Kutuzov, acompanhado pelos seus ajudantes-de-campo, seguia a passo os carabineiros.
Depois de ter andado cerca de meia versta no coice da coluna, fez alto ao pé de uma casa solitária e abandonada, um albergue, com certeza, na encruzilhada de dois caminhos. Os dois caminhos desciam a encosta e as tropas seguiam por ambos ao mesmo tempo.
O nevoeiro principiava a dissipar-se e a umas duas verstas de distância, vagamente, viam-se já as tropas inimigas nos cabeços fronteiros. A esquerda, no vale, a fuzilaria tornava-se mais distinta. Kutuzov parou, trocando algumas palavras com um general austríaco. O príncipe André, um pouco à retaguarda, observava-os, e, dirigindo-se a um ajudante-de-campo, pediu-lhe o óculo - Olhe, olhe - disse-lhe este, indicando-lhe, não um ponto afastado, mas o sopé da colina em frente. - São os Franceses! Os dois generais e os ajudantes-de-campo pegaram no óculo, passando-o de mão em mão. Subitamente todos mudaram de expressão e o terror veio estampar-se-lhes na cara. Julgavam os Franceses ainda a umas duas verstas, e inopinadamente ali estavam diante deles.
- É o inimigo?... Não pode ser!... Mas, olhe, olhe... é, com certeza - Que quer isto dizer? - diziam algumas vozes.
O príncipe André, a olho nu, distinguia, em baixo, à direita, uma poderosa coluna francesa que avançava ao encontro dos soldados de Apcheron, a menos de quinhentos passos do local onde estava Kutuzov.
«Eis finalmente o minuto decisivo! Eis o combate que vem ao meu encontro!», murmurou o príncipe André, e, esporeando o cavalo, aproximou-se de Kutuzov.
- É preciso mandar parar os regimentos de Apcheron - gritou. - Excelência.
Mas nesse mesmo instante tudo se cobriu de fumo; muito próximo rebentou uma salva e uma voz, uma voz de ingénuo terror, a dois passos dali, gritou: «Rapazes, estamos perdidos!» Esta voz teve o efeito de uma ordem. Ao ouvi-la, deram todos às de vila-diogo.
Uma multidão caótica, que crescia de momento a momento, refluía, correndo, para o local onde cinco minutos antes os soldados haviam desfilado perante os imperadores. Era não só muito difícil deter aquela multidão, mas impossível mesmo não ser arrastado no seu movimento de debandada. Bolkonski fazia por não ceder à torrente e parecia estupefacto, sem poder compreender o que se passava. Nesvitski, com ar furioso, muito vermelho, e já sem figura humana, gritava a Kutuzov que se se não afastasse rapidamente acabaria certamente prisioneiro. Kutuzov, sempre no mesmo sítio, sem responder, sacou de um lenço. Corria-lhe sangue pela cara abaixo. O príncipe André conseguiu abrir caminho até junto dele.
- Está ferido? - Perguntou, com um estremecimento nervoso no maxilar.
- A ferida não está aqui, mas ali! - replicou Kutuzov, enxugando a cara, ao mesmo tempo que apontava para os fugitivos. - Façam-nos parar? - gritou ele, e, no mesmo instante, sem dúvida persuadido da impossibilidade de uma tal tentativa, esporeou o cavalo e partiu pela direita.
A turba dos fugitivos, como uma vaga, envolveu-o e atirou com ele para trás.
Tão compacta era a massa dos que fugiam que quem fosse apanhado por ela muito dificilmente conseguiria libertar-se. Uns gritavam: «Toca a andar! Parastes porquê?»; outros, voltando-se, disparavam para o ar; um deles fustigou o cavalo de Kutuzov. Depois de se ter arrancado penosamente pela esquerda a esta torrente desencadeada. Kutuzov e a sua comitiva, então já reduzida a menos de metade, seguiram na direcção dos tiros de peça ali próximos. André, que escapara da vaga dos fugitivos, procurando não se distanciar de Kutuzov, viu, ao longo da encosta, no meio da fumarada, uma bataria russa que disparava ainda e os Franceses que corriam sobre ela. Mais acima a infantaria russa não arredava pé, sem avançar em socorro da bataria e sem recuar com os fugitivos. Um general montado destacou-se do regimento e aproximou-se de Kutuzov. A comitiva deste já estava reduzida apenas a quatro pessoas. Todos haviam empalidecido e entreolhavam-se, calados.
- Faça parar esses miseráveis! - gritou Kutuzov, sufocado pela cólera, ao comandante do regimento, apontando para os fugitivos. Mas nesse momento, dir-se-ia que em resposta a esta ordem, um enxame, de balas veio cair, assobiando, sobre o regimento e a comitiva, de Kutuzov.
Os Franceses atacavam a bataria, e, ao verem Kutuzov, disparavam sobre ele. Ao ouvir a descarga, o comandante do regimento levou a mão a perna. Alguns soldados caíram e o porta-bandeira que empunhava o estandarte largou-o das mãos; a bandeira vacilou um momento e veio cair sobre as espingardas dos soldados vizinhos. A infantaria, sem comando, disparou uma salva.
- Oh! - gemeu Kutuzov, em voz desesperada, e olhou em tomo de, si. - Bolkonski - murmurou numa voz trémula, consciente da sua impotência senil - Bolkonski, que vem a ser isto? - disse, mostrando o batalhão disperso e o inimigo.
Antes de ter tempo de acabar, o príncipe André, sentindo lá- ,rimas de vergonha e de cólera, saltava do cavalo e corria para a bandeira.
- Rapazes! Para a frente! - gritou com a sua voz penetrante, onde havia alguma coisa de infantil.
«Chegou o momento!», pensou, lançando mão da haste da bandeira e ouvindo, numa espécie de alegria, soprar as balas evidentemente dirigidas contra si. Alguns soldados caíram ainda.
- Hurra! - gritou, e, segurando com dificuldade o pesado estandarte, lançou-se para a, frente, firmemente convencido de que todo o batalhão o seguiria.
E, efectivamente, só deu alguns passos sozinho. Primeiro seguiu-o um soldado, depois outro, e logo todo o batalhão, gritando: «Hurra!», se precipitou, ultrapassando-o daí a pouco. Um sargento pegou na bandeira, pesadíssima, que vacilava rias mãos do príncipe, mas logo caiu varado. O príncipe André voltou a pegar no estandarte e, enrolando o pano em volta da haste, seguiu em frente com o batalhão. Diante dele via os artilheiros, uns batendo-se ainda, outros abandonando as peças para se precipitarem para ele; via também soldados de infantaria francesa que se apoderavam dos cavalos da artilharia e voltavam as peças contra, os Russos. Juntamente com o batalhão, já o não separavam da bataria mais que vinte passos. Em tomo dele ouvia o assobiar ininterrupto das balas e constantemente, à direita e à esquerda, gemidos, e via soldados que caíam varados. Mas não prestava atenção a coisa alguma: só o preocupava o que se estava a, passar em frente, na bataria. Via já nitidamente- a silhueta de um artilheiro ruivo, a barretina à banda, que puxava para si o taco da peça enquanto um soldado francês lho disputava do outro lado. André distinguia com toda a nitidez o ar alucinado e furioso daqueles dois homens, que, evidentemente, não sabiam sequer o que estavam a fazer.
«Que estão eles a fazer?», pensava o príncipe André. «Porque é que o artilheiro ruivo não foge, visto já não ter armas consigo? Porque é que o francês o não mata? Se este, se lembra da espingarda e o abate, já não terá tempo de fugir!» De facto, viu outro francês, de arma aperrada, correr para, os dois adversários, e o destino do artilheiro, que não dava pelo que o aguardava, e que brandia, triunfal, o taco da peça, ia decidir-se. Porém o príncipe - André não viu como o pleito acabou. Pareceu-lhe que recebia na cabeça uma cacetada vibrada em toda a força por um dos soldados que o cercavam. A pancada não lhe produziu dor muito violenta, mas fê-lo desviar a atenção e impediu-o de ver o fim da cena que o interessava.
«Que é isto? Vou cair? As pernas tremem-me?», disse de si para consigo, e caiu de costas. Reabriu os olhos na esperança de ver o resultado da luta dos franceses com o artilheiro e de saber se sim ou não este fora morto e se as peças tinham sido tornadas ou salvas. Mas nada mais viu. Por cima da sua cabeça nada mais havia além do céu, um céu muito alto, não claro, mas imensamente alto, onde erravam tranquilamente pequeninas nu- vens cinzentas. «Que calma, que paz, que majestade!», pensava. «Não era assim aquando da nossa louca corrida, no meio dos gritos e da batalha; não era assim quando, o furor e o medo pintados no rosto, o francês e o nosso artilheiro disputavam entre si o taco da peça: então não havia, como agora, nuvens errantes neste céu profundo e infinito. Como é que eu nunca tinha visto isto, este céu sem limites? E que feliz me sinto de o ver finalmente. Sim, tudo é vaidade, tudo é mentira, à excepção deste céu sem fim. Não há nada, absolutamente nada, além dele. E até mesmo isto não existe, nada existe senão a calma e o repouso. E Deus louvado seja por isso mesmo!.. »
No flanco direito do exército de Bagration, às nove horas, ainda a batalha não tinha principiado. Não querendo aceitar o parecer de Dolgorukov, de opinião de que se devia desencadear o ataque, e para se livrar de responsabilidades, o príncipe Bagration propôs-lhe consultarem o general-chefe. Sabia o príncipe que em virtude das dez verstas que separavam os dois flancos, e no caso de o emissário não vir a ser morto, coisa mais do que verosímil, conseguindo chegar até junto do general-chefe, o que era muito difícil, nunca poderia estar de regresso antes da noite.
Bagration, olhando um por um os oficiais da sua comitiva com os seus grandes olhos sem expressão e meio adormecidos, acabou por se fixar no rosto infantil de Rostov, quase desfalecido de emoção e de esperança. Foi ele o escolhido.
- E se eu encontrar Sua Majestade antes do general-chefe. Excelência? - interrogou Rostov com a mão em continência. - Pode entregar a mensagem a Sua Majestade - apressou-se a intervir Dolgorukov.
Tendo sido transferido do seu serviço na frente. Rostov pudera dormir algumas horas pela manhã e sentia-se jovial, decidido, resoluto, numa disposição de espírito em que tudo lhe parecia fácil e possível.
Todos os seus desejos se estavam a realizar naquela manhã. Travava-se uma batalha geral, e ele tomava parte nessa batalha; mais ainda: era oficial de ordenança do mais bravo dos generais; e ainda mais: via-se encarregado de uma missão junto de Kutuzov, e talvez mesmo junto do próprio imperador. A manhã estava serena. Rostov montava um bom cavalo. Na sua alma tudo era alegria e felicidade. Assim que recebeu ordens, esporeou o cavalo e lançou-se a galope ao longo da linha de batalha. Principiou por percorrer a frente do exército de Bagration, que permanecia imóvel, depois penetrou no terreno ocupado pela cavalaria de Uvarov, e aí pôde notar um certo movimento e sinais de preparativos de combate. Tendo ultrapassado a cavalaria, ouviu distintamente o ruído das descargas de artilharia e de mosquetaria que continuamente aumentava de intensidade.
O ruído no ar fresco da manhã não era agora, como antes, formado por dois ou três tiros de espingarda ou uma ou duas detonações de artilharia. Lá para o fundo das encostas, antes de se chegar a Pratzen, pôde ouvir o fragor da fuzilaria interceptado por tiros’ de peça tão frequentes que por vezes um estampido não se podia distinguir do outro, fundindo-se numa espécie de contínuo trovejar.
Rostov pôde ver, pelas vertentes, os rolos de fumo dos mosquetes que pareciam correr uns atrás dos outros, enquanto a fumarada das peças flutuava e acabava por misturar-se no ar em grandes nuvens. Viu, pelo cintilar das baionetas, no meio da fumarada, as massas da infantaria em movimento e estreitas filas de artilharia com as suas carretas verdes.
Rostov deteve por momentos o seu cavalo no alto de um montículo, para observar o que se passava; mas por mais que observasse, nada podia compreender do que via. Havia gente que se deslocava no meio da fumarada, linhas de tropas moviam-se para trás e para diante. Mas para quê? Aonde iam aqueles soldados? Era impossível compreender. Este espectáculo, porém, em lugar de o desanimar ou deprimir, redobrava-lhe a energia e a decisão.
«Pois, fogo, fogo sobre eles!», dizia para consigo, e de novo se pós a galopar ao longo das linhas, penetrando cada vez mais na zona das tropas que entravam em combate. «O que se passa lá adiante não sei, mas tudo deve estar certo!», pensava.
Depois de ter ultrapassado algumas tropas austríacas. Rostov pôde ver que as tropas restantes - a Guarda - já haviam entrado em acção.
«Tanto melhor! Mais de perto verei a batalha!» Quase que seguia ao longo da primeira linha. Um corpo de cavaleiros cavalgava na sua direcção. Eram soldados ulanos da Guarda, que regressavam, em desordem, do combate. Ao passar junto deles não pode deixar de ver que um dos homens estava coberto de sangue, mas continuou a galopar.
«Isto nada tem a ver comigo!» Ainda não dera cem passos quando, à esquerda, cortando-lhe o caminho, surgiu, em toda a extensão do campo livre, uma imensa mole de cavaleiros, de brilhantes uniformes brancos, montando cavalos murzelos que avançava a trote para ele. Rostov esporeou o seu cavalo, que largou num galope doido, para lhes dar passagem, e tê-lo-ia conseguido se os cavaleiros viessem no mesmo andamento, mas eles apressaram a marcha, e alguns até se puseram a galope. Rostov cada vez distinguia melhor o tropear dos animais e o tinir das armas e notava com nitidez crescente os cavalos, a cara dos cavaleiros e até os seus traços fisionómicos. Eram os cavaleiros da Guarda russa que corriam a atacar a cavalaria francesa marchando ao seu encontro.
Todos galopavam mantendo ainda as suas montadas em boa forma. Rostov via-lhes agora as caras e ouvia a voz de comando «À carga!» de um oficial que esporeava o seu cavalo num galope desenfreado. Rostov, temendo ser esmagado ou arrastado, pôs-se a galopar ao longo da sua frente a todo o fôlego do seu cavalo, mas, no entanto, sem poder evitar uma colisão.
O cavaleiro da extremidade, um soldado bexigoso, de grande estatura, franziu as sobrancelhas, colérico, ao ver que era inevitável o choque com Rostov. E tê-lo-ia naturalmente deitado por terra, tanto a ele como ao seu Beduíno (Rostov sentiu-se minúsculo ao pé daqueles dois gigantes: soldado e cavalo), se Rostov não tivesse tido a presença de espírito de fustigar a cabeça da montada do cavaleiro da Guarda com o seu chicote. Este cavalo, um pesado murzelo de cinco verchoks de altura, empinou-se, as orelhas eriçadas, mas o cavaleiro, com um golpe das grandes esporas, lançou-o numa carreira doida, cauda ao vento e pescoço estendido. Mal os cavaleiros ultrapassaram Rostov, logo este ouviu gritos de «Hurra!» e, voltando-se, viu que as fileiras da vanguarda eram invadidas por cavaleiros estrangeiros, franceses, sem dúvida, de charlateiras vermelhas. E mais não pôde ver, pois logo em seguida uma peça fez fogo e tudo ficou submerso em fumo.
Naquele momento em que os guardas montados desapareciam no meio da fumarada. Rostov teve uma hesitação: não sabia se devia galopar atrás deles ou prosseguir no seu caminho, dirigindo-se onde era mister. Foi esta brilhante carga de cavalaria que provocou a admiração dos próprios franceses. Mais tarde Rostov sentiu-se aterrado quando soube que de toda aquela massa de rapazes soberbos, de mancebos ricos e brilhantes, montados em cavalos de milhares de rublos, que de todos aqueles oficiais e de todos aqueles junkers que haviam passado a galope diante dele, após o ataque não restavam mais de dezoito homens.
«Para que invejá-los? A minha vez há-de chegar, e talvez de um momento para o outro eu venha a ter a felicidade de ver o imperador», disse Rostov de si para consigo, retomando o caminho.
Ao chegar por alturas da infantaria da Guarda, verificou que estava a ser o ponto de mira das balas inimigas, não só por ouvi-las assobiar aos ouvidos, mas também ao ver o rosto inquieto dos soldados e a expressão entre grave e marcial dos oficiais.
Quando passou junto de uma coluna ouviu uma voz pronunciar-lhe o nome: - Rostov! - Que é? - respondeu, sem reconhecer Bóris.
- Hem? Estivemos na primeira linha. O nosso regimento aguentou a pé firme um duro ataque! - disse Bóris com um desses sorrisos de felicidade tão próprio dos jovens no seu baptismo de fogo.
Rostov deteve-se.
- Estiveram?! - exclamou. - E então? - Foram repelidos! - replicou Bóris, com animação, e mostrando-se palrador.- Imagina tu...
Pôs-se a contar como a Guarda, ao chegar à linha de fogo, ao ver tropas na sua frente, julgou tratar-se dos austríacos, e de repente percebeu, graças às balas disparadas contra ela, que se encontrava na primeira linha e que entrava na luta de improviso. Rostov nada mais quis ouvir e de novo deu de esporas ao cavalo.
- Aonde vais? - perguntou Bóris.
- Vou numa missão junto de Sua Majestade.
- Olha, ali o tens - disse Bóris, que julgara que o amigo ia em missão junto de Sua Alteza o Grão- Duque, e não de Sua Majestade o Czar. E apontou-lhe o primeiro, que, a uns cem passos, com o capacete e a farda de cavaleiro da Guarda, os ombros quadrados e as sobrancelhas franzidas, gritava uma ordem a um oficial austríaco, muito pálido na sua farda branca.
- Quê? Aquele é o grão-duque. Quem eu procuro é o general-chefe ou o imperador - replicou Rostov, sem se deter. - Conde, conde - gritou Berg, surgindo de outro lado, e tão excitado como Bóris. - Conde, fui ferido na mão direita. - E mostrava o antebraço ensanguentado, envolto no lenço de assoar.- E apesar disso cá estou no meu posto. Conde, agarrei na espada com a mão esquerda. Na nossa família os Von Berg são todos heróis! Berg disse o que quer que fosse, mas Rostov nada mais ouviu e continuou.
Depois de ultrapassar a Guarda e de atravessar um espaço vazio, para não vir a encontrar-se na primeira linha, como lhe acontecera aquando da carga dos guardas montados, seguiu ao longo da vanguarda das reservas, afastando-se do local em que a fuzilaria e o canhoneio eram mais intensos. De súbito, na sua frente e na retaguarda das tropas russas, num ponto onde lhe era impossível supor que o inimigo se encontrasse, ouviu fuzilaria muito próxima.
«Que será isto?», pensou com os seus botes. «Estará o inimigo na retaguarda das nossas tropas? Não pode ser.» E um terror louco se apoderou dele, ao mesmo tempo por si e ao lembrar-se do que poderia ser o resultado da batalha. «Aconteça o que acontecer, o certo é que não há agora maneira de escapar. É preciso que eu descubra o general-chefe, e, se tudo estiver perdido, o meu dever é morrer como todos os outros.» Os negros pressentimentos que assaltavam Rostov iam-se confirmando à medida que penetrava na zona ocupada pela massa de tropas de toda a procedência que se estendia por detrás de Pratzen.
- Que se passa? Que se passa? Contra quem é que se faz fogo? Quem faz fogo? - perguntava ele, sempre em marcha, aos soldados russos e austríacos, que, em grande confusão, lhe vedavam o caminho.
- Só o Demo é que sabe! Estamos fritos! Está tudo perdido! - responderam-lhe em russo, em alemão, em checo, todos aqueles fugitivos, que, tal como ele, também não compreendiam o que estava a passar-se.
- Morram os Alemães! - gritou um deles.
- Raios os partam, traidores! - Que os leve o Diabo a esses russos! (Em alemão no texto original. (N, dos T.) - rouquejou um alemão.
Feridos arrastavam-se- ao longo do caminho. As injúrias, os gritos, os gemidos, fundiam-se na vozearia geral. A fuzilaria havia serenado, e, assim Rostov depois o veio a saber, soldados russos e austríacos faziam fogo uns contra os outros.
«Meu Deus! Que é isto?», dizia Rostov consigo mesmo. «E aqui, onde o imperador os pode ver de um momento para o outro... Mas não... São por certo apenas alguns poltrões. É coisa passageira. Não pode ser. Não pode ser. Ah!, deixá-los para aí, depressa!» A ideia de um desastre ou ‘de uma derrota não podia entrar-lhe na cabeça. Embora estivesse a ver as batarias e as tropas francesas instaladas no planalto de Pratzen, onde devia procurar o general-chefe, não podia e não queria render-se à evidência.
Rostov tinha recebido ordem para descobrir Kutuzov ou o imperador nos arredores de Pratzen. Mas aí não estavam; aí nem sequer havia qualquer comandante, só se via uma turba-multa de tropas desorganizadas. Esporeou o cavalo, já estafado, na intenção de ultrapassar o mais depressa possível aqueles bandos, mas quanto mais avançava mais a debandada se acentuava. Na estrada real, onde chegou por fim, amontoavam-se caleches, equipagens de toda a espécie, soldados russos e austríacos de todas as armas, feridos e não feridos. Toda esta multidão confundida estrondeava e formigava, ao mesmo tempo que o troar sinistro das balas das batarias francesas instaladas nas alturas de Pratzen, - Onde está o imperador? Onde está Kutuzov? - perguntava a todos quantos lograva deter, e ninguém lhe respondia.
Por fim agarrou um soldado pela gola e obrigou-o a falar.
- Ai, irmão! Há muito tempo que lá estão para diante. Deram às de vila-diogo! - replicou o soldado, rindo, enquanto tentava esgueirar-se.
Rostov largou o soldado, bêbado evidentemente, depois obrigou a parar o cavalo de um impedido ou de um estribeiro de qualquer graúda personagem e interrogou-o. O impedido explicou-lhe que cerca de uma hora antes tinham levado o imperador de carruagem, a todo o galope, por aquela mesma estrada, e que Sua Majestade ia gravemente ferido.
- Isso não pode ser - disse Rostov. - Foi certamente outra pessoa, - Vi-o eu com estes que a terra há-de comer - garantiu-lhe o homem, com um sorriso afoito. - Como se eu não conhecesse o imperador! Estou farto de o ver em Petersburgo! Lá ia, pálido, muito pálido, puxado pelos seus quatro cavalos pretos. Que de vezes. Pai do Céu, eu os tenho visto passar! Não conheço eu agora os cavalos do czar e o Ilia Ivanitch. Parece-me que nunca ninguém se lembrou de dizer que o cocheiro do czar não é o Ilia Ivanitch! Rostov soltou o bridão do cavalo e quis prosseguir o seu caminho. Um oficial ferido que passava dirigiu-se-lhe.
- Quem procura? O general-chefe? Foi morto por uma bala de artilharia em pleno peito, em frente do nosso regimento. - Não foi morto, foi ferido - rectificou outro oficial.
- Mas quem? Kutuzov? - perguntou Rostov.
- Kutuzov não! Como o diabo é que ele se chama? E, depois, tanto faz. Não há para aí muitos com vida. Vá lá diante, àquele povoado, lá estão reunidos todos os comandantes - disse o oficial, apontando para a aldeia de Gostieradek, e afastou-se.
Rostov continuou a passo, sem saber o que faria e a quem iria agora procurar. O imperador estava ferido, a batalha perdida. Não era possível acreditar em semelhante coisa. Dirigiu-se para o local que lhe indicavam, onde, na distância, avultava o campanário de uma igreja... Para que ter pressa agora? Que tinha ele agora a dizer ao imperador ou a Kutuzov, no caso de eles realmente estarem sãos e salvos e não feridos? - É por aqui, meu fidalgo; se vai por aí, lá adiante matam-no - gritou-lhe um soldado- Matam-no.
- Que estás tu a dizer? - disse outro soldado. - Que caminho lhe estás tu a apontar? Por ali é mais perto.
Rostov reflectiu e meteu precisamente pelo caminho onde lhe diziam que seria morto.
«Agora tanto me faz. Se o imperador está ferido, para que hei-de eu poupar-me?», disse de si para consigo. Penetrou na zona onde houvera uma grande chacina de fugitivos de Pratzen. Os Franceses ainda não ocupavam esta povoação, e os Russos, pelo menos os sãos e salvos ou feridos, de há muito a tinham evacuado. No solo, como feixes num campo fértil, por cada desiatine, entre mortos ou feridos, jaziam dez a quinze homens. Os feridos arrastavam-se, em grupos de dois ou três, e ouviam-se os seus gritos e os seus gemidos, dolorosos e por vezes fingidos, assim, pelo menos, se afigurava a Rostov. Para não ver todos esses sofrimentos, deu de esporas ao cavalo e trotou. O horror apossava-se dele. Não receava pela vida, mas temia perder a coragem, a coragem de que tanto precisava, e que, sabia-o, acabaria por amolecer diante de tantas desgraças.
Os Franceses, que haviam deixado de varrer com os seus projécteis o campo semeado de mortos e feridos desde que lá não viam ninguém de pé, ao descobrirem o ajudante-de-campo abrindo caminho pelo meio dele, apontaram-lhe uma das peças e dispararam algumas balas. Esses silvos espantosos e a vista dos cadáveres que o cercavam encheram-no de horror e de piedade por si próprio. Lembrou-se da última carta da mãe: «Que diria a mãe», pensou Rostov, «se me visse agora no meio deste campo de batalha, ponto de mira destes canhões?» Na povoação de Gostieradek havia tropas russas fugitivas do campo de batalha em melhor ordem que as demais, ainda que em grande confusão. As balas francesas não chegavam até ali, e o ruído da fuzilaria ouvia-se ao longe. Aí já toda a gente tinha uma visão nítida dos acontecimentos e todos eram de opinião de que a batalha estava perdida.
A Rostov, por mais que interrogasse, ninguém sabia dizer onde o imperador se encontrava ou onde estava Kutuzov. Uns eram de parecer de ser verídico o ferimento do czar, outros desmentiam e explicavam o falso boato com o facto de ser verdade terem visto passar na grande carruagem do imperador, fugindo do campo de batalha, o marechal da corte conde de Tolstoi, que acompanhava o czar com outras personalidades da comitiva. Um oficial disse a Rostov que por detrás da aldeia, à esquerda, vira fosse quem fosse do alto comando: Rostov para aí se encaminhou, ninguém esperando encontrar já, mas apenas por descargo de consciência. Depois de ter andado três verstas e de ter ultrapassado os últimos soldados russos, viu dois cavaleiros junto de uma horta ladeada por um fosso. Um deles tinha um penacho branco na barretina e não lhe era desconhecido; o outro, que ele nunca vira, montava um belo cavalo alazão, que Rostov se recordava de ter visto algures. Esse aproximou-se do fosso, esporeou o cavalo, e, soltando as rédeas, fê-lo transpor a horta. As patas traseiras ergueram pedaços de terra. Numa brusca meia volta o cavaleiro de novo saltou o fosso e dirigiu-se respeitosamente ao seu camarada do panacho branco, convidando-o, evidentemente, a fazer o mesmo. O cavaleiro que Rostov parecia reconhecer e que principiava a absorver-lhe a atenção fez um aceno negativo. Esse gesto levou-o a reconhecer imediatamente o seu imperador adorado, cuja desdita tanto deplorava.
«Mas não pode ser ele», disse de si para consigo; «sozinho neste campo deserto.» Nesse momento. Alexandre voltou a cara e Rostov viu esses tão queridos traços profundamente gravados na sua memória. O imperador estava pálido, tinha as faces sulcadas, os olhos cavados, e assim ainda era maior o seu encanto e a sua doçura. Rostov sentia-se feliz por lhe ser dado verificar serem inexactos os boatos postos a correr sobre o ferimento de) czar. Grande felicidade era o tê-lo visto. Sabia que podia, e que devia até, dirigir-se-lhe directamente e transmitir-lhe a mensagem de Dolgorukov.
Mas assim como um jovem enamorado, trémulo e comovido, não ousa exprimir os sentimentos que lhe povoaram as noites, e lança em volta de si olhares assustados’ como que à procura de auxílio ou da maneira de adiar ou de fugir quando chega o almejado instante em que finalmente se encontra a sós com ela, assim Rostov, agora, que era chegado o momento tão ardentemente desejado, não sabia se devia abordar o imperador e passavam-lhe pela cabeça mil ideias sobre a maior ou menor conveniência do seu acto.
«Quê? É como se eu aproveitasse a ocasião em que está só e triste. Talvez lhe seja penoso e desagradável ter de enfrentar neste momento uma cara desconhecida. E depois, que lhe poderia eu dizer, quando um dos seus olhares é quanto basta para me fazer desmaiar e perder a voz?» Nem uma só das numerosas frases que mentalmente havia preparado para lhe dirigir lhe vinha aos lábios. De resto, pela sua maior parte, tinha-as ele composto em vista de circunstâncias muito diferentes, ou para a hipótese de uma vitória ou de um triunfo, ou então para o caso em que ele próprio no seu leito de agonia, mortalmente ferido, lhe dissesse todo o seu amor, que a própria morte confirmava, enquanto o soberano lhe agradeceria os seus feitos heróicos.
«E, além disso, que lhe vou eu perguntar a respeito do flanco direito, agora, que são quatro horas da tarde e a batalha está perdida? Não, decididamente não devo falar-lhe. Não devo perturbá-lo nas suas meditações. Antes mil vezes a morte que receber dele um mau olhar, que inspirar-lhe uma má opinião.» Rostov tomara uma decisão, e com tristeza e desespero na alma afastou-se, voltando-se para trás a todo o momento, para o seu imperador, que lá continuava imóvel e irresoluto.
No mesmo instante em que Rostov se dava a todas estas reflexões e tristemente prosseguia o seu caminho chegava o capitão Von Toll, inopinadamente, e, ao ver o imperador, aproximou-se dele e ofereceu-se para o ajudar a transpor o fosso. O imperador, que muito precisava de descanso, sentindo-se indisposto, sentou-se debaixo de uma macieira; Von Toll ficou a seu lado. Rostov, de longe, num misto de inveja e tristeza, viu Von Toll falar longa e calorosamente e o imperador, com os olhos cheios de lágrimas, tapar a cara e apertar-lhe a mão.
«E lembrar-me que podia estar no lugar dele!», pensou, e quase sem poder reter as lágrimas condoídas pelo destino do imperador prosseguiu o seu caminho em completo desespero, sem saber que fazer ou aonde se dirigir.
E tanto maior era o desespero de Rostov quanto era certo dar-se conta de que a sua própria fraqueza era causa da sua dor. Ele teria podido.., não só teria podido, mas deveria ter-se aproximado. Eis uma ocasião única para lhe testemunhar a sua devoção. E não o tinha feito... «Que fiz eu?», interrogou-se a si próprio. Apanhou o bridão e voltou ao local onde vira o imperador; mas já não estava ninguém junto do fosso. Ali já não havia senão carroças e equipagens. Por um soldado do trem soube que o estado-maior de Kutuzov se encontrava na vizinhança, na povoação para onde se dirigiam os comboios. Rostov seguiu-os.
A frente marchava o picador de Kutuzov, que conduzia uns cavalos cobertos com mantas. Atrás dele vinha uma carroça e depois um velho servo, de barrete redondo, meia peliça e pernas tortas.
- Tito!, eh. Tito! - gritou o picador.
- Que é? - respondeu o velho sem pensar em coisa alguma.
- Tito, vai malhar o teu trigo.
- Eh, imbecil! Diabos te levem! - replicou o velho, escarrando, colérico.
Durante algum tempo seguiram em silêncio, depois de novo recomeçaram com a mesma brincadeira.
Às cinco horas da tarde a batalha estava perdida em toda a frente. Mais de cem peças de artilharia tinham já caído nas mãos dos Franceses.
Przebyszewky e o seu corpo de exército haviam deposto as armas. As outras colunas, depois de terem perdido quase metade dos seus efectivos, retiravam em bandos desordenados e confusos.
Os destroços dos corpos de Langeron e de Dokturov, em massas caóticas, comprimiam-se contra os diques e nas margens das albufeiras, nas cercanias da povoação de Augezd.
As seis horas só no dique de Augezd prosseguia o canhoneio dos Franceses, que tinham instalado numerosas batarias nas vertentes do planalto de Pratzen e faziam fogo sobre as tropas russas em retirada.
À retaguarda. Dokturov e outros, depois de conseguirem reorganizar alguns batalhões, defendiam-se contra a cavalaria francesa, que perseguia os Russos. Já era escuro. Neste estreito dique de Augezd, onde, durante tantos anos, o velho moleiro de barrete de algodão tranquilamente pescara à linha, enquanto o neto, de mangas arregaçadas, remexia num regador buliçosos peixes de prata; neste dique, onde, durante tantos anos, tinham rodado pacíficas carroças carregadas de trigo, guiadas por bons morávios de barrete de pele e vestes azuis, para depois voltarem a passar, brancos de farinha, com os seus alvos carregamentos, neste mesmo dique homens comprimiam-se, no meio das carroças e dos canhões, por entre rodas e cavalos, e, de caras desfiguradas pelo terror, pisavam-se entre si, caminhavam por cima de cadáveres e de moribundos, matavam e passavam, para acabarem, mortos também, alguns passos mais adiante.
De dez em dez segundos, rasgando os ares, caía uma bala ou explodia um obus no meio daquela multidão compacta, matando e salpicando de sangue toda a gente nas imediações. Dolokov, ferido numa mão, a pé, com uma dúzia de soldados da sua companhia - já ganhara de novo os galões de oficial - e o coronel, a cavalo, eram os únicos sobreviventes do regimento. Arrastados pela multidão, comprimiam-se à entrada do dique, e, cercados por todos os lados, tinham feito alto, porque diante deles um cavalo caíra debaixo de um canhão e tiravam-no de lá. Uma bala matou um homem atrás deles, outra veio rebentar na sua frente, cobrindo de sangue Dolokov. A massa dos soldados precipitou-se desesperadamente, avançou alguns passos e de novo se deteve.
«Se ainda pudermos andar uns cem passos, estaremos salvos com certeza; se estacionamos aqui mais dois minutos, estamos perdidos pela certa», era o pensamento de todos.
Dolokov, bloqueado, esgueirou-se pela extremidade do dique, derrubou dois soldados e fugiu por cima do gelo escorregadio que cobria a albufeira.
- Vira a peça! - gritou, ao saltar para cima da neve, que estalava. - Volta-a.
Era evidente que o gelo, que, ia abrir-se sob o seu peso, com muito mais razão se quebraria sob o peso da peça e da, multidão. Os homens olhavam para ele e comprimiam-se contra a margem, sem ousarem saltar para o gelo. O coronel, a cavalo, ali ao pé, ergueu a mão e abriu a boca para lhe dizer fosse o que fosse. Subitamente uma bala passou tão rente que todos baixaram a cabeça. Ouviu-se um estalido em cima de qualquer coisa mole e o coronel caiu juntamente com o cavalo no meio de um charco de sangue. Ninguém olhou para ele e ninguém se lembrou de o ajudar a levantar.
- Salvemo-nos por cima do gelo! Salvemo-nos por cima do gelo! Vamos a isto! Volta! Não ouves! Para a frente! - gritaram, milhares de vozes, assim que o coronel caiu varado, sem que ninguém soubesse ao certo o que estava a, dizer.
Uma das peças da retaguarda que avançara para o dique obliquou em direcção ao gelo. Soldados em massa lançaram-se nesse momento sobre a laguna. O gelo estalou sob os pés de um dos fugitivos, e uma das suas pernas enterrou-se-lhe; quis levantar-se, mas não tardou a afundar-se até à cintura. Os soldados que estavam mais perto dele ficaram imóveis, o condutor da peça refreou o cavalo, mas lá para trás continuavam a ressoar os gritos: «Salvemo-nos por cima do gelo! Porque é que aquele parou? Para a frente! Para a frente!» Gritos de terror se ouviram. Os soldados vizinhos da peça chicoteavam os cavalos para os obrigar a voltar e avançar. Estes afastaram-se, da margem. O gelo que sustinha os peões quebrou-se num largo espaço e os quarenta homens que sobre ele se encontravam viram-se precipitados para todos os lados, afogando-se, agarrados uns aos outros.
As balas regularmente continuaram a assobiar e a cair sobre e gelo, na água, e sobretudo no meio da massa humana que enchia o dique, a albufeira e as margens.
No planalto de Pratzen, exactamente no mesmo sítio onde tinha caído com a bandeira na mão, estava estendido o príncipe André Bolkonski, perdendo sangue e soltando inconscientemente fracos e queixosos gemidos, como os de uma criança.
Para o fim da tarde deixou de se queixar e calou-se por completo. Não soube quanto tempo esteve sem sentidos. De súbito reanimou-se sentindo uma dor pungente e lancinante na cabeça...
«Onde está aquele céu sem fundo que eu nunca tinha visto e que vi hoje pela primeira vez?», tal foi o seu primeiro pensamento. «E estas dores, também as não conhecia. Sim, até hoje ignorava tudo. Mas onde estou?» Apurou o ouvido e apercebeu um ruído de cavalos que se aproximavam e de vozes que falavam francês. Abriu os olhos. Por cima da sua cabeça lá estava ainda o mesmo céu profundo, com as suas nuvens flutuantes, cada vez mais altas e que deixavam ver o infinito azulíneo. Não voltou a cabeça e não viu aqueles que, a avaliar pelos ruídos que percebia, se aproximavam e paravam.
Esses cavaleiros eram Napoleão e dois ajudantes-de-campo. Bonaparte havia percorrido o campo de batalha e dera ordens para reforçarem as batarias que faziam fogo sobre o dique de Augezd. Agora examinava os mortos e os feridos que jaziam no campo.
- Que belos homens! - dizia ele, diante do cadáver de um granadeiro russo estendido de barriga para baixo, a cara contra o solo, a nuca negra, os braços estendidos a todo o comprimento e já rígido.
- Estão esgotadas as munições das peças. Sire! - disse nesse momento um ajudante-de-campo que chegava vindo das batarias que bombardeavam Augezd.
- Mande avançar as da reserva - replicou Napoleão. Depois de ter dado alguns passos deteve-se junto do príncipe André, estendido de costas, ao lado da haste da bandeira que tinha sido tomada como troféu pelos Franceses.
- Eis uma bela morte! - disse, ao vê-lo.
André compreendeu que era dele que estavam a falar e que era Napoleão quem falava. Tinha ouvido chamar sire à personagem de quem se tratava. Mas as palavras afloravam-lhe os ouvidos como se fossem zumbidos de moscas. Não só lhe não interessavam como lhes não prestava a mais pequena atenção, e breve lhe abandonaram o espírito. A testa escaldava-lhe, sentia que o sangue se lhe ia esvaziando das veias, e continuava sempre a ver o céu longínquo, profundo e eterno. Sabia Napoleão ali. Napoleão, o seu herói, e naquele instante Napoleão, em comparação com o drama que se desenrolava entre a sua alma e aquele céu profundo, sem limites, em comparação com aquelas nuvens que fugiam, parecia-lhe perfeitamente insignificante. Naquele instante era absolutamente indiferente àquele que se, debruçava sobre ele, àquele que falava dele; mas estava contente com o facto de aqueles homens se haverem detido, e apenas desejaria que eles o socorressem e o fizessem regressar àquela vida que tão bela lhe parecia desde que a compreendia de outra maneira. Chamou a si todas as suas forças para conseguir fazer um movimento e articular alguns sons. Agitou debilmente a perna e despediu uma queixa fraca e dolorosa, que acordou em si próprio um sentimento de piedade.
- Ah! Vive! - disse Napoleão. - Levantem este rapaz e levem-no à ambulância! Depois de ter dito estas palavras. Napoleão afastou-se e foi ao encontro do marechal Lannes, que, sorrindo, se descobriu e se aproximou para o felicitar.
André não pôde reter mais nada. A dor tremenda que lhe causaram o transporte na maca, os choques e as sondagens da sua ferida na ambulância fizeram-no perder de novo os sentidos. Só voltou a si no fim do dia quando o transportaram para o hospital com vários outros oficiais russos feridos e prisioneiros. Durante o trajecto sentiu-se um pouco reconfortado e pôde dar fé do que se passava em tomo dele e até mesmo falar.
As primeiras palavras que ouviu ao voltar a si foram is do oficial francês que os conduzia: - É preciso fazer alto aqui. Vai passar o imperador. Convém dar-lhe o prazer de ver estes senhores prisioneiros.
- Hoje são tantos os cativos, quase todo o exército russo, que ele já deve estar farto - disse outro.
- Sim, mas, no entanto, este, segundo dizem, é o comandante da guarda pessoal do imperador Alexandre - voltou o primeiro, apontando para um oficial ferido, de uniforme branco da Guarda montada.
Bolkonski reconheceu o príncipe Riepnine, que conhecia dos salões de Petersburgo. Ao lado via-se um jovem de uns dezanove anos, igualmente ferido e também fardado de cavaleiro da Guarda.
Bonaparte, aproximando-se a galope, deteve o seu cavalo junto deles.
- Qual é, o de posto mais elevado? - perguntou, ao ver os prisioneiros.
Indicaram-lhe o coronel príncipe Riepnine.
- É o comandante do regimento de cavalaria da Guarda do imperador Alexandre? - interrogou Napoleão.
- Eu comandava um esquadrão - replicou Riepnine. - O seu regimento cumpriu nobremente o seu dever.
- O elogio de um grande capitão é a melhor recompensa de um soldado.
- É com prazer que lha concedo - voltou Napoleão - Quem é, esse jovem que está a seu lado? O príncipe Riepnine disse o nome do tenente Suktelen. Napoleão olhou-o, a sorrir: - Muito novo veio ele ter connosco.
- A juventude não impede um homem de ser bravo - disse Suktelen, numa voz trémula de emoção.
- Bela resposta, mancebo - disse Napoleão - Irá longe! Para completar o troféu dos prisioneiros, o príncipe André, colocado também na primeira fila, diante do imperador, não podia deixar de lhe atrair a atenção. Napoleão recordou-se de o ter visto no campo de batalha, e dirigindo-se a ele deu-lhe esse mesmo tratamento de rapaz, o aspecto sob o qual ele se lhe havia gravado na memória.
- E você, meu rapaz? - disse-lhe. - Como é que se sente, meu valente? Ainda que cinco minutos antes André tivesse podido dizer algumas palavras aos soldados que o transportavam, agora calava-se, os olhos fixos em Napoleão. Afiguravam-se-lhe tão medíocres naquele momento os interesses que preocupavam o imperador, o próprio herói que lhe parecia tão insignificante, com a sua vaidade mesquinha e a alegria da vitória, quando comparava tudo isto ao espectáculo daquele céu imenso, pleno de justiça e, de bondade, cuja grandeza compreendera, que lhe era impossível responder.
E, com efeito, tudo lhe parecia inútil, miserável, ao pé dos pensamentos severos e sublimes que o esgotamento das forças lhe provocara após a efusão de sangue, as dores e a, expectativa de uma morte próxima. Ao mergulhar o seu olhar no de Napoleão, pensava na vaidade da grandeza, na insignificância da vida, cujo sentido ninguém podia compreender, e ainda mais na da morte, cujo significado se conservava ininteligível e impenetrável a todos os vivos.
O imperador deu meia volta sem esperar resposta, e, ao retirar-se, dirigiu-se a um comandante: - Tomem conta destes senhores e transportem-nos ao meu acampamento, para que o meu médico. Larrey, lhes examine os ferimentos.- E, esporeando o cavalo, a galope prosseguiu no seu caminho.
No rosto de Napoleão lia-se íntimo contentamento e verdadeira felicidade. Os soldados que tinham transportado o príncipe André e lhe haviam furtado a imagenzinha de ouro que Maria, sua irmã, lhe suspendera ao pescoço, ao verem a benevolência do imperador para com os prisioneiros, deram-se pressa em restituir-lha. Como, não o soube André, mas de repente a medalhinha apareceu-lhe suspensa do uniforme pela sua cadeia de ouro.
«Que felicidade», dizia ele de si para consigo, fitando a imagem que a irmã lhe confiara com tanta emoção e piedade, «que felicidade, se tudo fosse tão claro e simples como a Maria imagina! Que felizes seríamos sabendo a quem pedir auxílio nesta vida e o que nos espera depois, para além do túmulo! Como eu seria, feliz e que tranquilo eu me sentiria se neste momento pudesse dizer: Senhor, tende piedade de mim!... Mas a quem hei-de eu dirigir esta oração? Será esta força indefinível, incompreensível, a que não só me não posso dirigir, mas que riem mesmo posso exprimir por palavras, o grande todo ou o nada, ou então esse Deus representado nesta medalha que me deu Maria? Não há nada, nada certo, além do pouco valor de tudo quanto eu posso compreender e da sublimidade desse incompreensível que ultrapassa toda a grandeza!» Pegaram na maca. De cada vez que a sacudiam, o príncipe André sentia uma dor insuportável; o seu estado febril agravou-se. Delirou. A lembrança de seu pai, de sua mulher, de sua irmã, do filho que ia nascer, a recordação do enternecimento que sentira na véspera da batalha, a figura desse pequeno Napoleão que tão insignificante lhe parecera e ainda por cima a obsessão daquele céu profundo, tudo lhe povoava os sonhos de imagens de fogo. Uma vida serena e de tranquila felicidade conjugal em Lissia Gori perpassava-lhe pela imaginação. Mas, mal sentia a alegria desta felicidade, repentinamente lhe aparecia o pequeno Napoleão de olhar frio, limitado, contente com a infelicidade alheia, e de novo recomeçavam os horrores da dúvida e da dor. Só a imagem do céu lhe trazia um certo apaziguamento. Lá para a madrugada todos estes sonhos se misturavam, numa espécie de caos, e ele precipitou-se nessas trevas da inconsciência e do olvido que na opinião do próprio Larrey deveriam terminar muito mais provavelmente com a morte que com a vida.
- É um indivíduo nervoso e bilioso - dissera ele. - Não escapará desta.
O príncipe André, bem como outros feridos com poucas esperanças de cura, foi confiado aos cuidados dos habitantes da região.
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