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Guerra e Paz
(volume ii - quarta parte)

Leon Tolstoi

Capítulo IX

Chegaram as festividades do Natal (Pelo Natal, na Rússia, havia o costume de bandos mascarados visitarem amigos e parentes. (N, dos T.), e, à excepção da missa solene, das felicitações rituais e enfadonhas, dos vizinhos e dos criados, dos trajos novos que toda a gente estreara, nada de especial assinalou essa quadra. No entanto, com aquele frio de 2OO abaixo de zero, sem vento, aquele dia de um sol claro, resplandecente, e aquela noite de Inverno picada de estrelas, era impossível não se sentir a necessidade de celebrar a data fosse como fosse.

No terceiro dia das festas, depois do jantar, cada um retirou-se para os seus aposentos. Foi o momento mais enfadonho da jornada. Nicolau, que nessa manhã andara em visita aos amigos da vizinhança, adormecera na sala do divã. O velho conde descansava no seu gabinete. No salão, em tomo da mesa redonda. Sónia copiava um desenho e a condessa fazia uma paciência. Nastásia Ivanovna, o bufão, sentara-se, de cariz triste, ao pé da janela, com duas velhinhas. Natacha entrou na sala, foi direita u Sónia, deitou os olhos ao trabalho que ela tinha entre mãos e acercou-se da mãe, junto do, qual se deixou ficar parada, sem abrir a boca.

- Que andas tu para aí a fazer como uma alma penada? - disse-lhe a mãe - De que precisas? - Preciso «dele».., e já, preciso dele neste mesmo instante - replicou Natacha, os olhos brilhantes e uma expressão muito séria.

A condessa abriu os olhos e fitou a filha atentamente.

- Não olhe para mim, mãe, não olhe para mim, ou ponho-me a chorar imediatamente.

- Senta-te ao pé de mim.

- Mãe é dele que eu preciso. Que ando eu para aqui a fazer, mãe? Suspendeu-se-lhe a voz, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, e para escondê-las deu-se pressa em voltar a cara e sair. Penetrou no seu quarto, hesitou um momento, reflectindo, e dirigiu-se para a dependência, do pessoal. Uma criada idosa repreendia uma moça que acabava de entrar, tiritando de frio, vinda das dependências dos criados.

- Basta, de divertimentos - dizia a velha. - Há tempo para tudo.

- Deixa-a. Kondratievna - interveio Natacha. - Vai, anda, vai. Mavrucha.

Depois de Mavrucha em liberdade. Natacha atravessou o salão e dirigiu-se ao vestíbulo. Um velho e dois lacaios moços jogavam as cartas. Ao vê-la chegar suspenderam a partida e puseram-se de pé.

«Que lhes hei-de eu dar a fazer?», disse Natacha para consigo mesma.

- Vamos. Nikita, fazes favor.

«Onde o hei-de mandar?», murmurou para si mesma.

- Vai à dependência dos criados e traz-me um galo, e tu. Micha, vai buscar-me aveia.

- Não muita aveia? - perguntou Micha, jovial e divertido.

- Vai, vai, avia-te - interveio o velho.

- E tu, Fiador, vai-me buscar greda.

Ao passar pela copa, deu ordem para se preparar o samovar, embora ainda não fossem horas.

O mordomo Foka era o homem mais desabrido de toda a casa. Natacha gostava de manifestar a autoridade que tinha sobre ele. Foka não queria acreditar nos seus ouvidos e foi informar-se se devia obedecer.

- Oh! Estas meninas! - exclamou Foka, fingindo má cara a Natacha.

Ninguém em casa incomodava tanta gente nem dava tanto que fazer como Natacha. Quando via alguém desocupado, logo tratava de lhe ordenar fosse o que fosse. Dir-se-ia procurar experimentar se as pessoas se não zangariam com ela, se não se enfadariam com as ordens que ela dava, mas a verdade é que todos se apressavam a executá-las com muito maior satisfação de que quando obedeciam às ordens de outros.

«Que hei-de eu fazer? Onde é que irei?», perguntava-se ela a si mesma pelo corredor fora.

- Nastásia Ivanovna, que filhos deitarei eu ao mundo? perguntou ao bufão, que vinha ao encontro dela, metido na sua katsaveika (Camisola de mulher e trajo característico cios bobos. (N, dos T.).

- Pulgas, cigarras, grilos - replicou o bufão.

«Meu Deus, meu Deus, sempre a mesma coisa! Onde me hei-de ir meter? Que hei-de eu fazer?» E batendo com os pés no chão, galgou a escada de Vogel, que vivia com a mulher no andar de cima.

Ali estavam as duas preceptoras, na mesa havia pratinhos com uvas secas, alfarrobas e amêndoas. As preceptoras falavam da carestia da vida, comparando os preços de Moscovo com os de Odessa. Natacha sentou-se, e esteve a ouvir a conversa, com ar sério e cismador, e depois levantou-se.

- A ilha de Madagáscar - exclamou. - Ma-da-gás-car - repetiu, destacando as sílabas, e, sem responder a Madame Schoss, que lhe perguntava o que dizia ela, abalou.

Pétia, o irmão, estava também no andar de cima, preparando, com o auxílio do seu velho preceptor, um fogo de artifício que queria queimar nessa noite.

- Pétia! Pétia! - gritou-lhe ela - leva-me às cavalitas até lá baixo.

Pétia veio a ela e ofereceu-lhe as costas. Natacha saltou-lhe para cima, passando-lhe os braços em volta do pescoço. Pétia, cambaleando deu alguns passos com a irmã às cavaleiras.

- Obrigada, é quanto basta.., ilha de Madagáscar - articulou ela, e, pondo os pés no chão, voltou a descer a escada.

Como se tivesse percorrido os seus estados, e, depois de fazer sentir bem a sua autoridade, se sentisse satisfeita com a obediência dos súbditos, sem deixar de reconhecer o enfado de todos, regressou ao salão, pegou numa guitarra, sentou-se num recanto sombrio atrás de um armário, e, pisando as cordas, procurou dedilhar um compasso de que se lembrava e que ouvira na ópera em Petersburgo, na companhia do príncipe André. Para os outros o que ela estava a tocar nada lhes dizia, mas para ela aquelas notas acordavam-lhe muitas recordações. Ela ali estava, atrás do armário, os olhos fitos numa zona de luz que se projectava da porta da copa, escutando-se a si mesma e recordando-se. Toda ela se afundava na evocação do tempo passado.

Sónia, com um copo na mão, atravessou a sala na direcção da copa. Natacha relanceou-lhe um olhar, em que perpassou, igualmente, a fenda da porta entreaberta, e teve a impressão de ter visto já aquela faixa de luz e Sónia passando com um copo na mão. «Sim, exactamente como agora», murmurou ela.

- Sónia, que é isto? - gritou-lhe Natacha, pisando o bordão da guitarra.

- Ah! Estás aí - disse Sónia, estremecendo. Aproximou-se para a ouvir. - Não sei. Talvez A Tempestade, não? - acrescentou timidamente, receando enganar-se.

«Pois bem! Sim, foi assim mesmo que ela estremeceu, foi assim mesmo que se aproximou e que timidamente sorriu da outra vez, quando tudo isto se passou», dizia Natacha. «E então também pensei, como agora, que lhe faltava qualquer coisa.» - Não, não, é o coro dos Aguadeiros, não ouves? - E pôs-se a trautear, de ponta a ponta, todo o motivo, para que Sónia se recordasse. - Aonde ias? - perguntou-lhe.

- Mudar a água do copo. Acabei o meu desenho.

- Tu tens sempre que fazer, mas eu, como vês, para nada tenho jeito. E o Nicolau, onde está ele? - Está a dormir, creio.

- Vai acordá-lo. Sónia - voltou Natacha. - Diz-lhe que venha cantar para aqui.

Natacha continuou agachada no seu canto, perguntando-se a si mesma como podia ter aquilo acontecido, e, sem ser capaz de resolver esse problema, o que, de resto, lhe não dava grande cuidado, transportou-se de novo, em imaginação, ao tempo em que os dois estavam juntos e em que ele a fitava com os seus olhos apaixonados.

«Ali! Que venha o mais depressa possível. Tenho tanto medo que ainda se demore muito! E depois tudo será diferente, estou a envelhecer, é o que é! Já não serei como agora. E quem sabe? Talvez ele chegue hoje, talvez chegue agora mesmo. Quem sabe se já chegou e já lá está em baixo no salão! Quem sabe se já chegou ontem e foi isso que eu esqueci!» Levantou-se, pousou a guitarra e entrou no salão.

Toda a gente da casa, os preceptores, as preceptoras e os hóspedes se sentavam já à mesa do chá. Os criados estavam de pé em volta da mesa, mas em parte alguma o príncipe André, e tudo decorreu como de costume.

- Ali!, aí está ela! - disse Ilia Andreitch ao ver entrar Natacha - Muito bem, senta-te aqui a meu lado - Mas Natacha deteve-se junto da mãe, enquanto, com os olhos, parecia procurar fosse o que fosse.

- Mãe - exclamou. - Dá-mo, dá-mo o mais depressa possível - E de novo lhe custou refrear as lágrimas.

Sentou-se à mesa e ficou a ouvir a conversa das pessoas mais idosas e de Nicolau, que chegou depois dela. «Meu Deus, meu Deus! Sempre as mesmas caras, sempre as mesmas frases, sempre o pai com a chávena na mão a soprar o chá, como todos os dias!», murmurou ela de si para consigo, sentindo-se tomada por uma profunda aversão contra toda aquela gente, nada mais nada menos por todos eles serem iguais todos os dias.

Depois do chá. Nicolau. Sónia e Natacha dirigiram-se à sala do divã, procurando refugiar-se no seu recanto favorito, onde conversavam sempre com a maior intimidade.

Capítulo X

- Não te acontece às vezes pensar - disse Natacha ao irmão, uma vez instalados -, não te acontece pensar que nada mais terás, absolutamente mais nada, que toda a felicidade que podias usufruir já te foi concedida? E isto não é tão triste? - Naturalmente! - volveu ele - Às vezes, quando me sinto feliz, quando toda a gente está alegre em volta de mim, de repente sinto uma espécie de desgosto de tudo e vem-me à ideia que todos temos de morrer. Uma vez, quando estava na tropa, não quis sair a passear, embora a música estivesse a tocar no jardim... Fui tomado por um tédio tal...

- Oh!, sei muito bem o que isso é! Como te compreendo! - acorreu Natacha. - Era ainda muito pequena quando isso aconteceu. Lembras-te? Tinham-me castigado por eu ter comido ameixas. Enquanto todos vocês dançavam, eu fiquei fechada na sala da aula. E o que eu chorava! Nunca me esquecerei desse momento! E tinha pena de vocês também, por mim e por vocês, por todos. E o principal é que não tinha culpa. Lembras-te? - Sim, lembro-me - volveu Nicolau. - Lembro-me de que depois fui ter contigo e quis consolar-te, e, queres saber?, não sabia como. Muito patuscos éramos! Eu tinha nessa altura um boneco e quis oferecer-to. Lembras-te? - E tu lembras-te? - voltou Natacha com um sorriso sonhador. - Muito antes, muito antes, quando nós ainda éramos muito pequeninos e o tio nos chamou ao gabinete. Era ainda na velha casa e estava muito escuro. Entrámos, e que vemos nós? - Um preto - concluiu Nicolau, sorrindo alegremente. Pois então não me havia de lembrar? E ainda hoje não tenho a certeza se era realmente um preto ou se nós o teríamos visto apenas em sonhos ou se nos teriam contado uma história assim.

- Estava muito sujo, lembras-te? E tinha os dentes brancos, e estava ali de pé e nós a olharmos para ele.

- Lembras-te. Sónia? - perguntou Nicolau.

- Sim, sim, eu também me lembro vagamente - interveio Sónia, hesitando.

- Falei deste preto ao pai e à mãe - disse Natacha - e eles disseram-me que nunca tinha havido qualquer preto cá em casa. Mas a verdade é que te lembras disso perfeitamente! - Claro, e lembro-me mesmo dos seus dentes, como se os tivesse diante de mim.

- Que engraçado, dir-se-ia que sonhámos. E é isso que é maravilhoso! - E lembras-te de uma vez, estávamos nós a fazer rebolar ovos no salão, quando de repente entram duas velhas e se põem a andar à roda em cima do tapete. Teria isto acontecido ou não? Lembras-te? Que engraçado era! - Sim, e quando o pai, de peliça azul, deu um tiro na escada principal? Sorridentes, iam fazendo desfilar diante deles não recordações tristes, mas esses quadros poéticos da infância, essas impressões do mais longínquo passado, em que os sonhos se confundem com a realidade. Sónia, como sempre, mantinha-se à margem, se bem que as suas reminiscências fossem comuns. De resto, as suas eram mais pobres, e as que porventura recordava não lhe despertavam na alma as mesmas impressões poéticas. No entanto, já era muito para ela contentar-se com a alegria dos dois e poder vibrar ao mesmo diapasão.

Só interveio na conversa quando eles se puseram a recordar a chegada dela à casa paterna. Sónia contou que Nicolau lhe causara medo ao vê-lo com um bibe atado com cordões e que a ama lhe dissera que ela também seria amarrada assim.

- Pois eu recordo-me de que me contaram que tu nasceras debaixo de uma couve - disse Natacha. - E então não me atrevia a pensar que não fosse verdade, embora me custasse a acreditar.

Nessa altura surgiu na frincha da porta traseira da sala do divã a cabeça de uma criada de quarto.

- Menina, já aí está o galo - disse ela em voz baixa.

- Já não é preciso. Polia, diz que o levem - replicou Natacha.

A certa altura deste colóquio. Dimmler entrou e foi sentar-se diante da harpa, que estava a um canto. Tirou-lhe a capa que a cobria e o instrumento soltou uma nota discordante.

- Eduardo Karlich, toque, se faz favor, o meu nocturno favorito, de Field - exclamou a velha condessa, lá de dentro do salão.

Dimmler deu um acorde, e, voltando-se para os três jovens, disse-lhes: - Que formal está a mocidade! - Sim, estamos a filosofar - volveu Natacha, relanceando-lhe um olhar e prosseguindo na conversa. Falavam agora de sonhos.

Dimmler pôs-se a tocar. Natacha, sem fazer ruído, na ponta dos pés, aproximou-se da mesa, pegou numa vela, trouxe-a consigo e retomou silenciosamente o seu lugar. Na sala, especialmente ao pé do divã onde eles estavam sentados, fazia escuro, mas através das altas janelas entrava a luz prateada da lua cheia, que vinha projectar-se no chão.

- Sabes em que estou a pensar? - perguntou Natacha, em voz surda, aproximando-se de Nicolau e de Sónia, quando Dimmler, acabada a execução da sua peça, dedilhava ligeiramente as cordas da harpa, como a perguntar se devia erguer-se ou tocar outro trecho.- Que quando estamos a evocar as nossas recordações acabamos por nos lembrar do que se passou antes de virmos a este mundo...

- Isso é a metempsicose - disse Sónia, que fora sempre muito estudiosa e tinha presente o que aprendera. - Os Egípcios acreditavam que as nossas almas viveram primitivamente nos corpos dos animais e para eles voltarão depois da nossa morte.

- Pois eu não creio que tenhamos sido animais - replicou Natacha, sempre em voz baixa, embora os sons da harpa se houvessem suspendido. Do que eu tenho a certeza é que fomos anjos, lá não sei onde, e aqui também, e é por isso que nos lembramos de tudo...

- Posso ficar ao pé dos meninos? - perguntou Dimmler, aproximando-se e sentando-se junto deles.

- Se tivéssemos sido anjos, como é que teríamos vindo parar cá tão em baixo? - observou Nicolau. - Não, isso não pode ser. - Porque não? Quem te disse que estamos mais em baixo?...

Como é que eu hei-de saber o que fui anteriormente? - observou Natacha, convicta. - A alma é imortal.., e isso quer dizer que se eu tenho de viver para sempre é que já vivi na eternidade.

- É certo, mas é muito difícil fazermos uma ideia dessa eternidade - interveio Dimmler, que principiara por se juntar ao grupo dos jovens com um sorriso afável, embora um tudo-nada trocista, e agora tomava parte a sério na discussão.

- Porque há-de ser assim tão difícil fazer uma ideia da eternidade? - observou Natacha. - Depois de hoje será amanhã e sempre da mesma maneira por aí adiante; ontem já passou, anteontem também lá vai e é sempre assim...

- Natacha, agora é a tua vez. Canta qualquer coisa para nós ouvirmos - disse a mãe na sala contígua. - Que estão vocês a fazer aí dentro, como se fossem conspiradores? - Oh, mãe, não me apetece! - volveu-lhe Natacha, erguendo-se no entanto.

Ninguém, nem o próprio Dimmler, que já não era criança, desejava interromper aquela conversa e abandonar o recanto da sala do divã, mas Natacha levantara-se e Nicolau fora sentar-se ao cravo. Como era seu costume, colocando-se no meio do salão, no lugar onde a acústica era melhor. Natacha pôs-se a cantar a melodia de que a mãe mais gostava.

Dissera não lhe apetecer cantar, e no entanto há muito o não fazia como naquela noite, e por muito tempo não voltaria a cantar tão bem. O conde Ilia Andreitch, do seu gabinete, onde falava com Mitenka, ouvia-a e tal qual o estudante que morre por brincar finda a lição, ei-lo que se embrulha nas ordens que dá, e por fim acaba por calar-se. Mitenka, de ouvido à escuta também, permanecia de pé diante do conde, calado, sorrindo. Nicolau não tirava os olhos da irmã e respirava quando ela respirava.

Ouvindo-a. Sónia pensava quão diferentes eram uma da outra, ela e a prima, e para si mesma dizia que nunca, nem de longe, seria capaz de exercer uma semelhante fascinação. A velha condessa, a sorrir, melancólica e feliz ao mesmo tempo, de lágrimas a bailar-lhe nos olhos, escutava, pensativa, abanando a cabeça de tempos a tempos. Pensava em Natacha e na sua própria mocidade, e ia dizendo para si mesma haver qualquer coisa de pouco natural e de inquietante naquele casamento da filha com o príncipe André.

Dimmler, sentado perto da condessa, ouvia, de olhos fechados.

- Realmente, condessa - acabou por dizer - está ali um talento europeu. Já nada tem que aprender: aquela sonoridade, aquela doçura, aquela força...

- Oh, faz-me tanto medo, tanto medo esta pequena! - exclamou a condessa, sem reparar com quem falava. O seu instinto maternal dizia-lhe haver em Natacha alguma coisa de excessivo que lhe não permitiria ser feliz. E ainda ela não tinha acabado de cantar apareceu Pétia, todo contente, anunciando que haviam chegado os mascarados, Natacha calou-se imediatamente.

- Tonto! - gritou para o irmão, e precipitou-se para uma cadeira, onde se deixou cair, rompendo em soluços tais que muito tempo decorreu antes que serenasse.

- Não é nada, mãe, não é nada, juro-lhe, foi o Pétia quem me assustou - dizia ela, procurando sorrir, mas as lágrimas continuavam a correr e os soluços embargavam-lhe a voz.

Os criados, disfarçados de ursos, de turcos, de taberneiros, de senhoras, uns temíveis, outros burlescos, entraram, joviais, trazendo consigo o frio lá de fora. Começaram por aparece; timidamente na antecâmara, depois, escondendo-se uns atrás dos outros, irromperam pelo salão; uma vez ali, primeiro acanhados, depois mais à vontade, começaram a cantar, a dançar, a fazer rodas e outros entretenimentos próprios do Natal. A condessa reconhecia-os um por um, ria com os seus disfarces, e, por fim, retirou-se do salão. O conde Andeitch, todo ele sorrisos, ficou na sala, encorajando-os. A juventude desaparecera.

Meia hora mais tarde apareceu, por entre os mascarados que já estavam no salão, uma senhora idosa, de anquinhas: era Nicolau. Pétia estava vestido de turco. Dimmler de palhaço. Natacha de hússar e Sónia de circassiano, com sobrancelhas e bigodes feitos a carvão.

Quando os não mascarados acabaram de se mostrar simuladamente surpresos, fingindo não os reconhecer e tributando-lhes grandes louvores, os jovens, muito orgulhosos dos seus disfarces, que julgavam perfeitos, resolveram ir dali mostrar-se a outras pessoas conhecidas.

Nicolau, que muito desejava dar um passeio na sua troika e levar consigo toda a gente, propôs apresentarem-se mascarados em casa do tio na companhia de uma dezena de criados.

- Então, que ideia é essa de irem maçar o pobre velho? - disse a condessa. - E, além disso, onde é que vocês têm lá espaço para se moverem? Se querem ir a qualquer parte vão a casa dos Meliukov.

A Meliukova era uma viúva, cuja moradia, cheia de filhos de todas as idades, de preceptoras e de preceptores, ficava a umas quatro verstas da propriedade dos Rostov.

- Ora aí está, minha querida, uma boa ideia - interveio o velho conde, todo folgazão. - Esperem, eu também me vou mascarar e saio com vocês. Vão ver como eu vou fazer rir a Pachette.

A condessa, porém, não deixou que o conde fosse com eles: nos últimos dias queixara-se muito da sua perna. Decidiu-se que ele não iria, mas sim as meninas, se Luísa Ivanovna, isto é. Madame Schoss, as acompanhasse. Sónia, embora sempre muito tímida e reservada, foi quem mais insistiu com Madame Schoss para anuir.

O trajo de Sónia era o mais feliz de todos. Os bigodes e as sobrancelhas ficavam-lhe a matar. Todos lhe diziam estar muito bonita e a verdade é que se encontrava numa disposição de espírito pouco vulgar nela, cheia de entusiasmo e de alegria. Uma voz interior dizia-lhe que aquela noite seria decisiva, então ou nunca, e vestida de homem parecia outra pessoa. Luísa Ivanovna acabou por consentir e meia hora depois quatro troikas, com guizos e campainhas, estavam diante da porta de entrada, com os seus patins rangendo sobre a neve.

Natacha foi a primeira a dar a nota de alegria naquela noite de Natal, e essa alegria, comunicando-se de uns aos outros, cresceu, cresceu cada vez mais, até que atingiu o auge quando todas as máscaras apareceram cá fora, ao ar frio da noite, e, chalrando, chamando umas pelas outras, rindo e gritando, se instalaram nos trenós.

Duas das troikas eram trenós de serviço; a terceira era do velho conde e tinha um grande trotão das coudelarias de Orlov atrelado ao meio; a quarta, que era de Nicolau, aos varais centrais tinha o seu pequeno murzelo, de pêlo emplumado. Era o próprio Nicolau, vestido de senhora idosa, com o capote de hússar por cima, quem estava de pé no meio do trenó, com as rédeas na mão.

A noite estava tão clara que ele via brilhar, à luz da Lua, as placas de cobre dos arreios e os olhos dos cavalos, que voltavam as cabeças, medrosos, para os viajantes, agitando-se ruidosamente sob o alpendre obscuro da entrada.

No trenó de Nicolau sentaram-se Natacha. Sónia. Madame Schoss e duas criadas; no do velho conde. Dimmler, a mulher e Pétia; nos demais, os criados mascarados.

- Vai tu à frente. Zakar! - gritou Nicolau ao cocheiro do pai, para assim ter oportunidade de o ultrapassar na estrada.

A troika do velho conde, aquela que transportava Dimmler e o seu grupo, abalou, fazendo ranger os patins, que pareciam colados à neve, e tilintando com todas as suas campainhas.

Os cavalos dos lados comprimiam-se contra os varais, enterrando as patas na neve sólida e brilhante como açúcar. Nicolau abalou atrás da primeira troika, e a seguir à dele partiram as outras, no meio de alaridos e rangidos. De princípio meteram a passo pelo caminho estreito. Enquanto atravessavam o jardim, a sombra das árvores desnudas atravessava-se na estrada e interceptava a luz da Lua, mas, assim que transpuseram os muros, uma planície nevada, reluzente como diamante, com reflexos azulados, descobriu-se, a perder de vista, imóvel e banhada de luar. Primeiro um, depois outro, os trenós da vanguarda foram sacudidos; aos que vinham atrás aconteceu-lhes o mesmo, e rompendo audazmente a profunda serenidade afastaram-se em fila.

- Olha o rasto de uma lebre, outro, outro! - ressoou a voz de Natacha no ar gelado.

- Que noite tão clara. Nicolau! - exclamou Sónia.

Nicolau voltou-se para ela e teve de se debruçar para lhe ver melhor o rosto. Uma carinha nova, encantadora, com uns bigodes e, umas sobrancelhas vincadas a preto, emergia da zibelina e fitava-o à luz do luar, muito próxima e muito distante ao mesmo tempo.

«Onde está a Sónia de outrora?», disse de si para consigo, contemplando-a, sorridente.

- Que tens. Nicolau? - Nada - replicou ele, voltando-se para os cavalos.

Ao chegarem à estrada real, em que, à luz do luar, se viam os sulcos abertos pelos patins dos trenós e os trilhos das parelhas, os próprios cavalos arrebataram as rédeas e aceleraram o andamento. O cavalo da esquerda, a cabeça voltada para fora, dava sacões no bridão. O do meio balançava-se, eriçando as orelhas, como se perguntasse se podia principiar ou se ainda seria cedo. Ao longe, já a uma certa distância, num tropel de campainhas que se afastava, via-se nitidamente, sobre o fundo branco da neve, a troika negra de alçar. Ouviam-se os gritos, as exclamações e as gargalhadas dos mascarados.

- Eh, meus amigos! - gritou Nicolau, segurando as rédeas com uma das mãos e com a outra brandindo o chicote.

E bastava o vento mais vivo que fustigava os rostos e a tensão dos cavalos das estremas, cada vez maior, para se avaliar da rapidez da troika. Nicolau olhou para trás. Os outros trenós lá vinham, entre gritos e rangidos, e ouviam-se as vozes e as chicotadas estimulando os cavalos. O animal do meio balançava, valentemente, sob o arco dos varais, sem pensar em desistir, e disposto, pelo contrário, a ir cada vez mais depressa, desde que lhe pedissem.

Nicolau alcançou a primeira troika. Desciam agora uma ladeira e meteram por um caminho espaçoso, sulcado por trilhos de carruagens abertos num prado ao longo de um rio.

«Onde estamos nós?», perguntou Nicolau aos seus botões. «Naturalmente é o prado Kossoi. Não, não, são sítios novos, que eu nunca vi. Não é o prado Kossoi, não é a colina de Demiane. Só Deus sabe o que é! São sítios novos e mágicos! Enfim, tanto faz!» E, gritando aos cavalos, propôs-se ultrapassar a primeira troika.

Zakar, refreando por instantes os cavalos, voltou para o amo a cara cheia de gelo até às sobrancelhas.

Nicolau lançou a troika a toda a brida; Zakar, de braços estendidos, fez estalar a língua e picou os seus.

- Cuidado, patrão! - gritou-lhe.

Ambas as troikas correram, lado-a-lado, e o galope dos cavalos tomou-se ainda mais largo. Nicolau ganhou terreno. Zakar, sempre com os braços estendidos, fez um gesto com a mão que segurava as rédeas.

- Está enganado, patrão! - gritou-lhe.

Nicolau, com os seus cavalos sempre a galope, ultrapassou Zakar. Os animais salpicavam a cara dos viajantes com uma neve fina e seca, e na troika rival tudo eram gritos e desafios, sombras que passavam a toda a velocidade. Só se ouviam rangidos de patins sobre a neve e vozes de mulher de timbre agudo.

Nicolau refreou os cavalos e olhou em tomo de si. Em volta era sempre a mesma planície feérica, banhada pelo luar e salpicada de estrelas de prata.

«Zakar grita-me que volte à esquerda, mas porque hei-de eu voltar à esquerda?», disse de si para consigo. «Iremos nós, de facto, a casa dos Meliukov? Será para ali Meliukova? Só Deus sabe para onde vamos e só Deus sabe o que fazemos. Seja como for, tudo isto é estranho e maravilhoso!» Voltou-se para dentro do trenó.

- Olha para estas sobrancelhas e estes bigodes todos brancos - disse um daqueles seres estranhos, gentilíssimos e desconhecidos que se sentavam no trenó, precisamente o das sobrancelhas e dos bigodes bem desenhados.

«Aquela parece a Natacha», dizia Nicolau para consigo. «E aquela outra é Madame Schoss, e talvez não seja. E aquele circassiano de bigodes? Esse não sei quem seja, mas sei que gosto dele.» - Não têm frio? - perguntou-lhes.

Não responderam e puseram-se a rir. Dimmler, do trenó da retaguarda, gritou fosse o que fosse, naturalmente muito engraçado, mas não puderam compreender o que ele dizia.

- Sim, sim - replicaram umas vozes risonhas.

Entretanto, eis que surge uma floresta encantada, com grandes sombras movediças, cintilações de diamante, degraus de mármore, e depois os telhados de prata de um palácio mágico e os guinchos finos de uma fera. «Se esta é a aldeia de Meliukova, ainda é mais estranho que, tendo nós andado à aventura, pudéssemos chegar a porto seguro», murmurou para si mesmo Nicolau.

Era, realmente. Meliukova, e já se viam criados e lacaios acudindo à entrada de risonhos semblantes e velas acesas.

- Quem são? - perguntaram do alto da escada.

- Mascarados do conde; já conheci os cavalos - responderam outras vozes.

Capítulo XI

Pelagueia Danilovna Meliukova, uma robusta matrona, de lunetas e capa a flutuar, estava sentada no salão rodeada das filhas, a quem procurava distrair. Fundiam cera e observavam no escuro as figuras que se iam formando (Uma das «adivinhas» características do Natal russo. (N, dos T.) quando ressoaram no vestíbulo os passos e as vozes dos recém-chegados.

Os hússares, as senhoras, as bruxas, os palhaços, os ursos, tossindo e limpando os rostos cobertos de gelo, penetraram no salão, onde se acenderam as luzes apressadamente. Dimmler, de palhaço, e Nicolau, de senhora idosa, abriram o baile. Os mascarados, acolhidos pelo alarido jovial das crianças, escondendo a cara e falando em falsete, cumprimentavam a dona da casa e iam encostar-se em fila contra as paredes.

- Oh, é impossível reconhecê-los! Espera, esta é a Natacha! Olhem para o ar dela! A sério, lembra-me não sei quem. E que bem o Eduardo Karlich! Não era capaz de o reconhecer. E como ele dança! Ob., meu Deus!, um circassiano! Que bem a Soniuchka! este quem é? Que divertido! Nikita. Vania, retirem as mesas! nós que estávamos para aqui tão sossegados! - Ah!, ah!, ali! Um hússar! Parece um miúdo. E os pés dele!... Não posso ver... - dizia alguém.

Natacha, a predilecta dos jovens Meliukov, desapareceu com eles nos aposentos das traseiras. Pediu que lhe arranjassem uma toalha e alguns roupões e fatos de homem, que uns braços nus recolheram, através da porta entreaberta, das mãos dos lacaios.

Dez minutos depois toda a gente nova da família Meliukov vinha juntar-se às outras máscaras.

Pelagueia Danilovna, que dera ordem para se arranjar espaço para as visitas e mandara preparar uma refeição, ia de um lado para o outro, as lunetas encavalitadas no nariz, com o seu sorriso, discreto, pelo meio de toda aquela gente mascarada, olhando um por um cara a cara e sem conseguir identificar fosse quem fosse. Não só não reconhecia os Rostov e Dimmler, mas também as suas próprias filhas, mascaradas com roupões de homem e uniformes sortidos.

- E aquela, quem é aquela? - perguntava à preceptora, apontando para a sua própria filha, vestida de tártaro de Kazan. - Parece-me um dos Rostov. E o senhor hússar, a que regimento pertence? - perguntou a Natacha. - A turca dêem-lhe geleia de fruta - dizia ao criado de mesa, a servir de roda. - A religião não lhe proíbe de comer...

Por vezes, ao ver os passos estranhos e patuscos que os dançarinos executavam, pois, uma vez persuadidos de que ninguém os reconhecia assim mascarados, sentiam-se à vontade para fazer o que lhes apetecesse. Pelagueia Danilovna escondia a cara no lenço de assoar, e toda a sua possante corpulência estremecia, abalada por um irresistível gargalhar de velha matrona.

- Minha Sacha! Eh!, minha Sacha! - exclamava ela. Depois das danças e dos coros russos. Pelagueia Danilovna reuniu todos os criados e todos os amos numa grande roda. Trouxeram um anel, um fio e um rublo e principiaram a jogar.

Ao fim de uma hora todos os trajos estavam amarrotados e desfeitos, as sobrancelhas e os bigodes pintados a rolha queimada haviam desaparecido das caras juvenis e animadas, reluzentes de suor. Pelagueia Danilovna pôde finalmente reconhecer os que estavam mascarados, soltando grandes exclamações perante a perfeição dos disfarces, principalmente os das meninas, e agradecendo a toda a gente a alegria que lhe tinham proporcionado. A ceia dos amos foi servida no salão e na sala comeram os criados.

- É terrível ouvir a sina na estufa! - exclamou uma velha criada no fim da refeição.

- Porquê? - perguntou a filha mais velha dos Meliukov. - A menina não seria capaz, é preciso ter muita coragem... - Pois eu era - disse Sónia.

- Conte-nos o que aconteceu a essa menina - pediu a segunda filha dos Meliukov.

- Um dia foi lá uma menina - contou a velha criada. Tinha levado consigo um galo, dois talheres, tudo o que era preciso. Sentou-se. E assim esteve, por muito tempo, à espera. De repente, eis que chega uma carruagem.., era um trenó, com as suas campainhas e os seus guizos a tilintar. A menina põe-se à escuta: uma pessoa chegava. Essa pessoa entrou, tinha a figura de um homem, dir-se-ia um oficial a valer. Chegou e sentou-se, diante da menina, em frente do segundo talher.

- Oh! Oh! - exclamou Natacha, de olhos arregalados, cheia de medo.

- E então, falou? - Pois, como se fosse um homem qualquer, naturalmente. E pôs-se a contar-lhe muita coisa. E ela, a menina, tinha de conversar com ele até ao cantar do galo. Mas teve tanto medo que escondeu a cara nas mãos E então ele agarrou-a. Felizmente, as criadas vieram acudir-lhe... (Outra «adivinha» do Natal. (N, dos T.) - Para que estão a assustar as meninas? - repreendeu Pelagueia Danilovna.

- Mãe, mas tu própria tiraste a sina - disse-lhe a filha.

- E também se tira a sina no celeiro? - perguntou Sónia.

- Pois, agora mesmo, quem quiser pode ir ao celeiro e pôr-se à espera. Escuta. Se ouvir umas marteladas, se baterem, é mau sinal, mas se ouvir o milho a cair. é bom, e também acontece.

- Mãe, conta-nos o que uma vez te aconteceu no celeiro.

Pelagueia Danilovna sorriu.

- Ah, de nada me lembro. - tornou ela. - Haverá algum de vocês que lá queira ir? - Eu, e,. Pelagueia Danilovna, deixe-me ir - disse Sónia, - Pois sim, se não tens medo.

- Luísa Ivanovna, dá licença? - pediu Sónia.

Ou quando se jogava às prendas, ou quando se conversava como naquele momento. Nicolau não tirava os olhos de Sónia, a quem olhava como pela primeira vez. Afigurava-se-lhe, ao vê-la com aquele trajo e com aqueles bigodes pintados, nunca a ter visto antes. Efectivamente, naquela noite. Sónia estava alegre, bonita e muito animada. Natacha também nunca a vira assim.

«E ali está como ela é, eu não passo de um imbecil! », pensava ele observando-lhe os olhos brilhantes, o sorriso feliz e vitorioso - o sorriso que lhe desenhava nas faces duas covinhas por debaixo dos bigodes pintados -, coisas em que não reparara até aí.

- De nada tenho medo. - disse ela - Já, se quiserem. - E levantou-se.

Explicaram-lhe onde ficava o celeiro e disseram-lhe que ela tinha de ficar calada, a escutar, e deram-lhe a peliça. Embrulhou-se nela, passando-a pela cabeça, ao mesmo tempo que relanceava os olhos a Nicolau.

«Que encantadora pequena!», dizia ele de si para consigo. «Em que tenho estado a pensar até agora?» Sónia saiu para o corredor, na intenção de se dirigir ao celeiro. Nicolau deu-se pressa em desaparecer pela porta principal, alegando haver ali muito calor. Realmente lá dentro sufocava-se, tanta era a gente ali acumulada.

Lá fora continuava o mesmo frio e a mesma imobilidade, havia a mesma Lua, apenas um pouco mais brilhante ainda. Tão intensa era a claridade e tantas as chispas de luz que se desprendiam da neve que nem apetecia erguer os olhos para a abóbada celeste, onde cintilavam as estrelas. O céu estava negro e triste, mas a terra, pelo contrário, toda era alegria.

«Que pateta! Para que esperei eu até agora?», pensava Nicolau. Desceu a escada e contornou a casa pela alameda que conduzia à porta de serviço. Sabia que Sónia tinha de passar por ali. A meio do caminho havia uma pilha de toros de madeira, coberta de neve, que ensombrava a alameda. Do outro lado, sobre a neve e o caminho que conduzia ao celeiro, projectava-se a sombra das velhas tílias desnudadas. As paredes do celeiro e o telhado da construção, alvos de neve, que dir-se-ia talhados em pedras preciosas, chispavam à luz do luar. Uma árvore estalou na mata e tudo de novo recaiu no silêncio. A Rostov afigurava-se-lhe não ser ar que os seus pulmões respiravam, mas os poderosos eflúvios da eterna mocidade e da eterna alegria.

Pela escada de serviço descia alguém e os passos soavam mais fortes no último degrau, coberto de neve. Depois ouviu-se a voz da velha criada.

- Sempre a direito, sempre a direito, por este caminho, menina. Mas não olhe para trás.

- Não tenho medo - entoou a voz de Sónia, e no caminho, cada vez mais perto de Nicolau, rangeram os seus sapatinhos leves, aproximando-se.

Caminhava toda embuçada na peliça. Só viu Nicolau a dois passos dele. E, ao vê-lo, também o irmão de Natacha foi para Sónia uma pessoa completamente diferente da que ela conhecia e a quem sempre temera um pouco. Vestido de mulher, tinha os cabelos desgrenhados e nos lábios um sorriso feliz como ela nunca lhe vira. Sónia correu para ele.

«Parece outra e no entanto é a mesma», murmurou Nicolau de si para consigo ao fitar-lhe o rosto banhado na luz do luar. Tacteou-lhe a peliça que lhe cobria a cabeça, apertou-a nos braços, estreitou-a contra si e beijou-lhe os lábios, que cheiravam a rolha queimada. Sónia, por sua vez, beijou-o também na boca e, libertando as mãos, pegou-lhe na cara com as palmas nas duas faces.

- Sónia!...

- Nicolau!... - foi tudo quanto disseram. Correram ao celeiro e regressaram a casa entrando cada um pela porta por onde haviam saído.

Capítulo XII

Quando abalaram de casa de Pelagueia Danilovna. Natacha, que sempre via e notava tudo, organizou as coisas de tal modo que tanto ela como Luísa 1vanovna ficaram no trenó de Dimmler, indo Sónia para o de Nicolau e das criadas.

Este, sem pensar já em tomar a dianteira aos outros, manteve os seus cavalos num andamento moderado. A cada momento contemplava Sónia à estranha luz do luar, como que procurando descobrir àquela luz cambiante, por debaixo das sobrancelhas e dos bigodes mascarrados, a Sónia de outrora e a de hoje, a Sónia de quem estava firmemente resolvido a não mais se separar. Olhava-a fixamente, e, ao vê-la sempre a mesma e sempre diferente, lembrava-se do cheiro a rolha queimada que ela tinha nos lábios, e respirava a plenos pulmões o ar gelado. Diante da paisagem que lhe fugia debaixo dos olhos e do céu cintilante sentia-se de novo num reino encantado.

- Sónia, estás bem? - perguntava-lhe de vez em quando.

- Estou - replicava ela. - E tu? No meio do caminho. Nicolau passou as rédeas ao cocheiro, apeou-se do trenó, correu para o de Natacha, e trepou para cima dos patins, - Natacha - segredou-lhe em francês.- Queres saber? Resolvi-me a respeito de Sónia.

- Disseste-lhe?! - exclamou Natacha, de súbito, radiante. - Oh, não sei o que pareces com esses bigodes postiços! Natacha, estás contente? - Estou, estou contente, muito contente! Principiava a zangar-me contigo. Nada te dizia, mas achava que procedias mal para com ela. Tem tão bom coração. Nicolau! Estou tão contente! Eu sou má muitas vezes; confesso-te, no entanto, que chegava a ter vergonha de ser feliz sozinha, sem ela - continuou Natacha. - Agora estou contente. Anda, corre para o pé dela.

- Não, espera... Estás tão engraçada! - voltou Nicolau, sem deixar de a fitar e descobrindo nela, nos seus traços, fosse o que fosse de novo, de inusitado, qualquer coisa de maravilhoso e de terno que nunca lhe vira antes. - Não achas. Natacha, que tudo isto parece magia? - Parece - replicou ela -, mas procedeste muito bem.

«Se eu alguma vez a tivesse visto como hoje», dizia Nicolau de si para consigo, «há muito me teria aconselhado com ela, e tudo teria corrido bem.» - Então, estás contente e achas que fiz bem? - Oh, sim, fizeste. Ainda há pouco tive uma discussão com a mãe por tua causa. A mãe dizia que ela andava atrás de ti. Como se pode dizer uma coisa dessas? Quase me zanguei com ela. Nunca consentirei que digam nem que pensem mal dela. É a bondade e o bom senso em pessoa.

- Então achas que fiz bem - repetiu Nicolau, observando mais uma vez a expressão da irmã, como para ter a certeza de que ela estava a falar com sinceridade, e, fazendo ranger as botas, saltou do trenó de Natacha para regressar ao seu. Lá estava o mesmo circassiano, feliz e risonho, com os seus grandes bigodes e os seus olhos brilhantes que o fitavam do fundo do capuz de zibelina. E aquele circassiano era nem mais nem menos que Sónia e aquela Sónia iria ser, com certeza, mais tarde ou mais cedo, a sua amantíssima e felicíssima mulher.

Chegaram, e, depois de terem contado à condessa o que se passara em casa dos Meliukov, foram para a cama. Enquanto se despiam, ainda de bigodes, foram conversando das suas venturosas vidas. Falaram do seu futuro de mulheres casadas, da boa harmonia do casal, da felicidade que as aguardava. Na mesa de Natacha estavam ainda os espelhos que Duniacha ali pusera na véspera.

- Quando chegará esse dia? Receio tanto que nunca chegue... Ah!, seria bom de mais! - exclamou Natacha, levantando-se e abeirando-se dos espelhos.

- Senta-te. Natacha, talvez o vejas - disse Sónia. Natacha acendeu as velas e sentou-se.

- Estou a ver uma pessoa de bigodes - murmurou ela, que acabava de descobrir a sua própria imagem.

- Não faça troça, menina - respondeu Duniacha.

Com o auxílio de Sónia e da criada de quarto. Natacha conseguiu a boa posição do espelho. Ficou muito séria e calada. E assim esteve por muito tempo sentada no mesmo lugar com os olhos na série infinita das velas multiplicando-se pelos espelhos fora sempre à espera de ver reflectido no último, onde tudo se misturava e confundia, como rezava a lenda, quer um caixão, quer ele, o príncipe André. Por muito que quisesse, contudo, descobrir numa sombrazinha a cara de um homem ou um caixão, o certo é que não viu coisa alguma. Começou a pestanejar e acabou por afastar-se dos espelhos.

- Porque será que as outras pessoas vêem e só eu não distingo coisa alguma? - disse ela. - Vem cá. Sónia, senta-te aqui no meu lugar. Hoje tem de ser, sem falta... Ao menos faz isso por mim... Tenho tanto medo hoje! Sónia sentou-se diante do espelho, colocou-o segundo o preceito e pôs-se a olhar.

- Sofia Alexandrovna tem de ver, sem falta - murmurou Duniacha em surdina. - As meninas também estão sempre a rir-se...

Sónia ouviu estas palavras e a resposta ciciada de Natacha.

- Sim, tenho a certeza de que ela o há-de ver. Já no ano passado viu qualquer coisa.

Durante dois ou três minutos as meninas conservaram-se caladas.

- Tem de ser! - acrescentou Natacha em voz surda, sem concluir o seu pensamento. De súbito. Sónia repelira o espelho e escondia a cara nas mãos.

- Ai. Natacha! - exclamou ela.

- Viste? Viste? Que viste? - acudiu Natacha, segurando o espelho, que ia cair.

Sónia nada vira. Ia levantar-se para descansar a vista no momento em que Natacha murmurava o seu «Tem de ser!!!» Não queria ser uma decepção para as duas, mas estava cansada daquela postura.

Nem ela própria sabia ao certo como e porque gritara e também porque escondera a cara entre as mãos.

- Viste-o, a ele? - perguntou Natacha, pegando-lhe nas mãos.

- Sim, espera.., sim, foi ele quem vi - respondeu Sónia, involuntariamente, sem saber a quem Natacha se referia, e se o ele de Natacha significava Nicolau ou André.

«E porque não hei-de dizer que vi? Já muitas outras viram. Quem será capaz de me provar que vi ou não vi?», pensava ela.

- Sim, vi-o - disse Sónia.

- Como? Como? De pé ou sentado? - Isto é, eu vi-o... Primeiro nada se via, e depois, de repente, lá estava ele estendido.

- O André? Está doente? - perguntou Natacha, fitando Sónia, de olhos assustados.

- Não, pelo contrário, pelo contrário, estava alegre, e voltou-se para mim. - E ao dizer isto afigurava-se-lhe ter visto realmente o que dizia.

- E depois. Sónia ...

- Não se via bem... Era qualquer coisa azul e vermelha...

- Sónia! Quando voltará ele? Quando o tornarei a ver? Meu Deus, tenho receio por ele e por mim! Tudo me mete medo... Sem responder às palavras com que Sónia procurava consolá-la, deitou-se e já as luzes estavam apagadas há muito e ainda ela continuava estendida na cama, imóvel, os olhos muito abertos, fitando o frio luar através das vidraças cobertas de geada.

Capítulo XIII

Pouco tempo depois do Natal. Nicolau falou à mãe no seu amor por Sónia e na sua resolução de casar com ela. A condessa, que de há muito observava os dois e já esperava aquela confidência, ouviu-o calada até ao fim. Depois volveu-lhe que estava na sua mão casar-se com quem quisesse, mas que nem ela nem o pai jamais consentiriam naquele enlace. Foi a primeira vez na sua vida que Nicolau viu a mãe descontente com ele e disposta a não transigir por muito que lhe quisesse. Friamente, e sem olhar para ele, mandou chamar o marido. Quando este chegou, em poucas palavras, muito serena, na presença de Nicolau, tentou fazer-lhe compreender do que se tratava, mas acabou por não poder reprimir-se: despeitada, rompeu a chorar, saindo da sala. O velho conde pôs-se a repreender Nicolau num tom hesitante, pedindo-lhe que renunciasse ao seu projecto. O filho replicou-lhe não poder retirar a palavra dada, e o pai, visivelmente comovido e suspirando, deu-se pressa em interromper a discussão abalando ao encontro da condessa. Sempre que se via diante do filho, o conde, lembrando-se da má situação da sua casa, sentia-se culpado para com ele. Efectivamente não tinha o direito de lhe querer mal por ele haver recusado casar com uma rica herdeira, preferindo Sónia, menina sem dote. A verdade é que se ele não tivesse dilapidado a fortuna, que melhor esposa poderia desejar Nicolau? Se havia um culpado era ele, ele e o Mitenka, com os seus hábitos incorrigíveis.

Nem o pai nem a mãe voltaram a trocar palavra com o filho sobre o assunto. Alguns dias depois, porém, a condessa mandou chamar Sónia e com uma crueldade que nem a própria rapariga nem ela própria, condessa, podiam prever, acusou a sobrinha de haver seduzido o filho e de ser uma ingrata. Sónia, calada e de olhos baixos, ouviu as duras palavras da condessa sem compreender o que exigiam dela. Estava pronta a tudo sacrificar pelos seus benfeitores. A ideia do sacrifício não lhe era estranha, mas no presente caso não sabia a quem queriam vê-la sacrificada. Se lhe era impossível deixar de amar a condessa e toda a família Rostov, também não podia esquecer Nicolau e ignorar que a felicidade dele dependia do seu amor. Ficou calada e triste, sem responder fosse o que fosse. Nicolau, não podendo suportar por mais tempo a situação, teve uma conversa com a mãe. Principiou por pedir-lhe que lhes perdoasse, a Sónia e ele, e consentisse no casamento, ameaçando-a em seguida de que casaria imediatamente com Sónia em segredo caso a viessem a perseguir.

A condessa, com uma frieza que o filho lhe não conhecia, respondeu-lhe que ele era maior e que se o príncipe André ia casar-se sem o consentimento do pai também ele o podia fazer; no entanto ela é que nunca reconheceria aquela «intriguista,, por sua filha.

Indignado pela palavra «intriguista». Nicolau ergueu a voz, disse à mãe nunca ter pensado que ela fosse capaz de o obrigar a vender o coração, e que se essa era a sua vontade, seria aquela a última vez que lhe falava... Não teve tempo, porém, de pronunciar a palavra decisiva, que a mãe aguardava com pavor, a julgar pela expressão do rosto, palavra essa que naturalmente teria ficado entre os dois como qualquer coisa inesquecível. Não pôde concluir porque Natacha, pálida e séria, aparecera no limiar da porta. Ouvira tudo.

- Nikolenka, não digas tolices! Cala-te, cala-te! Peço que te cales!... - gritou quase, para abafar o ruído da voz do irmão. - Mãe, minha querida mãe, não é isso.., mãezinha que- rida! - implorou da condessa, a qual, à beira de um rompimento definitivo com o filho, olhava para ele apavorada, embora sem querer nem poder ceder, obstinada que estava, mercê da própria luta.

- Nikolenka, eu explico tudo, vai-te embora; e a mãe, ouça, ouça, querida mãezinha.

Estas palavras, sem qualquer sentido, deram o resultado desejado.

A condessa, soluçando, escondeu o rosto no colo da filha, enquanto Nicolau se levantava, de cabeça entre as mãos, e saía da sala.

Natacha, prosseguindo na sua obra de reconciliação, conseguiu que a mãe prometesse a Nicolau deixar Sónia em paz desde que ele se comprometesse a não tomar qualquer atitude sem o conhecimento dos pais.

Na firme intenção de abandonar a vida militar uma vez tudo em ordem no seu regimento, para, de regresso a casa, desposar Sónia. Nicolau, triste e apoquentado com a ideia do seu desacordo com, os pais, embora, segundo supunha, apaixonadíssimo, abalou para a tropa no princípio de Janeiro.

Depois da partida de Nicolau a casa de Rostov ficou mais triste do que nunca. A condessa, abalada por tantas comoções, caiu de cama.

Se a ausência de Nicolau era um motivo de sofrimento para Sónia, também sofria, e muito mais, com os modos hostis que a condessa não podia esconder para com ela. Grande era o embaraço do conde, preocupado com o mau aspecto da sua situação financeira, a pedir enérgicas medidas. Tornava-se inadiável vender a casa de Moscovo e a propriedade nas imediações da capital. Para isso tinha de deslocar-se àquela cidade, mas o estado de saúde da condessa obrigava-o a adiar consecutivamente a viagem.

Natacha, que principiara por aceitar sem dificuldade e até com alegria a separação do noivo, tornava-se agora de dia para dia mais nervosa e impaciente. A ideia de que o tempo ia passando desperdiçado, quando ela o teria sabido aproveitar tão bem com a sua mocidade, tornara-se-lhe um tormento de todos os instantes. A maior parte das vezes as cartas de André irritavam-na. Ofendia-a pensar que enquanto ela levava o tempo a lembrar-se dele, por seu lado, ele, numa vida perfeitamente normal, via novas terras e conhecia novas gentes que o interessavam. Quanto mais pormenorizadas e cativantes as suas cartas mais ela se sentia despeitada. Ao escrever-lhe, não o fazia com prazer, era como se cumprisse uma obrigação, obrigação que lhe soava a falso. Não encontrava que dizer-lhe, pois era-lhe impossível exprimir por palavras a milésima parte do que estava habituada a dizer de viva voz, com o sorriso, com o olhar. As cartas que lhe escrevia eram monótonas, secas, cartas clássicas, a que ela própria não atribuía a mínima importância, e cuja ortografia a mãe se encarregava de corrigir ainda no rascunho.

A condessa continuava a gozar de pouca saúde. A viagem a Moscovo ia sendo adiada. No entanto era preciso mandar fazer o enxoval e vender a casa, além de que o príncipe André devia ir à capital, onde o príncipe Nicolau Andreivitch passava o Inverno. Natacha estava até convencida de que ele já estaria em Moscovo. Eis porque a condessa ficou na aldeia e o conde, acompanhado de Sónia e Natacha, partiu para a cidade no fim de Janeiro.

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