O ataque do 6 de caçadores garantia a retirada do flanco direito. No centro, a intervenção da bataria de Tuchine, que conseguira incendiar Schöngraben, retivera o movimento dos Franceses. As tropas de Napoleão tinham-se visto obrigadas a apagar o incêndio que o vento propagara, permitindo, assim, a retirada dos Russos. A retirada no centro, através do barranco, fizera-se apressada e ruidosamente. No entanto, as tropas, ao retirarem, não tinham alterado a boa ordem das suas fileiras. Mas o flanco esquerdo, que fora atacado e cercado ao mesmo tempo pelas excelentes tropas francesas de Lannes, e era constituído pelos regimentos de infantaria de Azovskí e Podolovski e pelos hússares de Pavlogrado, esse estava desconjuntado. Bagration mandou Jerkov ao general do flanco esquerdo com ordens para recuar imediatamente.
Jerkov, galhardamente e sempre com a mão em continência, esporeou o cavalo e partiu a trote. Mas assim que desapareceu da vista de Bagration, a coragem faltou-lhe. Sentiu que um terror invencível se apoderava dele e não teve ânimo de seguir para a zona de perigo.
Ao aproximar-se das tropas do flanco esquerdo, não se encaminhou para o local da fuzilaria, mas pôs-se à procura do general e dos comandantes onde eles não podiam estar, e foi assim que não transmitiu a ordem que recebera.
O comando do flanco esquerdo pertencia, por antiguidade, ao general daquele mesmo regimento que fora apresentado a Kutuzov em Braunau e onde Dolokov servia como soldado raso. Quanto ao comando do extremo flanco esquerdo, esse fora entregue ao coronel do regimento de Pavlogrado, onde Rostov servia, o que veio a provocar um mal-entendido. Os dois comandantes não se podiam ver um ao outro, e enquanto no flanco direito a acção já tinha principiado há muito e os Franceses já esboçavam um movimento de retirada, ambos continuavam a discutir, irritando-se mutuamente. Os regimentos - tanto o de cavalaria como o de infantaria - não estavam de maneira alguma preparados para um combate iminente. Os homens, desde o soldado ao general, não contavam com a batalha e entretinham-se tranquilamente em pacíficas ocupações, como a de dar de comer aos cavalos, na cavalaria, ou apanhar lenha, na infantaria.
- Visto que ele, em todo o caso, é mais antigo do que eu no seu posto - dizia o coronel alemão dos hússares, muito corado, dirigindo-se a um ajudante-de-campo que se aproximava -, que faça o que entender. Cá por mim, não estou disposto a sacrificar os meus hússares. Clarins! Toquem a retirar! Mas a situação pedia urgência, a maior urgência. O canhoneio e a fuzilaria confundiam-se, as balas rebentavam à direita e à esquerda, e os capotes dos atiradores de Lannes ultrapassavam já a linha do moinho e alinhavam do lado de cá quase à distância de um tiro de espingarda. O general de infantaria, no seu andar claudicante, dirigiu-se para o seu cavalo, montou e, bem direito e hirto na sela, aproximou-se do comandante do regimento de Pavlogrado. Os dois comandantes, antes de dirigirem a palavra um ao outro, fizeram uma continência cortês, mas com uma secreta irritação.
- Mais uma vez lhe afirmo, coronel - disse o general -, sei a como for, eu não posso deixar aqui, nesta floresta, metade dos meus homens. Peço-lhe, volto a pedir-lhe pela segunda vez, que ocupe a posição e que se prepare para o ataque.
- Pois eu peço-lhe que se não meta em assuntos que lhe não dizem respeito - replicou o coronel, exaltando-se. - Se fosse da cavalaria...
- Não sou da cavalaria, coronel, mas sou um general russo, e se o não sabe - - Sei-o muitíssimo bem. Excelência! - exclamou, subitamente, o coronel, que se adiantou a cavalo e se fez muito encarnado. - Faça favor de ir a primeira linha e verá que esta posição não se pode defender. Não estou disposto a deixar exterminar o meu regimento para lhe dar prazer.
- Esquece-se de quem é, coronel. Não está em causa o que me dá satisfação e não consinto que me fale nesse tom.
Aceitando o convite do coronel para um torneio de bravura e arqueando o peito e franzindo as sobrancelhas, o general dirigiu-se com ele para a frente do combate, como se o debate que entre eles se travava houvesse de resolver-se precisamente ali, nas primeiras linhas, sob a metralha. Ao chegarem aí, algumas balas lhes passaram por cima da cabeça e ambos pararam, calados. Nada podia distinguir-se ali, no lugar em que eles estavam, uma vez que até mesmo do ponto onde se encontravam anteriormente era evidente que a cavalaria nada tinha a fazer naquelas bouças e naqueles barrancos e que os Franceses cercavam a ala esquerda. O general e o coronel olharam um para o outro com uma expressão severa e significativa, como dois galos que se preparam para a luta, esperando, debalde, de um lado ou do outro, qualquer indício de covardia. Ambos mantiveram o desafio. Como nada havia que dizer e nenhum queria dar motivo ao companheiro para pensar que fora ele o primeiro a retirar-se da linha de fogo, ali teriam ficado por muito tempo, a demonstrar a sua mútua valentia, se no mesmo instante, na floresta, quase por detrás deles, se não tivesse ouvido um retinir de armas e gritos surdos e prolongados. Eram os Franceses que caíam sobre os soldados que andavam à lenha. Os hússares já se não podiam retirar com a infantaria. Tinham a retirada cortada à esquerda pela frente francesa. Agora, apesar das dificuldades do terreno, era mister atacar para abrir caminho.
O esquadrão a que pertencia Rostov mal tinha montado a cavalo logo se vira cara a cara com o inimigo. Como já acontecera na ponte de Enris, entre o esquadrão e o inimigo nada havia, nada, a não ser, a separá-los, essa terrível linha do desconhecido e do terror como a que separa os vivos dos mortos. Todos os soldados tinham consciência dessa linha e se interrogavam a si mesmos angustiosamente: transpô-la-iam ou não, e como é que a transporiam? O coronel aproximou-se das suas tropas, respondeu, colérico, aos oficiais que o interrogavam, e deu as suas ordens como um homem disposto a cumprir desesperadamente aquilo que se propõe. Não deu nenhuma voz de comando precisa, mas pelo esquadrão correu o boato de que iam atacar. Ouviu-se a voz: - Sentido! - e logo um retinir de sabres que eram arrancados das bainhas. Mas ninguém se movia. As tropas do flanco esquerdo, infantaria e hússares, tinham a, impressão de que o próprio comandante não sabia o que devia fazer e a indecisão dos superiores comunicava-se aos soldados.
«Depressa, se ao menos eles decidissem depressa!», dizia Rostov para si mesmo, ao ver chegar, finalmente, com alegria, o momento do ataque em que tantas vezes lhe tinham falado os hússares, seus camaradas.
- Com a ajuda de Deus, rapazes - gritou Denissov - a trote Marcha! As garupas dos cavalos da primeira fila principiaram a ondular. Gratchik sacudiu as rédeas e por si mesmo começou a trotar.
A direita. Rostov via as primeiras fileiras dos seus hússares e mais para diante, na sua frente, entrevia uma linha escura, que não podia distinguir bem, e que supunha ser o inimigo. Ouviam-se tiros, mas na distância.
- Trote acelerado! - gritou uma voz de comando, e Rostov sentiu que o seu Gratchik levantava as traseiras e metia a galope.
Sentia a vertigem do movimento apossar-se dele e cada vez o tomava uma maior euforia. Notou uma árvore isolada diante de si. Esta árvore ocupava primeiro o centro daquela linha que lhe tinha parecido tão terrível. E eis que ela lhe ficava já para trás, que a tinha transposto, a essa linha, e que ela não só já nada tinha de terrível para ele, mas cada vez se sentia mais alegre e animado. «Ah, como eu os vou espadeirar!», murmurava, apertando o punho da espada.
- Hur.., r.., a.., a! - gritaram vozes.
«Ai daquele que me cair nas mãos, seja ele quem for!», murmurou Rostov, esporeando o seu Gratchik, e, adiantando-se a todos os seus camaradas, lançou-se a todo o galope. Diante dele estava o inimigo. De súbito, foi como se uma imensa verdasca tivesse chicoteado todo o esquadrão. Rostov brandiu a espada pronta a ferir, mas no mesmo momento o soldado Nikitenko, que galopava na sua dianteira, afastou-se dele, e Rostov sentiu, como num sonho, que continuava a ser levado para diante com uma rapidez incrível e ao mesmo tempo que continuava parado no mesmo lugar. Na sua retaguarda o hússar Bondartchuk, seu conhecido, saltou por cima dele, lançando-lhe um olhar de cólera. O cavalo de Bondartchuk empinou-se e passou.
«Que vem a ser isto? Não me mexo?... Caí, estou morto?», perguntou Rostov, num repente, a si próprio e no mesmo repente a si próprio respondeu. Estava já completamente só no campo. Em vez dos cavalos a galope e das costas dos hússares, em tomo de si apenas via a terra imóvel e as barracas. Sentia-se banhado por um sangue quente. «Não, estou ferido, e o meu cavalo está morto.» Gratchik procurou erguer-se nas patas dianteiras, mas voltou a cair, prendendo a perna do cavaleiro. O sangue corria-lhe da cabeça. Debateu-se, mas não foi capaz de se levantar. Rostov quis também erguer-se, mas voltou também a cair: tinha a patrona engatada na sela. Onde estavam os Russos? Onde estavam os Franceses? Não sabia. Não havia ninguém nas proximidades.
Depois de conseguir desembaraçar a perna, endireitou-se. «Onde estava, de que lado ficava agora a linha que dividia tão nitidamente os dois exércitos?» Era isto que ele a si próprio perguntava, sem conseguir qualquer resposta. «Que é que me teria acontecido de desastroso? Isto dá-se, mas que deve fazer-se nestes casos?», perguntava-se a si mesmo enquanto se erguia; e ao mesmo tempo reparava que qualquer coisa de supérfluo lhe pendia do braço esquerdo, paralisado. Dir-se-ia que o punho lhe não pertencia. Examinou o braço procurando, atentamente, sinais de sangue, «Ah! Já vejo gente», disse de si para consigo- satisfeito, ao ver certo número de pessoas que se dirigiam para ele... «Vêm-me socorrer!» A frente vinha um homem com uma estranha barretina na cabeça e capote azul. Era escuro, de pele tisnada, e tinha o nariz recurvo. Mais dois, e ainda mais dois o seguiam. Um deles falou numa língua estranha, que não era a russa. No meio de uns homens semelhantes, com as mesmas barretinas na cabeça, mais atrás, havia um hússar russo. Amparavam-no por um braço e atrás vinha o cavalo puxado pela arreata.
«Deve ser um dos nossos, prisioneiro... Sim. Naturalmente vão-me aprisionar a mim também! Que gente é esta?», continuou Rostov no seu solilóquio, não podendo crer no que via. «Serão franceses?» Via os desconhecidos aproximar-se, e embora, momentos antes, tivesse lançado o seu cavalo a galope para cair sobre eles e espadeirá-los, o vê-los agora causava-lhe tal pânico que não podia acreditar nos seus olhos. «Quem são? Porque correm? Correm para mim? E porquê? Para me matar? Para me matar a mim, de quem toda a gente gosta?» E então, recordando-se do amor que lhe tinham a mãe, a família e os amigos, pareceu-lhe impossível que os inimigos o quisessem matar. «Ah! Será possível? Para me matar?» Assim ficou, mais de um minuto, sem se mexer e sem se dar conta da situação. O francês que vinha à frente, o do nariz recurvo, já estava tão perto que se lhe distinguiam perfeitamente os traços. E a fisionomia exasperada e estranha daquele homem que, de baioneta calada, os dentes cerrados, se precipitava sobre ele, aterrorizava Rostov. Pegou na pistola, e, em vez de disparar, atirou com ela aos franceses, deitando a fugir para as bouças. Já não sentia o mesmo que na ponte de Enns, esses sentimentos de incerteza sobre o futuro e esse desejo de luta que então o animavam; fugia como uma lebre perseguida por uma matilha. Era unicamente o terror de perder a vida jovem e feliz que o dominava por completo. Saltando agilmente por cima dos fossos, com a ligeireza que costumava ter ao jogar às gorielkis (Jogo semelhante ao da barra. (N, dos T.), lá ia levado na sua carreira através dos campos, voltando para trás, de quando em quando, o rosto jovem e belo, muito pálido, ao mesmo tempo que o percorria um calafrio de medo. «Ah! Mais vale não ver», pensava. Assim que chegou, perto das bouças, mais uma vez olhou para trás. Os franceses tinham ficado longe, muito longe e, precisamente no momento em que se voltou, viu o que vinha à frente retardar o passo, em vez de o acelerar, e interpelar em alta voz o camarada que o seguia. Rostov parou. «Não é isso», dizia ele de si para consigo, «não é possível que eles me queiram matar.» No entanto, a mão esquerda pesava-lhe, como se dela pendesse um peso de muitas arrobas. Não pôde ir mais além. Os franceses também tinham parado e alvejaram-no. Rostov fechou os olhos e baixou-se. Uma ou duas balas lhe passaram, silvando, por cima da cabeça. Fez um esforço derradeiro, pegou na mão esquerda com a mão direita e de novo correu, agora em direcção às bouças. Ali encontrou atiradores russos.
Os regimentos de infantaria atacados de improviso na floresta punham-se em fuga e as companhias, misturadas, já não eram mais que tropas desordenadas. Um soldado, enlouquecido, pronunciou esta palavra, terrível na guerra, embora sem significação: - Estamos cortados! - e a frase, grávida de terror, propagou-se por toda a massa dos soldados.
- Cercados! Cortados! Perdidos! - gritavam os fugitivos.
Quando o general, ao ouvir a fuzilaria e os gritos na retaguarda, compreendeu que qualquer coisa de grave se estava a passar no seu regimento, e lhe passou pela cabeça que ele, um oficial exemplar, com uma longa folha de serviços, que nunca cometera qualquer falta, podia vir a ser acusado, perante os seus superiores, de negligência ou de incúria, de tal modo se sentiu transtornado que no mesmo momento, sem pensar mais na indisciplina do coronel de cavalaria, e esquecendo-se do seu próprio papel de general, e, principalmente, com um desprezo completo do perigo e do instinto de conservação, agarrou-se ao arção da sela, e, esporeando o cavalo, largou a galope em direcção ao seu regimento, sob uma saraivada de balas que, felizmente, o não atingiram. Só uma coisa o preocupava: saber o que se tinha passado, remediar a situação, reparar, tanto quanto possível, a falta cometida, caso houvesse erro da sua parte, e ficar isento de toda a censura, ele, que tinha vinte e dois anos de serviço, ele, um oficial exemplar e a quem nunca fora feita a menor observação.
Depois de ter atravessado incólume as linhas francesas, atingiu o campo de batalha por detrás da floresta que os Russos atravessavam, precipitando-se pelo desfiladeiro, sem ouvirem ordens de ninguém. Estava-se, então, naquele grave minuto em que a sorte de uma batalha pode depender de uma hesitação moral: ouvirão as tropas em debandada a voz do seu superior, ou, limitando-se a olhar para ele, prosseguirão na fuga? Apesar dos loucos berros de uma voz até aí temida dos soldados, apesar da presença daquela cara rubra, descomposta pela ira e já sem configuração humana, apesar da espada que brandia, as tropas continuavam a fugir, a interpelar-se, a disparar para o ar, sem obedecerem. A hesitação moral que decide da sorte das batalhas pendia visivelmente para o lado do pânico.
O general sufocava, a gritar, no meio da fumarada, parando desesperado. Tudo parecia perdido. Mas, nesse momento, os Franceses, que iam no encalce dos Russos, fizeram, subitamente, meia volta, sem razão aparente, desaparecendo na orla da floresta, e foi então que na própria floresta apareceram atiradores russos. Era a companhia de Timokine, a única que mantivera até ali intactas as suas fileiras e que, entrincheirada num fosso, atacara os Franceses de surpresa. Timokine lançara-se sobre eles soltando gritos tão terríveis, caíra sobre o inimigo com uma tão desvairada audácia, apenas com a sua pequena espada em punho que os Franceses, desorientados, lançaram fora as armas e despediram em debandada. Dolokov, ao lado de Timokine, matou um francês à queima-roupa e foi o primeiro a pegar pela gola num oficial que se rendia. Os fugitivos russos voltaram para trás, os batalhões reagruparam-se, e o inimigo, prestes a cortar em dois o flanco esquerdo, foi momentaneamente repelido. As reservas puderam reunir-se e os fugitivos detiveram-se. Estava o general na ponte com o major Ekonomov, vendo desfilar diante de si os batalhões em retirada, quando se aproximou dele um soldado, que lhe pegou nos estribos e se virou para ele. Esse soldado vestia um capote azul, regulamentar, não trazia nem mochila nem barretina: tinha a cabeça amarrada e aos ombros uma cartucheira francesa. Empunhava uma espada de oficial. Estava pálido, e os seus olhos azuis fixavam-se descaradamente no superior. Sorria. Posto o general estivesse ocupado a transmitir ordens ao major Ekonomov, não pôde deixar de lhe prestar, atenção.
- Excelência! Aqui tem dois troféus - disse Dolokov, tirando a espada e a cartucheira... - Fiz prisioneiro um oficial... Está no batalhão. - Dolokov arquejava, as suas palavras eram entrecortadas. - É testemunha o batalhão inteiro. Peço-lhe que se não esqueça. Excelência! - Está bem, está bem - volveu o general, que continuava a sua conversa com Ekonomov.
Mas Dolokov não o largou. Desatou as ligaduras, puxou pela manga do general e mostrou-lhe o sangue coagulado nos cabelos. - Uma ferida de baioneta, não abandonei as fileiras. Não se esqueça. Excelência.
Tinham-se esquecido da bataria de Tuchine, e foi só no fim do recontro, ao continuar a ouvir o canhoneio do centro, que o príncipe Bagration enviou o oficial do estado-maior às ordens, e depois o príncipe André, com instruções para que a bataria retirasse o mais depressa possível. A linha de protecção que se encontrava nas imediações da bataria de Tuchine desaparecera, em virtude de uma ordem dada no meio da batalha; mas a bataria continuava a disparar e não fora tomada até então unicamente porque os Franceses nunca poderiam imaginar que quatro peças sem qualquer cobertura tivessem a audácia de continuar a fazer fogo. Pelo contrário, pensavam, em virtude da enérgica acção desta bataria, que ali, no centro, se encontravam concentradas as principais forças dos Russos; por duas vezes tinham tentado atacar a posição e de ambas as vezes haviam sido repelidos pela metralha das quatro peças colocadas naquela eminência.
Pouco depois da partida de Bagration, conseguira Tuchine incendiar Schöngraben.
- Que rebuliço que lá vai! Como aquilo arde! Hem, que fumarada! Rica pontaria! Famoso! Que fumarada! Que fumarada! - gritavam os artilheiros, excitadíssimos.
Todas as peças, sem instruções, disparavam na direcção do incêndio. E os soldados, como se estivessem a assistir a um concurso, exclamavam a cada tiro: - Bem apontado! É isso mesmo, é isso mesmo! Eh! Olhem para aquilo! De primeira ordem! - O fogo, que o vento activava, propagava-se rapidamente. As colunas francesas instaladas na povoação recuaram, mas, para se vingar deste revés, o inimigo instalou à direita da aldeia dez peças de artilharia que faziam fogo sobre Tuchine.
No meio da alegria infantil que lhes despertava o incêndio, e entusiasmados com o êxito dos seus tiros contra os Franceses, os artilheiros de Tuchine não deram por esta bataria senão quando dois projécteis, e logo, em seguida mais quatro, caíram no meio das suas peças. Um deles derrubou dois cavalos e outro arrancou uma perna a um condutor de munições. O ardor que se apoderara de cada um deles não se desvaneceu com isso e apenas mudou de objectivo. Os cavalos foram substituídos pelos da carreta de reserva, os feridos levados e as quatro peças voltaram o seu tiro contra as dez do inimigo. Um oficial camarada de Tuchine foi morto no princípio da acção, e no espaço de uma hora, dos quarenta artilheiros, dezassete tinham sido postos fora de combate. Mas nem por isso o outro pessoal da bataria parecia menos alegre e cheio de entusiasmo. Por duas vezes viram surgir lá em baixo, a pequena distância, soldados franceses, e por duas vezes os metralharam.
O homenzinho dos gestos indecisos e sem jeito só dizia para o seu impedido: - Mais uma cachimbada em cima deles.- E corria à primeira linha, atiçando o fogo, e olhava para os Franceses com a mão em pala sobre os olhos.
- Fogo em cima deles, rapazes! - gritava, e ele próprio pegava nas rodas das peças, para faze-las girar, e fazia manobrar as alavancas.
No meio da fumarada, ensurdecido pelas detonações ininterruptas, que o faziam estremecer a cada tiro. Tuchine, sem nunca abandonar o seu cachimbo, corria de uma peça à outra, ora fazendo pontaria, ora contando os projécteis, ora ocupado em mandar desatrelar os cavalos mortos ou feridos, e sempre dando ordens com a sua vozinha fraca, suave e indecisa. Cada vez tinha uma expressão mais excitada. Só quando alguns dos seus homens eram mortos ou feridos franzia as sobrancelhas e, afastando-se dos que morriam, increpava os outros que, como sempre, não se davam pressa de amparar os feridos ou de levar os cadáveres. Os soldados, na sua maior parte belos rapagões, como é costume na artilharia, duas cabeças mais altos que o seu oficial e duas vezes mais largos de ombros, interrogavam com os olhos o seu superior, como se fossem crianças atrapalhadas com o que tinham de fazer, e copiavam, invariavelmente, a expressão que lhe liam no rosto.
Neste terrível fragor, no meio daquele inferno e da necessidade de fazer frente a tudo. Tuchine não sentia a mais pequena impressão de medo e não lhe passava pela cabeça a ideia de que poderia ser morto ou ficar gravemente ferido. Pelo contrário, cada vez era maior a sua alegria. Parecia-lhe que já fora há muito, que datava do dia anterior, pelo menos, o momento em que vira o inimigo pela primeira vez e que sobre ele havia disparado o primeiro tiro e afigurava-se-lhe que a pequena área de terreno em que se encontrava lhe era um local de há muito conhecido e familiar até. Embora se lembrasse de tudo, pensasse em tudo, fizesse tudo que poderia fazer o melhor oficial na sua situação, dir-se-ia estar como que em delírio de febre ou completamente embriagado.
O barulho ensurdecedor das peças que disparavam por todos os lados, o silvar e rebentar dos projécteis inimigos, a presença dos artilheiros todos suados e vermelhíssimos numa azáfama em volta das peças, o sangue que corria dos homens e dos animais, aquela fumarada que se erguia no céu do lado do inimigo, sempre acompanhada de um projéctil, que vinha cair ora em terra, ora em cima de um homem, ora sobre uma peça ou um cavalo, a vista de todas estas cenas não o impedia de encher a cabeça de todo um mundo fantástico, naquele instante os seus encantos. Os canhões inimigos, na sua imaginação, não eram canhões, mas cachimbos, donde partiam as raras fumadas de invisíveis fumadores.
«Lá está outro a fumar», murmurava Tuchine enquanto um penacho de fumo trepava pela montanha acima e era levado pelo vento para a esquerda... «Esperemos pela bala para lha tornarmos a mandar.» - Que lhes havemos de mandar. Excelência? - perguntava o artilheiro que estava mais perto dele e que o tinha ouvido rabujar.
- Nada, um obus... - respondia ele.
- Vamos a isso. Matvievna duma cana.
Matvievna era o nome que ele dava à grande peça do extremo, de fundição antiga. Os Franceses em tomo dos canhões pareciam-lhe formigas. O rapagão bêbedo, o nº 1 da segunda peça, para ele era o «tio». Gostava mais de olhar para ele do que para os outros, e qualquer movimento seu o encantava. O ruído da fuzilaria junto à montanha, ora esmorecendo, ora reanimando-se, figurava-se-lhe a respiração de um ser vivo. Prestava atenção às variações de intensidade desses ruídos.
«Eh! Lá toma ela ar outra vez», pensava.
E ele próprio se imaginava um poderoso gigante, de imensa estatura, atirando as suas balas aos Franceses com ambas as mãos.
- Anda. Matvievna, minha velha, não me atraiçoes! - dizia, recuando alguns passos, quando ouviu por cima da cabeça uma voz estranha e desconhecida.
- Capitão Tuchine! Capitão! Tuchine voltou a cabeça, surpreendido. Era aquele mesmo oficial do estado-maior que o tinha expulsado, no acampamento de Grount. Gritava-lhe, numa voz sufocada.
- Que faz aqui? Está doido? Já lhe deram, por duas vezes, ordem de recuar, e o senhor...
«Que querem eles de mim ainda?», disse Tuchine de si para consigo, fitando, mal-humorado, o superior.
- Eu.., nada... - balbuciou, levando dois dedos à pala da barretina. - Eu - O coronel não pôde chegar a cumprir a sua missão. Um projéctil que naquele momento se aproximava obrigou-o a mergulhar sobre a cabeça do cavalo. Calou-se, e preparava-se para dizer mais alguma coisa quando um novo projéctil lhe cortou a palavra. Fez meia volta e despediu a galope.
- Retirar! Todos! - gritou de longe.
Os soldados puseram-se a rir. Um minuto depois chegou um ajudante-de-campo com a mesma ordem.
Era o príncipe André. O que este viu antes de mais nada, ao penetrar no terreno ocupado pelas peças de Tuchine, foi um cavalo desatrelado, com uma perna partida, que escoiceava rio meio dos varais. O sangue corria-lhe da perna como a bica de uma fonte. Entre os trens de artilharia jaziam alguns mortos. Os projécteis, uns atrás dos outros, voavam-lhe por cima da cabeça enquanto se aproximava, e sentiu como que um estremecimento nervoso percorrer-lhe o corpo. Mas a própria ideia de que tinha medo lhe dava coragem. «Eu não posso ter medo», dizia de si para consigo, e, sem pressa, saltou do cavalo no meio da bataria. Transmitiu as ordens sem se afastar. Decidiu mandar atrelar as peças da posição na sua presença e mandá-las levar dali. Ao lado de Tuchine, pisando cadáveres, e sob o violento fogo dos Franceses, ocupou-se da mudança dos canhões.
- O oficial que veio há bocado tratou logo de se pôr a andar - disse o artilheiro ao príncipe André. - Não era como Vossa Mercê.
O príncipe André não trocou uma só palavra com Tuchine. Estavam ambos tão atarefados que dir-se-ia nem sequer se verem um ao outro. Quando, mais tarde, desciam a colina, depois de terem engatado às carretas as duas peças ainda intactas - tiveram de abandonar uma peça desmantelada e um licorne - o príncipe André aproximou-se de Tuchine.
- Bom, até à vista - disse-lhe, estendendo-lhe a mão.
- Até à vista, meu caro - respondeu Tuchine -, meu bom amigo! Adeus, meu caro - acrescentou, sentindo, sem que soubesse porquê, que as lágrimas lhe subiam aos olhos.
O vento deixara de soprar; nuvens negras passavam, baixas, sobre o campo de batalha, confundindo-se, no horizonte, com o fumo da pólvora. Principiou a escurecer, e os clarões do incêndio, em dois sítios, viam-se agora melhor. O tiroteio começava a enfraquecer, mas na retaguarda e à direita a fuzilaria tornava-se cada vez mais frequente e mais próxima. Assim que Tuchine, com as suas peças abrindo caminho através dos feridos, saiu da zona de fogo e desceu para o barranco, encontrou a oficialidade e os ajudantes-de-campo, entre os quais o oficial de estado-maior Jerkov, que duas vezes lhe fora expedido e que nem uma só chegara à bataria. Todos, interrompendo-se uns aos outros, discutiam as ordens sobre a direcção a tomar. Dirigiram-lhe censuras e observações. Tuchine não tomara qualquer disposição, e em silêncio, receoso de falar, pois à mais pequena palavra romperia em soluços, sem que ele próprio soubesse porquê, lá ia atrás, montado no seu rocim de artilheiro. Posto houvesse ordem de abandonar os feridos, muitos deles tinham-se arrastado atrás das tropas, pedindo assento em cima das peças. Aquele galhardo oficial de infantaria que antes do combate saíra da barraca de Tuchine lá ia deitado, com urna bala no ventre, em cima da carreta da Matvievna. No sopé da colina, um junker de hússares, muito pálido, amparando uma das suas mãos com a outra, aproximou-se de Tuchine e pediu-lhe um lugar.
- Capitão, faça favor, estou com este braço contuso - disse, timidamente. - Por amor de Deus, não posso andar! Via-se que aquele jovem oficial já pedira mais do que uma vez que o recolhessem e toda a gente lhe recusara auxílio. Tinha uma voz hesitante e lamentosa.
- Deixe-me sentar, por amor de Deus.
- Arranjem-lhe lugar, arranjem-lhe lugar! - exclamou Tuchine. - Eh!, tio, estende-lhe um capote - acrescentou, dirigindo-se ao seu artilheiro favorito.- Mas onde é que está o oficial ferido? - Levaram-no, estava morto - respondeu alguém. - Arranjem-lhe lugar. Sente-se, meu caro, sente-se. Estende o capote. Antonov.
O junker era Rostov. Amparava o braço ferido, estava pálido e o queixo tremia-lhe de febre. Instalaram-no em cima da Matvievna, sobre aquela mesma peça donde acabavam de tirar o oficial morto. Sobre o capote estendido havia sangue, que manchou as calças e as mãos de Rostov.
- Quê, está ferido, meu caro? - disse Tuchine, aproximando-se da peça onde estava instalado Rostov.
- Não, apenas contuso.
- E que sangue é esse que está em cima da carreta? - perguntou Tuchine.
- Foi o oficial. Vossa Mercê, que lá deixou sangue - replicou o artilheiro, limpando o sangue com a manga do capote, como que a desculpar-se da falta de asseio.
Dificilmente, com o auxílio da infantaria, lá levaram as peças para a montanha, e, ao atingirem a aldeia de Gunthersdorf, fizeram alto. Estava tão escuro que a dez passos não podia distinguir-se o uniforme dos soldados, e a fuzilaria acabara. Subitamente, a pouca distância, à direita, ressoaram novamente gritos e salvas. A obscuridade foi iluminada pelos tiros. Era um último ataque dos Franceses, a que respondiam os soldados entrincheirados nas casas. Todos abandonaram de novo a povoação, mas as peças de Tuchine; essas, não podiam mover-se dali, e os artilheiros. Tuchine e o junker trocavam olhares entre si, sem dizerem nada, confiando-se à sorte. A fuzilaria serenou, e, por uma estrada lateral, veio até eles uma conversa de soldados muito animada.
- Tu não estás ferido. Petrov? - perguntava um deles.
- Chegámos-lhe bem, irmão. Não se metem noutra - respondeu outro soldado.
- Não se vê nada. E que coça eles pregaram na sua gente! Não é verdade? Não se vê nada, meninos. Não poderíamos beber qualquer coisa? Os Franceses tinham sido definitivamente repelidos. E foi então que, pela noite de breu, as peças de Tuchine, enquadradas por um enxame ruidoso de soldados de infantaria, voltaram a pôr-se em andamento.
Nas trevas, era como um rio escuro e invisível»que corria na mesma direcção, entre o murmúrio das vozes, das conversas, do tropear dos cavalos e do ruído das rodas. No meio de todos estes rumores, os mais diferentes, ouviam-se mais distintamente os gemidos e os gritos dos feridos que subiam na noite. Estes gemidos só por si pareciam encher as trevas em que todos mergulhavam. Gemidos e trevas confundiam-se. Daí a algum tempo, um remoinho se produziu no meio desta multidão em movimento. Alguém montava um cavalo branco, acompanhado de um séquito, e ao passar pronunciavam-se algumas palavras. «Que é que ele disse? Onde é que nós vamos agora? Devemos ficar no mesmo lugar? Concedeu recompensas?» De todos os lados se entrecruzavam estas ávidas interrogações e a massa em movimento começava a cerrar-se, pois, evidentemente, os que iam na frente tinham parado e corria o boato de que fora dada ordem para fazer alto. Todos, efectivamente, pararam no sítio onde estavam, no meio da estrada lamacenta.
Brilharam luzes e puderam distinguir-se vozes. O capitão Tuchine, depois de ter tomado as suas disposições nas companhias, mandou um soldado em busca da ambulância ou de um médico para o junker, e sentou-se junto de uma fogueira que os soldados tinham acendido na estrada. Rostov arrastou-se também para o pé das chamas. O tremor febril que o seu estado lhe causava, o frio e a humidade prostravam-no por completo. Sentia uma vontade irresistível de dormir, mas não podia, por virtude da dor terrível no braço, para que não encontrava posição. Ora fechava os olhos, ora fitava a fogueira, que tinha cintilações escarlates, ora erguia os olhos para a mísera silhueta corcovada de Tuchine, escarranchado no chão a seu lado. Os papudos olhos do capitão, bons e inteligentes, fixavam-no com simpatia e compaixão. Rostov sentia que Tuchine gostaria de o poder ajudar, de todo o seu coração, mas que nada podia fazer.
Por todos os lados se ouviam passos e vozes de gente que desfilava, a pé e a cavalo, e de soldados de infantaria que se instalavam nas imediações. As vozes, o ruído dos passos, das ferraduras dos cavalos patinhando na lama, o crepitar próximo e distante das fogueiras, tudo isto formava como que uma vaga estrondeante.
Já não era, como até ali, um rio invisível correndo nas trevas, mas um oceano caliginoso que se aquieta e palpita depois da tempestade. Rostov olhava e ouvia, sem pensar, tudo o que se passava diante dele e à sua volta. Um soldado de infantaria avançou para a fogueira, pôs-se de cócoras, estendendo as mãos para as chamas e desviando a cara.
- Dá licença. Sua Mercê? - disse ele, dirigindo-se a Tuchine - É que eu perdi-me da minha companhia. Sua Mercê. Não consigo saber onde ela está. Que desgraça! Ao mesmo tempo que o soldado, aproximou-se também um oficial de infantaria, com a cara amarrada, o qual, dirigindo-se a Tuchine, pediu que fizesse avançar um pouco as peças para deixar passar as bagagens. Atrás deste comandante de companhia precipitaram-se dois soldados. Renhiam violentamente, puxando cada um para o seu lado por uma bota.
- Não tenhas medo! Foste tu que a apanhaste! Tens a mão leve! - gritava um deles, numa voz rouca.
Chegou depois um soldado pálido e magro, o pescoço envolto numa ligadura ensanguentada, que, raivoso, pediu água aos artilheiros.
- O quê? Temos de morrer como cães? - dizia ele.
Tuchine mandou que lhe dessem água. Em seguida apareceu um soldado, um jogral, que pediu lume para os soldados de infantaria.
- Lume, bem aceso, para os da infantaria. Encantado com a companhia! Obrigado pelo lume. Havemos de vos pagar com juros - disse ele, levando consigo, para o meio das trevas, um tição aceso.
Depois, quatro soldados que traziam num capote um objecto pesado passaram junto do acampamento. Um deles tropeçou. - Diabos os levem mais a fogueira no meio do caminho - resmungou.
- Ele está morto, para que o havemos de levar? - observou outro.
- Eh, rapazes! E desapareceram com o fardo na escuridão.
- Então? Dói-lhe muito? - perguntou Tuchine em voz baixa.
- Dói.
- Sua Excelência o general chama-o. Está ali, naquela isbá - disse um artilheiro aproximando-se de Tuchine.
- Vou já, meu amigo.
Tuchine ergueu-se, e, abotoando o capote e ajeitando-o, afastou-se da fogueira.
Não muito longe do acampamento dos artilheiros, numa isbá preparada para ele, o príncipe Bagration estava sentado diante de uma mesa, conversando com alguns comandantes de destacamento reunidos em volta dele. Lá estava o velhito de olhos semicerrados, o general com vinte e dois anos de serviço impecável, muito vermelho, por causa da vodka que bebera e do jantar que ingerira, o oficial do estado-maior, com o seu anel. Jerkov, que olhava com inquietação para toda a gente, e por fim o príncipe André, muito pálido, os lábios cerrados e os olhos a brilharem, febris.
A um canto estava uma bandeira tomada aos Franceses e o auditor, com o seu ar ingénuo, palpava-lhe o tecido e abanava a cabeça, talvez porque a bandeira o preocupava, ou então por lhe ser penoso, a ele, com fome, assistir a um repasto em que não tomava parte. No quarto ao lado estava o coronel francês feito prisioneiro pelos dragões. Os oficiais russos juntavam-se em volta dele para o verem. O príncipe Bagration agradecia aos comandantes de secção e pedia, pormenores sobre a batalha e as perdas.
O comandante do regimento que lhe fora apresentado em Braunau contava que desde o começo da acção tinha evacuado a floresta, reunira os seus homens, que andavam à lenha, e, lançando na refrega os seus dois batalhões, atacara à baioneta e repelira os Franceses.
- Quando me dei conta. Excelência, de que o meu batalhão estava disperso, parei no meio da estrada e disse com os meus botões: «Deixemo-los passar, e depois abramos fogo sobre eles.» E foi isso que eu fiz.
Este coronel tinha desejado tanto agir deste modo, e lamentava tão profundamente não o ter conseguido, que acabara por imaginar sinceramente que tudo quanto dizia era exacto. E no fim de contas talvez as coisas se tivessem passado assim. Seria possível, no meio de toda aquela confusão, reconhecer o que se tinha ou não tinha passado? - Além disso, devo observar-lhe. Excelência - prosseguiu ele, lembrando-se da conversa de Doloke, com Kutuzov e do seu último encontro com o degradado -, que Dolokov, soldado raso, fez prisioneiro, à minha vista, um oficial francês, e se distinguiu entre todos.
- Eu vi. Excelência, o ataque dos soldados de Pavlogrado - interveio Jerkov, sempre com o seu ar inquieto. Não tinha visto nesse dia os hússares, e apenas ouvira falar no caso a um oficial de infantaria... - Romperam dois quadrados. Excelência.
Ao ouvirem estas palavras de Jerkov alguns dos presentes sorriram, como sempre à espera de qualquer gracejo, mas, ao verificarem que o que ele estava a dizer apenas tinha em vista a glória das tropas e daquela jornada, assumiram uma expressão sisuda, embora a maior parte deles soubesse perfeitamente que tudo aquilo não passava de palavras atiradas ao ar. O príncipe Bagration dirigiu-se ao velho militar.
- Agradeço-vos a todos, meus senhores: todos os corpos se comportaram com heroísmo: infantaria, cavalaria e artilharia. Como é que se compreende que se tenham abandonado no centro duas peças? - perguntou, procurando alguém com o olhar. Bagration não inquiria do destino das peças do flanco esquerdo; ele sabia, que aí, desde o princípio da batalha, todos os canhões tinham sido abandonados. - Parece-me que já lhe perguntei isso - disse ao oficial de estado-maior em serviço.
- Uma estava desmantelada - replicou este. - Quanto à outra, não sei o que aconteceu; estive presente durante toda a operação e tomei as medidas necessárias. Mal tinha saído dali... Fazia lá um calor, realmente - acrescentou com modéstia.
Alguém disse que o capitão Tuchine estava ali, nas imediações, e que o tinham mandado chamar.
- Mas o senhor, o senhor esteve lá - disse Bagration ao príncipe André.
- Precisamente partimos quase ao mesmo tempo - atalhou o oficial de estado-maior, dirigindo-se a Bolkonski, com um sorriso amável.
- Não tive o prazer de o ver - replicou o príncipe André, com frieza, e martelando as palavras.
Toda a gente se calou. Tuchine aparecera no limiar da porta, deslizando timidamente por detrás das costas dos generais Ao passar ao pé de todas estas personalidades, na acanhada isbá, como sempre muito conturbado com a presença dos superiores, não reparou na haste da bandeira e tropeçou.
Alguns dos presentes puseram-se a rir.
- Como é que se compreende que tenham abandonado uma peça? - perguntou Bagration, franzindo a testa, não tanto dirigindo-se ao capitão como aos que se riam, entre os quais Jerkov se distinguia muito particularmente.
Somente agora, diante do severo comandante. Tuchine media, em toda a sua monstruosidade, o crime e a infelicidade de ainda estar vivo depois de ter perdido dois canhões. Passara por tantas emoções que até ali ainda não tivera tempo de pensar no caso. O riso dos oficiais ainda o tornava mais desgraçado. Ali ficou, diante de Bagration, a tremer, a, tremer, e apenas conseguiu articular: - Não sei. Excelência... Excelência... Não tinha mais homens. Excelência.
- Podia tê-los ido buscar ao batalhão que o cobria! Cobertura era coisa que a sua bataria não tinha, eis o que Tuchine ignorava, embora, de facto, fosse essa a verdade. Receoso de comprometer com isso outro comandante, sem dizer palavra, olhou para Bagration, de olhos fitos, como um colegial que, não sabendo o que há-de responder, fica a olhar para o examinador.
O silêncio prolongou-se por bastante tempo. Bagration, que, evidentemente, não queria mostrar-se severo, não achava que dizer; os demais não ousavam intervir. O príncipe André olhava disfarçadamente para Tuchine e as suas mãos tinham estremecimentos nervosos.
- Excelência - disse ele, rompendo o silêncio com a sua, voz cortante - dignaste-vos enviar-me à bataria do capitão Tuchine. Estive lá e fui encontrar dois terços dos homens e dos cavalos mortos, duas peças desmanteladas, e, quanto a cobertura, nada.
Bagration e Tuchine fitavam agora Bolkonski, que revelava uma emoção refreada.
- E se consente que eu exprima a minha opinião. Excelência - prosseguiu ele - devo dizer-lhe que devemos em grande parte o êxito desta jornada à intervenção desta bataria e à firmeza estóica do capitão Tuchine e da sua companhia. - E, sem aguardar qualquer resposta, levantou-se e abandonou a mesa.
O príncipe Bagration olhou para Tuchine, e como não queria dar a impressão de que n4o acreditava no juízo peremptório de Bolkonski nem, ao mesmo tempo, de que estava disposto a acreditar plenamente nele, fez um aceno com a cabeça e disse P. Tuchine que podia retirar-se. O príncipe André saiu atrás dele.
- Obrigado, o senhor salvou-me, meu caro - disse-lhe Tuchine, André envolveu-o num olhar e afastou-se sem dizer nada. Sentia a alma triste e pesada. Tudo aquilo era tão anormal, tão diferente do que ele tinha esperado.
«Que gente é esta? Que faz aqui? Que quer? Quando é que tudo isto acabará?», pensava Rostov, vendo desfilar todas aquelas sombras diante de si. Cada vez lhe era mais penosa a dor que sentia no braço. Apoderava-se dele um sono invencível, círculos vermelhos dançavam-lhe diante dos olhos e a recordação de todas estas vozes, destas caras, a consciência do isolamento em que estava, misturavam-se à dor que sentia. Eram eles, aqueles soldados, feridos ou não feridos, eram eles que o esmagavam, que pesavam em cima de si, lhe torciam os tendões, lhe assavam as carnes do braço e do ombro partidos. Para se libertar da sua presença, fechou os olhos.
Adormeceu alguns momentos e durante esse breve intervalo de inconsciência viu desfilar diante toda uma fantasmagoria. Eram a mãe e as suas grandes mãos brancas, os ombros delgados de Sónia, os olhos risonhos de Natacha, e Denissov, com a sua grossa voz e os seus bigodes, e Telianine, e toda a sua aventura com este e com Bogdanitch. E estas cenas identificavam-se com a figura desse soldado de voz rude que ele tinha ouvido, e as duas imagens confundidas agarravam-lhe o braço brutalmente sem piedade e sacudiam-lho constantemente no mesmo sentido. Fazia esforços para se libertar destes fantasmas, mas eles não lhe abandonavam o ombro por um segundo que fosse. E o ombro não lhe teria doido mais, ter-se-ia curado, se eles deixassem de lho puxar. Era-lhe impossível, porém, ver-se livre deles, Abriu os olhos e olhou para o ar. A cortina negra da noite estendia-se a poucos centímetros por cima da claridade das fogueiras. Via-se flutuar nessa claridade uma ligeira neve pulverizada. Tuchine não voltava, o médico não aparecia. Estava só; agora apenas ali havia um soldadito, com o tronco nu, do outro lado da fogueira, que aquecia o corpo amarelento e descarnado.
«Ninguém se importa comigo», pensava Rostov... «ninguém para me socorrer, ninguém para me lamentar. E lembrar-me eu que outrora, lá em casa, todo eu era força, e era alegre, e que- rido.» Soltou um suspiro e esse suspiro, sem que desse por isso, terminou num gemido.
- Sente-se mal, hem? - perguntou o soldado, que sacudia a camisa por cima das chamas, e sem esperar resposta, acrescentou, numa voz rouca: - Ah, a gente que hoje para aí ficou em pedaços! Foi terrível! Rostov não ouvia as palavras do soldado. Olhava para os pequeninos flocos de neve que rodopiavam por cima da fogueira e lembrava-se do Inverno russo, da casa quente e clara, da peliça suave, dos trenós rápidos; via-se cheio de saúde, rodeado da ternura e dos cuidados da família. Ah!, para que vim eu para aqui?», dizia de si para consigo.
No dia seguinte, os Franceses não renovaram o ataque e os restos do destacamento de Bagration puderam juntar-se ao exército de Kutuzov.