente sentia a necessidade de não afrouxar um segundo que fosse o tom severo de respeito protocolar, para não se ver ofendido. O príncipe tratava de alto até as próprias pessoas que, com grande surpresa do seu guia, se punham de rastos para lhe proporcionar «prazeres nacionais». As coisas que dizia acerca da mulher russa, que se dignara estudar, levaram mais de uma vez o jovem oficial a corar de indignação. No entanto o que mais o irritava era encontrar naquela criatura como que um reflexo de si próprio, e esse espelho não lhe era nada lisonjeiro. A imagem que tinha diante dos olhos era a de um homem saudável, muito asseado, muito tolo e muito convencido de si mesmo. Nada mais. Certo é que era um fidalgo, coisa que Vronski não podia negar. Mostrava-se lhano e não adulava os superiores, era natural e simples no trato com os iguais e altivamente benévolo para com os inferiores. Vronski também assim era e considerava isso um mérito, mas como, relativamente ao príncipe, lhe era inferior, indignava-o o tratamento depreciativamente bondoso que ele lhe dispensava.

«Estúpido animal! É impossível que eu também seja assim!», pensava Vronski. Por isso mesmo, quando, no sétimo dia, se despediu dele na altura de o príncipe sair para Moscovo, ao ouvi-lo exprimir-lhe os seus agradecimentos muito feliz se sentiu por se ver livre, tanto da indesejável situação, como do desagradável espelho. Separaram-se numa

Uma comida típica.

estação, no regresso de uma caçada ao urso, em que a valentia russa pudera exibir-se à noite inteira.

CAPÍTULO II

Ao voltar a casa, Vronski encontrou um bilhete de Ana. Dizia-lhe:

Estou doente e sinto-me muito infeliz. Não posso sair, mas também não posso viver sem ver-te. Vem esta noite. Às sete Alexei Alexandrovitch na ao Conselho, onde ficará até às dez.

Vronski pensou um momento no que havia de estranho em Ana o convidar para sua casa, apesar da proibição do marido, mas decidiu ir. Aquele Inverno, Vronski, promovido a coronel, deixara o regimento e vivia só. Depois do almoço estendeu se num divã. Cinco minutos depois a lembrança das cenas grotescas que presenciara nos últimos dias confundira se com as imagens de Ana e do mujique que desempenha o papel mais importante de batedor na caçada ao urso e adormeceu Acordou nas trevas, tremendo de susto, e acendeu precipitadamente a vela «Que foi? Que foi! Que foi isto de tão terrível que eu sonhei? Ah! Sim, parece que o mujique da caçada, aquele homem pequeno, sujo, de barbas desgrenhadas, fazia qualquer coisa meio inclinado e de súbito pôs se a dizer umas palavras estranhas em francês. Foi isto que eu sonhei», disse de si para consigo «Mas por que me pareceu isto tão medonho?» Lembrou-se de novo do mujique e das palavras incompreensíveis que ele dissera em francês e um frêmito de pavor lhe percorreu a espinha «Que tolice!», pensou, e olhou para o relógio. Eram oito e meia da noite. Chamou o criado, vestiu se apressadamente e precipitou se na escada, esquecido por completo do sonho e apenas preocupado por ir chegar tarde. À porta dos Karenines, olhou para o relógio. Eram nove menos dez. Junto à escada do alpendre estava parado um carro, alto e estreito, tirado por dois cavalos cinzentos. Vronski reconheceu a carruagem de Ana «Devia ir a minha casa», pensou, «e tinha sido melhor. É-me desagradável entrar aqui. Mas é o mesmo, não me posso esconder» E com a desenvoltura adquirida na infância, de homem que não quer envergonhar se de nada, Vronski apeou-se do trenó e aproximou-se da porta Esta abriu-se e o porteiro, com uma manta de viagem na mão, chamou a carruagem. Vronski, por pouco observador que fosse, logo notou, contudo, a surpresa com que o porteiro o olhou. Nessa mesma

porta tropeçou com Alexei Alexandrovitch em carne e osso. A luz do gás iluminava-lhe o rosto, exangue e abatido, entre as abas do chapéu preto e a gravata branca que brilhava no meio das bandas do casaco de pele de castor. Os olhos imóveis e turvos de Karenine cravaram-se no rosto de Vronski. Este cumprimentou-o e Alexei Alexandrovitch moveu os lábios, como se mastigasse qualquer coisa, descobriu-se e seguiu Vronski viu que, sem voltar a cabeça, Karenine subia para o carro e pela portinhola recebia a manta de viagem e o binóculo que lhe apresentava o porteiro, desaparecendo depois Vronski entrou na antessala. Tinha as sobrancelhas franzidas e os olhos brilhavam-lhe com orgulho e animosidade.

«Que situação», pensou «Se se tivesse batido em duelo comigo, defendendo a sua honra, eu teria podido agir, teria podido exprimir os meus sentimentos. Mas esta debilidade ou esta infâmia coloca-me na situação de um velhaco, coisa que nunca quis nem quero ser» Desde a sua entrevista com Ana perto do jardim da Vrede, mudara de idéias. Involuntariamente submetia-se às debilidades de Ana, que se entregava toda a ele, esperando apenas vê-lo decidir da sua sorte, resignada a tudo de antemão. Havia muito tempo já que Vronski deixara de pensar que as suas relações poderiam terminar como anteriormente supunha. Os seus sonhos de ambição, renunciara a eles de novo, e cedia à violência da paixão que cada vez o arrastava mais para aquela mulher.

Já na antecâmara, Vronski ouviu os passos de Ana que se afastavam. Compreendeu que o aguardava, que estivera de ouvido às escuta e que voltava agora ao salão.

— Não! — exclamou Ana, ao vê-lo, e mal soltara esta exclamação, as lágrimas vieram-lhe aos olhos — Não! Se isto continua assim, o que tem de ser será, e mais depressa do que se espera.

— Que aconteceu, querida?

— Que aconteceu? Que estou à tua espera, que há duas horas estou numa tortura. Mas não, não me quero zangar contigo. Se não vieste mais cedo é porque alguma coisa de muito sério te não permitiu! Não, não ralharei contigo.

Ana pousou-lhe ambas as mãos nos ombros e olhou para ele um longo espaço de tempo com um olhar profundo e exaltado, posto que ao mesmo tempo perscrutador. Estudava o rosto de Vronski pelo tempo em que estivera sem o ver Em todas as entrevistas confundia a impressão imaginária que dele guardava (incomparavelmente melhor e impossível para ser verdadeira) com o que ele era na realidade.

CAPÍTULO III

— Encontraste-te com ele? — perguntou, quando se sentaram junto à mesa, debaixo do candeeiro — Aí tens o castigo por teres chegado tarde.

— Sim, mas que aconteceu? Não tinha de assistir ao Conselho?

— Esteve lá, mas voltou. Agora foi-se embora outra vez. É o mesmo. Não fales disso. Onde tens estado? Sempre com o príncipe? Ana conhecia todos os pormenores da vida de Vronski. Ele quis responder lhe que, como não dormira de noite, fora surpreendido pelo sono em pleno dia, mas, ao ver lhe a expressão agitada e feliz, receou dizer-lhe a verdade. Disse então que se vira obrigado a apresentar um relatório longo após a partida do príncipe.

— Mas acabou tudo? Foi-se embora?

— Foi, graças a Deus, já não podia mais, podes crer.

— Porquê? Não é essa a vida que vocês, homens novos, levam habitualmente? — disse Ana, de sobrolho franzido, pegando, sem olhar para Vronski, num crochet que tinha em cima da mesa.

— Há muito tempo que me deixei dessa vida — replicou Vronski, surpreendido com a mudança que se operara no rosto de Ana e procurando compreender o que isso significava. — Confesso-te — continuou, sorrindo, e mostrando os seus belos dentes brancos — que durante esta semana me vi nessa vida como que num espelho e com que desprazer! Ana tinha o trabalho nas mãos, mas não fazia nada, fitando Vronski com os olhos estranhos e brilhantes e uma expressão hostil.

— Esta manhã esteve aqui a Lisa Ainda vem a minha casa, apesar da condessa Lídia Ivanovna — observou Ana — e falou me na vossa noite de orgia. Que horror! — Pensava exactamente dizer-te Ana interrompeu-o.

— Já conhecias essa Thérèse?

— Queria dizer-te.

— Que odiosos vocês são, os homens! Como podem vocês supor que uma mulher esqueça essas coisas? — disse ela, exaltando se cada vez mais e revelando-lhe, assim, a causa da sua irritação — Sobretudo uma mulher que, como eu, da tua vida só pode saber aquilo que tu lhe queiras dizer. E como poderei eu saber que me disseste a verdade? — Ana! Ofendes-me! Pois não acreditas em mim? Não te disse já que não há um pensamento que te não confie?

— Sim, sim — replicou ela, procurando jugular os ciúmes que sentia — Mas se soubesses o que eu sofro. Acredito, acredito. Bom, que estavas a dizer? Vronski, porém, não pôde lembrar se do que estava a dizer. Aqueles acessos de ciúme, que ultimamente acometiam Ana com mais freqüência, horrorizavam-no. Claro que ainda eram provas de amor, mas nem por isso o assustavam menos e, conquanto ele não lho mostrasse, arrefeciam o amor que sentia por ela. Muitas vezes dissera para si mesmo que o amor de Ana constituía para ele a felicidade, e agora, que ela o amava como pode amar uma mulher que tudo sacrificou à sua paixão, sentia-se mais longe da felicidade do que na época em que abandonara Moscovo para a seguir. É que então uma promessa de felicidade brilhava no meio do seu infortúnio, enquanto que, presentemente, os dias de felicidade pertenciam ao passado. Uma grande mudança, tanto física como moral, se verificara em Ana. Ganhara carnes e, por vezes, como havia momentos, ao falar da actriz, uma expressão de ódio lhe alterava a fisionomia Vronski olhava a agora como se olha para uma flor murcha, em que não encontrava já a beleza que o levara a colhê-la. No entanto, se era certo que outrora, por um esforço de vontade, seria capaz de arrancar aquele amor do coração, agora, pensando embora que lhe queria menos, sentia-se como que acorrentado para sempre àquela mulher.

— Bom, que me querias tu dizer do príncipe? — voltou Ana — Fica descansado, já corri com o demônio (assim denominavam entre si ao ciúme) Que me contavas tu do príncipe? Por que te desagradou ele? — É insuportável — retorquiu Vronski, procurando apanhar o fio do pensamento. — Nada ganha em ser conhecido de perto. Só o posso comparar com um desses animais muito nédios que ganham medalhas nas exposições — acrescentou, com uma repugnância que interessou Ana.

— Que estás a dizer? — voltou ela — No entanto é um homem instruído, que tem viajado muito.

— A instrução dessa gente não é igual à nossa. Dir-se-ia que não adquiriu instrução senão para ter o direito de a desprezar, como, aliás, despreza tudo, salvo os prazeres bestiais.

— Mas não gostam vocês todos desses prazeres bestiais? — interrompeu Ana.

E Vronski de novo reparou no seu olhar sombrio que evitava encontrar se com o dele.

— Porque o estás a defender assim? — perguntou ele, sorrindo.

— Eu não o defendo, é-me demasiado indiferente para isso. Mas se essa vida te desagradava tanto como dizes, podias bem, acho eu, ter

arranjado uma desculpa qualquer. Mas não, Sua Excelência sente prazer em mirar essa tal Thérèse vestida de Eva.

— Lá vem outra vez o demônio! — disse Vronski, pegando, para beijar, a mão que Ana pousara em cima da mesa.

— Sim, pode mais do que eu? Não calculas o que eu sofri enquanto te esperava? No fundo, não sou ciumenta quando estás a meu lado acredito em ti, mas quando tu levas, não sei onde, só Deus sabe que vida.

Voltou se e apoderando se, finalmente, do crochet, pôs se a trabalhar, movendo o dedo indicador, que ia deixando cair, uma atrás das outras, as malhas de lã branca que brilhavam à luz do candeeiro. E a mão fina movia se lhe rápida e nervosa na manga bordada.

— Onde encontraste tu Alexei Alexandrovitch? — articulou em seguida a sua voz pouco natural.

— Cruzámo-nos à porta da rua.

— E ele cumprimentou-te, mesmo assim?

Estendeu o rosto, semicerrou os olhos, cruzou os braços e de tal sorte alterou a expressão do rosto que Vronski reconheceu imediatamente Alexei Alexandrovitch. Ele sorriu e Ana soltou uma gargalhada, uma dessas gargalhadas frescas e sonoras, que eram um dos seus encantos.

— Decididamente não o compreendo — disse Vronski. — Se depois da explicação que tiveste com ele este Verão na casa de campo tivesse rompido contigo, se me tivesse desafiada para um duelo, achava natural; mas, assim, não o entendo. Como pode ele suportar uma situação destas? E no entanto vê-se que sofre.

— Ele? — disse Ana com ironia. — Está muito satisfeito.

— Porque havemos nós de andar atormentados, se as coisas se podiam resolver tão facilmente? — Não com ele. Porventura não conheço eu a mentira em que ele está todo mergulhado?... Se houvesse nele algum sentimento, poderia viver como vive comigo? Não entende nem sente nada. Viver sob o mesmo tecto com a mulher culpada! Falar com ela, tratando-a por tu! Involuntariamente Ana tornou a imitá-lo: «Tu, ma chère , tu, Ana.»

— Não é um ser humano; não é um homem, é um boneco.

Ninguém mais o sabe, mas eu sei-o. Oh! Se eu estivesse no lugar dele, há muito teria despedaçado uma mulher como eu em vez de lhe dizer: «Tu,

Minha querida.

ma chère, Ana.» Não é um homem, é um autômato ministerial. Não compreendeu que eu sou tua mulher, que ele é um estranho, que está a mais... Não falemos, não falemos mais nele!...

— Não tens razão, querida—disse Vronski, procurando acalmá-la.— Mas é o mesmo, não falemos mais nele. Conta-me que fizeste estes dias. Que tens? Que doença é essa? Que disse o médico? Ana olhava-o com uma alegria irônica. Devia ter-se lembrado de outros aspectos ridículos e grotescos do marido e esperava a oportunidade de falar deles.

Mas Vronski prosseguia:

— Calculo que se não trata de uma doença, mas do teu estado. Quando será? O brilho irônico desapareceu dos olhos de Ana, mas veio substituí-lo outro sorriso, indício de que havia alguma coisa que ele ignorava, e uma tristeza suave.

— Pronto, pronto. Dizias que a nossa situação é atormentadora e que precisamos de a esclarecer. Se soubesses o quanto me é penosa e o que eu daria para poder amar-te livre e abertamente! Não sofreria nem te faria sofrer com os meus ciúmes... E isso acontecerá breve, mas não como imaginamos.

E perante a ideia de como isso iria acontecer, Ana sentiu-se tão infeliz que as lágrimas lhe subiram aos olhos e não pôde continuar. Pousou na mesa uma das mãos que brilhava sob a luz do candeeiro, na sua brancura e nos seus anéis.

— As coisas não acontecerão como pensamos. Não queria falar-te disso, mas tu mesmo me obrigaste a fazê-lo. Breve, muito breve, se resolverá tudo, tranqüilizar-nos-emos todos e não sofreremos mais.

— Não entendo — replicou Vronski.

— Perguntaste-me quando? Dentro de pouco. Mas será o fim. Não me interrompas!— E Ana falou depressa. — Sei-o de certeza. Vou morrer e muito contente me sinto de vos deixar livres aos dois.

As lágrimas brotaram-lhe dos olhos; Vronski inclinou-se sobre a mão dela e pôs-se a beijá-la, procurando dominar a emoção, que sabia sem fundamento, mas não podia vencer.

— Assim será melhor — disse Ana, apertando-lhe a mão num movimento enérgico. — É a única coisa que nos resta. Vronski dominou-se e levantou a cabeça.

— Que tolice! Que disparate estás a dizer!

— É verdade.

— Que é verdade?

— Que vou morrer. Tive um sonho.

— Um sonho? — repetiu Vronski, e recordou, de súbito, o mujique com quem sonhara.

— Sim, um sonho — disse Ana. — Foi um sonho que tive há muito tempo. Sonhei que entrava correndo no meu quarto de dormir, onde tinha de ir buscar qualquer coisa e informar-me não sei de quê; já sabes como são os sonhos — continuou, de olhos muito abertos, horrorizada. — E ali, no meu quarto, a um canto havia...

— Oh! Que tolice! Como podes tu acreditar...? Mas Ana não deixou que ele a interrompesse. Era importante demais para ela o que estava a dizer.

— Isso que estava a um canto voltou-se e eu pude ver então que era um mujique pequeno e terrível, de barba desgrenhada. Quis fugir, mas o mujique inclinou-se sobre um saco e principiou a rebuscar lá dentro...

Ana fez o gesto de alguém que rebusca o interior de um saco. O horror pintava-se-lhe no rosto, e Vronski, lembrando-se do sonho que tivera, sentiu que esse mesmo horror lhe invadia a alma.

— O mujique remexia no saco e falava muito depressa em francês, fazendo esgares. Il faut battre le fer, le broyer, le pétrier... Quis acordar e acordei... mas em sonhos. Principiei a perguntar-lhe o que significava aquilo. E Kornei respondia-me: «Morrerá de parto, morrerá de parto, mãezinha...» — Que tolices! Que tolices! — repetiu Vronski, mas dava-se conta de que o tom da sua voz nada tinha de convincente.

— Não falemos mais nisso. Toca a campainha. Vou mandar servir o chá. Não, espera, parece-me que...

CAPÍTULO IV

Depois de se cruzar com Vronski à porta de casa, Alexei Alexandrovitch dirigiu-se à ópera italiana, como era sua intenção.

Ali esteve, assistindo a dois actos completos e falou com todas as pessoas que precisava de encontrar. Ao regressar a casa, mirou detidamente o bengaleiro, e, ao ver que não havia nele nenhum capote

É preciso bater o ferro, malhá-lo, modelá-lo.

militar, encaminhou-se, como sempre, para os seus aposentos. Mas, ao contrário do que era seu costume, não se deitou e continuou a passear pelo escritório até às horas da madrugada. Atormentava-o a ideia de que a mulher não tivesse respeitado a única condição que lhe impusera, a de não receber o amante, e a sua ira era grande. Visto que ela não acatara essa ordem, devia castigá-la, pôr em prática a ameaça que lhe fizera, pedir o divórcio e retirar-lhe o filho. Isto não era de fácil execução, mas por nada deste mundo queria deixar de cumprir o que a si próprio prometera. Aliás, a condessa Lídia achava que o divórcio era a melhor solução para uma situação tão delicada como aquela e ultimamente estava tão simplificado na prática o processo legal de divórcio que ele esperava poder iludir as dificuldades de forma. Depois, como uma infelicidade nunca vem só, o estatuto dos povos de outras raças e da irrigação dos campos da província de Zaraisk tantos desgostos lhe tinha dado que andava num estado de irritação permanente. Como não dormia de noite, a cólera ainda era maior durante o dia, e foi em estado de verdadeiro exaspero que na manhã seguinte se vestiu precipitadamente e se dirigiu aos aposentos da mulher, mal soube que ela estava levantada. Receava que a energia o abandonasse quando a irritação passasse e dir-se-ia levar segura com ambas as mãos a taça da ira, para que ela se lhe não entornasse pelo caminho.

Ana, que julgava conhecer o marido a fundo, ficou perplexa ao vê-lo entrar, de face carrancuda, os olhos tactiturnos e os lábios plenos de desprezo. Nunca lhe surpreendera expressão tão resoluta. Entrou sem lhe dar os bons-dias e foi direito à secretária, cuja gaveta abriu.

— De que precisas? — perguntou ela.

— Das cartas do seu amante — respondeu Karenine.

— Não estão aí — disse ela, precipitando-se para a gaveta. Mas este movimento fê-lo compreender que acertara no alvo, e, repelindo brutalmente a mão que ela estendera, apoderou-se da carteira onde Ana guardava os seus papéis importantes. Debalde tentou recuperá-la; o marido meteu-a debaixo do braço e de tal modo a apertou com o cotovelo que o ombro se lhe soergueu.

— Sente-se — disse-lhe ele. — Preciso de lhe falar. Ana relanceou-lhe um olhar de surpresa e susto.

— Não lhe tinha proibido que recebesse o seu amante em casa?

— Precisava de lhe falar para...

Ana calou-se, sem saber que inventar.

— Pouco me importam as razões pelas quais uma mulher precisa de falar ao seu amante.

— Eu queria apenas...—continuou ela, corando. Mas a grosseria do marido excitou-a e encheu-a de coragem. — Porventura não se dá conta de quanto lhe é fácil ofender-me? — Pode ofender-se uma pessoa honrada, uma mulher honrada, mas dizer a um ladrão que ele é um ladrão é apenas uma constatation d’un fait.

— Ainda não lhe conhecia esse novo traço de crueldade.

— Parece-lhe cruel que um marido conceda a liberdade à sua mulher, dando-lhe um tecto honrado, com a única condição de guardar as aparências? Chama a isso crueldade?

— É ainda pior, é uma vilania — gritou Ana, num acesso de indignação; e levantou-se para se retirar.

— Não! — gritou Karenine, na sua voz penetrante, que ressoou em tom mais agudo do que de costume.

Agarrando-a por um braço com os seus grossos dedos, com tanta força que os contornos da pulseira se lhe desenharam na carne, obrigou-a a sentar-se na cadeira.

— Uma vilania? Se quer empregar essa palavra, dir-lhe-ei que vilania é abandonar o marido e o filho pelo amante e continuar a comer o pão do marido.

Ana baixou a cabeça. Não só não disse o que na véspera dissera ao amante, que ele era seu marido e que o marido estava a mais, como nem sequer o pensou. Compreendeu quanto eram justas as palavras de Karenine e limitou-se a responder em voz baixa.

— Não pode julgar a minha situação pior do que eu própria a julgo. Mas por que me diz isso? — Para que lho digo? — continuou ele, colérico — Para que fique sabendo que a sua recusa a cumprir as condições que lhe impus, de guardar as conveniências, me obriga a tomar medidas que ponham ponto final a esta situação.

— Terminara por si mesma, e não tarda muito, não tarda muito — repetiu ela os olhos rasos de lágrimas, lembrando se da morte que adivinhava próxima, mas que presentemente lhe parecia desejável.

— Mais cedo mesmo do que a senhora e o seu amante imaginam! Precisa de satisfazer a sua paixão animal.

— Alexei Alexandrovitch? Pondo de lado toda a generosidade, acha conveniente bater numa pessoa que já está caída por terra?

A verificação de um facto.

— Oh! A senhora só pensa em si. O sofrimento do homem que foi seu marido não lhe dá cuidado. Pouco lhe importa que ele sofra, que a sua vida esteja trans transtornada.

Alexei Alexandrovitch falava tão depressa, na sua exaltação, que gaguejou. Este gaguejamento pareceu cômico a Ana, que imediatamente se censurou a si própria ser capaz de reparar em tal momento num pormenor ridículo. E pela primeira vez, durante um instante, se colocou no lugar do marido e teve pena dele. Mas que podia ela fazer ou dizer? Baixou a cabeça e ficou calada. Karenine também se calou durante um momento, e, ao retomar a palavra, o tom da sua voz já não era tão agudo, embora frio ainda. Repisava arbitrariamente algumas palavras sem significado especial.

— Vim para te dizer.

Ana olhou para ele. E lembrando se da expressão que julgara ver lhe no rosto ao ouvi-lo pronunciar a palavra «transtornada» «Não — pensou — Enganei me este homem, com estes olhos turvos, tão cheio de si mesmo nada pode sentir.»

— Não posso mudar nada — murmurou ela.

— Vim para lhe dizer que amanhã parto para Moscovo e não voltarei mais a esta casa. O advogado a quem encarregarei de tratar do divórcio comunicar-lhe-á as resoluções que eu tomar. Meu filho irá para casa de minha irmã — acrescentou, fazendo um esforço para se lembrar do que queria dizer a respeito da criança.

— Quer levar me o Seriocha para me fazer sofrer — disse Ana, mal olhando para ele — Não gosta dele, deixe o comigo.

— É verdade, até cheguei a perder o carinho que tinha por meu filho por causa da repulsa que a senhora me causa. No entanto, ficarei com ele. Adeus.

Quis sair, mas desta vez foi ela quem o deteve.

— Alexei Alexandrovitch, deixe-me o Seriocha — suplicou ela — Nada mais lhe peço. Vou ser mãe, deixe mo! Alexei Alexandrovitch corou, repeliu o braço que o retinha e saiu sem uma palavra mais.

CAPÍTULO V

A sala de espera do célebre advogado de Sampetersburgo estava

cheia quando Karenine entrou.

Havia três senhoras uma velha, uma rapariga e a mulher de um comerciante. E três homens um banqueiro alemão, com um grande anel no dedo, um homem de negócios de grandes barbas e um funcionário de aspecto rebarbativo, com o seu uniforme e uma condecoração ao peito. Deviam esperar há muito tempo. Dois escriturários trabalhavam sentados diante de duas mesas, cujas soberbas guarnições chamaram imediatamente a atenção de Alexei Alexandrovitch, grande apreciador daquele gênero de móveis. Um dos funcionários, sem se levantar e piscando os olhos, perguntou lhe com gravidade.

— Que deseja?

— Falar com o advogado.

— Está ocupado — replicou o escriturário no mesmo tom e, apontando com a pena as outras pessoas que esperavam, continuou a escrever.

— Não disporá de um momento para me receber? — perguntou Karenine.

— Não tem tempo. Está ocupado. Faça favor de esperar.

— Tenha a bondade de lhe entregar o meu cartão de visita — disse Alexei Alexandrovitch com dignidade, reconhecendo imprescindível abandonar o incógnito.

O escriturário pegou no cartão de visita e com um gesto de desaprovação desapareceu atrás da porta.

Alexei Alexandrovitch, em princípio, era partidário da reforma judiciária, mas criticava certos aspectos da sua aplicação, tanto mais tratando se de uma instituição sancionada pelo poder supremo. A sua longa prática administrativa tornava o indulgente para com o erro considerava o um mal inevitável, susceptível de ser remediado em qualquer altura. No entanto, sempre criticara as prerrogativas que esta reforma concedia aos advogados e o acolhimento que lhe faziam reforçava ainda mais a sua prevenção.

— Um momento — disse o escriturário, e, com efeito, passados dois minutos apareceu na ombreira da porta a alta figura de um velho jurista que acabava de consultar o advogado e o próprio advogado em carne e osso.

Este era um homem de pequena estatura, forte de constituição, calvo, de barba negra arruçada, grandes sobrancelhas claras e a testa abaulada. Desde a gravata e o duplo grilhão do relógio até aos sapatos de verniz, tudo nele era elegância, uma elegância de noivo de província. A

expressão era inteligente, de camponês, mas a indumentária vistosa e de mau gosto.

— Faça o favor — disse a Alexei Alexandrovitch. — E afastando-se para o deixar passar, com um ar cavernoso, fechou a porta.

— Queira sentar-se — acrescentou, indicando-lhe uma poltrona junto à secretária atulhada de papéis. Sentou-se na presidência, esfregou uma na outra as suas mãozinhas de dedos curtos, cobertos de pêlos, e inclinou a cabeça de lado para ouvir. Mas mal se sentara e ganhara aquela posição, logo se levantou com uma vivacidade inesperada para apanhar uma traça que voava por cima da mesa. Depois voltou a ocupar de novo a primitiva atitude.

— Antes de lhe expor o assunto que aqui me traz — disse Alexei Alexandrovitch, que seguia, surpreso, as evoluções do advogado —, quero pedir-lhe o mais absoluto segredo.

Um imperceptível sorriso soergueu os fartos bigodes arruçados do homem de leis.

— Se não soubesse guardar os segredos que me confiam, não seria advogado. No entanto, se precisa de uma garantia particular...

Alexei Alexandrovitch olhou-o e viu que os seus inteligentes olhos cinzentos se riam, como se soubessem tudo.

— Conhece o meu nome de família? — continuou Karenine.

— Sim, e também as suas úteis actividades — e de novo apanhou outra traça —, como todos os russos — concluiu, inclinando-se.

Alexei Alexandrovitch suspirou, a tomar coragem. Mas, uma vez decidido, prosseguiu, na sua aguda vozinha, sem se intimidar nem embaraçar, repisando algumas palavras.

— Tenho a infelicidade — principiou — de ser um marido enganado e desejo cortar legalmente os laços que me prendem a minha mulher, isto é, quero divorciar-me. Mas de tal maneira que meu filho não fique com a mãe.

Os olhos cinzentos do advogado fizeram um esforço para não rir, mas Alexei Alexandrovitch não pôde dar-se à ilusão de que brilhavam de uma alegria justificada apenas pela perspectiva de um bom cliente; era o brilho do entusiasmo, do triunfo, esse fogo sinistro que já notara nos olhos da mulher.

— Queria a minha colaboração para conseguir o divórcio?

— Precisamente, mas devo preveni-lo de que hoje se trata apenas de uma simples consulta. Quero manter-me dentro de certos limites e estou pronto a renunciar ao divórcio se este não puder conciliar-se com as

normas que desejo observar. É muito possível que se não coincidir com as minhas exigências eu desista da demanda legal.

— Oh! É sempre assim — replicou o advogado. — Depende de Vossa Excelência.

O advogado baixou os olhos, cravando-os nos pés de Karenine: compreendera que a sua incontida alegria podia ofender o cliente. Depois olhou para uma traça que lhe perpassou voando por diante do nariz e estendeu o braço, mas não a apanhou, para não incomodar Alexei Alexandrovitch.

— Embora conheça, nos seus traços gerais, as nossas leis referentes ao assunto — continuou Alexei Alexandrovitch —, gostava de saber as formas em que se realizam na prática tais processos.

— Deseja Vossa Excelência, portanto, que eu lhe exponha as vias possíveis para realizar os seus propósitos — respondeu o advogado, sem erguer os olhos, adaptando-se, não sem prazer, ao tom do cliente.

Ao ver o gesto de aprovação de Alexei Alexandrovitch, o advogado continuou, lançando de quando em quando um olhar furtivo ao rosto do cliente, onde a emoção estampara placas vermelhas.

— Segundo as nossas leis — disse, com um ligeiro matiz de desaprovação para o código russo — o divórcio é possível, como Vossa Excelência sabe, nos seguintes casos... Que esperem! — exclamou, dirigindo-se ao escriturário, que assomara à porta; mas, apesar disso, levantou-se e depois de trocar algumas palavras com o empregado, voltou a sentar-se. — Nos seguintes casos: defeitos físicos dos cônjuges, ausência, em lugar desconhecido, durante cinco anos — continuou, dobrando um dos seus curtos dedos penugentos — e adultério — pronunciou a palavra com visível prazer. — E temos as seguintes subdivisões — prosseguiu, dobrando os grossos dedos, embora os casos e as subdivisões, ao que parecia, não pudessem classificar-se juntos: — defeito físico do marido ou da mulher, adultério da parte de um dos dois — como já dobrara todos os dedos, desdobrou-os, continuando: — Isto no ponto de vista teórico, mas suponho que me deu a honra da sua visita para inteirar-se da aplicação prática. Por conseguinte, tendo em vista os antecedentes, devo comunicar-lhe que todos os casos de divórcio, excluindo aqueles em que não há defeito físico nem ausência em parte incerta, como no caso presente, resumem-se da seguinte maneira...

Alexei Alexandrovitch abanou a cabeça, assentindo.

— ...resumem-se, digo, do seguinte modo: adultério de um dos cônjuges, reconhecendo-se convicta a parte culpada, por acordo mútuo. E, no caso de não estarem de acordo, a apresentação de provas convincentes

por uma das partes. Devo acrescentar que este último caso raramente ocorre na prática — disse o advogado e, olhando de soslaio Alexei Alexandrovitch, ficou calado como um armeiro, feita a descrição das vantagens de duas armas distintas, que aguarda a escolha do comprador. Mas como Alexei Alexandrovitch se calava, o advogado prosseguiu:— O mais corrente, simples e sensato, em minha opinião, é pedir o divórcio, apresentando, de comum acordo, provas do adultério. Não me permitiria falar assim com um homem de escassa cultura — disse o advogado —, mas suponho que Vossa Excelência me compreende. Alexei Alexandrovitch tão perturbado estava que não compreendeu logo o que podia haver de sensato em apresentar provas de adultério de mútuo acordo e esse olhar traduzia a sua incompreensão. Mas o advogado veio logo em seu auxílio: — Suponhamos que os cônjuges já não podem continuar a viver juntos. Se os dois estão de acordo quanto ao divórcio, os pormenores e as formalidades tornam-se de pouca importância. Acredite, é o meio mais simples e mais seguro.

Desta vez Alexei Alexandrovitch compreendeu, mas os seus sentimentos religiosos opunham-se a esta solução.

— Este meio está fora de discussão no meu caso — disse ele. — Só é possível o seguinte: fazer a prova do adultério por meio das cartas em meu poder.

Ao ouvir a palavra «cartas», o advogado, apertando os lábios, deixou sair um som agudo, ao mesmo tempo desdenhoso e compassivo.

— Perdoe-me — disse. — Os casos deste gênero resolve-os, como Vossa Excelência sabe, o nosso alto clero. Os padres arciprestes gostam muito de estudar os mínimos pormenores de tais assuntos — acrescentou com um sorriso em que havia simpatia pelas preferências dos dignitários eclesiásticos. — Evidentemente que as cartas podem ser de alguma utilidade, mas a prova tem de ser feita com o auxílio de testemunhas. Se me honra com a sua confiança, permita-me que escolha os meios que hão-de empregar-se. Aquele que pretende um resultado tem de começar por aceitar os meios de o conseguir.

— Visto que assim é... — disse Alexei Alexandrovitch, de súbito muito pálido.

Mas o advogado levantou-se e foi à porta responder a uma nova interpelação do escriturário.

— Diga a essa senhora que não estamos numa loja de saldos! — gritou, antes de voltar para o seu lugar. De caminho apanhou, com um gesto discreto, uma nova traça. «Deve estar fresco o meu reps quando

chegar o Verão», disse de si para consigo de sobrecenho carregado.

— Dizia-me o senhor...

— Comunicar-lhe-ei a minha resolução por carta — voltou Alexei Alexandrovitch, e pondo-se de pé apoiou-se à mesa. Depois de um instante, disse: — As suas palavras autorizam-me, portanto, a considerar possível o divórcio. Ficar-lhe-ei muito grato se me quiser dar a conhecer as suas condições.

— Tudo é possível, se me quiser conceder inteira liberdade de acção — replicou o advogado, iludindo a última pergunta. — Quando posso esperar a sua resposta? — inquiriu, dirigindo-se para a porta.

— Dentro de oito dias. Terá então a bondade de me fazer saber se se encarrega do caso e sob que condições.

— Inteiramente às suas ordens.

O advogado inclinou-se respeitosamente, mas logo que ficou só entregou-se à hilariedade que o agitava. Tamanha era a sua alegria que, contra o seu costume, transigiu numa redução de honorários a uma senhora que regateava, deixou de caçar traças e resolveu substituir no Inverno próximo, o reps por veludo, à semelhança do que fizera o seu confrade Sigonine.

CAPÍTULO VI

Alexei Alexandrovitch obteve uma brilhante vitória na sessão celebrada pela comissão do dia de Agosto, mas as conseqüências dessa vitória foram desastrosas para ele. Graças à sua firmeza, a nova comissão nomeada para o estudo aprofundado da situação dos povos de outras raças foi constituída e enviada para o local necessário com uma rapidez extraordinária. Três meses depois já estava a apresentar o seu relatório. O estado dessas populações era ainda encarado de seis pontos de vista diferentes: político, administrativo, econômico, etnográfico, material e religioso. A cada quesito eram dadas respostas bem redigidas, que não permitiam dúvidas, visto não serem produto do pensamento humano, sempre sujeito a erros, mas obra de uma infalível burocracia. Tais respostas assentavam em dados oficiais fornecidos pelos governadores e bispos, de acordo com as informações dos chefes de distrito e arcebispos, recolhidos, por sua vez, junto das administrações rurais e curas paroquiais. Como duvidar, pois, da sua exactidão? Todas as perguntas relativas, por exemplo, a questões, tais como: porque costumam ser más

as colheitas?, porque se abstêm os habitantes de certas localidades de cumprir as suas obrigações religiosas?, etc., que ficariam por resolver sem as facilidades da máquina administrativa e por resolver tinham permanecido durante séculos, obtiveram então uma resposta clara e indiscutível. E essa resposta coincidia com a opinião de Alexei Alexandrovitch. Mas Stremov, que se sentira ferido na sessão anterior, ao ter conhecimento das últimas resoluções, utilizou uma táctica com que Karenine não contava. Arrastando consigo outros membros da comissão, transplantou-se, de repente, para o partido de Karenine e não só apoiou, calorosamente, que se levassem a cabo as medidas preconizadas, mas até apresentou outras que no mesmo sentido ultrapassavam de muito as por ele próprio apresentadas. Essas medidas reforçadas pela ideia básica de Alexei Alexandrovitch foram aceitas, e só então se descobriu a táctica de Stremov. Ao levar a ideia ao exagero, tão estúpidas resultaram as medidas tomadas que tanto os políticos como a opinião pública, quer as senhoras inteligentes quer a imprensa, foram unânimes em exprimir a sua indignação contra eles e contra o seu propugnador, Alexei Alexandrovitch. Então Stremov afastou-se, asseverando que seguira cegamente o plano de Karenine, ao mesmo tempo que se mostrava surpreendido e consternado com o que acontecera. Não obstante a sua precária saúde e as suas infelicidades domésticas, Alexei Alexandrovitch acusou o toque, mas não desarmou. Na comissão deu se uma cisão nas opiniões. Alguns dos seus membros, à testa dos quais estava Stremov, justificavam o seu erro dizendo que tinham acreditado na comissão que, dirigida por Alexei Alexandrovitch, apresentara aqueles informes, mas opinavam que estes eram absurdos e que apenas se gastara papel debalde. Karenine, com um partido que via o perigo daquele ponto de vista revolucionário a respeito dos documentos oficiais, continuava a defender os dados apresentados pela comissão encarregada de rever o assunto. Em conseqüência disto, nas esferas elevadas e até na alta sociedade verificou se uma grande confusão e, embora todos estivessem interessados no problema, ninguém sabia, realmente, se os povos de outras raças pereciam ou prosperavam. Graças a isso, e em parte pelo desprezo que inspirava à conta da infidelidade da mulher, a situação de Karenine chegou a estar pouco segura. Nesse momento, porém, adoptou uma resolução importante. Com grande assombro da comissão, comunicou que pedia licença para investigar pessoalmente a questão. Uma vez obtida a respectiva autorização, empreendeu uma viagem a essas províncias longínquas.

A partida de Alexei Alexandrovitch provocou grande tumulto, e tanto mais que, antes da partida, devolveu oficialmente a importância em dinheiro que lhe consignara o Governo para os doze cavalos de que necessitava para chegar ao local designado.

— É um gesto muito nobre — disse Betsy à princesa Miagkaia, referindo-se a essa atitude — Com que intenção se há de consignar dinheiro para cavalos de posta quando todos sabem que há caminhos de ferro por todos os lados?

A princesa Miagkaia não estava de acordo e a opinião de Betsy irritou-a.

— Fala assim porque não lhe faltam milhões. Mas a mim dão-me muita satisfação as viagens de inspecção de meu marido. As ajudas de custo de deslocação servem para pagar o meu carro e o meu cocheiro. A caminho das longínquas províncias, Alexei Alexandrovitch passou três dias em Moscovo.

No dia seguinte ao da sua chegada foi visitar o general governador. No cruzamento da Rua Gazetnii, onde havia sempre grande aglomeração de carruagens particulares e de aluguer, Alexei Alexandrovitch ouviu o seu nome pronunciado em voz tão alta e alegre que não pôde deixar de olhar para trás. Junto ao passeio estava Stepane Arkadievitch — resplandecente e com um sorriso que punha à mostra a fieira branca dos dentes entre lábios vermelhos —, alegre, jovem, radiante, com um paletó curto, à moda, e um chapéu, também à moda, ladeado, que gritava insistente mente, para que se detivesse o carro de Karenine. Estava agarrado à portinhola de uma carruagem parada, da qual emergiam uma cabeça de mulher com um chapéu de veludo e duas cabecinhas infantis e, sorrindo, acenava ao cunhado para que se aproximasse. A senhora sorria bondosa mente e também lhe fazia sinais com a mão. Era Dolly com seus filhos Alexei Alexandrovitch não estava disposto a ver ninguém em Moscovo e muito menos ainda o irmão da mulher. Descobriu se e quis continuar, mas Stepane Arkadievitch ordenou ao cocheiro de Karenine que parasse e correu para o carro, pelo meio da neve.

— Não tens vergonha de não nos teres avisado da tua chegada? Chegaste há muito? Ontem estive no Dusseau e vi o nome de Karenine no quadro dos hóspedes, mas não me passou pela cabeça que fosses tu — disse Oblonski, enfiando a cabeça pela portinhola da carruagem — Caso contrario, tinha ido procurar-te. Que grande satisfação em ver te — prosseguiu, batendo com os pés um no outro para sacudir a neve — E não tens vergonha de não teres avisado da tua chegada? — repetiu.

— Não tive tempo, estou muito ocupado — replicou Karenine, secamente.

— Vamos ter com a Dolly, deseja muito ver-te.

Alexei Alexandrovitch ergueu a manta de viagem em que envolvia as pernas e apeando-se do carro lá foi, por cima da neve, até

junto de Daria Alexandrovna.

— Que há, Alexei Alexandrovitch? Por que nos evita assim? — perguntou Dolly, sorrindo.

— Estou muito ocupado. Muito prazer em vê-la — respondeu Karenine, num tom que significava claramente o contrário — Como tem passado de saúde? — A minha querida Ana como está?

Alexei Alexandrovitch resmoneou qualquer coisa, procurando despedir se Mas Stepane Arkadievitch deteve-o.

— Aqui tens o que faremos amanhã Dolly convida te para jantar. Convidaremos também Kosnichev e Pestsov, para que possas conhecer a intelectualidade moscovita.

— Peco-lhe que venha — disse Dolly — Esperamo-lo às cinco, às seis, se quiser. Como está a minha querida Ana? Ha tanto tempo.

— Está bem — resmoneou Alexei Alexandrovitch, franzindo o sobrolho — Encantado de a ver — acrescentou, preparando-se para voltar para o seu carro.

— Posso contar com a sua presença? — gritou Dolly Karenine murmurou qualquer coisa, que Dolly não percebeu, por causa do ruído das carruagens.

— Amanhã irei visitar te — gritou lhe Stepane Arkadievitch. Karenine acomodou se na almofada do seu carro, afundando-se nela de maneira a que mais ninguém o visse nem ele visse a mais ninguém.

— É um excêntrico! — comentou Stepane Arkadievitch para a mulher. E depois de consultar o relógio, esboçou um movimento de mão diante do rosto, que traduzia uma carícia para Dolly e para os filhos e afastou se, passeio fora, em passo resoluto.

— Stiva! Stiva! — gritou Dolly, corando Oblonski voltou-se.

— Tenho de comprar casacos para o Gricha e para a Tânia. Dá me dinheiro.

— É o mesmo. Diz lhes que eu irei depois pagar Oblonski desapareceu, cumprimentando, com um aceno de cabeça, um conhecido que passava de carruagem.

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