O velho criado cabeceava, sentado na sala de espera, ouvindo o ressonar do príncipe no seu imenso gabinete de trabalho. Do outro extremo da casa, através das portas fechadas, chegavam até ali, pela vigésima vez, os compassos difíceis da sonata de Dusseck.
Nesse momento parava diante da escadaria principal uma carruagem e um pequeno carro. Da carruagem apeou-se o príncipe André, que ajudou a sua mulherzinha a descer, deixando-a subir a escada diante de si. O velho Tikon, com a sua cabeleira postiça, espreitou pela porta da sala de espera e disse, em voz baixa, que o príncipe estava a descansar, dando-se pressa em fechar a porta. Tíkon sabia muitíssimo bem que nada, absolutamente nada, nem mesmo a chegada do filho ou qualquer outro acontecimento imprevisto, deveria perturbar a rotina do seu amo. O príncipe André, claro está, sabia isso tão bem como o próprio Tikon. Consultou o relógio, para verificar se os hábitos do pai não tinham sido alterados desde que o não via, e, persuadido de que tudo estava na mesma, disse para a mulher: - Dentro de vinte minutos estará de pé. Vamos ver a princesa Maria.
A princesinha engordara um pouco, mas os seus olhos e o seu lábio sorridente, que um ligeiro buço sombreava, continuavam a ter o ar alegre e gentil sempre que falava.
- Mas é um palácio - disse para o marido, olhando em roda, no mesmo tom em que se felicita o organizador de um baile.- Vamos, depressa, depressa! Falando, ia sorrindo para toda a gente, para Tikon, para o marido, para o criado que a conduzia.
- É a Maria que está a estudar? Não façamos barulho, quero surpreendê-la.
O príncipe André seguiu-a com o seu ar cortês e triste.
- Estás mais velho. Tikon - disse ele, de passagem, ao velho, que lhe beijava a mão.
Antes de terem chegado à dependência onde se ouvia o cravo, viram sair de uma porta lateral uma bonita francesinha loura. Mademoiselle Bourienne parecia louca de contentamento.
- Ah!, que alegria para a princesa! - disse ela. - Enfim, preciso de a prevenir.
- Não, não, por favor... é Mademoiselle Bourienne, já a conheço pela amizade que a minha cunhada lhe tem - disse a mulher de André, beijando-a - Ela não nos espera! Aproximaram-se da porta da saleta, donde continuavam a sair sempre os mesmos compassos indefinidamente repetidos. André parou, franzindo as sobrancelhas, como se sentisse uma penosa impressão.
A princesa sua mulher entrou, o motivo da sonata foi interrompido no meio; ouviu-se um grito, os passos pesados de Maria e beijos ressoaram. Quando André entrou, por sua vez, viu as duas cunhadas, que pouco se tinham conhecido na altura do casamento, abraçadas uma à outra, beijando-se mutuamente, sem escolher onde. Mademoiselle Bourienne ali estava, com a mão no coração, sorrindo cheia de beatitude, e tão pronta a rir como a chorar. André encolheu os ombros e franziu as sobrancelhas, como costumam fazer os amadores de música quando um instrumento desafina. Por fim, as duas mulheres separaram-se, e, em seguida, para recuperarem o tempo perdido, recomeçaram a estreitar-se nos braços uma da outra, a beijarem-se mutuamente, rompendo em soluços, com grande surpresa do príncipe, e abraçando-se de novo. Mademoiselle Bourienne pôs-se também a soluçar. O príncipe André deu sinal de uma certa impaciência; mas elas achavam tão natural chorar assim que lhes não era possível imaginarem o seu mútuo encontro de outra maneira.
- Ah!, minha querida!... Ah!. Maria!... - disseram, de repente, transitando das lágrimas para o riso. - Sonhei esta noite... - Não nos esperava... Ah! Maria, emagreceu... E a minha amiga recuperou...
- Conheci logo a senhora princesa - interveio Mademoiselle Bourienne.
- E eu que não desconfiava de nada!... - exclamou a princesa Maria. - Ah!. André, não o via.
André apertou a irmã contra si e disse-lhe que ela ainda não deixara de ser a mesma choramingas. Maria olhou para o irmão, e no meio das suas lágrimas deteve nele o quente e suave olhar cheio de enternecimento dos seus grandes olhos luminosos, lindíssimos naquele momento.
A princesa Lisa falava sem descanso. O seu làbiozinho superior não fazia outra coisa senão agitar-se continuamente, de cima para baixo, sobre o lábio inferior, e um perpétuo sorriso lhe iluminava os dentes e os olhos. Historiava um incidente que lhe tinha acontecido na muda de Spass, o qual poderia ter sido perigoso para ela no estado em que estava, e imediatamente se pôs a dizer que deixara todos os seus vestidos em Petersburgo e que não iria ter nada que vestir, que André tinha mudado muito, que Kitti Odintsova casara com um velho, e que ela arranjara para Maria um noivo a sério, mas que disso haviam de conversar mais tarde. A princesa Marm, calada, não deixara de fitar o irmão, e os seus lindos olhos estavam plenos de afectuosidade e tristeza. Via-se bera que os seus pensamentos tomavam um caminho muito diverso dos da sua cunhada. Enquanto esta falava da última festa a que assistira em Petersburgo, a princesa Maria voltou-se para o irmão.
- Está então resolvido a ir para a guerra. André? - interrogou ela, no meio de um suspiro. Lisa estremeceu também.
- Sim, e amanhã mesmo - replicou ele.
- Abandonou-me aqui, e só Deus sabe porquê, quando ele podia ser promovido...
A princesa Maria não a deixou acabar e, seguindo o curso dos seus pensamentos, disse para a cunhada, indicando afectuosamente com os olhos o volume do seu ventre.
- É realmente verdade? - perguntou.
Lisa mudou de expressão. Teve um suspiro.
- Sim, é verdade - volveu ela.- Ah, é assustador...
Os lábios contraíram-se-lhe. Aproximou a cara do rosto da cunhada e subitamente principiou a chorar.
- Precisa de descansar - disse o príncipe André franzindo as sobrancelhas. - Não é verdade. Lisa? Leva-a contigo, que eu vou ver o pai. Como vai ele? Sempre na mesma? - Sim, está sempre na mesma; não sei como tu o vais achar - respondeu Maria com jovialidade.
- Sempre as mesmas horas e os passeios pelas avenidas? E o tomo? - perguntou André, com um sorriso imperceptível que queria dizer que, apesar de todo o seu amor e o seu respeito filiais, conhecia as fraquezas do pai.
- Sim, sempre as mesmas horas, e o tomo e, ainda por cima, as matemáticas e as minhas lições de geometria - replicou jovialmente a princesa Maria, como se estas lições de geometria fossem uma das maiores alegrias da sua vida.
Passados que foram os vinte minutos necessários para o descanso do velho. Tikon veio buscar o príncipe para o conduzir junto do pai. O velho dispensara-se de cumprir o seu programa em honra do filho: mandara-o entrar para os seus aposentos enquanto se vestia para o jantar. Conservava os velhos costumes: o cafetã e o pó. E quando André apareceu, já não com o aspecto e as maneiras entediadas que costumava aparentar nos salões, mas com o ar animado que mostrava em suas conversas com o Pedro, o velho estava no seu gabinete de toilette, enterrado numa poltrona de marroquim, de penteador, confiando a cabeça aos cuidados de Tikon.
- Eh, o guerreiro! Então queres-te bater com o Bonaparte? - exclamou, abanando a cabeça empoada tanto quanto lho consentia Tikon, que estava a entrançar-lhe o rabicho.
- Trata de te portares à altura, ou então não tarda muito que também nós estejamos a fazer parte do número dos seus súbditos. Como vai isso? - acrescentou, oferecendo-lhe a face, O velho estava de óptima disposição, depois do sono que costumava fazer antes de jantar. Tinha por hábito dizer que a sesta depois de jantar era prata e antes de jantar ouro. Por debaixo das suas espessas sobrancelhas ia lançando ao filho olhadelas matreiras. O príncipe André aproximou-se e beijou o pai no sítio designado. Não respondeu ao tema favorito da conversa paterna, aos seus gracejos sobre os militares do tempo e especialmente sobre Bonaparte.
- Sim, viemos vê-lo, meu pai; minha mulher, que está no seu estado interessante, e eu - disse, observando, com o seu vivo olhar, nem por isso menos respeitoso, todos os movimentos da fisionomia paterna.- Como tem passado de saúde? - Só estão doentes, meu rapaz, os imbecis e os estroinas, e tu conheces-me. Estou sempre ocupado, da manhã à noite, e sou pessoa sóbria; por conseguinte, tenho saúde.
- Louvado seja Deus! - exclamou o filho, sorrindo. - Deus não é para aqui chamado. Então conta-me cá - prosseguiu, voltando à sua cisma familiar - como é que os Alemães vos ensinaram a combater o Bonaparte segundo a vossa nova ciência, a chamada estratégia? O príncipe André sorriu.
- Deixe-me tomar fôlego, meu pai - dizendo o que, não deixava de mostrar, pela sua expressão, que as manias do pai o não impediam de o adorar e de o venerar. - Nem sei ainda onde é que nos vai instalar.
- Tolice, tolice - exclamou o ancião, sacudindo o rabicho, para ver se estava a seu gosto, e dando o braço ao filho. - Os aposentos da tua mulher estão preparados. A Maria se encarregará de a conduzir até lá, e ela lhos mostrará, e hão-de ter .muito que dizer. Isso é lá com elas. Estou muito contente que ela tenha vindo. Senta-te, senta-te e conta-me. O exército de Mikelson, sim, bem sei, e o de Tolstoi também... Operações simultâneas.., e o exército do Sul, o que vai fazer? A Prússia, a neutralidade, sim, bem sei. E a Áustria? Enquanto falava, tinha-se levantado da poltrona e andava de um lado para o outro, seguido por Tikon, que lhe ia apresentando as diversas peças de vestuário.
- E a Suécia? Como é que vamos atravessar a Pomerânia? O príncipe André, perante a insistência do pai, primeiro contrariado, depois numa animação crescente, e deixando de falar russo, para falar francês, como era seu costume, principiou a expor o plano da futura campanha. Aludiu à forma como um exército de oitenta mil homens deveria ameaçar a Prússia, para obrigá-la a abandonar a neutralidade e arrastá-la para a guerra, a maneira como uma parte deste exército viria juntar-se ao sueco, em Stralsund, como duzentos e vinte mil austríacos, reunidos a cem mil russos, deviam agir em Itália e sobre o Reno, como cinquenta mil russos e o mesmo número de ingleses viriam a desembarcar em Nápoles e como no seu total um exército de quinhentos mil homens deveria atacar os Franceses em diversas frentes. O príncipe não mostrava o mais pequeno interesse por esta exposição e nem parecia mesmo ouvi-la, continuando a vestir-se enquanto andava de um lado para o outro. Por três vezes interrompeu o filho de maneira assaz inesperada. A primeira foi para gritar: - O branco!, o branco! Com isto queria dizer que Tikon não estava a dar-lhe o colete que ele queria. A segunda, deteve-se, para perguntar: - E é para breve o parto? - Depois abanou a cabeça reprovadoramente.- É mau! Continua, continua.
A terceira vez foi quando o príncipe André chegava ao cabo da sua exposição. Pôs-se então a cantarolar, numa voz de velho em falsete: Malbroug vai para a guerra. Sabe Deus quando voltará.
O filho contentou-se em sorrir.
- Não posso dizer que estou de acordo com este plano - disse ele - Limito-me a expor-lho tal como ele é. Napoleão também já tem o seu, que é tão bom como este.
- Bom, não me disseste nada de novo. - E, pensativamente, o velho príncipe repetiu, resmungando entre dentes: - Sabe Deus quando voltará. E agora para a mesa.
A hora precisa, o príncipe, empoado e barbeado, deu entrada na sala de jantar, onde o aguardavam a nora, a princesa Maria. Mademoiselle Bourienne e o arquitecto, que, por estranha fantasia, se sentava com o príncipe à mesa, embora esse homem, insignificante pessoa, que era, no ponto de vista social, não contasse com tanta deferência. O príncipe, que era muito respeitador da etiqueta e das diferenças de classe e só muito raramente sentava à sua mesa os mais importantes funcionários da província, quando menos se esperava, quisera mostrar, na pessoa do arquitecto. Mikail Ivanovitch, o qual tinha por hábito assoar-se, disfarçadamente, a um grande tabaqueiro, que os homens para ele eram todos iguais. Várias vezes explicara à filha que Mikail Ivanovitch em nada era inferior a qualquer deles. À mesa era muito vulgar o príncipe dirigir a palavra ao pouco falador Mikail Ivanovitch.
Na sala de jantar, imensa como todas as dependências da casa, as pessoas de família e os criados aguardavam a chegada do príncipe, de pé, atrás de cada cadeira; o chefe, de guardanapo no braço, vigiava a mesa, piscando o olho aos lacaios, enquanto ia e vinha, no seu passo tranquilo, entre o grande relógio e a porta por onde o príncipe devia entrar.
André contemplava um grande quadro de moldura dourada, novo para ele, com a árvore genealógica dos príncipes Bolkonski, simétrico com outro quadro, do mesmo tamanho, que representava muito mal - obra, claro está, de qualquer pintor criado no solar- um príncipe soberano, com a coroa, provavelmente um descendente de Rurik e antepassado da família dos Bolkonski.
O príncipe André observava esta árvore genealógica, abanando a cabeça. A certa altura principiou a rir, como quando se olha para uma caricatura.
- Ora aqui está ele! - exclamou para a princesa Maria, que se aproximara.
Maria encarou com o irmão sem esconder estar surpreendida. Não percebia porque ele estava a rir. Tudo quanto o pai fazia era para ela motivo de veneração, e não admitia críticas.
- Cada um lá tem o seu calcanhar-de-aquiles - prosseguiu André - Um homem tão inteligente e prestar-se a uma coisa tão ridícula! A princesa não podia admitir a audácia destas observações, e preparava-se para responder quando se ouviram os passos, que todos esperavam, vindos do gabinete de trabalho do príncipe. O velho militar entrou na sala de jantar com o seu passo rápido e vivo, como se quisesse opor-se, com aqueles seus modos animados, à ordem severa que reinava na casa. Na mesma altura o grande relógio deu duas horas, e outro, retinindo fracamente, respondeu-lhe, lá de dentro, do salão. O príncipe deteve-se. Por sobre as suas espessas sobrancelhas proeminentes as suas pupilas severas, vivas e brilhantes, observaram todas as pessoas presentes, fixando-se na mulher do príncipe André. Esta sentiu nesse momento a impressão que costumam sentir os cortesãos no acto da chegada do soberano, um sentimento misto de temor e de respeito, que o príncipe inspirava a todos quantos dele se aproximavam. Depois passou a mão pelos cabelos da jovem princesa e deu-lhe umas pancadinhas na nuca um pouco atabalhoadamente.
- Estou muito contente, estou muito contente de a ver - disse, olhando-a fixamente uma vez mais, e, de chofre, voltou-se para sentar-se à mesa. - Tomem os seus lugares, tomem os seus lugares! Mikail Ivanovitch, sente-se.
O velho príncipe indicou à nora um lugar a seu lado. Um criado ajudou-a a sentar.
- Sim, senhor, sim, senhor! - exclamou, ao ver as amplas formas da princesa. - Chama-se a isto não perder tempo! Hem, que marota! E rompeu num riso seco, frio e desagradável, o riso que tinha sempre, um riso só da boca, não dos olhos.
- É preciso andar, andar o mais possível, o mais possível acrescentou.
A princesinha não ouvia ou não queria ouvir o que ele dizia. Estava calada e parecia preocupada. Só quando o príncipe lhe perguntou pelo pai, principiou a falar e a sorrir. 1nterrogou-a acerca das pessoas que ambos conheciam. Então ela sentiu-se à vontade e pôs-se a tagarelar, transmitindo-lhe os cumprimentos de alguns conhecidos, contando-lhe casos de má-língua da cidade.
- A condessa Apraksine, coitada, perdeu o marido e está farta de chorar - dizia ela, cada vez mais animada.
A medida que se entusiasmava, o príncipe ia-a olhando cada vez mais severamente, e, de súbito, como se a tivesse estudado o suficiente e acabasse por fazer dela um ideia exacta, desviou para outro lado a sua atenção, dizendo a Mikail Ivanovitch: - Pois é verdade. Mikail Ivanovitch, as coisas não vão correr bem para o nosso Bonaparte. Como me contou o príncipe André - falava sempre de André na terceira pessoa -, estão a juntar-se forças contra ele. E nós que sempre o considerámos uma, nulidade.
Mikail Ivanovitch, que desconhecia por completo o momento em que ambos tinham falado de Bonaparte, mas que percebia que se estavam a servir dele para abordar a conversa do costume, lançou um olhar surpreso ao moço príncipe, sem saber o que ia passar-se.
- Sim, é um grande estratego - disse o príncipe ao filho, apontando-lhe o arquitecto.
E a conversa de novo incidiu sobre a guerra, sobre Bonaparte, os generais e os estadistas do tempo. O facto é que o velho príncipe estava realmente convencido não só de que todos os grandes homens do momento eram criançolas, ignorando, inclusivamente, o bê-á-bá da guerra e da política, mas também, que Bonaparte não passava de um insignificante francês, que triunfara apenas por não haver para se lhe opor um. Potemkine ou um Suvorov. Estava mesmo convencido de que não haveria na Europa dificuldades políticas nem realmente haveria guerra. Estava-se apenas a representar uma comédia de fantoches, em que os homens da época fingiam desempenhar um papel muito sério.
O príncipe André acolhia com grandes gargalhadas estas trocas, e, é claro, divertia-se a excitar o pai e a ouvi-lo.
- Tudo o que é de outros tempos lhe parece excelente - disse ele -, mas não é verdade que o próprio Suvorov caiu na armadilha que lhe preparou Moreau e não foi capaz de se ver livre dela? - Quem te disse isso? Quem te disse isso? - interrogou o príncipe. - Suvorov! - E afastou de diante de si o prato, que Tikon pressurosamente levantou. - Suvorov!... Pensa um pouco, príncipe André. Eram dois homens: Frederico e Suvorov... Moreau!... Mas este Moreau teria ficado prisioneiro se Suvorov tivesse as mãos livres, e as suas mãos estavam ligadas pelo Hofskriegswurstsehnappsrath. Nem o Diabo teria sido capaz de se ver livre dele. Ora, ainda os hás-de ver, esses Hofskriegsivurstschnappsrath! Se Suvorov não pôde levar a melhor, como é que Mikail Kutuzov o conseguirá? Sim, meu amigo – prosseguiu -, com os generais que temos nada podemos contra Bonaparte. O que nós precisávamos era de franceses - ladrão para roubar outro ladrão. Lá mandaram o alemão Pahiem a Nova Iorque, à América, para apanhar o francês Moreau para o exército russo. Lindo serviço!... Eram, porventura, alemães os Potemkines, os Suvorovs ou os Orlovs? Não, meu rapaz, ou vocês, lá para os vossos lados, perderam a cabeça, ou então sou eu quem está a ficar maluco. Deus vos acuda, mas cá estamos para ver. E dizem eles que Bonaparte é um grande general! Hum! Hum!...
- Não tenho a pretensão de pensar que todas as medidas tomadas sejam de primeira ordem - replicou o príncipe André -, mas não posso compreender que o pai tenha uma tal, opinião acerca, de Bonaparte. Pode rir-se à, vontade. O que não lia duvida é que Bonaparte é um grande general! - Mikail Ivanovitch! - exclamou o velho príncipe, dirigindo-se ao arquitecto, o qual, todo absorvido a comer o assado, teria preferido que o esquecessem - Eu disse-lhe que Bonaparte era um grande estratego? Aqui está um da, mesma opinião.
- Mas com certeza. Excelência - replicou o arquitecto. E o príncipe riu de novo com o seu frio riso.
- Bonaparte nasceu num sino. Tem soldados. E principiou por se atirar aos Alemães. Desde que o mundo é mundo que toda a gente venceu os Alemães. E eles nunca venceram ninguém, a não ser quando se batem uns contra os outros. Foi combatendo contra eles que Napoleão se tomou glorioso.
E o príncipe pôs-se a expor todos os erros que, segundo ele, tinham sido cometidos por Bonaparte em todas as suas campanhas, e até, inclusivamente, nos negócios públicos O filho não o contrariava, mas era claro que, apesar de toda, aquela argumentação, ele, tal como o velho pai, nunca mudaria de opinião. André ouvia, procurando dominar-se, para não fazer qualquer objecção, surpreendido, no entanto, que aquele velho, há tantos anos para ali isolado no meio das suas terras, fosse capaz de julgar e de conhecer, em todos os seus pormenores e com tanta finura, a situação militar e política da Europa dos últimos anos.
- Julgas que um velho como eu nada percebe dos problemas actuais? - concluiu ele, - Que queres tu então que eu faça? De noite não durmo. Vamos lá a saber onde é que esse teu grande general já demonstrou que o era de facto? - Isso levaria tempo - replicou o filho.
- Que tenhas muita saúde mais o teu Bonaparte. Mademoiselle Sourienne, aqui tem mais um admirador do grosseiro do seu imperador! - exclamou ele num francês excelente.
- Sabe que eu não sou bonapartista, meu príncipe.
- Sabe Deus quando voltará... - cantarolou o príncipe, na sua voz de falsete, e, foi a rir, num riso igualmente em falsete, que se levantou da mesa.
A princesinha estivera calada durante toda a discussão e até ao fim do jantar, olhando, alarmada, primeiro a princesa Maria e depois o sogro. Quando se levantaram da mesa, travou do braço da cunhada e levou-a consigo para a sala contígua.
- Como o seu pai é um homem inteligente! - observou ela. - É por isso, talvez, que me mete medo.
- Oh, é tão bom! - - replicou a cunhada.
O príncipe André devia partir no dia seguinte à tarde. O velho príncipe, sem alterar os seus hábitos, retirou-se depois do jantar. A princesinha estava nos aposentos da cunhada. André vestiu uma farda de viagem, sem dragonas, e pôs-se a fazer as malas, com o auxilio do criado de quarto, no aposento que lhe fora reservado. Após haver examinado ele próprio a carruagem em que ia partir e a instalação das bagagens, deu ordem para atrelarem. No quarto apenas conservava os objectos que levaria consigo: um pequeno cofre, um estojo de toilette de viagem, de prata, duas pistolas turcas e um sabre, presente do pai, que este lhe trouxera de Otchakov. Todos estes objectos estavam em perfeito estado: tudo como novo e limpo, cada coisa no seu estojo de pano cautelosamente afivelado.
No momento em que um homem parte para uma viagem, ou se prepara para mudar de vida são muitos os pensamentos que o assaltam, desde que seja pessoa capaz de reflexão. Todo o passado lhe ocorre e faz projectos sobre o futuro. André parecia preocupado e comovido. Com as mãos atrás das costas, ia e vinha, em passo rápido, de um extremo ao outro do quarto, o olhar fixo e abanando a cabeça. Quer sentisse medo de partir para a guerra, quer sofresse por ter de deixar a mulher, e talvez as duas coisas o preocupassem, era natural que não quisesse que o vissem naquele estado, pois, ao ouvir passos no vestíbulo, mudou rapidamente de atitude, deteve-se diante da mesa, como para afivelar a cobertura da mala, e de novo no seu rosto transpareceu a expressão séria e impenetrável de sempre. Eram os pesados passos da princesa Maria.
- Disseram-me que tinhas mandado atrelar - articulou ela, arquejante (via-se que viera a correr). - E eu que tanto queria conversar contigo a sós. Só Deus sabe quanto tempo vamos estar separados! Não estás zangado por eu ter vindo? É, que mudaste tanto. Andriucha - acrescentou, como para justificar a sua pergunta.
A princesa Maria sorriu ao tratá-lo por Andríucha. Via-se que achava estranho aquele belo homem de aspecto severo ser o mesmo Andriucha, esse garoto magricela e travesso seu companheiro de infância.
- E a Lisa onde está? - perguntou ele, que apenas lhe respondera com um sorriso.
- Estava tão cansada que adormeceu no meu quarto num divã. Ah! André! Que tesouro que é a sua mulher! - exclamou sentando-se num canapé, diante do irmão. - É uma verdadeira criança, tão gentil, tão alegre! Gosto tanto dela.
O príncipe André irada disse, mas a irmã viu a expressão irónica e um pouco desdenhosa que lhe invadiu o rosto.
- Temos de ser indulgentes para com as suas pequenas loucuras. Quem as não têm? André, não te esqueças de que foi criada e educada na sociedade. E a verdade é que a sua situação está longe de ser cor-de-rosa. Ternos de nos colocar na posição dos outros. Tudo compreender é tudo perdoar. Pensa na sorte que a espera, coitadinha. Depois da vida que tem feito, ficar para aqui, no campo, separada do marido, e sozinha, sobretudo no estado em que está. É penoso! André sorria, olhando para a irmã, como costumamos sorrir ao ouvir alguém em que julgamos ler como num livro aberto.
- Mas tu também vives no campo e não achas que a vida aqui seja assim uma coisa tão terrível! - observou ele.
- Comigo é outra coisa. Para que havemos de falar de mim? Não quero outra vida, e não posso desejar vida diferente, porque não conheço senão esta. Mas pensa. André, o que representa para uma senhora de sociedade enterrar-se numa aldeia, nos melhores anos da sua vida, e só, pois o pai está sempre ocupado, e eu.., tu bem sabes como eu sou pobre de recursos aos olhos de uma mulher habituada à melhor sociedade. Só Mademoiselle Bourienne...
- Não posso com a vossa Bourienne - replicou André.
- Não digas isso! É uma rapariga gentil e boa, e ainda por cima tão infeliz! Já não tem ninguém no mundo, absolutamente ninguém. Para dizer a verdade, não só já me não é precisa, como até me incomoda. Tu bem sabes que fui sempre um pouco selvagem, e agora ainda mais. Aprecio estar só... O meu pai gosta muito dela. Tanto ela como o Mikail Ivanovitch são as duas pessoas para quem ele tem sido sempre amável e bom. É para eles um verdadeiro benfeitor. Como diz Sterne, «nós gostamos das pessoas menos pelo bem que elas nos fizeram que pelo bem que lhe fizemos a elas». O meu pai tomou conta desta, rapariga, órfã sem casa. Tem muito bom coração. E o meu pai adora a maneira como ela lê. É ela quem lhe faz a leitura em voz alta, todas as tardes. Lê muito bem.
- Confessa. Maria, tu deves passar o teu mau bocado, penso eu, por causa do feitio do pai - disse, de súbito. André.
Maria principiou por mostrar-se surpreendida e depois sentiu-se assustada com a pergunta.
- Eu? Eu? Passar um mau bocado - tartamudeou.
- Ele foi sempre irascível, mas agora ainda se tomou mais difícil, creio eu - e exprimia-se tão à vontade sobre o carácter do pai que só podia ter um fim: irritá-la ou experimentá-la.
- Tu és muito bom. André, mas tens um certo orgulho - observou a princesa, seguindo antes o curso dos seus pensamentos que propriamente o fio da conversa - e isso é um grande pecado. Achas que se pode permitir a um filho julgar o seu pai? E, mesmo que se admita uma coisa dessas, achas que um homem como o meu pai possa inspirar outros sentimentos que não sejam de veneração? Sinto-me tão satisfeita e feliz ao pé dele! Só queria uma coisa: que todos vocês fossem tão felizes como eu.
O príncipe André abanou a cabeça come, quem não está muito convencido.
- A única coisa que me é penosa, vou dizer-te a verdade. André, é a opinião de meu pai em assuntos religiosos. Não compreendo que um homem tão inteligente, não veja o que é claro como a luz do dia e se desoriente até ao ponto a que chegou. Só isto me faz infeliz. Mas nos últimos tempos verifiquei que está um pouco melhor. Ultimamente as suas troças são menos acerbas e até consentiu em receber um, frade e esteve muito tempo a conversar com ele.
- Pois bem, minha querida, receio que tu e o teu frade estejam a perder o vosso latim - observou André em tom trocista, mas amável.
- Ah!, meu amigo. Não faço outra coisa senão pedir a Deus, e espero que Ele me ouça. André - acrescentou ela, timidamente, depois de uma breve pausa -, tenho de te fazer um grande pedido.
- De que é que se trata, minha amiga? - Promete-me, antes de mais nada, que me não recusarás o que te vou pedir. Não é nada que te custe a fazer e nem é coisa indigna de ti. Promete-me. Andriucha - suplicou ela, metendo a mão na bolsinha de trabalho e apalpando fosse o que fosse sem tirar a mão, como se tivesse entre os dedos precisamente o objecto em questão, objecto que ela não podia mostrar senão depois de ter obtido a promessa que pedira.
Olhava para o irmão timidamente e com olhos suplicantes.
- Ainda mesmo que isso me custasse muito?... - replicou o príncipe André, que parecia desconfiar do que se tratava.
- Podes pensar o que quiseres. Sim, eu bem sei, tu és como o meu pai. Podes pensar o que quiseres, mas faz isso por mim. Peço-te. O pai do meu pai, o nosso avô, trouxe-a consigo em todas as campanhas... - E continuava sem tirar da bolsinha o objecto que tinha entre os dedos.- Então, prometes? - Claro! De que se trata? - André, que esta imagem te proteja. Promete-me que não a deixarás mais. Prometes? - Se ela não pesar muito e me não derrancar o pescoço... Já que isso te dá prazer... - disse ele, e, verificando, ao mesmo tempo, que a sua atitude causava uma penosa impressão na irmã, mudou de tom. - Com muito prazer, podes crer, com muito prazer, minha amiga - acrescentou.
- Mesmo contra tua vontade. Ele salvar-te-á, conceder-te-á a Sua graça e chamar-te-á para Si, pois é verdade e consolação - murmurou, numa voz trémula, erguendo nas duas mãos, diante do irmão, num gesto solene, uma antiga imagem oval do Salvador, com o rosto negro, numa moldura de prata suspensa de uma cadeia de filigrana do mesmo metal.
A princesa Maria benzeu-se, beijou a imagem e entregou-a ao irmão.
- Aceita-a. André, aceita-a por mim...
Os seus grandes olhos esplendiam de bondade e de doçura. Iluminavam-lhe o rosto magro e doentio, embelezando-o. O irmão quis pegar na imagem, mas ela deteve-o. André compreendeu, benzeu-se também e beijou-a. Havia nele uma expressão ao mesmo tempo enternecida - estava comovido - e trocista.
- Obrigada, meu amigo.
Beijou-o na testa e voltou a sentar-se no divã. Ficaram calados.
- Sim. André, já te disse, sé bom e generoso como sempre foste. Não julgues Lisa com tanta severidade. Ela é gentil e boa e está neste momento numa bem triste situação.
- Creio nada te ter dito. Macha, que possa ser interpretado como uma censura a minha mulher ou mostrar-te que esteja descontente com ela. Porque é que me estás sempre a dizer a mesma coisa? A princesa Maria corou, calando-se, como se se sentisse culpada.
- Por mim, não te disse nada, mas outras pessoas, sem dúvida, já te falaram no caso. E isso é-me penoso.
Manchas vermelhas cobriram a testa e as faces de Maria. Quis dizer qualquer coisa, mas não pôde articular palavra. O irmão adivinhara. A princesinha, depois do jantar, chorara e dissera que receava um parto difícil, que estava cheia de medo e lamentara-se da sua sorte, do sogro, do marido. Depois de chorar, adormecera. O príncipe André teve pena da irmã.
- Podes ter a certeza. Macha, não a censurei, nunca a censurei por qualquer coisa e nunca censurei a minha mulher em coisa alguma. E eu próprio nada tenho a censurar-me no meu comportamento para com ela. E sempre assim será, seja qual for a situação em que venha a encontrar-me. Mas queres saber a verdade.., queres saber se eu sou feliz, se ela é feliz? Pois bem, não, não sou, não somos. Porquê? Não sei...
Ao dizer estas palavras, levantou-se, aproximou-se da irmã e, inclinando-se para ela, beijou-a na testa. Os seus belos olhos incendiaram-se, e neles brilhou um invulgar lampejo de lucidez e bondade. Não era na irmã que o seu olhar se fixava, mas nas trevas, para além da porta aberta por detrás dela.
- Vamos ter com ela. É preciso dizer-lhe adeus. Ou, antes, vai tu sozinha, acorda-a, eu já lá vou ter. Petruchka! - gritou ele, chamando o criado de quarto. - Anda cá, leva estás coisas. Põe isto ao pé do assento, aquilo à direita.
A princesa Maria levantou-se e encaminhou-se para a porta. Aí deteve-se.
- André, se fosses crente, ter-te-ias dirigido a Deus a pedir-lhe que te desse o amor que tu não sentes, e a tua oração seria ouvida.
- Sim, é possível - volveu André. - Vai. Macha, vou já ter convosco.
Quando se dirigia aos aposentos da irmã, na galeria, que estabelecia a comunicação entre os dois corpos da casa, o príncipe encontrou Mademoiselle Bourienne, que lhe sorriu graciosamente. Era a terceira vez naquele dia que ele encontrava no seu caminho, e nos lugares mais solitários, o seu sorriso simples e entusiasta.
- Ah! Julgava-o nos seus aposentos! - exclamou ela, corando um pouco e baixando os olhos.
O príncipe lançou-lhe um olhar severo; tomara repentinamente uma expressão irritada. Não lhe respondeu, e, sem a fixar nos olhos, dirigiu-lhe um olhar tão desdenhoso que a francesa ficou toda corada, retirando-se sem dizer mais nada. Quando o príncipe entrou nos aposentos da irmã, sua mulher já estava acordada e através da porta aberta ouvia-se a sua vozita alegre, que desfiava com volubilidade o rosário das palavras. Dir-se-ia que procurava recuperar o tempo perdido depois de uma longa abstenção.
- Não, mas imagine a velha condessa Zuboff, com postiços no cabelo e a boca cheia de dentes postiços, como se quisesse desafiar os anos... Ah!, ah!, ah!. Maria! Era a quinta vez que André ouvia a mulher diante de estranhos pronunciar esta mesma frase sobre a condessa Zuboff, acompanhada do mesmo riso. Entrou sem fazer ruído. A mulher, redondinha e rosada, o trabalhinho na mão, estava sentada numa poltrona e falava ininterruptamente, contando coisas de Petersburgo e repetindo, inclusivamente, verdadeiras frases feitas. André aproximou-se dela, acariciou-lhe os cabelos e perguntou-lhe se se sentia refeita da viagem. Ela respondeu-lhe e continuou a tagarelar.
Uma carruagem tirada por seis cavalos estava diante da escada. Lá fora era noite, uma noite sombria de Outono. O cocheiro nem sequer podia ver os varais do carro. Na escada agitavam-se pessoas com lanternas na mão. A imensa casa tinha todas as suas grandes janelas iluminadas. No vestíbulo juntavam-se, acotovelando-se, os criados servos, que todos queriam dizer adeus ao jovem príncipe. Na grande sala estava reunida toda a gente da casa: Mikail Ivanovitch. Mademoiselle Bourienne, a princesa Maria e a jovem esposa de André. Este último tinha sido chamado ao gabinete do pai, que queria despedir-se dele a sós. Todos os estavam aguardando.
Quando André - penetrou no gabinete do pai, o velho príncipe, de óculos e roupão branco, traio com que não recebia ninguém, a não ser o filho, estava sentado a sua mesa e escrevia. Voltou-se.
- Vais-te embora? - interrogou ele, continuando a escrever. - Vim dizer-lhe adeus.
- Dá cá um beijo, aqui. - Indicava-lhe o local. - Obrigado, obrigado.
- Porque é que me está a agradecer? - Porque tu não és homem para fazer amanhã o que podes fazer hoje... Não te agarras às saias das mulheres. A tropa antes de tudo. Obrigado! Obrigado! - Continuava a escrever e a pena ia-lhe salpicando o papel. - Se tens seja o que for para me dizeres, fala. Posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
- Queria falar-lhe de minha mulher... Estou bastante apoquentado por ter de a deixar entregue a si, - Que estás tu para aí a dizer? Vamos, de que precisas? - Quando chegar a hora do parto, peço-lhe que mande vir de Moscovo um médico-parteiro... Para que ele esteja presente nesse momento.
O velho príncipe pousou a pena, e, como se não compreendesse, fitou no filho um olhar severo.
- Bem sei que nada se pode fazer quando a natureza não obra por si mesma - disse André, visivelmente perturbado. - Reconheço que num milhão de casos deste género só um, talvez, não corre bem, mas ela tem lá essa mania, e eu também. Temos de acreditar que a embruxaram. Teve sonhos e tem medo.
- Hum! Hum!... - tartamudeou o velho, continuando a escrever. - Está bem, farei o que me pedes.
Firmou, com uma larga assinatura, a carta que escrevera e depois voltou-se bruscamente para o filho. Pôs-se a rir.
- Espetaste-te, hem?! - Que diz, meu pai? - A tua mulher - respondeu ele, conciso e sem subterfúgios.
- Não compreendo - replicou o filho.
- E nada a fazer, meu velho. São todas a mesma coisa: não nos podemos descasar. Não tenhas receio; não direi nada a ninguém; mas tu sabes com o que podes contar.
Agarrou o filho com a mão ossuda e delgada, abanou-o, olhando-o, fixamente, com as suas pupilas vivas, como se o quisesse atravessar de lado a lado. Depois, de novo soltou uma gargalhada fria.
O filho teve um suspiro, e com isso confessava que o pai tinha adivinhado, o velho continuou a dobrar e a lacrar a carta, manejando o lacre, o sinete e o papel com a sua agilidade habitual.
- Nada a fazer! É uma bela mulher! Farei tudo o que for preciso, está descansado - disse ele, continuando a sua tarefa.
André calou-se. Estava ao mesmo tempo contente e descontente de que o pai o tivesse compreendido. O velho ergueu-se e entregou a carta ao filho.
- Ouve - disse-lhe ele. - Não te preocupes com a tua mulher. O que se puder fazer, far-se-á. E agora ouve. Aqui tens uma carta para Mikail Ilarionovitch. Peço-lhe aqui que te mande para onde for necessário e não te conserve muito tempo no estado-maior: é um lugar detestável. Diz-lhe que me lembro sempre dele e da nossa velha amizade. Depois manda-me dizer como é que ele te recebeu. Agora anda cá.
Falava com tanta volubilidade que não acabava, sequer, a maior parte das palavras, mas o filho estava muito habituado a, ouvi-lo. Conduziu-o até junto de uma papeleira, abriu-a, puxou uma gaveta e tirou de lá um caderno verde coberto pelos caracteres da sua caligrafia alongada, cerrada e ágil.
- Naturalmente, eu morrerei antes de ti. Quero que saibas que estão aqui os meus apontamentos. É necessário transmiti-los ao imperador depois da minha morte. Aqui está um papel de crédito e uma carta: é um prémio para aquele que escrever a história das campanhas de Suvorov. Manda isto para a Academia. Aqui está o meu diário. Lê-o depois de eu me ir embora, tens que aprender.
André não disse ao pai que ainda teria certamente muitos anos para viver. Compreendia que o momento não era para dizer coisas dessas.
- Tudo farei, meu pai - disse ele.
- E agora adeus! - Deu-lhe a mão a beijar, e apertou-o nos braços.- Lembra-te de uma coisa, príncipe André: se fores morto, eu, velho, como sou, sentirei uma grande dor... - Calou-se bruscamente e continuou em seguida numa voz firme e sonora: - Mas se eu vier a saber que tu não te portas como filho, que és, de Nicolau Bolkonski, isso para mim será.., uma vergonha! - rematou.
- Aí está uma coisa que meu pai podia ter evitado dizer-me - observou o filho sorrindo.
O velho ficou calado.
- Há ainda outra coisa que lhe queria pedir - prosseguiu André. - Se eu for morto e se me nascer um filho, não o afaste de sua casa, e, como ontem lhe disse, deixe-o crescer a seu lado. Peço-lhe, pai.
- Não será necessário entregá-lo a tua mulher? - disse o velho, soltando uma gargalhada.
Estavam calados em frente um do outro. O pai olhava o filho bem nos olhos e o queixo tremia-lhe, num movimento nervoso.
- A despedida acabou.., vai! - disse repentinamente – Vai - repetiu, numa voz forte e colérica, abrindo a porta.
- Que foi? O que aconteceu? - perguntaram as duas princesas, ao verem André e a furtiva silhueta do velho, de roupão branco, sem cabeleira, de óculos, com fulgurações de voz irritada. André limitou-se a suspirar, sem responder.
- Bom - disse ele, dirigindo-se à mulher.
Pôs nesta simples palavra um acento trocista, que parecia dizer: «Chegou agora o momento de tu fazeres as tuas choraminguices.» - Já. André?! - exclamou a princesinha empalidecendo e olhando-o com terror.
André tomou-a nos braços. A princesa soltou um grito e caiu-lhe desmaiada no ombro.
O príncipe André, com todo o cuidado, afastou-a, examinou o estado da mulher e fê-la assentar, docemente, numa poltrona.
- Adeus. Maria - disse para a irmã em voz baixa; beijou-a, pegando-lhe nas mãos, e afastou-se em passos rápidos.
A jovem princesa continuava estendida na poltrona; Mademoiselle Bourienne aspergia-lhe a cara. A princesa Maria, enquanto amparava a cunhada, com os seus lindos olhos rasos de lágrimas não deixava de olhar a porta por onde o príncipe André desapareceu, traçando sobre ele o sinal da cruz. Do gabinete vinham, como se fossem tiros de pistola, as explosões furiosas, e muito repetidas, do velho, que se assoava estrepitosamente. Mal André saiu, abriu-se a porta do gabinete e apareceu uma figura severa de roupão branco.
- Foi-se embora? Bom, está bem! - disse o velho, lançando um olhar irritado à princesinha, ainda estendida, desmaiada. Depois abanou a cabeça, furioso, e bateu com a porta.