Entretanto Vacili Lukitch, que de princípio não percebera quem era aquela senhora, através da conversa veio a saber de quem se tratava. Não conhecera a mãe de Seriocha, que já não estava em casa quando ele fora contratado. Hesitou: não sabia se devia entrar ou ficar fora do quarto ou se devia avisar Alexei Alexandrovitch. Por fim resolveu que, sendo o seu dever acordar todos os dias Seriocha a uma hora certa, para o fazer não devia preocupar-se com quem porventura estivesse junto dele, fosse a mãe ou outra qualquer pessoa. A sua obrigação era apenas acordá-lo e assim que se vestiu aproximou-se da porta do quarto e abriu-a. A verdade, porém, é que as carícias trocadas entre mãe e filho, o tom das suas vozes, o que diziam, tudo isso o levou a mudar de parecer. Abanando a cabeça, fechou a porta com um suspiro. «Esperarei mais dez minutos», disse, tossindo e enxugando as lágrimas.
Entretanto uma grande agitação reinava entre a criadagem. Todos sabiam que Kapitonich deixara entrar a antiga ama e que ela se encontrava no quarto do filho. Também sabiam que o professor ali se apresentava todas as manhãs pouco depois das horas. Estavam convencidos de que, custasse o que custasse, era preciso evitar que marido e mulher viessem a encontrar-se. Kornei, o criado de quarto, desceu a escada até ao cubículo do guarda-portão para saber o que se passara, e ao ter conhecimento de que o próprio Kapitonitch acompanhara Ana Arkadievna, passou-lhe uma grande descompostura. O guarda-portão mantinha-se num silêncio estóico; quando, porém, o criado de quarto de Karenine lhe disse que merecia ser despedido, estremeceu e aproximando-se de Kornei disse-lhe com um gesto enérgico: — Vais dizer que tu não a tinhas deixado entrar?! Depois de a teres servido durante dez anos e só teres ouvido dela boas palavras, ter-lhe-ias dito agora: «Faça o favor de se pôr na rua!» Sempre me saíste um traste! Era melhor que te lembrasses do que roubas ao patrão e das pelicas de castor que lhe chispas!— Caserneiro! — rouquejou Kornei, com desprezo, e virou-se para a criada que aparecia naquele momento. — Imagina tu, Maria Efimovna, que a deixou entrar sem dizer nada a ninguém — explicou. — E não tarda que Alexei Alexandrovitch vá dar com ela no quarto do filho.
— Que coisa, que coisa! — suspirou a criada. — Entretenha o patrão, Kornei Vacilievitch, enquanto eu vou lá acima ver se consigo levá-la dali! Que coisa, que coisa! Quando a criada entrou no quarto de Seriocha, contava este à mãe que a Nadienka e ele tinham rebolado juntos do alto de uma montanha de gelo, dando três voltas. Ana ouvia-lhe o timbre da voz, mirava-o no rosto, seguia-lhe o jogo fisionômico, palpava-lhe o bracinho, mas não percebia nada do que ele dizia. Precisava de o deixar! Sabia muito bem que tinha de ser e só nessa coisa horrorosa estava a pensar. Ouvira os passos de Vacili Lukitch e a sua tossezinha discreta, agora ouvia chegar a velha criada. Porém, incapaz de se mexer ou de falar, continuava imóvel como uma estátua.— Senhora! Minha querida senhora! — exclamou Maria Efimovna, aproximando-se e beijando-lhe as mãos e os ombros. — Deus concedeu uma grande alegria ao menino no dia dos seus anos. Nada mudou, minha senhora.
— Oh, querida, não sabia que continuava aqui em casa — disse Ana, serenando por momentos.— Não vivo aqui, vivo com minha filha. Vim para dar os parabéns ao menino, minha querida Ana Arkadievna.
A criada pôs-se a chorar e tornou a beijar as mãos de Ana.
Seriocha, com os olhos a cintilar de alegria, dando por um lado a mão à mãe, pelo outro à criada, passarinhava por cima do tapete com os seus pèzinhos descalços. Entusiasmava-o a ternura com que a criada tratava a mãe.
— Mãezinha! A Maria Efimovna vem ver-me muitas vezes e de cada vez... —principiou a criança, mas calou-se, ao perceber que a criada falava em voz baixa com a mãe, em cujo rosto se reflectia medo e qualquer coisa parecida com vergonha. Ana aproximou-se do filho.
— Meu queridinho! — exclamou.
Era-lhe impossível dizer-lhe adeus; mas a expressão do rosto disse-o por ela e Seriocha compreendeu-o.
— Meu querido, meu querido Kutik! — dizia, tratando-o pelo nome que lhe dava em pequenino. — Não me esquecerás? Tu... — Ana não pôde prosseguir.
Quantas coisas lamentou, mais tarde, não ter sabido dizer-lhe, quando naquele momento se sentia incapaz de nada dizer! Mas Seriocha compreendera tudo. Compreendeu que a mãe era infeliz e que lhe queria muito e compreendeu mesmo o que a criada lhe segredara ao ouvido, pois ouvira as palavras: «Sempre à volta das horas.» Tratava-se, evidentemente, do pai, e ele percebeu que a mãe não devia encontrar-se com ele. Mas por que se pintava no rosto da mãe medo e vergonha? Sem ser culpada, parecia recear a presença do pai e corar de qualquer coisa que ele não sabia o que fosse. Teria desejado muito interrogá-la, mas faltou-lhe a coragem, pois via-a sofrer e tinha muita pena dela. Estreitou-se contra a mãe, murmurando: — Não te vás ainda embora, ele não virá tão depressa.A mãe afastou-o de si por instantes para olhar para ele e procurar compreender se ele estaria bem ciente do que dizia. Ao ver a expressão assustada do filho, compreendeu que se referia, realmente, ao pai e parecia mesmo inquirir que sentimentos deveria manifestar em relação a ele.
— Seriocha, meu filho, deves querer-lhe muito. Ele é melhor do que eu, e eu sou culpada a seus olhos. Quando fores homem, a ti competirá julgar. — Não há ninguém melhor do que tu — exclamou a criança, chorando, no meio de um grande desespero. E agarrando-se aos ombros da mãe, apertou-a contra si com toda a força dos seus bracinhos trêmulos.— Meu queridinho, meu queridinho! — balbuciava ela, as lágrimas a correrem-lhe pelas faces abaixo, chorando como uma criança.
Neste momento Vacili Lukitch entrou no quarto; ouviam-se já passos junto da outra porta e a criada, assustada, estendeu o chapéu a Ana, dizendo-lhe muito baixo: — Lá vem ele!Seriocha deixou-se cair de novo sobre a cama e pôs-se a soluçar, cobrindo o rosto com as mãos; Ana afastou-lhas, para beijar mais uma vez as suas facezinhas banhadas de lágrimas, e saiu em passo precipitado.
Alexei Alexandrovitch vinha ao seu encontro. Ao vê-la, parou e
baixou a cabeça.
Acabava de dizer que ele era melhor do que ela, e, no entanto, após o rápido olhar que lançou ao marido, mirando-o de alto a baixo, assaltou-a um sentimento de repulsa e de desprezo por ele, ao mesmo tempo que uma grande inveja por aquele homem que ia ficar junto do seu filho lhe abrasou o coração. Baixou rapidamente o véu e saiu quase a correr.
Na pressa com que entrara, esquecera-se na carruagem dos brinquedos escolhidos na véspera com tanto carinho e tristeza, e via-se obrigada a trazê-los de novo consigo para o hotel.
Conquanto desejasse há muito aquele encontro com o filho e que para isso se tivesse preparado de antemão, Ana não esperava sentir as violentas emoções que lhe despertaram a vista dele. Depois de regressar aos seus aposentos do hotel, levou tempo a compreender porque se encontrava ali. «Bom, tudo acabou e aqui estou eu outra vez só!» Sem tirar o chapéu, deixou-se cair numa poltrona perto do fogão. E com os olhos fitos no relógio de bronze que estava sobre a consola, entre as duas janelas, abandonou-se à sua cisma.
A criada francesa que trouxera do estrangeiro veio perguntar-lhe se queria vestir-se. Ana olhou para ela surpresa e respondeu:— Mais tarde.
E quando o criado apareceu para lhe servir o pequeno almoço, teve a mesma resposta.
A ama italiana entrou por sua vez com a menina, que acabava de vestir; ao ver a mãe, a criança sorriu-lhe, agitando no ar as mãozinhas rechonchudas, fazendo ruído ao roçar pelas pregas do vestido, como um peixe que agita as barbatanas. Era impossível não sorrir nem deixar de beijar a menina, não se lhe podia recusar o dedo, a que ela se agarrava gorjeando, e o corpo todo palpitante, e também era forçoso oferecer-lhe os lábios, que ela colhia, de boquinha pronta para um beijo; Ana tudo fez; pegou-lhe ao colo e fê-la saltar nos braços, beijou-lhe as bochechinhas louçãs e os cotovelos nus. Mas, ao vê-la, compreendeu que o amor que lhe tinha não se comparava com o que sentia por Seriocha. Tudo nesta criança, era agradável, mas não lhe enchia o coração. Todas as suas reservas de carinho haviam sido para o primeiro filho, embora filho de
um homem a quem não amava, um carinho sem compensação. A menina, que nascera em circunstâncias bastante penosas, não tinha a centésima parte dos desvelos que dera a Seriocha. Além de que a menina era tão-só uma esperança, enquanto Seriocha era quase um homem, um homem muito querido. Já lutavam nele sentimentos e pensamentos. E ao lembrar-se das suas palavras e dos seus olhares, tinha a certeza de que Seriocha a compreendia, a amava e a julgava. No entanto, estava separada física e moralmente dele, e isso não tinha remédio.
Depois de confiar a menina à ama, abriu um medalhão onde guardava um retrato de Seriocha pouco mais ou menos da mesma idade da filha. Depois ergueu-se, tirou o chapéu, e pegando num álbum de retratos que estava em cima da mesa retirou dele, para compará-los entre si, vários retratos do filho em idades diferentes. Apenas faltava um, o melhor, em que Seriocha estava a cavalo numa cadeira, de bibe branco, a boca aberta num sorriso e as sobrancelhas franzidas: a semelhança era completa. Com os seus dedos ágeis, mais nervosos do que nunca, tentou debalde descolar a fotografia da cartolina. Como não tinha à mão faca de cortar papel, ia procurando descolá-la com o auxílio de outra fotografia, tirada ao acaso do mesmo álbum, e que calhou ser um retrato de Vronski feito em Roma, de cabelos compridos e chapéu mole. «Ei-lo!» exclamou, e ao ver Alexei, representou-se-lhe bem que era ele o autor dos seus sofrimentos. Não pensara nele toda a manhã, mas, ao deparar-se-lhe aquela face nobre e viril, tão querida e tão íntima, uma onda de amor lhe cresceu inopinadamente no coração. «Onde está ele? Porque me deixa sozinha com a minha dor?», perguntou a si mesma com amargura, esquecendo-se de que lhe ocultava cautelosamente tudo que dizia respeito ao filho. Acto contínuo, mandou-o chamar e ficou à espera, numa ansiedade, das palavras de ternura que ele lhe iria prodigalizar.
O criado voltou para lhe dizer que o conde, com uma visita, lhe perguntava se o poderia receber na companhia do príncipe Iachivne, que acabava de chegar a Sampetersburgo. «Não virá só e não me vê desde ontem à hora do jantar», pensou ela. «Nada lhe poderei dizer, visto estar com Iachivne.» É uma ideia cruel lhe perpassou pelo espírito. «E se ele tivesse deixado de me amar?» Evocou na memória os incidentes dos últimos dias. Havia neles algo que poderia ser uma confirmação desse medonho pensamento: desde que chegaram a Sampetersburgo, exigira que ela se instalasse em aposentos separados; na véspera, não jantara com ela, e eis que vinha vê-la acompanhado, como se receasse encontrar-se a sós com ela. «Se isso fosse verdade, tinha o dever de mo confessar, eu devo ser prevenida: então saberei muito bem o que tenho a fazer», disse de si para consigo, em verdade pouco em estado de imaginar o que seria capaz defazer, se se confirmasse a indiferença de Vronski.
Este pânico, em que havia como que desespero, deixou-a sobressaltada. Tocou pela criada de quarto, recolheu-se ao toucador e procurou arranjar-se com particular meticulosidade, como se dependesse da sua toilette o poder chamar Vronski de novo a si. A campainha ressoou, ainda ela não estava pronta.
Quando deu entrada no salão, os seus olhos encontraram antes de mais nada o olhar de Iachivne; Vronski, absorto na contemplação dos retratos de Seriocha, que ela deixara em cima da mesa, não mostrou pressa alguma em erguer os olhos para ela.
— Somos velhos conhecidos, estivemos juntos o ano passado nas corridas — disse ela, pousando a sua miúda mão na mão enorme daquele gigante, cuja confusão fazia grande contraste com a sua face rude e o seu porte imenso. — Deixe ver — disse ela para Vronski, tirando-lhe das mãos, num movimento brusco, as fotografias do filho, enquanto lhe relanceava, de olhos brilhantes, um olhar significativo. — Que tal achou as corridas este ano? Tive de me contentar com as do Corso, em Roma, Mas eu sei que não gosta do estrangeiro — acrescentou com um sorriso acariciador. — Conheço-o muito bem, e embora nos tenhamos encontrado poucas vezes, estou a par de todos os seus gostos.— Muita pena tenho; em geral são bastante maus — replicou Iachivne, mordiscando a guia esquerda do bigode.
Após alguns minutos de conversa, o príncipe, ao ver Vronski consultar o relógio, perguntou a Ana se pensava permanecer muito tempo em Sampetersburgo. Depois, erguendo a sua corpulenta figura, pegou no quépi.
— Acho que não — replicou ela, embaraçada, lançando a Vronski um olhar furtivo.
— Então não nos tornaremos a ver? — disse Iachivne; e, voltando-se para Vronski: — Onde jantas tu? — Venha jantar connosco — atalhou Ana, em tom resoluto. Mas imediatamente corou, penalizada por não ser capaz de esconder a perturbação que a tomava, sempre que a sua falsa situação se evidenciava perante um estranho. — A cozinha do hotel não é grande coisa, mas ao menos terão ocasião de estar juntos. Entre todos os camaradas de regimento, é o príncipe que o Alexei prefere.
— Com todo o gosto — replicou Iachivne, num sorriso que fez compreender a Vronski que Ana o conquistara por completo. Pediu licença para se retirar e saiu. Vronski ia fazer o mesmo.— Vais-te já embora? — inquiriu Ana.
— Estou atrasado. Vai andando, eu vou já ter contigo — disse para o amigo.
Ana pegou-lhe na mão, e sem afastar dele os olhos procurou lembrar-se de qualquer coisa que o pudesse reter.
— Espera, tenho uma coisa a pedir-te — murmurou ela. E levando a mão de Vronski à face: — Achas que fiz mal em convidá-lo?
— Fizeste muito bem — tornou-lhe ele, sorrindo com todos os dentes à mostra. E beijou-lhe a mão.
— Alexei, não terias mudado para comigo? — perguntou-lhe ela, apertando-lhe a mão entre as suas. — Alexei, eu não posso mais. Quando partimos? — Não tarda muito, não tarda muito. Eu também não posso mais. — E retirou a mão.— Bom, vai, vai — disse ela, num tom magoado. E Ana afastou-se precipitadamente.
Quando Vronski regressou ao hotel, Ana não estava. Disseram-lhe que tinha saído com uma senhora, pouco depois da partida dele, não sabiam para onde. Esta ausência inesperada, e a demora fora de casa, associadas ao ar agitado, ao tom áspero com que lhe tirara das mãos, diante de Iachvnie, as fotografias do filho, fizeram pensar Vronski.
Decidido a pedir-lhe explicações, aguardou-a no salão. Mas Ana não voltou sozinha; trazia consigo uma das suas tias, a solteirona princesa Oblonski, com quem fora às compras. Sem atentar no ar inquieto e interrogativo de Vronski, pôs-se a descrever-lhe o que fizera, mas ele lia-lhe uma atenção forçada nos olhos brilhantes que o fitavam dissimulada-mente e reconhecia-lhe nos gestos e nas frases essa graça febril que tanto o encantava outrora e que actualmente lhe metia medo. Iam entrar na saleta, onde estava posta a mesa com quatro talheres, quando vieram anunciar a visita de Tuchkievitch, enviado por Betsy. A princesa desculpava-se junto de Ana de não poder ir despedir-se dela: estava doente e pedia-lhe que a fosse visitar entre as sete e meia e as nove. Vronski, num simples relance de olhos, quis dar-lhea entender que, marcando-lhe hora, tomara as medidas necessárias para que ela não viesse a encontrar-se com alguém. Ana, contudo, parecia não prestar-lhe a mínima atenção.
— Lamento muito não estar livre precisamente entre as sete e meia e as nova horas — replicou ela, com um sorriso imperceptível. — A princesa vai ter muita pena!— E eu também.
— Naturalmente vão ouvir a Patti?
— A Patti? Ora aí está uma ideia. Iria, com certeza, se pudesse arranjar um camarote.
— Eu me encarrego disso,— Ficar-lhe-ei muito reconhecida... Mas não quererá jantar connosco? Vronski encolheu ligeiramente os ombros. Não percebia nada da maneira de agir de Ana: porque trouxera consigo aquela velha solteirona? Porque queria ela que Tuchkievitch ficasse para jantar? E sobretudo para quê um camarote? Estaria ela em condições, na sua posição, de se apresentar na ópera em dia de assinatura? Arriscava-se a encontrar lá Sampetersburgo em peso. Ao relance de olhos severo que ele lhe lançou, ripostou Ana com um desses olhares meio alegre meio provocantes, para ele autênticos enigmas. Durante o jantar, muito animada, dir-se-ia provocar ora um ora outro dos seus convidados. Quando se levantou da mesa, Tuchkievitch foi arranjar a senha do camarote e Iachivne desceu ao andar de baixo para fumar na companhia de Vronski. Daí a pouco este voltou a subir e encontrou Ana com um vestido de seda claro muito decotado e debruado de veludo. Uma mantilha de rendas punha-lhe em realce a fulgurante beleza da cabeça.
— Vais realmente ao teatro? — perguntou ele, evitando-lhe o olhar.— Por que mo perguntas com esse ar assustado? — tornou-lhe ela, zangada com o facto de ele a não olhar. — Não sei porque não ir! Dir-se-ia que não compreendera o que ele quisera dizer.
— Evidentemente que não há nenhuma razão para isso! — voltou ele, franzindo as sobrancelhas.— É essa a minha opinião — volveu-lhe ela, fingindo não dar pela ironia da resposta.
E sempre serena, ia retorcendo tranqüilamente o punho alto da luva perfumada.
— Ana, por amor de Deus, que tens tu?... — articulou ele,procurando como que acordá-la, tal como outrora tentara fazê-lo o seu próprio marido.
— Não percebo o que queres de mim.— Sabes muito bem que não podes ir à Ópera.
— Por quê? Não vou sozinha; a princesa Bárbara foi mudar de vestido e irá comigo.
Vronski encolheu os ombros, desanimado.— Pois não sabes que... — quis ele dizer.
— Não quero saber coisa alguma — exclamou ela. — Não, não quero. Não me arrependo do que fiz; não, não e não. Se fosse preciso voltar ao princípio, voltaria. Só uma coisa conta para ti e para mim: sabermos que nos amamos. O resto não tem valor algum. Por que vivemos nós aqui separados? Por que não posso eu ir onde me apetece?... Amo-te e tudo me é indiferente, se não mudaste para comigo — acrescentou em russo, pousando nele um desses olhares exaltados que Vronski não podia compreender. — Por que não olhas tu para mim?
Vronski ergueu os olhos para ela: estava linda, o vestido ficava-lhe maravilhosamente. Naquele momento, porém, aquela beleza, aquela elegância é que o irritavam.
— Bem sabes que os meus sentimentos não mudam. Mas peço-te, suplico-te, que não vás! — exclamou ele, sempre em francês, os olhos frios, mas em voz implorativa.
Ana apenas notou o olhar e respondeu de maneira brusca.— E eu peço-te que me expliques porque não posso eu ir.
— Porque isso pode trazer-te... Não teve coragem de concluir.
— Não compreendo. Iachivne n’est pas compromettant . E a princesa Bárbara não é pior do que tantas outras. Ela aí vem!
Pela primeira vez desde que viviam juntos, Vronsk sentiu diante de Ana um descontentamento muito parecido com a cólera. O que acima de tudo o contrariava era não poder explicar-se com toda a franqueza, não era capaz de lhe dizer que o facto de se apresentar na Ópera em semelhante toilette, na companhia de uma pessoa como a princesa, não só
Não é comprometedor.
correspondia a dar-se a conhecer, reconhecidamente, como mulher perdida, mas ainda por cima era desafiar a opinião pública, renunciando para sempre ao seu lugar na sociedade.
«Como é que ela não compreende isto? Que terá ela?», dizia Vronski com os seus botões. Mas enquanto parecia diminuir a estima que sentia pelo carácter de Ana, a admiração pela sua beleza ia crescendo. Ao regressar aos seus aposentos, sentou-se, preocupado, ao lado de Iachivne, o qual, com as longas pernas estendidas sobre uma cadeira, saboreava uma mistura de água de Seltz e de conhaque. Vronski seguiu- lhe o exemplo. — Vigoroso o cavalo de Lankovski! Mas é um belo animal, que eu te aconselho a comprar — disse Iachivne, fitando o rosto taciturno do camarada. — Tem a garupa um pouco descaída, mas a cabeça e os pés são admiráveis. Não há igual! — Então, vou comprá-lo — tornou-lhe Vronski.Enquanto ia falando de cavalos, continuava a pensar em Ana: olhava para o relógio de pêndulo, apurando o ouvido para o que se passava no corredor.
— Ana Arkadievna manda dizer que foi para o teatro — veio anunciar o criado.Iachivne encheu mais um copo de água gasosa, bebeu-a e abotoando o uniforme, levantou-se.
— Pois bem, vamo-nos embora? — disse ele, dando a entender, com o seu sorriso discreto, que compreendia a causa da contrariedade de Vronski, embora sem lhe atribuir a menor importância. — Eu não irei — respondeu Vronski, em tom lúgubre.— Prometi e tenho de ir. Adeus. Se mudares de ideias, leva a poltrona de Krusinski, que está vaga — acrescentou, retirando-se.
— Não, tenho um assunto a resolver.«Realmente», disse Iachivne de si para consigo, ao sair do hotel.
«Se uma pessoa tem aborrecimentos com a mulher, com a amante ainda é pior.»outro.
Quando ficou só, Vronski pôs-se a passear de um lado para o
«Vejamos, que dia de assinaturas é hoje? O quarto. Meu irmão está lá decerto com a mulher, e naturalmente também lá estará minha mãe, isto é, Sampetersburgo em peso... A esta hora terá entrado Ana e despido o abafo, e ali estará diante de todos. Tuchkievitch, Iachivne, a princesa Bárbara... E eu, que faço eu? Terei medo ou terei confiado a
Tuchkievitch a obrigação de a proteger? Como tudo isto é estúpido. Por que me coloca ela nesta posição idiota?», disse com seus botões, fazendo um gesto com a mão.
Este gesto de mão atingiu a mesinha, que por pouco não caiu, sobre a qual estava uma bandeja com o conhaque e a água de Seltz. Ao querer apanhá-la, Vronski acabou por atirá-la ao chão; furioso, deu-lhe um pontapé e puxou a campainha.— Se queres continuar ao meu serviço — disse ao criado, que acorrera —, trata de me arranjares as coisas convenientemente. Porque não vieste tirar isto daqui? Inocente como estava, o criado tentou justificar-se, mas, assim que olhou para o amo, percebeu que o melhor seria nada dizer. Ajoelhou-se, pois, no chão, desculpando-‘se, a apanhar os copos e as garrafas, quebrados e inteiros.
— Isso não é da tua incumbência. Manda vir outro criado e trata de me preparares a casaca. Eram oito e meia quando Vronski deu entrada na Ópera. O espectáculo já tinha principiado. O velho arrumador que o ajudava a despir a pelica conheceu-o e tratou-o por excelência. — Não é preciso número — disse ele; quando sair, Vossa Excelência pode chamar pelo Fiodor.Além do arrumador não havia mais ninguém por ali, a não ser dois lacaios, com abafos de pele nas mãos, que escutavam por uma porta entreaberta. Lá dentro a orquestra tocava e em staccato ouvia-se uma voz de mulher: A porta abriu-se, outro arrumador apareceu e a frase que se cantava veio ferir o ouvido de Vronski. Foi-lhe impossível ouvi-la até ao fim, pois a porta fechara-se entretanto, mas, graças aos aplausos que imediatamente se seguiram, percebeu que o trecho findara. Ainda se davam palmas quando penetrou na platéia, onde os lustres e os bicos de gás se acendiam nesse instante. No proscênio, a cantora, toda decotada e coberta de diamantes, agradecia, sorrindo, debruçando-se para apanhar, auxiliada pelo tenor que lhe dava a mão, os ramos de flores que lhe atiravam, desajeitadamente, por cima da ribalta. Um cavalheiro, cuja risca impecável se lhe apartava nas madeixas de cabelo acamadas a brilhantina, estendendo o braço, oferecia-lhe um estojo, enquanto a assistência, camarotes e platéia, gritava, aplaudia, levantava-se para ver melhor. Depois de ter ajudado a passar os presentes para o palco, o chefe da orquestra ajeitava o laço branco. Ao chegar ao meio da platéia, Vronski parou e maquinalmente percorreu com os olhos a assistência em volta de si, mais indiferente do que nunca ao que se passava no palco e ao ruído do rebanho variegado dos espectadores. Lá estavam nos camarotes as
mesmas senhoras de sempre e atrás delas os mesmos oficiais, na platéia as mesmas mulheres garridamente vestidas e os mesmos homens de uniformes de gala e nas galerias a mesma plebe suja. E em toda a sala à cunha apenas umas quarenta pessoas, quer nos camarotes, quer nas primeiras filas da platéia, constituía aquilo a que podia chamar-se verdadeiramente a sociedade. A atenção de Vronski imediatamente se sentiu atraída para esse oásis.
Como acabava de descer o pano sobre o º acto, Vronski, antes de se dirigir ao camarote do irmão, aproximou-se da primeira fila de poltronas, onde Serpukovski, apoiado à ribalta, em que tamborilava com o tacão da bota, o atraía com um sorriso. Ainda não vira Ana nem sequer a procurara com os olhos, mas pela direcção que os olhares tomavam, percebeu facilmente onde ela estava. Receando o pior, tentou descobrir Alexei Alexandrovitch Karenine. Por um feliz acaso, este não viera nessa noite ao teatro.— Pouco te ficou de militar! — disse-lhe Serpukovski. — Pareces um diplomata, um artista...
— Sim, desde que voltei para a Rússia, adoptei a casaca — replicou Vronski, sorrindo e puxando lentamente do binóculo.
— Invejo-te; quando volto do estrangeiro, confesso-te, é com pesar que visto isto — disse Serpukovski, batendo nas dragonas. — Acima de tudo a liberdade.
Serpukovski havia muito que desistira de entusiasmar Vronski na carreira militar; mas, como continuava seu amigo, queria mostrar-se especialmente amável com ele. — Tenho pena que perdesses o º acto.Vronski mal o ouvia. Ia examinando os camarotes. De súbito, a cabeça de Ana apareceu no campo visual do binóculo que ele assestava para a sala, altiva, adorável e sorridente, no meio das suas rendas, junto a uma senhora de turbante e a um velho calvo, que pestanejava mal- humorado. Ana estava no quinto camarote, a vinte passos dele. Sentada na parte dianteira tagarelava com Iachivne, um pouco voltada de costas.
A atitude da cabeça, no meio dos belos e opulentos ombros, a excitada irradiação contida dos olhos, lembravam-lhe o momento em que a vira outrora no baile de Moscovo. Os sentimentos que essa beleza lhe inspirava é que nada tinham já de misterioso; por isso, embora o seu encanto impressionasse, e mais vivamente ainda, quase se sentia magoado ao vê-la tão bela. Conquanto ela não estivesse a olhar para onde ele estava, Vronski tinha a certeza de que Ana já dera pela sua chegada.Quando, pouco depois, Vronski tornou a assestar o binóculo para
o camarote, viu a princesa Bárbara, muito corada, a rir com um riso contido e voltando-se a cada passo para o camarote vizinho. Ana, batendo com o leque fechado no parapeito de veludo vermelho, olhava para longe, no intuito evidente de não prestar atenção ao que se passava a seu lado. Quanto a Iachivne, dir-se-ia que se lhe pintava no rosto um sentimento equivalente ao que nele transparecia, se porventura tivesse perdido no jogo: mastigava, nervosamente, as guias do bigode, franzia as sobrancelhas, relanceava os olhos de revés para o camarote vizinho.
Ao fixar o binóculo nos espectadores que ocupavam esse camarote, Vronski reconheceu os Kartassov, cuja casa, tanto ele como Ana tinham freqüentado outrora. De pé, de costas para Ana, a senhora Kartassov, pequenina e delgada, punha um abafo de peles que o marido lhe oferecia: estava pálida, enojada, e parecia falar animadamente. O marido, um indivíduo possante e calvo, fazia o possível por sossegá-la, voltando-se a cada passo para o camarote de Ana. A mulher abandonara o camarote, mas o marido ficara para trás, procurando o olhar de Ana, na intenção de a cumprimentar. Esta, porém, voltava-lhes as costas ostensivamente, entretida a conversar com Iachivne, de cabeça rapada toda inclinada para ela. Kartassov viu-se obrigado a sair, sem poder cumprimentá-la, e o camarote ficou vazio.
Embora ignorasse o que se passara, Vronski convenceu-se de que Ana fora vítima de um desacato: lia-se-lhe no rosto que apelava para as suas derradeiras forças na esperança de manter o papel que resolvera representar até ao fim. Aliás, parecia de uma serenidade absoluta. Os que não a conheciam e não ouviam as frases de indignação ou de comiseração das suas ex-amigas, comentando a audácia que ela tivera em apresentar-se ali em todo o esplendor da sua formosura, não podiam imaginar que aquela mulher sentia a mesma vergonha que um malfeitor amarrado a um pelourinho. Muito perturbado, Vronski apresentou-se no camarote do irmão. Procurava conseguir saber o que acontecera. Atravessou de propósito a platéia, do lado oposto ao do camarote de Ana, e quando ia a sair deparou-se-lhe o antigo coronel do regimento, que conversava com duas pessoas. Vronski julgou ouvir o nome de Karenine, notando a pressa com que o oficial o chamou em voz alta, relanceando aos companheiros um olhar significativo.— Ah! Vronski! Quando apareces no regimento? Que diabo, não podemos deixar-te ir embora sem te oferecer um banquete! Eras dos nossos, dos fixes.
— Desta vez não vou ter tempo, e tenho pena — replicou Vronski.
E dirigiu-se apressadamente para a escada que conduzia aos camarotesde ª ordem. A velha condessa, sua mãe, com os seus caracòizinhos cor de aço, estava no camarote do filho. Vária e a jovem princesa Sorokina passeavam pelo corredor. Ao ver o cunhado, Vária conduziu a sua amiga ao camarote onde estava a sogra e dando a mão a Vronski imediatamente se pôs a expor-lhe, excitada como ele nunca a vira, o assunto que a interessava.
— Acho que foi uma atitude covarde e vil. A Kartassov não tinha o direito de fazer o que fez. A Karenina... —principiara ela.— Que aconteceu, afinal? Não sei de nada.
— Quê? Não ouviste?
— Como poderás calcular, hei-de ser o último a saber.
— Haverá criatura mais malvada do que essa Kartassov?
— Que disse ela?
— Contou-me o meu marido... Ofendeu a Karenine. Kartassov principiou a conversar com ela do seu camarote e a mulher armou um escândalo. Dizem que proferiu palavras ofensivas em voz alta.
— Conde, sua maman está a chamá-lo—exclamou a princesa Sorokina, assomando à porta do camarote.— Estava à tua espera — disse-lhe a mãe, sorrindo ironicamente.
— Ninguém te vê em parte alguma.Vronski percebeu que a mãe reprimia a custo um sorriso de alegria.
— Boa noite, maman. Vinha cumprimentá-la — disse ele friamente.
— Então, não vais f’arre la court à Madame Karenine? — acrescentou a idosa senhora, assim que a princesa Sorokina se afastou. — Elle fait sensation. On oublie la Patti pour elle.
— Maman, já lhe pedi que me não falasse desse assunto — replicou Vronski, franzindo o sobrecenho.
— Estou a repetir o que todos dizem.
Vronski não respondeu, e depois de trocar algumas palavras com a princesa Sorokina, saiu do camarote. À porta encontrou-se com o irmão.
— Ah, Alexei! — exclamou este. — Que vilania! É uma estúpida e nada mais do que isso... Pensava ir agora cumprimentar a Ana. Vamos juntos.
Vronski não o ouvia sequer. Desceu a escada em passos rápidos;Não vais fazer a corte à Sr.a Karenina? Está a causar sensação. Até ofusca à Patti.
chegara à conclusão de que devia fazer qualquer coisa, não sabia bem o quê. Apesar de furioso com Ana por causa da situação em que ela os colocara a ambos, sentia por ela, ao mesmo tempo, uma grande piedade. Ao dirigir-se da platéia para o camarote que ela ocupava viu que Stremov, de pé diante da balaustrada, conversava com Ana.
— Já não há tenores — dizia e!e. — Le moule en est brisé. Vronski cumprimentou Ana e deteve-se para sondar Stremov.
— Chegou tarde e perdeu a melhor ária — disse Ana a Vronski, olhando-o irônica, como lhe pareceu.
— Não sou grande entendedor — replicou Vronski, fitando-a severo.
— É o que acontece também ao príncipe Iachivne: segundo ele diz, a Patti canta alto de mais — articulou Ana, sorrindo. — Obrigado — acrescentou, pegando, com a mãozinha fechada numa grande luva, no programa que Vronski apanhara do chão. E de súbito o seu formoso rosto estremeceu. Ana pôs-se de pé, e retirou-se para o fundo do camarote.
Durante o º acto, ao ver vazio o camarote de Ana, Vronski, apesar dos protestos dos espectadores, suspensos das notas da cavatina, levantou-se, atravessou a platéia e recolheu-se ao hotel. Ana também já chegara. Quando Vronski penetrou nos seus aposentos, ainda ela estava tal como fora ao teatro, sentada na cadeira mais próxima da porta, olhando em frente. Depois de relancear um olhar a Vronski, retomou, imediatamente, a postura anterior.— Ana — articulou ele.
— És o culpado de tudo! — gritou ela com lágrimas de desespero e raiva na voz, levantando-se.
— Pedi-te, supliquei-te que não fosses. Tinha a certeza de que teríamos um desgosto...
— Um desgosto! — exclamou Ana. — Foi horrível! Por mais anos que viva, nunca o esquecerei! Disse-me que era uma desonra sentar-se a meu lado.
— São palavras de mulher estúpida. Mas para que te arriscaste a uma cena tão desagradável? — Odeio a tua calma. Não me devias ter arrastado a isto. Se me amasses...
— Ana, que tem que ver com isto o meu amor?— Se me amasses como eu te amo, se sofresses como eu... —
Acabou-se o molde.
continuou Ana, fitando-o com uma expressão de terror.
Vronski teve pena dela, e disse-lhe que a amava, pois via perfeitamente ser a única maneira de a apaziguar; mas no fundo do seu coração queria-lhe mal por aquilo.
Ana, pelo contrário, absorvia, deliciada, esses protestos de amor, que a Vronski se lhe afiguravam banais e quase o envergonhavam. E pouco a pouco recuperou a tranqüilidade. No dia seguinte, pela manhã, partiram para a aldeia completamente reconciliados.