A sala estreita em que se fumava e comia estava cheia. A agitação era cada vez maior e lia se nos rostos das pessoas uma certa inquietação. Os que se mostravam mais excitados eram os cabecilhas, que conheciam todos os pormenores e o número de bolas, dirigentes que eram do combate em perspectiva. Os demais, como soldados antes da batalha, conquanto se preparassem para ela, nem por isso deixavam de procurar distracções. Uns tomavam qualquer coisa de pé ou sentados junto à mesa; outros fumavam, passeando de um lado para o outro pela sala e conversavam com os amigos a quem não viam há tempo.
Levine não tinha vontade de comer nem tão pouco fumava. Não queria reunir se com os seus, isto é, com Sérgio Ivanovitch, Oblonski, Sviajski e os outros, pois Vronski, com o seu uniforme de estribeiro-mor do imperador, conversava animadamente com ele. Na véspera, já o vira
nas eleições e evitara falar lhe. Agora, Levine sentara se junto à janela, observando os grupos e prestando atenção ao que se dizia em volta. Sentia-se triste, especialmente porque via todas as pessoas animadas, ocupadas e inquietas e só ele e o velhinho desdentado, fardado da Marinha, que balbuciava fosse o que fosse sobre algum assunto e se sentara a seu lado, permaneciam indiferentes e inactivos.
— É um grande canalha. Já lho disse, mas não fez caso. É impossível! Não pude reuni-los em três anos — dizia num tom enérgico um proprietário baixinho, um tanto corcovado, com os cabelos luzidios caindo-lhe na gola bordada do uniforme, enquanto batia no chão com os tacões das botas novas, que naturalmente calçara especialmente para as eleições. E depois de um olhar de descontentamento a Levine, o proprietário virou se bruscamente.
— Sim, o senhor tem razão, o assunto não é muito limpo, não tem sequer nada a dizer — comentou, em voz alta, o proprietário baixinho.
Nessa altura aproximou se, pressuroso, um grupo de proprietários quê rodeavam um general gordo. Dir se ia procurarem um lugar onde trocassem impressões sem serem ouvidos.
— Como se atreve a dizer que dei ordens para que lhe roubassem as calças? Tenho a impressão de que as vendeu para beber. Pouco me importa que seja príncipe.
— Não tem o direito de dizer uma coisa dessas.
— Permita me que lhe diga, eles baseiam se no artigo da lei. A sua mulher deve estar inscrita como nobre — diziam noutro grupo.
— A lei que vá para o diabo! Falo com o coração, para isso são nobres. É preciso ter confiança.
— Excelência, vamos tomar um champagne. Outro grupo seguia um nobre que gritava e gesticulava. Era um dos que se tinham embriagado.
— Sempre aconselhei Maria Semionovna a que o arrendasse, porque não podia tirar proveito de outra maneira — dizia, numa voz agradável, um proprietário de bigodes brancos, que envergava uniforme de oficial do estado maior.
Era o proprietário com quem Levine se encontrara em casa de Sviajski. Atentando em Levine, e reconhecendo o, cumprimentou o.
— Tenho muito prazer em vê-lo. Claro! Lembro me muitíssimo bem do senhor. Encontrámo-nos o ano passado em casa do marechal da nobreza Nicolau Ivanovitch.
— Como vão as coisas lá pela sua propriedade? — perguntou
Levine.
— Sempre na mesma, perdendo dinheiro — respondeu o proprietário, detendo se, com um sorriso suave e a expressão serene e resignada de quem está convencido de que as coisas não podem ser de outra maneira. — E como está o senhor aqui na nossa província? Veio tomar parte no nosso coup d’état? — perguntou ele, pronunciando mal, mas com segurança, as palavras francesas.
— Reuniu se aqui toda a Rússia: camaristas e quase ministros — acrescentou, apontando para a figura representativa de Stepane Arkadievitch, que, com o seu uniforme de camarista, de calças brancas, passeava com um general.
— Devo confessar lhe que compreendo mal o significado das eleições da nobreza — disse Levine.
O proprietário olhou para ele.
— Que é que há que entender nisto? Não tem sentido nenhum. É uma instituição em decadência, que continua a mover se graças à força da inércia. Repare nos uniformes: já não há mais nobres, são todos funcionários.
— Então, porque está o senhor aqui? — perguntou Levine.
— Em primeiro lugar, por hábito. Depois é preciso manter as nossas relações. Também há certa obrigação moral. E, para falar verdade, no meu próprio interesse. O meu genro quer apresentar a sua candidatura. Não é homem rico e preciso ajudá-lo. Em compensação, por que virão aqui estes senhores? — disse, apontando para o jovem mordaz, que falara na mesa presidencial.
— É a nova geração da nobreza.
— Sim, a nova geração, mas não são nobres. São proprietários, porque adquiriram terras, mas nós, por nosso lado, nós herdámo-las. Eles, como nobres, atacam se a si mesmos.
— Não disse que era uma instituição caduca?
— Evidentemente; mas, seja como for, é preciso tratá-la com mais respeito. Por exemplo, Snetkov... Sejamos bons ou maus, há milhares de anos que existimos. Se o senhor quiser arranjar um jardim diante da sua casa, não vai deitar abaixo as árvores centenárias que aí haja... Ainda mesmo que fossem contorcidas e velhas não as cortaríamos para plantarmos um canteiro de flores, pelo contrário, trataríamos de dispor os canteiros de tal sorte que não tivéssemos de sacrificar as árvores. Uma árvore dessas não pode fazer se num ano — disse, circunspecto, e
Golpe de Estado.
imediatamente mudou de assunto. — E como vão as coisas lá nas suas terras? — Regularmente. Tenho conseguido uns cinco por cento.
— Sim; mas não conta nisso o seu trabalho, que também vale dinheiro. Posso dizer lhe que eu, antes de me dedicar à agricultura, ganhava três mil rublos como funcionário. Agora trabalho mais do que nessa altura, e tal como o senhor só consigo obter cinco por cento, e graças a Deus. O meu trabalho fica me de graça.
— Por que continua com um prejuízo tão evidente?
— O hábito, cavalheiro, o hábito! Que havemos de fazer? E por outro lado, sabemos que não pode ser de outro modo. E mais — acrescentou, apoiando se ao peitoril da janela, já animado pela conversa.
— Menão tem gosto nenhum pela terra. Sem dúvida vem a ser filho de um sábio. E aqui tem como eu não tenho quem continue o meu trabalho.
E no entanto trabalho sempre. Este ano plantei um pomar.
— Sim, sim, é a pura verdade — replicou Levine. — Também eu verifico que não tenho razão para cultivar as minhas terras, e no entanto continuo a cultivá-las... Sente se uma espécie de obrigação para com a terra.
— Pois é verdade — continuou o proprietário. — Veio visitar me um comerciante, vizinho meu, e saímos a dar uma volta pelo quintal e pelo jardim. Pois quer saber o que ele me disse? «Os meus cumprimentos, Stepane Vacilievitch, vejo que conduz bem a sua barca: mas eu, no seu lugar, deitava abaixo aquelas tílias, em plena seiva, como é natural. Tem ali bem um milhar delas e cada uma delas lhe daria madeira suficiente para duas vigas de isbá. Hoje é coisa que está a ser muito precisa.» — E com esse dinheiro podia comprar gado ou terras a bom preço e arrendá-las aos camponeses, concluiu, sorrindo, Levine, que há muito conhecia aquele gênero de cálculos. — E assim poderia chegar a fazer fortuna, enquanto nós, o senhor e eu, nos contentamos com que Deus nos permita conservar o que temos para o deixarmos intacto aos nossos filhos.
— Ouvi dizer que o senhor é casado.
— Sou — replicou Levine, com orgulho e satisfação. — Não lhe parece estranho que passemos a vida assim amarrados à terra como as antigas vestais ao fogo sagrado que eram obrigadas a manter? O velho proprietário esboçou um sorriso, por sob os seus bigodes brancos.
— Entre nós está o nosso amigo Nicolau Ivanovitch e agora o conde Vronski, que se fixou por estes sítios. Querem organizar uma
indústria agrícola, mas até à data isso não lhes serviu se não para lhes consumir o capital.
— Mas porque não havemos nós de nos fazer comerciantes? Porque não derrubarmos nós as nossas árvores para fazer madeira? — perguntou Levine, voltando ao pensamento que o assaltara antes.
— Porque, como o senhor acaba de dizer, temos de manter o fogo sagrado. E depois, que quer, vender árvores não é mister de nobres. Há um espírito de casta que nos diz o que se deve e o que se não deve fazer. Com o camponês ocorre o mesmo; às vezes, já o tenho notado, quando o camponês é de boa cepa arrenda todas as terras que pode. Por pior que seja a terra, continua a lavrar. Também o faz sem cálculos, em puxa perda.
— Exactamente como nós — disse Levine. — Tive muito prazer em cumprimentá-lo — acrescentou, ao ver que se aproximava Sviajski.
— Não o tornei a ver depois do nosso encontro em sua casa ano passado — disse o velho, voltando se para o recém chegado. — Temos estado a falar de coração nas mãos.
— Quê? Estiveram a criticar os novos usos e costumes? — perguntou Sviajski, risonho.
— Qualquer coisa parecida.
— Estivemos a desabafar.
grupo.
Sviajski travou do braço de Levine e conduziu o até junto do seu
Agora já lhe não era possível evitar Vronski, o qual, entre Sérgio Ivanovitch e Stepane Arkadievitch, aguardava que ele se aproximasse.
— Muito prazer — disse, estendendo a mão a Levine. — Acho que já nos encontrámos em casa de... da princesa Tcherbatski.
— É verdade. Lembro me muito bem do nosso encontro — replicou Levine, corando muito. E logo se voltou para o irmão e se pôs a conversar com ele.
Vronski teve um breve sorriso e continuou a tagarelar com Sviajski, ao que parecia sem qualquer desejo de entabular conversa com Levine. Mas este, enquanto falava com o irmão, voltava se a cada passo para Vronski, procurando dizer lhe alguma coisa com que pudesse atenuar a sua falta de polidez para com ele.
— De que se trata agora? — perguntou, voltando se para Sviajski e para Vronski.
— De Snetkov. É preciso que se demita ou que aceda — respondeu-lhe Sviajski.
— E ele está de acordo com isso?
— É precisamente do que se trata, ainda se não decidiu — explicou Vronski.
— E se ele se negar, quem se apresentará? — perguntou Levine, olhando para Vronski.
— Quem quiser — replicou Sviajski.
— O senhor, por exemplo?
— Nunca!—exclamou Sviajski, corando e relanceando um olhar inquieto ao vizinho de Sérgio Ivanovitch, em que Levine reconheceu o jovem mordaz.
— Então quem? Nievedovski — inquiriu Levine, sentindo que se aventurava por um terreno perigoso.
Mas esta pergunta foi ainda mais inoportuna. Nievedovski e Sviajski disputavam entre si a candidatura.
— Não penso apresentar me de maneira alguma — respondeu o jovem mordaz.
Era Nievedovski. Sviajski apresentou se a Levine.
— Quê? Também principias a apaixonar te por isso? — perguntou Stepane Arkadievitch, guiando um olhar a Vronski. — É uma espécie de corrida de cavalos. Deviam instituir se apostas.
— Sim, é de apaixonar, como toda e qualquer luta — aprovou Vronski, de sobrancelhas franzidas e apertando os fortes maxilares.
— Este Sviajski é um espírito prático. Vê tudo com uma clareza...
— Realmente — confirmou Vronski, distraído.
Houve um silêncio, durante o qual para ver em qualquer sentido, Vronski dirigiu o seu olhar para Levine, mirando lhe os pés, o uniforme e depois a face. Ao ver lhe, porém, os olhos taciturnos fitos nele, disse por dizer; — Como é que se compreende que vivendo o senhor sempre na aldeia não seja ainda juiz de paz? Não lhe vejo o uniforme.
— Porque acho absurda a instituição dos juizes de paz — replicou Levine, carrancudo, embora tivesse aguardado uma ocasião de dirigir a palavra a Vronski na esperança de reparar a atitude grosseira que tivera.
— Pois eu sou de opinião inteiramente oposta — replicou este, com tranqüilidade e surpresa.
— Para que hão de eles servir? — interrompeu Levine. — Em oito anos apenas tive um processo, e acabaram por julgá-lo ao invés. Tive de recorrer ao advogado, que me custou quinze niblos, para resolver um assunto que não valia dois.
E Levine contou que um mujique roubara farinha ao moleiro e quando este o censurara pela sua conduta, o mujique apresentara queixa contra ele, acusando o de difamação. Tudo isto era inoportuno e ridículo, e Levine dava se conta disso enquanto o ia referindo.
— Oh, que homem tão original! — exclamou Stepane Arkadievitch, com o seu sorriso de amêndoas doces. — Mas se nós fôssemos ver o que se está a passar? Parece me que já se vota.
E separaram se.
— Não percebo como se pode ser a tal ponto privado de tacto político — disse Sérgio Ivanovitch quando ficou só com o irmão. — Nós, os russos, carecemos de tacto. Snetkov é nosso adversário, e tu pões te a dizer lhe amabilidades. O conde Vronski é nosso aliado, e tu trata lo com sobranceria... Para falar verdade, não tenho nenhum desejo de privai com ele, acabo mesmo de não aceitar um convite que ele fez para jantar. Mas para que fazer dele um inimigo?... Depois fazes perguntas indiscretas a Nievedovski. Isso não está certo.
— Oh! Não percebo nada. Tudo isto são tolices — replicou Levine, cada vez mais taciturno.
— É possível, mas quando te metes nas coisas, embrulhas tudo. Levine nada respondeu e entraram os dois na sala grande.
Embora o marechal da nobreza da província adivinhasse no ambiente a fraude que se preparava e embora nem todos lhe tivessem pedido que apresentasse a sua candidatura, decidiu fazê-lo. Após o silêncio que se fez na sala, o secretário declarou em voz alta que ia proceder se à votação, para a presidência da nobreza, do nome do comandante de cavalaria, Mikail Stepanovitch Snetkov,
Os marechais de distrito levantaram se das suas mesas respectivas e foram instalar se com as urnas que continham as bolas na mesa de honra. E as eleições principiaram.
— Põe a bola à direita — soprou Stepane Arkadievitch a Levine, quando este se aproximou da mesa na companhia do irmão. Mas Levine, que se tinha esquecido das explicações complicadíssimas de Sérgio Ivanovitch, julgou que se tratava de um erro de Oblonski: pois Snetkov
não era adversário? Diante da própria urna passou a bola da sua mão direita para a sua mão esquerda e votou tão ostensivamente à esquerda que um eleitor que o estava a observar franziu o sobrolho: era um cavalheiro que se dedicava à arte de adivinhar os votos e a sua penetração encarava desdenhosamente manobra tão evidente.
Todos se calaram e daí a pouco ouvia se o ruído das bolas que estavam a contar. Depois uma voz proclamou o número de bolas a favor e contra.
Snetkov fora eleito por uma maioria considerável de votos. Todos se precipitaram para as portas com grande ruído. Snetkov apareceu e os nobres rodearam no para o felicitarem.
— Então acabou? — inquiriu Levine do irmão.
— Acaba de principiar, pelo contrário — respondeu lhe, sorrindo Sviajski, em vez de Kosnichev. — O candidato à presidência pode obter um número de votos superior.
Levine voltara esquecer esta subtileza. E isso precipitou o numa espécie de melancolia. Julgando se inútil, voltou para a sala pequena, onde a presença dos criados o restituiu à serenidade. O velho ofereceu lhe os seus préstimos, propondo lhe que comesse alguma coisa, e Levine acedeu. Depois de comer uma costeleta com feijão branco e de conversar com o criado velho acerca dos antigos amos deste, Levine, que não queria voltar para a sala onde se sentia tão mal, foi dar uma volta pelas tribunas.
As tribunas estavam cheias de senhoras elegantes, que se debruçavam sobre a balaustrada, procurando não perder uma só palavra do que se dizia em baixo. Ao lado das senhoras, sentados ou de pé, viam se advogados e janotas, professores do ensino secundário e oficiais. Só se falava das eleições. Alguns punham em evidência o interesse dos debates, outros referiam se à extrema fadiga do marechal, e Levine ouviu uma senhora dizer para um advogado.
— Estou muito contente por ter ouvido Kosnichev. Vale a pena ficar se sem jantar para se ouvir um discurso destes. É magnífico! Que bem se ouvia! Nenhum dos senhores fala assim no tribunal de justiça. Só Maidel, e está muito longe de ter a eloqüência de Kosnichev.
Levine encontrou um lugar livre ao pé da balaustrada e, debruçando se, pôs se a olhar e a ouvir.
Os nobres estavam sentados, divididos em distritos por teias. No centro da sala havia um homem de uniforme, que, em voz alta e aguda, proclamou: — O comandante de cavalaria do estado maior, major Avgueni Ivanovitch Apuktine, apresentou a sua candidatura para a presidência
provincial da nobreza.
Reinou silêncio, um silêncio sepulcral, e depois ouviu se uma voz débil, de pessoa idosa.
— Recusa.
— Candidatura do conselheiro áulico Piotre Petrovitch Boll — disse, novamente, a mesma voz anterior:
— Recusa! — respondeu uma voz jovem e rangente. Voltou a ouvir se outro nome e de novo a palavra «recusa». Assim decorreu cerca de uma hora. Levine, encostado à balaustrada, olhava e ouvia.
Ao princípio pareceu assombrado e fazia por compreender o que aquilo significava, mas depois, persuadido de que não seria capaz de compreender, principiou a aborrecer se. E ao lembrar se da inquietação e da irritação que vira em todos os rostos, sentiu se triste, resolveu ir se embora e abandonou a tribuna. Ao passar pelo vestíbulo, deparou se com um colegial que passeava de um lado para o outro, muito triste e com os olhos inchados de chorar. Na escada viu uma senhora que corria, veloz, com os seus sapatos de salto alto, seguida de um buliçoso substituto de fiscal.
— Eu bem lhe tinha dito que chegaríamos a tempo — dizia o substituto de fiscal, no momento em que Levine se afastava para deixar passar a senhora.
Levine encontrava se já na escada da saída principal e dispunha se a retirar do bolso do colete o número do guarda roupa para levantar o agasalho de pele, quando o secretário veio até ele.
— Constantino Dimitrievitch, faça favor, estão a votar.
A despeito da sua categórica recusa, Nievedovski acabara por aceitar a candidatura.
O secretário bateu à porta da sala grande, que estava fechada; a porta abriu se, deixando passar dois proprietários de rosto afogueado.
— Já não podia mais! —exclamou um deles. Atrás dos proprietários, apareceu o rosto do marechal da nobreza: a sua fisionomia transtornada fazia pena.
— Tinha te proibido que deixasses sair quem quer que fosse! — gritava ele para o contínuo.
— Mas não que deixasse entrar, Excelência!
— Meu Deus! — exclamou o marechal da nobreza, suspirando profundamente, e, inclinando a cabeça, dirigiu se, em passo fatigado, para o centro da sala, direito à mesa eleitoral.
Como se esperava, Nievedovskoi foi efeito presidente provincial da nobreza por maioria de votos. Muitos estavam contentes, satisfeitos e sentiam se felizes, não poucos chegavam, mesmo, ao entusiasmo; outros mostravam se descontentes. O antigo marechal da nobreza caíra num desespero que não era capaz de esconder. Quando Nievedovski se dispunha a abandonar a sala, a multidão rodeou o, acompanhou o com entusiasmo, da mesma maneira que seguira o governador que inaugurara as eleições e tal qual como tinha seguido Snetkov quando fora eleito.
O novo presidente da nobreza e muitos dos adeptos do partido vitorioso jantaram naquela noite em casa de Vronski.
Vronski assistira às eleições porque se aborrecia no campo, porque queria mostrar a Ana os seus direitos à liberdade, porque desejava ser agradável a Sviajski, que lhe prestara grandes serviços aquando das eleições do zemtsvo e, acima de tudo, porque pretendia desempenhar as obrigações que a si próprio se impunha a título de grande proprietário. Nunca esperava que as eleições viessem a interessá-lo àquele ponto e que nelas desempenhasse um papel de tanto êxito. Conquistara a simpatia geral e via perfeitamente que todos contavam já com ele. Esta súbita influência era devida ao nome que usava e à fortuna de que dispunha; à bela casa em que vivia na cidade e que lhe era cedida pelo seu velho amigo Chirkov, um financeiro que fundara em Kachine um banco assaz próspero; ao excelente cozinheiro que trouxera consigo da aldeia; à sua intimidade com o governador, um dos seus antigos camaradas e seu protegido; mas sobretudo às suas maneiras simples e encantadoras, que lhe granjeavam simpatias gerais, a despeito da reputação de altivez de que gozava. Em suma, à excepção desse insensato que achara por bem casar se com Kitty Tcherbatski e que acabara por lhe debitar à propôs de botte , uma série de tolices, todos aqueles que o tinham conhecido durante a sessão pareciam dispostos a testemunhar lhe as suas homenagens e a atribuir lhe o êxito da candidatura de Nievedovski. Sentia um certo orgulho em reconhecer, de si para consigo, que dentro de três anos, se entretanto estivesse casado e se lhe desse para aí, seria ele quem disputaria a próxima candidatura, exactamente como outrora, depois de aplaudir a vitória do seu jóquei, resolvera ele próprio disputar as corridas.
Fora de propósito.
Por enquanto era a vitória do jóquei que estavam a celebrar. Vronski ocupava a presidência da mesa. À sua direita, sentava se o governador, jovem general do séqüito do czar, que cortejava os nobres, mas que para Vronski era apenas o velho camarada Maslov — Katka, que assim era conhecido no Corpo de Pajens — um protegido seu de outros tempos e a quem ele procurava mettre à l’aise. À sua esquerda, sentava se Nievedovski, com o seu rosto jovem, impassível e mordaz, e a c}uem Vronski tratava com todas as atenções.
Sviajski fazia das tripas coração, tentando esquecer o seu fracasso. Outrossim, não reconhecia esse fracasso, como se depreendia do que dissera, levantando a sua taça e brindando por Nievedovski: teria sido impossível encontrar melhor representante para a nova direcção que devia congraçar a nobreza. Por isso mesmo todos os homens honrados apoiavam e festejavam a eleição.
Stepane Arkadievitch também estava contente por poder passar o tempo de maneira tão agradável e por ver todas as pessoas tão satisfeitas. Durante o opíparo jantar recordaram se os vários episódios das eleições. Sviajski parodiou còmicamente o discurso lamuriento do antigo marechal da nobreza e, dirigindo se a Nievedovski, aconselhou o a que escolhesse outra forma melhor, mais complicada do que a das lágrimas, para o exame à tesouraria. Outro nobre má-língua referiu que Snetkov, que contava celebrar com um baile a sua reeleição para marechal da nobreza, mandara vir lacaios de calção e meia, os quais iam ficar agora desempregados, a não ser que «Sua Excelência» estivesse disposto a fazer o mesmo. Tratando Nievedovski a cada passo por «Excelência», todos sentiam a mesma satisfação que se tem quando num casamento se trata a noiva por «Minha Senhora». O novo marechal da nobreza fingia não só que lhe era indiferente a nomeação de que fora alvo, mas que até a menosprezava; a verdade, porém, é que não havia dúvida que se sentia feliz e se reprimia para não dar largas ao seu entusiasmo, pouco conveniente naquele meio novo e liberal em que se encontrava.
Durante o jantar foram enviados alguns telegramas a pessoas interessadas na marcha das eleições. Stepane Arkadievitch, que estava muitíssimo alegre, enviou também um a Daria Alexandrovna concebido nestes termos: «Nievedovski eleito por vinte votos. Felicitações. Comunica o.»
Oblonski ditou o telegrama em voz alta e disse: «É preciso dar lhes uma alegria » Em compensação, Daria Alexandrovna, ao recebê-lo, limitou se a suspirar, lamentando o rublo gasto e compreendeu que o marido lho enviara depois de um jantar. Conhecia a fraqueza de Stiva de
Pôr à vontade.
faire jouer le télégraphe depois dos jantares.
Tudo, pratos e vinhos estrangeiros, resultou muito digno, simples e alegre. Aquele grupo de vinte pessoas fora escolhido por Sviajski, entre homens professando as mesmas ideias liberais, de iniciativas novas e ao mesmo tempo inteligentes e honrados. Brindou se alegremente pelo novo presidente provincial da nobreza, pelo director do banco, bem como pelo «nosso amável anfitrião».
Vronski estava contente. Não esperava encontrar na província um ambiente tão agradável.
No fim do jantar a alegria foi maior ainda. O governador pediu a Vronski que assistisse ao concerto em benefício dos irmãos eslavos, organizado peja mulher, que muito desejava conhecê-lo.
— Depois haverá baile e verás as nossas «belezas» locais. Digo te que vale a pena.
— No in my Une —respondeu Vronski sorrindo, pois gostava muito daquela expressão; prometeu, no entanto, que iria.
Momentos antes de se levantar da mesa, quando todos estavam a fumar, o criado de quarto de Vronski trouxe lhe uma carta numa bandeja.
— Chegou de Vozdvikenskoi, por um próprio — disse ele num tom importante.
— É espantoso como se parece com o substituto do fiscal Sventitski — disse em francês um dos convivas, referindo se ao criado de quarto, enquanto Vronski lia a carta de sobrecenho carregado. A carta era de Ana. Ainda a não lera e já sabia o que dizia. Convencido de que as eleições demorariam apenas cinco dias, prometera lhe voltar sexta feira. Era sábado e Vronski tinha a certeza de que aquela carta transbordava de censuras por ele não ter voltado para casa no dia prometido. Naturalmente a carta que lhe escrevera na véspera ainda não lhe chegara às mãos. O conteúdo da carta, efectivamente, era esse mesmo que Vronski imaginara, mas a sua forma, inesperada e particularmente desagradável:
Any está muito doente, o médico diz que talvez se lhe declare uma pneumonia. Sozinha perco a cabeça, A princesa Bárbara, em vez de ajudar, apenas serve para estorvar. Esperei te antes de ontem e ontem, e agora mando te esta carta para saber onde estás e o que fazes. Pensei ir eu própria, mas desisti, certa de que isso te desagradaria. Responde-me qualquer coisa para eu saber o que hei de fazer.
Fazer funcionar o telégrafo.
Não é do meu gênero.
A criança estava doente e Ana pensara em vir ela própria? Mesmo com a filha doente era capaz de se mostrar tão hostil. O contraste entre a inocente alegria das eleições e aquele amor sombrio e penoso a que tinha de regressar confrangeu Vronski. Mas era preciso fazê-lo, e naquela noite regressou a casa no primeiro comboio.
As cenas que Ana lhe fazia de cada vez que ele se ausentava só podiam agastar Vronski. Percebera isso e a si próprio prometera, à hora da partida para as eleições, suportar estòicamente a separação. Porém, o olhar frio e o tom imperioso em que ele lhe anunciara a sua resolução magoara a, e ainda ele não saíra de casa já ela não sabia como dominar se. Na solidão pôs se a comentar esse olhar com que ele lhe significara a sua independência e interpretara o, como sempre, num sentido humilhante para ela. «Claro, ele tem o direito de se ausentar quando lhe apetecer... e até mesmo de me abandonar por completo. Não tem ele, de resto, todos os direitos enquanto eu não tenho nenhum?... É pouco generoso da sua parte dar mo a entender... Mas como me deu ele a entender isso? Por um olhar duro?... É uma razão assaz vaga. No entanto, ele não me olhava assim outrora, e isto só quer dizer que o seu amor por mim arrefeceu...»
Embora convencida desse arrefecimento no amor de Vronski, Ana não se julgava capaz de remediar esse mal senão oferecendo lhe a ele um amor cada vez mais ardente e encantos sempre renovados. Aliás, só as ocupações múltiplas durante o dia e as doses freqüentes de morfina durante a noite eram capazes de amortecer o medonho pensamento que a torturava: um dia, talvez, Vronski deixaria de a amar, e então que seria dela? Tanto pensara nestas coisas que acabara por compreender que lhe restava ainda uma salvação: o casamento, e decidiu ceder aos primeiros argumentos que Stiva ou ele lhe apresentassem a favor do divórcio.
Cinco dias decorreram nestes transes; ia iludindo a sua angústia com passeios, conversas com a princesa, visitas ao hospital, leituras intermináveis. Mas, no sexto dia, ao ver o cocheiro voltar sozinho da estação, sentiu que as forças a abandonavam. Entretanto, a filha adoecera, mas com tão pouca gravidade que nem isso conseguira distraí-la; de resto, embora ela lhe desse cuidados, o certo é que não podia fingir sentir por essa criança sentimentos que não experimentava realmente. Quando chegou a noite aumentaram os terrores que sentia; convencida de que Vronski fora vítima de qualquer acidente, quis ir ao seu encontro, mas, reprimindo se, mandara lhe por um portador uma carta incoerente, que
não teve sequer coragem de reler. No dia seguinte, pela manhã, a chegada da carta de Vronski fê-la arrepender se da impaciência que mostrara: como iria ela suportar a severidade do olhar de Vronski quando ele a fitasse depois de saber que a doença de Any não fora de gravidade? Apesar de tudo, o regresso dele era para ela uma grande alegria: ainda que ele sentisse quanto era pesada a sua cadeia, a verdade é que lá estaria, e ela não o perderia de vista.
Sentada ao pé do candeeiro lia o último livro de Taine enquanto lá fora soprava o vento em rajadas e apurava o ouvido ao menor ruído. Depois de por várias vezes ter ouvido mal, ouviu distintamente a voz do cocheiro e o rodar da carruagem junto do peristilo. A princesa Bárbara, que se entretinha a fazer uma paciência, também ouviu. Ana levantou se; não ousava descer a escada, como o fizera já por duas vezes, e, corada, confusa, apreensiva quanto ao acolhimento que iria ter, deteve se. Todas as suas susceptibilidades se haviam desvanecido; agora só tinha a recear uma coisa: o descontentamento de Vronski e, recordando-se subitamente de que a pequenina estava muitíssimo melhor desde essa manhã, pareceu querer lhe mal por se haver restabelecido exactamente na altura em que ela enviara aquela carta. Porém, pensando que ia tornar a vê-lo, em carne e osso, todos os outros pensamentos desapareceram e quando o som da voz de Vronski veio até ela uma grande alegria se apoderou de si: correu ao encontro dele.
— A Any como está? — perguntou ele, inquieto, do fundo da escada, enquanto um criado lhe descalçava as botas forradas.
— Melhor.
— E tu? — perguntou ele, sacudindo os flocos de neve que se lhe haviam introduzido na pelica.
Ana tomou lhe uma das mãos entre as suas e puxou a para si, sem desfitar dele os olhos.
— Bem, ainda bem — disse Vronski, desatento ao vestido que ele sabia ter sido expressamente escolhido para o receber.
Estas atenções agradavam lhe, mas agradavam lhe há muito já; e no rosto transpareceu lhe essa expressão de uma imobilidade severa que Ana tanto receava ver lhe.
— Estou bem. E tu, como estás? — insistiu ele, beijando lhe a mão, depois de enxugar com o lenço a barba húmida.
«E o mesmo», disse Ana de si para consigo, «contanto que esteja aqui. «ando aqui, não pode, não se atreve a não me amar.» O serão passou se alegremente na presença da princesa, que se queixara de Ana, que tomara morfina.
— Que havia eu de fazer? Não conseguia dormir... Sempre, sempre a pensar. Quando ele está, quase nunca a tomo.
Vronski contou o que se passara nas eleições e Ana soube levá-lo, habilmente, a falar do que lhe agradava: dos seus próprios êxitos. Por sua vez, ela contou lhe tudo o que lhe podia interessar a respeito da casa. E tudo o que lhe disse eram coisas que sabia serem lhe agradáveis.
Pela noite adiante, quando ficaram sós, Ana, julgando ter de novo tomado inteira posse dele, procurou fazê-lo esquecer a impressão desagradável que lhe causara a carta que escrevera.
— Confessa — disse lhe ela — que não ficaste nada contente com o meu bilhete e que não acreditaste nele.
— É verdade — replicou Vronski, e não obstante a ternura que lhe testemunhava, Ana compreendeu que ele não lhe perdoaria. — A tua carta era tão estranha: estavas inquieta por causa da Any e, no entanto, falavas me em ires ter comigo.
— Uma e outra coisa eram verdadeiras.
— Não duvido.
— Duvidas, sim; bem vejo que estás zangado.
— De maneira alguma. Apenas me contraria que não queiras reconhecer que existem obrigações...
— Que obrigações? A obrigação de assistir a um concerto?
— Não falemos mais nisso.
— Por que não havemos nós de falar mais nisso?
— Apenas quero dizer que se podem apresentar deveres imperiosos. Agora, por exemplo, vou ter que ir a Moscovo tratar de assuntos da casa... Oh! Ana, por que és tão irascível? Acaso ignoras que não posso viver sem ti? — Se é assim — volveu lhe Ana, mudando subitamente de tom —, se chegas hoje para partires amanhã, se estás cansado desta vida...
— Ana, não sejas cruel. Bem sabes que estou pronto a tudo te sacrificar...
Já o não ouvia.
— Quando fores a Moscovo, irei contigo... Não fico aqui sozinha. Vivamos juntos ou então separemo-nos.
— Não quero senão viver contigo, mas para isso é preciso...
— O divórcio? Seja. Vou escrever lhe. Não posso continuar a viver assim... Mas irei contigo a Moscovo.
— Dizes isso em ar de ameaça: mas é isso mesmo que eu desejo; não me separar de ti — comentou Vronski, sorrindo. No entanto, o seu olhar continuava glacial e mau, como o de um homem exasperado por uma perseguição. Ana compreendeu o que esse olhar queria dizer e a impressão que nesse momento sentiu nunca mais se lhe apagaria da memória.
Ana escreveu ao marido a pedir lhe o divórcio, e no fim de Novembro, depois de se separar da princesa Bárbara, que se via obrigada a regressar a Sampetersburgo, foi instalar se em Moscovo com Vronski