Ana e Vronski ainda não tinham passado um dia inteiro zangados. Era a primeira vez. E não se tratava de uma simples querela, mas de uma prova evidente de que o amor de Vronski esmorecia. Como pudera ele olhá-la daquela forma quando entrou na sala para recolher os documentos? Embora visse que o seu coração se despedaçava, saíra em silêncio, indiferente e tranqüilo. O seu amor por ela arrefecera, odiava-a, visto gostar de outra mulher. Era evidente.
Lembrando as palavras cruéis de Vronski, Ana pensava nas que sem dúvida teria querido e teria podido dizer-lhe, e cada vez se sentia mais excitada.
«Não a retenho», podia ele ter dito, «pode ir-se embora quando quiser e para onde lhe agrade. Visto que já se não importa com o divórcio, é porque pensa voltar para seu marido. Pois que volte. Se precisa de dinheiro, eu lho darei. Quantos rublos quer?»
Ana imaginava ter-lhe ele dito as mais cruéis palavras que um homem grosseiro é capaz de dizer, e não lhas perdoava, como se ele as tivesse realmente pronunciado.
«Mas ainda ontem ele jurava amar-me só a mim!», dizia para si mesma, momentos depois. «É um homem honesto e sincero. Não me tenho eu sentido tantas vezes revoltada contra ele, inutilmente?»
Tanto pior
Todo aquele dia, à excepção de duas horas que passou na Casa Wilson, esteve Ana cheia de dúvida a respeito da situação. Não sabia se tudo estava terminado ou se ainda havia esperanças de reconciliação. Deveria ir-se embora imediatamente, ou convinha tornar a vê-lo mais uma vez? Esperou Vronski o dia inteiro e pela noite, ao retirar-se para o quarto, deu ordens para que lhe dissessem doer-lhe a cabeça, e pensou: «Se vier ter comigo, apesar do que lhe disser a criada, é porque ainda me quer. Caso contrário, acabou-se e eu sei o que me resta fazer.»
Ouviu o rolar das rodas do carro quando Vronski chegou, ouviu-o tocar a campainha e depois falar com a criada. Os passos afastaram-se. Penetrara no escritório. Ana compreendeu que o destino estava jogado. A morte representou-se-lhe então como a única maneira de castigar Vronski, de lhe reconquistar a amor, de triunfar na luta que o espírito maligno que se lhe havia alojado no coração travava com aquele homem. A partida, o divórcio, tudo era agora para ela indiferente. O essencial era o castigo.
Pegou no frasco do ópio e lançou num copo a dose habitual. «Se eu tomasse todo o frasco», pensou, «seria tudo quanto há de mais fácil acabar.» Deitada, de olhos abertos, observava, à luz vacilante da vela, os contornos do estuque e a sombra que o biombo aí projectava, abandonando-se a esse lúgubre cismar. Que pensaria ele quando ela tivesse desaparecido? Que remorsos sentiria? «Como pude eu f alar-lhe tão duramente, como pude deixá-la sem uma palavra afectuosa? E agora desapareceu para sempre, abandonou-nos para nunca mais!...» De súbito, a sombra do biombo pareceu agitar-se, assenhorear-se de todo o tecto, outras sombras vieram ao seu encontro, recuaram, para se precipitarem com novo ímpeto, e tudo se fundiu em completa obscuridade. «A morte», disse para si mesma. E um terror tão profundo se apoderou dela que por algum tempo tentou concentrar as ideias sem saber onde estava. Depois de inúteis esforços, conseguiu, finalmente, de mão trêmula, acender outra vela para substituir a que acabava de apagar-se. Lágrimas de alegria lhe inundaram o rosto, quando percebeu ainda estar viva. «Não, não, tudo menos a morte! Eu amo-o, e ele também me ama, já passámos por cenas semelhantes e as coisas arranjaram-se.» E para fugir aos terrores que a assaltavam, levantou-se e correu a refugiar-se no quarto de toilette de Vronski.
Vronski dormia tranqüilamente. Aproximou-se dele, ergueu a vela por cima da cama e ficou-se a contemplá-lo enternecida, os olhos rasos de lágrimas. Porém, evitou acordá-lo: tê-la-ia olhado com o seu olhar glacial, seguro do seu procedimento, e ela, pelo seu lado, num primeiro impulso, ter-se-ia empenhado em demonstrar-lhe a gravidade das suas faltas. Voltou, pois, para o quarto, tomou uma segunda dose de ópio e adormeceu pesadamente, embora nem mesmo a dormir esquecesse o fardo das suas dores.
De madrugada, o pesadelo medonho que mais de uma vez a oprimira antes da sua ligação com Vronski veio de novo enchê-la de angústia: um velhinho de barbas desgrenhadas fazia alguma coisa, debruçado sobre uns ferros, enquanto dizia em francês palavras sem sentido. E Ana, como sempre que a visitava este pesadelo (e nisso consistia o horror do pesadelo), notava que o velhinho lhe não prestava a mínima atenção, mas fazia qualquer coisa de horroroso com esses ferros.
E acordou coberta de suores frios.
Quando se levantou, os acontecimentos da véspera representaram-se-lhe confusamente no espírito. «Que se passou de tão desesperado?», pensava ela. «Houve uma discórdia? Não é a primeira. Disse-lhe que me doía a cabeça e ele não quis saber. Amanhã vamo-nos embora: preciso de o ver, de lhe falar, de apressar a partida.» Dirigiu-se ao escritório de Vronski, mas, ao atravessar o salão, o rolar de uma carruagem que parava à porta levou-a a olhar pela janela. Era um coupé: uma jovem, de chapéu lilás, debruçada da portinhola, dizia qualquer coisa a um trintanário; este tocou a campainha, no vestíbulo ressoaram vozes, alguém subiu a escada e Ana ouviu Vronski descer precipitadamente. Viu-o na rua, de cabeça descoberta, que se aproximava da carruagem e pegava num embrulho que a jovem lhe estendia, falando e sorrindo. O coupé afastou-se e Vronski voltou a subir as escadas em passo rápido.
Esta breve cena dissipou repentinamente o torpor de Ana, e as impressões da véspera dilaceraram-lhe o coração mais dolorosamente do que nunca: como pudera ela rebaixar-se a tal ponto, ficando ainda um dia inteiro em casa de Vronski, depois do que se passara? Penetrou no escritório para lhe comunicar a sua decisão.
— A princesa Sorokina e a filha trouxeram-me o dinheiro e os papéis de minha mãe, que eu não pudera recolher ontem — disse Vronski, tranqüilamente, sem querer reparar na trágica fisionomia de Ana. — Como te sentes esta manhã? De pé, no meio do escritório, Ana olhava-o fixamente, enquanto ele continuava a ler uma carta, de testa enrugada, depois de a haver percorrido com os olhos. Sem dizer palavra, Ana rodou sobre os calcanhares e dirigiu-se para a porta; ele nada fez para a deter; no silêncio ouvia-se apenas o ruído do papel amarrotado nas suas mãos.
— A propósito — disse ele quando Ana atingia já o limiar da porta. — É amanhã, realmente, que nós partimos?
— O senhor, eu não — replicou Ana, voltando-se para ele.
— Ana, assim não podemos viver.
— O senhor não eu — repetiu ela.
— Isto começa a ser intolerável.
— O senhor... arrepender-se-á — disse ela, saindo.
Assustado com o tom de desespero com que ela pronunciara as últimas palavras, Vronski ergueu-se subitamente da cadeira onde estava sentado, quis correr atrás dela, mas, retendo-se, tornou a sentar-se, franziu as sobrancelhas e apertou os lábios.
Aquela ameaça que ele considerava inconveniente, exasperava-o.
«Tentei tudo, só me resta não lhe prestar atenção», pensou. E preparou-se para sair: precisava ainda de fazer algumas compras e de submeter uma procuração à assinatura da mãe.
Ana ouviu-o sair do escritório, atravessar a sala de jantar, parar na antecâmara, não para vir ao encontro dela, mas para dizer que mandassem o potro a casa de Voitov. Ana ouviu aproximar-se o carro dele, abrir-se a porta e Vronski sair. De repente, porém, ele entrou de novo no pátio e alguém subiu as escadas correndo. Era o criado de quarto de Vronski, que ia buscar as luvas de que o amo se esquecera. Depois, batendo nas costas do cocheiro, disse-lhe qualquer coisa, e, sem se virar para as janelas da casa, cruzando as pernas, como de costume, sentado na almofada, pôs-se a calçar as luvas. Entretanto, o carro desaparecia.
«Foi-se embora! Tudo acabou!», disse Ana de si para consigo, de pé, junto à janela. De chofre a angústia em que a mergulhara, durante a noite, a vela apagada e as ânsias do pesadelo, invadiram-na de novo inteiramente. «Não! Não é possível!», exclamou ela. Atravessou o quarto e puxou violentamente a campainha; mas, dominada pelo terror, não pôde esperar pelo criado, correu ao seu encontro.
— Vá saber onde foi o senhor conde — disse-lhe ela.
— Às cavalariças — respondeu o criado —; o carro volta já e ficará inteiramente às suas ordens.
— Está bem. Eu vou escrever duas linhas. Peça ao Mikail que as leve imediatamente à cavalariça. Sentou-se e escreveu. «Eu tenho a culpa. Volta para casa, por amor de Deus. Precisamos de ter uma explicação. Tenho medo.»
Fechou o sobrescrito, entregou a carta ao criado e com medo de ficar só dirigiu-se à dependência da filha.
«Já o não reconheço. Onde estão os seus olhos azuis e o seu lindo sorriso tímido?», pensou ela, ao ver, em vez de Seriocha, que, na confusão de espírito em que estava, julgou ir encontrar, a pequenina, gorduchinha, de faces rosadas e de cabelo preto todo encaracolado. Sentada ao pé de uma mesa, a criança batia com uma rolha de garrafa em cima do tampo da mesma; os seus olhos pretos, cor de azeviche, pousaram-se inexpressivos na mãe que entrava. Ana disse à inglesa que já estava perfeitamente bem e que no dia seguinte seguiriam para o campo. Sentou-se junto da menina e pôs-se a fazer girar a rolha da garrafa diante dela. Mas o riso sonoro da pequenina, bem como o seu mover de sobrancelhas, lembraram-lhe tanto Vronski que se ergueu apressadamente, reprimindo os soluços, e saiu da sala. «Será possível que tudo tenha acabado? Não, não pode ser», pensou. «Ele voltará. Mas como há-de ele explicar-me aquele sorriso, aquela animação, depois de ter falado com ela? Mesmo que mo não explique, acreditarei nele. Se não acreditar, só me resta uma coisa, e isso não.» Ana consultou o relógio. Tinham passado doze minutos. «A esta hora já deve ter recebido o meu bilhete. Já falta pouco. Uns dez minutos. Mas, e se não viesse? Não, isso não pode ser. É preciso que me não veja com os olhos chorosos. Vou lavá-los. Sim, sim. Penteei-me ou não?», perguntou a si própria. Mas não foi capaz de se lembrar. Apalpou a cabeça com a mão. «Sim, estou penteada; mas não consigo saber quando me penteei.» Não confiando no tacto da mão, aproximou-se de um espelho para ver se na verdade estaria penteada. Estava, realmente, embora não fosse capaz de lembrar-se quando o fizera. «Que é isto?» pensou, ao ver no espelho o rosto tumefacto e os olhos em que havia um brilho estranho, que a fitavam, surpresos. «Sou eu», compreendeu, subitamente, e voltou a contemplar-se toda no espelho. De súbito, sentiu que Vronski a beijava e, estremecendo, moveu os ombros. Depois, erguendo a mão, beijou-a.
«Que é isto? Estou a ficar doida», exclamou, enquanto se dirigia para o quarto de dormir que Anuchka arrumava.
— Anuchka! — disse Ana, olhando para a criada e detendo-a a seu lado sem saber ainda que lhe diria.
— Quer ir visitar Daria Alexandrovna? — sugeriu ela, como se a compreendesse.
— Daria Alexandrovna? Sim, irei visitá-la.
«Quinze minutos para lá e quinze minutos para cá», disse consigo mesma, puxando o relógio e vendo as horas. «Mas como pôde ir-se
embora, deixando-me neste estado? Como pode ele viver sem se reconciliar comigo? Aproximou-se da janela e olhou para a rua. Pelo tempo que decorrera, já podia estar de volta. Mas talvez o cálculo não estivesse certo. Ana procurou lembrar-se outra vez de quando Vronski partira e contou os minutos.
Na altura em que ia a consultar o relógio da parede para compará-lo com o seu, ouviu o rolar de um carro. Olhou pela janela: era a carruagem de Vronski. Ninguém subiu a escada e, contudo, em baixo ressoaram vezes. Era Mikail que voltara no carro. Ana desceu as escadas ao seu encontro.
— Não encontrei o senhor conde... Já tinha partido para a estação de Nijni-Novgorod.
— Que dizes tu?... — exclamou Ana, dirigindo-se ao elegante Mikail, que lhe devolvia a carta.
«Não a recebeu», disse consigo mesma.
— Leva esta carta à quinta da condessa Vronskaia. E traz-me imediatamente a resposta — ordenou.
«E eu? Que vou eu fazer? Ah, sim, é verdade. Vou a casa de Daria Alexandrovna. Pois, de outra maneira, acabarei por endoidecer. Também posso telegrafar-lhe.» E Ana redigiu um telegrama.
«Preciso falar-te. Volta imediatamente.»
Depois de entregar o texto ao criado, foi vestir-se. Quando já estava pronta e de chapéu na cabeça, fitou a serena Anuchka, que tinha engordado. Nos seus olhos cinzentos, pequeninos e bondosos, lia-se claramente uma viva compaixão.
— Anuchka querida, que devo eu fazer? — exclamou Ana, soluçando e deixando-se cair, abatida, numa poltrona.
— Porque se inquieta tanto, Ana Arkadievna? São coisas que costumam acontecer. Saia, distraia-se — aconselhou a criada.
— Sim, vou sair — assentiu Ana, recompondo-se enquanto se levantava. — Se na minha ausência chegar um telegrama, que mo mandem a casa de Daria Alexandrovna... Ou não, voltarei, não tarda muito.
«É isso, é preciso não pensar, mas fazer qualquer coisa, sair, o principal é sair desta casa», disse para si mesma, ouvindo, surpresa, as pancadas precipitadas do coração. Saiu apressadamente e subiu para a carruagem.
— Onde devo levá-la, minha senhora? — perguntou Piotre, antes de subir para a boleia.
— Rua da Aparição, a casa dos Oblonski.
O tempo estava límpido. Durante toda a manhã caíra uma chuva miudinha, mas agora o dia clareara. Os telhados de zinco, as lajes dos passeios, os pavimentos das ruas, as rodas dos carros e os arreios dos cavalos, tudo rebrilhava ao sol de Maio. Eram três da tarde, a hora de maior animação nas ruas.
Sentada no fundo da carruagem, que mal baloiçava nas suas fortes molas, tirada por céleres cavalos, Ana recordou novamente os acontecimentos dos últimos dias. Ouvindo o incessante rumor das rodas, sob as impressões que se iam sucedendo rapidamente e aspirando o ar puro, considerava agora a situação de maneira muito diferente. Já nem sequer a ideia da morte lhe aparecia tão terrível e clara, nem mesmo a julgava inevitável. Agora censurava a si própria a humilhação a que descera. «Suplico-lhe que me perdoe. Submeti-me. Reconheci-me culpada. Porquê? Não poderei eu, porventura, viver sem ele?» E sem responder a esta pergunta, pôs-se a ler as tabuletas dos estabelecimentos. «Escritório e Armazém», «Dentista»... «Sim, direi tudo a Dolly. Ela não gosta do Vronski. Sentir-me-ei envergonhada e louca, mas dir-lhe-ei tudo. Dolly gosta de mim. Seguirei o conselho que ela me der. Não me submeterei a ele, não consentirei que me eduque.» Filipov: kalatches. «Ouvi dizer que Filipov manda a massa para Sampetersburgo. A água de Moscovo é tão boa! E os poços de Mitistchenski e as tortas!» E Ana lembrou-se de que, quando tinha anos, fora com a tia ao mosteiro de Troitsa. «Fomos num carro de cavalos, era assim nesse tempo. Seria eu essa rapariga de mãos coradas? Quantas coisas que outrora me pareciam magníficas e inacessíveis se me tornaram depois indiferentes, e em compensação o que tive nessa altura nunca mais o tornarei a ter. Como poderia eu pensar que ainda um dia chegaria a um tal estado de humilhação? Que alegria vai sentir com a minha carta, e que orgulho! Mas eu lhe ensinarei... Cheira tão mal aquela pintura. Para que hão-de estar sempre a edificar e a pintar? «Modas e adornos», leu. Um homem cumprimentou-a. Era o marido de Anuchka. Lembrou-se de que Vronski dizia: «Os nossos parasitas.» Nossos? Nossos porquê? É horrível que se não possa arrancar o passado pela raiz. Não se pode arrancar, mas podem secar-se-lhe as raízes. É o que eu hei-de fazer.» Nesse momento lembrou-se do seu passado com Alexei
Pães-doces
Alexandrovitch e como o riscara da memória. «Dolly vai pensar que abandono o meu segundo marido e por isso, naturalmente, dar-me-á razão. Não a quero ter. Porventura quero eu ter razão? Não posso mais!», exclamou, e sentiu vontade de chorar. Não tardou, porém, em perguntar a si própria porque sorriam duas jovens que passavam. «Por amor, talvez? Não sabem que o amor não é alegre, não lhe conhecem nem a tristeza nem a ignomínia...» Três meninos correm na avenida a brincar aos cavalos. Seriocha! Perderei tudo e não o terei a ele. Outra vez me queres humilhar!», disse para si mesma. «Não, irei a casa de Dolly e dir-lhe-ei muito simplesmente: Sou desgraçada, mereço-o, sou culpada; mas nem por isso deixo de ser desgraçada, ajuda-me. Estes cavalos e este carro... Tenho nojo de mim própria por ir dentro dele. Tudo lhe pertence, mas nunca tornarei a ver nada disto!» Pensando nas palavras com que contaria tudo a Dolly e atormentando com isso o coração, subiu as escadas da amiga.
— Está alguém em casa? — perguntou no vestíbulo.
— Catarina Alexandrovna Levine — respondeu-lhe o criado.
«Kitty! A mulher de quem Vronski esteve enamorado!», pensou Ana. «A mulher que ele recordava com carinho. Lamenta não ter casado com ela e amaldiçoa o dia em que me conheceu.»
No momento em que Ana chegava, as duas irmãs falavam da amamentação das crianças. Apenas Dolly recebeu Ana, que viera interromper a conversa das duas.
— Ainda não te foste embora? Eu tinha intenção de passar por tua casa; recebi esta manhã uma carta do Stiva — disse-lhe ela.
— Nós também tivemos um telegrama — replicou Ana, olhando à sua roda, à procura de Kitty.
— Diz-me que não compreende o que quer Alexei Alexandrovitch, mas que não sairá de Sampetersburgo sem obter uma resposta.
— Julguei que tinhas visitas. Posso ler a carta?
— Sim, está aí a Kitty — disse Dolly, embaraçada. — Ficou no quarto das crianças. Tem estado muito doente.
— Ouvi dizer. Posso ler a carta?
— Com certeza, vou procurá-la... Alexei Alexandrovitch não se opõe; Stiva tem esperanças — continuou Dolly, detendo-se no limiar da porta.
— Nada espero e nada desejo.
«Considerará Kitty uma humilhação encontrar-se comigo?», pensou Ana, ao ficar só. «Talvez tenha razão. Mas não é a ela que
compete, a ela, que esteve enamorada de Vronski, dar-me lições. Bem sei que uma mulher honesta não me pode receber. Sacrifiquei tudo àquele homem e esta é a recompensa! Ah, como eu o odeio!... Por que vim eu aqui? Ainda aqui me sinto pior do que em minha casa.» Ouviu a voz das duas irmãs no quarto contíguo. «E como poderei eu agora falar a Dolly? Vou dar uma grande satisfação a Kitty com o espectáculo da minha desgraça; seria como se lhe quisesse pedir protecção. Não! Aliás, nem a própria Dolly me compreenderia. Mais vale calar-me. Muito gostaria, porém, de a ver para lhe provar que desprezo todos e que tudo me é agora indiferente.» Dolly voltou a aparecer com a carta; Ana percorreu-a com os olhos e voltou a entregar-lha.
— Eu sabia — disse. — Não me interessa já.
— Porquê? Pelo contrário, eu tenho esperanças — replicou Dolly, olhando para Ana atentamente. Nunca a vira tão irritada e num tão estranho estado de espírito. — Onde vais?
Ana olhava diante de si com os olhos piscos e não respondeu.
— Porque se esconde Kitty de mim? — perguntou, olhando para a porta e corando.
— Que tolice! Está amamentando e não se sente muito bem. Dava- lhe conselhos... Ela já vem aí — respondeu Dolly, um tanto embaraçada, visto não saber mentir. — Aí está ela.
Quando Kitty soube da chegada de Ana, decidira não a encontrar; mas Dolly persuadira-a a que o não fizesse. Num grande esforço sobre si mesma, Kitty entrou na sala e, corando, aproximou-se de Ana, a quem estendeu a mão.
— Muito gosto — articulou, em voz trêmula.
A hostilidade e a indulgência ainda se digladiavam no seu foto íntimo. Ao ver, contudo, o belo rosto sismático de Ana, a prevenção em que estava contra aquela «má mulher» desvaneceu-se.
— Não teria estranhado que me não quisesse ver. Estou habituada a tudo. Esteve doente? Sim, parece-me mudada — disse Ana.
Kitty notou que Ana a olhava com uma expressão hostil. E pensando que essa hostilidade provinha da delicada situação em que se encontrava diante dela a mulher que outrora se mostrara sua protectora, teve pena.
Falaram da doença, da criança e de Stiva; mas, ao que parecia, nada interessava a Ana.
— Vim para me despedir de ti — disse ela, levantando-se.
— Quando partes?
Ana, sem responder, voltou-se para Kitty.
—Tive muito prazer em vê-la — disse com um sorriso. — Tenho ouvido falar muito de si por todos, até por seu marido. Esteve em minha casa e gostei muito dele — acrescentou, sem dúvida com maliciosa intenção. — Onde está ele? — Foi para a aldeia — respondeu Kitty, corando.
— Dê-lhe cumprimentos meus, peco-lhe que se não esqueça.
— Não esqueço! — repetiu Kitty, ingenuamente, fitando-a nos olhos, compassiva.
— Adeus, Dolly! — e depois de beijar esta e de apertar a mão a Kitty, saiu precipitadamente.
— É sempre a mesma e sempre igualmente atrevida. Muito bonita é!. — comentou Kitty ao ficar só com a irmã. — Mas há nela qualquer coisa que desperta compaixão. Qualquer coisa de muito doloroso.
— Não me pareceu no seu estado normal. Julguei que desatava a chorar no vestíbulo.
Ao subir para a carruagem, Ana ainda se sentiu mais infeliz do que quando saíra de casa. Aos seus sentimentos anteriores vinham juntar-se agora a humilhação e a reprovação que sentira de maneira evidente durante o encontro com Kitty.
— A senhora volta para casa? — perguntou Piotre.
— Sim, para casa — respondeu Ana, sem pensar para onde ia.
«Olhava para mim como se eu fosse uma coisa horrível e curiosa! Que poderão dizer estas pessoas com tanto calor»?, pensou ela, ao ver dois transeuntes conversando animadamente. «Porventura poderão dizer um ao outro o que sentem? Quis contar tudo a Dolly, mas fiz muito bem em calar-me. Que alegria ela sentiria com a minha desgraça! Não o teria deixado perceber, claro está, mas não há dúvida de que era alegria que acima de tudo havia de sentir ao ver-me a pagar caro os prazeres que me invejava. E Kitty ainda se teria regozijado mais. É como se lhe lesse na alma: odeia-me por eu ter sido mais amável com o marido do que seria de esperar. Tem ciúmes de mim, detesta-me, despreza-me: a seus olhos não passo de uma perdida. Ah, se eu fosse o que ela pensa, que fácil me teria
sido dar volta à cabeça do marido! Confesso: cheguei a pensar nisso. Ali vai um homem encantado consigo mesmo», disse de si para consigo, ao ver um senhor gordo, de tez vermelhusca, cuja carruagem se cruzara com a dela e que, confundindo-a com outra, se descobrira, mostrando um crânio tão luzidio como a própria cartola. «Julga que me conhece. Ninguém me conhece, nem tu própria. Só conheço os meus appetits como dizem os Franceses. Aqueles garotos querem tomar sorvetes, ao menos têm a certeza disso», concluiu ao ver dois garotos parados diante de um vendedor que pousara no chão a caixa de sorvetes e limpava a testa com a ponta de um trapo. «Todos nós gostamos de coisas doces e saborosas. Se não há bombons, contentamo-nos com um gelado. Foi o que fez a Kitty. Como não pôde ter o Vronski, contentou-se com o Levine. E inveja-me, odeia-me. Todos nos odiamos uns aos outros. Eu odeio a Kitty, ela odeia-me a mim.
Esta é a verdade. Tiutkine: coiffeur... Je me fais coiffer par Tiutkine... É o que eu lhe vou dizer quando voltar», pensou, sorrindo. Mas nesse mesmo momento lembrou-se de que não tinha a quem dizer essas coisas graciosas... «Por outro lado, não há nada gracioso nem alegre. Tudo é feio. Tocam a vésperas e aquele comerciante faz o sinal-da-cruz com tantos cuidados que parece recear deixar cair alguma coisa. Para que servem todas estas igrejas, todos estes sinos, todas estas mentiras? Apenas para esconder que nos odiamos uns aos outros, como esses cocheiros que se injuriam mutuamente, Iachivne tinha razão quando disse: «Ele quer deixar-me sem camisa e eu a ele. Esta é a verdade.» Levada pelos seus pensamentos, esqueceu por instantes a sua dor e ficou surpreendida quando o carro parou. Ao ver o guarda-portão, que vinha ao seu encontro, lembrou-se de que mandara uma carta e um telegrama a Vronski.
— Chegou alguma resposta? — perguntou.
— Vou saber — respondeu o guarda-portão, e, relanceando um olhar à mesa, apanhou, entregando-o a Ana, um sobrescrito quadrado que continha um telegrama.
«Não posso chegar antes das dez. Vronski», leu ela.
— O mensageiro não voltou ainda?
— Não, minha senhora — volveu-lhe o guarda-portão.
«Ah! Se é assim, já sei o que tenho a fazer», disse Ana consigo mesma. E sentindo que uma ira indefinida se desencadeava dentro de si, juntamente com um desejo de vingança, subiu as escadas correndo. «Eu mesma o irei buscar. Antes de me ir embora para sempre, dir-lhe-ei o que
Tiutkine: cabeleireiro... É Tiutkine que me pentea.
tenho a dizer-lhe. Nunca odiei ninguém como odeio este homem.» Ao ver o chapéu de Vronski no bengaleiro, sentiu-se estremecer de raiva. Não reparara que aquele telegrama era resposta ao dela e que ele ainda não recebera a carta. Figurava-se Vronski a conversar tranqüilamente com a mãe e com a princesa Sorokina, regozijando-se com os sofrimentos por que ela estava a passar. «Preciso de ir quanto antes», disse para si mesma, sem saber ainda aonde. Desejava fugir o mais depressa possível dos sentimentos que a invadiam naquela horrível casa. Os criados, as paredes, tudo ali lhe despertava aversão e ira, oprimindo-a como um pesadelo.
«Sim, devo ir à estação, ou então surpreendê-lo ali mesmo.» Consultou o horário dos comboios num jornal. Havia um às horas e minutos da noite. «Sim, terei tempo.» Mandou atrelar outro cavalo e entreteve-se a meter numa maleta de viagem os objectos indispensáveis para alguns dias de ausência. Sabia que não voltaria mais àquela casa. Decidira, confusamente, entre os inúmeros planos que lhe acudiam, que, depois do que ia acontecer na estação, ou na quinta da condessa, seguiria, pela linha de Nijni-Novgorod, até à primeira cidade, onde se apearia.
O jantar estava na mesa. Ana aproximou-se, mas o cheiro da comida repugnou-lhe. Mandou que lhe preparassem a carruagem e saiu.
A casa projectava já uma sombra que atravessava a rua de lado a lado; o entardecer era claro e ainda fazia calor o sol. Tanto Anuchka, que lhe levou a maleta ao carro, como Piotre, que a instalara lá dentro, ou o próprio cocheiro, descontente, ao que parecia, lhe eram desagradáveis, irritando-a com as suas palavras e os seus gestos.
— Não preciso de ti, Piotre.
— Quem lhe tirará o bilhete?
— Bom, faz o que quiseres — replicou Ana, irritada. Piotre deu um salto para a boleia, e, perfilando-se, ordenou ao cocheiro que conduzisse e senhora à estação de Nijni.
«Começo a ver claro, começo a ver claro!», disse Ana de si para consigo quando a carruagem se pôs em andamento, rolando pela calçada; e de novo o espírito começou a agitar-se-lhe.
«Em que pensava eu há pouco?», tentou recordar-se. «Em Tiutkine, coiffeur? Não. Não era nisso Ah! Sim!, no que dizia Iachivne: a luta pela vida e o ódio são as únicas coisas que unem os homens. Fazem
mal em sair a passear», dizia mentalmente a um grupo de pessoas num carro puxado por quatro cavalos, naturalmente a caminho dos arrabaldes, em busca de diversões. «E o cão que vocês levam também não lhes servirá de nada.» Dirigindo o olhar para onde Piotre dirigia o seu, Ana viu um operário, completamente bêbedo, a cabeça pendente, conduzido por um guarda. «Este, ao menos, encontrou o que queria. O conde Vronski e eu não encontramos o prazer; embora muito esperássemos dele, não conseguimos encontrá-lo.»
E pela primeira vez dirigiu essa luz implacável, que lhe permitia ver o fundo de todas as coisas, para as suas relações com Vronski, a respeito das quais sempre evitara pensar. «Que procurou ele em mim? Menos a paixão que a satisfação do seu amor-próprio.» Lembrou as palavras de Vronski e a sua expressão nos primeiros tempos das suas relações. Parecia um cachorro submisso. Tudo lho confirmava. Sim, nele tudo traía o orgulho do triunfo. «Claro que me amava, mas acima de tudo tinha o orgulho de me ter conquistado. Agora tudo isso acabou. Já não tem de que vangloriar-se. Agora não se vangloria, envergonha-se. Tirou de mim quanto pôde; já lhe não faço falta. Incomodo-o, embora procure não ser incorrecto para comigo. Ontem disse-o, sem querer: queria o divórcio e casar-se comigo para queimar os seus navios. Ama-me, ainda, talvez, mas de que maneira? The zest is gone... Aquele quer assombrar toda a gente e parece muito contente consigo mesmo», pensou ao olhar para um caixeiro rubicundo montado num cavalo de sela. «Não, já lhe não agrado como antigamente. No fundo da sua alma terá grande satisfação em ver-se livre de mim.» Não se tratava de uma suposição sem fundamento, mas de uma verdade, a cujo vivo clarão descobria agora os segredos da vida e das relações entre os homens... E via tudo com uma cruel evidência.
«Enquanto o meu amor se torna cada vez mais egoistamente apaixonado, o dele extingue-se pouco a pouco. Esta a razão por que não nos entendemos mais. E não há remédio para a situação. Ele é tudo para mim, quero que ele se me dê todo inteiro, mas ele, pelo seu lado, tudo faz para me fugir. Antes da nossa ligação íamos um ao encontro do outro, e agora dirigimo-nos inevitavelmente em direcções opostas. E nada modificará isto. Diz-me que os meus ciúmes não têm razão de ser, e eu também o disse a mim mesma, mas não é verdade. Não é ciumenta que eu estou, estou descontente. Mas...» Ana abriu a boca e mudou de posição na carruagem, tamanha a agitação que sentira com a presença de uma ideia que entretanto lhe acudira. «Se eu pudesse, procuraria ser para ele uma amiga sensata, e não uma amante apaixonada, cujos ardores lhe repugnam e que sofre por seu lado com a frieza dele. Mas eu não posso
O prazer acabou.
nem quero transformar-me. Não me engana, tenho a certeza, não pensa na Sorokina como não pensava outrora em Kitty. Mas isso que me importa? Se me não ama, se se mostra bom e terno para comigo apenas por dever, c horrível. Prefiro-lhe o ódio. Eis onde nós estamos: há muito que ele já me não ama e onde o amor acaba principia a saciedade... Que bairro desconhecido é este? Ruas que sobem a perder de vista e casas, casas e mais casas, onde mora uma multidão que se odeia mutuamente... Bom, que me poderia acontecer capaz ainda de me proporcionar felicidade? Suponhamos que Alexei Alexandrovitch consentia no divórcio, que me entregava o Seriocha, que eu casava com Vronski...» E ao pensar em Karenine, Ana viu-o diante de si, com o seu olhar mortiço, as suas mãos brancas, cheias de veias azuis, as articulações dos seus dedos estalando, as inflexões particulares da sua voz, e a lembrança das suas relações, outrora consideradas ternas, fê-la estremecer horrorizada.
«Admitamos que eu me casava: olhar-me-ia Kitty com menos condescendência? Não se perguntará Seriocha a si próprio porque tenho eu dois maridos? Poder-se-ão estabelecer entre mim e Vronski relações que não sejam uma tortura para mim? Não», respondeu ela a si própria sem hesitar. «A cisão entre nós é muito profunda: eu faço-o infeliz, ele faz-me infeliz a mim. Nada se modificaria! Porque é que esta mendiga com o filho ao colo supõe que inspira piedade? Não nos encontramos todos à superfície da terra para nos odiarmos e nos atormentarmos uns aos outros?... Olha, colegiais que se divertem... O meu pequenino Seriocha! Também a ele, também a ele julguei amá-lo. O afecto que lhe tinha enternecia-me a mim mesma. E, no entanto, vivi sem ele, troquei o amor que lhe tinha por uma outra paixão, e não me queixei enquanto obtive satisfações nessa paixão...» Aquilo a que ela chamava «outra paixão» surgia-lhe sob cores hediondas. No entanto, encontrava uma amarga satisfação em remexer assim nos seus e nos sentimentos alheios. «Assim somos todos: eu, o Piotre, o cocheiro Fiodor, aquele comerciante que ali vai e toda a gente que vive nas margens afortunadas do Volga que esses cartazes nos convidam a visitar», dizia consigo mesma na altura em que a carruagem parava diante da fachada baixa da estação Nijni-Novgorod. Uma chusma de carregadores correu ao seu encontro.
— O bilhete é para Obiralovka, não é verdade, minha senhora? — perguntou Piotre.
Ana esquecera por completo onde ia e por que razão. Só conseguiu perceber a pergunta após um grande esforço.
— É — respondeu, por fim, entregando-lhe o porta-moedas. E
apeou-se com a maleta vermelha na mão.
Enquanto rompia a turba para se dirigir à sala de espera da ª classe, perpassaram-lhe pelo espírito os pormenores da sua situação bem como as diferentes soluções que se lhe ofereciam. De novo flutuava entre a esperança e o desânimo, de novo se lhe abriam as feridas, e o coração pôs-se-lhe a bater desordenadamente no peito. Sentada num grande banco à espera do comboio, olhava com aversão para as pessoas que se agitavam. Todas lhe eram odiosas. Ora se representava o momento em que chegaria a Obiralovka e em que escreveria a Vronski, ora no que lhe diria quando penetrasse no salão da velha condessa, onde talvez naquele momento ele se estivesse a lamentar das amarguras da sua vida, sem pensar nos sofrimentos dela, ora em que ainda poderia vir a conhecer dias felizes. Que duro amar e odiar ao mesmo tempo! Como batia o seu pobre coração!
Uma sineta tocou; passaram diante de Ana uns rapazolas de mau aspecto, insolentes e pressurosos, mas ao mesmo tempo atentos à impressão que provocavam. Piotre, com a sua libré e as suas botas altas, atravessou a sala no seu ar estúpido, e julgou-se na obrigação de acompanhar Ana até à carruagem. Os rapazolas calaram-se ao vê-la passar. Um deles murmurou ao ouvido do companheiro alguma coisa, brejeira com certeza. Ana pôs o pé no estribo e instalou-se no compartimento vazio; a maleta que depôs a seu lado no assento trepidou em cima da almofada elástica, cujo forro enxovalhado fora branco outrora. Com um sorriso idiota, Piotre, como quem se despede, tirou o gorro agaloado em sinal de despedida. O insolente revisor fechou a porta e correu o fecho. Uma dama disforme, metida num merinaque, que Ana despiu com os olhos, medindo-lhe a fealdade assustadora, corria, plataforma além, seguida de umas meninas que riam afectadamente.
— Catarina Andreievna têm-no todo, ma tante — gritou uma das meninas.
«É menina e no entanto já estragada, finge», pensou Ana. Para não ver ninguém levantou-se rapidamente, sentando-se perto da janela do lado oposto. Um homem sujo e feio, com um gorro na cabeça, de onde rompiam madeixas de cabelos revoltos, passou junto à portinhola, todo debruçado para as rodas da carruagem. «Lembra-me seja o que for, este homem horroroso», pensou Ana. E ao lembrar-se do sonho que tivera,
dirigiu-se para a porta, trêmula de terror. Nessa altura o revisor abria a portinhola para deixar passar um casal. — Quer sair? Ana não respondeu. Nem o revisor nem os passageiros que entravam deram pela expressão de horror que se lhe pintava no rosto, graças ao véu que o cobria. Ana voltou para o seu lugar e sentou-se. O casal tomou lugar diante dela, e marido e mulher puseram-se a examinar atentamente, ainda que de modo dissimulado, o vestido que ela trazia. Essas duas criaturas inspiraram-lhe, de súbito, uma profunda repulsa. No intuito de iniciar conversa, o marido perguntou-lhe se lhe dava licença que acendesse o cigarro. Ana anuiu e ele pôs-se a contar tolices à mulher. Com efeito, apetecia-lhe tão-pouco conversar como fumar, o que ele queria era despertar a atenção da vizinha, fosse como fosse. Ana viu claramente que aqueles dois já não podiam um com o outro: que se detestavam cordialmente. Como não sentir ódio por criaturas tão grotescas?
O arrastar das bagagens, os gritos, as risadas que acompanharam o segundo toque de sineta fizeram com que Ana tivesse depois de tapar os ouvidos: porquê aquelas risadas? Finalmente soou o terceiro toque de sineta, e ouviu-se o apito do chefe da estação, a que respondeu o silvo da locomotiva: o comboio estremeceu e o marido da senhora persignou-se.
«Muito gostaria de saber que significado atribui ele a semelhante gesto», perguntou Ana a si mesma, relanceando-lhe um olhar de ira. E logo, para não ver a mulher, pôs-se a observar pela janela da carruagem a multidão que na gare se despedia dos passageiros, dando-lhe a impressão de deslizar em sentido contrário. A carruagem de Ana, estremecendo uniformemente, saiu da estação, passou diante de um muro de pedra, de um semáforo e de outros vagões. As rodas, bem oleadas, deslizaram pelos carris; a janela iluminou-se ao sol claro da tarde e a brisa agitou as cortinas. Ana, esquecida dos seus companheiros de viagem, aspirou o ar puro e entregou-se de novo aos seus pensamentos, embalada pelo rodar do comboio.
«Em que pensava eu quando interrompi os meus pensamentos? Em que não posso descobrir uma situação onde a minha vida não seja um tormento, em que todos fomos criados para sofrer e que o sabemos, embora tudo façamos para o esquecer, iludindo-nos de todas as maneiras. Mas quando a verdade nos entra pelos olhos dentro, que havemos de fazer?» — A razão foi dada ao homem para evitar preocupações — disse a senhora em francês, muito orgulhosa de haver encontrado esta frase.
Dir-se-ia que a frase era uma resposta ao que Ana estava a pensar.
«Evitar preocupações», repetiu ela mentalmente. Mirando o
marido de tez vermelhusca e a seca esquálida esposa, Ana percebeu que esta devia considerar-se uma mulher incompreendida e que o marido a enganava sem lhe esconder as suas infidelidades. Adivinhava todos os pormenores da história das suas vidas, mergulhava nos recessos mais secretos dos seus corações. Como isto não tinha, porém, grande interesse para ela, prosseguiu o curso dos seus pensamentos.
«Sim, também eu tenho muitas preocupações, e visto que a razão assim mo exige, o meu dever é evitá-las. Por que não havemos de apagar a luz quando não há mais nada para ver, quando o espectáculo se nos torna odioso?... Mas como? Por que corre o revisor? Por que gritam os rapazes no compartimento ao lado? Por que falam? Por que riem? Tudo e mentira, tudo é falso, só há engano e maldade...» Quando o comboio chegou à estação, Ana apeou-se no meio da turba e viajantes e, afastando-se deles, como se fossem leprosos, deteve-se na plataforma, procurando lembrar-se o que fora ali fazer e o que pretendia. Tudo o que antes lhe parecera possível, agora afigurava-se-lhe muito difícil de compreender, sobretudo ali entre aquela ruidosa multidão de gente absurda que a não deixava em paz. Tão pronto a assediavam os carregadores, oferecendo-lhe os seus serviços, como a olhavam rapazolas que falavam em voz alta e batiam com os tacões nas tábuas da plataforma. Lembrando-se repentinamente da decisão que tomara de prosseguir o seu caminho se não encontrasse resposta na estação, perguntou a um empregado se não vira um cocheiro com uma carta do conde Vronski. — Vronski? Ainda há pouco estiveram aí na quinta. Vieram buscar a princesa Sorokina e a filha. Como é ele, esse cocheiro de quem a senhora fala?
Acto contínuo, Ana viu dirigir-se-lhe o seu mensageiro, o cocheiro Mikail: muito corado, muito contente, parecia extremamente orgulhoso da sua missão. Entregou a Ana uma carta que ela abriu de coração alanceado.
«Sinto muito que a carta não tenha chegado a tempo. Voltarei às dez», escrevera Vronski, numa caligrafia descuidada.
«É isso! Era o que eu esperava!», murmurou Ana consigo mesmo, num sorriso sardônico.
— Obrigada, podes voltar para casa — disse numa voz quase imperceptível.
Falava baixo, porque as palpitações do coração a impediam de respirar. «Não, não te permitirei que me atormentes», pensou. Esta ameaça nem era dirigida a ele nem a ela própria, mas apenas à causa dos seus sofrimentos. Atravessou a gare, caminhando ao longo da estação.
Duas criadas que passavam, voltaram-se para lhe admirar o porte e disseram qualquer coisa uma para a outra em voz alta a respeito do seu vestido: «São verdadeiras», disse uma delas, referindo-se às rendas. Os rapazolas não a deixavam em paz. Passaram por ela e voltaram a olhá-la com descaro, gritando e rindo em voz de falsete. O chefe da estação perguntou-lhe, ao cruzá-la, se não continuava a viagem. Um rapaz, vendedor de kvas, seguia-a com o olhar. «Meu Deus! Para onde ir?», pensava Ana, afastando-se cada vez mais da gare, plataforma além. Ao chegar ao extremo, deteve-se. Umas senhoras com umas crianças, que tinham ido esperar um cavalheiro de lunetas e que falavam e riam animadamente, calaram-se ao vê-la aproximar-se e puseram-se a examiná-la. Ana estugou o passo e abeirou-se da escada que descia do depósito de água para a linha. Um comboio de mercadorias ia entrar na gare. A plataforma estremecia e Ana teve a sensação de que ia de novo embarcada.
De repente, lembrou-se do homem atropelado no dia do seu primeiro encontro com Vronski e compreendeu o que tinha a fazer. Em passo ligeiro e rápido, desceu as escadas do depósito de água para a via e deteve-se junto ao comboio que passava. Tinha os olhos fitos na parte inferior dos vagões, nos pernes, nas correntes e nas altas rodas de ferro fundido do primeiro vagão, que rodava lentamente, como se procurasse deter-minar o centro entre as rodas dianteiras e as traseiras e calculasse o momento em que esse ponto devesse estar na sua frente.
«Ali!», disse para si mesma, olhando a sombra do vagão e a areia misturada ao pó de carvão que se espalhava nas travessas. «Ali, mesmo no meio! Castigá-lo-ei e livrar-me-ei de tudo e de mim mesma.»
Quis atirar-se para debaixo do vagão que nesse momento chegava junto dela, mas a maleta vermelha, de que procurava desprender-se, distraiu-a e não lhe deu tempo: o centro do vagão já tinha passado. Era preciso esperar o imediato. Uma sensação parecida com a que costumava experimentar ao entrar na água à hora do banho se apoderou dela, e persignou-se. Esse gesto familiar despertou-lhe na alma recordações da infância e da juventude. E, subitamente, desvaneceu-se a névoa que tudo cobria, e a vida exibiu-se-lhe por momentos em todas as suas radiosas alegrias passadas. Não apartava, porém, os olhos do vagão que se aproximava. No momento preciso em que o centro desse vagão lhe passava diante atirou fora a maleta vermelha e afundando a cabeça entre os ombros atirou-se-lhe para debaixo, caindo com o corpo em cima das mãos. Depois, com um ligeiro movimento, como se quisesse ainda levantar-se, quedou ajoelhada. Nesse instante sentiu horror do que fazia.
«Onde estou eu? Que faço eu? Para quê?», quis retroceder, atirar-se para trás, mas entretanto qualquer coisa enorme, inflexível, a apanhou pela
cabeça arrastando-a de costas. «Senhor, meu Deus, perdoa-me tudo!», pronunciou, sentindo que lhe era impossível lutar. Um homenzinho resmoneava, martelando uns ferros por cima dela. E a vela à luz da qual Ana lera o livro da Vida, com todos os seus tormentos, todas as suas traições e todas as suas dores, resplandeceu, de súbito, com uma claridade maior do que nunca, alumiando as páginas que até então haviam estado na sombra. Depois crepitou, estremeceu e apagou-se para sempre.