Kitty conheceu Madame Stahl, e essa amizade, juntamente com a de Varienka, não só exercia grande influência nela como a consolava do seu desgosto. Um novo mundo, muito diferente do seu, um mundo todo elevado e nobre, se lhe revelou: dessa eminência pôde julgar o passado com todo o sangue-frio. Veio a compreender que para além da vida instintiva que sempre fora a sua até então existia uma vida espiritual na qual se penetrava pela crença. Essa religião não se parecia em coisa
alguma com aquela que sempre praticara desde criança e que consistia em assistir à missa e às vésperas no asilo de viúvas, onde se encontravam pessoas conhecidas, e em aprender de cor com o sacerdote textos religiosos eslavos. Era uma religião nobre, misteriosa, que despertava os pensamentos mais elevados e os sentimentos mais puros e em que se acreditava não por dever, mas por amor.
Kitty aprendeu tudo isto sem que lho dissessem. Madame Stahl falava com ela como com uma criaturinha agradável, contemplando-a como quem recorda a sua própria juventude. Apenas uma vez lhe disse que as penas humanas só tinham consolação no amor e na fé e que para Cristo, na sua piedade para com os homens, não existiam penas insignificantes, logo mudando de conversa. Mas em todos os seus gestos, em todas as suas palavras, nos seus olhares «celestes», como Kitty lhe chamava, sobretudo na história da sua vida, que conhecia através de Varienka, Kitty descobria «o que era importante» e o que até então ignorava.
Por mais elevado que fosse, no entanto, o carácter de Madame Stahl, por mais emocionante que se revelasse a história da sua vida, por mais brilhante que se mostrasse a sua conversação, Kitty soube ver nela certos traços de carácter que a desconcertaram. Quando lhe perguntava pelos pais, Kitty notava que ela sorria ironicamente, coisa contrária à caridade cristã. Reparou também que, de uma vez em que Madame Stahl recebeu um sacerdote católico, postou-se de tal modo que, ficando-lhe o rosto meio oculto por detrás de um quebra-luz, sorria de forma significativa. Embora parecendo sem importância, a verdade é que estes dois pormenores perturbaram Kitty e levaram-na a duvidar de Madame Stahl. Pelo contrário, Varienka, só, sem família, sem amigos, nada lamentando e nada esperando após a sua triste decepção, constituía o tipo de perfeição com que sonhara. Aquele exemplo fazia-a compreender que para vir a ser feliz, tranqüila e boa, como desejava, tinha de se esquecer de si mesma e amar o próximo. E Kitty desejou ser assim. Inteirada agora do «mais importante», já não se contentava em admirá-la; entregou-se com toda a sua alma a essa vida nova que se abria diante de si. Através do que Varienka lhe contou sobre a mãe adoptiva e outras pessoas, traçou para si mesma um novo plano de vida. Como Aline, a sobrinha de Madame Stahl, de quem Varienka lhe falara muito, Kitty pensava que, onde quer que vivesse, procuraria os pobres, ajuda-los-ia o melhor que pudesse, distribuiria Evangelhos e leria as paginas do livro santo aos enfermos, aos criminosos e aos moribundos. A ideia de ler o Evangelho aos criminosos, como fazia Aline, seduzia a muito especialmente. Mas só em segredo sonhava com tudo isso, sem nada dizer à mãe ou à própria amiga. Aliás, enquanto aguardava a oportunidade de pôr os seus planos
em execução numa escala mais vasta, Kitty arranjou maneira, no balneário, onde havia tantos doentes e infelizes, de praticar as novas regras da sua vida, imitando Varienka.
A principio a princesa apenas notou que Kitty se achava sob a influência de uma espécie de engouement, como costumava dizer, por Madame Stahl e por Varienka. Reparava que Kitty não só imitava estas nas suas actividades, mas até, involuntariamente, no andar, na maneira de falar e de revirar os olhos. Mais tarde compreendeu que, além da sua admiração por Varienka, na filha se estava a operar uma importante mudança espiritual.
A princesa notou que Kitty à noite há o Evangelho francês que lhe oferecera Madame Stahl, coisa que antes não fazia, e que se afastava das pessoas conhecidas da alta sociedade, preferindo lhes os doentes sob a protecção de Varienka e muito especialmente uma família pobre, a do pintor Petrov, que se encontrava enfermo. Kitty orgulhava se de desempenhar o papel de enfermeira dessa família. Tudo isso estava muito certo e a princesa nada tinha a recear sobretudo tendo em conta que a mulher de Petrov era uma senhora decente e que a princesa alemã, ao ter conhecimento das actividades de Kitty, lhe chamara «anjo consolador». Tudo estaria muito bem, no entanto, se não fossem os exageros.
— Il ne jaut jamais rien outrer —dizia lhe.
Mas a filha não lhe respondia, limitava se a pensar no fundo da sua alma que não se devia falar em exageros nas obras cristãs. Que exagero podia haver em seguir o preceito que manda oferecer a face esquerda a quem nos esbofeteia a direita ou de oferecer a camisa quando nos tiram o capote? Mas a princesa não gostava de tais extremos e ainda mais lhe desagradava verificar que Kitty não lhe abria a alma por completo. Com efeito, ocultava à mãe as suas novas ideias e os seus pensamentos. Mantinha os em segredo, não por falta de respeito ou de afecto para com ela, mas apenas porque era sua mãe. Preferia confessá-los a qualquer outra pessoa menos a ela.
— Há muito que Ana Pavlovna não aparece — disse uma vez a princesa, aludindo à mulher de Petrov — Convidei-a, mas parece que ela se mostrou preocupada.
— Não reparei nisso, maman — replicou Kitty, ruborizando-se.
— Há já muito que não a visitas!
— Amanhã iremos as duas dar um passeio pelas montanhas.
— Não vejo nisso nenhum inconveniente — disse a princesa, surpreendida com a perturbação da filha e procurando adivinhar lhe a
E preciso não exagerar.
causa. Nesse mesmo dia Varienka foi jantar com eles e disse lhes que Ana Pavlovna mudara de ideias e desistia do passeio. A princesa notou que Kitty voltara a corar.
— Kitty, passou se alguma coisa desagradável entre ti e os Petrov — perguntou-lhe a princesa quando ficaram sós — Por que deixou ela de mandar os filhos e por que não aparece? Kitty respondeu que nada acontecera e que não fazia a menor ideia da razão por que Ana Pavlovna estaria enfadada. Dizia a verdade. No entanto, se era certo que ignorava o motivo por que esfriara nas suas relações para com ela, adivinhava-o. Mas esse motivo era de tal natureza que não ousava sequer confessá-lo a si própria, e ainda menos à mãe, tio humilhante seria poder enganar se.
Lembrou uma vez mais todas as suas relações com essa família. Recordava a alegria ingênua que se pintava no bondoso rosto redondo de Ana Pavlovna aquando dos seus primeiros encontros os seus secretos colóquios acerca do enfermo, as suas conspirações para o impedirem de trabalhar, coisa de que estava proibido, e para o levarem a sair. Também recordou o carinho que lhe dispensava o filho mais novo do casal que a chamava «minha Kitty», não querendo deitar se se não fosse ela a fazê-lo. Como aquilo tudo era agradável! Depois recordou a delgadíssima silhueta de Petrov, o seu pescoço alto emergindo de um redingote castanho, os seus raros cabelos crespos, os seus interrogativos olhos azuis que a princípio haviam parecido terríveis a Kitty e os seus esforços doentios para parecer animado e enérgico na presença dela. E lembrou os esforços que ela própria fizera para nos primeiros dias dominar a repugnância que ele lhe inspirava, como em geral todos os tuberculosos, e o cuidado que punha nas coisas que tinha a dizer lhe. É também o tímido e comovido olhar que lhe dirigia e o estranho sentimento de com paixão e timidez que a embaraçavam bem com a consciência do seu ato de caridade .Que bom que tudo aquilo era! Mas isso fora no princípio das suas relações com a família Petrov. Agora de há uns dias para cá tudo se modificara Ana Pavlovna recebia Kitty com uma amabilidade fingida e estava sempre a observá-la, a ela e ao marido.
Seria possível que a comovedora alegria que Petrov mostrava ao ver Kitty fosse o morno do retraimento de Ana Pavlovna?
«Sim» pensava «havia qualquer coisa de estranho nela, algo que em nada se parecia com a sua natural bondade, ao dizer dois dias antes contrariada «Ele esperava a e não quis tomar o café sem a menina apesar de estar muito fraco.» Talvez lhe tenha parecido mal que eu lhe ajeitasse a coberta. Foi uma coisa tão natural, mas ele ficou tão perturbado e agradeceu-me com tanta insistência, que até eu própria me senti pouco
à-vontade. E também o retraio que me fez! E sobretudo aquele olhar conturbado e enternecido!... Sim, é isso!», disse Kitty de si para consigo, horrorizada. «Não, isso não pode ser, não deve ser! É tão digno de compaixão!»
Aquelas dúvidas envenenavam o encanto da sua nova vida.
Ainda a cura de águas de Kitty não terminara quando o príncipe Tcherbatski, que fora até às termas de Carlsbad, de Baden e de Kissingen com o objectivo de visitar uns amigos russos, voltou remoçado, «cheio de espírito russo», como dizia.
Os pontos de vista do príncipe e da esposa sobre a vida no estrangeiro eram diametralmente opostos. À princesa tudo se afigurava maravilhoso e, apesar da sua posição na sociedade russa, no estrangeiro desejava parecer uma senhora europeia. Como, porém, era, na realidade, uma autêntica senhora russa, via-se obrigada a fingir, coisa que muito a aborrecia. Pelo contrário, o príncipe achava tudo ruim, não gostava da vida europeia e mantinha os seus hábitos russos, procurando mostrar-se no estrangeiro menos europeu do que o era na verdade. Agora voltava mais magro, com a pele do rosto flácida, mas na melhor disposição deste mundo. E a sua alegria foi maior ainda ao ver Kitty de todo restabelecida. Ao saber da amizade de Kitty com Madame Stahl e Varienka, ao ter conhecimento das observações da princesa sobre a mudança que se operara na filha, o príncipe alarmou-se. Vieram-lhe aqueles ciúmes que sempre sentia quando alguma coisa atraía a filha, receoso de que ela pudesse vir a subtrair-se à sua influência, afastando-se para regiões a ele inacessíveis. A verdade, porém, é que essas notícias desagradáveis se diluíram no mar de bondade e alegria que o animava e que se ampliava agora ainda mais com as águas de Carlsbad. No dia seguinte ao da sua chegada, o príncipe, com o seu grande capote, as suas faces enrugadas e um tanto balofas, emolduradas num colarinho engomado e um excelente humor, dirigiu-se com a filha ao balneário.
A manhã estava lindíssima; as casinhas alegres, muito limpas, com os seus jardinzinhos, o aspecto das criadas alemãs, trabalhadoras e joviais, de faces afogueadas pela cerveja e mãos vermelhas, o sol radioso, tudo isso alegrava o coração de uma pessoa. Contudo, quanto mais se aproximava da fonte, tanto maior era o número de doentes com que se cruzavam e o aspecto destes ainda mais desolador se apresentava em
contraste com o ambiente da vida alemã, perfeitamente organizada. Kitty, habituada a esse contraste, já nem o notava. O sol ardente, a vegetação esplendorosa e a música jovial, para ela, eram a moldura natural desses rostos conhecidos, ora melhores ora piores, que se habituara a observar. Para o príncipe, todavia, a luz e o resplendor daquela manhã de Junho, os sons da orquestra que tocava uma valsa alegre, afiguravam-se-lhe inconvenientes e até antinaturais na sua convivência com aqueles cadáveres ali reunidos, vindos de todos os pontos da Europa.
Apenas do orgulho que o invadia e desse como que retorno à juventude, ali com a filha querida pelo braço, no seu andar firme e nos seus membros vigorosos, sentia-se quase tão envergonhado diante de todas aquelas desgraças como se tivesse vindo nu para o meio da rua.
— Apresenta-me a todos os teus novos amigos — disse a Kitty, apertando-lhe o braço. — Até estou a gostar desta horrível Soden só pelo bem que te fez. Mas que coisas tão tristes, tão tristes, se vêem aqui! Quem é aquele?
Kitty ia-lhe mostrando as pessoas conhecidas e desconhecidas que passavam perto. A entrada do parque, encontraram Madame Berthe com a sua dama de companhia, e o príncipe sorriu contente, quando viu a expressão enternecida da cega ao ouvir a voz de Kitty. Imediatamente se dirigiu ao príncipe, com a costumada exuberância francesa, e gabou-lhe a encantadora filha, guiando-a às nuvens e chamando-lhe «tesouro, pérola e anjo consolador».
— É o anjo número dois — disse o príncipe, sorrindo. — O número um é Mademoiselle Varienka.
— Oh! Mademoiselle Varienka é um anjo autêntico, allez! — corroborou Madame Berthe.
Na galeria encontraram Varienka. Vinha, apressada, ao encontro deles, com uma elegante bolsa vermelha na mão.
— O pai chegou! — exclamou Kitty.
Varienka esboçou, com a maior naturalidade, um movimento em que havia saudação e reverência, e sem falsa timidez pôs-se a falar com o príncipe.
— É inútil dizer-lhe que a conheço e muito bem — disse o príncipe, com um sorriso que, para grande satisfação de Kitty, significava que a amiga tinha a simpatia do pai. — Onde vai tão apressada?
— Maman está ali — disse Varienka, dirigindo-se a Kitty. — Não pregou olho toda a noite e o médico aconselhou-a a sair. Vou levar-lhe os seus trabalhos de agulha.
— Quer dizer que este é o anjo número um? — exclamou o príncipe quando a jovem se afastou.
Kitty percebeu imediatamente que Varienka conquista.! as boas graças do pai, pois, tendo querido rir-se dela, não o pudera fazer. De facto, agradara-lhe.
— Vamos então conhecer os teus amigos, uns atrás dos outros — acrescentou. — E até Madame Stahl, se se dignar reconhecer-nos.
— Então tu conhece-la, pai? — perguntou Kitty, não sem receio, pois percebera um lampejo de ironia no olhar paterno.
— Conheci o marido e a ela também algum tempo antes de se tornar pietista.
— Que são os pietistas, paizinho? — perguntou Kitty, assustada com o facto de ver dar um nome ao que parecia de tão grande valor em Madame Stahl.
— Também não te sei dizer com precisão. Só sei que ela dá graças a Deus por tudo, por qualquer desgraça... inclusive por ter perdido o marido, e isso pode deixar de parecer cômico quando nós sabemos que não se davam nada bem os dois... Mas quem é aquele pobre diabo? — perguntou ao ver, sentado num banco, um doente de estatura meã, de paletó e calça branca, que lhe caía em estranhas pregas pelas pernas descarnadas. Esse indivíduo tirara o chapéu de palha, mostrando uma testa alta, coroada de raros cabelos crespos que a pressão do chapéu avermelhara.
— É o pintor Petrov — disse Kitty, corando. — E esta é a mulher dele — acrescentou, apontando para Ana Pavlovna, que, como que de propósito, se levantara, quando eles se aproximavam, para correr atrás de um dos filhos.
— Faz-me dó — disse o príncipe —, e tanto mais que tem uma cara agradável. Por que não te aproximas dele? Parecia querer falar-te.
— Vamos então falar com ele — disse Kitty, voltando-se decidida.
— Como se sente hoje? — perguntou a Petrov.
Petrov ergueu-se, encostado à bengala e fitou o príncipe com timidez.
— Kitty é minha filha — disse Tcherbatski. — Tenho muito prazer em conhecê-lo.
O pintor cumprimentou, mostrando, ao sorrir, os brancos dentes, extraordinariamente brilhantes.
— Esperávamos ontem pela senhora, princesa — disse ele a Kitty. Ao dizer estas palavras, Petrov cambaleou, repetindo esse mesmo
movimento, para mostrar tê-lo feito de propósito.
— Pensava ir, mas Varienka preveniu-me de que Ana Pavlovna mandara dizer que o senhor desistira de sair.
— Como assim? — exclamou Petrov, corando.
E tendo-se posto a tossir, buscava com os olhos a mulher.
— Anita! Anita! — gritou, e no seu delgado pescoço branco as veias incharam como se fossem cordas. Ana Pavlovna aproximou-se.
— Mandaste dizer à princesa que não íamos sair? — murmurou, irritado, quase sem voz.
— Bom dia, princesa — cumprimentou Ana Pavlovna, com um sorriso fingido e num tom muito diferente daquele com que a tratava antes. — Muito prazer em conhecê-lo. Já o esperávamos há muito — acrescentou, dirigindo-se ao príncipe.
— Como mandaste dizer à princesa que não íamos sair? — teimava o pintor num sussurro rouco, ainda mais irritado do que até aí, sem dúvida porque a voz o atraiçoava e não conseguia dar às palavras o tom que pretendia.
— Meu Deus! Julguei que não sairíamos — replicou a mulher, enfadada.
— Como?... — e Petrov tossiu e fez um gesto com a mão. O príncipe descobriu-se e afastou-se acompanhado de Kitty.
— Oh! Coitado! — murmurou, suspirando pesadamente.
— É verdade, paizinho — replicou Kitty. — E com três filhos, sem criados, e quase sem terem com que viver. Ele recebe qualquer coisa que lhe manda a Academia — continuou Kitty, animadamente, para esconder a perturbação que lhe causara a estranha mudança de Ana Pavlovna a seu respeito. — Lá está Madame Stahl — acrescentou, mostrando um carrinho onde estava estendida uma forma humana envolta em cinzento e azul, amparada por almofadas e abrigada por uma sombrinha. Atrás da doente via-se o alemão, robusto e taciturno, que empurrava o carrinho. Junto à enferma perfilava-se um conde sueco, muito louro, que Kitty conhecia de nome. Vários enfermeiros rodeavam o carrinho de Madame Stahl, olhando-o, como se olhassem qualquer coisa de extraordinário.
O príncipe aproximou-se dela, e não tardou que Kitty lhe visse nos olhos aquele fulgor irônico que a perturbava. Principiou a falar com Madame Stahl em excelente francês, como muito poucos o falariam, cheio de amabilidade e cortesia.
— Não sei se se recorda de mim. Mas tomo a liberdade de lho lembrar para lhe agradecer as atenções que tem tido para com Kitty —
disse, tirando o chapéu e sem voltar a cobrir-se.
— É o príncipe Alexandre Tcherbatski, não é verdade? — volveu-lhe Madame Stahl, erguendo para ele os seus olhos celestiais, em que Kitty notou certa sombra de enfado. — Muito prazer em cumprimentá-lo. Gosto muito da sua filha.
— Continua a passar mal de saúde?
— É verdade, mas já estou habituada — disse ela. E apresentou-o ao ronde sueco.
— Não mudou nada nestes dez ou onze anos em que não a vi.
— Sim. Deus dá a cruz e dá também as forças para carregá-la. Muitas vezes perguntamos a nós mesmos porque dura tanto esta vida... Do outro lado! — exclamou, irritada, dirigindo-se a Varienka, que não lhe estava a embrulhar os pés na manta muito a seu gosto.
— Provavelmente para praticar o bem — disse o príncipe, com os olhos risonhos.
— Não nos compete julgar — replicou Madame Stahl, ao observar a expressão do príncipe, que não lhe passara despercebida. — Então manda -me esse livro, querido conde, desde já lhe agradeço e muito — disse, voltando se para o jovem sueco.
— Olhem! — exclamou ò príncipe, ao ver o coronel moscovita não longe dali. E despedindo se de Madame Stahl foi ao encontro dele, sempre acompanhado de Kitty.
— É esta a nossa aristocracia, príncipe — comentou o coronel, desejando mostrar se irônico, pois estava irritado com Madame Stahl, que não o quisera conhecer.
— É a mesma de sempre — respondeu o príncipe.
— Conhecia a antes de ela estar doente, antes de estar invalida?
— Conheci, conheci a precisamente na ocasião em que adoeceu. Dizem que não anda há dez anos.
— Não anda porque tem uma perna mais curta do que a outra. É muito mal feita.
— Paizinho isso não pode ser!— exclamou Kitty.
— É o que dizem as mas línguas, querida. E muito tem de aturar a tua pobre Varienka. Oh, estas senhoras doentes! — Não, paizinho! — protestou Kitty, calorosamente — Varienka adora-a. E alem disso é tão caridosa. Pergunte a quem quiser. Toda a gente conhece Madame Stahl e Aline.
— Talvez — respondeu o pai, apertando lhe meigamente o braço
— Mas quando se pratica o bem é melhor que ninguém o saiba.
Kitty calou se, não porque tivesse que responder, mas apenas por não querer desvendar os seus secretos pensamentos nem mesmo ao próprio pai. No entanto, por estranho que pareça embora não pensasse submeter se a opinião dele nem permitir lhe que penetrasse no seu santuário, percebeu que a imagem sagrada de Madame Stahl, que trouxera um mês inteiro dentro da alma, desaparecera definitivamente, como desaparece a figura formada por um vestido acabado de despir, quando a imaginação descobre que era uma figura imaginaria. Diante de seus olhos nada mais ficou além da imagem de uma mulher de pernas desiguais, que passava a vida deitada por ser mal feita, e que martirizava a pobre Varienka por esta lhe ter ajeitado mal a manta sobre as pernas. E não houve esforço de imaginação que lhe permitisse voltar a encontrar a antiga imagem de Madame Stahl.
O príncipe comunicou o seu alegre estado de espírito à família, aos da casa, a todos os conhecidos e até mesmo ao alemão seu hospedeiro. Ao regressar do balneário, o príncipe Tcherbatski, que convidara para tomar café o coronel, Maria Evguenievna e Varienka, deu ordens para que levassem uma mesa e cadeiras para o jardinzinho, e que ali, debaixo de um castanheiro, fosse servido o pequeno almoço. O senhorio e a criada animaram-se, contagiados pela alegria do velho príncipe, que, alias, como eles o sabiam, além de alegre era generoso. E deste modo, meia hora depois o locatário do º andar, um médico de Hamburgo, enfermo, coitado, podia contemplar da sua janela, com certa inveja, o grupo de folgazões, todos de óptima saúde, reunidos debaixo do castanheiro. A sombra oscilante da grande árvore, diante da mesa coberta com uma toalha branca, sobre a qual havia cafeteiras, pão, manteiga, fiambre e caça fria, sentava se a princesa, de touca de dormir, com fitas lilases no alto da cabeça, e distribuía as chávenas e as fatias de pão. No outro extremo estava o príncipe, comendo com apetite e falando animadamente em voz alta. Expusera à sua roda os presentes que trouxera da viagem cofrezinhos de madeira lavrada, cestinhos de junco, facas de cortar papel, que se entretinha a distribuir sem esquecer, nem a criada Linchen, nem o hospedeiro, a quem dizia, no seu mau alemão, as coisas mais cômicas assegurando-lhe que não eram as águas que tinham curado Kitty, mas a sua excelente cozinha, especialmente as suas sopas de ameixas. A princesa arreliava o marido, amistosamente, falando lhe nas suas mamas
russas, desde que estava nas termas, porém, era a primeira vez que se mós trava tão alegre e animada. Como sempre, o coronel na se das graças do príncipe, mas a respeito da Europa, que, segundo julgava, estudara a fundo, era da opinião da princesa. A boa da Maria Evguenievna morria a rir com as saídas do príncipe e Varienka na com um riso suave, mas comunicativo, que os gracejos do príncipe lhe despertavam, coisa que Kitty nunca tinha visto nela.
Este espectáculo, porém, não conseguia fazer com que Kitty esquecesse as suas preocupações no julgamento frívolo que fizera dos seus amigos e da sua nova vida, que tão bela se lhe afigurava, o pai, involuntàriamente, apresentara lhe um problema assaz difícil de resolver e que a mudança de atitude de Madame Petrov ainda vinha complicar mais, mudança essa que acabava de se manifestar num desabrimento bem desagradável. Todos riam, mas essa alegria longínqua turvava Kitty que se julgava de regresso aos tempos da sua infância, quando, fechada no quarto, para castigo de qualquer travessura, ouvia rir as irmãs sem poder brincar com elas.
— Para que compraste tu todas essas bugigangas? — perguntou a princesa, sorrindo, enquanto servia uma chávena de café ao marido.
— Que queres tu? Se vamos dar um passeio e nos aproximamos de uma loja, há logo quem nos peça que compremos qualquer coisa, dizendo «Erlaucht, Excellenz, Durchlaucht » Quando me chamavam Durchlaucht, já me não podia conter lá iam dez táleres.
— Isso era porque andavas aborrecido — disse a princesa.
— É verdade, minha filha, uma pessoa aborrece se de morte nestas terras.
— Que me diz, meu príncipe? — exclamou Maria Evguenievna — Há actualmente tantas coisas para ver na Alemanha!
— Mas já as vi todas. Já comi sopa de ameixas e salsichas alemãs. Conheço tudo isso.
— Diga o que disser, príncipe — objectou o coronel —, as instituições alemãs são interessantes.
— Interessantes em quê? Os alemães sentem se contentes por terem vencido todo o mundo. Que tenho eu com isso, não me dirá? Não venci ninguém. E em compensação vejo-me obrigado a descalçar as minhas próprias botas e, o que é pior ainda, a deixá-las à entrada da porta, no corredor. De manhã tenho de me levantar, de me vestir, e de descer depois até à sala de jantar para tomar um chá horrendo. Em casa é outra coisa! Acordamos pela manhã sem pressas, temos tempo de nos zangar,
Augusto, excelência, alteza
de barafustar e de sossegar por fim para pensar descansadamente na nossa vida.
— Mas lembre se que o tempo é dinheiro, príncipe — replicou o coronel.
— Conforme o tempo! Ha tempo que se pode vender muito bem à razão de meio rublo por mês e tempo há também em que não há dinheiro que pague meia hora. Não é verdade Kitty? Que tens tu? Por que estás tão triste? — Não tenho nada, pai.
— Aonde vai? —exclamou o príncipe, ao ver levantar se Varienka — Fique mais um bocadinho.
— Preciso de voltar para casa — tornou lhe ela tomada de novo ataque de riso.
Quando deixou de rir, despediu se de todos e dirigiu se para o interior da casa na disposição de pegar no chapéu. Kitty foi atrás dela. A própria amiga se lhe apresentava agora sob aspecto diferente. Não era pior, mas diversa do que a. imaginara antes.
— Há muito tempo que me não ria tanto como hoje — disse Varienka, enquanto procurava a sombrinha e a sacola — Seu pai é uma simpatia Kitty não disse nada.
— Quando nos tornaremos a ver? — perguntou Varienka.
— Maman queria visitar os Petrov. A menina estará lá? — inquiriu Kitty a perscrutar a amiga.
— Estarei — tornou lhe esta — Estão a preparar as coisas para partir, e eu prometi lhes que os ajudaria.
— Então irei também.
— Para que ha de ir?
— Para quê? Para quê? Para quê? — replicou Kitty, abrindo desmesuradamente os olhos e prendendo a sombrinha de Varienka, para não a deixar partir — Espere. Por que me diz isso? — Primeiro, porque tem aqui o seu pai e depois porque eles, os Petrov, não estão à vontade diante de si.
— Não, não é nada disso diga me por que não quer que eu vá regularmente a casa dos Petrov, pois vejo perfeitamente que não quer.
— Não disse isso — tornou-lhe, tranqüilamente, Varienka.
— Peco-lhe que me diga!
— Quer que lhe diga tudo? — perguntou Varienka.
— Tudo, tudo!
— Não ha nada de importante, a não ser que Mikail Alexeievitch, que até aqui se queria ir embora sem delongas, agora não quer partir — disse Varienka, sorrindo.
— Continue, continue! — replicou Kitty, olhando-a gravemente.
— Ana Pavlovna diz que ele não quer ir por sua causa. E isto deu azo a uma questão doméstica de que Kitty é a causa indirecta, como sabe os doentes irritam se com muita facilidade.
Cada vez mais sombria, Kitty permanecia calada, e Varienka continuava a falar, procurando aquietá-la e evitar um acesso de censuras ou de lagrimas.
— É por isso que acho melhor não ir Estou certa de que me compreende e que não vai zangar-se.
— Só tenho o que mereço! — exclamou Kitty de chofre, sem ousar fitar Varienka, mas arrancando lhe a sombrinha das mãos.
Varienka sentiu que a ira infantil de Kitty lhe dava vontade de rir mas receou ofendê-la.
— Porque tem o que merece? Não a compreendo.
— Porque tudo isto não passava de uma coisa fingida, de uma coisa inventada, não vinha do coração. Que me importa a mim um estranho? E o resultado é que sou a causadora de um desgosto por fazer o que ninguém me pediu. Da minha parte, tudo foi pura hipocrisia, pura hipocrisia.
— Hipocrisia? Mas com que intenção? — perguntou mansamente Varienka.
— Oh! Que coisa tão estúpida, tão vil! Que necessidade tinha eu... Foi tudo fingido — dizia Kitty, abrindo e fechando a sombrinha.
— Mas com que fim?
— Para parecer melhor do que sou diante dos outros, diante de mim e diante de Deus; para enganar a todos. Agora não mais voltarei a fazer o que fiz. É preferível sermos más a mentirmos e enganarmos.
— Mas quem engana neste caso? — perguntou Varienka em tom de censura. — Fala como se...
Kitty, porém, fora acometida de um acesso de cólera. Não a deixou acabar.
— Não estou a falar de si. Não é da sua pessoa que se trata. A menina é perfeita. Sim, sim, sei que todos são umas perfeições. Mas eu
sou má, não há nada a fazer. Isto não teria acontecido se eu não fosse má. Serei como sou, mas não mais fingirei. Quero lá saber de Ana Pavlovna! Que vivam como lhes aprouver, que eu viverei como me apetecer. Não posso ser diferente... E depois, francamente, não é o que eu julgava!
— Que quer dizer? — perguntou Varienka perplexa.
— Nada. Só posso viver obedecendo aos impulsos do meu coração, ao passo que vocês, vocês obedecem a princípios. Eu, por mim, limitei-me a ter para convosco um verdadeiro carinho do coração enquanto vocês, naturalmente, só pensavam na minha salvação, na minha edificação.
— Está a ser injusta! — exclamou Varienka.
— Não. Só estou a falar de mim. Os outros que fiquem em paz...
— Kitty! — gritou a princesa nesse momento. — Mostra os teus corais ao pai.
Kitty, altivamente, e sem se reconciliar com a amiga, pegou no estojo dos corais que estava em cima da mesa e foi ao encontro da mãe.
— Que tens tu? Por que estás tão corada? — exclamou ao mesmo tempo pai e mãe.
— Nada — respondeu Kitty. — Eu já volto — e deitou a correr.
«Ainda lá está. Que lhe vou dizer? Meu Deus que fiz eu, que disse eu? Por que a ofendi eu? Que devo fazer agora?», dizia de si para consigo, parando à porta.
Varienka, de chapéu na cabeça, estava sentada junto à mesa, examinando a mola da sombrinha que Kitty partira. Levantou a cabeça.
— Varienka, perdoe-me — murmurou Kitty, aproximando-se dela.
— Nem sei o que lhe disse...
— Sinceramente, não era minha intenção fazê-la sofrer — disse Varienka, sorrindo.
A paz estava assinada. Mas a chegada do pai transtornou aos olhos de Kitty o mundo em que ela vivera por algum tempo. Sem renunciar a tudo que nesse mundo aprendera, reconhecia, a seus próprios olhos, ser uma ilusão pensar que poderia vir a ser aquilo que desejaria poder vir a ser. Foi como que um despertar; compreendeu que lhe seria dado, sem hipocrisia nem vanglória, manter-se a uma tão grande altura. Aliás sentira vivamente o horror dos desgostos, das doenças, das agonias quê a cercavam e achava penoso de mais para ela prorrogar os esforços que fizera para interessar-se por aquele mundo de sofrimento. Experimentou , necessidade de respirar ar puro, de voltar breve à Rússia, a Ierguchovo, onde já estavam Dolly e os filhos, como soubera pela carta
que acabava de receber.
O seu afecto por Varienka não fraquejara, porém. No momento da partida, pediram-lhe que os viesse visitar à Rússia.
— Irei quando a menina estiver casada — disse Varienka.
— Nunca me casarei.
— Então nunca irei.
— Nesse caso, só me casarei para isso. Não se esqueça da sua promessa.
Os prognósticos do médico realizaram-se. Kitty regressou à Rússia se não tão despreocupada como outrora, pelo menos aquietada e curada. Os maus momentos de Moscovo não passavam agora de uma reminiscência longínqua.