A participação de Nicolau no duelo Dolokov- Bezukov fora abafada, graças ao velho conde, e em vez de ser degradado, como se esperava. Rostov foi nomeado ajudante-de-campo do general governador de Moscovo. Por causa disso não lhe fora possível ir para o campo com toda a família e passara todo o Verão no desempenho das suas novas funções. Dolokov restabeleceu-se, e Rostov, durante a convalescença, tomou-se seu amigo. Dolokov, enquanto doente, foi tratado em casa da mãe, que o amava apaixonadamente. A velha Maria Ivanovna, que se afeiçoara a Rostov em virtude da amizade deste pelo seu Fédia, falava-lhe muitas vezes do filho: - Sim, conde, o meu filho é nobre de mais, tem uma alma pura de mais - dizia ela - para o século em que vivemos. Ninguém gosta da virtude, que ofusca toda a gente. Mas diga-me, conde, acha que foi justo, acha que foi digno o que fez Bezukov? Fédia, com toda a sua nobreza de alma, era-lhe afeiçoado e ainda agora mesmo nunca diz mal dele. Pois não é verdade que fizeram juntos muitas partidas, por exemplo aquela ao polícia em Petersburgo? E a verdade é que Bezukov nada sofreu com isso, enquanto que Fédia pagou as favas. E o que ele sofreu! Sim, voltaria a dar-lhe os galões, mas como não o fazerem? Ah!, sim, bravos, filhos da pátria como ele não andam por aí aos pontapés. E esse duelo? Ouça o que eu lhe digo. Terá essa gente coração, honra? Sabendo que ele é filho único, provocaram-no e dispararam contra ele à queima-roupa. Felizmente Deus teve pena de nós E porquê? Sim, quem é que no nosso tempo não é vítima de intrigas? Há o direito de uma pessoa ser ciumenta àquele ponto? Ainda podia compreender se ele lhe tivesse dito antes alguma coisa, mas há um ano que aquilo durava. E, ouça, ele desafiou-o pensando que Fedia não se quereria bater com ele porque lhe devia dinheiro. Que baixeza! Que vilania! Bem sei, o senhor compreendeu o Fédia, meu caro conde, por isso eu gosto tanto de si, creia. São poucos os que o compreendem. É uma alma tão elevada, tão pura! O próprio Dolokov, durante a convalescença, dizia-lhe coisas que n3 era de esperar da sua boca.
- Consideram-me má pessoa - dizia. - Está bem, suponhamos que sou assim. Não quero conhecer senão as pessoas a quem estime e por essas sou capaz de dar a própria vida. Quanto aos demais a esses era capaz de os esmagar a todos se os viesse a encontrar no meu caminho. Tenho uma mãe a quem idolatro, de quem não sou digno, dois ou três amigos, no número dos quais conto, e, quanto aos outros, esses apenas os considero na medida em que me podem ser úteis ou nefastos. E quase todos eles são prejudiciais, especialmente as mulheres. Sim, meu velho - prosseguia ele -, tenho encontrado homens dignos, de sentidos nobres e elevados. Mas entre as mulheres, até hoje, só encontrei criaturas que se vendem, e, quer sejam condessas ou cozinheiras, é o mesmo. Ainda não encontrei essa pureza celeste, essa dedicação que procuro na mulher. Se um dia encontrasse uma mulher assim, era capaz de dar a vida por ela. Quanto às que eu conheço... - Teve um gesto de desprezo. - E, acredita, se me interessa viver, é apenas na esperança de ainda vir a encontrar essa criatura celeste, que me regenerará, me purificará, me resgatará. Mas tu não me podes compreender.
- Pelo contrário, compreendo-te muito bem - respondeu-lhe Rostov, completamente dominado pelo seu novo amigo.
No Outono, a família Rostov estava de regresso a Moscovo. No princípio do Inverno. Denissov voltou também a Moscovo e instalou-se-lhes em casa. Esse Inverno de 1806, o primeiro que Nicolau Rostov passou em Moscovo, foi um dos mais alegres e felizes para ele e para a família Rostov. Atraíra consigo a casa dos pais muitos rapazes; Vera estava uma linda rapariga de vinte anos; Sónia, uma mocinha de dezasseis, em todo o encanto da sua juventude; Natacha, meio criança meio mulher, engraçada corro uma criança, fascinante como uma donzela.
Nessa época a casa de Rostov estava envolvida numa atmosfera especial de carinhosos sentimentos, como costuma acontecer onde há raparigas muito gentis e muito jovens. No meio destas caras frescas, expressivas, sorrindo a cada passo - naturalmente à sua própria felicidade -, no meio deste rodopio de fogosa animação, ouvindo este chalrar feminino, tão inconsequente, mas tão afectuoso para toda a gente, e a todo o propósito tão cheio de esperança, e o ressoar do canto e da música, misturados, fosse quem fosse o jovem que entrasse naquela casa logo se sentia predisposto para o amor e para a felicidade, atmosfera em que respirava toda aquela juventude.
Um dos primeiros rapazes que tinham sido ali levados por Rostov fora Dolokov, que a todos agradara, menos a Natacha, que quase se indispusera com o irmão por sua causa. Sustentara teimosamente ser ele má pessoa. Que rio duelo com Bezukov quem tivera razão fora o Pedro, que Dolokov fora o culpado, e que era pouco amável e muito pretensioso.
- Podes dizer o que quiseres - gritava ela, obstinada -, é mau e não tem coração. Mas o teu Denissov, desse, gosto. Pode ser um depravado e tudo quanto quiserem. Seja como for, gosto dele, e compreende-se muitíssimo bem. Não sei explicar... No outro tudo é calculado antecipadamente, e é disso que eu não gosto; quanto ao Denissov...
- Sim, o Denissov é outra coisa - replicava Nicolau, deixando perceber que, comparado com Dolokov, o próprio Denissov não valia um caracol. - É preciso compreender a grande alma que é Dolokov, é preciso vé-1o ao pé da mãe, que coração o seu...
- Isso não sei; a verdade é que ao pé dele me não sinto à vontade. E, sabes? Está apaixonado pela Sónia.
- Aí estás tu a dizer disparates...
- Vais ver se eu não tenho razão.
As suposições de Natacha eram exactas. Dolokov, que de resto não apreciava a sociedade das mulheres, começou a frequentar assiduamente a casa dos Rostov, e, embora ninguém falasse no assunto, foi coisa tacitamente assente que vinha por causa de Sónia. E esta, posto nunca ousasse dizê-lo, sabia que assim era; sempre que Dolokov aparecia ficava muito corada.
O jovem oficial jantava muitas vezes em casa dos Rostov, não perdia espectáculo em que a família comparecesse e ia ao «baile dos Adolescentes», a casa de Ioguel, onde a família Rostov era assídua. Mostrava-se particularmente atencioso para com Sónia e olhava para ela de tal maneira que esta não lhe sustentava o olhar sem ruborizar-se muito, e tanto a velha condessa como Natacha, perante isso, também se sentiam corar.
Era evidente que aquele estranho colosso se achava sob a irresistível influência daquela graciosa morenita que amava outro. Rostov notara haver fosse o que fosse entre Dolokov e Sónia, mas não tinha opinião formada acerca da natureza dessas novas relações. «Nesta casa as pequenas estão sempre enamoradas de alguém», dizia ele para si próprio, pensando em Sónia e em Natacha. Mas a verdade é que já não estava tão à vontade diante de Sónia e Dolokov e já não se demorava tanto em casa.
No Outono de 1806 voltou a falar-se na guerra com Napoleão e mesmo com mais entusiasmo ainda que no ano anterior. Foi decretado o recrutamento na proporção de dez em mil homens para o exército regular e de nove em mil para a milícia. Por toda a parte se lançava o anátema a Bonaparte e em Moscovo não se falava noutra coisa senão na guerra iminente. Quanto à família Rostov estes preparativos bélicos só lhe tocavam porque Nikoluchka se recusava terminantemente a permanecer em Moscovo e apenas aguardava o termo da licença de Denissov para regressar à sua unidade após as festas. Esta próxima partida não o impedia de se divertir; pelo contrário, dava-lhe uma grande excitação. Passava a maior parte do seu tempo fora de casa em jantares, saraus e bailes.
No terceiro dia, das festas do Natal jantava Nicolau em casa dos pais, coisa que raramente lhe acontecia naqueles últimos tempos. Era um jantar oficial de despedida, pois eles partiam. Denissov e Nicolau, de regresso ao regimento, logo após o dia de Reis. Havia vinte talheres, e Dolokov e Denissov eram convidados. Nunca em casa dos Rostov houvera tanta ternura no ar, nunca ali se estivera mergulhado numa atmosfera tão apaixonada como naqueles dias de festa. «Aproveita estes momentos de felicidade, ama e sê amado! Esta é a única coisa real no mundo; o resto é tolice. Só isso deve interessar», eis o que parecia aconselhar aquela atmosfera.
Nicolau, como sempre, depois de haver estoirado duas pare- lhas, sem ter podido ir a toda a parte aonde queria e para onde fora convidado, chegou a casa precisamente quando o jantar ia para a mesa. Mal entrou logo se sentiu envolvido naquela atmosfera de carinho que pairava na casa e sentiu o curioso embaraço de alguns dos convivas. Sónia. Dolokov, a velha condessa e até mesmo, de certo modo. Natacha, estavam particularmente comovidos. Nicolau compreendeu ter-se passado qualquer coisa entre Sónia e Dolokov antes do jantar, e, com a delicadeza de coração que lhe era própria, durante todo o repasto mostrou-se enternecido e reservado para com os dois. Nessa noite devia realizar-se um baile promovido pelo mestre de dança Ioguel em honra dos seus alunos de ambos os sexos.
- Nikolenka, vais a casa do Ioguel? Peço-te, não deixes de ir - dizia Natacha. - Ele conta contigo, e o Vassili Dmitritch (era Denissov) também vai.
- Iria fosse onde fosse às ordens da condessa! - replicou Denissov, que, por graça, representava em casa o papel de escudeiro de Natacha. - Estou até disposto a dançar o pas de châle.
- Irei, se tiver tempo. Estou convidado para casa dos Arkarov. Há lá hoje uma recepção - disse, por sua vez. Nicolau. - E tu?... - acrescentou, dirigindo-se a Dolokov. Mas, mal tinha feito a pergunta, logo se deu conta da indiscrição.
- Sim, é possível... - replicou Dolokov, friamente e com azedume, lançando um olhar a Sónia; depois, de sobrecenho carregado, fitou Nicolau com o mesmo olhar com que fixara Pedro no jantar do clube.
«Alguma coisa se passou», disse Nicolau consigo mesmo, e as suas suspeitas mais se avolumaram quando viu que Dolokov saía logo após o jantar. Chamou Natacha e perguntou-lhe o que havia.
- Andava precisamente à tua procura - disse-lhe ela, vindo ao seu encontro. - Eu bem dizia e tu não querias acreditar prosseguiu, vitoriosa. - Declarou-se à Sónia.
Posto Sónia muito pouco o preocupasse nesses últimos tempos, sentiu como que rasgar-se-lhe o coração ao ouvir o que lhe dizia Natacha. Dolokov era um partido invejável e de certos aspectos até mesmo brilhante para uma órfã sem fortuna como Sónia. Aos olhos da velha condessa e do mundo seria absurdo recusar uma proposta daquelas. Por isso, a primeira reacção de Nicolau ao tomar conhecimento do facto foi de irritação contra Sónia. E dispunha-se a dizer que estava muito bem, que era perfeitamente natural pôr de parte os compromissos da infância e que o que era preciso era aceitar, mas não teve tempo.
- Pois não queres saber? Recusou, recusou redondamente! exclamou Natacha. - Disse-lhe que gostava de alguém - prosseguiu ela depois de uma ligeira pausa.
«Era isso mesmo que eu esperava da minha Sónia!», pensou Nicolau de si para consigo.
- E recusou, por mais que a mãe lhe pedisse, e estou convencida de que não mudará de atitude...
- A mãe pediu-lhe? - articulou Nicolau, despeitado.
- Pediu - volveu Natacha. - Ouve. Nikolenka, não te zangues, mas eu sei que nunca casarás com ela. Estou convencida disso só Deus sabe porquê, mas tenho a minha opinião formada a tal respeito.
- Ora aí está uma coisa que tu não podes afirmar - replicou Nicolau. - Mas tenho de falar com ela. Que encanto aquela Sónia! - acrescentou, sorrindo.
- Sim, é encantadora! Vou dizer-lhe que venha ter contigo.
E Natacha abalou, depois de ter beijado o irmão.
Momentos depois entrava Sónia, muito confusa, muito perturbada, com uma expressão de pessoa que cometeu uma falta. Nicolau aproximou-se dela e beijou-lhe a mão. Era a primeira vez, após o seu regresso, que se encontravam a sós e que falavam de coisas sentimentais.
- Sónia - principiou ele, de começo timidamente e depois com ousadia crescente -, teve coragem de recusar um partido tão brilhante e tão vantajoso? É um bom rapaz, um nobre coração... É meu amigo...
Sónia interrompeu-o: - Sim, recusei - apressou-se a dizer.
- Se foi por mim, receio que da minha parte...
Sónia interrompeu-o de novo. Lançou-lhe um olhar entre súplice e assustado.
- Nicolau, não me diga isso.
- Digo, devo dizê-lo. Talvez seja petulância da minha parte, mas vale mais falar. Se recusou por minha causa, eu, pela minha parte, devo dizer-lhe toda a verdade. Gosto de si, quero-lhe, estou convencido disso, quero-lhe mais do que a qualquer outra...
- E é quanto basta para mim - disse Sónia, corando.
- Sim, mas já gostei várias vezes e ainda posso vir a gostar de outras, embora não tenha por ninguém tanta amizade, confiança e amor como tenho por si. E, depois, ainda sou muito novo. A mãe não vê isto com bons olhos. E é por isso, numa palavra, que eu não estou disposto a comprometer- me. Peço-lhe que pense na declaração de Dolokov - concluiu, articulando com esforço o nome do amigo.
- Não me fale assim. Não quero nada. Gosto de si como um irmão e sempre hei-de gostar de si; de nada mais preciso.
- É um anjo e eu não sou digno de si. O receio que tenho é de não poder corresponder ao que espera de mim.
E Nicolau beijou-lhe outra vez a mão.
Era em casa de Ioguel que se realizavam os mais alegres bailes de Moscovo. Eis o que afirmavam as mães ao olharem para as suas adolescentes ensaiando o novo passo de dança que acabavam de aprender, eis o que diziam as próprias adolescentes e os adolescentes, que dançavam até cair extenuados; era também a opinião dos rapazes e raparigas de mais idade que tinham ido ali por mera condescendência e que se divertiam lá como em parte alguma. Naquele mesmo ano já ali se haviam preparado dois casamentos. As duas lindas princesas Gortchakov ali haviam encontrado noivos, e estes enlaces mais tinham feito aumentar o prestígio dos bailes. A particularidade destas festas estava no facto de não haver nem dono nem dona de casa. Havia apenas o bom do Ioguel, o qual, leve como uma pena, se desfazia em reverências segundo as regras da sua arte e dava lições pagas a todos os seus convidados. Outra particularidade destes bailes era só ali ir quem, de facto, queria dançar e divertir-se, como sabem divertir-se as rapariguinhas de treze a catorze anos que pela primeira vez vestem vestidos compridos. Todas, salvo raríssimas excepções, eram ou pareciam ser muito bonitas; todas tinham um sorriso tão triunfante, olhares tão ardentes! Acontecia que as melhores alunas dançavam até o pas de châle e entre elas distinguia-se Natacha, cuja graça dava nas vistas. Mas naquele último baile do ano estabelecera-se que só se devia dançar a escocesa, a inglesa e a mazurca, que então principiava a estar na moda. Ioguel pedira a Bezukov lhe cedesse um dos salões do seu palácio e o êxito da festa estava assegurado na opinião de toda a gente. Havia lindas carinhas no baile, e as meninas Rostov figuravam entre as mais belas. Ambas resplandeciam de felicidade e alegria. Nessa noite. Sónia, muito orgulhosa com a declaração de Dolokov e por não a haver aceitado e ter tido uma explicação com Nicolau, ainda estava em casa, muito desassossegada e sem deixar que a criada lhe acabasse de pentear as tranças. Toda ela resplandecia de exuberância e jovialidade.
Natacha, não menos orgulhosa por ser a primeira vez que aparecia de vestido comprido num baile a valer, ainda estava mais radiosa. Ambas trajavam vestidos brancos de musselina, enfeitados com fitas cor-de-rosa.
Natacha, assim que entrou na sala, sentiu-se como que instantaneamente deslumbrada. Apaixonava-se não em particular por quero quer que, fosse, mas por toda a gente ao mesmo tempo. Encontrava-se no mesmo instante do primeiro em que pousava os olhos.
- Ah!, que bonito! - dizia a todo o momento para Sónia. Nicolau e Denissov iam e vinham, percorrendo as salas, com olhares amáveis e protectores para os que dançavam.
- Que linda que, ela é! Há-de vir a ser uma beleza! - exclamava Denissov.
- Quem? - A condessa Natacha. E que bem que dança! Que graça que tem! - acrescentou, depois de uma ligeira pausa.
- De quem estás tu para aí a falar? - De quem? Da tua irmã - replicou ele, com impaciência. Rostov sorriu.
- Meu querido conde, considero-o um dos meus melhores alunos, é preciso que dance - disse o insignificante Ioguel ao aproximar-se de Nicolau. - Não vê tantas meninas bonitas? E dirigiu o mesmo pedido a Denissov, que também fora aluno seu.
- Não, meu caro, eu sirvo de figura decorativa - replicou este. - Já se não lembra de como eu aproveitei mal as suas lições? - Oh! Não! - exclamou Ioguel. - Não era dos mais atentos, mas tinha jeito, sim, senhor, tinha jeito.
A orquestra rompeu com uma mazurca, dança então em pleno êxito, novidade que era. Nicolau não pôde desculpar-se e foi convidar Sónia. Denissov sentou-se ao pé das senhoras idosas e, apoiado no sabre, batendo o compasso com o pé, principiou a contar-lhes histórias alegres, para fazê-las rir, vendo dançar a Juventude. Ioguel, no primeiro par, dançava com Natacha, o seu orgulho e a sua melhor aluna. Deslizando, suave e molemente, nos seus escarpins, foi o primeiro a lançar-se sala fora com Natacha intimidada, mas que lhe acompanhava atentamente o passo. Denissov não a perdia de vista, marcando o compasso com o sabre, com se dissesse que se não dançava era apenas por não querer e não por não saber. No meio de urna das figuras interpelou Rostov, que passava perto.
- Não é nada disso - disse ele. - Que mazurca polaca é essa? De resto, ela dança maravilhosamente.
Como sabia que, na Polónia. Denissov ganhara fama pela maneira como dançava mazurca polaca. Nicolau correu para Natacha.
- Vai convidar o Denissov. Ele dança isto maravilhosamente! Quando chegou a vez de Natacha, esta levantou-se e, deslizando, levíssima, rios seus sapatinhos de cetim, atravessou, muito corada, a saia na direcção onde estava Denissov. Percebeu que toda a gente, a olhava aguardando o que ela ia fazer. Nicolau, de longe, viu os dois a discutir, sorrindo. E viu que Denissov recusava rias ria. Dirigiu-se para eles.
- Faça-me isso. Vassili Dmitritch - dizia Natacha. - Venha daí, por favor.
- Oh!, tenha pena de mim, condessa - dizia Denissov.
- Então. Vassia, vai com ela - interveio Nicolau.
- Vocês fazem-me festas como se eu fosse o vosso gatinho Vaska - disse Denissov, de brincadeira.
- Prometo-lhe que hei-de cantar uma noite inteira para si - volveu Natacha.
- Feiticeira, faz de mim o que lhe apetece - consentiu Denissov por fim, tirando o sabre.
Saiu da fila das cadeiras, agarrou com energia a mão do seu par, ficou muito direito, com o pé avançado, aguardando o compasso. Era a cavalo ou a dançar a mazurca que deixava de se notar a sua pequena estatura e que adquiria uma atitude marcial. Enquanto esperava o compasso, teve um olhar de soslaio, ao mesmo tempo vitorioso e brincalhão, para o seu par, depois, subitamente, bateu com o pé no chão e despediu como uma bola de borracha, arrastando consigo a sua dama. Assim, num pé só, percorreu metade do salão, sem fazer o mais pequeno ruído. Dir-se-ia lançar-se sobre as cadeiras diante dele. Mas de súbito as esporas retiniram, e, de pernas alargadas, deteve-se um instante em cima dos tacões, batendo com os pés no chão. Depois deu uma volta rápida, bateu com a perna direita contra a esquerda e recomeçou a girar sobre si mesmo. Natacha adivinhava todos os seus movimentos e, inconscientemente, seguia-lhe as evoluções, abandonando-se. Ora a fazia rodopiar pela mão direita ou pela esquerda, ora, ajoelhando, a arrastava, fazendo-a descrever um círculo em volta dela. Em seguida dava um pulo de súbito e lançava-se para a frente, rápido, como se quisesse, de um salto só, percorrer todas as salas, para de novo parar e de novo principiar uma figura nova e imprevista. Quando voltou a depor a dama no seu lugar, fazendo-a rodopiar magistralmente com um bater de esporas. Natacha esqueceu-se da reverência. Fitou-o com os seus olhos espantados, sorrindo, como se o não conhecesse.
- Que quer dizer isto? - dizia.
Embora Ioguel houvesse declarado que aquilo não era a verdadeira mazurca, toda a gente ficara maravilhada com o virtuosismo de Denissov. Vinham-no convidar a cada passo, e as pessoas de idade, sorrindo, começaram a falar da Polónia e dos bons tempos de outrora. Denissov, muito corado por causa da dança e enxugando a testa, veio sentar-se ao lado de Natacha e não a deixou até ao fim da noite.
No dia seguinte. Rostov não viu Dolokov em casa de seus pais e nunca mais lá voltou a encontrá-lo. Na manhã do outro dia recebeu dele um bilhete nestes termos:
Como não faço tenção de voltar a aparecer em vossa casa por motivos que tu, muito bem conheces, e como regresso à minha unidade, ofereço hoje aos meus amigos um jantar de despedida. Peço-te, que venhas, pois, ao Hotel de Inglaterra.
Rostov, ao sair do teatro aonde fora com os seus e Denissov, chegou às dez horas do dia marcado ao Hotel de Inglaterra. Conduziram-no imediatamente à melhor sala, reservada para aquela noite por Dolokov. Estavam aí reunidas umas vinte pessoas em volta de uma mesa. Quem presidia era Dolokov, que se sentava no meio de dois brandões. Em cima da mesa havia dinheiro em ouro e papel e o oficial fazia de banqueiro. Nicolau, que não voltara a vê-lo depois da declaração a Sónia e da recusa de que fora objecto, sentiu-se um pouco embaraçado por se ver na sua presença.
O frio e brilhante olhar de Dolokov pousou nele assim que Nicolau entrou no aposento, como se o esperasse há muito. - Há quanto tempo nos não víamos! - disse-lhe ele. - Obrigado por teres vindo. Assim que eu acabe a banca, temos aí o Iliuchka com os seus cantores.
- Foi a teu convite que vim - disse Rostov, corando. Dolokov não respondeu.
- Podes fazer a tua parada disse-lhe a certa altura. Lembrou-se naquele momento da curiosa conversa que certo ia tinham tido. «Não há ninguém com mais sorte ao jogo do que os imbecis», dissera-lhe ele.
- Ou terás medo de jogar comigo? - perguntou-lhe, sor- rindo, Dolokov, que parecia adivinhar o que ia no pensamento de Rostov.
Este sorriso fez compreender a Nicolau que o amigo estava no estado de espírito em que o vira aquando do jantar do clube ou quando sentia a necessidade, esmagado pelo tédio de uma vida terra-a-terra, de se evadir por um acto estranho e violento.
Rostov sentia-se embaraçado. Procurou, sem o encontrar na sua imaginação, o gracejo digno de servir de resposta ao que Dolokov acabava de dizer. E ainda o não conseguira já Dolokov, fitando-o nos olhos, dizia lentamente, e destacando as palavras, de maneira a que toda a gente pudesse entender: - Lembras-te do que uma vez dissemos: que não há ninguém com mais sorte ao jogo do que os imbecis? É para ganhar que uma pessoa, deve jogar e eu quero experimentar.
«Devemos experimentar a sorte ou jogar para ganhar?», disse Rostov de si para consigo, - Realmente, era bem melhor que não jogasses - acrescentou, pousando as cartas, que acabava de baralhar. - Banca, meus senhores.
Tendo posto o seu dinheiro na banca. Dolokov preparava-se para dar as cartas. Rostov sentou-se a seu lado e a princípio absteve-se de jogar. Dolokov lançou-lhe um olhar de lado.
- Então, não jogas? - disse-lhe.
Coisa curiosa. Nicolau sentiu-se como que obrigado a pegar numa carta, a pousar sobre ela uma soma insignificante e a principiar a jogar.
- Não tenho dinheiro comigo - murmurou.
- Tens crédito.
Rostov apostou cinco rublos na sua carta e perdeu, fez nova parada e voltou a perder. Dolokov «matou» o que quer dizer que ganhou dez cartas seguidas a Rostov.
- Meus senhores - disse ele, depois de ter estado algum tempo a servir de banqueiro -, peço-lhes que ponham o vosso dinheiro em cima das cartas, de outro modo posso enganar-me nas contas.
Um dos jogadores alegou esperar que se dignassem ter confiança nele.
- Evidentemente, mas tenho medo de me enganar – replicou Dolokov. - Por isso peço-lhes o favor de porem o dinheiro em cima das cartas. Quanto a ti, não te importes, depois faremos contas os dois - disse ele, dirigindo-se a Rostov.
O jogo prosseguiu; um lacaio ia servindo champanhe . Todas as cartas de Rostov foram «mortas» e o seu débito já subia a oitocentos rublos. Dispunha-se a inscrever esta soma numa carta, mas, como lhe ofereciam champanhe, reteve-se e fez a parada habitual: vinte rublos.
- Deixa - disse Dolokov, fingindo não reparar – não tarda muito que te tenhas refeito. Perco com todos e «mato» todas as cartas. Terás tu medo de mim? Rostov pediu desculpa, deixou ficar os oitocentos rublos e apresentou um sete de copas, com um canto dobrado, que apanhara do chão. Lembrar-se-ia disso perfeitamente mais tarde. Apresentou o seu sete de copas, depois de ter escrito sobre ele, com a ponta de um giz, oitocentos rublos em algarismos direitos, bem desenhados, despejou a taça de champanhe um pouco amornado que lhe apresentavam, sorriu ao ouvir as palavras de Dolokov, e esperando, com o coração a bater, um sete, olhou para as mãos de Dolokov, que tinha o baralho. Ganhar ou perder aquele sete de copas representava muito para ele. No domingo anterior o conde Ilia Andreitch dera-lhe dois mil rublos, e, contra o seu costume de falar de dificuldades de dinheiro, acrescentara ser a última soma que lhe dava até Maio, e que, portanto, seria bom ele mostrar-se desta vez mais económico. Nicolau respondera que lhe chegava perfeitamente e que lhe dava a sua palavra de honra de que se contentaria com aquele dinheiro até à Primavera. Naquele momento ainda dispunha de mil e duzentos rublos. Eis porque daquele sete de copas dependia não só a perda de mil e seiscentos rublos, mas também a necessidade de quebrar a palavra que dera. Com o coração a bater fitava as mãos de Dolokov, dizendo de si para consigo: «Vamos, venha de lá depressa essa carta e vou daqui cear com Denissov, Natacha e Sónia, e tenho a certeza de nunca mais na minha vida voltar a pegar numa carta.» E naquele momento todos os pequenos nadas cia vida familiar, as partidas de Pétia, as conversas com Sónia, os duetos com Natacha, o jogo do piquet com o pai, a recordação da sua cama tão sossegada da Rua Povarskaia, tudo isso lhe perpassava pela mente com toda a força, toda a nitidez e todo o encanto de uma felicidade há muito passada, perdida e sem preço. Era-lhe impossível admitir que um estúpido acaso, fazendo com que um sete estivesse à direita e não à esquerda, o pudesse privar de semelhante felicidade, de novo reconquistada e que de novo o iluminava com os seus raios, para o mergulhar num abismo de desgraças ainda não experimentadas e desconhecidas. Era qualquer coisa que não devia ser, mas, nem por assim pensar, deixava de observar os movimentos das mãos de Dolokov. Essas mãos ossudas e vermelhas, cobertas de pêlos até aos punhos, pousaram as cartas e pegaram na taça que lhe apresentavam e no cachimbo.
- Com que então, não tens medo de jogar comigo? - repetiu Dolokov, e, como se quisesse contar qualquer história brejeira, recostou-se no espaldar da cadeira e pôs-se a dizer, com todo o sossego, e a sorrir: - Sim, meus senhores, vieram dizer-me que eu em Moscovo tinha fama de batoteiro. É por isso que lhes peço que estejam prevenidos.
- Vamos, parte - disse Rostov.
- Oh! Estes más-línguas de Moscovo - tornou Dolokov sorrindo e voltando a pegar nas cartas.
- Ah! - exclamou Rostov, puxando os cabelos. O sete de que ele precisava estava por cima da primeira carta do baralho. Tinha perdido mais do que podia pagar.
- Então, que é isso? Não te vás espetar - disse-lhe Dolokov, de lado e continuando a partir.
Hora e meia depois, já os jogadores não consideravam mais que mera brincadeira as paradas que tinham feito.
Todo o interesse do jogo se concentrava em Rostov. Em vez de mil e seiscentos rublos, à sua conta havia uma longa coluna de algarismos, que contara até dez mil, mas que naquele momento, como ele confusamente pensava, devia atingir os seus quinze mil. Na realidade, o total ultrapassava já os vinte mil.
Dolokov já não ouvia o que se dizia nem já contava mais histórias. Seguia o mais pequeno movimento das mãos de Rostov e de tempos a tempos lançava os olhos à sua conta. Decidira continuar o jogo até o total atingir os quarenta e três mil rublos. Fixara esses algarismos porque era quanto somavam a sua idade e a de Sónia. Rostov, com a cabeça entre as mãos, apoiava os cotovelos na mesa coberta de inscrições, de nódoas de vinho e de cartas espalhadas. Obcecava-o a mesma penosa impressão, sempre a mesma: aquelas mãos ossudas e vermelhas, peludas até aos punhos, aquelas mãos, que ao mesmo tempo amava e odiava, pareciam tomar conta dele.
«Seiscentos rublos, um ás, paroli, um nove... Já não há maneira de me salvar!... Oh!, que bem se estava em casa... O valete sobre uma paz... Mas não pode ser!... Porque me trata ele desta maneira... ?» E tudo isto, ao mesmo tempo, lhe afluía ao cérebro. Acontecia-lhe fazer uma parada mais forte, mas Dolokov recusava o jogo e indicava ele próprio a soma a jogar. Nicolau obedecia e encomendava-se a Deus, como o fizera no campo de batalha, na ponte de Amsteten; ou então punha-se a imaginar que aquela carta, a primeira do monte de cartas amarrotadas em cima da mesa, talvez o salvasse; outras vezes empenhava-se em contar os alamares do dólman que vestia; perguntava a si mesmo em que carta tinha o palpite da sua perdição; lançava olhares de angústia aos outros jogadores ou então contemplava o rosto impassível do seu parceiro e fazia tudo para lhe adivinhar o pensamento.
«Sim, ele sabe muitíssimo bem o que esta perda representa para mim. É impossível que queira a minha ruína. É meu amigo. Tenho amizade por ele... Mas não tem culpa. Que há-de ele fazer, se a sorte o favorece? Eu também não sou culpado», reflectia, «Não pratiquei qualquer má acção. Matei, ofendi ou quis mal a alguém? Então como é que se explica esta tremenda pouca sorte? E quando é que principiou? Apenas há instantes. Aproximei-me desta mesa, na esperança de ganhar cem rublos, de comprar aquela caixinha para oferecer à mãe no dia dos seus anos e de me ir embora. Que feliz, que livre, que alegre eu estava então! E não avaliava a felicidade de que gozava! Quando é que tudo isso acabou para dar lugar a esta tremenda situação? Em que se manifesta uma tal transformação? Estou sentado no mesmo sítio, a esta mesa, com o gesto de apanhar e de mostrar as cartas, de olhar aquelas mãos ossudas e subtis. Quando e como é que isto foi possível? Que é que aconteceu? Estou de perfeita saúde, vigoroso, sou a mesma pessoa, e não me mudei daqui. Não, isto não pode ser! Com certeza que tudo isto acaba em nada! » Estava vermelho, coberto de suor, embora não fizesse muito calor na sala, e a sua cara metia medo e dó ao mesmo tempo, sobretudo em virtude do esforço que fazia para parecer sereno.
O total atingiu a soma fatal de quarenta e três mil rublos. Rostov preparava já a carta que devia fazer paroli com os três mil que acabava de ganhar quando Dolokov atirou com o baralho de cartas para cima da mesa, pegou no giz e se pôs a inscrever rapidamente, com a sua letra miúda e firme, partindo o giz, a soma que Rostov perdera, - Vamos cear! São horas de cear! Aí estão os ciganos! E, com efeito, entrava nesse momento, trazendo consigo o frio que fazia lá fora, um certo número de mulheres e de homens amulatados, que falavam entre si com um sotaque cigano. Nicolau compreendeu que tudo estava acabado; mas disse com indiferença: - Bom! Mais uma partida? Tenho aqui uma cartinha catita. - Afectava não estar interessado senão pela distracção do jogo.
«Está tudo acabado, estou perdido», dizia para si mesmo. «Uma bala na cabeça é tudo o que me resta a fazer.» E nem por isso deixou de dizer alegremente: - Então, mais esta cartinha.
- Bom - disse Dolokov, que tinha concluído a soma.- Muito bem. Vinte e um rublos jogados - dizia, apontando para o número 21, por cima dos quarenta e três mil, e, pegando nas cartas, dispôs-se a jogar. Rostov, submisso, apagou o seu paroli e em vez de seis mil escreveu, com todo o cuidado, 21.
- É-me completamente indiferente - murmurou -, o que me interessa é saber se «matarás» a minha carta ou me darás aquele dez.
Dolokov pôs-se a jogar com toda a seriedade. Oh!, como Rostov, naquele momento, odiava essas mãos vermelhas, de dedos curtos e peludas até aos punhos, que o tinham em seu poder... O dez ganhou.
- Tem quarenta e três mil rublos à sua conta, conde - disse Dolokov, que se levantou da mesa, distendendo o corpo. - Tanto tempo sentado cansa uma pessoa.
- Sim, também eu, não posso mais - disse Rostov.
Dolokov, como se quisesse lembrar-lhe que lhe não ficava bem gracejar, interrompeu-o: - Quando é que poderei receber o que me deve, conde? Rostov, corando, levou-o consigo para uma sala contígua.
- Não te posso pagar tudo de uma só vez, espero que aceites uma letra - disse-lhe ele.
- Ouve. Rostov - replicou Dolokov, com um sorriso aberto e fitando-o nos olhos. - Conheces o provérbio: feliz aos amores, infeliz ao jogo. A tua prima está apaixonada por ti, bem sei.
«Oh! Como é terrível sentir-me nas mãos deste homem!», disse Rostov consigo. Tinha diante dos olhos a dor que iria dar ao pai e à mãe quando lhes confessasse o que perdera. E concebia a felicidade que representava o poder desembaraçar-se de tudo aquilo, e para si mesmo dizia que Dolokov, ciente de que lhe poderia evitar toda aquela vergonha e todo aquele sofrimento, o que queria era brincar com ele como o gato brinca com o rato.
- A tua prima - principiou Dolokov. Nicolau, porém, interrompeu-o: - A minha prima nada tem que ver com isto e não é para aqui chamada! - exclamou furioso.
- Então, quando me pagas? - perguntou Dolokov.
- Amanhã - respondeu Rostov, e desapareceu.
Dizer «até amanhã» mantendo um tom natural não era difícil; mas regressar a casa sozinho, tornar a ver irmãs, irmão, pai e mãe, resignar-se a uma confissão e pedir um dinheiro a que não tinha direito depois de, sob palavra, haver declarado não precisar dele, eis o que era terrível.
Ainda ninguém dormia em casa. A gente nova, depois de voltar do teatro e de ter ceado, havia-se sentado ao cravo. Assim que penetrou no salão grande. Nicolau sentiu-se envolvido por aquela atmosfera poética e sentimental naquele Inverno corrente em casa e naqueles últimos dias, após a declaração de Dolokov e do baile em casa de Ioguel, concentrada em tomo de Sónia e de Natacha, como uma nuvem antes de uma tempestade. As raparigas, com os vestidos azuis que tinham levado ao teatro, muito bonitas, e sabendo que o estavam, felizes e sorridentes, rodeavam o cravo, de pé. Vera, no salão, jogava xadrez com Chinchirte. A condessa velha, aguardando o filho e o marido, fazia uma paciência com urna idosa senhora nobre que vivia na sua companhia. Denissov, os olhos brilhantes e os cabelos desgrenhados, sentara-se, numa pose teatral, diante do cravo, e, percorrendo o teclado com os seus curtos dedos, tirando acordes e rebolando os olhos inchados, com a sua vozinha rouca mas justa, cantava uma poesia de que era autor, e que tentava musicar:
Feiticeira - diz-me cá - que impulso é este que me leva a acordar sonhos adormecidos? Que fogueira me acendeste no coração que arrebatadamente se me insinuou na alma?
Cantava com uma voz apaixonada, e seus olhos, negros como ágata, fixavam-se em Natacha, perturbada mas feliz: - Soberbo! Magnífico! - exclamava Natacha. - Mais outra estância - prosseguia, sem reparar em Nicolau.
«Cá em casa tudo está na mesma», dizia este de si para consigo, relanceando a vista para o outro salão, onde viu que estava Vera, bem como a mãe na companhia da senhora idosa.
- Ah! Cá está o Nikolenka! Natacha correu para ele.
- O pai está? - perguntou Nicolau.
- Que contente estou por tu teres vindo! - exclamou Natacha, sem lhe responder. - Divertimo-nos tanto! Sabes? O Vassili Dmitritch ficou mais um dia por minha causa, - Não, o pai ainda não voltou - disse Sónia.
- Até que enfim, queridinho, anda cá, meu filho - exclamou a, voz da condessa no salão.
Nicolau caminhou para a mãe, beijou-lhe a mão, e, sentando-se, calado, junto da mesa, pôs-se a seguir-lhe os dedos, que iam distribuindo as cartas. No salão grande continuavam a ouvir-se risos e ditos engraçados dirigidos a Natacha.
- Está bem, está bem - condescendia Denissov. - - Mas agora já não pode recusar. Agora tem de cantar a barcarola. Peço-lhe! A condessa envolveu num olhar o filho, muito calado.
- Que tens tu? - perguntou-lhe.
- Nada - respondeu ele, como se estivesse irritado com uma pergunta que lhe faziam pela centésima vez. - O pai ainda de- mora muito? - Acho que não.
«Nada mudou neles. Não sabem nada! Onde poderei eu encontrar refúgio?», dizia de si para consigo, voltando a aproximar-se do cravo, no salão grande.
Sónia estava sentada e tocava os primeiros compassos do prelúdio da barcarola de que Denissov tanto gostava. Natacha preparava-se para cantar. Denissov devorava-a com os olhos.
Nicolau pôs-se a andar de um lado para o outro.
«Que prazer terá ela de cantar? Como é que ela pode cantar? Que alegres que estão todos aqui!», dizia consigo mesmo.
Sónia fez soar os primeiros acordes do prelúdio.
«Meu Deus! Sou um homem ao mar! Um homem desonrado! Uma bala na cabeça, eis tudo quanto me resta, que bonitas horas para cantar! Ir-me embora? Mas para onde? E daí, que cantem, que é que isso me faz?» Nicolau, sempre de um lado para o outro, na sala, lançou um olhar para o grupo de Denissov e das raparigas, evitando encontrar-lhes os olhos.
- Nikolenka, que tens tu? - parecia perguntar-lhe o olhar de Sónia, pousado nele. Sónia tinha percebido imediatamente que alguma coisa lhe acontecera.
Nicolau desviou a vista. Também Natacha, com a sua perspicácia, notara imediatamente o estado de espírito do irmão. Mas naquele momento tamanha era a sua alegria, estava tão longe de tudo que fosse tristeza, dor ou censura que, como é frequente entre a gente nova, propositadamente se enganava a si própria. «Não! Não estou disposta a sacrificar a minha alegria pensando nas tristezas dos outros, e, aliás», cogitava, «estou convencida de que me engano: naturalmente está tão alegre como eu.» - É agora. Sónia - disse ela, dando alguns passos para o meio do salão, visto ali, segundo pensava, as condições acústicas serem melhores.
De cabeça erguida, os braços pendentes como as bailarinas. Natacha, num passo elástico e martelado, avançou até meio da sala e estacou.
«Olhem para mim, cá estou eu!», parecia dizer, em resposta ao olhar apaixonado com que Denissov a seguia.
Natacha emitiu a sua primeira nota, a garganta dilatou-se-lhe, o peito solevou-se-lhe, o seu olhar tomou-se sério. Não pensava naquele instante em nada de particular e as notas desprenderam-se-lhe dos lábios sorridentes. Eram notas que qualquer pode soltar mil vezes, com os mesmos intervalos e as mesmas pausas, ficando nós completamente frios, e que à milésima primeira vez que as ouvimos estremecemos e choramos.
Naquele Inverno, pela primeira vez. Natacha dispusera-se a cantar a sério, sobretudo por causa de Denissov, que estava rendido ao seu talento. Já não cantava como as crianças: já o não fazia, como antes, numa espécie de aplicação infantil e brincalhona; mas ainda não tinha chegado à perfeição, no dizer dos entendidos que a escutavam, «Tem uma linda voz, mas não está trabalhada», comentavam. Este juízo, porém, apenas o formulavam muito depois de Natacha se haver calado. No momento em que aquela voz, ainda pouco trabalhada, cheia de suspiros defeituosos, de garganteios penosos, ressoava, esses juizes severos calavam-se, incapazes de outra coisa que não fosse deixarem-se invadir por aquele canto ainda fruste e só com um desejo: continuarem a ouvi-lo. Aqueles acentos ainda virgens, aquela força que a si mesmo se desconhecia, aquela doçura de veludo, sem preparação alguma, tudo dizia tão bem com as faltas de técnica que dir-se-ia nada poder ser alterado naquela voz sem estragar o conjunto.
«Que vem a ser isto?», dizia de si para consigo Nicolau, abrindo muitos os olhos enquanto ia ouvindo aquela voz. «Que lhe teria acontecido? Que bem que ela hoje está a cantar!» Subitamente tudo no mundo deixou de existir para ele, salvo a nota, a frase que ia seguir-se; tudo se desvaneceu diante do compasso a três tempos: Oh, mio crudele affetto... Um, dois, três... Oh, mio crudele affetto... Um, dois, três... Um... Ah!, que estúpida é a vida!», dizia Nicolau consigo mesmo. «Tudo isso, e a infelicidade e o dinheiro e Dolokov e a cólera e a honra, tudo isso não passa de uma grande tolice... Isto, sim, isto é verdade... Continua. Natacha, continua, minha querida, continua, minha menina. Será capaz de dar este si? E deu! Louvado seja Deus». E ei-lo ali, sem reparar que ele próprio estava cantando, que cantava a segunda voz para aguentar aquela alta nota. «Ah!, que bem! E fui eu quem deu esta nota? Que lindo!» Oh!, como aquela nota tinha vibrado, e que comovido Rostov se sentiu no mais íntimo da sua alma. E era como se estivesse separado do mundo inteiro, como se estivesse mais alto que o mundo todo. «O que vale ao pé disto o que se perde ao jogo e todos esses Dolokovs e todas as palavras empenhadas?... Tudo isso não passa de fatuidade! Uma pessoa pode assassinar, roubar, e no entanto sentir-se feliz...»
Havia muito tempo que Rostov não sentia tanto prazer em ouvir música como naquela noite. Mas assim que Natacha acabou de cantar a sua barcarola voltou-lhe o sentimento da realidade. Saiu da sala sem dizer nada e desceu para o seu quarto. Um quarto de hora mais tarde, o velho conde, muito alegre e satisfeito, chegava do clube. Nicolau, ao ouvi-lo entrar, foi procurá-lo.
- Então, divertiste-te? - inquiriu Ilia Andreitch, sorrindo, orgulhoso, para o filho.
Nicolau quis responder afirmativamente, mas não pôde: as lágrimas iam romper-lhe dos olhos. O conde, com o cachimbo na boca, não notava o estado de espírito do filho.
«Então, é preciso ter coragem», disse de si para consigo, tomando uma resolução. E, de súbito, num tom desprendido, de que ele próprio sentiu vergonha, no mesmo tom com que teria pedido uma carruagem para o levar a qualquer parte, disse ao pai: Pai, vim procurá-lo para lhe falar de negócios. Já me esquecia. Preciso de dinheiro.
- Que dizes tu?! - exclamou o pai, que estava bem disposto. - Eu bem te disse que não te ia chegar. Precisas de muito? - Preciso.., de muito - respondeu Nicolau, corando, e com um sorriso desprendido e tolo, de que por muito tempo sentiu remorsos - Perdi algum dinheiro, isto é, perdi multo, muito mesmo, quarenta e três mil rublos.
- Quê? Com quem?... Estás a brincar?! - exclamou o conde, cuja nuca se cobria subitamente de uma vermelhidão apopléctica, coisa frequente entre os velhos.
- Comprometi-me a pagar essa dívida amanhã - replicou Nicolau.
- Ah!.... - balbuciou o pai, deixando-se cair no divã sem forças e num estado desesperado.
- Que hei-de eu fazer? Não é coisa que acontece a, toda a gente? - redarguiu o filho, num tom desprendido e ousado, quando, no fundo de si mesmo, estava a chamar-se a si próprio canalha, cobarde, perdido para a vida inteira. Teria querido beijar as mãos do pai, pedir-lhe perdão de joelhos, e tomava aquele ar indiferente, quase descortês, para dizer que aquelas coisas aconteciam a toda a gente.
O conde Ilia Andreitch, surpreendido por aquele tom, baixou os olhos, e, embaraçado, apressou-se a responder: - Sim, sim, não vai ser fácil, tenho os meus receios, vai ser difícil arranjar essa importância... São coisas que acontecem! Sim, essas coisas acontecem...
E o conde saiu da sala, lançando, de soslaio, um olhar ao filho. Nicolau contava encontrar resistência, mas nunca aquela atitude.
- Pai! Pai! - gritou, seguindo atrás do conde, chorando, - Perdoe-me.
E, agarrando-lhe na mão, pousou nela os lábios, soluçando.
Enquanto se desenrolava esta explicação de Nicolau com o conde, mãe e filha tinham uma entrevista não menos importante. Natacha, muito comovida, refugiara-se ao pé da mãe.
- Mãe!, mãe!.., ele fez-me...
- Que é que ele fez? - Fez-me, fez-me uma declaração. Mãe! Mãe! - A condessa não podia crer no que ouvia. Denissov tinha feito urna declaração. Unia declaração a quem? Aquela garota da Natacha, que ainda mal deixara de brincar com as bonecas e ainda estudava.
- Cala-te. Natacha, tudo isso são patetices - disse ela, na esperança de que realmente fosse uma brincadeira.
- Patetices? Nada disso. Falo sério - replicou Natacha, furiosa - Venho eu pedir-lhe o seu conselho, e a mãe diz-me que são patetices.
A condessa encolheu os ombros.
- Se é verdade que o Sr. Denissov te fez urna declaração, responde-lhe que é parvo e está tudo dito.
- Mas, não, não é parvo - replicou Natacha, muito séria e com um ar formalizado.
- Então que queres que eu te diga? Nessa idade todas vocês têm os seus namoricos. Se gostas dele, casa com ele e deixa-nos em paz - volveu-lhe a condessa, com irritação.
- Não, mãe, eu não gosto dele, penso que não gosto dele.
- Então porque esperas? Diz-lhe isso mesmo.
- Mãe, a mãe está zangada? Não se zangue, mãe querida, acha que eu sou culpada? - Não, mas que pretendes que eu faça? Queres que eu lhe vá falar? - voltou a mãe, sorrindo.
- Não, eu me encarregarei disso sozinha; mas que hei-de dizer? É tudo tão fácil para si. Ah!, se a mãe visse como ele me falou! De resto, eu vi bem que ele não queria, mas escapou-lhe.
- Isso não é razão para o não rejeitares.
- Não, não, tenho tanta pena dele! É tão simpático! - Então aceita-o. Aliás, já vai sendo tempo de te casares - acrescentou a mãe num tom entre zangado e irónico.
- Ah, mãezinha, tenho tanta pena dele! Não sei que lhe hei-de responder.
- Não és tu quem lhe deve falar, mas eu - concluiu a condessa, irritada apenas por alguém ter ousado tratar como uma mulher aquela miúda da Natacha.
- De maneira alguma. Sou eu quem lhe vai falar sozinha, e a mãe fica a escutar à porta. - E Natacha entrou a correr no salão grande, onde Denissov continuava sentado ao pé do cravo, com a cabeça nas mãos.
Estremeceu ao ouvir aproximar-se aquele passo ligeiro.
- Natacha - disse, dirigindo-se-lhe precipitadamente -, decida do meu destino. Está nas suas mãos.
- Vassili Dmitritch, tenho tanta pena de si!... Ah!, é tão bom... Mas não pode ser.., não.., e hei-de gostar sempre muito de si.
Denissov inclinou-se para lhe beijar a mão e ela ouviu um ruído abafado de soluços, que a perturbou. Pousou os lábios nos seus cabelos hirsutos e emaranhados. No mesmo instante, ouviu-se o frufru precipitado do vestido da condessa, que se aproximava.
- Vassili Dmitritch, muito obrigada pela honra que nos concede - disse ela numa voz comovida, que a Denissov se afigurou severa -, mas a minha filha é tão nova e eu sempre pensei que, como amigo de meu filho, se dirigiria primeiro a mim. Não me teria obrigado, nesse caso, a esta atitude de recusa.
- Condessa - principiou Denissov, de olhos baixos e com uma expressão de quem se sente culpado; quis dizer mais alguma coisa, mas a voz entaramelou-se-lhe.
Natacha não podia vê-lo naquela atitude de sofrimento sem se comover. Rompeu em ruidosos soluços.
- Condessa, procedi mal - pôde dizer por fim Denissov, numa voz entrecortada -, mas, creia-me, tenho uma tal adoração pela sua filha e por toda a sua família que daria duas vidas... - Lançou um olhar à condessa e viu que ela conservava rima expressão severa. - Bom, adeus, adeus, condessa - acrescentou, beijando-lhe a mão, e, sem olhar Natacha, saiu da sala num passo rápido e decidido.
No dia seguinte. Rostov viu partir Denissov, que não quis ficar um só dia mais em Moscovo. Todos os seus amigos o haviam acompanhado a casa dos ciganos, e era-lhe impossível saber como o haviam metido no trenó e como tinha percorrido as três primeiras mudas.
Depois de Denissov partir. Rostov, à espera do dinheiro que o pai não pudera arranjar imediatamente, ficou ainda quinze dias em Moscovo, sem sair de casa, quase sempre entretido com as raparigas nos seus aposentos.
Sónia mostrava-se mais terna e mais afectuosa do que nunca. Parecia querer mostrar-lhe que o dinheiro por ele perdido ao jogo era um acto que ainda lhe despertava maior amor, e Nicolau, pelo seu lado, considerava-se agora indigno dela.
Enchia o álbum das meninas com versos e músicas, e logo que mandou os quarenta e três mil rublos e lhe foi enviado o recibo de Dolokov, abalou, em fins de Novembro, sem se despedir de nenhum dos seus amigos, a fim de reingressar no seu regimento, então na Polónia.