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Ana Karenina
(Terceira PARTE)

Leon Tolstoi

CAPÍTULO XXVIII

Levine passou um serão aborrecidíssimo na companhia das senhoras. Preocupado com a ideia de que a crise de desânimo por que passava era conseqüência do estado geral das suas coisas, não deixava de ruminar o problema que lhe interessava. «Sim», dizia para si mesmo, «precisamos de encontrar, custe o que custar, um modus vivendi que permita aos camponeses trabalharem nas nossas terras com a mesma boa vontade com que trabalhavam em casa do lavrador onde tomei chá. Não se trata de uma utopia, mas de um simples problema que nós temos o direito e o dever de solucionar.» Despedindo-se das senhoras, prometeu-lhes que ficaria ainda todo o dia seguinte para, juntos, irem a cavalo ver o desabamento que se dera numa mata do Estado. E antes de retirar-se, entrou no escritório do dono da casa para recolher uns livros sobre questões operárias que este lhe oferecera. O escritório era uma dependência enorme, com muitos armários de livros e duas mesas, uma grande, de escritório, no centro da sala, e outra, redonda, sobre a qual havia jornais e revistas em todos os idiomas, dispostos em forma de estrela, à volta do candeeiro. Junto da mesa-secretária via-se um arquivo, com rótulos dourados nas gavetas, indicando as diferentes espécies de documentos que continham.

Sviajski pegou nos livros e sentou-se numa cadeira de baloiço.

— Que está a ver? — perguntou a Levine, o qual, detendo se junto da mesa redonda, mirava as revistas — Ah, sim, há um artigo muito interessante nessa revista? — acrescentou, referindo-se à que Levine tinha na mão — Chego à conclusão — prosseguiu com jovial entusiasmo — de que o principal culpado da partilha da Polônia não foi Frederico. Concluo.

E Sviajski, com a sua peculiar clareza, resumiu, sucintamente, aquelas novas e interessantes descobertas de grande importância. Embora naquele momento nada lhe interessasse mais do que a questão da economia rural, Levine, ouvindo-o, perguntava-se a si mesmo «Que há dentro dele? Por que lhe interessa a divisão da Polônia?» Quando Sviajski acabou de falar, Levine perguntou-lhe, involuntariamente.

— E depois?

Mas não havia mais nada «depois»! A única coisa interessante era a «conclusão»

Sviajski não explicou, nem julgou necessário fazê-lo, por que lhe interessava aquilo.

— É certo — disse Levine, depois de um suspiro — que gostei de ouvir aquele proprietário zangado É inteligente e diz muitas verdades.

— Ora! É um esclavagista vergonhoso, como todos, de resto— volveu-lhe Sviajski.

— De quem você é marechal de nobreza.

— Sim, mas dirijo-os numa direcção muito diferente daquela que eles querem — tornou Sviajski, desatando a rir.

— O que eu gostaria de saber era o seguinte—argumentou Levine — Tem razão ao dizer que a nossa economia nacional não progride e que a única coisa que prospera são as propriedades dos usurários, como a daquele outro tão calado, ou então as dos que aplicam uma economia mais primitiva. Mas de quem é a culpa? — Claro está que de nós mesmos. Além disso não é verdade que não progride A propriedade de Vaciltchikov, por exemplo, prospera.

— A fábrica.

— Mas, de toda a maneira, não percebo que é que o surpreende. O povo está num nível material e moral tão baixo que decerto se oporá a aceitar aquilo de que necessita. Na Europa, a propriedade racionai faz progressos, porque o povo está educado. Por conseguinte, o que temos a fazer é educar o povo, e pronto.

— Mas como educar o povo?

— Para o conseguir são precisas três coisas: escolas, escolas e escolas.

— Mas acaba de dizer que o povo se encontra num baixo nível de desenvolvimento moral para que lhe hão-de servir as escolas? — Faz-me lembrar aquela anedota do doente— «Deviam dar lhe um purgante.» — «Já lho demos e está pior.» — «Então ponham lhe sanguessugas.» — «Já lhas pusemos e ficou pior.» — «Então rezem.» — «Também rezámos e continua mal» Eis o que nós fazemos. Falo-lhe de economia política e você diz-me que é pior. Refiro-me ao socialismo, e responde me, pior. Recomendo a instrução, e declara-me, pior ainda.

— Para que servem as escolas?

— Acordarão no povo necessidades novas.

— Nunca pude entender isso — replicou Levine, exaltando-se — Como hão de as escolas ajudar o povo a melhorar a sua situação material? Diz você que as escolas e a instrução despertam no povo necessidades novas. Tanto pior, porque não terá maneira de as satisfazer Jamais compreendi em que poderão melhorar a situação material dos camponeses a soma, a subtracção e o catecismo. Antes de ontem encontrei uma mulher com uma criança de peito nos braços e perguntei lhe de onde vinha «Levei a criança, que está com tosse convulsa, a casa da curandeira.» — «E que faz essa mulher para curar a tosse convulsa?» — «Põe a criança no poleiro das galinhas e diz uma lenga-lenga »

— Como vê, você mesmo o está a dizer. Para que não levem as crianças à curandeira, é preciso — disse Sviajski, sorrindo alegremente.

— Oh! Não! — exclamou Levine, irritado — Essa cura da criança é como a cura do povo nas escolas. O povo é pobre e inculto, vemo-lo com tanta clareza como a mulher vê a tosse convulsa que faz chorar a criança. Mas é tão incompreensível que as escolas possam ajudar o povo na sua incultura e na sua miséria como a curar a tosse convulsa no poleiro da capoeira. Há que dar remédio à causa da miséria do povo.

— Nisso, ao menos, você está de acordo com Spencer, um autor de que no entanto não gosta. Também ele sustenta que a cultura pode ser o resultado de um aumento de bem estar, de banhos mais freqüentes, como ele diz, mas nunca de saber ler e contar.

— Pois bem, dá me muita satisfação, ou antes, lamento muito coincidir com Spencer. Há muito que penso assim. As escolas não ajudam em nada, e apenas serão úteis quando existir uma economia que permita ao povo ser mais rico e ter mais tempo livre.

— No entanto, agora, em toda a Europa, o ensino é obrigatório.

— Está de acordo nisso com Spencer? — perguntou Levine.

Mas nos olhos de Sviajski apareceu a tal expressão de medo e disse, sorrindo.

— Tem muita graça isso da tosse convulsa! Será possível que se tenha passado consigo? Levine compreendeu que não conseguia achar a relação entre a vida e as ideias daquele homem. Via-se que lhe era indiferente a conclusão a que levariam os seus raciocínios, apenas precisava do processo de pensar. E ficava contrariado quando este o conduzia a um beco sem saída. Era a única coisa de que não gostava e procurava evitá-lo, mudando de conversa, falando de assuntos mais alegres e agradáveis.

Todas as impressões do dia, a começar pelas do lavrador que vivia a meio caminho da propriedade de Sviajski, o qual lhe servia de base a

todas as suas ideias e sensações, agitaram profundamente Levine. Aquele amável Sviajski, que sustentava opiniões apenas para uso externo e que sem dúvida tinha outros fundamentos para a vida, secretos para Levine, pertencendo à legião dos que dirigiam a opinião pública de acordo com as ideias que lhe eram alheias, aquele proprietário zangado que tinha razão nas suas reflexões extraídas da vida, mas era injusto na irritação que mostrava para uma classe, a melhor da Rússia, o descontentamento em que estava das suas próprias actividades e a vaga esperança de achar remédio para isso, tudo se fundia num sentimento de inquietação interior e de expectativa num próximo desenlace.

Só no quarto que lhe fora destinado, estendido no colchão de molas, que ao mais pequeno movimento lhe fazia saltar, inesperadamente, os braços e as pernas, Levine conservou se acordado por muito tempo.

Nenhuma conversa com Sviajski, embora este dissesse coisas acertadas, lhe interessava a ele, Levine. Mas as ideias do velho proprietário, essas, sim, valia a pena pensar nelas! Involuntariamente Levine recordava as palavras dele e mentalmente corrigia as respostas que lhe dera.

«Devia ter lhe dito. O senhor afirma que a nossa exploração agrícola vai mal, porque o camponês odeia os aperfeiçoamentos e porque estes devem introduzir se à força. Teria o senhor razão se as coisas não caminhassem de todo sem esses aperfeiçoamentos, mas a economia agrícola prospera ali onde o camponês obra segundo o costume, como, por exemplo, na casa do velho que vive a meio caminho da propriedade de Sviajski. O seu descontentamento, tal qual como o meu sobre o estado das nossas terras, demonstra que os culpados somos nós e não os trabalhadores. Há muito já que operamos à maneira européia sem nos preocuparmos com a qualidade da mão de obra. Tentemos reconhecer a força operária, não como uma força ideal de trabalhadores, mas por aquilo que ela é, o mujique russo, com todos os seus instintos, e organizemos a exploração das terras tendo-o a ele em mente Imagine, devia eu ter-lhe dito, que o senhor administrava a sua propriedade como o velho lavrador que achara a maneira de interessar no êxito do trabalho o camponês e o equilíbrio de aperfeiçoamento que ele admite. Então, sem esgotar a terra, o senhor obteria duas ou três vezes mais do que até aqui. Divida as suas terras em duas partes, entregue metade aos camponeses, conseguirá mais e eles também. Para o conseguir terá de diminuir o nível da exploração agrícola e interessar os trabalhadores no resultado. A maneira de o fazer é questão de pormenor. Mas não há dúvida de que é possível» Estes pensamentos agitaram Levine de forma extraordinária. Passou parte da noite sem dormir, pensando na maneira pormenorizada de pôr em prática as suas idéias. Não tinha tenção de voltar para casa no

dia seguinte. Mas agora decidiu se a fazê-lo logo pela manhã muito cedo. Aliás, a cunhada de Sviajski, com o seu vestido decotado, despertava nele um sentimento análogo ao da vergonha e do arrependimento de quem fizera qualquer coisa mal feita. E sobretudo devia regressar sem delongas, para ter tempo de propor aos camponeses um novo projecto antes da sementeira de Outono, e semear já de acordo com as novas condições Decidira mudar completamente a sua maneira de explorar a terra.

CAPÍTULO XXIX

A execução do plano de Levine apresentava muitas dificuldades mas, lutando com todas as forças, conseguiu, não precisamente o que desejava, mas ao menos, sem se enganar a si mesmo, acreditar que a sua obra merecia que cuidasse dela. Um dos principais obstáculos que se lhe deparavam era o facto de a exploração estar em andamento e ser possível interrompê-la para principiar de novo. Havia que reparar a máquina mesmo em andamento. Quando comunicou os seus planos ao administrador, na própria tarde em que chegou, este, com evidente satisfação, mostrou se de acordo com a parte do discurso de Levine em que se demonstrava que tudo o que se fizera até ali era absurdo e desvantajoso. Afirmou mesmo que havia muito que o dizia e ninguém fizera caso dele. Quanto ao oferecimento que Levine lhe fez para que ele tomasse parte, como consócio, ao lado dos demais trabalhadores, na economia da propriedade, limitou se a mostrar uma expressão desanimada e não deu resposta definida. Disse imediatamente que era necessário recolher no dia seguinte a restante palha de centeio, e Levine compreendeu que o momento não era azado para trocar impressões sobre o assunto.

Ao falar do mesmo caso com os camponeses e ao propor lhes o arrendamento da terra sob novas condições, Levine encontrou o mesmo obstáculo essencial tão ocupados estavam nas tarefas do dia que não tinham tempo para pensar nas vantagens ou nas desvantagens do empreendimento.

O ingênuo Ivan, o vaqueiro, pareceu compreender muito bem a proposta de Levine (de participar ele e a família nos lucros da vacaria) e interessou-se plenamente por ela. Mas quando Levine lhe exibiu, as vantagens futuras tornou-se inquieto e desculpou-se de não poder ouvi-lo até ao fim Pretextou imediatamente uma tarefa que não admitia delongas, agarrava numa forquilha e deitava feno às vacas, dava-lhes água ou recolhia o estrume. Outra dificuldade consistia na invencível

desconfiança dos camponeses, que não compreendiam que o proprietário pudesse pensar noutra coisa que não fosse arrancar-lhes da pele o mais que pudesse. Estavam firmemente convencidos de que o verdadeiro objectivo deste — dissesse o que dissesse — consistiria sempre no que deixaria de lhes dizer Eles próprios, ao explicarem se, falavam muito, mas sem dizerem jamais em que consistia o seu autêntico objectivo. Demais (Levine dava se conta de que o proprietário bilioso tinha razão) os camponeses impunham como primeira condição indispensável que os não obrigassem a aceitar novos métodos nem a utilizar máquinas novas na exploração das terras. Estavam de acordo em que o arado moderno trabalhava melhor, mas descobriram mil razões para justificar que o não podiam empregar. E ainda que Levine compreendesse que devia descer ao nível da economia rural, custava-lhe renunciar aos aperfeiçoamentos cujas vantagens eram notórias. Apesar de tudo, no Outono as coisas puseram se em andamento, ou pelo menos assim se lhe afigurou.

A princípio Levine pensou arrendar toda a herdade, tal como estava, aos camponeses, aos jornaleiros e ao administrador, sob as novas condições de companheirismo. Mas não tardou a convencer-se de que era impossível e decidiu dividi-la em partes. O curral, o pomar, a horta, os prados e os campos, divididos em várias parcelas, deviam formar grupos isolados. O ingênuo Ivan, o vaqueiro, que, como Levine pensava, compreendera muito bem o que ele queria, escolheu um grupo composto, na sua maior parte, por parentes seus e chamou a si as tarefas do curral do gado. O campo distante, abandonado havia oito anos, foi escolhido pelo inteligente carpinteiro Fiodor Rezunov e por seis famílias de camponeses, nas novas condições de cooperação. O aldeão Churaiev arrendou, em iguais condições, todas as hortas. O resto continuava ainda como antes. Mas aquelas três partes representavam o princípio da nova ordem, ocupavam no por completo. Certo é que o estábulo não caminhava melhor do que até aí e que Ivan se opunha tenazmente a que o alojamento das vacas fosse aquecido e a que se fizesse manteiga do leite de vaca. Dizia que as vacas, como o frio, necessitavam menos ração e que a manteiga de nata azeda se conservava melhor. Exigia o salário tal qual como antes, sem perceber que o dinheiro que recebia era um adiantamento à conta de futuros lucros.

É verdade que o grupo de Fiodor Rezunov não lavrou a terra com o arado, como estava estabelecido, justificando-se com o facto de ter pouco tempo. E também é certo que, embora os camponeses desse grupo tivessem concordado em explorar a terra sob novas condições, não a consideravam comum, mas como que a meias, e que mais de uma vez, tanto os camponeses do grupo como o próprio Rezunov, tinham dito a Levine «Se quisesse cobrar um tanto pela terra, ficaria o patrão mais

tranqüilo e nós sentir-nos-iamos mais livres.» E não havia dúvida de que iam adiando, sob pretextos diferentes, a construção aprazada de uma granja e de um estábulo. E o Inverno chegou Churaiev quisera sublocar, parceladamente, aos mujiques, as hortas que tinha arrendado. Com certeza entendera mal, de propósito, as condições em que se lhe havia arrendado a terra. E finalmente era verdade também que, conversando com os camponeses e explicando-lhes as vantagens da empresa, Levine observava amiúde que estes mais não faziam do que ouvir-lhe o som da voz, firmemente resolvidos a mão se deixarem enganar com o que ele dissesse. Notava isso especialmente ao falar com Rezunov, o mais inteligente dos mujiques, e ao descobrir-lhe nos olhos aquela expressão em que se via claramente rir se de Levine e estar certo de que se alguém viesse a ser enganado, não seria ele, com certeza.

Apesar de tudo, Levine pensava que a herdade progredia e que, regularizando as contas com grande exactidão e insistindo nos seus propósitos, acabaria por demonstrar, no futuro, as vantagens daquele sistema e que as coisas então caminhariam por si próprias.

Estas ocupações, juntamente com a gerência das terras da propriedade nas suas mãos, e a actividade que consagrava ao livro que estava a preparar, absorveram-no a tal ponto durante todo o Verão que quase não foi à caça. Em fins de Agosto soube, pelo criado que veio devolver-lhe o selim de montar, que os Oblonski tinham partido para Moscovo. Estava, aliás, persuadido de que, pelo facto de não ter respondido ao bilhete de Daria Alexandrovna — coisa que não recordava sem corar de vergonha — queimara as pontes e não mais podia voltar a casa dos Oblonski. Procedera da mesma maneira com os Sviajski, de cuja casa abalara sem se despedir. Tão-pouco pensava voltar a vê-los. E isso agora era lhe indiferente. A tarefa de organizar a sua herdade de acordo com as novas condições absorvia-o como ainda nada o absorvera na vida Leu os livros que lhe tinha dado Sviajski. Pediu outros, que não possuía, e estudou obras de economia política e de sociologia que tratavam do mesmo tema. Mas, como afinal esperava, nada encontrou relacionado com a tarefa que empreendera. Nos livros de economia política de Mill, por exemplo, o primeiro autor que Levine estudou apaixonadamente, na esperança de achar a solução dos problemas que o preocupavam, encontrou leis extraídas da situação econômica agrícola européia, mas não pôde compreender como essas leis inaplicáveis na Rússia eram consideradas leis gerais. O mesmo lhe aconteceu com os livros de sociologia ou tratavam de belas fantasias irrealizáveis que já o tinham seduzido quando estudante, ou então de arranjos do estado de coisas em que se encontrava a Europa e com que nada tinha a ver a questão agrária russa. Segundo a economia política, as condições sob as quais se havia

desenvolvido e se desenvolvia a riqueza européia eram a essência de leis gerais e indiscutíveis. A escola socialista afirmava que o desenvolvimento de acordo com essas leis conduziria à ruína. E nem uns nem outros apresentavam solução nem sequer uma pista do que devia fazer Levine, os camponeses russos e os proletários, com os seus milhões de braços e de desiatinas de terra, para que dessem o máximo rendimento e proporcionassem o bem-estar comum.

Tanto leu que decidiu fazer no Outono uma viagem ao estrangeiro, a fim de estudar in loco o problema que o apaixonava. Agora sabia o que queria conhecer. «A Rússia», pensava ele, «possui excelentes terras e óptimos trabalhadores; no entanto, acontece que raramente terras e trabalhadores rendam realmente muito, como sucede renderem, por exemplo, na casa da lavoura do velho que eu conheci. A maior parte das vezes; quando o capital é empregado à européia, o rendimento é medíocre, porque os operários não querem trabalhar e só trabalham realmente bem à maneira deles. É um fenômeno constante e que tem as suas raízes no próprio espírito do nosso povo. Este povo, cuja vocação seria colonizar espaços imensos, conservou-se sempre, conscientemente, fiel aos seus processos próprios, de modo algum tão maus como geralmente os consideram.» Eis o que pretendia demonstrar teoricamente no seu livro e praticamente na sua propriedade.

CAPÍTULO XXX

Em fins de Setembro, a gente de Rezunov trouxe, por fim, a madeira destinada à construção dos estábulos. Por outro lado vendeu a reserva de manteiga e partilhou os lucros. A prática dava, portanto, bons resultados, pelo menos era essa a conclusão de Levine. Quanto à teoria, nada mais lhe restava do que obter no estrangeiro provas irrefutáveis para concluir uma obra destinada, assim o supunha, a estabelecer as bases de uma nova ciência exacta sobre as ruínas da velha economia política. Para partir aguardava apenas a venda do trigo; mas nessa Altura chuvas torrenciais vieram bloqueá-lo em casa. Uma parte da colheita do trigo e toda a colheita das batatas não puderam ser recolhidas; todos os trabalhos, até mesmo a venda do trigo, foram suspensos; as cheias arrastaram consigo dois moinhos; as estradas tornaram-se impraticáveis, e o tempo cada vez pior.

No dia de Setembro, pela manhã apareceu o sol, e Levine, esperançado na melhoria do tempo, começou a preparar definitivamente a sua viagem. Ordenou que entregassem o trigo, mandou o

administrador a casa do comprador e saiu a percorrer a propriedade, para dar as últimas instruções antes da partida.

Já de noite, quando tudo estava arrumado, encharcado pela água que caía a jorros sobre a sua capa de couro, entrando-lhe pelo pescoço e pelo cano das botas, muito animado e bem disposto, regressou a casa. O tempo ainda piorou mais para a noite: o granizo açoitava o cavalo ensopado, que trotava de lado e sacudia a cabeça e as orelhas. Levine, contudo, sentia-se bem debaixo do capuz e olhava alegremente à sua roda, ora os arroios turvos que corriam pelos caminhos, ora as gotas de chuva que pendiam dos ramos secos, ora as manchas brancas dos granizo não fundido nas tábuas da ponte, ora as carnudas folhas dos olmos, ainda verdes, formando como que uma capa espessa nos troncos desnudos. Apesar do aspecto sombrio da Natureza, Levine sentia-se particularmente animado. O cavaco com os camponeses no povoado longínquo dizia-lhe que estes se iam habituando à nova ordem das coisas.

O velho guarda, em cuja casa Levine penetrara para secar a roupa, aprovou o seu plano e até se ofereceu para seu consócio na compra de animais de trabalho.

«Só é preciso caminhar com firmeza para o meu objectivo e hei-de consegui-lo», pensava Levine. «Vale a pena o esforço. Não é meu interesse pessoal, trata-se do bem comum. A economia agrícola e, sobretudo, a situação do povo devem mudar por completo. Em vez de miséria haverá riqueza e bem-estar geral; em vez de hostilidade, união e interesse comum. Numa palavra: será uma revolução sem sangue, mas uma revolução magna, uma revolução que, irradiando do nosso distrito, se espalhará pela província, por toda a Rússia, pelo mundo inteiro. Uma ideia justa não pode ser estéril. Por um objectivo tão grandioso valem a pena todos os esforços. Ora, que o autor desta revolução seja este pateta do Constantino Levine, habituado a ir ao baile de gravata preta e a quem a princesa Tcherbatskaia negou a mão, isso não tem importância absolutamente nenhuma. Estou convencido de que Franklin, quando se dava a examinar-se a si próprio, também não confiava em si e não se julgava melhor do que eu me julgo. Isso não significa nada. E também ele tinha, com certeza, uma Agáfia Mikailovna a quem confiava os seus segredos.» Ainda escabichava esta e outras ideias quando chegou a casa, já noite fechada.

O administrador fora a casa do comprador do trigo e trazia-lhe uma prestação do dinheiro. Em nenhuma outra parte se havia recolhido º trigo e podiam dar-se por muito felizes, visto não terem por fora senão cento e sessenta medas.

Depois de jantar, Levine sentou-se, como de costume, na sua poltrona a ler um livro; mas enquanto lia continuava a pensar no objectivo da sua viagem. Via agora com especial clareza a importância do seu empreendimento, no espírito iam-se-lhe formando frases inteiras que exprimiam perfeitamente a essência do seu pensamento. «Tenho de tomar nota disso», pensava. «Servirá de breve introdução, essa introdução que sempre me parecera desnecessária.» Levantou-se e aproximou-se da secretária. Laska, estendida a seus pés, levantou-se também, estirando-se como que a perguntar-lhe onde devia ir. Mas não teve tempo de tomar nota daquelas ideias, pois chegavam os capatazes que vinham receber ordens e Levine teve de os atender.

Depois de dar as suas ordens para o trabalho do dia seguinte e de receber todos os mujiques que o queriam consultar, Levine meteu-se no escritório disposto a trabalhar. Laska aninhou-se debaixo da mesa e Agáfia Mikailovna sentou-se no lugar do costume a fazer meia.

Depois de escrever algum tempo, Levine viu Kitty de repente diante de si, com extraordinária clareza, bem como a cena em que ela o repelira e a da última vez que a vira. Levantou-se e principiou a andar de um lado para o outro.

— Faz mal em aborrecer-se assim — disse-lhe Agáfia Mikailovna.

— Para que está sempre metido em casa? Devia ir a umas águas, já que está resolvido a fazer uma viagem.

— Vou depois de amanhã, Agáfia Mikailovna, mas antes tenho de acabar uns assuntos entre mãos.

— Que assuntos? Parece-lhe pouco o que fez pelos camponeses? Bem me dizem que o meu amo virá a receber uma recompensa do czar. Para que há-de preocupar-se tanto com eles? — Não me preocupo com eles, é comigo mesmo que me preocupo. Agáfia Mikailovna conhecia em pormenor todos os planos de Levine. Este expunha-lhe freqüentemente, e com minúcia, as suas ideias e muitas vezes discutia com ela, quando não estava de acordo com o que ele dizia. Mas desta vez a velha criada interpretava as palavras do amo à sua maneira.

— Já sabe que uma coisa com que deve preocupar-se acima de tudo é com a sua alma — disse, suspirando. — Aí tem Parfion Denisovitch, que era analfabeto, mas que teve uma morte que assim Deus nos desse uma igual a todos — acrescentou, referindo-se a um criado que falecera recentemente. — Confessaram-no e deram-lhe a extrema-unção.

— Não me refiro a isso — replicou Levine —; digo que o faço para meu próprio proveito. Só tenho a ganhar quando os camponeses

trabalham melhor.

— Faça o que fizer, o preguiçoso continuará a ser preguiçoso. Se tiver consciência, trabalhará, se não tiver consciência, é tudo inútil.

— Mas já lhe ouvi dizer que o Ivan cuida agora melhor do gado.

— Só lhe digo uma coisa — replicou Agáfia Mikailovna, não por acaso naturalmente, mas em consciência de algo em que pensara —: o que tem a fazer é casar-se.

O facto de Agáfia Mikailovna ter aludido precisamente àquilo em que ele estava a pensar nesse momento desgostou e enfadou Levine. Franzindo o sobrolho, sem lhe responder, pôs-se de novo a trabalhar, repetindo para si mesmo o que pensava sobre a importância daquela obra. Apenas de quando em quando ficava a ouvir, no silêncio, o ruído das agulhas da criada e, lembrando-se do que não queria lembrar-se, de novo franziu as sobrancelhas.

As nove ouviu-se um guizalhar e o surdo rodar de uma carruagem pela argila.

— Olhe, temos visitas! Ora, aí está a maneira de se não aborrecer — disse Agáfia Mikailovna, levantando-se e dirigindo-se à porta.

Mas Levine adiantara-se-lhe. Como o seu trabalho não avançava naquele momento, agradava-lhe a chegada de uma visita, qualquer que fosse.

CAPÍTULO XXXI

A meio das escadas, Levine ouviu no vestíbulo uma tossezinha conhecida, mas o ruído dos seus próprios passos impediu-o de ouvir distintamente e julgou ter-se enganado. Depois viu a silhueta alta e ossuda que lhe era tão familiar, e achou que já não podia enganar-se. No entanto, continuava na esperança de que fosse equívoco e de que aquele homem alto que despia a pelica enquanto tossia não era seu irmão Nicolau.

Levine estimava muito o irmão, mas conviver com ele era sempre um tormento. E eis que Nicolau chegava precisamente no momento em que, transtornado pelo afluxo das recordações e a insidiosa observação da velha criada, não conseguia encontrar equilíbrio moral. Em vez da alegre cavaqueira com uma visita cheia de saúde, alheia às suas próprias preocupações e capaz de o distrair, previa agora um penoso colóquio com um irmão que, conhecendo-o a fundo, o iria obrigar a confessar os seus

sonhos mais íntimos, coisa que ele receava acima de tudo.

Irritado consigo próprio graças a este mau pensamento, Levine correu ao vestíbulo. Quando pôde ver o irmão de perto, a sensação de desencanto pessoal desvaneceu-se logo para dar lugar a uma grande piedade. Por impressionante que fosse outrora o aspecto do irmão, tão magro e doentio, emagrecera ainda mais e parecia completamente exausto. Dir-se-ia um esqueleto, só pele e osso.

Ele ali estava, de pé, no vestíbulo, sacudindo o alto pescoço delgado, para tirar o cachecol, e sorrindo de maneira estranha ao mesmo tempo humilde e resignado. Ao ver aquele sorriso quieto e submisso, Levine sentiu que os soluços lhe subiam à garganta.

— Pois aqui me tens, finalmente — disse Nicolau, em voz surda, sem afastar um só momento os olhos do rosto do irmão — Há muito que tinha intenção de vir, mas a saúde é que me não permitia. Agora estou muito melhor — concluiu, enquanto enxugava as barbas com as grandes e magras mãos.

— Ainda bem, ainda bem! — respondeu Levine. Entretanto maior ainda foi o terror que sentiu quando, ao beijar o irmão, notou, pelo toque dos lábios como ele estava ressequido e vai de perto o brilho estranho dos seus grandes olhos.

Semanas antes Constantino Levine escrevera a Nicolau a dizer lhe que vendera um pequeno lote das terras que ainda permaneciam indivisas e que podia entregar lhe a parte que lhe correspondia uns dois mil rublos. Nicolau respondeu lhe que iria receber pessoalmente aquela importância e passar uma temporada em casa, tocar terra, para recobrar forças, como os heróis, em ordem a uma actividade futura. Apesar de mais corcovado e de uma assombrosa magreza, incrível para a sua estatura, os seus movimentos eram, como de costume, rápidos e impulsivos. Levine levou o até ao escritório.

Nicolau mudou de roupa com especial cuidado, coisa que antes não costumava fazer, penteou os raros cabelos crespos e, sorrindo, subiu para o andar superior.

O seu estado de espírito era alegre e afectuoso como outrora na infância, pensava Levine. Até falou de Sérgio Ivanovitch sem rancor. Quando deparou com Agáfia Mikailovna, chalaceou com ela e perguntou-lhe pelos antigos criados. A notícia da morte de Parfion Denisovitch impressionou o desagradàvelmente. No rosto pintou se lhe como que temor, mas logo se dominou.

— Já era velho — observou, e mudou de assunto — Ficarei aqui alguns meses e depois irei contigo a Moscovo. Sabes que o Miagkoi me

prometeu uma colocação? Penso aceitá-la. Estou disposto a organizar a minha vida de maneira completamente distinta Separei me daquela mulher.

— De Mana Nikolaievna? Mas por quê?

— Oh, era má mulher! Deu me uma série de desgostos. Não disse, porém, que espécie de desgostos. Não podia dizer que a deixara porque ela fazia um chá muito fraco e sobretudo porque cuidava dele como se fosse um doente.

— Além disso quero mudar de vida por completo. Naturalmente, como todos os demais, cometi muitas loucuras, mas o dinheiro não tem grande importância. Contanto que tenha saúde. Graças a Deus agora ando melhor.

Levine ouvia o, à procura de qualquer coisa que dizer, mas nada lhe ocorria. Compreendendo talvez isso mesmo, Nicolau pôs se a fazer lhe perguntas sobre as suas coisas e Levine, satisfeito por poder falar de si, pois não necessitava fingir, expôs ao irmão os seus planos e a sua actividade.

Nicolau ouvia-o, embora fosse evidente que aquilo lhe não interessava Tão afins eram aqueles homens que o mínimo movimento ou o simples tom da voz diziam mais um ao outro do que tudo quanto pudessem pronunciar.

Estavam a pensar os dois na mesma coisa. A doença e a morte iminente de Nicolau sobrepujavam tudo o mais. Mas nem um nem outro se atreviam a falar nisso e por isso tudo quanto diziam, sem falarem na única coisa que os interessava, era falso. Nunca, como naquele dia, Levine sentiu maior satisfação com a chegada da noite e a necessidade de dormir.

A consciência que tinha da sua falta de naturalidade e o sentimento de arrependimento que daí lhe vinha ainda agravava mais a falta dessa naturalidade. Vontade de chorar a morte próxima do irmão, eis o que ele sentia e em vez disso via se obrigado a ouvi-lo e a manter uma conversa sobre como ele iria viver.

Como a casa era húmida e apenas numa das salas havia uma estufa acesa, Levine levou o irmão para o seu quarto e arranjou lhe uma cama atrás de um biombo.

Nicolau deitou se. Quer a dormir, quer acordado, agitava se como um doente, tossia e, quando não podia expectorar, resmungava qualquer coisa. De onde em onde, ao suspirar, exclamava «Ai, meu Deus!» E quando um ataque de tosse o oprimia, dizia irritado «Que diabo!» Levine esteve acordado muito tempo a ouvi-lo. Tudo em que pensava se resumia num só pensamento a morte. A morte inevitável, fim de todas as coisas,

surgia lhe pela primeira vez com uma força invencível. E a morte, ali, no seu irmão querido, que se queixava, no meio dos sonhos, e, por indiferença e hábito, invocava ora Deus ora o Diabo, não estava tão longe como antes lhe parecia. Estava nele próprio, sentia-se. Se não hoje, amanhã, ou, então, dentro de trinta anos Não seria porventura o mesmo? E quanto a saber o que era essa morte inevitável, não só o ignorava e não sabia o que fosse, como nem sequer se atrevia a conjeturá-lo «Trabalho, procuro fazer alguma coisa, mas esqueço que tudo acaba, que existe a morte».

Levine, sentado na cama, no escuro, corcovado, abraçava os próprios joelhos e, de respiração suspensa, tão tensas as suas ideias, meditava. Mas quanto mais forçava o pensamento, tanto mais claro lhe parecia que era assim mesmo. Na realidade, esquecera se de considerar um pequeno pormenor da vida que a morte chegava e tudo acabaria, que não valia a pena empreender coisa alguma e que contra isso nada podia fazer-se. Era terrível, mas assim mesmo «Porém ainda estou vivo. Que devo fazer agora? Que devo fazer?», dizia com os seus botões, desesperado. Acendeu uma vela e levantou-se, cauteloso. Aproximou-se do espelho e mirou os cabelos e o rosto. Sim, nas têmporas já havia cabelos brancos. Abriu a boca. Os molares principiavam a cariar. Desnudou os musculosos braços. Tinha muita força Sim, mas também Nikolenka, respirando ali a seu lado com o que lhe restava de pulmões, tivera um corpo sadio. E, de repente, lembrou-se de que, quando crianças, se deitavam juntos a dormir e esperavam que Fiodor Bogdanovitch saísse do quarto para jogarem os travesseiros um ao outro. E riam, riam desenfreadamente, a tal ponto que nem sequer o medo que dele tinham os levava a reprimir aquela consciência da alegria de viver que transbordava e crescia como a espuma «E agora ele ali está deitado, com o pobre peito vazio e despedaçado , e eu aqui a perguntar a mim próprio para que vivo e qual será o meu destino».

— Ench! Ench! Que diabo! Que estás a fazer aí? Por que não dormes? — exclamou o irmão.

— Não sei Estou com insónias.

— Pois eu dormi muito bem, agora não transpiro nada. Olha, toca aqui na minha camisa, não é verdade que não estou suado?

Levine apalpou-lhe a camisa, dirigiu-se para o outro lado do biombo e apagou a vela, esteve, contudo, ainda muito tempo sem poder conciliar o sono. Mal acabava de esclarecer um pouco o problema de como devia viver-se, logo se lhe apresentava outro, e esse insolúvel o da morte «Está à morte, morrerá na Primavera Como hei-de eu ajudá-lo? Que posso dizer-lhe? Que sei eu de tudo isto? Até me esquecera mesmo

de que existia a morte».

CAPÍTULO XXXII

Todo o excesso de humildade provoca, na maior parte das pessoas, uma reacção violenta então as suas exigências, as suas susceptibilidades tornam-se insuportáveis. Levine, que o sabia por experiência, estava desconfiado de que a mansidão de Nicolau seria de pouca dura. Logo na manhã do dia seguinte, com efeito, principiou a irritar-se com as mínimas coisas e a ferir. Constantino no que ele tinha de mais sensível Levine sentia-se culpado, mas não via remédio para isso. Dava-se conta de que, se ambos não tivessem fingido, se houvessem falado sinceramente, isto é, dizendo o que pensavam e sentiam, teriam olhado nos olhos um do outro e ele, Levine, ter-se-ia limitado a dizer «Vais morrer? Vais morrer?», e Nicolau respondido: «Bem sei, mas tenho medo, muito medo, muito medo!». E nada mais teriam dito por terem falado de coração aberto. Como esta sinceridade, porém, não era possível, Constantino procurava falar à toa. Esta táctica, em que vira tantos outros serem mestres, a ele não lhe ficava bem. Eis por que o seu embaraço se tornava evidente e o irmão, que o adivinhava, a cada momento lho fazia sentir. No terceiro dia, Nicolau pediu a Levine que lhe expusesse o seu plano, e não só o criticou como fingiu confundi-lo com o comunismo.

— Pegaste em ideias alheias para as desfigurares e aplicá-las onde elas não são aplicáveis.

— Estou a dizer-te que isto nada tem que ver com o comunismo. Os comunistas negam o direito da propriedade, negam a legitimidade do capital e a faculdade de transmitir os bens por herança, enquanto eu não nego esse estímulo essencial (Desde que se apaixonara pelas ciências sociais, detestava empregar palavras científicas, mas ao ocupar se daquele problema, recorria involuntariamente, e cada vez com mais freqüência, aos termos estrangeiros). Apenas quero regularizar o trabalho.

— Quer dizer, pegaste numa ideia alheia, retirando-lhe tudo o que constituía a sua força, e agora pretendes que se trata de qualquer coisa nova — objectou Nicolau, enfadado e repuxando convulsivamente o colarinho, como se a gravata o incomodasse.

— A minha ideia não tem nada que ver.

— Essas doutrinas — prosseguiu Nicolau, com um sorriso irônico e um olhar onde cintilava a cólera — têm pelo menos um encanto, o encanto a que eu chamarei geométrico, como se disséssemos, o encanto

da clareza e da lógica. Talvez sejam uma utopia, mas suponhamos que podíamos fazer tábua rasa de todo o passado não há propriedade nem família, e de acordo com isso vamos organizar o trabalho. Tu, porém, não ofereces nada.

— Para que confundes as coisas? Nunca fui comunista.

— Eu fui e acho que a ideia é prematura, mas razoável e tem futuro Aconteceu o mesmo com o cristianismo nos primeiros séculos.

— Pois eu creio simplesmente que é preciso considerar a mão-de-obra do ponto de vista da Natureza, e estudá-lo, conhecer-lhe as características e.

— Tudo isso é completamente inútil. Essa força encontra por si mesma, à medida que se expande, uma determinada maneira de desenvolver as suas actividades. Em toda a parte tem havido sempre escravos e depois métayers. Nós também temos parceiros, jornaleiros e entre nós existe o arrendamento. Que procuras tu?

Levine, ao ouvir estas palavras, exaltou-se, pois, no fundo da sua alma, receava ser verdade que procurasse o equilíbrio entre o comunismo e o sistema vigente, coisa que não era fácil.

— Procuro a maneira de trabalhar com proveito para mim e para o trabalhador. Quero organizar... —exclamou, elevando a voz.

— Não queres organizar nada. Simplesmente, como o tens feito toda a vida, pretendes ser original e demonstrar que não exploras os mujiques, sem mais nem menos, mas em nome de uma ideia.

— Bom, visto que vês as coisas assim, deixemos este assunto — respondeu Levine, sentindo que lhe principiava a tremer o músculo da face esquerda e o não podia reprimir.

— Não tens nem nunca tiveste opiniões pessoais e apenas precisas de satisfazer o teu amor-próprio.

— Bom, está bem, mas deixa-me em paz.

— Pois sim. Há muito que o devia ter feito. Vai para o diabo! Lamento ter vindo.

Por mais esforços que Levine fizesse depois para acalmar o irmão, Nicolau nada quis ouvir, dizendo que era melhor separarem-se. Constantino compreendeu que o irmão estava farto da vida.

Nicolau preparava-se já para partir quando Levine lhe entrou de novo no quarto e lhe pediu, de um modo pouco natural, que lhe perdoasse, se o ofendera em alguma coisa.

Rendeiros

— Ah! Que magnanimidade! — exclamou Nicolau, sorrindo. — Se queres ter razão, posso conceder-te esse prazer. Tens razão, mas de qualquer maneira, vou-me embora.

Momentos antes da partida, Nicolau beijou o irmão e disse-lhe, fitando-o, de súbito, com uma estranha seriedade: — Seja como for, Kóstia, não te lembres de mim com rancor! — e a voz tremeu-lhe.

Foram estas as únicas palavras que pronunciou com sinceridade. Levine compreendeu que ele, com essas palavras, queria dizer o seguinte: «Como vês, estou mal e talvez não nos tornemos a ver.» E as lágrimas irromperam dos olhos de Levine. Voltou a beijar o irmão, mas não soube que dizer nem pôde dizer coisa alguma.

Três dias depois da partida de Nicolau, Levine embarcou para o estrangeiro. No comboio encontrou-se com Tcherbatski, primo de Kitty, que se mostrou muito admirado com o seu aspecto sombrio.

— Que tens tu? — perguntou-lhe.

— Nada. Neste mundo há poucas coisas alegres.

— Poucas coisas alegres? Vem comigo para Paris em vez de ires para Mühlaausen. Vais ver como se passa lá bem o tempo.

— Não, para mim acabou tudo. Chegou o hora de morrer.

— Realmente!? — exclamou Tcherbatski, rindo. — Pois para mini só agora é que principia.

— Também eu pensava assim há pouco, mas agora sei que morrerei em breve.

Levine dizia sinceramente o que pensava naqueles últimos tempos. Via em tudo a morte ou a próxima chegada dela. Mas a obra em que se metera cada vez o preocupava mais. De qualquer maneira, era preciso viver enquanto a morte não chegava. Tudo para ele estava envolto nas trevas, mas, precisamente graças a essas trevas, dava-se conta de que o único fio condutor capaz de o guiar era a empresa em que se metera. E Levine agarrava-se a ela com todas as forças.

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